Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de outubro 2014

Ouça o meu comentário no Gaúcha Repórter desta sexta-feira

31 de outubro de 2014 0

Getúlio, o pior. Itamar, o melhor

31 de outubro de 2014 53

Itamar Franco foi o melhor presidente da história do Brasil.
Getúlio Vargas foi o pior presidente da história do Brasil.
O governo de Itamar durou dois anos e três meses, foi sempre democrático e não apresentou mácula de corrupção. Nesse curto período, sua administração domou uma inflação que beirava os mil por cento ao ano, o que até então parecia impossível, e cimentou o caminho para a estabilidade econômica do país. Todas as obras dos presidentes que se seguiram só puderam ser realizadas porque a inflação foi controlada.
Getúlio mandou no Brasil por 19 anos, 15 desses como ditador. Só isso, só o fato de ter sido ditador, seria o suficiente para inscrevê-lo no rol dos canalhas da História. Toda ditadura é, por conceito e por princípio, um mal; assim como a democracia, por conceito e por princípio, é um bem. Getúlio interrompeu um legítimo processo democrático para se encastelar no poder. Suas realizações, como as Leis Trabalhistas e o voto feminino, eram demandas da sociedade, avanços internacionais que seriam alcançados mais cedo ou mais tarde. Não se precisava de ditadura para obtê-los. Não se precisa de ditadura para obter coisa alguma.
Com a ditadura, Getúlio extinguiu a federação de fato, centralizando o poder e diminuindo a autonomia dos estados, ação consagrada na famosa cerimônia da queima das bandeiras. Também instaurou a lógica paternalista do defensor dos pobres no Brasil e, depois, quando finalmente se elegeu com legitimidade, criou à sua volta uma estrutura de apoio composta, sobretudo, pelo peleguismo sindical. Estavam formados os dois grupos que iam se enfrentar pelas décadas seguintes: os populistas paternalistas e os conservadores.
Os populistas paternalistas têm a seu favor o charme da esquerda e a presuntiva boa intenção de ajudar os pobres. Na verdade, só o que eles querem é o poder. Os conservadores têm a seu favor uma aura de modernidade capitalista. Na verdade, só o que eles querem é o poder. Donde, golpes e contragolpes que não levam a lugar algum.
O golpe de 64 foi a derradeira vitória dos conservadores. Brizola até ressurgiu como herdeiro do populismo, mas o PT soube ocupar o seu lugar, ridicularizando-o como um político obsoleto e algo folclórico. Lembro-me dos discursos dos intelectuais petistas nos anos 80, criticando o populismo como causa do atraso do país. Era bonito. E era alvissareiro. O PT anunciava-se diferente desses dois grupos, mas, para chegar ao poder, teve de ceder, exatamente, ao populismo paternalista que criticava em Brizola. O PT apoiou-se em sindicatos, em organizações da sociedade civil e, finalmente, em quaisquer aliados políticos que lhe dessem sustentação parlamentar, inclusive os velhos ícones da ditadura, como Maluf. Agora, o PT arroga-se como defensor dos pobres, tanto quanto Getúlio. O PT é filho caçula de Getúlio. Filho caçula da ditadura getulista, que, como toda ditadura, entortou a nação.
Mas o paternalismo do PT não é errado quando investe no Bolsa Família. O Bolsa família é um bom programa corretivo de desigualdades. É errado quando o governo se apresenta como paladino do povo oprimido. Numa nação madura, os pobres não precisam de ninguém que os defenda. Não precisam de pais ou heróis. Os pobres, os ricos e os remediados não têm de depender de governo algum. Têm de contar com um Estado que tenha sistemas de proteção aos mais fracos e de garantia de oportunidades iguais a todos. Os governos são apenas administradores desse sistema.
Um grupo governante que estivesse realmente disposto a fazer o Brasil amadurecer teria de começar descentralizando a arrecadação e refundando a federação. Você sabe quantos programas de ajuda aos municípios são mantidos pelo governo federal? Mais de 200. Contei 229. Programas para fazer tudo, de esgoto a feiras do peixe. Então, funciona assim: o imposto é arrecadado na cidade, vai para Brasília e volta muito tempo depois através de um desses programas. Nesse longo caminho, o dinheiro, o seu dinheiro vai sendo desbastado pela burocracia e pela corrupção. Por que os recursos não ficam no município? Por que têm de passar pelas mãos do Grande Pai provedor? Se ficassem no município, a comunidade se encarregaria de fiscalizar a forma como são aplicados. Seria um verdadeiro incentivo à participação popular na vida pública, não esses mal-intencionados conselhos de sabotagem da democracia representativa.
Bastaria isso para que a corrupção fosse atorada pela metade, no mínimo. Mas, para que isso fosse feito, o grupo governante teria de renunciar a parte do poder. E quem nesse país é capaz de renunciar a qualquer pedaço de poder? De jeito nenhum. Melhor deixar o país sob tutela eterna. Melhor apresentar-se como o benevolente protetor do pobre indefeso.

