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Posts de abril 2014

Chega de cerveja de cereja

29 de abril de 2014 12

A todo momento lia algo do tipo:

“Ulisses é um divisor de águas da literatura”.

“Ulisses foi o fim do romance, porque foi o auge do romance”.

Ulisses, Ulisses.

Ulisses, você sabe: o alentado e, como se vê, festejado romance do dublinense James Joyce. Existe até um dia de comemoração a Ulisses, o 16 de junho.

Era muita propaganda. Eu, na fosforecência dos meus vinte e poucos anos, estava ansioso por ler Ulisses e me cevar naquele marco do intelecto humano e aprender algo. Então, lutei como um tigre para amealhar alguns trocados e adquiri uma edição com tradução do Antônio Houaiss. Um volume poderoso. O chamado cartapácio. Como diziam que era um livro difícil, decidi enfrentá-lo em condições favoráveis: numa fresta tranquila do dia, numa poltrona tranquila da casa.

Foi uma decepção.

Só que não foi o livro que me decepcionou: decepcionei-me comigo mesmo. Como não conseguia gostar daquela obra-prima incensada por todos os sapientíssimos críticos literários? Não contei a ninguém que tinha detestado Ulisses. Se todos os inteligentes adoravam o romance, o fato de eu não ter gostado só podia significar o quanto era obtuso. Meus amigos da faculdade perguntavam se havia lido e eu tascava:

_ É um divisor de águas da literatura. Foi o fim do romance, porque foi o auge do romance.

Na penumbra do meu quarto, porém, sozinho com meu travesseiro, suspirava: cara, a verdade crua e triste é que não gostei desse Ulisses.

Mais tarde, botei a culpa no tradutor. Antônio Houaiss é um cara que escreve “entrementes”. Um cara que escreve entrementes é, obviamente, chato. Aquele Antônio Houaiss pode muito bem servir para escrever dicionário, para dar aula de português, para discorrer sobre a sintaxe ou até para ser crítico de literatura, mas para fazer o leitor dançar com o texto, ah, não, isso não. Ritmo, entende? Faltava ritmo àquele Antônio Houaiss.

Foi um consolo, mas, outra vez no escuro do meu quarto, outra vez com as orelhas afundadas no travesseiro, me questionei: será que não sou eu o culpado? Será que não sou uma besta por não gostar de Ulisses?

É possível.

Em todo caso, meu amigo Ivan Pinheiro Machado me deu outra edição, com tradução de Bernardina da Silveira Pinheiro. Eu aqui, na minha já comprovada ignorância, não sei quem é essa senhora, embora saiba que é, de fato, uma senhora, porque nenhuma garota se chamaria Bernardina no século 21. Bernardina é nome de vó. Minha vó, inclusive, se chamava Bernardina. Dona Dina, ela preferia. Mas, como dizia, não sei quem é Bernardina da Silveira Pinheiro, mas vou dar uma chance a ela. E a Joyce. E a mim mesmo. Logo estarei lendo Ulisses numa fresta tranquila do dia, numa poltrona tranquila da casa.

No entanto, mesmo que seja capturado por essa joia da literatura e passe a festejar o 16 de junho bebendo Guiness, a verdade é que James Joyce não facilitava as coisas para ninguém, ou eu não estaria fazendo todo esse arrazoado. Não, não, James Joyce tinha lá seus interesses elevados, que não necessariamente eram os mesmos do seu leitor, sobretudo de um leitor na cunha sul do Brasil. E com um tradutor como Antônio Houaiss, um homem que aparafusa um entrementes na frase sem nenhuma hesitação, ah, bem, então as coisas ficam realmente difíceis.

Se bem que admito não ser entusiasta de experimentalismos. Essas cervejas com gosto de erva mate, de beterraba ou de frutas vermelhas, essas cervejas temperadas com pimenta ou cravo, essas cervejas que estão na moda, por exemplo, não me seduzem. Nada disso. Prefiro o chope ortodoxo. A cerveja dourada. Gelada. Brasileira.

O texto também. O texto pode ser elegante, profundo, insinuante e também ser fácil. São os melhores textos, escritos por gente que cultiva a arte de fazer coisas difíceis parecerem fáceis. Edmund Wilson escrevia assim. Edmund Wilson era um Messi do texto. Messi encontra espaços no campo onde espaços não há. Aránguiz, o chileno do Inter, tem essa capacidade. Luan, o jovem do Grêmio, é igual. Não que os compare com Messi. Nem com Edmund Wilson. Comparo a qualidade que todos eles têm de ser simples. E ser simples é, simplesmente, bom.

A boa notícia do Grêmio

28 de abril de 2014 22

A melhor notícia da vitória dos reservas do Grêmio sobre o Atlético Mineiro foram as individualidades.
Saimon reapareceu, e mostrou que é uma alternativa. Talvez a mais significativa delas.
Alan Ruiz voltou a jogar bem.
Moisés pareceu mais capaz do que Pará.
Lucas Coelho jogou como em seus tempos de categorias de base.
Rodriguinho começa a se adaptar.
E Mateus Biteco teve energia e concentração.
São apenas indícios, mas são bons indícios.

As falhas do Inter

28 de abril de 2014 3

É natural que um time diminua o ímpeto quando marca 2 a 0, como o Inter fez contra o Botafogo no Maracanã.
É natural que um time, se tem capacidade de indignação, se agigante quando está perdendo de 2 a 0, como fez o Botafogo contra o Inter no Maracanã.
O que não é natural é o time indignado, mesmo que se agigante, alcançar o empate.
O Inter cedeu o resultado porque falhou. Dida errou nos dois gols, os zagueiros erraram nos dois gols. Foram gols de pequena área, de bola atravessada, gols em que os atacantes estavam livres na última instância do time.
Não pode.
Há o que corrigir aí.

