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Posts de março 2014

Abel e seus centroavantes

31 de março de 2014 26

Na sexta-feira, o pessoal da Editoria de Esportes da Zero me perguntou o que eu achava da decisão de Abel de tirar Wellington Paulista e escalar Rafael Moura. Respondi sem um décimo de segundo de hesitação, dedo em riste, queixo empinado, ponto de exclamação no fim da sentença:

— É um erro!

Benfeito para mim.

Abel conhece o seu centroavante, apostou nele e ganhou.

Mas há um atenuante a meu favor: também a pedido da Editoria de Esportes, escrevi um pequeno texto tentando descobrir qual dos dois times chegava melhor ao Gre-Nal. Comecei o texto afirmando que “centroavante ganha Gre-Nal”.

E ganha, não é mesmo? Todos os gols deste Gre-Nal foram de centroavantes.

Sorte de Abel, que tem dois.

Competência de Abel, que sabe escolher entre eles.

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Enderson e seus erros

No primeiro Gre-Nal do ano, 1 a 1 na Arena, iniciou-se um ciclo para o Grêmio: Enderson Moreira achou um time sustentado pelos três homens de contenção no meio-campo e descobriu uma promessa de craque: Luan. O Gre-Nal de ontem, 2 a 1 para o Inter também na Arena, talvez não feche este ciclo, mas expõe deficiências até então não vistas no time e no técnico. Deficiências sérias.

A primeira é do próprio Enderson. Ele não teve agilidade mental suficiente para mudar seu time em meio à partida, quando estava claro que o Inter viera diferente do intervalo. Pior: nos momentos em que Enderson mudou o time, mudou errado. Dudu jogava muito mais do que Luan. Se algum atacante tivesse de sair, seria Luan. Depois, Enderson colocou Maxi Rodriguez e deixou Jean Deretti no banco até os 40 minutos. Você sabe, eu sei, todos sabem que Deretti tem sido muito mais agressivo e efetivo que Maxi em 2014. Enderson não sabia.

A segunda deficiência está no coração da zaga do Grêmio. Werley devia estar marcando Rafael Moura nos dois gols. No segundo, o centroavante chegou a se agachar para cabecear. Mais grave ainda: no primeiro tempo, houve um lance exatamente igual, e Marcelo Grohe defendeu de forma quase inverossímil. Há um furo aí. Enderson precisa tapá-lo.

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A volta do vestiário

O Inter voltou do recôndito do vestiário decidido a estancar as jogadas que o Grêmio fazia pelas pontas, no segundo tempo.

D’Alessandro foi jogar na direita, quase de lateral; Alex na esquerda. Aránguiz avançou até a intermediária de ataque. E, a partir daí, tudo aconteceu. Com as saídas de jogo trancadas, o time do Grêmio começou a errar passes. Enderson não soube reagir, devia ter tentado algo não convencional.

O quê? Bem, normalmente, quando um time bom de toque de bola, como é o Grêmio, fica impedido de tocar a bola, a saída é botar no time um centroavantão que segure os zagueiros e possa aproveitar a bola aérea. Só que o Grêmio não tem esse centroavantão. O Grêmio só tem um centroavante, Barcos, e é muito difícil ser campeão com um centroavante só.

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Grohe, o salvador

Foto: Diego Vara/Agência RBS

Foto: Diego Vara/Agência RBS

O Grêmio foi melhor no primeiro tempo. O Inter foi muito melhor no segundo tempo. Certo. Dito assim, parece que o jogo foi igual: 45 minutos para cada um. Não foi. O Inter foi bem mais perigoso. Se não fosse Marcelo Grohe, o Grêmio poderia ter levado uma goleada no primeiro Gre-Nal decisivo do Gauchão.