Ouça o meu comentário no Gaúcha Repórter desta quinta-feira

30 de outubro de 2014 0

A bobagem do impeachment

30 de outubro de 2014 45

Recebo dezenas de mensagens informando sobre um pedido de impeachment de Dilma que foi protocolado na Justiça, algo assim.
Ninguém está levando isso a sério aí no Brasil, não é?
Trata-se de uma lindíssima tolice. Uma perda de tempo.
Por que Dilma seria impichada agora? Por que se reelegeu?
É verdade que o governo está cercado de denúncias graves de corrupção, mas não se derruba um presidente eleito legitimamente assim, antes de qualquer ilícito ser comprovado.
Por tudo isso, as denúncias da Veja têm de ser levadas a sério.
Se forem verdadeiras, Dilma e Lula correm risco não só de impeachment, mas também de prisão.
Se forem falsas, a revista tem de ser duramente responsabilizada.
Denúncias desse porte têm de ter consequência. Para os denunciados ou para o denunciante.

O torcedor na política

30 de outubro de 2014 32

O acirramento da disputa eleitoral faz com que o brasileiro se comporte na política como torcedor de futebol.
O governo foi reeleito. É uma vitória para o governo e seus apoiadores, que continuam manuseando com uma arrecadação de mais de um trilhão de reais por ano e jogando com milhares de cargos na administração federal.
Quanto ao comum dos brasileiros, pode até ser uma vitória para os que desejam a continuidade dessa forma de administrar o país, mas mesmo para esses o apoio incondicional é perigoso. O apoio incondicional a um time de futebol é divertido e inconsequente; o apoio incondicional a um governo é nocivo e irresponsável.
Governantes, quaisquer governantes, tendem ao autoritarismo. Governantes brasileiros sofrem a contínua tentação de ceder aos apelos da corrupção, dado o modelo administrativo do país.
Fiscalizar um governo e olhar suas ações com desconfiança é mais do que saudável: é obrigação do cidadão.

O pior do jornalismo

29 de outubro de 2014 55

Pior, muito pior do que o jornalismo de oposição sistemática e oportunista da Veja é a atuação dos jornalistas governistas.
Contra esses a população estará sempre indefesa.
Perto desses, a Veja vira exemplo de retidão.

O pior da reeleição

29 de outubro de 2014 16

O pior da reeleição de Dilma não é a tentativa de estabelecer esses conselhos sabotadores da democracia representativa.
Não é a tentativa de fazer voltar a censura através da famigerada regulamentação da mídia.
Não é a manutenção da estrutura administrativa que facilita a corrupção.
É ter de passar quatro anos ouvindo gente falar presidentA.