A loira do poeta

27 de abril de 2014 6

codigodavid

Que me importa se você gosta ou não de quindim?

O quindim. Francamente.

Quando falo em quindim, sempre me lembro do Mário Quintana, que adorava quindim com café. Parece que comia quindim com café todas as tardes.

Certo.

E daí?

Grande coisa, o Mário Quintana gostar de quindim com café. O que isso diz dele? Nada, exceto que gostava de quindim com café. Não são todos os poetas que gostam de quindim com café, analfabetos podem gostar de quindim com café, gostar de quindim com café não tem nenhuma importância, assim como gostar de calor ou frio, peixe ou churrasco, essas coisas. Portanto, não venha me contando acerca do que você gosta ou não gosta, a não ser que seja algo realmente relevante.

-x-x-x-

Sobre Mário Quintana e suas preferências eu aqui poderia dizer algo realmente relevante. Conheci-o em pessoa, embora ele não me conhecesse. Eu trabalhava na Livraria Sulina, setor de promoção e assessoria de imprensa. Uma de nossas tarefas, lá do nosso setor, era dar livros para jornalistas e professores. Recordo do Mário Quintana chegando a minha sala, uma sala tomada de livros. Ele entrava em silêncio, com uma sacola de papel na mão. Não cumprimentava ninguém, nem a Denise, uma morena de 18 anos de idade que TODOS faziam questão de cumprimentar.

Quintana ia direto às estantes, como uma formiga marchando para o açucareiro. Examinava as lombadas e tirava os livros que o interessavam. Empilhava-os numa mesa, seis, sete, dez livros. Quando se saciava, metia-os na sacola e ia embora sem nem nos olhar. Nós mantínhamos a respiração presa, eu e meus colegas, inclusive a Denise _ respeito pelo poeta.

-x-x-x-

Achei que o Mário Quintana fosse assim mesmo, meio casmurro, até que o vi com a Bruna Lombardi numa Feira do Livro. Nossa!, ali estava outro homem. Ele olhava para a Bruna e não parava de sorrir e a seguia por toda a praça e suspirava. Mais um pouco, bateria asas e sairia voando, já que ele passarinho e eles passarão. Parecia apaixonado, aquilo não podia ser só entusiasmo pelos versos da Bruna _ sim, Bruna escrevia poesia (“Eu sou uma mulher espantada, o amor me molha toda…”).

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Agora, cá entre nós, tenho de admitir _ Mário Quintana escolheu com muito acerto a mulher por quem se deixar enlevar. Eu a vi de perto, aquela Bruna Lombardi. Uma loira miúda, mas, Jesus Cristo!, que coisa mais linda! Ela era um pequeno sol a iluminar os lugares por onde passava. Eu mesmo, ao olhar para Bruna, quase alcei voo como o Quintana. Senti que meu cérebro poderia derreter, se continuasse olhando para ela, mas, ainda assim, não conseguia despegar os olhos daquela pequena deusa. E ela estava de abrigo! Por Deus! De abrigo, e provavelmente era a visão mais comovente e perturbadora e emocionante da minha vida, incluindo as Cataratas do Iguaçu e o drible elástico do Rivellino. Compreendi o Quintana. Depois que ela foi embora, peguei um livro e comecei a LER a Bruna Lombardi:

“Procuro em mim um homem sem moral

que me deixe arisca e me deite de costas mandando coisas.

O oculto da paixão tem mais sabor que

pitanga roubada

e minha alma dissoluta, dissimulada

mistura ao vinho uma idéia de me jogar

em lençóis de linho

ou no mar”.

Jesus Cristo. Jesus Cristo!

Certo.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Então, conto para você que o Mário Quintana era louco por quindim com café e você balança a cabeça: OK, quindim com café. Mas, se conto que ele era louco pela Bruna Lombardi, você arregala os olhos: Uh, a Bruna Lombardi!

Aí está uma informação de valor, mesmo sendo uma preferência mundana. Se bem que Bruna não era mundana, era divina.

-x-x-x-

O mesmo aconteceu comigo uma noite de tempos atrás, ao sair pela primeira vez com certa mulher de cabelos negros e olhar molhado. Ela sentou-se no bar, cruzou as longas pernas, olhou para o garçom com autoridade e pediu:

¬ Uísque. Sem gelo.

Estremeci. Uma mulher que gosta de uísque (sem gelo!) é uma mulher de opinião.

-x-x-x-

Assim mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres não gostam de mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres gostam de clericot. Homens, não. Se dois homens estiverem tomando clericot num bar, eles são, no mínimo, goys. Homens bebem cerveja. Ou vinho, mas não branco. Mulheres, sim, bebem vinho branco e (argh) doce. O molho das mulheres também é branco, enquanto o dos homens é vermelho. Mulheres casadas falam de filhos, mulheres solteiras falam de homens com quem pretendem casar. Homens casados falam de futebol. Homens solteiros falam de futebol. Homens não gostam de comédia romântica, mas homens contam piada e mulheres odeiam ouvir piada e nunca contam uma. Mulheres também não jogam palitinho, não sabem a diferença entre esquerda e direita, preferem literatura a jornalismo, ficam horas tomando banho de sol, passam creme no cotovelo e acordam falando. Homens jogam palitinho, preferem jornalismo a literatura, jogam bola na praia, nunca pensam em cotovelo, com exceção dos cotovelos dos zagueiros, e apreciam o silêncio das manhãs.

Ou não.

Ou tudo isso pode ser invertido e misturado, pode uma mulher gostar de mondongo e jogar palitinho e preferir jornalismo e contar piada. Pode. E pode um homem gostar de comédia romântica e falar de filhos e preferir literatura e nem saber contar piada. Pode.

Mas beber clericot com o amigo no bar, não. Isso é coisa de goys. No mínimo.

