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A loira do poeta

27 de abril de 2014 6

codigodavid

Que me importa se você gosta ou não de quindim?

O quindim. Francamente.

Quando falo em quindim, sempre me lembro do Mário Quintana, que adorava quindim com café. Parece que comia quindim com café todas as tardes.

Certo.

E daí?

Grande coisa, o Mário Quintana gostar de quindim com café. O que isso diz dele? Nada, exceto que gostava de quindim com café. Não são todos os poetas que gostam de quindim com café, analfabetos podem gostar de quindim com café, gostar de quindim com café não tem nenhuma importância, assim como gostar de calor ou frio, peixe ou churrasco, essas coisas. Portanto, não venha me contando acerca do que você gosta ou não gosta, a não ser que seja algo realmente relevante.

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Sobre Mário Quintana e suas preferências eu aqui poderia dizer algo realmente relevante. Conheci-o em pessoa, embora ele não me conhecesse. Eu trabalhava na Livraria Sulina, setor de promoção e assessoria de imprensa. Uma de nossas tarefas, lá do nosso setor, era dar livros para jornalistas e professores. Recordo do Mário Quintana chegando a minha sala, uma sala tomada de livros. Ele entrava em silêncio, com uma sacola de papel na mão. Não cumprimentava ninguém, nem a Denise, uma morena de 18 anos de idade que TODOS faziam questão de cumprimentar.

Quintana ia direto às estantes, como uma formiga marchando para o açucareiro. Examinava as lombadas e tirava os livros que o interessavam. Empilhava-os numa mesa, seis, sete, dez livros. Quando se saciava, metia-os na sacola e ia embora sem nem nos olhar. Nós mantínhamos a respiração presa, eu e meus colegas, inclusive a Denise _ respeito pelo poeta.

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Achei que o Mário Quintana fosse assim mesmo, meio casmurro, até que o vi com a Bruna Lombardi numa Feira do Livro. Nossa!, ali estava outro homem. Ele olhava para a Bruna e não parava de sorrir e a seguia por toda a praça e suspirava. Mais um pouco, bateria asas e sairia voando, já que ele passarinho e eles passarão. Parecia apaixonado, aquilo não podia ser só entusiasmo pelos versos da Bruna _ sim, Bruna escrevia poesia (“Eu sou uma mulher espantada, o amor me molha toda…”).

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Agora, cá entre nós, tenho de admitir _ Mário Quintana escolheu com muito acerto a mulher por quem se deixar enlevar. Eu a vi de perto, aquela Bruna Lombardi. Uma loira miúda, mas, Jesus Cristo!, que coisa mais linda! Ela era um pequeno sol a iluminar os lugares por onde passava. Eu mesmo, ao olhar para Bruna, quase alcei voo como o Quintana. Senti que meu cérebro poderia derreter, se continuasse olhando para ela, mas, ainda assim, não conseguia despegar os olhos daquela pequena deusa. E ela estava de abrigo! Por Deus! De abrigo, e provavelmente era a visão mais comovente e perturbadora e emocionante da minha vida, incluindo as Cataratas do Iguaçu e o drible elástico do Rivellino. Compreendi o Quintana. Depois que ela foi embora, peguei um livro e comecei a LER a Bruna Lombardi:

“Procuro em mim um homem sem moral

que me deixe arisca e me deite de costas mandando coisas.

O oculto da paixão tem mais sabor que

pitanga roubada

e minha alma dissoluta, dissimulada

mistura ao vinho uma idéia de me jogar

em lençóis de linho

ou no mar”.

Jesus Cristo. Jesus Cristo!

Certo.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Então, conto para você que o Mário Quintana era louco por quindim com café e você balança a cabeça: OK, quindim com café. Mas, se conto que ele era louco pela Bruna Lombardi, você arregala os olhos: Uh, a Bruna Lombardi!

Aí está uma informação de valor, mesmo sendo uma preferência mundana. Se bem que Bruna não era mundana, era divina.

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O mesmo aconteceu comigo uma noite de tempos atrás, ao sair pela primeira vez com certa mulher de cabelos negros e olhar molhado. Ela sentou-se no bar, cruzou as longas pernas, olhou para o garçom com autoridade e pediu:

¬ Uísque. Sem gelo.

Estremeci. Uma mulher que gosta de uísque (sem gelo!) é uma mulher de opinião.

