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Posts de janeiro 2014

Escadarias de Nova York

31 de janeiro de 2014 11

As escadarias da Grand Station estão sempre tomadas de gente. São escadarias belíssimas, onde Kevin Costner segurou o carrinho de bebê que despencava degraus abaixo durante o célebre tiroteio de Os Intocáveis. Uma sequência forte, que mais forte se tornou por ser a homenagem de Brian de Palma a uma das mais dramáticas e poderosas cenas da história do cinema, filmada na escadaria Odessa, em O Couraçado Potemkin, de Eisenstein — se você não puder ver o filme, veja a cena no YouTube.

Pois essas belíssimas escadarias nova-iorquinas, como disse, estão sempre obstruídas por turistas tirando fotos e filmando com seus celulares, e, entre eles, quase tantos quantos são os asiáticos, os brasileiros. Há brasileiros à mancheia na Big Apple. Os brasileiros fluem e flanam por Nova York porque aqui é o centro do mundo, porque a cidade é linda, porque a diversão grassa pelas esquinas e, sobretudo, porque tudo é muito mais barato nos Estados Unidos do que no Brasil. Tudo. Roupas, carros, eletrônicos e outros que tais custam um terço do preço cobrado na terra de Dilma e Maria Casadevall. Um terço, por Deus.

Estão nos roubando. Brasileiros nos Estados Unidos não são como brasileiros no Brasil. Por aqui, eles são mais silenciosos, mais respeitadores. Mais civilizados. E esse é o grande trunfo dos Estados Unidos e das grandes democracias ocidentais: o estágio avançado da civilização. Só nas democracias ocidentais alcançou-se um nível razoável de respeito aos direitos humanos, à diversidade, à igualdade racial, à isonomia de gêneros. À justiça, enfim.

E isso foi alcançado não graças ao dinheiro; graças à cultura. Pegue a Alemanha. A Alemanha foi destruída materialmente várias vezes na sua história. Não apenas nas duas guerras mundiais, também pela peste e pela Guerra dos 30 Anos. Essa guerra eliminou mais da metade da população da Alemanha. Algumas vilas simplesmente deixaram de existir, quando o conflito terminou, e no meio do século 17 o reino restou dividido em mais de uma centena de principados. Mas a Alemanha se reergueu. A cada revés, se reergueu.

Não conseguiu tais façanhas por dispor de riquezas naturais cobiçadas, como o petróleo dos países árabes, nem por ser tão grande e populosa que cada movimento seu faz o mundo estremecer, como a Índia e a China. Não. O bem mais valioso que a Alemanha tem é a cultura do seu povo. Os Estados Unidos, da mesma forma. Não é porque os Estados Unidos movimentam um quarto da economia mundial que vão se recuperar da crise econômica — e eles vão. É porque, nos Estados Unidos, bem como nas outras democracias ocidentais tradicionais, o povo foi educado no respeito à Justiça e às instituições. O povo acredita no sistema.

Os brasileiros têm dinheiro. Gastam muito aqui e bem mais no Brasil. Mas não é o dinheiro que vai resolver os nossos problemas. O dinheiro nunca os resolveu. Dinheiro você ganha hoje e pode perder amanhã. Dinheiro pode ser roubado, como nos roubam aí, a cada pão & leite que compramos no mercado. Mas certos bens intangíveis, como a sensação de voltar aos tempos da Lei Seca quando você descer os degraus da Grand Station, ou a lembrança de uma cena compassiva de um filme de Eisenstein, isso ninguém vai lhe tirar.

Som de Sexta

31 de janeiro de 2014 1

Esse som do Harry Nilsson foi tema de um grande filme, Midnight Cowboy. Em português, Perdidos na Noite. O filme se passa em Nova York e tem grande atuação do jovem Dustin Hoffmann e de Jon Voigth, o pai de Angelina Jolie.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 16

29 de janeiro de 2014 2

“Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze”

Ao anoitecer, Brasiliano pulou dentro de sua melhor bombacha, encaixou o chapéu de aba larga na cabeçorra, olhou para Januário e gritou:

– A la noche, guaipeca!

Saiu de casa a passo largo, acompanhado de seu companheiro saltitante. Sorria ao pensar que encontraria a Bronze dentro de alguns minutos. Duas horas antes, um menino aparecera em sua casa, na rua da Varginha, dizendo que a Bronze precisava vê-lo ainda aquela noite. Brasiliano deu uma palmada de satisfação em Januário. Era a primeira vez que a Bronze o chamava. Todas as outras vezes ele é que fora visitá-la. Será que ela estava se apaixonando por ele? Gostar dele, Brasiliano sabia que ela gostava. Mas a Bronze não era mulher de se entregar. Não tinha marido, não tinha noivo; tinha homens. Tratava-se de uma mulher celebérrima na cidade. Tanto quanto a baronesa do Gravataí. Cada uma lá por suas razões. Distintas umas das outras, bem-entendido.

A baronesa fora casada com o barão do Gravataí, morto havia dezoito anos. O barão era português, chamava-se João Batista da Silva Pereira. Suas botinas pisaram em solo gaúcho pela primeira vez no começo dos anos 20. João Batista se instalou num terreno situado na Cidade Baixa, à beira do rio Guaíba. Lá construiu um pequeno estaleiro. Que logo cresceu, se tornou poderoso e tornou poderoso João Batista. Aos poucos, o diligente português foi comprando as terras em derredor. Sua propriedade ia até a rua da Margem, assim chamada porque costeava o rio. Estendia-se por uma área tão vasta que os escravos fugidos se homiziavam em seus matos, alimentando-se das frutas silvestres, da caça e da pesca abundantes. E atacando os eventuais passantes para lhes aliviar do peso de suas posses, o que rendeu ao local o sugestivo codinome de Emboscadas.

João Batista levantou um belo e imponente solar em seu terreno. Foi nele que recebeu, em 1845, a visita de ninguém menos do que o imperador Dom Pedro II e a imperatriz Thereza Christina. Tão distinto foi o tratamento dispensado ao casal real, que Dom Pedro decidiu outorgar ao português o título de barão do Gravataí.

As festas no solar continuaram animadas por mais um ano, até que o barão morreu de uma doença misteriosa, ninguém jamais soube precisar o que vitimara um homem tão forte, no vigor de seus 56 anos. Para consolar a viúva Maria Emília, o imperador lhe concedeu o título de baronesa. Desde então, o solar passou a ser conhecido na cidade como o Solar da Baronesa e a propriedade da viúva como o Arraial da Baronesa, sutilmente rebatizado pelo populacho, mais tarde, de Areal da Baronesa, em referência ao seu terreno arenoso.

Pobre baronesa, inexperiente nos negócios, dissipou aos poucos sua fortuna. Dizem que ela mesma mandou atear fogo ao solar, a fim de facilitar o loteamento da área, vendê-la aos poucos e, dessa forma, promover sua salvação financeira. O fato é que nos anos 60 a baronesa continuava ativa e famosa.

Tão famosa quanto a Bronze.

Brasiliano ria ao pensar no apelido da moça. Chamava-se Felizarda, na verdade. Muitos achavam que o Bronze do codinome era devido à sua tez acastanhada, aos seus olhos cor de mel. Brasiliano sabia que não. Sabia que o apelido completo da bela morena era Cu de Bronze, conferido graças aos dotes de suas belas nádegas que ela, aliás, sabia usar muito bem. Os homens se viciavam depois de uma sessão sexual com a Bronze.

Nenhuma cortesã da cidade se comparava a ela. Que não podia ser considerada exatamente uma cortesã. A Bronze escolhia os seus homens. Não eram tantos os que obtinham o privilégio de se cevar em suas carnes morenas, mas esses atingiam o suprassumo do prazer. A Bronze gozava da fama de ser insaciável na cama, além de usar de rara criatividade. Seus amigos íntimos, encantados, sempre lhe mimoseavam com alguma prenda, não raro uma prenda de bom valor. Era uma mulher de variadas artes e profunda ciência. Ciências ocultas, inclusive. Além de ser conhecida como a Messalina de Porto Alegre, a Bronze se tornou celebridade por seus predicados de vidente e cartomante. Assim credenciada, a Bronze via-se frequentada pelos abastados, pelos políticos, pelas damas da sociedade. Diziam que até a baronesa do Gravataí a procurava e lhe pedia conselhos. Havia sempre movimento em sua casa de madeira, na parte alta da cidade.

Quando podia, Brasiliano também passava lá. E era invariavelmente bem-recebido. Conquistara tal privilégio não graças ao seu poder ou volume da conta que tinha no Banco Mauá, mas com a sedução de sua risada franca, de seu bom humor perene e até com as tropelias de Januário. A Bronze adorava cachorros.

