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Posts de novembro 2014

Os negros da América

30 de novembro de 2014 25

Vi algumas das manifestações dos americanos contra a decisão do Grande Juri de Missouri de não processar o policial que matou o rapaz negro em Ferguson. Mais de mil negros e brancos foram às ruas em protesto, aqui em Boston, e outros milhares fizeram o mesmo em dezenas de cidades do Atlântico ao Pacífico. Os Estados Unidos são uma federação de fato e de direito, mas são também uma nação única e compacta em determinadas discussões.

Essa cidadezinha, Ferguson, está atarraxada quase no centro dos Estados Unidos, à margem do Mississippi, o grande rio que corta o país de Norte a Sul, que os índios chamavam de o Pai das Águas. É um lugar pequeno, de pouco mais de 20 mil habitantes, mas que mobilizou todo o país.

O que me leva a pensar: Brasil e Estados Unidos são dois irmãos gêmeos completamente diferentes. Vou me ater à questão dos negros. Brasil e Estados Unidos, dois gigantes territoriais da América, receberam escravos africanos e os mantiveram em cativeiro por cerca de três séculos. Isso marcou terrivelmente os dois países, porque criou uma classe inferior de cidadãos. Os descendentes dos africanos ainda lutam para se libertar de tudo o que significou a escravidão ao norte e ao sul do continente.

Mas aí começam as sutis e profundas diferenças. Mora na filosofia, como diria Caetano. Os ingleses fundaram os Estados Unidos em nome da liberdade. Manter homens sob escravidão era contraditório. E por que os africanos eram escravizados? Porque eram negros, apenas por isso. Os 15 estados do Sul que queriam continuar com a sua “instituição peculiar”, como a chamavam, justificavam-na com uma série de teorias racistas que asseguravam que negros eram inferiores aos brancos. Os negros seriam menos humanos, seriam mais animais.
Não se sustentou, é claro. A falta de base filosófica, aliada, é óbvio, a toda conjuntura econômica que colocava em oposição o Norte industrializado e livre ao Sul agrário e escravagista, levou à Guerra de Secessão de 1860. Essa foi talvez a maior guerra civil de todos os tempos: mais de 620 mil homens morreram.

O sangue de 620 mil homens lavou grande parte do pecado americano pela escravidão. Não há nada de transcendental nisso. O que estou dizendo é que a Guerra Civil expôs o Mal. É como o nazismo na Alemanha. O nazismo acabou há 70 anos, mas os alemães purgam esse pecado todos os dias, desde aquela época, e o fazem através de filmes, livros, debates, monumentos e museus que lembram o Holocausto.

Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa! A Bíblia diz que, se não há arrependimento, não há perdão. E aí, mais uma vez, não estou sendo transcendental, não estou sendo religioso, estou sendo racional. Mora na filosofia: essa é uma sentença sábia da Bíblia, porque, para haver arrependimento, é preciso haver contrição e, para haver contrição, é preciso haver dor.

A escravidão causou dor aos Estados Unidos. Os americanos sangraram e sofreram. Isso fez com que a luta dos negros se tornasse nacional e, finalmente, constitucional, com a conquista dos direitos civis, nos anos 60 do século passado.

A escravidão nunca doeu no Brasil. Nunca.

Há mais descendentes de escravos no Brasil do que nos Estados Unidos, mas talvez haja mais negros nos Estados Unidos do que no Brasil. Nos Estados Unidos, os negros são 12% da população. No Brasil, quantos seriam “100% negros”, como está escrito naquelas camisetas de praia? É uma parcela mínima da população. No Brasil, nos misturamos. Alegremente nos misturamos. Quantos serão os descendentes de escravos? Uns 40%? Metade da população? Muito mais do que isso? Impossível saber. Somos todos um pouco negros no Brasil. E também todos um pouco brancos e todos um pouco de tudo.

Os descendentes dos escravos, no Brasil, não são identificados pela cor da pele. Porque há, no Brasil, os Friedenreich, filhos de imigrantes alemães com a lavadeira negra, meninos bons de bola, com olhos azuis e carapinha no cabelo. Há, no Brasil, mulatos disfarçados como Machado de Assis, brancos que queriam ser negros, como Vinícius, os olhos verdes da mulata, o cabelo loiro do sarará. Nós somos mestiços. Nós somos todos mais ou menos.

Entre nós, os descendentes dos escravos são os pobres.

Há igualdade entre os pobres no Brasil: todos são, democraticamente, desgraçados. Pobres loiros, pobre pretos, pobres pardos, pobres são pobres e ponto.

Assim, a questão racial ficou diluída na pobreza comum. De quem é a culpa pelos mais de três séculos de escravidão? De ninguém? Ou de todos?

Há racismo no Brasil, é evidente que há, em toda parte do mundo há racismo e aversão às diferenças, só que, no Brasil, a pobreza não tem cor. Nos Estados Unidos tem, e é negra.

