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Posts de fevereiro 2014

A tarefa de matar

28 de fevereiro de 2014 41

Passei seis ou sete Natais da minha vida na casa do Laírson e da Moema Kunzler, na Zona Sul de Porto Alegre. Segunda passada, o Laírson foi assassinado com um tiro na cabeça na entrada do condomínio onde fica esta mesma casa de tantos Natais.
Laírson era um homem bom, e não há elogio maior que se possa fazer a um homem. Não há novidade no que aconteceu com ele. O Brasil é um país violento e, dentre todas as suas cidades, Porto Alegre é das mais violentas.
Havia uma tese de que a violência seria consequência da miséria. Não é, e os números o provam _ a miséria diminui a cada ano, a violência aumenta a cada dia. Há muitíssimos países mais pobres do que o Brasil e muitíssimo menos violentos.
A violência brasileira é cultural. É moral. O Brasil está falido moralmente.
Imagine que o Estado, o Grande Pai Provedor, segundo a crença dos brasileiros, imagine que o Estado, tornado ainda mais rico graças ao petróleo das profundezas, destinasse a cada brasileiro R$ 10 mil por mês até o fim da vida. Resolveria os problemas do Brasil? Não. O Brasil ia piorar. Todos os bandidos, vigaristas, oportunistas e corruptos deste país teriam mais dinheiro em que se refocilar, teriam mais mercado para se repoltrear. Você pode reunir todos os dólares do mundo, e com eles não conseguirá comprar meio quilo de integridade.
A relação do brasileiro com o Estado é doentia. O brasileiro espera que o Estado resolva todos os seus problemas e responsabiliza o Estado por todos os seus males, enquanto os comandantes do Estado não sabem como lidar com o povo brasileiro: os da direita o negligenciam, os da esquerda o vitimizam.
E aí está. Assaltos e roubos existem em quase todos os países, é verdade. Mas assaltos à mão armada, em menos. Assaltos à mão armada com sequestros e execuções, menos ainda. E o tipo de crime que atingiu o Laírson, em pouquíssimos rincões deste vasto e triste mundo. Porque o homem que matou Laírson foi de um profissionalismo seco. Ele tinha um objetivo: tomar o dinheiro que estava numa bolsa dentro do carro. Quando Laírson pisou no acelerador, colocou-se entre o bandido e seu objetivo. O bandido resolveu o problema da forma mais prática: disparou cinco tiros, feriu Laírson de morte, parou o carro, pegou a bolsa e foi embora. Missão cumprida.
Quer dizer: ali estava uma pessoa que, para alcançar seus fins, utiliza quaisquer meios. A vida de outro ser humano, para ele, não é objeto de ponderação. Tanto faz matar ou não matar.
Homens assim, brasileiros assim, estão em toda parte. Você deve ter cruzado com alguns no supermercado, se irritado com eles no trânsito, pode ter trocado palavras com um ou outro numa fila de repartição, num show, num bar da Cidade Baixa.
Qual é a culpa deste homem, além do óbvio crime que cometeu? Qual é o seu problema, que é também o problema deste país?
Ele não sente, ele não pensa. Essa é a culpa. O outro, para ele, não está em suas considerações. Ele não sentiu, ele não pensou, ele não sabe que o ato dele fez diferença, que mudará a vida de outras pessoas que com ele partilham o oxigênio da Terra. Ele não pensou que Laírson tinha uma mulher que o amava, a doce Moema, e três filhos. Não pensou nas dezenas, centenas de amigos que o prantearam no velório. Não pensou, não pode ter pensado em todos os que ficaram sofrendo pelos que sofrem por Laírson. Não pensou que os Natais na casa da Zona Sul nunca, nunca mais serão os mesmos.

Som de Sexta

28 de fevereiro de 2014 0

Pra um dia de chuva

27 de fevereiro de 2014 0

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 24

27 de fevereiro de 2014 0

“Um vulto saiu de trás de um grande plátano”

O anspeçada maldito nunca mais vai voltar a falar com o Walter, prometeu Catarina a si mesma, enquanto enviava a Brasiliano o sorriso mais cativante do seu estoque. Notou que o sorriso surtiu efeito. Teve até a impressão de que o bigodão do outro chegou a tremer. Ficava a cada dia mais enojada com a tolice dos homens. Só pensavam em fornicar. O único homem realmente diferente que havia encontrado era Walter.

Por Walter, deixaria aquela vida. Jurara que só ia enviar mais uma única vítima para Ramos. Por ironia, a vítima seria um dos amigos do seu Walter. Catarina suspirou. Walter sentiria a perda, claro, mas era necessário. Como ficar com ele se o maldito anspeçada começasse a contar histórias a respeito dela? Liquidar o anspeçada tornara-se indispensável. Para arrematar, pediria a Ramos que carneasse o cachorro também. Cachorro alcaguete, desgraçado.

Já estavam perto da rua do Arvoredo. Mais um tantinho, e seria o fim do anspeçada fofoqueiro. Nesse meio tempo, resolveu aproveitar para saber um pouco mais a respeito do seu Walter.

– O senhor é muito amigo do sapateiro, não é?

Brasiliano a encarou, surpreso. Teria ele desconfiado de algo? Bem, que desconfiasse. Não iria ter muito tempo para fazer conjecturas mesmo.

– É meu melhor amigo, de fato.

– Hmmm… E que tipo de homem ele é?

– Como assim?

– É boa pessoa? É honesto? Pergunto isso porque estou sempre levando sapatos para o conserto. Não sei se posso confiar no preço dele ou se devo procurar outro sapateiro.

– Aaaah… – o anspeçada pareceu aliviado. – A senhora pode ter toda a confiança. Não existe nenhum sapateiro como ele na cidade, ninguém é tão competente e honesto. Pode confiar!

Catarina sorriu, encantada com a ingenuidade de Brasiliano. Dobraram a esquina da rua do Arvoredo, enfim.

Então, um vulto saiu detrás de um grande plátano plantado a alguns metros da esquina e avançou na direção deles.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 23

26 de fevereiro de 2014 0

“Entravam nus nas águas do oceano”

Cheirosa. Ela provavelmente tomava banhos. Não era um hábito muito comum. Todos sabiam que banhos faziam mal para a pele, eliminavam a oleosidade natural que protegia a epiderme. Muitas doenças eram atribuídas ao excesso de banhos.