Abel ganhou o Gre-Nal

30 de março de 2014 50

O grande vencedor do Gre-Nal deste domingo foi Abel Braga.
No segundo tempo, ele interrompeu a saída lisa de bola do Grêmio com medidas muito inteligentes: colocou D’Aessandro bem aberto na direita, quase como um ala, e Alex bem aberto na esquerda. No meio, ele fez Aránguiz avançar e jogar como armador, junto com Alan Patrick.
O Grêmio não conseguiu mais tocar a bola.
Enderson, por sua vez, ficou paralisado na área técnica, sem saber como reagir. Deveria ter mudado seu time logo no início do segundo tempo, quando tornou-se claro que o Inter viera diferente e mais agressivo. Enderson vacilou e, quando mudou, mudou errado.
Verdade que falta ao Grêmio o que sobra ao Inter: centroavante. O Inter tem dois, o Grêmio apenas um.
Aliás, eis aí outro acerto de Abel: ele apostou em Rafael Moura e acertou. Todo mundo achava, eu inclusive, que o melhor seria jogar com Wellington Paulista, mas Abel intuiu que o grande problema da zaga do Grêmio é a bola aérea, e por aí ganhou o jogo.
O Gre-Nal 400 foi o Gre-Nal de Abel.

Deu pra ti, anos 70

30 de março de 2014 8

codigodavid

Eu vi a prisão do Marcos Klassmann. Ele era barbudo e cabeludo como um urso, e seus captores carregavam-no por braços e pernas, e ele se debatia com fúria de fera.

Cena forte.

Agora me ocorre: será que foi assim mesmo? Será que foi exatamente como lembro? Faz tanto tempo, eu era um guri e a memória nos engana. A memória é um prédio erguido depois do fato ocorrido, e sua matéria-prima são sentimentos e ressentimentos, crenças e ilusões. Já vi mulheres que amei me transformando em um edifício torto na memória delas. Não sou tão ruim assim, queria gritar, e parar a construção. Não adiantava, os tijolos de desprezo já estavam sendo cimentados.

E eu, eu fiz de algumas mulheres rainhas, semideusas do amor e, mais tarde, quando o tempo me afastou delas e delas só restou a imagem, as reencontrei e percebi, com desalento, que aquele monumento ao ser humano só existia dentro de mim, que ali, na minha frente, havia só uma mulher… igual a todas as outras. Triste. Um homem precisa acreditar que a vida pode ser especial.

Então, não sei se foi bem da forma como contei que se deu a detenção do Marcos Klassmann pelos esbirros da repressão. O que tenho certeza foi do que pensamos sobre os alegados motivos para que o arrastassem de seu apartamento no IAPI: sua agressiva campanha a vereador de Porto Alegre. Imagine que o slogan do Marcos Klassmann era o seguinte:

“Vote contra o governo”.

Quer dizer: Marcos Klassmann estava sugerindo que as pessoas deviam ser contra o governo. Uma afronta. Todos sabiam, nos anos 70, que ninguém podia ser contra o governo, que ser contra o governo era ser contra o Estado, contra o país. Vote contra o governo, no raciocínio de quem estava no governo, equivalia a dizer: vote contra o Brasil. Traição, traição. Ame-o ou deixe-o.

******************

Vote contra o governo. Tão revolucionário na época, tão pueril hoje. A vida se sofisticou, desde então.

Em 79, uma pichação se espalhou por muros e paredes de Porto Alegre:

“Deu pra ti, anos 70″.

No ano seguinte, o Giba Assis Brasil lançou um filme com esse título, mas tenho quase certeza de que as pichações não eram marketing, não antecipavam o filme. Aquilo era de fato a expressão de quem tinha sofrido nos anos 70, como o Marcos Klassmann.

Nós, não. Nós não tínhamos sofrido. Éramos guris, e só o que queríamos era correr atrás da bola durante o dia e das meninas durante a noite. Quando o Marcos Klassmann foi arrancado de casa e levado para algum calabouço sombrio do regime, nenhum de nós ficou escandalizado. Assustados, sim; penalizados, certamente; escandalizados, não. Aquilo era normal. Para nós, funcionava assim mesmo. Nós só conhecíamos a ditadura.

