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Escadarias de Nova York

31 de janeiro de 2014 11

As escadarias da Grand Station estão sempre tomadas de gente. São escadarias belíssimas, onde Kevin Costner segurou o carrinho de bebê que despencava degraus abaixo durante o célebre tiroteio de Os Intocáveis. Uma sequência forte, que mais forte se tornou por ser a homenagem de Brian de Palma a uma das mais dramáticas e poderosas cenas da história do cinema, filmada na escadaria Odessa, em O Couraçado Potemkin, de Eisenstein — se você não puder ver o filme, veja a cena no YouTube.

Pois essas belíssimas escadarias nova-iorquinas, como disse, estão sempre obstruídas por turistas tirando fotos e filmando com seus celulares, e, entre eles, quase tantos quantos são os asiáticos, os brasileiros. Há brasileiros à mancheia na Big Apple. Os brasileiros fluem e flanam por Nova York porque aqui é o centro do mundo, porque a cidade é linda, porque a diversão grassa pelas esquinas e, sobretudo, porque tudo é muito mais barato nos Estados Unidos do que no Brasil. Tudo. Roupas, carros, eletrônicos e outros que tais custam um terço do preço cobrado na terra de Dilma e Maria Casadevall. Um terço, por Deus.

Estão nos roubando. Brasileiros nos Estados Unidos não são como brasileiros no Brasil. Por aqui, eles são mais silenciosos, mais respeitadores. Mais civilizados. E esse é o grande trunfo dos Estados Unidos e das grandes democracias ocidentais: o estágio avançado da civilização. Só nas democracias ocidentais alcançou-se um nível razoável de respeito aos direitos humanos, à diversidade, à igualdade racial, à isonomia de gêneros. À justiça, enfim.

E isso foi alcançado não graças ao dinheiro; graças à cultura. Pegue a Alemanha. A Alemanha foi destruída materialmente várias vezes na sua história. Não apenas nas duas guerras mundiais, também pela peste e pela Guerra dos 30 Anos. Essa guerra eliminou mais da metade da população da Alemanha. Algumas vilas simplesmente deixaram de existir, quando o conflito terminou, e no meio do século 17 o reino restou dividido em mais de uma centena de principados. Mas a Alemanha se reergueu. A cada revés, se reergueu.

Não conseguiu tais façanhas por dispor de riquezas naturais cobiçadas, como o petróleo dos países árabes, nem por ser tão grande e populosa que cada movimento seu faz o mundo estremecer, como a Índia e a China. Não. O bem mais valioso que a Alemanha tem é a cultura do seu povo. Os Estados Unidos, da mesma forma. Não é porque os Estados Unidos movimentam um quarto da economia mundial que vão se recuperar da crise econômica — e eles vão. É porque, nos Estados Unidos, bem como nas outras democracias ocidentais tradicionais, o povo foi educado no respeito à Justiça e às instituições. O povo acredita no sistema.

Os brasileiros têm dinheiro. Gastam muito aqui e bem mais no Brasil. Mas não é o dinheiro que vai resolver os nossos problemas. O dinheiro nunca os resolveu. Dinheiro você ganha hoje e pode perder amanhã. Dinheiro pode ser roubado, como nos roubam aí, a cada pão & leite que compramos no mercado. Mas certos bens intangíveis, como a sensação de voltar aos tempos da Lei Seca quando você descer os degraus da Grand Station, ou a lembrança de uma cena compassiva de um filme de Eisenstein, isso ninguém vai lhe tirar.

Comentários (11)

  • Diego diz: 31 de janeiro de 2014

    Prezado David, tu tens toda a razão. Alta cultura é um ativo fundamental de uma sociedade, de um povo. O Brasil pode até melhorar nesse ou naquele aspecto, em coisas pontuais. Mas será uma melhora apenas na superficialidade. Quando falamos de um efetivo desenvolvimento da sociedade, o furo é mais embaixo. Não há valores aqui. Ou se há, são péssimos: jeitinhos, espertezas, “leis de Gerson”. Educação moral e educação pelos clássicos são coisas inexistentes aqui. Querem fazer algo novo e inventar a roda, uma “pedagogia alternativa”, desenvolvimento de “senso crítico” (que de crítico não tem nada, pois é só alienante), como se tudo isso fosse funcionar. Sejamos mais humildes, seguindo o processo daqueles povos que tiveram sucesso.

  • Fernando diz: 31 de janeiro de 2014

    Poxa David,sou leitor assíduo de teus textos na ZH mas francamente,essa tua “babação” pelos EUA já tá demais..eles tem trilhoes de defeitos como país e tu dizendo q lá o é muito bom e isso e aquilo..o país dos mais racistas do mundo…menos né..

  • Tiago Lowell diz: 31 de janeiro de 2014

    Desculpa ser chato, mas as escadarias do filme sao em Chicago , na Union Station,
    Abracos

  • Larry Jr diz: 31 de janeiro de 2014

    Muito bom o seu comentario David, eu concordo com tudo o que voce disse anteriormente eu me atreveria a acrescentar um pequeno item, o TEMOR, o medo de perder a liberdade(se cometer algo errado), o medo de ser multado, ou seja nao temos aqui a nocao de impunidade que eh bem arraigada ao nosso querido Brasil.