O amigo Walter tinha o costume de se banhar todos os sábados. Contara-lhe inclusive que na Europa os médicos receitavam banhos de mar, que coisa tão estranha. Fazia uns dez anos que esses banhos esquisitos eram moda no Velho Continente. Os europeus branquelas chegavam à areia, tiravam a roupa e entravam nus nas águas do oceano. Os homens numa praia e as mulheres em outra, claro. Se bem que, segundo Walter, os franceses, sempre eles, haviam inventado recentemente trajes especiais para banhos de mar. O das senhoras se constituía em uns calções de lã e uma blusa negra que lhes descia abaixo dos joelhos, apertada por um cinto de couro; o dos cavalheiros se resumia a uma espécie de macacão listado de marinheiro. Assim, franceses e francesas podiam compartilhar dos banhos marítimos, algo que Brasiliano julgava apenas modismo passageiro.

Já Walter estava realmente habituado aos banhos. De tina, não de mar. Mas Walter era um homem diferente, Brasiliano sabia. Walter gostava de ler, de ficar em casa, não procurava as chinas nem em caso de extrema secura. Um homem diferente. Porém, amigo exemplar. Não existia amigo como Walter. Por ele, Brasiliano matava ou morria. Banhos, no entanto, se situavam acima da sua capacidade de sacrifício. Banho, uma vez por mês, quando muito. Mas aquela loira, ah, ela era adepta de banhos, com certeza. O cheiro que emanava dela era cheiro de banho. Podia não ser saudável, mas era agradável, Brasiliano precisava admitir. Dava vontade de agarrá-la ali mesmo, na rua do Arroio, quem sabe valer-se da escuridão de algum beco próximo. Brasiliano imaginou-se possuindo-a de pé mesmo, ela encostada na parede, ele forcejando, penetrando-a, rasgando-a ao meio.

Mas não. O melhor mesmo era ir para a casa dela. Fazer a coisa com calma. Refocilar-se naquelas carnes brancas, de preferência na cama do casal. Esse era um detalhe indispensável: na própria cama do casal. Oh, como Brasiliano ia ficar feliz de cornear o açougueiro.

Não gostava nada de Ramos. Um tipo belicoso. Sabia que havia sido policial, algo assim. Um mal-encarado, mal-humorado. Como descobrira aquela pedra preciosa no meio do pedregulho da província, isso é que Brasiliano não conseguia explicar. Bem, agora estava prestes a se transformar num cornudo clássico, e isso é que importava.

Olhou mais uma vez para Catarina. Sorveu o cheirinho fresco dela. Como havia sido fácil… Sempre cobiçara essa mulher. Os amigos Walter e Antunes volta e meia também elogiavam o andar dela, seus olhos claros, seus lábios carnudos, seu cabelo fino. O que ela estaria fazendo ali? Seria a primeira vez que percorria a rua dos Pecados Mortais? Teria ela saído de casa especialmente para chifrar o açougueiro? Brasiliano chegou a se empertigar de contentamento ao conceber essa ideia. Tinha lógica. O açougueiro a tratava mal, e, numa noite em que ele ia pousar fora, ela resolveu sair para se vingar. Quem sabe até… Brasiliano levantou as sobrancelhas. Quem sabe até ela o seguira, a ele, Brasiliano! Claro! Olhou para Januário, que caminhava ao seu lado. Era isso que Januário pressentira no jardim lá embaixo, na rua do Arvoredo: ela estava escondida entre as árvores, esperando Brasiliano passar para segui-lo! Era isso! Sim! Era isso! Ela sempre o desejara, e nessa noite teve a oportunidade. Estava decidida a trair o açougueiro com ele! Lembrou-se da teoria do amigo Antunes a respeito das loiras, que, segundo ele, transformariam a província num continente de cornos irremediáveis. Por Deus, Antunes tinha razão. Quem poderia confiar numa alemoa dessas? Olhou para ela. Enviava-lhe um sorriso cativante, de fazer eriçar todos os pelos do seu basto bigode. O recado do sorriso era claro: pecado! Ela queria pecar. Que noite o aguardava! Que noite! Precisava contar aquilo ao Walter. No dia seguinte, a primeira coisa que faria seria ir à sapataria do amigo para relatar sua aventura.

O Grêmio no bom caminho

26 de fevereiro de 2014 23

Luan, Wendell, Ramiro. Quanto eles custaram ao Grêmio? Nada. São os heróis do time no jogo de ontem, são titulares absolutos, estão consagrados com a torcida.
Wendell parece o mais maduro, o mais firme e o mais completo deles. Se não se arrepender, será Seleção Brasileira. Luan tem qualidades para ser um meia-atacante desses que o Brasil não tem mais. E Ramiro é um Tinguinha, um jogador útil que cresce a cada partida.
Foram descobertos e ganharam lugar no time porque o Grêmio não tinha dinheiro e não podia contratar nenhum medalhão que bloqueasse seu caminho. Marcelo Grohe quase se perdeu assim, mas a direção teve bom senso, deixou Dida sair e agora Marcelo Grohe já é uma afirmação. É assim que se monta um time vencedor. Com os talentos da base, com descobertas de fora, como Alan Ruiz, Maxi Rodriuguez, Riveros e Dudu, mais alguns já reconhecidos, como Rhodolfo, Edinho e Barcos.
O Grêmio está no bom caminho.

A fúria do céu

25 de fevereiro de 2014 7

O céu não se enfurece como o amor tornado em ódio.

Li essa frase algum dia, em algum livro. É de um poeta americano. Ou inglês. Gostei da frase, cito-a de vez em quando para causar impressão na mesa do bar. Meus amigos vasculharam os intestinos do Google e não acharam o autor. Dizem que a frase é minha, que estou mentindo com essa história de poeta inglês. Por que mentiria? Gostaria que fosse minha, me exibiria com ela por aí, dedo em riste, sobrancelha esquerda levantada. Mas não é. Pena.

O céu não se enfurece como o amor tornado em ódio.

Bonito. E verdadeiro.

Nunca odiei um ex-amor, não sou homem de ódios. De suaves desprezos, talvez. De indiferenças cansadas, certamente. Mas já cheguei ao estágio da raiva, tendo antes passado pela tristeza profunda, pela humilhação abjeta, pela tristeza de novo e pela raiva outra vez.