******************

Para nós, não havia nada de estranho, por exemplo, na figura do “pistolão”. O pistolão era um protetor, um homem que gozava de algum poder ou de alguma influência e que, graças a isso, resolvia os eventuais problemas que você poderia enfrentar no trato com o Estado, que, afinal, era quase absoluto. O Estado mandava em tudo e em tudo se infiltrava. O Estado, durante a ditadura militar, era muitíssimo parecido com um Estado comunista, o regime que os militares queriam desesperadamente evitar. O pistolão era o agente oficioso do Estado. Oficioso, sim; jamais clandestino. As pessoas se orgulhavam de contar com a bênção de um pistolão forte. Eram apontadas com inveja na rua:

— O pistolão daquele lá é um general.

Essa era a vida. Ninguém nunca tinha nos dito que poderia ser de outra maneira. Mas os anos 70 passaram e com eles passou o nosso tempo de guris, e começamos a ver que o mundo não precisava ser como estava posto, que havia um tipo de vida diferente em lugares diferentes. Mesmo que as coisas tivessem sido sempre daquela forma, não queria dizer que deveriam continuar a ser daquela forma.

Faz 50 anos que aquele regime foi implantado e 25 que deixou de existir. Hoje, uma geração inteira, como aquela nossa, não sabe o que é viver sob uma ditadura. Não sabe que, numa ditadura, um homem pode ser tirado à força de sua casa e atirado numa prisão só porque disse ser contra o governo. E os que sabem que isso aconteceu, mas que ainda assim se dizem saudosos daquele regime, esses são vítimas dos tais truques da memória. O velho regime, para eles, é como a minha antiga rainha, a semideusa que um dia amei: só existe na memória. Porque, na realidade, uma ditadura é… igual a todas as outras.

******************

UM MÊS DE TANTAS FLORES

Elvis morreu nos anos 70.

Elvis, the pelvis.

Mas Elvis não era mais dos anos 70, nos anos 70 ele estava gordo, suado e usando aquelas roupas estranhas, brilhantes, com golas imensas. Os anos 70 começaram com Beatles, seguiram sendo Rolling Stones, que os Stones são intermináveis, estremeceram com os punks dos Sex Pistols, mas foram mesmo, mesmo, da Discoteque. Pelo menos para quem era guri na Zona Norte profunda de Porto Alegre.

John Travolta! As minas queriam que você dançasse como o John Travolta. Mas eu, que não sou de danças, o que poderia fazer diante daqueles concorrentes com cintura de borracha?

Poesia. Não minha, dos outros.

Foi aí que aprendi uns poeminhas para impressionar na noite. Chegava um momento em que o som baixava e eu atacava:

“Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh, minha infância nunca teve flores!”

Augusto dos Anjos. Se você é duro para dançar, apele para o Augusto dos Anjos.

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira

28 de março de 2014 8

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira:

Som de Sexta

28 de março de 2014 0

I believe… yesterday.

O jornalismo engajado

28 de março de 2014 12

Eu acredito no jornalismo. Falo do jornalismo ortodoxo, clássico, o jornalismo dos repórteres que salvam o Brasil na mesa do bar, o que tem por maior objetivo a busca da isenção e daquela entidade vaga e impalpável, a Verdade com vê maiúsculo.

Alguém dirá que cada um tem a sua verdade, que não existe uma única verdade.

Certíssimo. O mesmo fato é visto de formas diferentes por pessoas diferentes. É por isso que não existe imparcialidade. O jornalista é parcial porque ele enxerga o fato do seu ponto de vista, da sua parte. Mas ele pode, e deve, sim, tentar relatar o fato com isenção. Mesmo a opinião deve ser isenta, embora jamais seja, nem deva ser imparcial. Quer dizer: você dá a sua opinião com honestidade intelectual. Não há segundas intenções no que você diz achar. Você acha mesmo, é o seu pensamento, fruto de reflexão, não de pré-conceitos ou de, o horror!, interesses escusos.