A divisão do Brasil e as eleições: trocando em miúdos

28 de outubro de 2014 49

Uma eleição para a presidência da República não deveria despertar tantas paixões.
Desperta porque o Brasil está torto administrativa e filosoficamente.
O resultado da eleição demonstra isso.
A divisão do Brasil em dois demonstra isso.
Essa divisão não é ruim. Nem boa. É natural.
É impossível que um país desse tamanho não tenha profundas diferenças entre suas regiões.
Um seringueiro do Acre tem necessidades e pleitos diferentes de um pequeno agricultor da Serra gaúcha. O sertão de Minas é diferente do litoral catarinense.
Isso não quer dizer que um seja melhor do que outro. Nem quer dizer que o país deveria ser dividido em vários países. Quer dizer, apenas, que as diferenças precisam ser respeitadas.
O Brasil não respeita as diferenças das suas diversas populações. Donde, a justa revolta de quem se vê suplantado no voto por uma pequena maioria.
As manifestações preconceituosas contra os nordestinos, os xingamentos, os insultos, tudo aquilo é bobagem. É irrelevante. Eu, aqui, quando escrevo algo com que você concorda, você me chama de gênio. Quando escrevo algo do que você discorda, você me chama de imbecil. Não posso me enfatuar quando sou chamado de gênio, nem me deprimir quando sou chamado de imbecil. Tenho de compreender que as pessoa se aferram às suas opiniões e que as defendem de todas as formas, mesmo formas que, volta e meia, não são as mais sensatas. Tenho de compreender que, neste mundo de redes sociais, todos estão expostos à sua própria tolice. Antes, só os jornalistas escancaravam sua própria tolice. Agora, ser tolo está ao alcance de todos.
Um Brasil que realmente fosse uma federação atenuaria muitos desses conflitos. O país deveria dar autonomia e liberdade para estados e municípios resolverem seus próprios problemas.
Vou dar argumentos técnicos, não políticos: os municípios arrecadam impostos, mandam dinheiro para o governo central, que devolve parte para os municípios, sobretudo em forma de programas, que é a maneira como se administra o Brasil. Não tem lógica. É burocrático, ineficiente e facilita a corrupção. Nesse caminho de ida a Brasília e retorno para o município, muito dinheiro se esvai.
Você sabe quantos programas para municípios existem no governo federal?
229.
Duzentos e vinte e nove.
Entre esses, programas como o “Arca de Letras”, “Cultura Afro-Brasileira”, “Artesanato Brasileiro”, “Feira do Peixe”, “Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil”, “Brasil Quilombola” e até um com designação muitíssimo apropriada, “Olho Vivo no Dinheiro”.
Olho vivo no dinheiro, de fato. Todos esses programas necessitam de quem os administre, mais seus assessores, secretárias, sedes, carros, material de escritório etc. São estruturas dispendiosas e muito suscetíveis à corrupção.
Então, o Brasil funciona assim: um prefeito identifica que, na sua cidade, é preciso asfaltar determinada rua. Ele vai a Brasília, ou manda um deputado aliado ir a Brasília para pedir recursos. Esses recursos, se aprovados, são enviados através de um desses programas. Só que, não raro, para que os recursos sejam liberados, o deputado se compromete a apoiar determinada demanda do governo no Congresso.
Está criada a espiral da corrupção.
Agora vou contar como funciona num país em que a federação existe de fato, em que cada estado e município tem autonomia e independência, sem que se descaracterize a união: os Estados Unidos, país tão grande e complexo quanto o Brasil.
Vamos pegar duas áreas fundamentais para o cidadão: educação e segurança pública.
Nos Estados Unidos, a educação e a segurança são municipais. A polícia de cada cidade conhece os bairros, os moradores e os seus problemas. Os moradores da cidade também conhecem os policiais, e sabem como trabalham.
Na educação, os, digamos, primeiro e segundo graus são públicos e gratuitos. As escolas públicas são ótimas, até melhores do que as privadas. Já as universidades são todas pagas, inclusive as públicas. Mas os pais não pagam as faculdades dos filhos: os filhos pagam depois de formados e só depois de já estarem empregados, com uma espécie de crédito educativo que se estende por boa parte da vida, como uma prestação de casa própria. Só que todos, ricos ou pobres, chegam às universidades com condições iguais, porque a educação básica e fundamental é excelente.
A escola do meu filho é totalmente gratuita, inclusive o material, os cadernos, lápis de cor, canetas. Pela refeição, pagamos 3 dólares por dia. Se não tivéssemos condições de pagar isso, mandaríamos uma carta para a escola e a alimentação seria gratuita. Os alunos também têm direito a assistência médica gratuita, até os 18 anos.
Outro dia, nos chamaram para falar da reforma da escola. Era uma reunião com todos os pais. Foi apresentado o orçamento já aprovado para a reforma: 98 milhões de dólares, cerca de 250 milhões de reais, bancados pelo imposto municipal.
Esse dinheiro não foi para Washington para voltar como um programa. Foi arrecadado pelo município, investido no município e será fiscalizado pela sociedade civil, pelo cidadão, pelos pais que viram para onde vai o dinheiro, como será gasto e quando.
Os programas do governo federal brasileiro parecem lindos e bem intencionados, mas são apenas instrumentos de poder do reizinho de Brasília, são mecanismos burocráticos, que aumentam os gastos públicos e facilitam a corrupção, para não dizer que a estimulam. O programa tem de ser eventual, para resolver problemas de escassez ou pobreza que, aí sim, requerem intervenção federal e distribuição de imposto. A União não tem de deixar de arrecadas: tem de arrecadar menos.
Todo esse sistema é terrível para o país, mas é muito caro ao governo central, porque dá poder, dá instrumentos de barganha política, de distribuição de cargos e favores. Isso é fruto do paternalismo criado lá na ditadura Vargas, que se estende filosoficamente (e administrativamente, e materialmente) até hoje no Brasil.
O Brasil não precisa de salvadores da pátria, os pobres não precisam de heróis ou de defensores, nem de um governo benevolente. Não, não, quando alguém disser que é defensor dos pobres, fuja dele. É um demagogo que só fará mal ao país. O cidadão brasileiro precisa, sim, de um Estado que proteja os mais fracos e permita que todos tenham as mesmas chances. Precisa que a independência, a iniciativa pessoal e a criatividade sejam incentivadas. Precisa de bom senso.