A fase do ódio mais poderoso do que o céu negro da tempestade não me alcança porque, de repente, passo uma noite inteira cevando a desilusão dentro de uma garrafa de cerveja, chego em casa de manhã, ouvindo o canto dos pássaros e vendo as pessoas praticando jogging em cima de tênis com dez amortecedores, adormeço concluindo que estou em plena decadência, só que sem elegância, e, no dia seguinte, surpresa… não penso mais nela. E se passa outro dia e ela não dói mais em parte alguma e então vou olhar para dentro do meu peito e lá não encontro nada. Não existe mais amor, nem dor. Só o vazio. O que aconteceu com aquele amor forte como a morte, como entoavam os cantares de Salomão? É que até o amor maior do mundo apodrece de rejeição.

Um alívio. Mas também uma tristeza. Porque aquele amor, mesmo que doesse, tornava a vida grande.

Já não há mais dor, já não há mais sofrimento, mas agora a vida é menor. Porque a função do amor romântico é essa: é tornar grande a vida. Tudo na sua vida é pequeno, tudo é comezinho, depois que você morrer a lembrança do seu nome se dissipará na poeira dos anos como se você não tivesse respirado debaixo do sol, mas, se você viveu um amor poderoso, se você foi capaz de entregar a alma para outro ser humano, ah, então houve algo de grande na sua existência. Então valeu a pena. O amor existe para nos fazer imortais.

Mas se nem o amor lhe sobrar, se você, como eu depois de uma madrugada de fogo e desafogo, sentir o peito vazio, sempre há o auxílio luxuoso das crenças mundanas ou sacras do ser humano. A religião. A política. Ou a paixão do futebol. Porque é essa também a função do futebol: engrandecer a vida. Aquele jogo que reúne em hora e meia tanto drama, tragédia, comédia, fracasso, glória e decepção, como um romance, aquele jogo lhe dá a ilusão da grandeza. É por isso que o futebol é caro ao povo brasileiro, que quase sempre vive uma vida tão sem sentido, tão rés do chão. É por isso que a Copa do Mundo deste ano será um sucesso. É por isso que quem protestar contra a Copa será escorraçado pelo povo como se fosse um corrupto que leva dinheiro na cueca. Porque, pelo menos por um momento, o povo brasileiro vai se sentir grande. Como se vivesse um amor mais forte do que a morte, mais furioso do que o céu que se enfurece.

*******

SINTONIA ESPIRITUAL

Havia uma sintonia quase espiritual entre Luan, Dudu, Ruiz e Barcos, sábado, contra o Novo Hamburgo. Eles não corriam, eles levitavam. Eles bailavam em meio ao desespero dos marcadores. E a torcida gania de prazer.

Quem os viu no sábado decerto quererá que Enderson os escale todos juntos, sempre e sempre.

Mas era contra o Novo Hamburgo, que não está nem na série B. Era Gauchão. Era começo de ano.

A vida não é tão fácil, ah, não é mesmo.

Aconteceu no verão

22 de fevereiro de 2014 5

Sua mesa era pequena, mesa para dois, colada à parede do bar. Ela bebia um copo de cerveja e, às vezes, num gesto casual, espetava com um palito azeitonas pretas ou cubos de queijo amontoados num pires.
Era terça-feira. Noite de tango no Odeon.
O bandoneonista, o velho Rafael, pequeno e encurvado debaixo de seus cabelos totalmente brancos, parecia remoçado, parecia um adolescente, agora que se deleitava ao tocar seu instrumento e ao ouvir os aplausos dos poucos clientes do bar. E Dionara, a pianista, Dionara se transformava em uma diva do Prata quando os dedos corriam sobre as teclas brancas e pretas.
Ela, a moça da mesa ao lado, ouvia a música sozinha e calada, e bebia sem pressa a sua cerveja. Tinha um rosto bonito, os cabelos presos num coque amarrado na nuca e vestia-se como se estivesse em casa: uma camiseta larga sobre as calças jeans. Depois de alguns minutos, colheu o copo da mesa, levantou-se e caminhou até a porta. Parou na calçada. Encostou-se à parede do bar. Apoiou o copo numa espécie de guarda da porta e acendeu um cigarro. Ficou olhando os músicos, ouvindo o tango, fumando. O vento lhe desalinhava os cabelos, e ela vez ou outra enchia os pulmões com o ar da noite. Em meio a um tango mais triste, entre tantos tangos tristes, ela entreabriu os lábios e seu rosto enrubesceu de leve. Então, vi. Seus olhos ficaram rasos d’água. Não chegou a chorar. Quase. Mas não chegou a chorar. Terminado o tango, ela voltou à mesa colada à parede, pediu a conta, pagou e saiu em silêncio, carregando, devagar, o peso da sua nostalgia.

NA PISCINA
Meu filho Bernardo, de seis anos, foi convidado para refrescar-se do calor sul brasileiro na piscina da casa de uma amiguinha da mesma idade. Lá estavam ele, a amiga e outra menininha encostados na borda da piscina, quando uma delas desafiou:
_ Vamos ver quem chega mais rápido à outra borda?
O B desdenhou:
_ Não, não… Estou muito velho pra essas coisas…

NO MUNDO DO FACEBOOK

Nos calores dos albores de fevereiro, entrei no Facebook. Meu fake cedeu-me generosamente a senha da minha própria página e passei alguns dias fresteando por esse novo e estranho mundo.
Juro que nunca cevei preconceitos contra o Facebook, meu problema é falta de tempo. E, olha, reconheço e festejo sua utilidade. As pessoas têm necessidade de se expressar, e nem todo mundo escreve em jornal e fala na rádio e na TV. Trata-se de uma ferramenta tão poderosa que muitos dos meus colegas jornalistas confundem redes sociais com imprensa. São coisas diferentes. As redes sociais inevitavelmente têm de ser horizontais e a imprensa inevitavelmente tem de ser vertical e… mas isso é conversa técnica. Não interessa.
O que interessa é o mundo palpitante do Facebook. Que nem sempre é palpitante. Ora é, como diria o Eça, uma maçada, não muito diferente do real, vivido no dia a dia, no olho no olho. Mas em um aspecto é um mundo especial: é nele que as pessoas dizem como gostariam de ser e como querem que os outros as vejam. Cada post, cada foto tem um recado subjacente, uma informação sobre aquele ser humano. Valeria um estudo antropológico e psicológico mais profundo. Que eu não teria competência para fazer.
Resta-me o desfrute. Que não é pouca coisa. Neste lufa-lufa, como diria o José de Alencar, descobri ninguém menos do que ela…
…A Rainha do Facebook. Chama-se Isadora Neumann, trabalha na Zero Hora e, nunca pensei que diria isso de uma pessoa, posta como poucos postam. Isa lança pela vida digital diamantes diários. Zuckerberg deveria pagá-la por isso. Aprenda:

“No bar.
_ Bruna, por que na tua comanda está escrito “Carol”?
Bruna:
_ Porque tô entediada.”