Por isso, não acredito no jornalismo engajado, defendido por pensadores respeitáveis, como o Verissimo. Nem no jornalismo engajado da Revista Veja, nem no da Mídia Ninja. Não acredito no jornalismo engajado com boas nem com más intenções. O jornalismo engajado até pode ser sincero, mas não é honesto, porque não tem mais nenhuma ambição de isenção.

Alguém, aquela mesma pessoa que disse que cada um tem sua verdade, alguém dirá que num veículo que se anuncia isento o patrão tem sua posição, e que o patrão é mais forte do que o repórter.

Certíssimo de novo. Mas, se o patrão preza o seu negócio, se ele quer ganhar dinheiro com jornalismo, ele terá de preservar sua principal mercadoria, que é a credibilidade. Então, ainda que ele odeie e discorde do que um reporterzinho mixuruca escreveu ou falou, ele terá pruridos de se imiscuir na notícia, porque ele tem de preservar pelo menos a aparência de isenção. Um dono de jornal que quer ganhar dinheiro com jornal não pode admitir a censura ou a manipulação, e se ele censura e manipula, será escamoteando, será com vergonha daquele reporterzinho mixuruca que mora num quarto e sala na Azenha.

Hipocrisia. É o que salva o jornalismo, os casamentos e a civilização. Um repórter de mídia engajada não é um repórter; é um assessor de imprensa. Ele pode ter a convicção de que é um paladino dos oprimidos ou pode se contentar em ser um mercenário da informação, não importa: ele é um assessor de imprensa. Porque ele tem de ser de esquerda ou de direita, isso ou aquilo, ou não trabalhará no veículo engajado. E o repórter, acredite, sagaz leitor, o repórter é a estrutura óssea do jornalismo.

Enquanto existirem repórteres que saem à rua com a única intenção de ver, ouvir e apurar para, depois, relatarem exatamente o que viram, ouviram e apuraram, enquanto houver repórteres com esse espírito, repórteres de verdade, de bloco e caneta na mão, que passam o dia com o olho alerta para a grande pauta, que passam a noite lavando a poeira da garganta com cerveja e salvando o Brasil na mesa do bar, repórteres esfaimados, chatos, atrevidos e compassivos, enquanto houver repórteres assim, haverá jornalismo livre, e o jornalismo livre é a estrutura óssea da democracia.

Hipocrisia, sagaz leitor. Hipocrisia. A sinceridade rasga e fere. A sinceridade mata. A hipocrisia constrói.

Arbitragens prejudicaram Brasil e Caxias

27 de março de 2014 67

Brasil e Caxias foram prejudicados pelas arbitragens, na noite de quarta.
Grêmio e Inter venceriam mesmo sem os erros, tudo indica que sim, mas, se o gol de Luan fosse anulado e o pênalti de Paulão fosse marcado, seria bem mais difícil.
Um time pequeno vencer o maior num jogo fora de casa é tarefa complicada. Com erro de arbitragem, então, quase impossível.
O mundo não é justo, mas isso não anula a injustiça; isso é cinismo.
De qualquer forma, Grêmio e Inter são melhores, mereciam vencer, e um Gauchão deciddo em Gre-Nal é muito mais interessante.

Poesia na quarta

26 de março de 2014 3

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora, mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.

(Neruda)

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira

26 de março de 2014 0

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira

Gremistas reivindicam mesma isenção do Inter

25 de março de 2014 192

A aprovação do projeto de lei que prevê isenção fiscal de até R$ 25 milhões para empresas que bancarem as estruturas temporárias do Beira-Rio para a Copa em Porto Alegre alertou alguns dirigentes do Grêmio. Assim que ficaram sabendo da notícia, os gremistas começaram a confabular nos bastidores do clube na tentativa de, junto ao governo, protocolar projeto semelhante de isenção para empresas interessadas em “patrocinar” as obras do Centro de Treinamento do Grêmio no Humaitá.

A marcha que fracassou

25 de março de 2014 29

david2503

Foi um redondo e liso fiasco a reedição da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, sábado passado. Um punhado de saudosos da ditadura aqui, outro ali. Ainda bem.