Brasiliano ainda não havia contornado o frade de pedra da esquina e já viu que a Bronze o aguardava com a porta aberta, o sorriso alvo cheio de dentes, o queixo erguido, as mãos de dedos longos na cintura.

– Me esperando, morocha? – gritou ele da calçada.

– Você está atrasado – ela riu de volta.

Antes de Brasiliano chegar ao terreno onde ficava a casa, Januário disparou, latindo. Ficou saltitando ao redor da morena, que se agachou para abraçá-lo.

– Januário, seu malandro – ciciou, voz rouca, enlaçando com os braços macios o pescoço do cachorro.

– Acho que tu só me recebes aqui por causa desse guaipeca – riu Brasiliano, agarrando a Bronze pelos ombros redondos, puxando-a para lhe dar um beijo.

– Você tinha alguma dúvida?

Entraram.

– Quer comer alguma coisa? Tomar uma canha? Um vinho?

– Tem aquela linguiça especial do açougue da rua do Arvoredo? Se tem coisa boa, é aquela linguiça. Ontem comi uma na casa do Antunes que até agora lambo os beiços quando lembro dela.

– Vou dizer uma coisa: me sinto mal quando como aquilo. Não sei por quê. Só sei que me dá uma ânsia, um enjoo. Todo mundo adora a tal linguiça, eu não posso ver aquele troço no prato. Mas tenho um queijo do bom. Pode ser?

– Mas bah!

– Então sente aí.

Brasiliano puxou a cadeira de palha trançada e sentou-se à mesa quadrada, de madeira. A Bronze ondulou até a cozinha pequena e de lá voltou carregada. Debaixo do braço esquerdo, um cesto com pão e queijo. Na mão direita, um garrafão de vinho tinto.

– Chamei você aqui porque aconteceram algumas coisas estranhas – a Bronze sentou-se, graciosa.

– Coisas estranhas? – Brasiliano olhava para o pão que cortava com as mãos. A seguir, serviu-se de vinho. – Que coisas?

– O príncipe Custódio me chamou.

Brasiliano levantou os olhos para ela, e em seus olhos agora brilhava um interesse genuíno. Com o príncipe Custódio envolvido, o assunto não devia ser brincadeira. O príncipe Custódio, ou o príncipe Negro, ou o príncipe de Ajudá pertencia a uma família real africana. Sua história era única na triste saga dos negros africanos na América escravagista. Para que sua nação, a nação de Ajudá, não fosse dizimada pelo conquistador branco, ele teria concordado com o exílio eterno. Em troca, os ingleses lhe forneceram remuneração pelo resto da vida. O príncipe se tornou um homem rico nas terras onde seu povo vivia cativo. Estabeleceu-se em Porto Alegre, numa mansão na rua dos Venezianos, e lá vivia com farta criadagem e mais de trinta parentes ou agregados. Expressava-se mal em português, mas falava inglês e francês com fluência. Possuía nove cavalos de raça, tratados com mais desvelo do que recebia a maioria da população da província. Chefe da religião africana, foi o príncipe Negro quem introduziu no Rio Grande a prática do batuque. A Bronze se cevava em seus conhecimentos. Quando ele falava, ela escutava. E aprendia.

– O príncipe… – repetiu Brasiliano, falando para si mesmo.

– Ele. Me falou daquele jeito meio arrevesado dele, ajudado por um intérprete, que algo de maligno está acontecendo nessa cidade. Que a cidade está sendo dominada pelo próprio demônio. Pela besta-fera.

– Nossa…

– Falou que a cidade está devorando a cidade.

Brasiliano cortou com a faca um pedaço do queijo e o levou à boca.

– E o que isso tem a ver comigo?

– Tem a ver que ele disse que um amigo meu corre grande perigo.

– Bueno, tu tens outros amigos, que sei…

– Só que sonhei com você depois de ter falado com ele.

– É? – riu, malicioso. – O que nós fazíamos no sonho? Alguma coisinha boa? Daquelas que só tu sabes fazer?

– Não foi um sonho bom – olhava-o séria, sem nem dar atenção à insinuação. – Quero pôr as cartas pra você.

– Aiaiai, pra que perder tempo? – Brasiliano tomou a mão macia da morena. – Vamos logo ali pro quartinho.

– Não – ela retirou a mão. Levantou-se. Caminhou até uma cômoda, no canto da sala. – Quero ver sua sorte. Não estou com bom pressentimento.

– Que bobiça…

Brasiliano olhou para Januário, ao seu lado. O cachorro estava sentado, olhando fixamente para a fatia de queijo que girava entre os dedos fortes do dono. Seu olhar pidão era comovente. Babava de desejo. Brasiliano estalou a língua. Atirou um naco de queijo para Januário.

– Toma, seu safado interesseiro.

A Bronze sentou-se de volta. Ofereceu-lhe um baralho.

– Embaralha bem – ordenou.

Brasiliano largou o queijo e começou a embaralhar. Januário olhou para o queijo sobre a mesa e suspirou, resignado.

– Pronto – Brasiliano apresentou o baralho de volta à morena.

– Agora corta três vezes na tua direção – ela continuava sisuda, concentrada.

Brasiliano obedeceu. A Bronze tomou as cartas e começou a espalhá-las sobre a mesa, viradas para baixo, em fileiras de sete.

– Vira uma – ainda séria.

Brasiliano virou uma carta da ponta. Ás de espadas.

– Vira outra.

Brasiliano hesitou um segundo. Depois virou a carta contígua ao ás de espadas. Valete de paus.

– Mais uma.

A dama de espadas.

– Mais uma.

Dois de espadas.

Ela levou a mão à boca:

– Virgem santíssima…

– Que é que foi?

Os olhos cor de mel da Bronze fixaram-se nos olhos pretos de Brasiliano.

– Eu sabia! Você é o amigo sobre quem o príncipe me alertou. Você corre grande perigo, Brasi! Grande perigo!

Brasiliano olhou para as cartas na mesa.

– Grande perigo – repetiu ela. – Vire mais duas cartas.

Brasiliano apanhou uma carta distante da fileira que havia escolhido antes, no meio do baralho espalhado. Sete de paus. A segunda carta foi o valete de espadas.

– Minha mãe do céu! – a mão morena da Bronze tomou a grande mão de Brasiliano como se quisesse impedir que ele continuasse.

– Você está no meio de algo muito ruim. Uma mulher. Dois homens. Um homem terrível. É ele. A besta-fera de quem o príncipe me falou. O demônio em pessoa – o olhar dela era aflito. – Cuidado, Brasi. Muito cuidado!

Brasiliano fitou-a por alguns segundos, pensativo. Cofiou o bigodão. Afagou a cabeça de Januário com a outra mão. Deu um tapa na própria coxa.

– Vou tomar cuidado. Prometo. Agora vamos para o quartinho?

O bar do Soho

28 de janeiro de 2014 15

Fui a um bar de blues em Nova York. Gosto demais de blues. Talvez seja meu gênero musical preferido, ainda não decidi sobre isso. Era um bar no Soho, lugar em que Peter Parker vive com sua tia May. Terra Blues, o nome do bar. Fica na parte superior de um pequeno prédio de dois andares. Você entra por uma escada externa. Lá dentro, eles te oferecem o melhor blues ao vivo, bebidas quase geladas e sorrisos que enlanguescem. Para comer, nada. Nem piriris. Mas você pode levar sua própria comida. Vi as meninas mais delicadas chegando com suas quentinhas, tirando os talheres das bolsas e comendo com a devoção de um quarto-zagueiro de futebol americano. Uma delas parecia Mary Jane. Será que Peter e Harry Osborn andavam pela vizinhança?

No palco, desempenhava uma banda de blues do Sul. Imagino que do Mississipi. Talvez Louisiana. Gostaria que fossem de New Orleans. Não conheço, mas tenho de conhecer New Orleans. Por causa do blues, sim, mas principalmente por causa de Truman Capote. Pelo estilo, pelo ritmo, pelos recursos, Capote é, para mim, o blues da literatura. Ele definiu a forma como eu gostaria de escrever. “Procuro a frase que seja resistente e maleável como uma rede de pescar”, disse. E é isso. Essa é a frase perfeita.

Outro dia escrevi um texto ruim. Quando o reli, depois de publicado, quase fiquei doente. Prefiro a dor de uma desilusão amorosa a escrever um texto ruim. E o ruim a que me refiro é estabelecido pelo meu critério. Vá que você ache que só escrevo textos ruins. Paciência. Mas EU tenho de achar bom. Tenho de saber que fiz tudo para que fosse o melhor texto da minha vida. Se não sai assim, oh, sinto-me como os escravos africanos trabalhando nas plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos de antes da Guerra de Secessão. Sinto-me triste, e aí cantaria, como eles cantavam, o blues. Oh, yeah.