“Acabei de usar ponto e vírgula. Pronto. Virei uma pessoa séria”.

“Ontem eu descobri que “saudade” não existe só em português, e agora eu não acredito em mais nada que me dizem”.

“Problemas da era digital.
Bruna Scirea está P da cara porque não consegue enviar e-mails para FêCris que está sentada na sua frente”.

“Por um mundo com brigadeiro de cerveja”.

“E eu sempre achei que couve era alface”.

“Não vou revelar onde estou, mas respeito muito um estabelecimento onde a senha do wi-fi é DEPUTAMADRE”.

“Só agora me dei conta: não existe onço, só onça”.

Viu? O mundo digital pode ser mais colorido.

Som de Sexta - III

21 de fevereiro de 2014 2

Gal também arrasou nesse clássico de Dolores Duran e Tom Jobin.
Ah, meu bem, nunca mais nos deixe, por favor…

Som de Sexta - II

21 de fevereiro de 2014 0

Ou o Rei:

Cadê a minha fada?

21 de fevereiro de 2014 9

Os manifestantes querem se manifestar. É uma ânsia juvenil, uma necessidade premente de se expressar. Na verdade, pouco importa contra o que o manifestante se manifesta, desde que a manifestação seja ruidosa e ele possa gritar ao mundo como tudo está errado, como ele é contra o que está aí, seja lá o que estiver aí.
A badalada (desculpa) Sininho não é uma menina; é uma mulher de 28 anos que tem como atividade na vida ser ativista. Quer dizer: é uma manifestante profissional. É a prova viva do sucesso das manifestações. Porque uma manifestação, no Brasil de hoje, não acontece para que seja alcançado um objetivo. Acontece por acontecer. Era um meio, tornou-se um fim em si mesmo.
Pegue o exemplo das manifestações contra a Copa do Mundo. “Não vai ter Copa”, ameaçam os cartazes dos manifestantes. Por que eles não querem a Copa? Porque, supostamente, o Estado gastaria em estádios um dinheiro que poderia ser usado na Saúde e na Educação.
Certo.
Mas o dinheiro já foi gasto, R$ 7 bilhões em arenas pelo país. Mesmo assim, os manifestantes gostariam que não saísse a Copa e fazem protestos e prometem continuar fazendo protestos até que o último alemão tenha voltado para Berlim, depois da final no Maracanã. Ora, eles sabem que seus protestos não impedirão a realização da Copa, nem que o brasileiro se entusiasme com os jogos. Qual, então, seu objetivo? Protestar! Aí está: o protesto pelo amor ao protesto.
Essa rebeldia social é sedutora. Sinto uma vontade imensa de sair protestando por aí. Até porque as coisas estão erradas, sempre estiveram erradas e sempre estarão. Estão erradas no capitalismo; estariam ainda mais erradas no comunismo, se comunismo existisse; estão erradas no governo paternalista do PT, em que metade da alta cúpula definha na cadeia por corrupção; estavam erradas no governo autoritário da direita, que prendia e torturava quem lhe fazia oposição; erradas seriam no socialismo moreno de Brizola, no capitalismo regulado dos países nórdicos, no comunismo capitalista da China, na ditadura da Coreia do Norte, na confusão do Afeganistão.
Alguém é culpado por essa angústia, alguém é culpado porque a vida não é maior, alguém é culpado porque ela não é quem achei que ela fosse, alguém é culpado porque alguém não está aqui, alguém é culpado porque a vida não é perfeita, o fim de semana não foi perfeito, porque nem um único dia é de fato perfeito. Alguém tem que pagar por isso! Onde estão as Sininhos que me defendam? Em que estrela se escondem as fadinhas da minha vida? As coisas não tinham de ser assim, Sininho. Trabalhar, pensar, estudar, se esforçar, todos os dias, todos os dias, isso não é para nós. Definitivamente, isso não é para nós.

Som de Sexta

21 de fevereiro de 2014 0

Pra você

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 22

20 de fevereiro de 2014 1

“O Robin Wood dos Pampas”

Um, dois, três, quatro, cinco.

Meia-volta.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Meia-volta.

Um, dois, três, quatro, cinco.

Ramos cobria a distância do quarto em cinco dos passos de suas longas pernas. Andava de um lado para outro, ansioso, mãos às costas. Gostava de caminhar enquanto pensava. Quanto tempo fazia que Catarina havia saído? Hora e meia, talvez duas. O açougue precisava se reabastecer para uma encomenda feita pelo novo clube da cidade, o Leopoldina Juvenil. Haveria uma grande festa no próximo mês. Ramos teria de produzir muita linguiça, trabalhar duro durante semanas, mas ganharia um bom dinheiro.

Dinheiro.

O dinheiro se tornava cada vez mais importante em sua vida. Ramos sempre fora pobre. Seu pai, Manoel Ramos, havia nascido na Província de São Pedro e servira na cavalaria de Bento Gonçalves durante a Guerra dos Farrapos. Em meio à luta, porém, desertou, cansado que estava das degolas, do sangue, dos sacrifícios impostos aos combatentes. Fugiu para Santa Catarina e montou uma venda de secos e molhados na ilha do Desterro, lugar tão belo quanto precário.

A venda mal permitia o sustento de Manoel, a mulher e os três filhos, o mais velho deles batizado de José. As privações eram muitas. A casa onde viviam não passava de uma choça imunda. Suas roupas, de tão velhas, se reduziam a trapos. José e seus irmãos andavam descalços. Nos rigorosos invernos da ilha, tiritavam de frio.

À noite, Manoel contava histórias da guerra para os meninos. José se encantava com as descrições das degolas dos inimigos capturados, pedia que o pai as repetisse e, ao dormir, sonhava com as cenas de sangue e crueldade.

