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O velhinho

16 de novembro de 2014 10

Engordei seis quilos desde que cheguei aos Estados Unidos. American way of life, sabe como é… Mas não sou de donuts polvilhados de açúcar, nem de hambúrgueres com maionese transbordante, nem de bacon frito. Tenho a impressão de que a grande responsável pelo meu engorde é uma sorveteria que fica perto da escola do meu filho. Lá são servidos sorvetes cremosos e caseiros, uma delícia. E lá tem umas poltronas macias para a gente ficar olhando a vida passar e, enquanto isso, rola um suave rock nacional. Como resistir?

Então, estava indo todos os dias a essa sorveteria, um atentado calórico. Foi lá que vi pela primeira vez uma figura folclórica aqui do bairro. É um velhinho bem velhinho, deve ter, sei lá, 90 anos ou mais. Ele se desloca pela cidade da mesma forma que o fazem todas as pessoas em idade provecta por aqui: em uma cadeira de rodas motorizada que parece tão boa de andar que tenho vontade de comprar uma para mim.

É algo curioso, pelo menos para um brasileiro tosco feito eu, desacostumado a ver pessoas idosas se movimentando com independência pelas ruas. Pois é isso mesmo que a cadeirinha dá aos velhos e deficientes: independência. Ela tem rodas de borracha e ganha razoável velocidade, como se fosse uma pessoa correndo. É manejada por uma espécie de manche, com uma mão só. E, para permitir escorreita circulação às cadeirinhas, a prefeitura cuida com critério das calçadas. São feitas de grandes placas de concreto, lisas, com rampas em todas as esquinas. Quando a prefeitura vai reformar uma calçada, ainda que a obra dure só um ou dois dias, é construída uma rampa auxiliar, também de concreto, para permitir que os velhinhos e os deficientes possam ir a qualquer lugar sem contingências. À frente da obra é postado um policial, que fica atento para que os carros não atrapalhem a circulação dos pedestres, dos corredores (que são muitos) e das cadeiras.

Esse velhinho a quem me refiro demonstra exemplar habilidade na condução da sua cadeira. Anda em ziguezague pelas calçadas em alta velocidade, os outros que se cuidem com ele. Está sempre zanzando por aí. O dia em que o vi pela primeira vez foi uma dessas tardes outonais da Nova Inglaterra, sol ameno, 12°C. Depois buscar meu filho na escola, fomos nos repoltrear com densos sorvetes de baunilha e de café que explodiam em cerca de duas mil calorias, cruzcredo. Já havíamos nos instalado nas poltronas quando o velhinho surgiu na calçada, pilotando sua cadeira. Tomou a maçaneta na mão e deu ré, abrindo a porta. Nisso, uma moça ia saindo e segurou a porta para ele. Que rosnou:

_ Não precisa segurar para mim! Pode sair, que me viro sozinho.

Ela hesitou, e ele:

_ Sai, sai!

Ela se foi, constrangida. Ele entrou, bufando.

Notei que, em volta da cadeira, penduradas em vários ganchos ou acomodadas em compartimentos, havia sete pequenas malas e pastas. Sete! A vida dele inteira deveria estar lá dentro.

Ele rodou pelo corredor da sorveteria. Uma senhora tinha puxado uma cadeira para fora da mesa, obstruindo-lhe a passagem. Ele reclamou:

_ Quer tirar essa cadeira daí?

A senhora tirou, mais do que depressa, e pediu desculpas. O velhinho não respondeu. Deslizou até o balcão. Parou na frente da atendente. Jogou o braço para trás e, de algum desvão da cadeira, sacou um enorme copo de metal.

_ Café quente e forte até o topo! _ ordenou.

A atendente pegou o copo e obedeceu. Devolveu-o ao velhinho. Que latiu outra vez:

_ Bolo de abóbora! Um pedaço grande!

A menina logo surgiu com uma fatia de bolo de abóbora num pires. O velhinho analisou-a e respirou fundo:

_ É pequena!

Ela foi para trás do balcão e voltou com uma fatia três vezes mais larga. Ele tomou o pires, acomodou-o sobre um suporte e rodou até uma mesa. Alguém estava prestes a sentar-se, mas ele rugiu novamente:

_ É minha!