A favor da aristocracia

28 de outubro de 2014 11

O primeiro lugar que conheci nos Estados Unidos não foi Nova York, Boston, Miami ou Los Angeles. Foi uma cidadezinha do Colorado chamada Breckenridge, quase 20 anos atrás.
Esse estado central dos Estados Unidos, o Colorado, foi construído pelo mais ortodoxo americano de filme, o americano grande, de rosto avermelhado, que usa cinto com fivela do tamanho de um celular e camisa xadrez, que come hambúrguer no almoço e dirige camionete. A capital desse estado, Denver, é conhecida como “A Rainha das Cidades”. Já era chamada assim desde o século 19, mas, naquele tempo, não tinha nem um teatro decente, e o teatro era a grande diversão da época. Foi então que surgiu um personagem famoso da região, Horace Tabor, que havia feito fortuna com minas de prata. Tabor decidiu dar a Denver um teatro digno de seu título de nobreza, e assim pagou a construção do imponente “Tabor Grand Opera House”, um prédio suntuoso, tão belo quanto os mais belos prédios de teatros europeus, uma beleza.

No dia da inauguração, Tabor entrou no saguão do seu novíssimo teatro e deparou com um grande quadro na parede, retratando um homem.

_ Quem é esse? _ perguntou.

_ Shakespeare _ respondeu um funcionário.

_ E o que ele fez pelo Colorado? Tirem o retrato dele daí e ponham o meu em seu lugar.

E foi feito. Os amantes do teatro de Denver sabiam como era importante o patrocínio de Tabor, e o obedeceram.

Assim é e sempre foi. Atividades artísticas e desportivas dependem do mecenato para sobreviver. Grêmio e Inter só se mantiveram grandes por mais de cem anos graças à intervenção de patrocinadores tão fanáticos por seu clube quanto generosos. Se os clubes tivessem mesmo de ser empresas, como pregam os idealistas, Grêmio e Inter já teriam fechado. E também todos os demais times tradicionais do Brasil.

Por isso, sou contra a eleição direta para presidente de clube. A eleição direta afasta das decisões os que podem contribuir de fato com os clubes. Sou a favor da aristocracia no comando, a favor do cardinalato, da reunião dos luminares no governo. A democracia é ótima para países. É um bem em si para as nações. E um mal para empresas e clubes. Quanto mais os clubes se abrirem, mais fracos ficarão. Melhor fazer pequenas concessões a um patrocinador rico do que ceder à demagogia popular. Antes substituir o quadro de Shakespeare pelo de um Tabor na parede do teatro do que não ter parede de teatro para pendurar quadro algum.