Foi certamente para suportar a vida insossa naquela ilha esquecida por Deus no sul do Brasil que Manoel passou a beber. Todos os dias exagerava na canha, batia nos filhos, batia na mulher, gritava impropérios e ameaças. Uma noite, furibundo, avançou contra a mãe. Espancou-a com violência. José assistia à cena. Pedia ao pai que parasse com aquilo. O pai não parava. José pulou sobre ele. Lutaram. O filho deu de mão numa faca de churrasco e enfiou quinze centímetros da lâmina afiada no corpo do pai. Passados dois dias, Manoel morreu. O filho parricida fugiu para a Província de São Pedro.

Em Porto Alegre, José Ramos sentou praça como soldado da polícia. Dono de grande força física e alguma argúcia, saiu-se bem na função. Tornou-se homem de confiança do chefe de polícia da província, o nordestino Dario Callado. Executava as funções consideradas de risco. E sempre a contento. Além disso, era um dos poucos policiais da cidade perenemente atento aos movimentos dos negros, pormenor deveras apreciado por Callado. Ramos não permitia que negros ou pardos andassem nas calçadas ao lado dos brancos. Exigia que os cadáveres dos cativos fossem logo retirados das ruas para serem sepultados, o que se tratava de uma medida higiênica – amiúde, quando um escravo morria, seu relapso proprietário se livrava do corpo simplesmente rojando-o em algum terreno baldio perto de casa, como se fosse lixo. Orientado por Callado, Ramos procurava o dono, pedia que recolhesse o defunto, que lhe providenciasse um sepultamento cristão.

A carreira policial de Ramos trilhava por um caminho ladeira acima, até que ele deparou com Domingos José da Costa, o célebre Campara, chamado “o Robin Wood dos Pampas”. Como Ramos, Campara nascera em Santa Catarina. Assaltava o grande comércio e as casas dos nababos da região serrana de Lages. Depois, distribuía parte da féria entre os pequenos agricultores dos altos da serra do rio do Rastro. Sua fama se espalhou pelo Sul do país. Caçado sem tréguas pela polícia catarinense, homiziou-se na Província de São Pedro, onde continuou a trajetória de filantropo fora da lei. Foi então que o nome de Campara se transformou em lenda.

Ao entardecer de cada dia, os moradores das cidades da província se reuniam nas calçadas com suas cadeiras. Sentavam-se a sorver chimarrão. Para se distrair, contavam histórias uns para os outros. De preferência, histórias de terror.

Como as da voz misteriosa.

Um caixeiro havia chegado cansado a um lugarejo do interior. Ao pedir pouso, o dono da única estalagem do lugar lhe informou que não havia mais vagas. Só restara um quarto tido e havido na região como mal-assombrado. O viajante sentia mais cansaço do que superstição. Arrostou:

– Não tenho medo de assombração.

O estalajadeiro tornou a advertir:

– Muita gente se assusta.

– Não tenho medo!

Pois bem. O estalajadeiro cedeu o quarto ao caixeiro. Minutos depois, o viajante entrou no quarto, asseou-se e se preparou para dormir. Estava se deitando quando uma voz tenebrosa brotou de algum lugar no teto:

– Olha que eu caaaaio…

O caixeiro, assustado, procurou quem falava. Não havia ninguém. A voz repetia:

– Olha que eu caaaaio…

Ao que o caixeiro replicou:

– Então cai!

E, de algum ponto indistinto do teto, caiu um braço. O caixeiro olhou para o braço inanimado no assoalho de madeira, mas não fez sequer menção de afastar as cobertas aconchegantes. Nenhum fantasma iria lhe roubar o sono aquela noite. Assestou a cabeça no travesseiro. Já ia dormir, indiferente ao braço no chão do quarto, quando a voz, de novo:

– Olha que eu caaaaio…

– Pois cai! – desafiou o caixeiro desassombrado.

E de algum lugar desabou uma perna.

Nem assim o homem se deixou levar pelo pânico. Relaxou. Tentou dormir. Então:

– Olha que eu caaaio!

– Cai, desgraçado! Cai!

Outra perna veio sabe-se lá de onde.

Assim prosseguia a história. O narrador gesticulava, os ouvintes sorviam o mate em silêncio. As crianças captavam nesgas do conto sentadas no chão, em volta das cadeiras, os olhos redondos de espanto. Para elas, os adultos sempre reservavam os casos da Mão Preta.

À noite, a Mão Preta se arrastava pelas casas feito uma tarântula, subia nos peitos das crianças, esganava adultos que haviam praticado maldades. De onde vinha a Mão Preta, o que era, por que fazia o que fazia, isso ninguém explicava.

Havia ainda o famoso caso da serpente que mamava leite humano. Um caso verdadeiro, juravam. Ocorrido numa dessas colônias alemãs. A jovem dona da casa dera à luz recentemente. Depois do almoço, o marido voltava para a roça, ela tirava a mesa e amamentava o nenê. Amamentava sempre sentada na varanda, encostada confortavelmente na parede da casa. Enquanto o nenê se alimentava, ela aproveitava para tirar a sesta. Mal sabia que, acampanada em algum desvão do pátio, a serpente a observava. Assim que a mulher dormia, a serpente se movimentava. Rastejava solertemente até ela. Contraindo os poderosos músculos do corpo, escalava os degraus, alcançava a mãe adormecida. Com todo o cuidado, a cobra afastava a criança do seio, abocanhava ela própria o mamilo e enfiava seu rabo na boca do nenê. A criança ficava mamando no rabo, a serpente no seio. Essa operação se repetiu por semanas. A criança emagrecia sem que os pais entendessem o porquê. Uma tarde, o homem voltou mais cedo para casa, por um motivo qualquer. Deparou com a cena horrenda: a serpente enroscada entre sua mulher e seu filho, sorvendo o leite que seria da criança, logrando a mãe adormecida. Pé ante pé, ele foi para dentro da casa. Retornou com um facão. A cobra, pressentindo o perigo, tentou saltar para a segurança do mato. Mas o homem foi mais rápido em sua fúria para proteger a família. De um golpe, dividiu a cobra em duas. Do corpo ondulante espirrou leite em quantidade suficiente para amamentar um bezerro, molhando tudo e todos em volta.

