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Posts de junho 2014

Suárez não é um coitadinho

29 de junho de 2014 28

Há três anos, Suárez foi suspenso por sete jogos, por ter mordido um adversário.
Há dois anos, Suárez foi suspenso por oito jogos, por racismo.

Há um ano, suárez foi suspenso por 10 jogos, por ter mordido outro adversário.
A pena de Suárez, por mais um desvario, desta feita cometido numa Copa do Mundo, só poderia ser muitíssimo mais pesada. Suárez talvez seja o melhor centroavante do mundo, mas, em campo, se comporta como um bandido. Ele morde, chuta, cospe e dá socos nos adversários. E, para mim o pior de tudo, não tem vergonha de manifestar seu racismo.

Suárez não é um coitadinho. Maradona, Mujica e o técnico do Uruguai passaram a mão na cabeça dele depois daquela irresponsabilidade contra a Itália, quando deveriam censurá-lo. A desclassificação do Uruguai está na conta de Suárez. Em vez de reclamar da dura (mas justa) punição, ele deveria se recolher, aprender e, pelo amor de Deus, se tratar.

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POESIA MEXICANA
Noventa e dois minutos de jogo. Pênalti para a Holanda. O México vencia até os 88, levou o gol de empate e o árbitro deu seis minutos de prorrogação (os árbitros estão sendo generosos na prorrogação, nesta Copa, o que indica uma tendência para as próximas competições).

O pênalti para a Holanda aconteceu numa jogada de habilidade e velocidade de Robben, algo que tem se repetido no torneio. É espantoso. Esse cara passa o tempo todo correndo e, aos 90, 91, 92, ainda tem fôlego para fazer o que fez dentro da área mexicana: dominou a bola, enganou o zagueiro com o corpo, foi ao fundo, impediu que ela saísse, cortou para dentro a fim de ganhar ângulo e então o capitão do México, o bom zagueiro Rafa Marques, esticou a perna e o derrubou.

Pênalti.

O holandês se prepara para cobrar. O goleiro Ochoa abre os braços. O narrador mexicano da rede americana grita:

- Ochoa! Ochoa! Braços abertos como o Cristo, pode sair daqui como salvador!

Poético. Mas não deu. Gol da Holanda. Ochoa bem que fez seus milagres nessa partida, repetindo o que havia cometido contra o Brasil, mas não houve como superar o preparo físico holandês e a categoria desse terrível Robben.

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JOGO BONITO
Porto Alegre vai assistir à melhor seleção do mundo. A Alemanha pode não ganhar a Copa, pode nem ganhar essa partida de hoje, coisas estranhas acontecem no futebol, mas, acredite, não tem time mais bem enjambrado no planeta. Observe, você que vai ao Beira-Rio: a Alemanha joga um futebol de aproximação parecido com aquele do Barcelona de Guardiola. Há sempre pelo menos quatro alemães perto da bola. Quer dizer: sempre existe opção para o passe. É um jogo refinado, escorreito, semelhante ao antigo estilo do Brasil. Aquilo que os estrangeiros chamam de “jogo bonito”.

Mas é claro que às vezes o jogo bonito não é suficiente para bater um adversário encanzinado. Então os alemães chamam Klose do banco de reservas. E aí o centroavante faz o que tem de fazer: gol.

A franja da Farrah Fawcett

29 de junho de 2014 9

Se tem algo de que os brasileiros deveriam se orgulhar são as novelas da Globo. Estão empoleiradas em um nível muito superior a quaisquer outras, de qualquer outro lugar. As redes de TV americanas com programação em espanhol passam novelas da Globo e, é claro, novelas mexicanas. A diferença entre umas e outras é do tamanho do Atlântico.
Fico pensando. Será que os mexicanos não se sentem empulhados por quem faz as novelas deles? Aqueles atores mexicanos. Eles não são verossímeis. O jeito que se comportam, o jeito que falam. Os gestos afetados. E as roupas! Todas aquelas joias, todos aqueles lenços e echarpes e saltos altos e camisas abertas ao peito e, Jesus Cristo!, todo aquele cabelo. É muito cabelo. As atrizes mexicanas parecem a Farrah Fawcett.
Você se lembra do cabelo da Farrah Fawcett? Da franja dela? Só que a Farrah Fawcett usava aquele cabelo nos anos 80, quando nós nos vestíamos de uma forma estranha. Havia calças baggy nos anos 80. Nós homens também usávamos calças baggy pregueadas, com a cintura aqui em cima. Eu não me lembro de ter usado, por Deus Nosso Senhor que acho que não usei. Mas também não garanto, vai que alguém encontre uma foto minha aí no Google, eu de calça baggy pregueada com a cintura aqui em cima.
Maldito Google.
Falando em cabelo, você se lembra do cabelo do cara do Ghost? Digo o herói, aquele que virou fantasma. Um loiro, lembra?
Aquele cara era o galã do filme, e olha o cabelo dele. Tinha mullet.
Como podíamos ser daquele jeito nos anos 80?
O Roberto Carlos, por exemplo, usou uma pena no cabelo nos anos 80, quando ele ainda não comia carne. Imagina um sujeito andando por aí com uma pena no cabelo. E houve um tempo em que homens e mulheres calçavam tamancos de madeira. Eu nunca caminhei em cima de um tamanco de madeira e não tem Google que possa provar o contrário.
Mas o que queria dizer é que os mexicanos ainda vivem nos anos 80. Talvez seja bom para eles, os anos 80 tiveram seus méritos. Nós, da América do Sul, nós com nossas atuais discussões ideológicas parecemos viver nos anos 60. A Coreia do Norte ainda não saiu dos 40. Quem vive no século 21? Possivelmente só alemães e canadenses. Um dia ainda chegaremos aonde estão alemães e canadenses. Como serão as novelas deles?
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BRASIL BUNDA LEVANTADA