  • Marco diz: 31 de janeiro de 2014

    David, cuidado com essa história de ficar elogiando países capitalistas, especialmente o “Grande Satã” do Norte. Que história é essa de pregar o respeito à Justiça e às instituições? Em Terraae Brasilis o pensamento dominante (e que querem transformar em único) é: contrato só se respeita se me for favorável, decisão judicial só vale se me beneficiar e se eu quiser destruir o que é dos outros, a polícia que trate de ficar bem longe. Olha que a patrulha guevarista te pega, David!

  • MARCELO INEU diz: 31 de janeiro de 2014

    FALOU TUDO DAVID E TROCANDO EM MIÚDOS: O BRASIL NUNCA VAI MUDAR, PORQUE A CULTURA ESTABELECIDA HÁ 500 ANOS ESTÁ ENCRUSTADA. É RELAXAR E GOZAR AS COISAS BOAS DAQUI. ABRAÇO.

  • Bill diz: 31 de janeiro de 2014

    Grand Central Terminal, e o estacao de trens( esta que se refere o texto), Grand Central Station, e o predio do U.S Post Office

  • Machiavellirs diz: 31 de janeiro de 2014

    A CORAGEM

    Para Aristóteles “a coragem é a primeira das qualidades humanas porque garante todas as outras”.

    Com base nessa máxima, resolvi procurar nos alfarrábios da vida alguém – não importa se verdade ou ficção — que pudesse ser classificado como possuidor da maior coragem, ou seja, alguém que pudesse ser o exemplo da coragem personificada.

    Na busca, tirando Cristo, mártires e outros exemplos especiais, aquele que mais me impressionou foi o Ulisses do Homero.

    Pois o Ulisses – resumindo sua história -, depois da Guerra de Troia, que se estendeu por dez longos anos, estava louco de vontade de voltar para Ítaca, sua pátria, a fim de continuar o seu casamento cheio de paz e harmonia com Penélope, o grande amor da sua vida.

    Na viagem de retorno à Ítaca, Ulisses resolveu atracar o seu barco numa ilha paradisíaca, cuja dona era uma deusa chamada Calipso que, aliás, era maravilhosa de cabo a rabo, como se costuma dizer.

    Conversa daqui, conversa dali, a deusa Calipso acaba se apaixonando por Ulisses. Naquela época não era incomum de se ver o amor de uma deusa por um humano bem nascido, se é que me entendem.

    Acontece que o Ulisses estava focado na Penélope, ou seja, queria voltar para os braços dela e para o aconchego do seu lar.

    Acontece que as deusas, maioria das vezes, não se deixam sensibilizar pelas paixões humanas. Elas acham um saco isso! Na realidade as deusas adoram satisfazer seus próprios desejos porque é para esse fim que elas existem.

    - Ulisses – disse-lhe a deusa – fica comigo! Vou te fazer o homem mais feliz do mundo. Além disso, te darei a imortalidade e a eterna juventude…

    - Não! Obrigado, minha deusa! Prefiro morrer ao lado de Penélope! – acho que é isso que o Ulisses deve ter dito para a Calipso.

    Lógico que a Calipso não iria se render à vontade do Ulisses. Mas acontece que Zeus estava de olho no assunto. E Zeus chama Hermes que era seu mensageiro oficial e lhe diz:

    “Hermes – já estás habituado a servir-me nas minhas mensagens – dize a Calipso, de tranças bem-feitas, nosso propósito irrevogável de à pátria o divino Odisseu voltar logo. Mas nenhum deus lhe fará companhia, ou qualquer dos humanos…” (Odisseia, Canto V, 20 e 30).

    E Hermes foi até a ilha de Calipso e deu o recado de Zeus à dita. E recado de Zeus deveria ser cumprido sem maiores delongas. Se não fosse, vinha chumbo grosso.

    E, assim, Ulisses continuou sua viagem de retorno ao peito de sua amada Penélope.

    Lógico que a história de Ulisses é grande e maravilhosa. Certamente que ela merecerá outros enfoques de minha parte. Mas o enfoque, agora, que eu queria dar era exatamente o da coragem de Ulisses.

    Ora, um humano trocar a imortalidade e a fonte da juventude pela mortalidade e pelos abraços de seu grande amor, tem ou não tem que ser corajoso de marca maior?

    Veja mais em: http://machiavellirs.blogspot.com.br/

  • Gabriel diz: 31 de janeiro de 2014

    Meu Deus, quanta ignorância. A cena do carrinho de bebê foi filmada na Union Station, em Chicago. Credo.

  • Rubens diz: 1 de fevereiro de 2014

    Esta cena é na estação de Chicago e nao em NY. Tb já cometi este erro.

  • MARRETA diz: 3 de fevereiro de 2014

    “O povo acredita no sistema.” Esse é o diferencial. No colapso das Torres Gêmeas, o execrado G.W. Bush dirigiu-se aos novaiorquinos dizendo: “sigamos nossa rotina.” E o povo o levou a sério. Tão a sério quanto o brasileiro quando ouve nossa presidentA. Quando ela diz:” os gastos da Copa não serão superfaturados. Eu garanto.” Todo mundo acredita. E tem gente que quer criticar os americanos. Santa ignorância, Batman.

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