Incrível, incrível.

Agora, ninguém podia duvidar do ocorrido com aquele sujeito que caminhava solitário por uma dessas estradas poeirentas do interior. Chovia e trovejava, o homem estava encharcado até a medula. Lá adiante, numa curva distante do caminho, surgiu um carroção funerário, negro e sombrio, puxado por uma parelha de cavalos baios. O caminhante fez sinal para que o carroção parasse. Havia dois homens na boleia.

– Bons dias. Podiam me dar uma carona?

– Só tem lugar lá atrás – e o condutor apontou com o dedo para a carroceria.

– Não tem problema.

O homem foi para a parte de trás do carroção. Aboletou-se. Lá encontrou um grande, negro e acolchoado caixão de defunto vazio. Como estava frio e ele se sentia cansado, pensou ser aquele um local quente e confortável o suficiente para ele repousar, embora reconhecesse que era também um tanto funesto. Acomodou-se no caixão e dormiu profundamente.

Meia hora depois, novo caminhante fez sinal na estrada. O carroção parou.

– Carona?

– Só tem lugar com o outro, lá atrás – respondeu o condutor.

Com o outro. O caminhante considerou um tanto sinistro ter que viajar na companhia de um morto. Mas não havia alternativa. A estrada era erma, o carroção fora o primeiro veículo que passara em horas.

Aceitou.

Embarcou nos fundos do carroção e seguiu viagem. Durante longos quinze minutos, ficou observando o corpo do outro, assaltando-lhe de vez em quando a desagradável impressão de que ele se mexera, ou que respirava. Aquilo lhe dava arrepios.

Então, o primeiro viajante despertou.

Piscou os olhos, sentou-se no caixão, olhou para seu companheiro de viagem e cumprimentou:

– Como vai?

O homem não esperou o carroção parar. Saiu correndo pela estrada, aos berros, e só parou para contar o caso na cidade mais próxima.

Histórias da Província de São Pedro. Entre essas, poucas eram tão apreciadas quanto as do Campara, o justiceiro dos oprimidos, o Robin Wood dos Pampas. O Campara caminhava pelos telhados das casas, silencioso como se tivesse os pés almofadados do gato; o Campara iludira um pelotão inteiro da Força Policial que o cercara quando do assalto a uma fábrica de chapéus; o Campara escapara por milagre dos soldados depois de preso e bem-manietado. O Campara distribuíra o produto de um roubo milionário numa vila paupérrima. O Campara salvara uma família da fome com a doação de uma carga surrupiada de uma caravana de carreteiros. O Campara era o herói dos descamisados da Província de São Pedro.

Mas um dia o Campara foi enfim preso, em Santa Maria, e mandado para Porto Alegre.

Uma noite em que estava só, cuidando da cadeia, Ramos decidiu conhecer o preso famoso. Queria olhá-lo na cara, ver de onde vinha toda aquela esperteza. Reconhecia que talvez a celebridade do outro o incomodasse. Um fora da lei, um ladrão vulgar, era amado pelo povo. Por que aquilo?

Ramos parou diante da porta gradeada. Levantou o lampião, iluminou a figura sentada no fundo da cela. Campara ergueu a cabeça, os olhos piscos. Ramos se deteve alguns segundos, observando. Não conseguia distinguir com clareza o rosto do outro, imerso na escuridão. Enfiou a chave na porta da cela. Abriu, fazendo retinir a grande chave contra a fechadura. Entrou. Campara se aprumou no catre, na defensiva. Ramos parou à soleira. Caminhou dois passos. Descansou o lampião no assoalho da masmorra.

– Então você é o famoso Campara – comentou, mãos à cintura. – Não parece grande coisa.

Campara suspirou, como se a frase do carcereiro o tivesse desanimado. Não disse palavra.

O silêncio do preso irritou Ramos.

– Pra mim você é um bosta! – berrou.

Campara se encostou na parede, tenso, procurando demonstrar serenidade. Nem sequer olhou para o policial.

– Um bosta! Está ouvindo?

Olhos fechados, Campara dava a impressão de estar dormindo.

– Estou falando com você, seu bosta! Está me ouvindo? Seu bosta! – Ramos agora estava quase que sobre o Campara, gritava a meio metro do ouvido do bandido, os perdigotos lhe saíam da boca e respingavam no outro, que não mexia um músculo.

– O que você acha disso? – berrou ainda mais Ramos, sacando a adaga da cintura, brandindo-a diante do rosto do preso. Queria fazê-lo reagir. Queria que o Robin Wood da província mostrasse o quanto era covarde. Que implorasse por sua vida. – Que tal se eu te abrisse a garganta agora, seu bosta?

Nada. Nenhuma reação.

O desdém do assaltante foi-lhe aumentando a raiva, de tal forma que logo Ramos já estava em estado de fúria absoluta.

– Desgraçado! – urrava. – Desgraçado!

Tomou os cabelos de Campara com a mão canhota, derrubando-o do catre, colocando-o de joelhos no chão da cela. Puxou a cabeça para trás, como faziam os degoladores na Guerra dos Farrapos, preparou-se para lhe rasgar um talho de orelha a orelha. Campara agora não estava mais indiferente. Olhos arregalados, a boca muito aberta, em pânico, antevendo a morte certa, sentindo já a lâmina que se lhe encostava no pescoço e lhe dilacerava a carne, sentindo o sangue que brotava. Campara não hesitaria em suplicar por clemência se desconfiasse que isso seria o suficiente para deter o carcereiro. Ia realmente gritar, ia se humilhar, quando uma mão salvadora segurou o braço do verdugo.

– O que é isso, Ramos???

Dois policiais tinham ouvido os berros do lado de fora do prédio. Na porta da cela, um grupo de populares assistia à cena, olhos arregalados de pavor. Campara ficou caído ao solo, em estado de choque, com o pescoço sangrando, mas vivo.

Havia testemunhas demais. Ramos foi banido da Força. Continuou fazendo bicos como informante de Dario Callado, submeteu-se a prestar servicinhos de segunda categoria, como espancar negros desobedientes ou dar lições em adúlteros. Até conhecer Catarina. Ela mudou sua vida. Com Catarina, Ramos ingressou num mundo completamente novo. Um mundo de perigo, de prazer e também de dor. Foi Catarina quem lhe apresentou o açougueiro Carlos Claussner, na época seu amante. Em dois meses, Ramos aprendeu o ofício de açougueiro e passou a se cevar ardentemente nas carnes tenras de Catarina. Que fêmea! Cada vez mais, Claussner estava sobrando naquela história. Foi nele que Ramos usou pela primeira vez o machado, seguido da degola a facão. Um fim rápido e preciso. Ramos tomou posse do açougue. E de Catarina.