Aqui no Grande Irmão do Norte tem um brasileiro que é conhecido como “O Mago dos Glúteos”. Por Deus. O cara é um personal trainer que inventou um método de exercícios chamado “Brazil Butt Lift”, que, em tradução livre, pode ser algo como “Brasil Bunda Levantada”.
Numa propaganda de TV, uma TV com programação em espanhol, obviamente, ele promete que, com o método dele, qualquer mulher pode ficar com “a famosa bunda brasileira”, e aparece junto com a Alessandra Ambrosio e a Ana Beatriz Barros. Segundo a propaganda, essas duas devem suas respectivas bundas ao “Mago dos Glúteos”. Será? Vou dar uma reparada melhor nas bundas da Aninha e da Ale para ver se o mago é bom mesmo.
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PRÊMIOS NOBEL

Confesso que isso de “as famosas bundas brasileiras” me desagradou um pouco. Não que não sinta orgulho das nossas bundas, não se trata disso, mas, sei lá, acho desconfortável você dizer que é brasileiro e a outra pessoa comentar:
_ Ah, lá tem ótimas bundas.
Não, não. Preferia que tivéssemos Prêmios Nobel. Não temos? Bem, que falem das nossas novelas, então. As bundas deixemos para a intimidade.
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SANDUÍCHE DE ATUM

Os americanos precisam muito exercícios para as bundas deles porque eles são gordos. Não todos os americanos, é evidente. Tem de tudo por aqui. Mas esse é, definitivamente, um país de gordos. Pudera: todo aquele bacon no café da manhã. E os hambúrgueres gigantescos, recheados com tudo que você pode imaginar.
Os americanos são exagerados. Eles gostam de consumir em grandes quantidades. Outro dia, entrei num café e vi que a estrela do cardápio era o sanduíche de atum. Ora, sanduíche de atum é um clássico da América. Estou aqui também para conhecer os clássicos e contar para você, não é?
Pedi o sanduíche de atum.
Vieram duas fatias de pão separadas por uma pasta de quatro dedos de atum. Cristo, pra que tanto atum num sanduíche? Devia ter umas duas latas de atum ali, dava para alimentar uma família inteira. E nem ficou bom. Ao contrário, enjoei de comer tanto atum e deixei o sanduíche pela metade.
Por isso é que eles são gordos. Tudo é em grande quantidade. Você come e come e pode repetir e come mais. Aí o que eles fazem? Apelam para o Mago dos Glúteos. Chamem o Mago dos Glúteos! Onde está o Mago dos Glúteos? Precisamos do Mago dos Glúteos!
Francamente, os americanos precisam escolher: ou o bacon ou a famosa bunda brasileira.

O novo carrossel

29 de junho de 2014 5

A Alemanha, quem diria?, virou time clássico. Aquele futebol típico alemão, de marcação implacável, de saída rápida e jogo aéreo, aquele futebol de imposição física pode estar sendo jogado por qualquer outro, não pela Alemanha. A Alemanha faz um jogo de toque, de bola rente à grama, de aproximação dos seus jogadores. Um jogo mais parecido com o Barcelona de Pep Guardiola do que a própria Espanha de 2014.
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O VELHO CARROSSEL
O time alemão que jogou mais parecido com esse foi o de 74, que tinha o craque Beckembauer entre o sistema defensivo e o meio-campo.
Aquela era uma Alemanha que fazia a bola rolar de pé em pé, mas com menos circulação de jogo que a de hoje. Quem fazia a bola circular de verdade, quem tonteava os adversários tal a movimentação e as trocas de posição de seus jogadores, era o inimigo da Alemanha, o Carrossel Holandês, de Cruyff.
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TROCA DE LADO
Agora, 40 anos depois, eles trocaram de lado. Agora, o futebol pragmático está do lado dos holandeses. A Holanda tem um bom time, mas está muito longe daquele Carrossel que encantou o planeta. Ao contrário: a Holanda aposta na saída rápida, sobretudo em Robben, talvez o jogador mais veloz do mundo, e na marcação duríssima do seu sistema defensivo, marcação que às vezes chega às raias da violência.
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PRAGMATISMO X INOVAÇÃO
Em 74, o pragmatismo alemão venceu a inovação holandesa. E agora?
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CAMINHO ERRADO
O Brasil andou para trás, desde 1982. O fracasso daquela Seleção tirou o Brasil do bom caminho. Enquanto isso, os outros países, sobretudo os europeus, avançavam em direção ao talento. Veja os destaques dessa Copa: Müller, Robben, Benzema, Neymar, Messi e o desafortunado Suárez. Atacantes. Todos atacantes, todos fazedores de gol.
É assim. O único jeito de ganhar, em futebol, é fazendo gol.

Brasil não mereceu a vitória

28 de junho de 2014 66

Desculpem-me os ufanistas, foi uma classificação imerecida. Não só porque o Chile jogou melhor, mas porque se comportou melhor. Comportou-se melhor como equipe de futebol e como participante de um evento planetário. O Brasil avança venceu graças às cobranças de pênaltis, mas tem que aprender que o custo da vitória a qualquer custo às vezes é alto demais.