Som de Sexta

25 de abril de 2014 1

Notícias sobre um velório

25 de abril de 2014 9

Tenho que falar com o Faraco sobre o velório de Shakespeare. O Sérgio Faraco é especialista em Shakespeare, em jogo de sinuca e em Titanic. Também é especialista em escrever contos. Ele lapida as frases. Ah, eu também lapido, lapido e burilo, claro que sim, mas não como o Faraco. O Faraco pega uma frase e a analisa de longe e de perto, como a uma pedra de diamante, e dá uma melhorada, e depois deixa que fermente. Toma-a de novo após algum tempo e de novo a examina e tira uma lasca daqui, raspa ali, bota mais um tantinho acolá e a coloca em fermentação outra vez. Repete esse processo até que a frase esteja perfeita como a vida devia ser, e não é. Então passa para a próxima frase. E a analisa de longe e de perto… Só sendo um Faraco para escrever um conto do Faraco.

Pois uma vez o Faraco decidiu escrever um livro sobre Shakespeare. Criterioso como é, compreendeu que precisava saber mais sobre o mundo de Shakespeare, a Inglaterra dos séculos 16 e 17, com sua fascinante soberana Elizabeth, a Rainha Virgem, filha do não menos fascinante rei Henrique VIII com Ana Bolena, a mulher por quem os britânicos mudaram de religião e que morreu decapitada pela espada de um carrasco que ela própria mandou importar da França. Faraco estudou essas coisas e percebeu que tinha de estudar também a França, não por causa da habilidade de seus carrascos, mas devido às relações dos franceses com os ingleses. E, estudada a França, Faraco viu que tinha de estudar a Espanha, rival da Inglaterra. E assim o fez, e escreveu sobre franceses, espanhóis e ingleses, chegando, desta forma, à introdução de seu livro a respeito de Shakespeare.

Então, parou.

Repassou o que havia escrito.

E se espantou: em seu arquivo, no computador, pulsavam e fremiam 600 páginas. De introdução! Onde aquilo ia parar? O Faraco não teve dúvidas: deletou tudo, antes que enlouquecesse de obsessão.

Talvez alguém ainda convença o Faraco a escrever esse livro. Assim eu não precisaria incomodá-lo perguntando acerca das circunstâncias do velório de Shakespeare. Porque imagine: no mesmo 23 de abril de 1616 em que Shakespeare morreu, na Inglaterra, Cervantes estava sendo sepultado debaixo da terra da Espanha. Os dois maiores intelectuais do mundo mortos numa única nesga de mês.

O mundo sabia disso, naquele tempo sem internet, celular e Jornal Nacional? As pessoas tinham pelo menos uma vaga ideia do que significavam aqueles dois personagens que deixavam a vida juntos para juntos entrar na História?

Suponho que não. Suponho que os homens dos albores do século 17 nem tenham se dado conta que perdiam Shakespeare e Cervantes ao mesmo tempo. Eles não sofreram com isso, imagino. Não foram em peregrinação chorosa à Inglaterra e à Espanha porque pouco se peregrinava naquela época. Ou até se peregrinava, mas era exatamente isso, uma peregrinação – as pessoas viajavam pouco. Antes, na Idade Média, não viajavam nada. Ficavam em seus lugares a vida toda, e pronto. Não havia engarrafamentos, como os que aconteceram em toda parte no feriadão de Páscoa. Não havia overbooking. Não havia informação instantânea, compartilhamentos na internet, mensagens de celular, whatsapp. As pessoas nasciam naquele lugar, ficavam naquele lugar, namoravam e casavam-se com as pessoas daquele lugar, trabalhavam naquele lugar e morriam naquele lugar. Parece um mundo tão monótono. Parece um mundo tão pobre. Mas foi aquele mundo que produziu um Shakespeare. Foi aquele mundo que produziu um Cervantes. E o século 21, com todo o seu aparato, o que produz? Olhe o Facebook e responda.

Não, não, você não precisa de tanta velocidade nem de tanta novidade para ser bom. O Faraco sabe disso.

Grêmio jogou bem, mas está quase fora da Libertadores

24 de abril de 2014 53

O Grêmio pode muito bem ganhar de qualquer time por dois gols de diferença.
O Grêmio não é tão desprezível como pareceu depois do fracasso nas finais do Gauchão.
O problema é o Grêmio TER que ganhar de um time por dois gols de diferença.
Porque o Grêmio não tem jogadores que saibam fazer gol.
Ninguém acerta na casinha.
Já disse e repito: a capacidade de um time se mede pela quantidade de seus jogadores que saibam marcar gols.
No Grêmio, nem o centroavante sabe marcar gol.
Por isso, não adianta jogar bem, como o Grêmio jogou ontem,
Por isso, o Grêmio está quase desclassificado da Libertadores.

O japonês no Brasil

24 de abril de 2014 17

Leitor que preferiu não se identificar enviou o seguinte email. Leia, que é interessante:

Sou gerente regional de vendas de uma empresa japonesa de componentes eletrônicos.
Fornecemos pequenos componentes, para tudo que é tipo de aparelho.
Cuido dos 3 estados do Sul, além do Uruguai e o que sobrou da Argentina….
Mas isso não vem ao caso.

Semana passada esteve aqui o novo CEO da empresa para as Américas, como eles se referem.
Fiquei constrangido primeiro porque ele falava Inglês BEM melhor do que eu e a maioria de meus colegas.
Ele japonês, aquela língua desgraçada…falava inglês repito..BEM MELHOR do que nós.

Mas isso também não importa.
Vamos ao que importa e por isso eu escrevo nesse momento.

Estávamos em São Paulo, na reunião de minha regional, e pegamos o metrô para irmos até o Brás, onde existem vários distribuidores de nossos produtos.
Ele não queria andar de carro.
Queria metrô.
No Japão todos andam de metrô a trabalho….disse ele.
Fomos de metrô.