Sou a favor da livre manifestação, mas esses caras pediam intervenção militar. Não dá para levar a sério quem pede intervenção militar. Ou talvez se deva levar a sério, sabe-se lá. Pouco antes da Redentora de 64, Castello Branco dizia e repetia:

— O Brasil não quer quarteladas.

Depois, ele foi o líder da quartelada de 1º de abril e o primeiro ditador de duas décadas de regime militar.

O importante é que as pessoas saibam que o Brasil não tem de escolher entre os Black Blocs e a Marcha da Família com Deus, há muitas opções, além de uma ponta e outra. A vida não é um Gre-Nal.

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O pior negócio do mundo

A Petrobrás comprou por US$ 1,2 bilhão uma refinaria em Pasadena que, no ano anterior, havia sido vendida por US$ 42 milhões. É como se você fosse pagar 3 milhões de reais por um JK na Azenha.

Próceres do governo garantiram que não houve desonestidade no caso, que foi apenas um mau negócio. Acredito, já disse que sou um crédulo. Mas eu, que não entendo uma única lhufa de refinarias e petróleos, eu que sou tão-somente um modesto contribuinte e um perplexo cidadão, eu fico pensando que os seres humanos que fizeram essa negociação são os piores negociadores da História da Humanidade, desde que o primeiro Homo Sapiens trocou um pernil de bisonte por um renque de bananas.

Se eles realmente são honestos e probos, se realmente são bem-intencionados, e devem ser, são também algumas das pessoas mais burras que já respiraram debaixo do sol.

Depois você se surpreende que as coisas deem errado nas obras da Copa do Mundo.

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O bom começo

Desde 2001, desde que Tite engastou o mais harmônico 3-5-2 da história do futebol brasileiro, inspirando a Seleção Brasileira de Felipão que ganhou a Copa no ano seguinte, desde aquela longínqua data o Grêmio não tinha um time de futebol tão escorreito como esse agora de Enderson Moreira.

Quer dizer que o Grêmio de Enderson jogará como jogava o time de Tite?

Quer dizer que conquistará o que o time de Tite conquistou?

Quer dizer que ganhará algum título?

Não. Não quer dizer nem que conseguirá de fato se transformar em um time de futebol competente e minimamente vitorioso.

Está no começo ainda, o time de Enderson. Mas num bom começo.

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Os melhores de uma era

Agora, com a reinauguração do Beira-Rio, todos andam escolhendo os melhores times do Inter que já jogaram no estádio e montando seleções com os jogadores que pisaram naquele gramado listrado desde 1969. Só que os melhores times do Inter que já jogaram no Beira-Rio foram um só: o time de 75/76, muitíssimo superior a quaisquer outros. O único time do Inter que rivaliza com aquele é o Rolo Compressor, mas esse era dos anos 1940 e fazia suas artes nos Eucaliptos.

De nenhuma seleção do Beira-Rio podem ficar de fora Manga, Figueroa, Falcão, Paulo César Carpegiani, Valdomiro, Claudiomiro e Lula. Os outros quatro? Cláudio pode ter sido o melhor lateral-direito da história do Inter, mas, sei lá, você pode fazer uma concessão para um Luiz Carlos Winck. Na zaga? Poderia ser o Marinho, mas também há Gamarra, Índio e Mauro Galvão. Na lateral-esquerda? Claudio Mineiro, talvez. E o último, o do meio-campo? Ruben Paz, D’Alessandro, Tinga, Fernandão… À escolha do freguês. Mas também poderia ser um Jair… Aquele Inter de 75/76 era uma seleção.

Código David: agora não existe mais homem

23 de março de 2014 4

codigodavid

Nas vascas da morte, Van Gogh clamava pelo amigo Paul Gauguin e, quando o fazia, referia-se a ele como “querido mestre”. Os dois moraram juntos em Arles. Passavam o dia pintando e discutindo, não raro brigando. Numa das brigas, Van Gogh sacou uma navalha e atacou Gauguin, que se esquivou a tempo. Van Gogh percebeu que se excedera e pediu desculpas em meio a lágrimas e soluços.