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MAU COMPORTAMENTO

É assim que o Brasil quer ser campeão do mundo?
Antes de o jogo começar, a pequena torcida chilena no Mineirão quis cantar a capella os acordes finais do seu hino nacional, imitanto os brasileiros, e os torcedores anfitriões não permitiram: vaiaram os chilenos o tempo todo.
Durante o tempo regulamentar, Fernandinho e Luiz Gustavo se revezaram em faltas violentas nos chilenos e Hulk quis marcar um gol com a mão.
Para arrematar, aos dois minutos da prorrogação, Jô cravou as travas da chuteira no peito do goleiro Bravo. O árbitro poderia (e deveria) tê-lo posto para fora. Deu-lhe só o amarelo.
Não, não é essa a postura de um campeão do mundo.
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AS FALÊNCIAS BRASILEIRAS

Oscar, Fred, Daniel Alves e Marcelo são as grandes falências do Brasil dentro de campo.
Fora dele, inegavelmente, é Felipão. Não existe nenhum requinte tático no time do Brasil, nenhum ardil de vestiário. A Seleção Brasileira apostou apenas no vigor de seus dois zagueiros e de seus dois volantes, e na qualidade de Neymar. Só.

Felipão decerto acha que o suposto sentimento patriótico despertado pelo Hino Nacional entoado aos berros, ou o incentivo do canto monótono da torcida que se diz brasileira com muito orgulho e com muito amor, ou a indignação causada pela imaginária campanha da imprensa contra sua equipe, Felipão acha que esses ingredientes são suficientes para formar um campeão. Não são. Essa é uma ideia ultrapassada. Essa modesta Seleção Brasileira poderia apresentar mecanismos mais inteligentes de resolver os impasses de um jogo de futebol. Desde que jogasse futebol.
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JUÍZES COMPRADOS?

Uma bola no travessão e outra na trave chutadas pelos chilenos salvaram o Brasil. O imponderável, portanto.
Ora, parece que o Brasil não comprou a Copa.
Parece que os juízes não estavam condicionados a favorecer o dono da casa, que gastou tantos bilhões em estádios.
Parece que o futebol se impõe até às mais elaboradas teorias da conspiração.
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TROCAS URGENTES

Felipão teria de fazer muitas trocas para o Brasil melhorar, mas uma mudança drástica poderia abalar o time. Talvez opte por tirar o mais fraco, Daniel Alves, e o que tem comprometido mais no movimento de meio-campo, Oscar.
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O 7 DO CHILE
O camisa 7 do Chile, Alexis Sánchez, foi o melhor em campo: quase que desmontou o Brasil a drible, marcou o gol de empate, mas acabou errando um pênalti. A sorte também precisa ajudar.

Brasil tem obrigação de vencer

28 de junho de 2014 10

Todos nós sabemos que o Chile tem um bom time e tudo mais, mas é inconcebível o Brasil ser eliminado pelos chilenos nas oitavas-de-final de uma Copa em território brasileiro. Seria o maior fiasco da Seleção Brasileira em todos os tempos.
Portanto, não vou me ater aos perigos do Chile, no Aránguiz, no Vargas, no liso camisa 7 Sánchez. Não. Quem tem de se preocupar com isso é o Felipão e seus jogadores.
Só digo isso: o Brasil tem obrigação de vencer. Obrigação. Não me voltem para casa desclassificados.

Viva a Fifa

28 de junho de 2014 6

A Fifa é uma entidade cheia de problemas, que merece carradas de críticas. E, de fato, no Brasil, a Fifa foi muito criticada. Só que pelos motivos errados.
No Brasil, a Fifa foi criticada pelos seus méritos.
Você não se lembra, mas o futebol, até bem pouco tempo atrás, era o que no interior de Cachoeira do Sul se chama de “furdunço”. O torcedor era tratado como aquelas galinhas que passam a vida presas em gaiolas nos aviários. Houve jogos no Olímpico e no Beira-Rio com algo em torno de cem mil pessoas em cada estádio, imagine (no Beira-Rio e no Olímpico cabe a metade disso). Os torcedores se empoleiravam uns em cima dos outros, os banheiros, pouquíssimos, eram imundos, os corredores de saída estreitíssimos. A tragédia estava sempre rondando os campos de futebol.
Muitos campeonatos não terminavam _ iam para o que se chamava de “Tapetão”, termo que nem se usa mais. As fórmulas eram esdrúxulas. Um time era desclassificado numa fase, disputava uma repescagem e voltava na semifinal. Um Campeonato Brasileiro chegou a ter quase cem participantes, divididos em 10 chaves.
Hoje o futebol é organizado. Há padrões de tratamento do público, de respeito a contratos de jogadores, de uniformidade de arbitragem. Uma Copa é um exemplo planejamento e eficiência. É o maior evento internacional do mundo, e sempre funciona bem. Estão envolvidas multidões de 32 países de todo o planeta, jornalistas, artistas, gente de culturas e comportamentos diversos, mas as coisas sempre saem à perfeição. Observe um jogo de Copa. As multidões se deslocam sem atropelo, entram com facilidade nos estádios, assistem a ótimos espetáculos e voltam para casa em segurança.
Graças à Fifa.
No geral, a Fifa fez bem ao futebol. E a Fifa não cometeu nenhum dos erros a ela atribuídos no Brasil. A Fifa não mandou que ninguém fosse despejado de sua casa, não mandou que a prefeitura de Porto Alegre tirasse o MacÁurio do seu lugar histórico, não mandou que o governo estipulasse 12 sedes em vez de oito, não determinou que qualquer estádio fosse construído. A Fifa não mandou, não manda nem mandará no Brasil.
O que a Fifa fez foi entregar ao Brasil um caderno de encargos, já que o Brasil queria sediar a Copa. Entre os encargos não estão previstas desocupações, onerações de impostos ou gastos seja lá em que setor for. A Fifa não obriga ninguém a gastar em estádio o que era para ser gasto em hospitais. O Brasil tinha, apenas, de apresentar algumas condições básicas para sediar o torneio. Caso o Brasil não quisesse, outros países o sediariam com boa vontade. Mas o Brasil quis, ganhou e festejou a conquista.
Às vezes o Brasil parece um país habitado inteiramente por adolescentes, rebeldes pela rebeldia, contestadores do mundo adulto do qual não fazem parte.
Os podres da Fifa não estão localizados na organização da Copa, aí estão as qualidades da Fifa. Os podres da Fifa são mais sofisticados. O principal deles é que a Fifa criou uma rede de opressão ao principal protagonista do futebol, que não é o jogador, não: é o clube. Sem os clubes, o futebol não existe, e a Fifa escraviza os clubes com sua estrutura rígida montada a partir de confederações e federações. Aí, nesse sistema tirânico da Fifa, reside toda a podridão. Mas não é este o meu assunto, por ora. Meu assunto é o que a Fifa faz de bom, e os brasileiros estão experimentando agora o que a Fifa faz de bom. A Copa do Mundo é um show de organização, competência e bom senso. Que o Brasil aproveite a Copa do Mundo. E aprenda com ela.