O blues do bar do Soho fazia com que todos nos sacudíssemos, naquela noite. Eu me balançava com a minha Samuel Adams na mão e pensava em Truman Capote. Porque, sim, ele escrevia com o embalo do blues de sua New Orleans. Bonequinha de Luxo é um exemplo desse ritmo. Mas também é um exemplo do quanto Capote se tornou nova-iorquino. O livro todo se passa em Manhattan _ o título em inglês é Breakfast at Tiffany’s. A cidade é quase um personagem da trama, junto com a garota charmosa e leviana que Audrey Hepburn imortalizou no cinema. Então, Bonequinha de Luxo é uma bem-sucedida combinação de New Orleans com Nova York.

Capote conquistou o mundo quando conquistou Nova York. Só que Nova York também foi a causa da sua perdição. Capote se enfunou com o tanto que foi bajulado na grande cidade, avaliou mal o seu poder, escreveu um livro que ridicularizava a maioria da sociedade nova-iorquina e, depois disso, passou a ser desprezado por quem ele dizia desprezar, que era muita gente. Morreu de desgosto e de abandono.

Capote não se satisfazia apenas com a produção do texto perfeito, portanto: o alimento que o mantinha de pé era o reconhecimento.

Qual é a importância do reconhecimento para mim? Tenho de avaliar isso, depois de decidir qual é o meu gênero musical predileto. E para você, o que é importante?

Aqui, nos Estados Unidos, alguns jovens se suicidaram porque Justin Bieber foi preso. Você pode achar que isso é estúpido, até porque Justin Bieber nem canta blues, mas Justin Bieber era importante para eles. Assim como o futebol é importante para uma multidão no Brasil, e aqui não passa de uma curiosidade. O máximo de futebol que aparece nas ruas de Nova York são as fotos de David Beckham de cueca, que estão por toda parte. Mas, no Sul do Brasil, as pessoas rompem amizades ao discutirem o cartão amarelo que o juiz não deu durante um jogo do Gauchão. Vá lhes dizer que isso é tolo. Para elas, não é. Para elas, trata-se de uma fonte de tristeza.

Eu preferia que todas essas tristezas fossem resolvidas como os escravos do Sul as resolviam, no século 19: cantando um blues. No bar do Soho, sorvendo a minha Samuel Adams, tenho a pretensão de ter resolvido alguns de meus dilemas. Ajudado pelo blues. Sempre com a ajuda do blues.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 15

26 de janeiro de 2014 0

“O jovem Machado de Assis”

Walter não foi à missa. Não gostava de ir à missa. Ia, de vez em quando, para não ser malfalado pela vizinhança menos carola do que maliciosa. Mas não gostava. Não era religioso. Também não era ateu. Se morasse na Inglaterra, saberia o que era: agnóstico. O agnosticismo estava sendo concebido por aqueles dias pelo britânico Thomas Huxley.

Apesar dessa sua indiferença espiritual, pagara dez réis pela assinatura anual do Estrela do Sul, jornal religioso que circulava aos domingos, em Porto Alegre. Porque gostava mesmo era de ler. Lia de tudo. Jornais, romances, história universal, o que lhe caísse nas mãos. Lia o Estrela do Sul porque gostava de estar atualizado acerca dos ataques da igreja católica aos luteranos que tinham se instalado na província com a chegada dos colonos alemães. O Estrela do Sul era bastante cioso no combate aos protestantes egressos do além-mar. O próprio Walter era de família luterana, mas ele pouco se importava com disputas teológicas. Para ele, o debate entre padres e pastores acabava se tornando, antes de tudo, divertido.

Walter assinava também O conciliador e todos os jornais de vida curta que apareciam eventualmente na cidade, grande parte deles sob os auspícios do médico Caldre e Fião. Walter admirava esse Caldre e Fião, intelectual vigoroso, autor do primeiro romance escrito na província de São Pedro, o ótimo A divina pastora, publicado em 1847. Quatro anos depois, Caldre e Fião, que na verdade se chamava José Antônio do Vale, escreveu um romance ainda melhor, na opinião de Walter: O corsário. Devido a sua ousadia, o livro foi objeto até de algum escândalo na conservadora sociedade porto-alegrense. Nele, Caldre e Fião contava a história de um náufrago inglês que era recolhido por uma bela jovem nas areias de Tramandaí. A moça se apaixonava pelo estrangeiro, mas ele, com sua natureza de homem errante dos mares, muito a faria sofrer.

Os jornais publicados por Caldre e Fião eram sempre enérgicos e sempre reservavam generosos espaços às manifestações culturais. O Estrela do Sul, não. O Estrela do Sul era algo árido para quem se interessava por cultura. Resumia-se a um tabloide de quatro páginas sem pretensões cosmopolitas. O texto de capa se estendia pela página dois – um artigo galhardamente intitulado “Os jesuítas, os lazaristas e as irmãs de caridade defendidos por si mesmos no tribunal da razão e da história”.

Walter decidiu ler o artigo mais tarde, não se sentia particularmente interessado na autodefesa dos jesuítas, dos lazaristas e muito menos na das irmãs de caridade. Passou para a seção “Variedade”, onde havia o Expediente do Bispado. “Hoje, às sete horas da manhã, confere sua excelência reverendíssima em sua Capela Episcopal a Sagrada Ordem de Diácono ao subdiácono José Marcellino de Souza Bitencourt”, noticiava o periódico. Walter fez uma congratulação mental ao subdiácono pela promoção, mas seguiu adiante. Correu os olhos para o quadragésimo segundo capítulo do romance Bárbara, publicado em formato de folhetim. A qualidade do texto se situava um pouco abaixo do razoável. Walter preferia autores modernos, como Manuel Antônio de Almeida ou seu pupilo, o jovem Machado de Assis, mulatinho de 25 anos de idade que naquele ano mesmo publicara um impecável livro de poesias, Crisálidas. Walter inclusive lembrava de cor um poema de Machado que ele considerava genial:

“Erro é teu. Amei-te um dia

Com esse amor passageiro

Que nasce na fantasia

E não chega ao coração;

Não foi amor, foi apenas

Uma ligeira impressão;

Um querer indiferente,

Em tua presença, vivo,

Morto, se estavas ausente,

E se ora me vês esquivo

Se, como outrora, não vês

Meus incensos de poeta

Ir eu queimar a teus pés,

É que, como obra de um dia,

Passou-me essa fantasia.

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras.

Tuas frívolas quimeras,

Teu vão amor de ti mesma,

Essa pêndula gelada

Que chamavas coração,

Eram bem fracos liames

Para que a alma enamorada

Me conseguissem prender;

Foram baldados tentames,

Saiu contra ti o azar,

E embora pouca, perdeste

A glória de me arrastar

Ao teu carro… Vãs quimeras!

Para eu amar-te devias

Outra ser e não como eras…”

Ah, como ele gostaria que seu amor por Catarina fosse passageiro como o do poeta fluminense. Pouparia-lhe dores e incomodações, por certo. Mas, não. Era coisa séria. Tanto que o motivava a ler aquele folhetim insosso, Bárbara. Só porque um dos personagens chamava-se… Catarina.

“A velha Catarina tinha um coração de ouro, uma saúde de ferro e estava sempre pronta a prestar qualquer serviço. Não seria possível encontrar na circunferência de dez léguas uma tão boa enfermeira.”

Walter pousou o tabloide na mesa de madeira. Levantou a cabeça. Fitou o vazio. Onde estaria Catarina? Não a via desde a sua incursão à casa maldita, no dia anterior, sábado. O que estaria fazendo? Por que não aparecera na sapataria? Será que ele teria de voltar à casa número 27?

Walter suspirou. Consultou o relógio encostado à parede. Nove horas. Tinha combinado de almoçar na casa de Antunes, ali perto, na rua da Figueira. Levantou-se, pegou o chapéu e saiu. Caminhou pouco mais de duas quadras, a Figueira era bem próxima à rua do Arvoredo.

Chegou à casa de Antunes. Abriu o portão de madeira. Foi entrando. Atravessou o corredor comprido que levava aos fundos.

– Ó de casa! – gritou, ao ingressar no alpendre.

– Walter! – Antunes veio sorrindo da cozinha, secando as mãos num pano de prato. Cumprimentou-o, feliz. – O almoço está quase pronto. Vamos ali dentro tomar um schnaps.