Começou a viagem de 4 estações. Ele ficou pasmo com vários jovens falando alto e escutando músicas em seus celulares, numa competição de músicas de péssimo gosto para todos escutarem no vagão.
Ele perguntou se fone de ouvido era caro aqui…..não entendia por que as pessoas escutavam as SUAS músicas desta forma.
Não conseguimos explicar.
Ele disse que isso no Japão não existe….
O metrô, segundo ele, as pessoas descansam e até dormem……
Meu Deus.

Chegamos no Brás, descemos… na porta da estação, três equipes de reportagem cobrindo um fato que havia acontecido e ainda se desdobrava: um homem havia sido pego em uma suposta tentativa de abuso de um menor dentro do banheiro da estação. Tinham quase matado o cara de tanta porrada e amarrado-o junto às grades, com fios de cobre.
Na frente, se acotovelando, as equipes do Cidade Alerta, Brasil Urgente e Jovem Pan…cada uma tentando filmar ou tentar entrevistar o miserável ali amarrado.
Um PM sozinho tentava conter as pessoas e aguardava reforço para levar o cara em segurança para a delegacia.
Na volta, centenas de pessoas entoando “Tarado…mata…estupra ele…” e por ai…

Imagina nós tentando explicar isso ao Japa.
Quanto mais falávamos, pior ficava.
Ele não entendia o nível de violência, a fúria das pessoas, a passividade da imprensa… não entedia nada.
Cheguei a pensar que nosso inglês não era suficientemente claro para dizer a ele o que estava acontecendo.
Mas não era isso.
Ele entendeu tudo que falamos, mas não conseguia assimilar o nível de violência que ele estava presenciando.
Foi quando ele disse ao meu colega que “não iria contar disso a ninguém no Japão, primeiro porque a ele faria mal relembrar do fato em si, e segundo porque a maioria das pessoas não entenderia o que ele estava tentando contar”.
“No Japão isso nem se imagina”, disse ele.

Voltamos de táxi, em dois por sinal.
O Japa quieto, atendia o telefone e falava em japonês.
Talvez estivesse contando o que viu, sabe-se lá.

O grande final, a cereja do bolo como falamos.
Fomos ao hotel dele, deixá-lo, pois ele seguiria no dia seguinte para o RJ e eu voltaria para cá.
Sentamos todo no bar do hotel, TV ligada… e… Marcelo Resende, do Cidade Alerta, mostrando a reportagem.
O japa enlouqueceu.
Ele não queria acreditar que um canal de TV se prestava a mostrar e fomentar a violência diária de uma cidade.
Pois ele pegou o IPAD e filmou a tv exibindo a reportagem do fato que ele havia presenciado.

Foi então que ele olhou para nós, tomou o resto da cerveja do copo e perguntou: “Como vocês conseguem viver e conviver com uma situação dessas, achar que é normal e não fazer nada para mudar isso?”

David… ele disse que no Japão isso não existe. Aliás, ele disse isso de várias coisas.
Eu não conheço o Japão. Tu eu sei que conhece.
É um país tão certo assim ?

Não. Não é que o Japão seja tão certo, meu caro. Isso aqui é que é muito errado.

Túnel do Tempo: Um livro, uma história

23 de abril de 2014 2

Uma tarde, faz já alguns meses, recebi uma ligação estranha. Uma voz de mulher identificando-se como enfermeira. Dizia ter livros para me dar, muitos livros. Livros para me dar! Gosto disso.

A mulher contou que cuidava de uma paciente com 99 anos de idade,uma senhora que vivia sozinha em seu apartamento na Duque de Caxias. Durante todas aquelas décadas, a senhora acumulara livros à mancheia. Agora, no fim da sua jornada nesse Vale de Lágrimas, enfraquecida por doenças, acamada, os livros não lhe serviam mais e, como em geral acontece, a família não sabia o que fazer com eles. Donde, a ligação. Eu queria os livros? Uau! Claro que queria!

Combinei de buscá-los num sábado pela manhã. Passei dias imaginando a biblioteca que transferiria para minha casa. O porta-malas do meu carro seria suficiente para carregá-los? Teria de buscar caixas no supermercado? Que autores me esperavam?

Na data aprazada, cheguei ao endereço que a enfermeira havia me dado, um prédio antigo no centro da cidade. Subi pelo elevador. Quem abriu a porta foi uma jovem: a enfermeira. Uma dia antes, a velhinha se mudara para o hospital.

A moça me conduziu até algumas pilhas de volumes atirados no parquê da sala. Dezenas de livros. Centenas, talvez. Agachei-me para examiná-los. Mal conservados, empoeirados, alguns já sem a capa. Muitos escritos em francês, outros tantos em espanhol, a maioria “romances de moças” do meio do século passado. Os títulos se assemelhavam: o marido ideal, a noiva feliz, a paixão realizada, o homem da minha vida, amores, amores, amores sem fim. De todos aqueles livros, só um me interessou. Um único.

Suspirei. Ergui-me. O estilo dos livros despertou-me uma suspeita. Perguntei à enfermeira se podia ver mais do apartamento. Ela concordou. Guiou-me pelas peças amplas, atulhadas de mobiliário. O lugar parecia ter sido congelado nos anos 50. Como esses apartamentos de casais que têm filhos já adultos, filhos que já se emanciparam e foram embora, viver suas próprias vidas em seus próprios apartamentos. O apartamento dos pais fica cristalizado no passado, no tempo em que as crianças davam-lhe alma. Assim era o apartamento da velhinha, com seus porta-retratos, seus abajures, suas cristaleiras.

Voltei para as pilhas de livros. Peguei o único que havia considerado aproveitável. Virei-me para a enfermeira:

– Desculpe perguntar, mas essa senhora… ela é solteira?