Ao entardecer de Boston

27 de junho de 2014 39

Você envelhece, inexoravelmente envelhece, mas, em compensação, a experiência torna-o mais resistente. Você já viu tanta coisa, já sentiu tanta coisa, está preparado para qualquer contingência. Você é mais velho, sim, mas é menos tolo.

Em tese. A realidade não tem sido essa, pelo menos não a minha. Sinto-me mais sensível do que nunca com o inapelável passar dos anos, o que, confesso, me incomoda.

Bem, agora cá estou, vivendo nos Estados Unidos por essas surpresas da vida. Sabia que, nas primeiras semanas, seria duro. Tenho de me virar numa língua que não é a minha, num lugar desconhecido e estando totalmente sozinho — minha mulher e meu filho ainda levarão algumas pastosas semanas para vir.

No entanto, preparei-me para todas as dores físicas e anímicas. E estava me saindo bem, estava tudo dentro do planejado. Até que, dias atrás, saí para comer algo ao entardecer suave de Boston em junho. Caminhava pela Harvard Street admirando a paisagem, os grandes sobrados de madeira, as ruas arborizadas e floridas, e resolvi ligar para casa. Atendeu o meu filho. A felicidade aqueceu meu peito quando ouvi sua voz de menino pequeno. Começamos a conversar, conversamos bastante, só que, de repente, sem motivo aparente, ele rompeu em pranto. Não era choro de manha, era choro sentido, de soluços. Choro de tristeza. Perguntei por que ele chorava e ele respondia, resfolgando:

— Não sei, papai…

Pedi que parasse de chorar, e ele repetia:

— Não consigo, papai. Não consigo parar de chorar…

Compreendi que ele estava com saudade e não conseguia discernir o que sentia. A mesma saudade que me confrangia o coração a cada noite, antes de dormir. Demorei alguns minutos para consolá-lo. Consegui, enfim, e desliguei o telefone. Continuei caminhando pela Harvard Street sem saber exatamente o que pensar. E então, bem na minha frente, um menininho e seu pai saíram de dentro de uma loja, um café, sei lá. O menininho era pouco mais novo do que o meu filho. Estava uns dois passos na frente do pai. Fez menção de correr e gritou:

— Me pega, papai! Me pega!

E o pai riu, fazendo menção de correr atrás dele, e ambos riram. Fiquei olhando para a cena. Não havia motivo plausível, mas aquilo me deixou ligeiramente comovido. Uma bola de sentimento subiu-me pela garganta, interrompeu-me a respiração e aí, da forma mais idiota do mundo, meus olhos se encheram d’água. Comecei a chorar. Como meu filho, minutos antes, não conseguia parar de chorar. Chorei baixinho, caminhando pela Harvard Street, ao entardecer amarelo pálido de Boston, e pensei que a idade não me defende de nada. Deveria haver uma casca neste meu peito, deveria haver uma capa protetora sobre mim, feita com a costura de todos esses anos. Mas, não. Não. A idade não me defende de nada.

Som de Sexta

26 de junho de 2014 2

Alemanha jogou como o Flamengo

26 de junho de 2014 4

Botaram a camisa do Flamengo na seleção alemã, e o que aconteceu?

A seleção alemã jogou como o Flamengo.

Ao vencer os Estados Unidos por 1 a 0 e se classificar para as oitavas-de-final da Copa, ontem, no Recife, a feroz seleção germânica parecia o manemolente Mengão dos anos 80, só que em vez de nomes brasileiríssimos como Zico, Tita e Lico, quem estava de vermelho e preto eram sujeitos enérgicos chamados Schweinsteiger, Mertesacker e até um com trema no “O”, Özil, vê se pode.

O toque de bola dos dois times, porém, foi o mesmo. Na verdade, a Alemanha podia tocar a bola flamengamente, sem açodamento, porque o empate a classificaria. Isso (a classificação) poderia acontecer até em caso de derrota, dependendo da combinação do resultado de Gama e Portugal, que se enfrentavam a dois mil quilômetros de distância Brasil adentro, no segundo estádio mais caro do planeta Terra, em Brasília (o primeiro é Wembley, com seus dois mil banheiros).