Subiram os dois pequenos degraus que levavam à sala de jantar. A casa do padeiro Manoel Antunes era confortável, espaçosa, bem melhor do que a maioria daquela região da cidade. Toda construída em madeira e pintada em tons pastéis, tinha dois quartos, um para o casal, outro para os dois filhos. Havia ainda a sala de jantar, a cozinha e a sala de estar. No quintal, distante das peças principais, o pequeno cubículo que servia de banheiro. Muitas residências contavam apenas com um buraco aberto no solo, nos fundos da construção, onde os moradores se aliviavam de suas necessidades fisiológicas. Outras construíam patentes de madeira, os dejetos eram depositados em uma espécie de barril, que, depois de cheio, era esvaziado em algum terreno baldio ou mesmo na rua, enchendo o ar da cidade de miasmas insuportáveis, sobretudo no sufocante calor do verão.

Antunes, assim como Walter, valia-se de uma alternativa mais moderna e higiênica. Eles haviam pago assinaturas pelos serviços dos cabungueiros. Os cabungos eram barris de madeira que serviam de latrina. Uma vez por semana, um funcionário chamado cabungueiro, geralmente um negro, ia às residências que possuíam assinatura, retirava o cabungo e trocava por outro, limpo e desinfetado com creolina. O cabungo cheio era fechado e carregado de carroça até um trem, que o levava até uma volta do Guaíba, onde teria seu conteúdo despejado. Dos vinte mil habitantes de Porto Alegre, onze mil possuíam assinatura dos serviços dos cabungueiros. Walter, homem lido, ciente das novidades europeias, invejava os ingleses, que já dispunham de eficientes e higiênicos sistemas de esgoto, inclusive com modernos vasos sanitários munidos de descargas.

A casa de Antunes se achava bem-provida dos confortos disponíveis à classe média porto-alegrense. A padaria ia bem, e Rosa administrava com competência as despesas da família. Permitira-se, inclusive, o luxo de possuir dois escravos não muito velhos – os escravos mais velhos, evidentemente, eram mais baratos. Os chamados “boçais”, recém-chegados do continente africano, também alcançavam menor preço do que os “ladinos”, negros nascidos no Brasil, já adaptados à escravidão. Walter, abolicionista convicto, criticou o amigo quando da compra dos dois escravos. Antunes até concordava com ele, mas Rosa exigiu a aquisição dos negros.

A sala de estar em que os dois amigos bebiam agora era ampla e arejada. A janela grande, aberta de par em par, havia sido decorada com uma singela cortina de renda confeccionada pelas mãos hábeis de Rosa. Normalmente as casas tinham poucos móveis. A sala de Antunes podia ser considerada fartamente mobiliada, em comparação com as dos vizinhos. A mesa grande, retangular, dominava o ambiente. No canto, uma mesinha pequena e baixa, que seria ocupada pelas crianças até que completassem quinze anos, pelo menos. Cadeiras em volta da mesa grande, banquinhos sob a pequena e, nas paredes, o orgulho de Antunes: as fotografias. O famoso fotógrafo Manuel de Paula Ramos repetira DeForrest e viera do Rio de Janeiro para fazer retratos pela província. Viera com todo o complicado equipamento, inclusive cenários elaborados. Antunes, Rosa e os filhos foram fotografados em poses diversas, com florestas e montes falsos ao fundo. A que Antunes mais gostava era uma muito em voga: a família inteira dentro de uma canoa, como que em um piquenique.

Walter admirava mais uma vez os trabalhos de Manuel de Paula Ramos, espalhados pelas paredes. Antunes o observava sorrindo. Rosa prosseguia na lida na cozinha. De lá vinha um aroma delicioso e quente, que açulava a fome.

– O que teremos hoje? – Walter esfregou as mãos.

– Hoje, o almoço será dividido em duas partes: uma feita por mim, outra pela Rosa. Preparei uma iguaria que se come na Corte do Rio de Janeiro: passarinhos fritos com bananas!

Walter arregalou os olhos.

– Passarinhos fritos com bananas.

– É. Você vai adorar. Os passarinhos foram caçados pela meninada aqui da rua no Areal da Baronesa. Uma delícia. Temperei-os bem temperadinhos. Enquanto isso, peguei bananas-da-terra, descasquei-as e as abri ao meio. Fritei tudo junto, as bananas e os passarinhos. Com os passarinhos por baixo e as bananas por cima, deitei a guloseima numa travessa e a cobri com pão ralado e açúcar. Divino! A imperatriz dona Thereza Christina quase desmaia quando prova esse manjar dos deuses.

– Acredito – sorriu Walter. – E a Rosa, o que está preparando?

– Arroz com linguiça – Antunes tomou um gole de cachaça. – Veja que falta de imaginação. Mas pelo menos é da linguiça preparada pelo teu vizinho. Uma ótima linguiça.

Walter lembrou de Ramos e o pensamento lhe comprimiu as artérias do coração. Bebeu também ele um trago da branquinha.

Antunes olhou em direção à cozinha, como se temesse que Rosa saísse de lá. Debruçou-se na mesa. Sussurrou:

– Amigo, preciso lhe contar uma coisa.

Walter piscou.

– Que foi?

– É a Rosa – Antunes falou ainda mais baixo, cuidando a porta da cozinha.

– Que é que tem? – Walter modulou a voz à altura da do amigo.

– Acho… – Antunes hesitava. A voz lhe saiu trêmula: – …acho que ela está me traindo!

– Antunes! – Walter jogou o corpo para trás. Antunes vivia desconfiando de Rosa. Às vezes Walter cogitava de o amigo ter razão, mas quem iria se interessar por Rosa, tão sem atrativos que era? Além do mais, poucas mulheres podiam ser tão antipáticas quanto ela. Mandona, exigente, ambiciosa, vivia torturando o marido para que ele acumulasse mais, aparentasse mais, ganhasse mais e mais dinheiro. Walter a desprezava suavemente. Tolerava-a porque era mulher de seu amigo.

– O comportamento dela anda estranho – Antunes olhava para os lados, aflito.

Walter cruzou os braços:

– E com quem ela poderia estar lhe traindo?

– Aí é que está: é terrível!

Walter olhou nos olhos dele. Viu que o amigo sofria. Teve dó. Colou o peito à borda da mesa. Pegou em seu braço.

– O que é terrível, Antunes, meu velho?

– O linguiceiro!

– Lin… – Walter se sobressaltou. – O açougueiro? Ramos?

– Ele! Ele!

– Mas… – a ideia deixou Walter levemente agastado. Parecia que Ramos e Catarina estavam envolvidos em tudo à sua volta. – Mas como é possível?

– Olha, Walter, ela passa todos os dias no açougue. Todos os dias! Todos os dias nós comemos linguiça. É arroz com linguiça, feijão com linguiça, linguiça com pão, linguiça frita… Hoje mesmo, ela fez questão de fazer linguiça, embora eu já tivesse preparado meu banquete. Quem ia querer comer arroz com linguiça tendo passarinhos fritos na banana?

Walter endireitou o torso. Coçou a parte de trás da cabeça. Limpou a garganta.

– Er… De fato, os pratos que você aprendeu na Corte são magníficos. Mas, precisamos admitir, a linguiça é boa mesmo.

– É, claro que é. Eu adoro. Mas ela vai todos os dias lá. Todos os dias. Eles conversam… E anteontem, meu Deus, apareci de surpresa no açougue e vi o jeito como o Ramos olhava para ela. E ela… Ela ria às gargalhadas! Não sei mais o que fazer!

Walter fez um bico, apertou os olhos. Apertava os olhos ao pensar. Suspirou. Rosa e o açougueiro. Seria possível? Verdade que Rosa não era de muito riso. Era mais de ação. Ela a gargalhar… Curioso. Mas não podia… Claro que não podia. Era impossível. Além do mais, por que Ramos se interessaria por Rosa, se tinha Catarina? Se bem que, Walter compreendia, depois de algum tempo de convivência, os predicados de qualquer mulher se esmaecem, o homem tende a desejar outras, mesmo que as outras não tenham categoria para amarrar a botina esquerda da sua esposa.

– Bom, Antunes – Walter começou a falar, mas não sabia bem o que dizer. Pensou em acalmar o amigo, de alguma forma. Convencê-lo de que suas suspeitas não tinham razão. Pronunciava as palavras devagar, para ganhar tempo. – Essas coisas são complicadas… Delicadas. A gente nunca sabe o que as pessoas estão sentindo… – queria encontrar alguma frase inteligente, que convencesse Antunes e a si próprio. Não precisou procurar muito. Brasiliano irrompeu na sala, ruidoso, Januário atrás, feliz.

– Buenas! Também vou querer uma de canha!

Os amigos sorriram. Januário saltou sobre Antunes. O cachorro adorava aquele gordo. Brasiliano às vezes até demonstrava algum ciúme.

– Acho que esse guaipeca gosta de banha! – desdenhava.

Antunes fazia festa a Januário, abraçava-o e beijava-o.