– É – confirmou.– Noventa e nove anos e nunca se casou, apesar de ter sido bem bonita quando jovem. Nunca teve um homem, um namorado, nada. Sabe…– a enfermeira vacilou – ela era virgem… Mas, esses dias, enquanto cuidava dela, ela se ergueu na cama e perguntou se eu era sua filha…

Olhando para o livro que tinha nas mãos, mal acreditei em toda aquela história. Era redonda demais. Era como se fosse um filme. Como uma das histórias romanescas que embalaram a imaginação da dona do apartamento em sua juventude. Porque o livro,o único livro interessante dentre tantos que ela havia guardado em sua longa vida, era um clássico de Gabriel García Márquez:

“Cem Anos de Solidão”.

*Texto publicado em 12/5/2011

O mar grande e o mundo pequeno

22 de abril de 2014 28

O mar é tão grande… e o mundo é tão pequeno.

É com essa verdade que quero mostrar aos gremistas como eles podem fazer com que o Grêmio se torne de novo vencedor.

Basta que entendam as grandezas de sua realidade. Talvez seja melhor exemplificar com grandezas externas. Vamos ver… na política: Lula é maior do que o PT e Brizola muito, muito maior do que o PDT. Na História: Alexandre foi maior do que a Macedônia e Gengis Khan bem maior do que a Mongólia. No futebol: Pelé é maior do que o Santos, mas Zico não é maior do que o Flamengo e Garrincha é do mesmo tamanho que o Botafogo.

Desaguando aqui, nesses meridianos, olhe para a Dupla Gre-Nal: a Dupla Gre-Nal é maior do que Porto Alegre e os presidentes de Grêmio e Inter, juntos, são maiores do que o governador do Estado. Já o clássico Gre-Nal, para gremistas e colorados, é maior do que o futebol. Na verdade, o futebol é um esporte subalterno, diante da imponência do clássico Gre-Nal.

Há gremistas e colorados que não entendem isso. Normal. A maioria das pessoas não compreende sua própria essência, donde a bem-aventurança de psiquiatras, psicanalistas e sacerdotes. Pois a essência de Grêmio e Inter é esta: o Gre-Nal é maior do que o futebol. Eles vivem para o Gre-Nal, vivem um para o outro. Não há nada mais importante, para um colorado, do que o Grêmio; não há nada mais importante, para um gremista, do que o Inter.

O Inter compreendeu isso antes do Grêmio por uma razão óbvia: o Inter nasceu dessa verdade. O primeiro jogo da história do Inter foi o Gre-Nal perdido de zero a dez. Essa derrota condicionou o destino do clube, como um trauma na primeira infância condiciona o destino do homem — para o bem ou para o mal. No caso do Inter, para o bem.

O Grêmio ainda hoje se repoltreia na ilusão de que existe algo maior do que o Gre-Nal, e por isso volta e meia vacila. Sábio era o Cacalo que, lá do Japão, disputando o Mundial Interclubes, lembrou-se do Inter, então quietinho, amofinado e encolhido como um caramujo à beira do Rio Guaíba.

Fernando Carvalho é um dirigente moderno que viu essa verdade antiga. Entendeu que o Inter só seria grande de novo depois de suplantar o Grêmio de novo. Mirou-se na grandeza do Grêmio e, pela grandeza do Grêmio, o superou. Fernando Carvalho sabia que tinha de começar ganhando Gre-Nal, para depois ganhar o mundo.

Rui Costa, do Grêmio, é um dirigente que demonstra ter o potencial para ser o que foram esses dois, Cacalo e Fernando Carvalho. É inteligente, é civilizado e conhece o futebol. Agora, desfruta de uma oportunidade luzidia: de, mais do que conhecer futebol, conhecer tudo sobre o Gre-Nal; de aprender, com a dor, o quanto um Gre-Nal pode construir ou destruir.

Mas não adianta só derrotar o adversário. Uma eventual vitória não é o suficiente. Nem algumas eventuais vitórias são suficientes. É preciso saber-se superior até quando se é derrotado. É preciso olhar o inimigo de cima e cuidar para que ele continue embaixo. No momento em que um dos dois, Grêmio ou Inter, está nessa situação, preparem-se, clubes do mundo inteiro, um colosso está subindo do Sul do Brasil.

Por isso, o Gre-Nal é a medida de quem deve ou não militar em Grêmio e Inter. O Gre-Nal é a medida de como devem se comportar Grêmio e Inter. É o seu farol. A sua luz. O Grêmio quer voltar a ser vencedor? Precisa entender suas grandezas. Precisa entender que o Gre-Nal é maior do que o futebol. Assim como o mar é tão grande, e o mundo tão pequeno.

REGRA PÉTREA

Fosse eu dirigente de uma das metades da Dupla, criaria uma regra para meu time:

1. Teve bom sucesso em Gre-Nal? Fica.

2. Fracassou rotundamente em Gre-Nal? Vá ser feliz em outro lugar.

Vou tomar um exemplo controverso, porque, se não for controverso, não há sentido em citá-lo, não vou ficar remanchando no óbvio. Pois aí vai meu exemplo controverso: Kléber, o Gladiador, é bastante contestado no Grêmio. Mas Kléber sempre se saiu bem em Gre-Nal. Eu não o dispensaria, eu não prescindiria de sua liderança, nem que ele tivesse de descansar no banco uma hora por jogo.

Outro exemplo controverso, que talvez um só seja pouco: o zagueiro Saimon, que anulou Damião em sua melhor fase. Tem lá seus problemas, parece. Eu os administraria. Não prescindiria de seu aguerrimento de torcedor e da energia da sua juventude.

Por que ficaria com os dois? Por causa do Gre-Nal. A medida é o Gre-Nal.

A força da salsicha

20 de abril de 2014 6

1) Existem 1.500 tipos de salsicha na Alemanha.Mil e quinhentos.Se você estiver na Alemanha e decidir se alimentar de salsicha todos os dias,poderá comer uma salsicha diferente por dia,sem repetir, durante quase quatro anos.