Os Estados Unidos também poderiam se classificar com derrota (como acabaram se classificando), desde que Gana não vencesse. Então, a torcida americana passou o tempo todo controlando o que se passava em Brasília.

Melhor, porque, no campo do Recife, era difícil de controlar. Aí o controle era alemão. Foi espantoso e, de certa forma, agastante: nos primeiros 20 minutos de partida, os alemães trocaram passes na intermediária de ataque, empurrando o time americano para dentro da sua própria área. A bola a todo momento cruzava pela frente do gol americano. A primeira vez que um jogador dos Estados Unidos apareceu com a bola na intermediária de ataque foi aos 18 minutos. Aos 21, Zusi deu o primeiro chute americano com algum perigo, por cima do travessão.

Depois disso, os americanos até que respiraram um pouco, conseguiram ficar alguns minutos com a bola, mas, no segundo tempo, a blitz alemã se intensificou. Os alemães queriam marcar seu gol de uma vez. Insistiram no sítio à grande área ianque por 10 minutos, quando Müller apanhou um rebote e fez 1 a 0.

Pronto, era o que os alemães queriam. Estavam com o primeiro lugar no grupo garantido, sabiam que os Estados Unidos não teriam força para uma virada. Passaram, então, a tocar a bola molemente, fazendo o jogo rodar da esquerda para a direita e de novo para a esquerda, iam até a área do inimigo e retornavam e recomeçavam tudo outra vez. Esse jogo enervante convinha à Alemanha: evitava-lhe o desgaste físico. E também convinha aos Estados Unidos: Portugal estava vencendo por apenas um gol de diferença em Brasília. Assim, a partida transcorreu sem maiores sobressaltos, debaixo da chuva miúda da capital pernambucana. No fim, todos saíram felizes e até o técnico americano, Jurgen Klinsmann, que é alemão, conseguiu relaxar e cumprimentar seus compatriotas amistosamente. A batalha havia terminado. E ambos foram vencedores.

Como os americanos veem a Copa e o futebol

26 de junho de 2014 8

Assisti ao jogo dos Estados Unidos com Portugal em um bar com umas 40 (sério, 40!) telas de TV penduradas no teto, nas paredes, em toda parte. O lugar chama-se Lansdowne Pub, fica no Fenway Park, em Boston. Estava lotado de americanos vestidos de azul, vermelho e branco, muitos debaixo das cartolas do Tio Sam, portando enormes bandeiras e faixas onde se lia: “Believe”. Eles acreditavam.

Eles acreditam. Mas têm consciência de que sua seleção ainda se repoltreia no Terceiro Mundo do futebol. Porque os americanos, surpreendentemente, conhecem o nobre esporte bretão e, mais supreendentemente ainda, o praticam nas praças e nos parques. E estou me referindo aos americanos da gema, à elite branca, não aos chicanos que jogavam bola no México ou em Porto Rico.

Esses jovens americanos tomaram gosto pelo futebol. Os jovens, bem entendido. Os velhos americanos ainda preferem os quatro esportes nacionais, assistidos cada qual em sua temporada: o futebol americano, o basquete, o beisebol e o hóquei no gelo.

Antes da Copa começar, o USA Today publicou uma matéria contando exatamente isso, que esse gosto dos jovens pelo futebol fez com que as TVs americanas investissem na transmissão dos jogos. É verdade, você pode ver todas as partidas da Copa em várias emissoras, tantos as que têm programação em espanhol quanto as que têm em inglês. Nos jornais, as notícias da Copa ganham farto espaço, inclusive na capa.

O mesmo USA Today revelou inclusive que o aplicativo de encontros Tinder tem sido muito usado pelos americanos interessados em encontrar companhia feminina no Brasil. Os americanos, aliás, são os torcedores estrangeiros com mais ingressos, nesta Copa brasileira.

Eles querem ver os jogos, eles se interessam pelo que alguns já nem chamam mais de soccer e sim de “fútbol”.

Hoje, para esse jogo com a Alemanha, no Recife, as atenções dos americanos estão ainda mais atiladas, não só porque eles podem conseguir a classificação para as Oitavas, mas por um pequeno conflito pessoal que o confronto oferece. Os americanos adoram uma boa história, adoram um conto de superação ou de drama interno, e é o que vai ocorrer nesse jogo, porque o técnico dos Estados Unidos, Jurgen Klinsmann, é alemão, com luzidio currículo pela seleção alemã. Os jornalistas americanos têm se perguntado (e perguntado a Klinsmann) como ele vai reagir diante do conflito. Klinsmann responde como qualquer profissional responderia:

— Vou fazer o meu trabalho, assim como Jogi (Joachim Low, técnico da Alemanha) fará o dele.
Quando um repórter alemão fez perguntas em alemão durante a coletiva, Klinsmann rebateu:

— Em inglês, por favor.

Os americanos observaram e anotaram. Estão interessadíssimos nessa história. Estão interessadíssimos no futebol. Mais interessados seriam se tivessem clubes fortes para os quais torcer. Mas essa construção, em futebol, é lenta. O patrimônio que um Grêmio e um Inter levaram para amealhar não se faz de uma Copa para outra, leva bem cem anos de trabalho, suor e gols.