O rapaz que ia se acomodar desistiu, pediu desculpas e foi procurar outro lugar menos inóspito.

Fiquei observando-o enquanto ele se ocupava em destruir o bolo com os dentes que, suponho, eram postiços. Voava farelo para todo lado e ele sugava aquele café com alarde. Uma cena dantesca.

Olhei para a atendente, que, do lado de lá do balcão, também admirava a apresentação do velhinho. Nossos olhares se cruzaram. Ela sorriu, condescendente. Sorri de volta. Levantei-me para sair com meu filho e, no mesmo momento, o velhinho engatou a primeira lá naquela cadeira dele, pronto para também ganhar a rua. Estremeci. Decidi deixá-lo sair antes de nós. Fiquei de pé, segurando meu filho pela mão, esperando. Ele passou por mim, pegou a alça da porta e, antes de empurrá-la para fora, me encarou.

_ Qual é o problema? _ perguntou, acrescentando algo asperamente que não entendi, mas que devia ser algum adjetivo pouco elogioso na língua de Shakespeare.

Abri a boca, sem saber bem o que dizer. Não precisei falar. Ele não esperou pela resposta. Foi-se embora velozmente na sua cadeira, reclamando da vida.

São, de fato, independentes até demais, esses velhinhos sobre rodas da América do Norte.

Comentários (10)

  • Luiz Silva diz: 16 de novembro de 2014

    Cuidado David com esse velhinhos que andam cruzando teu caminho, uns de cadeira de rodas, outros de bengala, que tu bem conheces.
    Abraço!

  • Alberto diz: 16 de novembro de 2014

    FORA PT – PP – PMDB E TODOS LADRÕES DA PETROBRÁS E FORA TAMBÉM TODOS OS OMISSOS DA IMPRENSA QUE ACHAM QUE SOMOS BURROS!

  • Marcia Slatka Magarca diz: 17 de novembro de 2014

    No Zaffari da Plínio, na Auxiliadora, aqui em PAlegre, blogueiro, várias pessoas, velhas e jovens, fazem compras em cadeiras de rodas motorizadas desde que eu era criancinha. No Parcão, a mesma coisa! Nos shoppings também. Se vc não está acostumado com isto e morou a maior parte da sua vida nesta cidade é porque vc agora nota tudo isto, tudo que é prosaico, só porque vc agora está nos States e os States para vc é a oitava maravilha no mundo. Todo gaúcho fica assim quando vai morar nos Estados Unidos. Pagam mico em cada esquina…Tanto que vc confunde a ignorância, a má educação, a babaquice, a explícita infelicidade do rabugento e antipático velho bostoniano na sua cadeira motorizada fedorenta e suja com independência. Assim é demais, David! Quem muito se abaixa o fiofó aparece! E, quando aparece…crau!

  • Cristian H. B. diz: 17 de novembro de 2014

    David, tenho uma curiosidade… por que a maioria de vcs jornalistas tem blogs se não interagem com o público? Seria melhor sites, onde colocam seus textos (não necessariamente vc em pessoa, como ocorre muitas vezes) e mídias diversas e sem espaço para comentário já que estes nunca são respondidos. Ou que comecem a responder, aleatoriamente dois ou três comentários para dar um pouco de vida ao espaço.

  • GENÉSIO diz: 17 de novembro de 2014

    Parece uns “velhinhos” aqui no Brasil, vestindo abrigo e tênis de corrida, com cabelo e bigode pintados de preto, pagando uma de garotão, mas pegando ficha de atendimento preferencial em bancos, hospitais etc, e com direito a passar por cima dos direitos dos demais pobres mortais. Malas … independentes só quando lhes interessa.

  • Gisele diz: 17 de novembro de 2014

    Independente como um norte-americano, cortês como um brasileiro…

  • Machiavellirs diz: 17 de novembro de 2014

    VERY GOOD

    Para aproveitar o feriado de sábado resolvi fazer um tour pela serra da Província.

    Sinceramente falando, sou meio preconceituoso em relação à nossa Serra.

    Os hotéis de Gramado, por exemplo, são mais caros que os hotéis de Las Vegas e daqueles ao redor do Rio Sena… e as estradas são de dar medo.