Fascinante.

É como as Ilhas Maldivas.Existem 1.500 Ilhas Maldivas cercadas pela água salgada do distante Oceano Índico,lá perto do Sri Lanka,todas elas paradisíacas. Ilhas azuis.Deve ser lindo ver as Ilhas Maldivas.

Assim,confesso aqui um sonho dourado que cevo: conhecer todas as Ilhas Maldivas e todas as especialidades de salsichas da Alemanha concomitantemente.Meu projeto é comer um tipo de salsicha alemã,estando,durante esta refeição,em um tipo diferente de Ilha Maldiva por dia,passando desta forma quatro agradáveis anos da minha existência.

Perceba como é fácil de me fazer feliz: uma salsicha,uma ilha e presto!

2) Mentiras, mentiras
Mas,por ora,enquanto não realizo meus desejos outrora recônditos e agora públicos,quero falar de hábitos alimentares. Sempre me intrigou o apreço do civilizado povo alemão pela salsicha. Aliás,os alemães juram que um deles inventou a salsicha,por volta do século 15.

Mentira.

Assim como é mentira a assertiva daquele verso imortal que Benito di Paula urdiu em
algum dia de rara inspiração nos anos 70:

Bendito seja
Bendito seja
O alemão
Que inventou a cerveja

Não.

Não foram os alemães que inventaram a cerveja; foram os egípcios.Os alemães apenas a sublimaram, porque a cerveja alemã é uma das delícias que fazem valer a pena viver.

A salsicha também.A salsicha foi divinizada pelos alemães,mas não foram eles que a conceberam.Foi um romano chamado Marcus Gavius Apicius,popularmente conhecido como“Apício”.

3) Orgias até a morte
Esse Apício foi contemporâneo de Jesus Cristo e,como Ele,viveu entre Augusto e Tibério.Era um gourmet feroz.Escreveu o primeiro livro de gastronomia da História,“Sobre a Culinária”,e viveu literalmente à tripa-forra.

O gosto de Apício pela chamada boa mesa foi se sofisticando com os dias.Era um homem rico e,sendo assim,tinha acesso ao que de melhor existia no vasto Império Romano.Um dia,ficou sabendo que nos mares da Líbia nadavam camarões gigantes de
tamanho e sabor únicos.Alugou um navio,deslizou até lá,viu e provou os camarões,e voltou sem nem pisar em terra.Inventou, preparou e serviu acepipes exóticos,como cristas de aves fritas e calcanhares de equinos recheados.Suas orgias eram famosas.Gastou tanto em festa,comida e bebida,nosso generoso Apício,que foi à falência.

Então,concluindo que não lhe sobravam mais fundos para viver como gostava,preferiu a morte. Suicidou-se,mas deixou seu livro de receitas como legado.E,entre suas saborosas criações,está ela.A salsicha.
4) Engordando lesmas
Feito esse reparo histórico e restabelecida a justiça,voltemos aos bravos povos germânicos.

Mas,não! Não tão depressa.

Antes disso,ocorre-me que você pode estar curioso acerca das receitas de Apício.Sim,imagino que esteja.Quem sabe na próxima Sexta-Feira Santa,diante do interdito de consumo da carne bovina,você possa cometer um dos pratos que Apício preparava há dois mil anos? Que tal,hein?

Como será difícil encontrar “Sobre a Culinária” mesmo nos sebos mais bem fornidos,vou reproduzir a seguir uma rápida receita que certamente fará sucesso entre seus amigos e familiares.É o… Escargot ao leite.

“Lave bem os caramujos e remova a membrana,para que eles possam sair da concha.Coloque-os num recipiente com leite e sal por um dia,e nos dias seguintes somente com leite.Remova os resíduos a cada hora.Quando eles tiverem engordado ao ponto de não conseguirem se recolher totalmente em suas conchas, cozinhe-os com azeite.”

Aí está! Deve ser uma delícia não apenas provar esses escargots,mas vê-los entalar na entrada da concha quando estiverem gordinhos.Faça e sirva para quem você mais gosta.

5) A semana do peixe
Apício também inventou o foie gras para gáudio dos franceses e,como já disse,a salsicha,para gáudio dos alemães.

E eis que chegamos aonde eu queria chegar desde o início. Nos hábitos alimentares.Porque na chamada Semana Santa come-se peixe e a cada Semana Santa fico impressionado com o amor do gaúcho pela carne vermelha.Tenho amigos que não conseguem passar um único dia sem um bife,sem uma carne de panela,sem um churrasco.

Isso muda a psiquê de um povo,não apenas sua saúde física.Muito do requinte francês se deve à leveza do patê,assim como a praticidade germânica talvez tenha sido gerada pelo consumo diário de embutidos,de preparo tão fácil e rápido.

Já os chineses e os japoneses, do que eles se alimentam? De peixe.

Exatamente o prato que angustia o gaúcho na Sexta-Feira Santa.Bem.Olhe para chineses e japoneses e o que você vê?

Paciência.

Não é a filosofia milenar de Lao Tsé ou Confúcio que faz com que os homens do Oriente Longínquo sejam pacientes.É a lida com o peixe,que não é laçado com corda nem ferrado em brasa,que não derrama sangue quente quando abatido, que não é domado a urros,nem perseguido a galope,que não muge nem tuge,mas morre em silêncio.Em resignação.

A paz da morte dos peixes traz essa calma aos orientais que o consomem.Assim,o Japão e a China até podem ser buliçosos,mas é um bulício de multidão,não de pressa,não de ansiedade,não de quase desespero como se vê por aqui.

Peixe,pois.

Essa é a solução para você, gaúcho angustiado: mais peixe na sua vida,e não apenas na semana da Páscoa.