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Gauguin desculpou-o, mas, por cautela, mudou-se de cidade. Mais tarde, Van Gogh usaria aquela navalha em si mesmo. Gauguin era um idealista. Até os 35 anos, foi um pintor de fim de semana. Tinha uma bela mulher dinamarquesa e cinco filhos saudáveis, um bem remunerado emprego na bolsa de valores e respeito da sociedade. Mas sua paixão, realmente, era pintar. Então, largou tudo: mulher, filhos, emprego, prestígio, tudo, tudo para se tornar pintor em tempo integral. O que conseguiu com isso? Sofrimento, fome, doença e imortalidade. Valeu a pena? Bem, Gauguin não tinha a alma pequena.

Para desenvolver sua arte, Gauguin saiu mundo afora. Queria “viver como um selvagem”. Conseguiu. Pintou pelas esquinas mais sórdidas da Europa e pelos meandros da América Central. Acabou encantando-se pela paisagem feérica do Taiti. Tornou-se amigo dos maoris e amasiou-se com uma nativa. Pintava furiosamente, mas as misérias da existência faziam-no infeliz. Estava endividado, fraco e doente.

Um dia, tentou envenenar-se com arsênico, mas tomou uma dose excessiva e sobreviveu, não sem antes penar com dores excruciantes. Por fim, desentendeu-se com um militar branco, foi processado, condenado e preso. Morreu na cadeia, balbuciando:

— Agora não existe mais homem.

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Pintores. Já cevei projetos de escrever um livro sobre pintores. São seres humanos intensos. O título do livro seria essa frase derradeira de Gauguin, “agora não existe mais homem”. Pode ser interpretada de várias formas, o que é muito estimulante. Talvez começasse por Gauguin, recuasse um nada até os mestres impressionistas, muito mais até os renascentistas, avançasse de novo em direção aos cubistas e, entre idas e vindas, certamente passaria, e com orgulho, pelo meu amigo Ivan Pinheiro Machado. O Ivan é um hiperrealista. Observe a reprodução de um de seus quadros sobre Nova York, e se enleve. A partir de 7 de abril, você poderá vê-los a um metro de distância — o Ivan vai expor no Espaço Cultural Citi, em pleno bulício da Avenida Paulista. Essas coisas não são para qualquer um. O profundo conhecimento da arte não é para qualquer um. Se fosse, me aventuraria no projeto do livro sobre pintores. “Agora não existe mais homem”. Que frase poderosa. Que belo título.

As galinhas e o capitalismo

david2303_02A vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude. É claro que o fato de ela ser corcunda não é importante, decerto estou fazendo alguma coisa muito errada, isso de já na primeira frase, antes mesmo de citar o nome da pessoa, contar que ela é corcunda, e nem duvido que uma associação de defesa dos corcundas vá reclamar de mim, ou talvez queira me processar, mas, antes que alguém se enfureça, deixe-me explicar: eu era pequeno, quando dona Gertrude era vizinha da minha avó, e por essa razão o fato de ela ser corcunda me marcou muito, crianças são impressionáveis, não que aquela corcunda me atemorizasse ou enojasse, longe disso, a corcunda me fascinava, gostava que minha avó tivesse uma vizinha corcunda, sim, aquilo era interessantíssimo para mim, portanto, enfatizo com mais um golpe de dois pontos: respeito muito Dona Gertrude, sua descendência e todos os corcundas da cidade, mas, quando penso na antiga vizinha da minha avó, sempre me vem à cabeça: ela era corcunda e foi tão-somente por esse motivo que escrevi e torno a escrever, sem nenhuma maldade: a vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude.