Naquele instante, a figura miúda de Rosa entrou na sala.

– Não beija o cachorro! Que nojo! – repreeendeu a mulher. Carregava uma grande panela de ferro pelas alças. Usava guardanapos de pano para proteger as mãos. Fez a panela aterrissar no centro da mesa.

– Bons dias, cavalheiros – cumprimentou, os olhinhos astutos rebrilhando. Olhou para Walter, olhou para Brasiliano, fez uma careta para Januário. Já tinha dito a Antunes que detestava cachorro dentro de casa, mas o marido não conseguia reunir coragem para fazer a advertência a Brasiliano. Além disso, ele também adorava Januário. Antunes se levantou, sorrindo:

– Vou à cozinha, buscar os passarinhos fritos na banana!

– Passarinhos fritos na banana? – Brasiliano olhou para Walter.

– Uma iguaria da Corte – sorriu Walter.

– Exatamente! – bradou Antunes. E se foi para a cozinha.

Brasiliano e Walter riram. Antunes voltou com uma travessa fumegante. Depositou-a na mesa, vitorioso. Todos se inclinaram para espiar o conteúdo. Januário latiu, interessado.

– A la pucha! – disse Brasiliano.

– O imperador é louco por isso – assegurou Antunes.

Rosa retirou a tampa da sua panela. A fragrância do arroz com linguiça, o popular arroz de china pobre, fez Walter fechar os olhos e salivar, antecipando o prazer que lhe proporcionaria a comida. Gemeu de satisfação. Brasiliano gemeu também. Antunes olhou meio de lado para o arroz com linguiça.

Walter se lembrou dos tempos de guri em Hamburgo Velho. Seu pai, um alemão sisudo e trabalhador, não permitia que ninguém falasse durante as refeições. O silêncio era absoluto à mesa. No máximo, se ouvia um “passe a água, por favor”. Na casa do padeiro Manoel Antunes, a refeição era ruidosa. Januário, sempre ao lado de Antunes, salivava. Rosa começou a servir o arroz com linguiça.

– Os passarinhos fritos na banana são para depois – disse ela.

– O prato principal – concordou Walter, tentando valorizar a comida preparada pelo amigo.

Antunes estava distraído, gritando para que os meninos se sentassem à mesa pequena. Walter experimentou um pedaço da linguiça especial. Nunca na vida provara acepipe semelhante.

O americano bárbaro

25 de janeiro de 2014 2

Vi um cara botando catchup no feijão, outro dia. O feijão dele não era como o nosso feijão, o feijão de verdade, cremoso, saboroso, que se come com arroz. Era um prato só com os grãos, seco e impessoal, grande e vermelho. De qualquer forma, o americano, um tipo de uns dois metros de altura e rosto muito vermelho, pois esse americano colocou catchup por cima do feijão e comeu sem cerimônia. Fiquei chocado. Catchup no feijão. Francamente.

Os americanos cobrem tudo com catchup. Entendo, porque a comida deles é estranha. Urge dar uma disfarçada. Mas colocar catchup no feijão?!? Tudo tem seus limites.

*****

EU E PEGGY

Quando cheguei, tive de dormir em Miami. As tempestades de neve causaram o cancelamento de três mil voos, e do meu também. Então, lá estava eu puxando a minha mala pelo aeroporto de Miami. Mas quem diz que havia quarto hotel para passar a noite? Se os voos são cancelados por causa de questões climáticas, as empresas aéreas não te dão nada, nem hotel, nem sanduíche de salamito, nada. Estava abandonado na noite selvagem da América do Norte.

Bem. Fui até o hotel que fica dentro do aeroporto. As poltronas da recepção estavam todas ocupadas por uns negões grandes que dormiam encostados à bagagem. Imaginei que fossem cubanos. Perguntei se havia vaga e o atendente riu de mim:

_ De jeito nenhum, mai bróder. Sold-out!

Perguntei onde podia conseguir outro hotel e ele:

_ Por aí…

Não me deu a menor bola, aquele atendente de hotel.

Peguei um táxi e fui para um motel daqueles de filme, manja? Aquela placa de neon pendurada. Os quartos distribuídos horizontalmente, pegados um no outro. Me sentia um fugitivo. Um ladrão de banco. Fiz questão de abrir a cortininha e espreitar a rua, para ver se os tiras não estavam me cercando.

Depois, fui a um bar ali perto e a garçonete se chamava Peggy Sue. Não acreditei. Uma garçonete Peggy Sue. Sempre quis ser atendido por uma garçonete chamada Peggy Sue. Pedi um drinque e por pouco não dei um tapa na bunda dela. Os americanos não fazem sempre isso? Cheguei a erguer a mão para, na América, fazer como os americanos, fazer como faria Jack Nicholson. Sim, o velho Jack faria isso! Mas recuei. Vá que eles não entendam minhas boas intenções de agir como um deles, vá que não entendam que um tapa naquela bunda seria uma homenagem ao Grande Irmão do Norte…

Deixei uma boa gorjeta para Peggy Sue.

*****

O barganhador

Vi na TV um programa que me deixou admirado. É sobre um sujeito que compra carros usados. O ponto alto do show é quando ele regateia com o dono do carro. O dono pede 15 mil dólares, ele desdenha, faz muxoxo e oferece seis mil. Acabam fechando por oito, e ele comemora. Quer dizer: um programa sobre barganha. Não é à toa que os americanos conquistaram o mundo pelo comércio.

*****

Viagra

A propaganda o Viagra é muito poética. Uma grande e potente caminhonete está rodando a caminho de casa. Mas a estrada está embarrada e cheia de neve. A caminhonete atola. Só que logo o socorro chega: a caminhonete é atrelada a dois possantes cavalos e eles a puxam até o conforto do lar. Sutil. Os americanos sabem ser sutis, quando querem.

*****

Frio siberiano

A previsão é de que uma onda de frio rolará do Norte para cá e que, na segunda-feira, a temperatura caia para 20 graus abaixo de zero. Agora está só uns 10 graus abaixo de zero. Quando leio na zerohora.com que em Porto Alegre está fazendo 40 graus, penso:

_ Ah, os trópicos, os trópicos…

*****

Noite dessas, vi um acidente num cruzamento de Boston. Um carro deslizou na neve e acertou o outro na lateral. Os motoristas ainda não tinham descido para se xingar, e uma viatura da polícia apareceu, cheia de luzes piscantes. Não levou um minuto, por Deus. De onde saiu aquele carro de polícia? Do esgoto? Estava escondido atrás de alguma árvore?

Câmeras.

Eles têm câmeras em toda parte, por aqui.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 14

24 de janeiro de 2014 0

“Dom Pedro lhe reconhecia a primazia”

Dom Pedro II foi quem transformou a fotografia em moda nacional. O imperador era um cientista, um entusiasta das invenções que maravilhavam o século. Aos quatorze anos, conheceu o daguerreótipo e se encantou. Não só ele, claro. O mundo inteiro se encantou. Quem tinha posses mandava fazer um daguerreótipo. Charles DeForrest, daguerreotipista americano, chegou ao Brasil nos anos 40 e percorreu o país vendendo o seu trabalho. Se o freguês não dispusesse de dinheiro vivo, podia pagar com mercadorias. Mas não era barato. Por um daguerreótipo, DeForrest cobrava um cavalo!

DeForrest passou também pelo Rio Grande do Sul, espalhou daguerreótipos pela província. Um deles, o de Maria Augusta, pago com sacrifício por Walter. Depois, embrenhou-se por Argentina e Uruguai. Ao fim de sua aventura sul-americana, vendeu cada cavalo por três dólares e retornou aos Estados Unidos com a bolsa bem fornida.

Quando DeForrest voltou para sua pátria, a daguerreotipia já estava sendo substituída por outros processos mais modernos, como a ferrotipia. Dom Pedro II acompanhava com interesse a evolução do invento, a sua transformação na fotografia definitiva, impressa em papel. Tornou-se ele próprio fotógrafo, registrou as viagens da família imperial, a vida na corte, retratou para a posteridade o século do qual foi um dos personagens mais importantes.

Dom Pedro conheceu pessoalmente Hercules Florence, o homem que dizia ter inventado a fotografia antes mesmo de Daguerre. De fato, em 1833, Florence criou um processo parecido com o daguerreótipo, sem, no entanto, obter igual sucesso na fixação da imagem. Na época, Florence já vivia no Brasil, onde casou, teve filhos, constituiu família. Em 1839, estava num serão na casa de amigos, em Campinas, quando soube que Daguerre alardeava, na França, a invenção do processo fotográfico. Foi um golpe para Florence. Seus amigos perceberam claramente o abatimento que o fez atravessar o resto da reunião macambúzio. Contou, mais tarde, que aquela tinha sido a pior noite de sua vida.