O Sal da Terra

18 de abril de 2014 27

“Vós sois o sal da terra”, disse Jesus no Sermão da Montanha. “Vós sois a luz do mundo”, enfatizou, e era para os seres humanos que falava. Para nós.
Nós somos o sal da terra.

Mas não vou em frente antes de falar do meu medo. Tenho medo de religiões e ideologias, porque umas e outras são matéria de fé. São dogma. No momento em que você se torna dogmático, você tem um lado e do seu lado está o Bem, enquanto o Mal está do lado de lá. Pessoas mataram e morreram, matam e morrem por causa de religiões e ideologias. Além do mais, aquelas certezas tantas e tão sólidas fazem com que as pessoas deixem de pensar. Não precisa, já está tudo pensado, basta seguir o prescrito e dividir o mundo em dois hemisférios, sem ponderações: aqui estão os certos, lá estão os errados.

Dito isso, que fique claro: não estou falando do Jesus religioso, nesta Sexta-Feira Santa; não estou falando do Jesus cristão. Estou falando de um dos mais revolucionários filósofos morais da História, e da peça central do seu pensamento, que foi aquele Sermão.

A filosofia de Jesus é tão inovadora que nenhuma de suas igrejas compreendeu ou aplicou o seu principal ensinamento. Ninguém entendeu essa passagem:
“Não oponhais resistência ao mau; se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser pleitear contigo para te tirar a túnica dá-lhe também a capa. (…) Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.
Olhando assim, você pode achar humilhante tamanha resignação. Mas Jesus não está sugerindo submissão. Ele se põe acima disso. Está dizendo, simplesmente, que não vale a pena. Ou, como já disseram os Beatles, a vida é muito curta para perder tempo com brigas e confusões. Life is very short.

O Sermão da Montanha é surpreendente. O trecho do qual Erico Verissimo colheu o título de um de seus livros “olhai os lírios do campo”, é de rara sabedoria e de construção preciosa. Jesus dizia que o homem não deve se preocupar com acumulação de riquezas. Não deve se preocupar nem com seu sustento: “A cada dia basta o seu cuidado”. Que frase! O que ele queria dizer com isso? O mesmo que falou a respeito de brigas e confusões: que se preocupar não vale a pena. Ou, usando outro clássico dos Beatles, deixe estar. Let it be.

Mas não, não vou fazer uma exegese do Sermão da Montanha a partir dos Beatles. Não seria tão superficial. O Sermão da Montanha é profundo. Algumas nesgas dele você pode levar como regra. Como quando Jesus diz que cada um julga os outros com sua própria medida. Com essa sentença, ele diz o mais importante sobre a alma humana. Diz que o Mal é o que sai da boca do homem. E é.

Não são palavras santas. São palavras sábias. Mas, de todas elas, as que mais me intrigam foram as que citei lá em cima, na abertura do texto. Como o homem pode ser a luz do mundo, se há tanta crueldade, se pais que matam filhos, como se suspeita acerca daquele pai de Três Passos?

Vinha pensando nisso, vinha intrigado com isso toda a semana, até que, na quinta-feira, minha mulher me contou um caso prosaico. Ela é arquiteta. Naquele dia, havia ligado para o eletricista com quem trabalha, um homem muito sério, muito compenetrado. Assim que atendeu, ele se desculpou: não poderia falar, porque seu filho tinha caído na escola, machucara a boca e precisava ser levado ao hospital. E então, antes que ela conseguisse perguntar como estava o menino, aquele homem sisudo começou a chorar.

Ela me relatou essa história por telefone. Eu estava na redação. Desliguei com o coração apertado, pensando naquele pai, no quanto ele deve amar seu filho e em como devia estar sofrendo com o sofrimento do menino. E, ainda na redação, fechei os olhos e roguei em silêncio para que o pequeno estivesse bem, para que em breve os dois estejam de novo sorrindo, e pensei que é por causa de pais como esse, por causa de amores como esse que, sim, vós sois a luz do mundo. Vós sois o sal da terra.

Túnel do Tempo: A bola na avenida

17 de abril de 2014 1

Arte ZH
Conduzia meu veículo automotor pela Padre Cacique, nas imediações do Beira-Rio, quando uma bola branca voou por cima de um muro de colégio. Ouvi o vozerio das crianças angustiadas pela interrupção da brincadeira. Correram, dependuraram-se na tela estendida na parte superior do muro, gritaram:

- A bola! A bola!

Por sorte, a bola havia pingado perto de um ponto de ônibus, e no ponto de ônibus estava parada uma senhora de idade provecta, ela e seu guarda-chuva.

- A bola, vó! – pediram as crianças. – A bola!

Vinha em marcha reduzida, já que lá adiante a sinaleira encontrava-se fechada. Parei a poucos metros do ponto de ônibus. Fiquei observando a cena.

- Vó, vó! A bola! – esganiçava-se a gurizada.

A velha não parecia ouvi-los. Continuava imóvel, nem olhar para a bola olhava.

As crianças urravam em uníssono, a bola, a bola, a bola! A velha nem aí. Era impossível que não estivesse ouvindo, com todo aquele barulho. Só que ela não se dignava sequer a virar-se para a bola ou para trás, para as crianças no muro do colégio. A bola estava muito próxima. Bastava a mulher avançar dois ou três passos, descer o cordão da calçada, abaixar-se e colhê-la, feito uma petúnia do asfalto. Mas ela não fazia menção de que iria se mover. Ao contrário, levava uma expressão enfarruscada no rosto, parecia de mal com o mundo. Não vai pegar a bola, pensei. A essa altura, as crianças imploravam:

- Por favor, vó! A bola! Por favor!

Senti o peito se comprimir. Por que ela não lhes devolvia a bola? O que é que custava? Será que eu devia saltar do carro, correr até a bola e chutá-la muro acima? Mas o carro não estava tão perto assim, o sinal poderia abrir, aquela rua é cheia de azuizinhos. Não podia abandonar o carro, daria a maior confusão.

