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Túnel do Tempo: Um livro, uma história

23 de abril de 2014 2

Uma tarde, faz já alguns meses, recebi uma ligação estranha. Uma voz de mulher identificando-se como enfermeira. Dizia ter livros para me dar, muitos livros. Livros para me dar! Gosto disso.

A mulher contou que cuidava de uma paciente com 99 anos de idade,uma senhora que vivia sozinha em seu apartamento na Duque de Caxias. Durante todas aquelas décadas, a senhora acumulara livros à mancheia. Agora, no fim da sua jornada nesse Vale de Lágrimas, enfraquecida por doenças, acamada, os livros não lhe serviam mais e, como em geral acontece, a família não sabia o que fazer com eles. Donde, a ligação. Eu queria os livros? Uau! Claro que queria!

Combinei de buscá-los num sábado pela manhã. Passei dias imaginando a biblioteca que transferiria para minha casa. O porta-malas do meu carro seria suficiente para carregá-los? Teria de buscar caixas no supermercado? Que autores me esperavam?

Na data aprazada, cheguei ao endereço que a enfermeira havia me dado, um prédio antigo no centro da cidade. Subi pelo elevador. Quem abriu a porta foi uma jovem: a enfermeira. Uma dia antes, a velhinha se mudara para o hospital.

A moça me conduziu até algumas pilhas de volumes atirados no parquê da sala. Dezenas de livros. Centenas, talvez. Agachei-me para examiná-los. Mal conservados, empoeirados, alguns já sem a capa. Muitos escritos em francês, outros tantos em espanhol, a maioria “romances de moças” do meio do século passado. Os títulos se assemelhavam: o marido ideal, a noiva feliz, a paixão realizada, o homem da minha vida, amores, amores, amores sem fim. De todos aqueles livros, só um me interessou. Um único.

Suspirei. Ergui-me. O estilo dos livros despertou-me uma suspeita. Perguntei à enfermeira se podia ver mais do apartamento. Ela concordou. Guiou-me pelas peças amplas, atulhadas de mobiliário. O lugar parecia ter sido congelado nos anos 50. Como esses apartamentos de casais que têm filhos já adultos, filhos que já se emanciparam e foram embora, viver suas próprias vidas em seus próprios apartamentos. O apartamento dos pais fica cristalizado no passado, no tempo em que as crianças davam-lhe alma. Assim era o apartamento da velhinha, com seus porta-retratos, seus abajures, suas cristaleiras.

Voltei para as pilhas de livros. Peguei o único que havia considerado aproveitável. Virei-me para a enfermeira:

– Desculpe perguntar, mas essa senhora… ela é solteira?

– É – confirmou.– Noventa e nove anos e nunca se casou, apesar de ter sido bem bonita quando jovem. Nunca teve um homem, um namorado, nada. Sabe…– a enfermeira vacilou – ela era virgem… Mas, esses dias, enquanto cuidava dela, ela se ergueu na cama e perguntou se eu era sua filha…

Olhando para o livro que tinha nas mãos, mal acreditei em toda aquela história. Era redonda demais. Era como se fosse um filme. Como uma das histórias romanescas que embalaram a imaginação da dona do apartamento em sua juventude. Porque o livro,o único livro interessante dentre tantos que ela havia guardado em sua longa vida, era um clássico de Gabriel García Márquez:

“Cem Anos de Solidão”.

*Texto publicado em 12/5/2011

Comentários (2)

  • Machiavellirs diz: 23 de abril de 2014

    RÉQUIEM PARA W. SOMERSET MAUGHAN NO DIA MUNDIAL DO LIVRO E DO DIREITO DO AUTOR

    Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor. A data é em homenagem a Willian Shakespeare e Miguel de Cervantes que faleceram em 23 de abril de 1616.

    Mas não é do Cervantes nem do William Shakespeare que, hoje, eu quero falar e prestar minha modestíssima homenagem ao bem mais valioso da humanidade: o livro. Eu quero falar é de outro William… o William Somerset Maughan.

    Pois o W. Somerset Maughan foi culpado de me fazer gostar de livros, escritores e filósofos desde a mais imberbe idade. Pois lá, na imberbe idade, que o Fio da Navalha do Maughan caiu nas minhas inexperientes mãos. Depois, mais cuidadoso com a navalha das palavras, sai em busca de suas demais obras nas bibliotecas públicas da vida e nas estantes dos amigos mais abonados: O Pecado de Liza, Servidão Humana, História dos Mares do Sul, Um Gosto e Seis Vinténs, Férias de Natal, As Três Mulheres de Antibes, O Destino de um Homem, enfim, não li todos, mas quase. Nessas leituras não poderia faltar, porém, o Maquiavel e a Dama onde obtive algumas inspirações.

    Acho que uma das maiores injustiças que o mundo já cometeu foi a de não ter concedido o Prêmio Nobel de Literatura ao W. Somerset Maughan. Talvez, por causa disso, esse prêmio, para mim, carece um pouco de credibilidade.

    A propósito, vejam o conceito de Somerset sobre os escritores em O Destino de um Homem:

    “É uma vida cheia de contratempos. Para começar, ele deve sofrer a pobreza e a indiferença do mundo; depois, tendo conquistado uma parcela de sucesso, tem de se submeter sem protesto aos seus riscos. Depende de um público inconstante. Está à mercê de jornalistas que querem entrevistá-lo; de fotógrafos que querem tirar-lhe o retrato; de diretores de revistas que o atormentam pedindo matéria, de cobradores de impostos que atormentam por causa do imposto sobre a renda; de pessoas gradas que o convidam para almoçar; de secretários de instituições que o convidam para fazer conferências; de mulheres que o querem para marido e de mulheres que querem divorciar-se dele; de jovens que lhe pedem autógrafo; de atores que desejam papéis e estranhos que querem um empréstimo; de senhoras sentimentais que lhe solicitam a opinião sobre assuntos matrimoniais; de rapazes graves que querem sua opinião sobre suas composições; de agentes, editores, empresários, chatos, admiradores, críticos, e da própria consciência. Mas existe uma compensação. Sempre que tiver alguma coisa no espírito, seja uma reflexão torturante, a dor pela morte de um amigo, o amor não correspondido, o orgulho ferido, o ressentimento pela falsidade de alguém que lhe devia ser grato, enfim, qualquer emoção ou qualquer ideia obcecante, basta-lhe reduzi-la a preto-e-branco, usando-a como assunto de uma história ou enfeite de um ensaio, para esquecê-la de todo. Ele é o único homem livre.”

    Sensacional, não é verdade?

    David, Sucesso!!!

    ____________________________________

    REQUIEM – MOZART

    https://www.youtube.com/watch?v=Zi8vJ_lMxQI

    Ver mais em: http://machiavellirs.blogspot.com.br/

  • Marisa Oliveira diz: 25 de abril de 2014

    Belo texto!!!

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