Mesmo assim, Dom Pedro lhe reconhecia a primazia e o saudava por isso. Era algum consolo para o frustrado Hercules Florence.

Muitos fotógrafos se estabeleceram no Rio de Janeiro, estimulados pelo imperador. Até as famílias de classe média podiam mandar fazer um retrato, uma vez que os preços cobrados pelos fotógrafos não eram tão caros quanto os do velho daguerreótipo que enriqueceu DeForrest. A mania da fotografia se espalhou pelo império. Chegou à Província de São Pedro.

O padeiro Manoel Antunes se orgulhava de ter diversos retratos da família espalhados pela parede, embora sua mulher, Rosa, lhe censurasse o esbanjamento com tais futilidades. Nesse momento, Antunes preparava o almoço com que ia receber seus amigos Brasiliano e Walter. Isso também era censurado por Rosa. Para que gastar com esses dois? Eles não tinham o que comer em casa? Antunes, que normalmente atendia a mulher em todas as suas reivindicações, nesses casos batia o pé. Repetia o bordão do amigo Walter:

– Os bens mais valiosos de um homem de bem são os seus amigos, pá!

Assim, Antunes não só manteve o almoço, como colocou Rosa para ajudá-lo na cozinha. Aquela função o deixava contente. Enquanto preparava os pratos com que regalaria os amigos, cantarolava um fado, uma melancólica e envolvente cantiga acompanhada de guitarra surgida vinte anos atrás, em Portugal.

Som de Sexta

24 de janeiro de 2014 2

Já que estou por aqui…

Para sempre. Nunca mais

24 de janeiro de 2014 4

Estou nos Estados Unidos. Uma civilização calórica, definitivamente. Todo aquele bacon no café da manhã. Mas não podia ser de outra forma. Aqui na cidade em que ora me repoltreio, Boston, aqui faz um frio… Acho graça quando os gaúchos dizem que no Rio Grande do Sul faz frio. No Rio Grande do Sul não faz frio; sente-se frio. No Norte-Nordeste americano, sim, faz muito frio, mas você só sente frio se cometer temeridades como a que cometi outra noite. Tinha de ir a um lugar a cinco minutos de caminhada do hotel em que me hospedo. Antes de sair, olhei para um par de ceroulas que dormem na minha mala. Não sou homem de usar ceroulas, ah, não, mas, lá fora, a cidade estava branca de neve. Capitulei, que às vezes o mais sábio é capitular. Vesti as ceroulas e, sobre elas, calças jeans. Mais uma camiseta dessas de esquiador, bem quente, sobreposta por um ainda mais quente blusão de esquiador e, por que não?, uma jaqueta quentíssima de esquiador. Uma meia. Duas meias. Botas que comprei na Argentina, feitas de couro de orgulhoso boi portenho. Luvas. E um gorro, obviamente de esquiador.

Mirei-me no espelho. Parecia um mendigo, mas me sentia protegido. Ilusão. No primeiro dos cinco minutos a pé, estava prestes a congelar. Dei uma corridinha, cheguei aonde tinha de chegar em uns três minutos de dor. Duas horas depois, noite já fechada, empreendi o caminho de volta. Cristo! Aqueles cinco minutos eram cinco horas. Meu nariz começou a petrificar. Li em algum lugar que, sob temperaturas excessivamente baixas, o nariz pode congelar e quebrar como um picolé espacial. Não queria que meu nariz quebrasse. Isso não, oh, Deus! O ar gelado entrava-me pelos pulmões e esfriava-me os ossos, a alma e o coração.

Talvez fosse bom eu, finalmente, possuir um coração de gelo… Quando encontrei um bar, refugiei-me no ar aquecido, sentei-me ao balcão e pedi um Bourbon. Caubói, é claro. Olhei para os lados e vi os americanos comendo frituras, ingerindo calorias, engordando debaixo de suas peles tatuadas, mas quentes. Senti saudade do calor porto-alegrense, das mulheres de saias diáfanas, do chope cremoso. Senti saudade também da saborosa comida brasileira e de ouvir o som poético da última flor do Lácio, inculta e bela. Saudade, ora, ora, e estou há tão pouco tempo aqui.

Se morasse nessas distâncias, quanta saudade não sentiria? Por coincidência, quando vagava nesses pensamentos, minha amiga Mariana Bertolucci mandou-me uma mensagem do outro lado do Atlântico: “Que saudade da nossa antiga turma do Liliput”. Lembrei-me então que, naquela época, em algum momento em que, por algum motivo, ela nos negligenciou, eu lhe disse: “Mais tarde, vamos nos separar para sempre, e tu vais sentir saudades”.

Tantos anos depois, e minha profecia daquela noite se cumpriu. Nos separamos para sempre, e ela sente saudade. Para sempre. Nunca mais. As pessoas não acreditam, mas a vida é cheia de para sempre e de nunca mais. Se morasse aqui, quantos para sempre e nunca mais acrescentaria na minha vida? Quantos estou acrescentando nesse instante, mesmo sem morar aqui? Pessoas que vou perder e que vão me perder para sempre. Sentimentos que nunca mais voltarão. Pensar nisso me deu certa melancolia. Olhei a neve lá fora. Estremeci. Pedi outro Bourbon. Caubói, é claro.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 13

22 de janeiro de 2014 0

“Ele é a besta-fera”

– Ramos! – Catarina olhou na direção da porta, assustada. – Não é possível! A peça já terminou?

– Peça? – estranhou Walter.

– Peça, peça! No São Pedro – explicou ela, empurrando Walter para o corredor escuro. – Rápido! Sai pelos fundos! Rápido! Ou ele te mata!

Walter hesitou. A incoerência da informação o perturbava: um brutamontes que passava o dia de cutelo na mão, entre picanhas e alcatras, frequentando o Theatro São Pedro? Não combinava. Além disso, havia o seu orgulho. Não queria fazer papel de covarde diante de Catarina.

– Ele vai ao teatro? – perguntou.

– Vai. E você vai embora agora! Ele já está entrando.

– Não – Walter reagiu, peito empinado. – Vou falar com ele. Vou dizer que amo você.

– Enlouqueceu! – Catarina falou isso olhando para ele, mas era como se falasse com outra pessoa. – Só pode estar louco! Ele vai te matar! Ele é a besta-fera!

Besta-fera? Que tipo de expressão era aquela? O que ela queria dizer? Como podia uma mulher chamar o marido de besta-fera? Em todo caso, Walter se alegrou. Catarina não ia querer continuar com a besta-fera – ia querer ficar com ele, Walter.

A chave já estava saindo da fechadura. A porta já ia se abrir. Catarina cada vez mais agitada, nervosa. Olhava para a porta. Olhava para Walter. Tentava empurrá-lo para os fundos da casa.

– Para os fundos – implorou ela. – Por favor! Não quero que ele lhe faça mal. Por favor. Não quero nada de mal pra você.

Aquela frase enterneceu Walter. Ela se preocupava com ele! Ela gostava dele. Mas, ao mesmo tempo, o irritou. Por que Catarina achava que Ramos era mais homem que ele? Por que ela achava que Ramos lhe faria mal e não ele a Ramos? Por que Ramos era grande? Por que era forte? Ora, Walter sabia se defender, fora criado nas ruas barrentas de Hamburgo Velho, brigando por qualquer desavença nos jogos de criança, trabalhando desde muito cedo na sapataria do pai, carregando rolos de couro, empunhando o martelo, mourejando desde que o sol nascia até a lua vagar alto no céu. Nada disso. Ele ia ficar. Ia enfrentar a besta-fera.

– Eu fico! – decidiu.

– Por favor! – ela já estava quase chorando.

– Fico – teimou Walter. Ia resolver o assunto de uma vez por todas. Se ela gostava mesmo dele, que dissesse agora. Walter sabia que ela e Ramos não haviam casado na igreja. Isso talvez facilitasse as coisas. Ele e Catarina, sim, poderiam casar na igreja. As mulheres adoram casar na igreja. – Fico! – insistiu.

– Pelo amor de Deus! – a porta se abria, uma luminosidade fraca entrava pela fresta. Catarina empurrava Walter para os fundos, as pequenas mãos no peito dele. Ele recuava, caminhando de costas, balançando a cabeça, pensando, determinado: vou ficar, vou ficar. Então, choramingando, ela implorou:

– Vais me prejudicar!

Vais me prejudicar. A frase lamentosa trincou a resistência de Walter. Prejudicá-la. Isso ele não poderia fazer. Nunca. Poderia morrer assassinado pela besta-fera, mas prejudicar Catarina, jamais. Jamais fazê-la chorar, e ela estava a ponto de verter lágrimas. Mudou de ideia. Resolveu fugir. Fugir, não. Seria uma retirada estratégica.