O novo Messi que surge no Brasil

25 de junho de 2014 13
Foto: Mauro Vieira/Agência RBS

Foto: Mauro Vieira/Agência RBS

O Messi que está surgindo agora nos campos brasileiros, o que foi visto a reluzir nesta quarta-feira, em Porto Alegre, este é um novo Messi. É o Messi argentino. Porque até então o mundo só conhecia o Messi do Barcelona, o Messi agradecido ao clube que o acolheu e bancou seu tratamento de saúde quando ele tinha apenas 13 anos de idade e 1m40cm de altura.

No Barcelona, Messi foi o astro de um supertime que revolucionou o futebol mundial. Um time único, como único foi o Real Madrid de Puskas, ou o Santos de Pelé, ou o Ajax de Cruyff. No Barcelona, Messi tinha de um lado o cérebro, Xavi, de outro os pulmões, Iniesta. Esses três pequenos e ativos jogadores deram ao Barcelona uma intensidade jamais vista no futebol mundial. Mas aquele time acabou, e acabou porque seu jogador central, Xavi, não tem mais a mesma capacidade física que tinha há dois anos.

Não se sabe o que será do novo Barcelona, esse em que Messi tem Neymar como companhia, mas nesta Copa do Mundo vê-se que o principal investimento do craque, hoje, é a seleção de seu país natal. O Messi da Argentina de 2014 não é o da Argentina de 2010. Quatro anos atrás, havia o incômodo de um explosivo Tevez dentro de campo e de um ostensivo Maradona fora dele. Messi, mesmo com toda a sua capacidade, ainda não era a estrela principal.

Agora é. Agora ele é o capitão, é quem decide a mudança tática, é quem faz os gols, é quem joga com a seriedade de quem tem um objetivo a cumprir. Messi ganhou todos os jogos da Argentina até agora. A Argentina é o time dele. Um time que ele está preparando para vencer.

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O ADEUS DO CRAQUE

O Zini conhece o joguinho. Escreveu, nesta semana, uma coluna fazendo justiça a um dos maiores craques do século 21, o jogador em torno do qual foi montado o supertime do Barcelona, o maestro discreto da Copa de 2010: Xavi.

Xavi fazia a diferença no Barcelona e na seleção da Espanha. Era o cérebro de um e de outra. Vi-o em campo em algumas partidas da Espanha na África do Sul, e me embasbaquei. Xavi controlava o jogo com uma habilidade escorregadia, com a consciência e a presciência exatas de cada lance. Com a bola nos pés, encontrava espaços onde não havia. Sem ela, dava opções de desafogo aos seus companheiros. Xavi tornou Iniesta maior do que é e fez Messi assumir sua verdadeira dimensão. O próprio Messi um dia admitiu:

— Difícil é fazer o que o Xavi faz…

Fazia. Xavi foi um jogador temporão. Amadureceu tarde. Desenvolveu seu jogo basicamente por quatro anos, de 2008 a 2012. Antes disso, não lhe davam condições de aparecer; depois disso, não tinha mais condições de render. A decadência de Xavi foi a falência do Barcelona e da Fúria. Não há quem o substitua. Ao contrário do que se pensa, muitos são, sim, insubstituíveis na vida.

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VELHOS XAVIS

Xavi foi uma mistura de dois craques que tive sorte de muito ver em campo, um do Inter, outro do Grêmio: Carpegiane e Valdo. Como Carpegiane, Xavi carregava a bola e, antes de passá-la adiante, dizia ao companheiro o que devia fazer. Como Valdo, era dono de uma habilidade macia, jogava fácil, como se não fizesse esforço. Fazia as coisas de forma simples, o que é o mais difícil.

Épica, heroica e cheia de bravura

24 de junho de 2014 22

Aos 49 minutos do segundo tempo, o mítico goleiro Buffon saiu da sua área, atravessou todo o campo do belo Estádio das Dunas, em Natal, e posicionou-se na área do adversário, para esperar a cobrança de falta que Pirlo ia fazer da intermediária. Não é a primeira vez que um goleiro arrisca-se dessa forma no fim de uma partida, só que Buffon foi além: ele não voltou mais para o seu gol. A Copa do Mundo terminou para a Itália com o supergoleiro Buffon jogando de ponta-direita.

Parece uma temeridade, mas foi compreensível devido ao contexto. O Uruguai vencia (venceu) por 1 a 0 e o empate daria a classificação à Itália. O jogo foi todo, de certa maneira, italiano, e italiano, no caso, não é o gentílico, mas o adjetivo. Foi uma partida disputada italianamente, do jeito que a Itália gosta e do jeito que a Itália alcança suas grandes conquistas.

A Itália sabe como transformar uma partida de futebol em pesadelo. O Uruguai precisava vencer, a Itália seguiria em frente se não ocorressem gols. Então, os italianos se empenharam para que a bola ficasse longe das áreas. O primeiro tempo inteiro foi de faltas, quedas, reclamações, gente rolando pela grama, muita intensidade, pouca clareza. Balotelli foi o destaque negativo. Jogou pouco, cometeu faltas violentas e levou cartão amarelo. Se a Itália seguisse em frente, ele ficaria de fora por suspensão automática. No intervalo, foi substituído.

Quem se destacou positivamente no time italiano foi Buffon. Aos 32, ele salvou sua seleção defendendo dois chutes, um de Suárez, outro de Lodeiro; um com a mão direita, outro com a mão esquerda. Um tigre de agilidade debaixo do travessão.