Americanos e brasileiros, pobres e ricos, negros e brancos, somos todos seres humanos. O Brasil nunca discutiu o que fez com os seres humanos negros na maior parte da sua história. O Brasil nunca admitiu seu crime. Nunca sofreu. Nunca sentiu culpa. E a culpa é nossa. Nossa máxima culpa.​

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28 de novembro de 2014 0

Som de Sexta

28 de novembro de 2014 0

Dia de Ação de Graças

28 de novembro de 2014 11

O dia amanheceu branquinho nesse feriado de thanksgiving, o Dia de Ação de Graças americano. Há quatro dedos de neve acumulada no solo duro e nos telhados inclinados, e isso que estamos apenas no outono do Hemisfério Norte. Foi o suficiente para o meu filho se encantar com a paisagem, e eu também. É frio, mas é bonito.
Gosto disso, de haver um dia dedicado a agradecer às coisas boas da vida. São muitas, realmente. Poderia ficar até a noite aqui, olhando pela grande janela francesa da minha sala, vendo a natureza e a cidade que se ergue em meio a ela, ambas oscilando entre o severo e o exuberante, poderia ficar aqui até escurecer, agradecendo. A vida é boa.
Mas a vida não é reta, de forma alguma. Está sempre acontecendo, sempre no gerúndio e sempre fazendo curvas inesperadas. E eu… eu não fico pronto nunca. Todos os dias descubro defeitos a corrigir e contemplo o infinito do que falta a aprender. E quem garante que estou avançando? Quem garante que é uma evolução? Posso muito bem estar piorando, em vez de melhorar.
Penso nisso enquanto observo os esquilos correndo pelos galhos nus das árvores. Vou resistir a tecer qualquer imagem que compare a minha existência à atividade dos esquilos ou à visão da neve derretendo, seja o que for que está diante de mim. Nem consigo pensar muito tempo na minha própria vida, logo penso no Brasil.
Sim, estou num mundo distante, num cenário nada tropical, mas penso no Brasil. Não por nostalgia, não por patriotismo, nada disso. É que razoável parcela das graças que me foram dadas e pelas quais jogo minhas mãos para o céu estão aí, no Brasil: são as pessoas. As minhas relações afetivas.
Então, me questiono: o Brasil estará melhorando?
O Brasil também vive no gerúndio e, quando olho para a educação básica e fundamental, para a saúde e para a segurança, que são as áreas de responsabilidade dos governos, quando olho para esse lado, estremeço: aí, o Brasil só piorou.
Mas, institucionalmente, o Brasil mudou para melhor. Hoje nós brasileiros compreendemos a democracia como um bem em si e nossas ideias do que é ou não é ético estão mais claras. Já não aceitamos certos arranjos do passado até recente. E isso não foi obra de governo algum. Nossos governos, de Collor para cá, tiveram certos méritos e muitas falhas, mas a verdadeira evolução se deu na consciência social. A independência da imprensa, do Ministério Público e da Polícia Federal, as leis anticorrupção e o instituto da delação premiada, tudo isso é fruto de conquistas da sociedade, não é benevolência de líderes abençoados. Os brasileiros exigiram mudanças nesse setor da vida pública, e elas ocorreram.
Agora, nas próximas semanas ou meses, o Brasil estremecerá quando os detalhes das investigações sobre a corrupção na sua maior empresa forem revelados. Os nomes dos políticos envolvidos, enfim, serão divulgados. E, nesse momento, veremos o nível da nossa evolução. Muitos querem nos fazer participar de um campeonato de corrupção. Quem rouba mais? Governo ou oposição? Roubou-se mais agora ou antes?
Não é o que está em disputa. Não há disputa. O que há é uma oportunidade quase religiosa de se redimir pela expiação. É corrupto? Puna-se. Seja quem for, de onde for.
Ficou comprovado que o governo do PT é corrupto? Tirem esse governo e ponham outro em seu lugar, como já foi feito. O outro, digamos, do PMDB de Temer, comprovou-se que também se corrompeu? Tirem-no e o substituam por um novo. O novo, sei lá, do PSDB de Aécio, mostrou-se igualmente corrupto? Tirem-no também, sem vacilação. E vamos tirando e vamos trocando. Haveremos de encontrar os honestos. Mas sempre mantendo a regra constitucional, a lisura democrática e, se não for comprovada irregularidade, que fique como está.
Ah, é uma bela oportunidade de evoluir. Temos de dar graças a essa chance. Porque, sim, o Brasil está melhorando. Decerto que está. Queria, agora, olhar para essa manhã gelada lá fora e pensar que eu também.

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27 de novembro de 2014 2

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26 de novembro de 2014 0

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25 de novembro de 2014 3

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O ditado espanhol

25 de novembro de 2014 23

Tem uma frase que os espanhóis dizem.