– Te amo! – repetiu, antes de se embrenhar na escuridão, guiado por ela.

– Por aqui, por aqui – empurrava-o Catarina.

– Te amo! – repetiu Walter, na esperança de que ela também dissesse te amo.

Ela não disse. Apenas o conduziu até outra peça. Passaram pela cozinha, chegaram a um pátio escuro. Muito escuro. Walter não enxergava nada.

– Pule o muro – Catarina apontou para a parte de trás do pátio e voltou açodadamente para dentro de casa. Bateu a porta sem se despedir, sem dizer eu te amo, sem um aceno amoroso. A última nesga de luz foi sugada pela escuridão.

Muro? Walter não via muro algum. Esperou até que seus olhos se acostumassem com a tênue claridade da lua. Aos poucos, a sombra do muro foi surgindo, nos fundos de um pátio entulhado de objetos que ele mal conseguia divisar. O que era aquilo? Pedaços de mesas? De móveis velhos? De estantes? Um puxado de madeira ali adiante e, sob ele, um enorme tonel. O que conteria? Walter ainda olhou por alguns segundos para a porta fechada. Suspirou. De repente, notou uma luminosidade à sua esquerda, em algum ponto do quintal. Agachou-se rapidamente. Notou, então, que no fundo do terreno, do lado esquerdo, havia um pequeno quarto separado da casa. E não era o quarto de banho. Não. Era um desses quartos de aluguel. Algum criado ou inquilino devia morar ali. Essa pessoa ouviu o barulho, acordou-se e agora sairia à rua para investigar. Walter não podia mais vacilar. Teria de ser veloz e preciso. Levantou-se. Partiu, enfim, lanhando-se todo nos arbustos do pátio, tropeçando em alguns pedaços de madeira, olhando de quando em quando para o quarto fracamente iluminado. Chegou ao muro feito com os grandes tijolos cozidos, obviamente, na rua da Olaria. Era um muro alto. Walter precisaria de um apoio. Felizmente, havia muita madeira sobrando por ali. Tateou o chão, em busca de algo em que pudesse subir. Olhou para a porta do quarto, ainda fechada. Achou uma tábua. Encostou-a no muro. Escalou-o com dificuldade. Olhou de cima do muro para o chão negro. Alto. Muito alto. Mas, o que fazer? Tinha de saltar. Olhou mais uma vez para a porta do quarto. Ninguém saíra ainda. Ninguém também à porta da casa de Catarina. Tomou fôlego. Saltou, receoso. Mas, para sua surpresa, não se machucou. Aterrissou em terreno macio, estava inteiro. Esgueirou-se até sua casa, ali ao lado. Entrou no pátio, tão familiar. Abriu a porta dos fundos. E logo estava de volta à segurança da sua própria residência.

Entrou pela cozinha. Acendeu o lampião. Ainda estava ofegante. Apanhou um garrafão de vinho da despensa e uma caneca do armário. Serviu-se de uma dose generosa. Bebeu em grandes goles. Suspirou. Encheu de novo a caneca. Caminhou com ela até a sala. Sentou-se à escrivaninha. Olhou para o globo sem vê-lo. O que havia acontecido exatamente? Não tinha bem certeza. Catarina o amava? Não dissera que o amava. Mas o amava, ficou mais do que evidente que o amava. Aquele beijo… Walter sorriu, ao lembrar-se. Aquele beijo… Como faria para tê-la? Para tirá-la do açougueiro? Oh, Cristo, por que tudo era tão difícil? Mas, ao mesmo tempo, que novidade esplendorosa em sua vida. Agora, tudo parecia ter sentido. Tudo parecia ter cor e calor. Que bom que havia decidido invadir a casa maldita.

Levantou-se. Caminhou até o quarto, ainda com a caneca de vinho na mão. Olhou para o daguerreótipo de Maria Augusta, aberto sobre o criado-mudo. Lembrou-se de quando tinham feito o retrato com um daguerreotipista ambulante que viera do Rio de Janeiro. Walter havia economizado alguns meses para pagar o trabalho. Ficara perfeito. Lindo. Ali estava o pequeno estojo de bronze aberto como um livro, guardando no fundo, atrás de uma parede de vidro, o seu tesouro: o retrato de sua amada. Um milagre da tecnologia. As novas fotografias eram mais simples, mais baratas e duravam muito mais tempo, é verdade, mas a arte do daguerreótipo continuava insuperável. Walter apanhou o estojo com uma mão. Equilibrou-o entre o indicador e o polegar. Murmurou:

– Você entende, Maria Augusta… Você entende…

Então, os gritos cortaram a noite, mais uma vez.

– Nãããããããão! Nããããããão!

Walter quase deixou o precioso daguerreótipo de Maria Augusta cair. Recuperou-se a tempo. Depositou com calma o estojo e a caneca no criado-mudo, o coração aos saltos. Sentou-se na cama.

– Nããããããõ! Nããããããão!

Walter cobriu os ouvidos com as mãos.

A dança da sobrevivência

21 de janeiro de 2014 4

Do que um homem precisa, quando acorda de manhã?

Do que um homem re-al-men-te precisa?

É óbvio: precisa do beijo da mulher amada e de scrambleds, necessariamente nessa ordem.
Mas, por infortúnio cultural e geográfico, brasileiros não estão acostumados com scrambleds matinais, embora beijos de mulheres amadas sejam plausíveis. Scrambleds, você sabe: ovos mexidos.

Existem preconceitos proteicos no Brasil, e é por isso que os scrambleds foram banidos das mesas de café da manhã de Porto Alegre a Manaus, com exceção das de hotéis e pousadas, que anseiam por seduzir estrangeiros. Então, os grandes scrambleds da minha vida ocorreram em viagens e é por isso ora trato deles: porque estou indo passar uma temporada no Grande Irmão do Norte, a terra abençoada dos scrambleds, do bacon, do hot-dog e da Megan Fox.

Mas terá sido um norte-americano o iluminado inventor dos scrambleds? Ou tal iguaria foi concebida na pátria-mãe, a Velha Álbion? O omelete, sei que sim. Séculos atrás, respirava na Inglaterra um rapaz chamado Oswald Mellet. Amante da boa mesa, tanto gourmet quanto gourmand, seu sonho era abrir um restaurante, mas os pais dele queriam que fosse médico. Obediente, o jovem Oswald cursou medicina, formou-se com honras e, por fim, apresentou o diploma aos pais orgulhosos. Só que não montou o consultório, e sim o restaurante. E, numa ironia tipicamente britânica, pregou na parede uma placa com os dizeres: “Dr. O. Mellet”. Como sua casa era especializada em pratos com ovos, a receita principal passou a ser designada pelos clientes como… omellet. Donde, omelete.

Será que o doutor Mellet servia scrambleds em seu estabelecimento? Tenho de pesquisar.

Em todo caso, já provei excelsos scrambleds na terra da rainha. Uma vez, em Edimburgo, na Escócia, a dona da pensão em que me hospedava perguntou, ao café da manhã:

_ Quantos ovos você vai querer?

E eu:

_ Um, obrigado.

Ela:

_ Quantos ovos você vai querer?

Eu, desconfiado do meu inglês, escandindo as sílabas:

_ Just one, thank you.

_ Quantos ovos você vai querer?

Eu, mostrando o indicador espetado no ar:

_ Um! Um! Um!

Ela, balançando a cabeça:

_ Um homem do seu tamanho não pode comer apenas um ovo de manhã.

Eu, humilhado:

_ Dois ovos, por favor.

Devia ter pedido scrambleds.

Mas o melhor scrambled da minha vida não o comi em hotéis ou pousadas, não o comi nem em minha própria casa ou na da mãe ou na da avó, sublime cozinheira. O melhor scrambled da minha vida foi um scrambled improvável.

Estava em missão jornalística no alto dos Andes colombianos, 4 mil metros acima do nível do mar, num povoado em que restavam tão-somente 12 famílias _ os outros moradores haviam fugido da guerra das Farc. Passava da meia-noite, nosso carro havia quebrado, nós não tínhamos como continuar a viagem para cima nem para baixo, não existia transporte no lugar, nem posto de abastecimento, nem polícia, nem prefeitura, nem nada, e ninguém abria as portas para nós, em obediência ao toque de recolher da guerrilha. Estávamos, eu, o motorista colombiano e o fotógrafo José Doval, cansados, famintos e com frio. Então, batemos com insistência à porta de um pequeno armazém, e o dono atendeu. Explicamos nossa situação e ele aceitou nos ajudar. Conseguiu-nos cobertores, ligou um grande rádio de ondas curtas, serviu-nos uma cachaça branca colombiana e foi para a cozinha. Voltou de lá com latas de sardinha abertas e scrambleds numa panela. Comemos feito leões devorando gnus. Comemos feito feras. E depois, ouvindo a música alegre que se evolava do rádio, dançamos na madrugada andina, os três em volta à mesa como índios, enrolados nos cobertores, para divertimento do dono do armazém. Dançávamos, veja só. Dançávamos como se estivéssemos na festa mais louca, alegres pelo acolhimento, por aquela saborosa refeição, por estar vivos.