-x-x-x-x-x-

A confiança dos que sabem
Em 2004, o Grêmio se refocilava na que foi talvez a pior crise da sua história, o técnico Cuca não sabia como montar o time e havia um Gre-Nal pela frente. Justamente um Gre-Nal.
O técnico vagava inquieto pela concentração, quando deparou com um dos jogadores dos juniores, um menino de 15 anos de idade, que andava com dois celulares nas mãos. Cuca se irritou com aquilo. Censurou o jovem. Então ele ia botar seu dinheiro fora com dois celulares? Precisava daquilo? Era um desperdício!
O menino olhou para ele e retrucou:

_ O dinheiro é meu. Gasto como quiser.

Cuca se espantou com a ousadia do pirralho. Começou a rir. Mas o garoto não se abalou. Fez um gesto com a mão que abrangia toda a concentração dos profissionais e acrescentou:
_ E tem outra: eu jogo mais do que todos esses que você tem aí.

Cuca admirou-se ainda mais com a petulância. Tanto que o colocou no time. Anderson, esse o nome do jogador, fez um gol naquele Gre-Nal, dois anos depois foi um dos responsáveis pela saída do clube da segunda divisão e logo estava vestindo a camisa da Seleção Brasileira.

Cuca estava certo. A segurança demonstrada por Anderson era a segurança dos que acreditam em si mesmos, e acreditar em si mesmo é uma das credenciais dos craques.
Lembrei-me disso quando, no meio da semana passada, o jovem Erik fez sua estreia no Grêmio: entrou em campo no fim do segundo tempo e já no primeiro minuto pediu para cobrar uma falta da entrada da área. Cobrou, e o fez melhor do que vêm fazendo todos os veteranos do time. Se essa confiança se traduzir em futebol, pode estar aí um desafogo de talento de que tanto precisa Luiz Felipe em 2015.

Ouça o meu comentário no Gaúcha Repórter desta segunda-feira

27 de outubro de 2014 0

Sulistas têm razão ao se queixar do voto dos nortistas

27 de outubro de 2014 170

Vejo muitos brasileiros lamentando o “preconceito” dos sulistas em relação aos nordestinos devido à vitória mínima de Dilma, obtida sobretudo no eixo Norte-Nordeste.
É uma análise simplista, para não dizer canhestra, de quem olha para o resultado da eleição.
A queixa da metade meridional do país é mais do que compreensível: é justa.
Assim como são compreensíveis e justas as razões do voto da metade setentrional do país.
A divisão do Brasil pelo voto acontece exatamente porque o Brasil não está dividido, e deveria estar.
Você não entendeu, claro. Explico: o Brasil não é uma federação, como deveria ser.
Os Estados não têm autonomia.
A arrecadação é centralizada em Brasília.
A lei que vale para o Rio Grande do Sul é a mesma que vale para o Acre.
Trata-se de uma insanidade num país dessas dimensões.
Se cada Estado tivesse sua autonomia e sua constituição própria, se a maioria dos recursos ficasse na cidade e não fosse para o centro do país para depois voltar, se o Brasil fosse uma federação de fato, a corrupção seria menor e as necessidades de cada localidade seriam melhor atendidas.
Essa distorção, essa centralização quase criminosa, foi obra do mais solerte ditador que o Brasil teve: Getúlio Vargas.
O Brasil ainda está pagando por todos os erros e crimes cometidos na Era Vargas. Quase tudo de ruim que há no país hoje foi construído por Vargas, na sua ânsia de poder. A ditadura militar foi, de certa forma, uma consequência do governo Vargas. E a corrupção que assola o país hoje, da mesma forma.
Os Estados do Sul-Sudeste-Centro-Oeste não têm as mesmas aspirações dos do Norte-Nordeste. Não têm os mesmos problemas. E, se tivessem, as soluções teriam de ser diferentes.

As consequências da eleição de Dilma

26 de outubro de 2014 87

O que essa eleição acirradíssima traz para o Brasil?