- A bola! – suplicavam as crianças. – A bola, vó!

As velhas têm problemas com bolas e crianças, já vi. Contei dia desses daquela que fatiava as bolas que caíam no quintal dela, não contei? Pois é. Uma bruxa. Aquela velha ali, na parada de ônibus, provavelmente era do tipo que cortava bolas de futebol desgarradas. Na certa, em vez de atirar a bola de volta às crianças, a jogaria para o outro lado da rua, debaixo dos pneus de algum ônibus. Maldita!

Esse é um dos grandes dramas da infância. Bolas são instrumentos que volta e meia fogem ao controle de quem lida com eles, rolam para longe, para lugares inóspitos, como quintais de velhas amargas e pistas de avenidas movimentadas. Uma tarde, quando jogávamos pelada na Rua da Tendinha, nos fundos da Gráfica Pallotti, o Raimundão deu o popular %22bago%22 e a bola foi parar no terreno da empresa. Ninguém queria buscá-la – havia uma lenda de que o terreno da gráfica era guarnecido por cães ferozes. Alguém aventou de obrigar o Raimundão a pegá-la. Afinal, a lei universal da peladinha é: quem chuta, busca. Mas o Raimundão negava-se a ir, dizia ter medo pânico de cachorro, não ia de jeito nenhum. Além disso, é preciso ressaltar que o Raimundão media metro e noventa de altura e era brabo feito um boi. Acabamos convencidos pelos argumentos racionais do Raimundão. Alguém deveria se sacrificar em seu lugar.

Percebi que, se dependesse dos meus amigos, o jogo não continuaria. Como estava numa boa fase, fazendo gols e tudo mais, ofereci-me em holocausto. Tudo por uma atuação consagradora.

Existia um rombo na tela de arame que protegia o terreno. Entrei por ali. Dezenas de árvores e arbustos enchiam o lugar de sombras. Não conseguia ver onde a bola caíra. Do outro lado da tela, meus amigos ajudavam:

- Mais pra esquerda! Debaixo daquela árvore grande!

Fui me esgueirando para lá, olhando para os lados, tentando adivinhar algum movimento, procurando os cachorros. Caminhava meio agachado, passo a passo. Passo a passo. Vi a bola (David viu a bola). Sorri. Apressei-me. Cheguei ao local onde a bola repousava. Recolhi-a. Coloquei-a sob o braço e… de repente…

COM MIL WOLFREMBAERS, os cachorros!!!

Três deles. Ou seriam quatro? Podiam ser até cinco. Na verdade, era uma matilha. Jesus Cristo, saí no que se chama desabalada corrida. Os cães atrás de mim, rosnando e latindo, eu correndo e correndo e correndo, os guris gritando:

- Corre! Corre!

Naquele momento, eu realmente não precisava dos conselhos deles. Corri, corri, já estava vendo o buraco na tela por onde pularia para a salvação. Corri, corri, corricorricorricorri muito, saltei para o buraco e, no instante em que estava no ar, ouvi um NHAC! e senti uma fisgada na panturrilha. Na ruazinha, os guris me cercaram, excitados. Olhei para trás e vi, por Deus que vi: um cachorro de pêlo branco-sujo, grande, tendo entre os dentes um naco de carne do tamanho de um ovo de galinha, a gordura branca projetando-se para fora do focinho. Oh, pedaço de mim!, como diria o Chico Buarque.

É por essas que um guri passa, atrás de uma bola. Por isso, decidi que sairia do carro e devolveria a bola para os guris do colégio da Padre Cacique. Puxei o freio de mão, levei a mão ao trinco, ia saindo, e então alguém mais chegou. Um homem de uns 30 anos, de jeans e camiseta branca. Caminhava sem pressa e ouviu o pedido da criançada:

- A bola, tio! A bola!

Fiquei aliviado. Um homem seria solidário, nessas questões futebolísticas. Ele devolveria a bola! O sinal abriu. Havia uma fila grande de carros a minha frente, teria tempo de testemunhar a devolução. De fato, ele apanhou a bola da rua. Mas não a devolveu. Ficou olhando-a, sopesando-a, examinando-a.

- Tio! Tio! – gritavam as crianças. – Tio!!!

Ele olhou para elas, olhou para a bola e para a bola ficou olhando, sentindo-a com a mão. Arregalei os olhos ao compreender o que aconteceria. Ele queria ficar com a bola! Queria roubá-la!!! Os carros andavam. A pista vazia se alargava diante de mim. Os carros detrás buzinavam. Eu tinha de ir! Arranquei. Mas, antes de sair, consegui abrir a janela e gritar:

- A bola, pô! A bola!!!

O homem olhou para mim. Olhou para as crianças. Olhou para a bola.

E mandou-a para o outro lado do muro.

Um ponto a favor da Humanidade!

*Texto publicado em 7/5/2008

Fiasco em Gre-Nal? Demissão imediata

16 de abril de 2014 74

Tenho lido sobre a perplexidade dos jogadores do Grêmio, em especial do centroavante Barcos, com a indignação da torcida diante do fiasco que eles fizeram no Gre-Nal de domingo.
Eis a diferença entre Barcos e D’Alessandro.
D’Alessandro saber onde vive, com quem convive. Sabe o que é importante.
Eu, se fosse dirigente de Grêmio ou Inter, eu teria uma regra: foi culpado de vexame em Gre-Nal? Demissão imediata.
Se eu estivesse no lugar de Fábio Koff, domingo passado, alguns profissionais seriam dispensados já no vestiário. Não esperaria nem pela chegada a Porto Alegre. Nada contra os rapazes, eles podem se dar bem em outro clube, decerto que se darão, mas não na Dupla Gre-Nal.

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15 de abril de 2014 0