Foram os scrambleds da minha vida. Scrambleds de sobrevivência.

É assim. As coisas boas da vida ocorrem nos momentos e nos lugares mais imprevisíveis. Era para ser só um chopinho, e foi um encontro encantador. Minha intenção era ficar 15 minutos, e agora não saio mais daqui. Era um autor desconhecido, mas para mim virou um clássico. E até o Gauchão pode vir a ser uma grande alegria, por que não? Você não sabe onde vai encontrar os scrambleds da sua vida.

Medo

20 de janeiro de 2014 0

Som de Segunda

20 de janeiro de 2014 1

Túnel do Tempo: Apalparam as costas de Bel - Último capítulo

20 de janeiro de 2014 0

Outra vontade que se derramava alma afora de um dos condenados do elevador enguiçado era a de Lili.

O que Lili queria?

Lili queria bater em quem lhe batera. Pois bateu. Atingiu o supervisor Noel com um soco bem no meio do nariz.

Ele se curvou gemendo e, no movimento, encostou-se em Rafael, que, no afã de acoplar-se em Lili, acoplou-se no supervisor. Encaixou-se em Noel como se fosse um cachorro possuindo uma cadela no cio, e ganiu:

— Acoplei! Gostosa! Acoplei! Gostosa! Acoplei! Acoplei! Acoplei!

Foi quando se romperam em definitivo todos os freios da civilização. Tudo contribuiu para que as normas de convívio social se diluíssem: o confinamento em espaço tão limitado, a proteção da escuridão e sobretudo aquele grito de me apalpa!, me apalpa!, um grito que anunciou o cruzamento do Rubicão da moral, um grito a dar a deixa de que todos ali podiam fazer o que ninguém pode fazer: o que tinham vontade de fazer.

E então a bunda de ferro de Bruna foi alisada, beliscada e, o impensável, mordida. Bruna, ao contrário de tirar a retaguarda do raio de ação do mordedor-beliscador-alisador, empinou-a mais, sorveu o prazer que aquelas mãos, aqueles dentes e aquela língua lhe davam, mas também golpeou com sua bolsa os flancos de alguém, não sabia quem, ela queria era fazer algo a respeito, e fazia: batia. Mas não no mordedor-beliscador-alisador, e sim no supervisor Noel, que naquele instante também apanhava de Lili e era agarrado por Rafael, o virgem, que o acolplara, e, em meio a tudo isso, alguém, ninguém soube quem, gemia:

— Me bate! Me bate!

Já o contador Ilson, ele conseguiu: afagou as costas de Bel, afagou-as com vontade e sofreguidão, prensando-a contra a porta do elevador, impedindo seus movimentos, quase que a possuindo à força, enquanto ela repetia:

— Me apalpa… Me apalpa…

Era demais: havia quatro mãos a apalpar as costas de Bel, quatro mãos que ora se roçavam, dedos sobre dedos; ora entravam em luta, uma tentando afastar a outra; mãos que a princípio disputaram aquelas costas, mas que logo entraram em um acordo implícito e mudo e concordaram em partilhá-la e aproveitaram cada centímetro daquelas costas, prensaram Bel, afofaram Bel, tomaram Bel, e Bel:

— Me apalpa…

Foi então que a energia voltou e, com a energia, a luz e, com a luz, a realidade insossa.

A porta do elevador se abriu. E as testemunhas do lado de fora viram uma cena dantesca: homens e mulheres comportando-se como se tivessem retornado a um tempo sem normas, sem leis, sem roupas e sem moral. Homens e mulheres que, por alguns segundos, deixaram-se possuir por seus desejos, realizaram-nos, fizeram apenas o que tinham vontade de fazer.

E foi horrível.

No momento em que a luz da Civilização incidiu sobre eles, eles compreenderam o que havia acontecido, no que tinham se transformado. Sentiram vergonha, deslizaram silenciosos para o mundo exterior, voltaram para as suas casas. E nunca mais falaram disso.

FIM

O pé

18 de janeiro de 2014 4

Vi que ele olhava para os pés dela. Para um pé, na verdade.

O direito.

Olhei-o também. Bom pé. Pé magro, de aparência macia, com dedos em harmoniosa escadinha subindo do mingo frágil ao dedão encorpado mas jamais rombudo.

Isso de pé. Não sou dos fanáticos por pé. Aprecio belos pés, claro, mas os desgraciosos não são eliminatórios para mim. Dizem que a Naomi Campbell tem pés horríveis, e isso não me impede de admirar o trabalho dela. E a Xuxa, há quem garanta que ela só usa botas por vergonha dos pés. Será? Tenho pensado nisso, volta e meia.

De qualquer forma, eu e ele olhávamos agora para o pé direito dela. Estávamos à espera de mesas num restaurantezinho da orla catarinense, eu num canto, eles noutro. Eles formavam um casal de namorados, supus. Ele mais velho, ela na glória de seus vinte e poucos anos. Ela estava numa cadeira mais alta, ele ao lado, num banquinho humilde. Ela havia cruzado as pernas, a direita por cima da esquerda, e por isso seu pé direito balançava com indolência no ar.
Ele, não o namorado, o pé, ele estava calçado com uma sandália baixa, amarrada ao tornozelo. Subia e descia, subia e descia devagar, até que ele, o namorado, não pé, até que ele o colheu.

Com delicadeza, o namorado interrompeu o vôo suave do pé direito da namorada. Tomou-o com as duas mãos, pela sola da sandália e pela base da canela. A namorada, do alto, olhou sem muito interesse. O namorado, então, levou aquele pé aos lábios, como se fosse um cálice de vinho consagrado, e o beijou. Beijou-o profundamente, com os olhos fechados de devoção, aspirando-lhe o perfume, e depois o depositou de volta ao ponto de repouso. O namorado ficou ainda fitando o pé adorado, satisfeito, e ela, a namorada, encheu os pulmões de ar e sorriu, iluminada, sentindo-se uma deusa, sentindo-se uma rainha, e eu, do meu canto, pensei que, das coisas que um homem pode fazer na vida, raras são tão belas, tão poderosas, tão grandiosas do que fazer uma mulher sentir-se uma deusa, uma rainha, porque, naquele momento, ela estará se sentindo, inteira, o que de melhor ela é: uma mulher.
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O papagaio

Dia desses, me aborrecia numa sala de espera e, na TV pendurada na parede a minha frente, passava o programa matinal da Globo. Vi a apresentadora, a Ana Maria Braga, conversando com um papagaio de plástico. Era uma conversa fluente. O papagaio fazia ponderações, a humana contra-argumentava, tudo muito tranquilo, muito racional. Admirei profundamente a Ana Maria Braga naquele instante. Eu não conseguiria ser tão natural ao interagir com um papagaio de plástico. No Pretinho Básico, quando falo com algum dos personagens, fico meio sem jeito. Mas a Ana Maria Braga, não. A Ana Maria Braga levava o papagaio a sério. Percebi que ela se importava com as opiniões do papagaio e que ele, de alguma forma, era essencial para o desenvolvimento do programa.

Minha admiração, então, elevou-se da competência profissional da Ana Maria Braga para a criatividade da raça humana em geral. Imaginei os homens e mulheres que bolaram esse programa reunidos, anos atrás, e um deles propondo:

_ Que tal nós colocarmos no ar uma mulher conversando com um papagaio de plástico de manhã cedo, todos os dias?

E os outros socariam as próprias mãos, exclamando:

_ Boa ideia!

E o programa iria ao ar e faria o grande sucesso que faz.

Não é genial? Que percepção do gosto popular! Que sensibilidade!

Um papagaio de plástico. Jamais pensaria nisso. Lembro do ratinho Topo Giggio, que contracenava com o Agildo Ribeiro e cantava meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá. Não era como o papagaio da Ana Maria. Não, aquele era um programa para crianças. E o papagaio da Ana Maria não é um personagem com aventuras próprias, como o Topo Giggio. Mesmo assim, deu certo. O Big Brother dá certo aqui como em nenhum outro lugar, os Sarneys dão certo aqui há 50 anos, por aqui os funkeiros ficam ricos, por que não um papagaio de plástico conversando com uma senhora? O Brasil, de fato, é um país generoso.