Nada acontecia, o jogo não saída da intermediária, até que, aos 14 minutos do segundo tempo, Claudio Marchisio fincou os cravos da sua chuteira na perna de Arévalos. O juiz estava a dois passos do lance e expulsou o jogador italiano. Aí o jogo ficou diferente, ficou urgente. O Uruguai tinha meia hora para marcar um gol. A Itália recuou inteira e postou-se toda diante da área de Buffon. Aos 33 minutos, num lance confuso, Suárez meteu seus dentões de Mônica no ombro do zagueiro Chiellini, que caiu no chão, gritando de dor. O juiz não viu. Na sequência do lance, o Uruguai cobrou escanteio pela direita, a bola viajou até a marca do pênalti, Godín saltou e bateu com o número 3 de sua camisa na bola, que foi para o gol: 1 a 0 para o Uruguai.

Faltavam 10 minutos para a partida terminar, e agora a pressa era da Itália, agora a Itália tinha que fazer com que as coisas acontecessem. De que jeito, se estava com um jogador a menos? Só numa bola parada, num escanteio ou numa cobrança de falta como aquela que surgiu para Pirlo quatro minutos depois do fim do tempo regulamentar. Donde o desespero de Buffon. Não havia mais nada a perder. Buffon sabia disso. Foi para a área inimiga e ficou lá por um, dois minutos, um tempo sem fim. Mas o jogo acabou e Buffon ainda estava naquele lugar distante do seu habitat natural. Pouco importava. A Itália estava fora da Copa e o Uruguai seguia em frente. Uma partida que começou modorrenta, confusa, truncada, uma partida, enfim, italiana, que terminou épica, heroica, cheia de bravura. Que terminou, enfim, uruguaia.

Uma goleada preocupante

23 de junho de 2014 46

Não venha cantando aquela musiquinha enjoativa propagandeando que você é brasileiro com muito orgulho, com muito amor. Não. A goleada sobre Camarões é enganosa. É daquelas goleadas de Grêmio e Inter no Gauchão. Esse Camarões é um dos piores times da Copa, senão o pior. Dias atrás, levou 4 a 0 da Croácia, e poderia ter levado 6.
Do Brasil também poderia ter levado 6? Ah, sim, poderia, mas poderia igualmente ter feito pelo menos mais um.

Camarões dá espaços para os adversários e, quando ataca, o faz irresponsavelmente, sem cuidar de quem fica atrás. Pior: os jogadores de Camarões não têm nem a força física e a velocidade dos de Gana, por exemplo.

Enfrentando a Seleção Brasileira, dentro do Brasil, o time de Camarões mostrou como joga sem a menor com a preocupação com o futuro próximo, aquele que chegará depois de uma hora e meia de partida. Ninguém, nem mesmo Neymar, foi objeto de uma marcação mais atenta. Deu no que deu.

Mas foi uma goleada… preocupante. Oscar, se você colocar o Batatinha a vigiá-lo, Oscar some do jogo. Hulk começou agressivo como ponta-direita, mas depois virou o Bruce Banner e não assustou mais ninguém. Daniel Alves é o mais fraco do time. Já disse: Pará deveria ter sido convocado em seu lugar. Marcelo aparece muito com todo aquele cabelo, mas produz pouco. O goleiro ainda não foi testado; tenho medo de quando for. Os dois zagueiros são bons, Thiago Silva bem melhor; David Luiz é becão de colônia, rebatedor, malvado _ funciona. Os dois volantes são regulares. Sobra Neymar, esse, sim, jogador de Seleção Brasileira. Mas aquele seu jeitinho levemente arrogante de não cumprimentar o jogador africano que pediu desculpas por tê-lo derrubado, aquele exibicionismo de cabelo pintado, aquela manha de sair de campo gingando, aquilo tudo não é da seriedade de uma Copa do Mundo.

Talvez eu esteja sendo muito exigente com a Seleção Brasileira classificadíssima como está, primeira do grupo e tudo mais. Talvez. Mas os chilenos vêm aí, e vêm com um time bem ajustado, com Vargas e Aránguiz, que todos conhecemos, e um número 7 perigoso chamado Aléxis Sánchez. Cuidado com esse 7. Cuidado. Eu não ficaria tão tranquilo. Eu não sairia por aí entoando que sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor…

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GRANDES ÁFRICAS

O futebol é coisa velha de mais de cem anos. As mudanças no jogo são lentas e, em geral, só acontecem do campo para fora. Entre uma goleira e outra dão-se poucas variações. Os grandes do tempo da II Guerra continuam os mesmos, e os pequenos custam a se afirmar.

No futebol, não há mobilidade de classes.

Os grandes clubes do Brasil são os mesmos 12 de sempre. As grandes seleções do mundo são quatro, mais quatro. Não oito: quatro e depois quatro.

Bem.

Por certo tempo, o futebol africano pareceu se insinuar como a revolução que renovaria o futebol, com seus jogadores altos, fortes, velozes e habilidosos. O que lhes faltaria? Talvez um pouco de malícia que iam adquirir jogando na Europa ou sendo treinados por técnicos estrangeiros. Certo. Eles estão na Europa, e há um punhado de técnicos estrangeiros na África. Mas os africanos não evoluem.

No vibrante jogo com a Alemanha, domingo passado, um zagueiro de Gana tentou dar um chapéu num atacante alemão dentro da sua área de defesa, aos 45 do segundo tempo. É claro que perdeu a bola. A Alemanha só não marcou o terceiro gol por minúcia. Esse tipo de temeridade, por favor, nem no Ararigboia. Imagina na Copa.