    Mas com base naquela máxima do “como não tem tu vai tu mesmo”, resolvi encarar a nossa malfadada Serra… Se arrependimento matasse, hoje o Machi estaria mortinho da silva.

    Sai do Portinho na quarta, pela manhã. Destino: Bento Gonçalves. Pensei com o botão nº 1 da braguilha da minha calça Diesel:

    - Nº 1, depois de deixar as malas no hotel, vamos comer um galeto em Bento, beber uma garrafa de vinho tinto, tentar escapar do bafômetro, se é que existe bafômetro por lá, e dormir porque dormir é o melhor que podemos fazer por lá. Depois, então, a gente vê o quê se aproveita, ok?

    - Ok, Machi!

    E lá fomos nós, BR 116 acima. Na Vila Scharlau, dobramos à esquerda e pegamos a RS240, se é que vocês estão entendendo o meu caminho. Até aí tudo bem por causa da estrada de pista dupla que está longe do padrão americano/europeu mas quebra o galho.

    Depois de algum tempo de pista dupla veio a famigerada pista simples com seus buracos mal tapados e sem acostamento: um terror!

    Acho até que existe um pacto maquiavélico entre os motoristas de caminhão e de ônibus que trafegavam no sentido contrário ao nosso. Todos eles parecem trazer estampados na cara os sorrisos macabros das pessoas sádicas. Imaginem aquelas curvas tipo estrada de Santos do Roberto Carlos, com aqueles caminhões sedentos de recalque e vingança, em alta velocidade, ao encontro de você dentro do seu 1.0, numa estrada meia-boca sem acostamento. Imaginem!

    Após cerca de uma hora de sofrimento atroz consegui chegar à cidade de Bento. Achava que veria galeterias por todos os lados para dar, vender e escolher: “qual o quê!”, pensei no “Com açúcar e com afeto” do Chico. Aliás, faz tempo que penso diariamente no “qual o quê”. Acho que não preciso explicar o “qual o quê” disso!

    Mas voltando às galeterias de Bento, das duas uma: ou eu estava com falta de sorte ou eu estava com azar. É que me serviram um coraçãozinho de galinha que fazia uns três meses que estava assando na churrasqueira. Lógico que não comi o dito duro. Saí dali assim meio indignado meio puto da cara. Paguei e disse para o dono ou gerente do local: “tchau bambino”… voltar aqui jamé!

    Lógico que não vou cansar vocês com os infortúnios da Serra. A situação permaneceu no mesmo nível quando fui para Caxias e depois para Gramado.

    Resumindo, foram três dias que só comprovaram meu preconceito: estradas ruins, comidas meia-boca, hotéis caros.

    Levantei as mãos para o céu quando cheguei no Portinho, mesmo com seus engarrafamentos e assaltos habituais.

    Sinceramente não sei até quando pretendo aguentar por aqui. Tenho inveja desse pessoal que se alojou no hemisfério norte. Tô pensando em também ir pra lá!

    - O quê achas disso, Number One? – perguntei para o Number One.

    - Very good, Machi, very good! – disse-me ele, já treinando seu inglês básico.

  • Theo Cruz diz: 17 de novembro de 2014

    “Parece uns “velhinhos” aqui no Brasil, vestindo abrigo e tênis de corrida, com cabelo e bigode pintados de preto, pagando uma de garotão, mas pegando ficha de atendimento preferencial em bancos, hospitais etc, e com direito a passar por cima dos direitos dos demais pobres mortais. Malas … independentes só quando lhes interessa.”

    Gente com esse pensamento devia ter o cérebro confiscado!

  • Gyh diz: 18 de novembro de 2014

    Alguém não compreendeu a ironia em “independente até demais”. Quem é rabugento mesmo?

  • Marcia Slatka Magarca diz: 19 de novembro de 2014

    Mas vc entendeu, né Gyh? Acho que vc ficou pensando que se vc se abaixasse demais também, poderia acontecer algo que NUNCA acontece com vc, né? Fique esperando, criatura! Eu entendo tudo! Tanto que “entendi” que a sua indireta foi a mim endereçada. Eu nunca passo despercebida, daí sua agonia…

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