A questão do corpo de Claussner, como dar sumiço no cadáver do açougueiro, foi que lhe inspirou a preparar a linguiça especial. Ramos havia esquartejado o cadáver e pensava na maneira de se livrar das partes quando lhe veio a ideia de transformá-las em linguiça. Era genial. Perfeito. Além disso, saber que toda aquela chamada gente bem da cidade comeria carne humana e se transformaria em canibal lhe dava enorme prazer. Ramos finalmente se vingava de todas as privações que havia passado em sua vida. Descarnou o cadáver de Claussner, fez a linguiça e a expôs no açougue. Para sua imensa surpresa, a linguiça foi um sucesso. Ramos a oferecia às pessoas, elas levavam para casa e voltavam ao açougue, comentando a delícia que era a linguiça, perguntando onde eram criados os porcos abatidos para confeccioná-la. Porcos, agora veja. Ramos considerou interessante essa informação. Provou ele próprio da linguiça, depois de fritá-la com banha. Cortou um naco de três dedos de largura, espetou-o no garfo e provou, de pé, na cozinha, assistido pela curiosidade verde-azulada do olhar de Catarina.

– Que tal? – ela quis saber.

E Ramos, olhando para o teto, saboreando:

– Parece porco mesmo…

O que mais haveria de comum entre porcos e seres humanos?

Enfim, Ramos percebeu que poderia amealhar um lucro bem razoável com aquele novíssimo negócio. E estava ganhando dinheiro mesmo. Tudo com relativa segurança. Não havia corpos. A carne era comida pela cidade, os ossos ele punha a diluir lentamente em ácido fosfórico. Nas vezes em que o ácido lhe faltou, ele enterrou os ossos no quintal, mas assim que tivesse tempo os desenterraria e os dissolveria no tonel.

Para o sumiço de Claussner, Ramos deu a explicação de que o açougueiro se mudara para o Uruguai. Explicação perfeita: o próprio Claussner andara comentando pela cidade que tinha vontade de se mudar para Montevidéu. Os outros, ninguém os tinha visto entrando na casa número 27. Os únicos problemas eram o tal alemão Rech e o magricela Duarte. Alguém os vira perambular pela rua do Arvoredo. Ruim. Péssimo. Mas o pior era o caso do tal Rech. Um alemão. O consulado da Prússia devia ter pressionado o chefe de polícia. Menos mal que Dario Callado confiava nele. Pediu que ele, Ramos, ficasse atento a qualquer movimentação estranha nas imediações. Teria de tomar mais cuidado. Justamente agora… agora poderia enriquecer. Aquela Rosa, a mulher do padeiro Antunes, ela é que lhe franquearia os salões da burguesia porto-alegrense, ela é que lhe encheria a bolsa de contos de réis. Com o rendimento da padaria de Antunes, somado ao do seu açougue, Ramos poderia enfim frequentar os saraus requintados e apreciar a música que tanto amava, a música que o levava às lágrimas nos espetáculos do Theatro São Pedro. A música, sim. Quem sabe Ramos pudesse comprar um piano inglês, incrustá-lo no meio da sala, como já tinha visto nas casas dos ricos. Quem sabe ele até aprendesse a tocar. Sorriu com a ideia. Imaginou-se músico, participando de uma das apresentações do maestro Mendanha no São Pedro.

Mas, para isso, teria de dar cabo do padeiro gordo. Não seria difícil. Tinha tudo planejado. Atrairia Antunes para a sua casa, lhe fenderia a testa com o machado, o converteria em linguiça da boa. Passados alguns dias, casaria com Rosa. Também essa parte do plano estava bem amanhada. Meses antes, conseguira se aproximar de Rosa, valendo-se da ganância da mulher. Toda vez que ela ia ao açougue, Ramos comentava acerca de sua própria prosperidade, de como o açougue ia bem, das oportunidades que surgiam. Rosa se deliciava com assuntos financeiros. Falava da padaria, sobre os progressos que também ela e Antunes faziam, apesar da natureza pouco ambiciosa do marido.

Ramos não alimentava a menor dúvida: se providenciasse o desaparecimento do padeiro, em breve casaria com ela e tomaria conta da padaria. Catarina? Sem problemas. Continuaria morando na casa da rua do Arvoredo sob seus auspícios, seria sua teúda e manteúda. Estava tudo muito bem-alinhavado na sua cabeça.

Aliás, Catarina. Quem será que Catarina traria para alimentar o fio de seu machado? Quem seria o boi daquela noite? Ramos achou que ela demorava demais. Mantinha os ouvidos atentos a qualquer movimentação na casa. Assim que percebesse Catarina entrando com o gado, se enfiaria no armário e ficaria esperando. Sabia que, minutos depois, assistiria à loira sendo possuída por um estranho. Após a sessão de luxúria, Ramos desceria ao porão pelo compartimento secreto que ficava atrás do armário. A partir daí, era só esperar o sinal de Catarina, a batida do garfo contra o vidro do copo. E o alçapão seria acionado. A ideia já lhe rendia uma certa excitação.

Então ouviu um ruído estranho, vindo de dentro de casa. Parou de andar pelo quarto. Aguçou o ouvido. Prestou atenção. Não tinha dúvida. Alguém abrira a porta que levava ao porão.

Túnel do Tempo: Canibais - Capítulo 21

19 de fevereiro de 2014 2

“A porta proibida” 

Emiliana abriu cuidadosamente a porta do quartinho. Desde que tivera seu nenê, Catarina não a encerrava mais. Seria algum tipo de solidariedade feminina? Ou apenas descuido? De qualquer forma, sua nova liberdade serviria para descobrir o que acontecia na casa e se vingar do açougueiro. Fechou a porta devagar. Não fez ruído algum. Desceu os três degraus altos de tijolo que ficavam à porta do quarto. Ganhou o quintal. Avistou, na outra ponta do terreno, o sinistro tonel que agora a enchia de terror. Seguiu em frente, pé ante pé, desviando-se dos arbustos, do mato que jamais fora cortado, do lixo todo que os patrões relaxados deixavam atulhando o caminho. Chegou à porta da cozinha. E se estivesse trancada? Teria de voltar e esperar nova oportunidade. Isso a afligia. Nos dias seguintes, Catarina talvez voltasse a passar a chave na porta do seu quartinho. Então ela seria obrigada a proceder suas investigações durante o dia, o que seria muito mais perigoso. Não tinha a menor dúvida de que algo muito ruim aconteceria com ela se Ramos a flagrasse no porão. Além do mais, não queria prolongar sua estada naquela casa. Não, não, a porta tinha de estar aberta.