Elas moravam em casas contíguas, os quintais apartados por uma cerca de madeira, e ambas criavam galinhas, o que é relevante para o que vou contar a seguir. Havia certo contencioso entre a minha avó e a Dona Gertrude. Por que, nem sequer suspeito. Essas coisas de vizinhos. Sei que era algo não dito, algo escamoteado. Publicamente, minha avó e Dona Gertrude pareciam cultivar relações amistosas, mas, em privado, elas se acicatavam. Uma rivalidade surda e quase sempre inofensiva, até que minha avó descobriu uma forma solerte e especialmente dolorosa de atacar Dona Gertrude: quando uma das galinhas dela, da Dona Gertrude, passava a cerca para o lado de cá, minha avó a capturava e, em um segundo, sem piedade, torcia-lhe o pescoço.

De um único golpe, executava a galinha desgarrada, que falecia sem um có. Ato contínuo, minha avó levava o corpo para a pia da cozinha e escaldava-o com água fervente, para lhe retirar as penas. Ainda hoje lembro do cheiro enjoativo de pena queimada. Aquela galinha sequestrada infalivelmente seria servida no domingo, com arroz. Uma delícia, mas tantas vezes repetida que me tornei infenso a pratos com galinha e demais aves pelo resto da vida.

Você pode dizer que minha avó era uma ladra de galinhas vulgar. Nada disso. Minha avó estava empenhada numa guerra de guerrilhas. Uma guerrilheira, era isso que ela era. Na verdade, ela fazia uma expropriação da galinha do inimigo para lhe abalar o moral. E dava certo. Lembro de quando minha avó e Dona Gertrude levavam as cadeiras para a calçada e ficavam sentadas em frente das respectivas casas. Dona Gertrude, de repente, lamentava:

— Minhas galinhas andam sumindo…

Minha avó retrucava:

— Tem que cuidar bem das suas galinhas…

E meu avô, que não sabia de nada, coçava a cabeça:

— Que conversa é essa?

— Nada, nada — despistava a minha avó. E passava-lhe o mate. Uma guerrilheira. Uma sagaz, ladina, invencível guerrilheira. Vendo hoje os black blocs acreditando que quebrar vitrine de banco pode derrotar o capitalismo, percebo o quanto eles teriam a aprender coma minha avó.

O que penso sobre quem quer a volta da ditadura

21 de março de 2014 53

Você quer saber? Vou deixar bem claro: é uma imbecilidade isso de ter gente que diz sentir saudade da ditadura militar. Desculpem-me os que cultivam este sentimento repugnante, tenho certeza de que muitos de vocês não são idiotas, mas pensar algo desse jaez é uma rotunda idiotice.
Defender uma ditadura, qualquer ditadura, é uma rotunda idiotice, a não ser que o ditador seja você. Ou melhor: a não ser que o ditador seja eu. Você que, por favor, defenda a minha ditadura, ou mando prendê-lo, que é o que fazem os ditadores.
Agora tem o seguinte: enquanto eu não for o ditador, não fique defendendo outros. Sei que o país está num momento de radicalismos, mas está sendo noticiado de que há gente que quer repetir a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e que esse negócio vai acontecer neste sábado no Rio, em São Paulo e em outras cidades do Brasil.
Aí é demais.
É demais!
Marcha da Família com Deus pela Liberdade!
Espero não conhecer ninguém que vá nesse troço. Vamos fazer assim: eu não vou argumentar, não vou ficar gastando o meu tempo e o seu com ponderações. Só vou dizer uma coisa: quem quer a volta da ditadura militar e vai na rediviva Marcha da Família com Deus pela Liberdade talvez não seja estúpido, mas está querendo algo muito estúpido e fazendo algo muito estúpido. Então, se você não quer sair de estúpido, imbecil, idiota, paspalho, néscio, torpe, anta, abobado e burro por aí, não pense e faça essas coisas. Deixe para me apoiar, quando eu for ditador.

Som de Sexta

21 de março de 2014 1

O grande Bob:

Brasileiro não gosta de pobre

21 de março de 2014 16

Você sabe por que o corpo daquela mulher foi arrastado de carro por PMs no Rio? Aconteceu dias atrás: uma mulher foi morta em tiroteio entre polícia e traficantes num morro carioca. Os policiais colheram seu corpo do chão e o atiraram porta-malas. No caminho de ida para o necrotério, o porta-malas abriu, o corpo da mulher foi jogado para fora e ficou pendurado na traseira do carro, rolando no asfalto por 250 metros, até que o motorista percebeu o que ocorria e parou.