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Assim mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres não gostam de mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres gostam de clericot. Homens, não. Se dois homens estiverem tomando clericot num bar, eles são, no mínimo, goys. Homens bebem cerveja. Ou vinho, mas não branco. Mulheres, sim, bebem vinho branco e (argh) doce. O molho das mulheres também é branco, enquanto o dos homens é vermelho. Mulheres casadas falam de filhos, mulheres solteiras falam de homens com quem pretendem casar. Homens casados falam de futebol. Homens solteiros falam de futebol. Homens não gostam de comédia romântica, mas homens contam piada e mulheres odeiam ouvir piada e nunca contam uma. Mulheres também não jogam palitinho, não sabem a diferença entre esquerda e direita, preferem literatura a jornalismo, ficam horas tomando banho de sol, passam creme no cotovelo e acordam falando. Homens jogam palitinho, preferem jornalismo a literatura, jogam bola na praia, nunca pensam em cotovelo, com exceção dos cotovelos dos zagueiros, e apreciam o silêncio das manhãs.

Ou não.

Ou tudo isso pode ser invertido e misturado, pode uma mulher gostar de mondongo e jogar palitinho e preferir jornalismo e contar piada. Pode. E pode um homem gostar de comédia romântica e falar de filhos e preferir literatura e nem saber contar piada. Pode.

Mas beber clericot com o amigo no bar, não. Isso é coisa de goys. No mínimo.

Comentários (6)

  • Machiavellirs diz: 27 de abril de 2014

    BRUNA X NICOLE e RICELLI X CRUISE

    Igual ao Quintana, não gosto das pessoas que atravancam meu caminho, especialmente das pessoas que se esquecem de pesar a banana justamente na hora do pagamento no caixa do supermercado. Quando isso acontece, a funcionária do caixa pede ao auxiliar do empacotamento pesar a banana daquela pessoa esquecida.

    O auxiliar vai, então, lentamente, até a balança do supermercado que fica tri longe da fila do caixa e demora mais de 5 minutos para pesar a maldita banana daquela pessoa esquecida.

    Enquanto isso eu, que era o próximo a ser atendido pela funcionária do caixa e que estou sempre com pressa, fico ali, feito um pateta, só com o meu iogurte, o meu pão de centeio e a minha manteiga derretendo, esperando a volta do auxiliar do empacotamento com a banana daquela maldita pessoa já devidamente pesada.

    Então olho para aquele ser humano idiota esquecido e sem nenhum respeito pela pressa dos outros que está ali na minha frente e penso nos atravancamentos do Quintana que fizeram ele virar um passarinho e na vontade que eu tenho de sugerir ao Senado Federal que faça uma lei que penalize com dois dias de prisão ou multa de mil quinhentos e sessenta reais e vinte e cinco centavos as pessoas que se esquecem de pesar suas bananas nos supermercados de Porto Alegre…

    Bem, mas não era bem isso o que eu queria dizer.

    Eu queria dizer é que entre a Bruna Lombardi e a Nicole Kidmann, sou mais Nicole e que tem gente que, entre o Carlos Alberto Ricelli e o Tom Cruise, é mais Ricelli.

    Fazer o quê? Afinal, somos nós e nossas circunstâncias, já dizia Ortega Y Gasset. Ou seria escolhas?

    Ver mais em: http://machiavellirs.blogspot.com.br/

  • elio chaves diz: 27 de abril de 2014

    É, David, ganhastes alguns minutos da tua sofrida divindade.
    A tua crônica é divina. Também pudera: Poesia, Bruna e Mário.
    Eu me esparrelo com essa deusa da poesia e da beleza.

  • Luiz O.M. Staudt diz: 27 de abril de 2014

    Maravilha de crônica. E a poesia da Bruna Lombardi, então.

  • everton diz: 28 de abril de 2014

    Eai velho

    show de bola!! suas cronicas estao cada vez mais bacanas.

    mas qdo terminara de postar os capitulos dos Canibais???? xarope….. comecou tem que terminar heheh

  • Gisele diz: 28 de abril de 2014

    Ufa, já estava achando que tinha alguma coisa muito errada comigo, porque eu gosto de mondongo e mocotó. Dobradinha não é a mesma coisa que mondongo?

  • Fabrício Cardoso diz: 1 de maio de 2014

    Rapaz, estou vendo este Machiallirs até na sopa. Maior parasita do David. Este exibicionismo mascarando um pensamento raso o faz digno de toda a indiferença do mundo. Cara chato, tchê

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