Experimentou o trinco.

Aberta.

Emiliana sorriu. Levou a mão ao peito, satisfeita e nervosa. O coração ribombava no peito, furioso. Entrou na cozinha. Encostou a porta com o máximo de suavidade. A casa estava às escuras. Depois da cozinha, ela teria de atravessar o corredor, que levava a novos corredores, onde ficavam os quartos. Calculava que os patrões estivessem ali. Chegaria, então, à sala de estar e, finalmente, à porta que conduzia ao porão.

Foi em frente devagar, experimentando cada passo, deixando que seus olhos se acostumassem à escuridão. Ao passar pelo corredor que dava para os quartos, ouviu som de passos. Passos pesados, nervosos. Ramos. Acordado, ainda. Devia desistir? Devia voltar para o seu quarto? Parou, hesitante. O coração lhe batia na garganta. Chegou a girar a cintura para retornar à segurança de seu quartinho, mas no mesmo instante censurou-se pela covardia. Não! Não seria mais covarde. Desta vez, agiria. Seguiria em frente.

Seguiu.

Tateando no escuro, usando a parede como referência, ela atravessou o corredor, entrou na sala, passou pela grande mesa de jantar, caminhou mais alguns passos vacilantes e chegou ao seu objetivo.

A porta proibida.

Levou a mão ao trinco de bronze, um trinco em forma de pata de leão. Abriu a porta. Piscou. Diante dela, uma comprida escada de madeira que descia até a escuridão. Suspirou. A angústia lhe oprimia o peito. Mas tinha decidido. Seria corajosa. Agora que estava lá, não teria motivo para voltar atrás. Desceria aquelas escadas. Virou-se. Levou a mão trêmula ao trinco. Empurrou a porta para fechá-la. E, desta vez, achou que fez algum ruído. Não teve o mesmo cuidado de antes. Sobressaltou-se. Levou a mão ao peito. Ficou alguns segundos escutando, angustiada. Só ouvia seu sangue latejando na cabeça. Virou-se novamente. Desceu o primeiro degrau.

Chuvas de verão

18 de fevereiro de 2014 10

david1802Quando os trovões rolavam detrás do Morro do Alim Pedro, ribombando por toda a Zona Norte como se fossem os tambores da banda do Colégio São João, quando as nuvens cinza-chumbo começavam a avançar da lomba da Plínio em direção à Assis Brasil como um esquadrão de bruxas voadoras, quando o ar denso de fevereiro se tornava fino e agitado, e a gente sabia que, em minutos, desabaria uma redentora chuva de verão, quando isso acontecia, todos nós gritávamos:

– Vamos pro campo! Vamos pro campinho! Porque um dos prazeres do verão é jogar bola na chuva. E então tínhamos surpreendente facilidade de encontrar bola, porque bola era coisa cara na época. Mas, para jogar na chuva, qualquer bola servia, e nós íamos para o campo carregando uma já bem gasta, bem velhinha, pendurada por um gomo solto, feito um lóbulo de orelha. O jogo na chuva era jogo diferente. Não era jogo para ganhar, nem para jogar o jogo jogado, era jogo de dividida, de bola no meio da poça, de vinte guris num único lance. Naquele tempo eu amava a Alice. Ah, eu a amava profundamente e sabia que seria para sempre e que nos casaríamos e teríamos filhos. Nosso amor não ter durado para sempre e não nos casarmos nem termos filhos é uma das derrotas da minha vida. Por que, Alice? Por quê? Alice. Fazia tudo por ela. Mas, se Alice me chamasse num dia de chuva de verão, se ela me chamasse naquele momento em que estávamos marchando para o campinho, eu balançava a cabeça:

– Não vai dar, Alice. Ela que se contentasse com amor eterno, mas quem diz que mulheres se contentam com amor eterno? Há certos prazeres nossos que elas jamais entenderão. O prazer de rir com os amigos, de contar histórias, de sacanear o outro e rir e rir e chutar uma bola que tranca na lama e correr para dividir a bola com seu amigo que vem bufando do lado de lá, feroz como um zagueiro do Guarany de Bagé, e fazer a água subir como um chafariz de barro e respingar e tudo ficar enegrecido e só a bola continuar no mesmo lugar e rir e rir e, depois que o tempo amainar, voltar para casa preto e sorridente da cabeça aos pés, feliz, feliz, feliz. Como elas vão saber disso? Como elas vão compreender o deleite que é jogar bola em meio a chuvas de verão?

Culpa da Fifa

Existe nos intestinos das redes sociais uma campanha de brasileiros bobinhos para eleger a FIFA “a pior empresa do mundo”. Coitada da Fifa. Ela estava quieta lá no canto dela, contando seus euros, quando os brasileiros vieram pedir para fazer a Copa do Mundo de 2014. A princípio, a Fifa ficou em dúvida, havia outros candidatos, fortes e bons, mas era talo entusiasmo dos brasileiros que eles venceram. Pelé e Lula comemoram a Copa do Mundo no Brasil pulando abraçados, como se um deles tivesse marcado um gol. Lindo. Depois disso, os problemas começaram. Era para ser oito sedes, o Brasil quis 12. Nada fica pronto, alguns dizem que vão quebrar tudo quando os jogos começarem, aquele lá não quer pagar a conta, o outro só faz se o Estado ajudar, prefeitos cancelaram a Fanfest porque é muito cara, cidades estão atafulhadas de obras inacabadas, como se tivessem sido bombardeadas pela RAF. E a culpa disso tudo, de quem é? Da Fifa. Pobre Fifa, que só queria fazer seu campeonatinho, ganhar seu dinheirinho. Nunca pensei que diria isso. Pobre Fifa.