Bem. Por que os PMs fizeram isso? Não foi por maldade. Não era uma vingança, como Aquiles arrastando o corpo de Heitor em Troia. Nem se tratou de algum tipo de diversão macabra. Foi apenas por descuido. Pelo seguinte motivo:

Porque ela era pobre.

Brasileiro não respeita pobre, imagina pobre morto. A grande discriminação, o grande preconceito brasileiro não é o racial, é o social. Uma amiga minha, jornalista bem conceituada, outro dia ela conversava com um estrangeiro sobre isso, sobre preconceito, e então disse algo que foi elucidativo:

— Se eu casar com um negro, ninguém vai achar estranho, no Brasil. Mas se eu casar com um caminhoneiro será um escândalo.

O estrangeiro ficou sem entender nada. Mas é isso. Claro que existe racismo no Brasil. Em todo lugar do mundo existe racismo, porque em todo lugar do mundo o homem teme o que lhe é diferente. Só que o Brasil é, de fato, um país miscigenado, as etnias se misturam e todos, negros, alemães e japoneses, mulatos, mamelucos e albinos, todos são brasileiros. Se for um brasileiro rico, será bem tratado, não importa a cor da pele, o tamanho, o formato ou a procedência. Agora, se for pobre, no máximo contará com a condescendência dos que se acham paladinos dos oprimidos.

O pobre é discriminado por todos, inclusive pelos pobres. Os PMs que arrastaram o corpo daquela mulher decerto não são ricos. Mas, se ela fosse um defunto da Zona Sul, o tratamento seria outro, teria a solenidade que merece a morte.

O brasileiro não respeita o pobre porque o brasileiro não se respeita. O brasileiro não respeita o que é, nem o que faz. Os PMs do Rio não estavam atuando como oficiais em defesa do cidadão. Não. Eles estavam só fazendo o servicinho deles, exatamente como faz a maioria dos brasileiros. Tudo é muito casual por aqui. Você não precisa fazer as coisas com correção, porque ninguém espera correção de você. A correção é uma exceção. É para os trouxas. O Estado brasileiro às vezes é um pai provedor, às vezes é um pai omisso, mas sempre é um pai leniente. É um pai que fecha os olhos aos erros dos filhos.

Você que é pai sabe, ou deveria saber: o filho, quando erra, QUER punição. Se não houver punição, ele, na hora, ficará aliviado, mas em seu peito estará impressa a sensação de que o pai não se importa o suficiente com ele e que, se o pai não se importa o suficiente com ele, ele não tem tanta importância e, se ele não tem tanta importância, ele não merece respeito e, se ele não sente respeito por si mesmo, não sentirá pelos outros.

Assim o Estado e o cidadão. Um Estado que é leniente com o cidadão faltoso, passa o recado de que a falta do cidadão não é importante, porque o próprio cidadão não é importante, porque as regras que o próprio Estado instituiu não são importantes, porque o próprio Estado não é importante. Ou seja: não é importante ser cidadão, comportar-se como um cidadão. Aquilo, o Estado, não é dele nem faz parte dele; é terra de ninguém. É o Estado lá em cima e o cidadão aqui embaixo.

A punição do cidadão faltoso indica zelo do Estado, indica que o Estado e o cidadão são parte de uma mesma coletividade. O pobre, o rico e o remediado são, todos, cidadãos, e é isso que faz deles importantes, não o fato de serem pobres, ricos ou remediados.

Os PMs que arrastaram aquela senhora no Rio não se consideram cidadãos e não consideram a senhora cidadã. Eles não sentiram respeito por ela, porque não sentem por si mesmos, como cidadãos. Porque falta atenção do Estado. Falta punição. O brasileiro está clamando por punição. Está ansioso pelo castigo. A punição educa. A punição forma cidadãos.