1. Um país dividido, inclusive geograficamente.
2. Uma presidente cercada de denúncias de corrupção, consciente de que mais, muitas mais, e muito mais graves, virão a público nos próximos meses.
3. Um candidato da oposição que começou a disputa desacreditado e terminou já como o principal nome para 2018. Isso não significa apenas uma conquista pessoal de Aécio. Significa que a oposição terá uma solidez e uma liderança que nunca teve nesses 12 anos de governo do PT. Para quem não lembra, em 2002 Fernando Henrique chegou a ser acusado de “torcer” pela vitória de Lula.

Junte tudo isso aos problemas econômicos que o governo terá de enfrentar nos próximos anos, que serão de pagamento da conta feita até agora com a gastança pública e o inchaço do Estado.

Qual é o resultado?

Resposta:

Um governo frágil, que terá de compor desesperadamente uma base aliada.

O PMDB vai mandar como nunca no Brasil.

É preciso entender o que significa essa eleição

26 de outubro de 2014 8

Neste momento, os brasileiros ainda estão votando.
Sei que, se o PT ganhar, saberá por que ganhou.
Mas, se perder, desconfio que não saberá por que perdeu.
Não saberá por que o Brasil está tão amargamente dividido.
A divisão do Brasil não é entre esquerda e direita, nem entre pobres e ricos.
Quem acredita nessa redução, não entende o que está se passando no Brasil.
Sem entender o que está se passando, não há como avançar.
Se o PT continuar no governo, e não compreender o que acarretou a divisão, continuará governando de forma a acentuar a ruptura.
Se for para a oposição sem esse entendimento, fará tudo para sabotar o novo governo. E também acentuará a ruptura.
O novo governo, se for do PSDB, também terá de entender por que ganhou.
E por que o PT permaneceu tanto tempo no poder.
Se não entender, não saberá conciliar.
E, a partir de amanhã, não há nada de que o Brasil precise mais do que conciliação.

O país mais feminino do mundo

26 de outubro de 2014 9

Dois conhecidos casos, de desconhecidas mulheres do Velho Oeste.
Ambas viviam do lado de lá do Mississippi, “o Pai das Águas”, nas sombras do século 19. Suas casas toscas haviam sido levantadas do chão em meio a vastas extensões de terra desabitada por onde pastava o bisão e cavalgavam índios hostis. Uma delas, depois de ficar mais de ano sem ver outra mulher, soube que uma família acabara de se estabelecer a poucos quilômetros de distância. Animada com a notícia, vestiu a roupa domingueira, tomou os dois filhos pela mão e foi saudar os novos vizinhos. Depois de horas de caminhada, encontrou, enfim, a outra mulher. Ao avistá-la, não se conteve: jogou-se, aos prantos, em seus braços. Não muito mais tarde, voltou para o isolamento do seu sítio, levando o espírito renovado tão-somente por ter conversado por alguns minutos com outro ser humano do sexo feminino.
A segunda mulher morava em sua casa de paredes de barro, das quais brotavam percevejos aos milhares, entre as quais voejavam enxames negros de moscas. Elas e os filhos viviam dias sempre iguais, monótonos e duros, trabalhando de sol a sol, praticamente sem distração ou descanso. Essa mulher, certa manhã, viu seu filho pequeno sofrer um acesso de choro. A criança atirou-se ao solo duro, esperneando e gritando:
_ Mamãe, mamãe, nós temos que viver sempre aqui?
Em silêncio, ela balançou a cabeça, respondendo que, sim, teriam de viver ali. Ao que o menino, ainda mais desesperado, gemeu:
_ E teremos que morrer aqui também?
-x-x-x-x-x-
Essas estoicas mulheres do Velho Oeste americano eram respeitadas como poucas naquela época, incluindo aí as da Europa. Caubóis, mineiros e colonos, homens em geral sem maiores luzes, as chamavam de lady e as tratavam com algo próximo da veneração. Há quem diga que tal se deve à escassez de mulheres na região, tanto que muitas chegavam do leste aos grupos, como carga, para se casarem com pretendentes ansiosos, que as esperavam torcendo os chapéus nas mãos. Mas não era só isso. Os homens reconheciam o trabalho, o companheirismo e o valor das mulheres, e prestavam atenção às suas opiniões. Em alguns estados do Oeste, as mulheres tiveram direito de escolher seus representantes uma década antes de a Nova Zelândia se consagrar como o primeiro país do mundo a permitir o voto feminino, em 1893. E cinco anos antes disso, em 1887, uma cidade do Kansas, Argonia, elegeu uma mulher como prefeita.
-x-x-x-x-x-
No leste desenvolvido e puritano não era muito diferente. Se você passear por uma linda alameda central de Boston, na Back Bay, talvez veja Gisele Bündchen correndo com suas longas pernas douradas expostas ao sol pálido do outono da Nova Inglaterra, talvez. Mas o certo é que verá monumentos em homenagem a duas mulheres pioneiras: Abigail Adams e Phillis Wheatley.
Abigail Adams, espécie de feminista precursora, foi mulher de John e mãe de Quincy Adams, dois dos primeiros presidentes dos Estados Unidos. Pai e filho ouviam seus conselhos, e os seguiam. Quando o marido tomou posse, ela advertiu: “Lembre-se das senhoras, e seja mais generoso com elas do que os que o antecederam”. Ele obedeceu.
Abigail usava a ala leste da Casa Branca como varal. Dizem que seu fantasma ainda ronda por lá à noite, flutuando com os braços estendidos, como se carregasse um cesto de roupas.
Phillis Wheatley, inspiradora da outra estátua que você encontrará nas alamedas de Back Bay, foi trazida como escrava do Senegal e vendida a um comerciante de Boston, Mr Wheatley, no século 18. Como a escravidão não era popular na Nova Inglaterra, ela logo foi incorporada à família, ganhou liberdade e pôs-se a estudar inglês sob patrocínio do seu antigo senhor. Phillis transformou-se em poeta e encantou os Estados Unidos e a Europa com seus versos. Não encontrei nenhum vertido para o português. Então, ousei perpetrar eu mesmo a tradução de um, para mostrar a vocês. Peço desculpas a todos os descendentes de Phillis Wheatley por esse atentado. Ei-lo:

Foi a misericórdia me trouxe da minha terra pagã
E ensinou minha alma ignorante a compreender
Que há um Deus, que há um Salvador também.
Eu, que não procurava redenção, que nem sabia que redenção existia.
Alguns veem a nossa raça negra com olhos de desdém,
“Sua cor é uma morte diabólica”, dizem.
Lembrem-se, os cristãos, negros, negros como Caim,
Pode-se ser purificado, e juntar-se ao trem angelical.

-x-x-x-x-x-
O reconhecimento a essas mulheres construtoras dos Estados Unidos fizeram deste o país mais feminino do mundo. Um dia, uma brasileira que vive aqui há muitos anos me disse:
_ Neste país, em primeiro lugar estão as crianças, em segundo as mulheres e em terceiro os velhos.
Foi um inteligente resumo dos valores americanos. Os mais fracos são protegidos pela lei, e crianças, mulheres e velhos são mais fracos fisicamente. Sinto a diferença de tratamento quando estou com meu filho na rua. Um pai com o filho pela mão tem prioridade, porque crianças têm prioridade.
Os velhos se deslocam pelas ruas de Boston em cadeirinhas motorizadas, vão a toda parte sozinhos, têm grande independência. E, para que eles possam ir de lá para cá, o município cuida para que as calçadas sejam adequadas, feitas de placas de concreto, sempre com rampas nas esquinas.
Já as mulheres, no verão você vê mulheres usando roupas minúsculas que causariam furor nas ruas das cidades brasileiras, vê mulheres tomando sol de biquíni nas praças, vê mulheres andando sozinhas por ruas desertas e escuras. Ninguém as incomoda. Ninguém sequer demora o olhar sobre elas.
Crianças, mulheres e velhos. Ao colocá-los em primeiro lugar, um país se transforma em uma Nação.

A denúncia da Veja

25 de outubro de 2014 42

A denúncia da Veja.
Se fosse aqui, nos Estados Unidos, dar-se-ia uma de duas possíveis consequências:
1. Se a denúncia fosse falsa, a indenização que a revista teria de pagar certamente acarretaria seu fechamento.
2. Se fosse verdadeira, Dilma e Lula iriam para a cadeia.