Camarões enfrentou a Seleção Brasileira com uma leveza de time amador e uma irresponsabilidade surpreendente. Aquele jogador que empurrou Neymar atrás do gol, será que ele não percebeu que só não foi expulso porque o juiz não acreditou que alguém tivesse tamanho desplante numa Copa do Mundo? Pois ele teve. Camarões piorou em relação a si próprio. Os africanos, todos, parecem ter dado um passo atrás.

A Argentina vai ser campeã

23 de junho de 2014 22

Palpite, apenas, e, como todo palpite, sujeito a erro. Mas não é palpite intuitivo. Tenho cá minhas razões. Ei-las:
1. A Alemanha é melhor do que a Argentina. A Alemanha montou o melhor time do mundo, com um toque de bola que o Brasil tinha até a Copa de 82 (que mal para o futebol fizeram aquele fracasso e o sucesso de 94…). A Alemanha é quase o velho Brasil, um time de jogadores inteligentes, velozes e habilidosos. Só que a Alemanha não tem Messi.
2. O Brasil é outro favorito, óbvio, o Brasil sempre é favorito. O Brasil conta com dois zagueirões enérgicos e o talento de Neymar. E nada mais. Daniel Alves é um Pará, com a diferença de que Pará marca melhor. Marcelo seria um bom ponta-esquerda, se ainda existissem pontas-esquerdas. Os outros são coadjuvantes de um Neymar que não está maduro como, por exemplo, um Messi.
3. Holanda e França são times rápidos, com bons atacantes, mas nenhum deles é craque. Nenhum deles é Messi.
4. Já a Argentina quase que só tem Messi. Seu escudeiro é Di Maria, um atacante finório, que não se assusta com zagueiro brabo. Esse é bom. Os demais estão muito abaixo. Isso pode ser importante, mas torna-se menos importante devido à forma como Messi está encarando essa Copa do Mundo. Ele assumiu o time da Argentina. A responsabilidade é dele. Não há um Maradona chamando a atenção na área técnica, beijando os jogadores na descida para o vestiário; não há um Tevez reivindicando a liderança, gritando com os jogadores que vêm de trás. Há Messi. Há o craque concentrado, decidido, ansioso por alcançar uma glória que ainda lhe falta. Faz toda a diferença. Messi está pronto para ganhar a Copa. E a Copa parece pronta para Messi.

Por que a Argentina ganhou

23 de junho de 2014 2

A Argentina não tem pressa. Joga o seu jogo, faz o que acha que tem de fazer, como se a vitória fosse uma consequência inevitável da soma de seus atos. Foi assim no 1 a 0 contra o Irã, sábado passado. Curiosamente, um sucesso imerecido, obtido aos 45 do segundo tempo graças ao talento do craque: Messi dominou a bola a dois passos do bico esquerdo da área, puxou para dentro do campo a fim de abrir um mínimo espaço para o chute e, neste mínimo espaço, meteu a bola de esquerda, em curva, contornando os braços do goleiro para, às costas dele, entrar no gol.
Eis o diferencial da Argentina: a técnica líquida de Messi. Uma técnica superior, que contagia o restante do time. É por isso que a Argentina não se afoba. Porque os outros olham para Messi e veem a serenidade dos sábios. Se ele está assim, tão calmo, não é preciso se enervar. Ele sabe o que está acontecendo. Ele sabe que vai resolver.
Ele resolveu.
Mas não foi fácil.
No primeiro tempo, o time do Irã armou uma retranca poucas vezes vista na história das Copas. Tente imaginar: o campo do Mineirão tem 105 metros de comprimento. Os 52,5 metros do lado argentino ficavam desertos, com exceção do goleiro Romero e um ou dos zagueiros distraídos. Os 16,5 metros da área do Irã também ficavam desertos, a não ser pelo atento goleiro Alizera. Sobravam 36 metros. Mas o Irã permitia que a Argentina avançasse cerca de 10 metros em seu campo e só a partir daí montava a primeira barreira. Então, 10 jogadores iranianos se concentravam numa extensão de 25 a 30 metros, menor do que uma quadra de futsal. Como passar por tanta gente reunida disposta a não deixar ninguém passar?
Em geral, defesas assim fechadas são abertas pelas pontas. E bem que a Argentina tem dois laterais atuantes. Zabaleta avança bastante pela direita e Rojo faz cruzamentos insinuantes da esquerda. O problema é que, no meio da área, Higuaín não tem a mesma categoria que Messi e Di Maria demonstram fora dela.
São esses dois o grande trunfo argentino. Mesmo cercados de inimigos, eles avançam com a bola grudada à chuteira e dificilmente são desarmados. Em dois lances do jogo contra o Irã, Di Maria chegou a driblar quatro adversários em fila. Messi, a mesma coisa. Pode haver três, quatro marcadores a bufar em volta dele, que ele domina com serenidade, tenta clarear o lance e dar o passe vertical, rumo ao gol inimigo. Messi não se desespera.
Mas o jogo de sábado era para se desesperar. No segundo tempo, o Irã soltou-se um pouco mais, começou a sair em contragolpes e expôs os defeitos do time argentino. Aos 9 minutos, o árbitro não assinalou um pênalti a favor do Irã; aos 22, o goleiro Romero evitou o gol numa cabeçada de Dejagah; aos 40, o goleiro salvou a Argentina mais uma vez. Um mínimo de ousadia iraniana foi o suficiente para a defesa hermana mostrar sua fraqueza. Era para a Argentina perder. Outro time perderia. Outro, que não tivesse Messi. Mas a Argentina tem Messi. Essa é a grande questão: a Argentina tem Messi.