Consigo identificar quando é um espanhol que fala, por Deus que consigo. Espanhol da Espanha, digo, e não um argentino ou um uruguaio ou um colombiano ou qualquer outro de fala espanhola que nós gaúchos chamamos vagamente de “castelhanos”. O acento é diferente.

Acontece que há muito espanhol em Boston. Milhares vagando pelas ruas como touros na arena. Descobri a razão: a sede do Santander nos Estados Unidos fica aqui, na capital de Massachusetts. Então, os diretores do banco na Espanha mandaram cardumes dos seus compatriotas para cá.

Por isso, já ouvi a tal frase algumas vezes por aí.

Ouvi-a de novo nesse fim de semana, e não por acaso: fui a uma exposição de um dos maiores e melhores pintores espanhóis de todos os tempos, Francisco Goya, num dos maiores e melhores museus dos Estados Unidos, o Museum of Fine Arts.

Havia espanhóis à mancheia lá, por supuesto, e um deles proferiu a tal frase.

Esse Museum of Fine Arts foi fundado em meados do século 19, é lindíssimo, classudo, repleto de preciosidades, entre elas objetos de arte do Antigo Egito, alguns com mais de 50 séculos de idade.

Você não consegue ver tudo que há no museu num dia só, são 450 mil peças. Óbvio, ninguém aprecia 450 mil peças. Uma vez li que, se você se detiver dois minutos diante de cada obra exposta no Louvre, consumirá 12 anos da sua vida, isso se não parar para ir ao banheiro de vez em quando. Será verdade? Tenho de perguntar para o meu amigo franco-brasileiro, o Dinho, que sabe tudo de Paris.

O certo é que em museus dessa dimensão você precisa ser seletivo. Tenho interesse especial no Egito Antigo, mas, em nome da seletividade, me contive. Desta vez fui ao MFA para ver o Goya. Havia visto os quadros dele no lugar em que moram, no Museu do Prado, em Madrid, onde, aliás, ouvi pela primeira vez a frase essa.

Goya era uma espécie de pintor dos horrores da Espanha. Ficou traumatizado com as crueldades que testemunhou nas Guerras Napoleônicas, e as retratou no fim da vida. Parece, também, que se tornou um amargurado depois dos 40 anos de idade por ter contraído um mal que o deixou surdo como um Beethoven. Dessas contingências emergiram as famosas “Pinturas Negras”, encontradas depois da morte de Goya nas paredes do segundo piso da casa em que vivia. São pinturas sombrias, terríveis. A mais assustadora de todas, “Saturno devorando seu filho”, cheguei a sonhar com ela, uma noite. Dê uma googlada, se você não se lembra de como é.

Antes de ouvir a frase tipicamente espanhola a que me refiro, vi uma cena interessante no museu: uma menina de uns cinco anos de idade sentada no chão, diante de um quadro de Goya, copiando-o em um caderno de desenho. Ela desenhava muito bem. Durante o tempo em que a observei, não consegui identificar os pais da garotinha por perto, ninguém foi falar com ela e ela não ligou para as pessoas que a cercavam, curiosas com sua atividade ou para ver o quadro que reproduzia com suas pequenas mãos.

Saí dali encantado com a menininha, e foi nesse momento que um espanhol falou a frase, e então pensei que tinha de escrever sobre ela, porque era exatamente isso que acho a respeito do Campeonato Brasileiro.

“Pesado como uma mosca de agosto”, foi o que disse o espanhol, é o que eles dizem na Espanha. “Você é tão chato como uma mosca de agosto”. Ou seja: chato como uma mosca de verão, aquelas moscas gordas, obscenas, que se divertem em rondar a cabeça da gente quando a gente está distraído, tomando uma sangría em alguma plaza mayor.

Um campeonato de pontos corridos tão chato só poderia ser vencido, pela segunda vez, por um time mediano, jogando contra o Goiás, numa partida sem um único craque do porte de um Joãozinho, de um Palhinha, de um Tostão, de um Dirceu Lopes, de um Zé Carlos, de um Piazza, eu vi grandes Cruzeiros, eu vi grandes campeonatos, eu sei quando vejo uma mosca obesa, pesada, chatonilda que, no caso brasileiro, é uma mosca que voeja por nove meses inteiros.​

Ouça o Timeline Gaúcha desta segunda-feira

24 de novembro de 2014 3

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A saga do crepúsculo

23 de novembro de 2014 17

Está anoitecendo às quatro da tarde aqui, na Nova Inglaterra. Quatro da tarde, e o mundo mergulha na penumbra. Mais meia hora, e é noite cerrada.

Sabe o que é isso, o dia acabar quando as pessoas ainda estão se lambuzando com protetor solar fator 60 no Brasil? Em novembro! Outono, não inverno!

Faz toda a diferença na vida de um homem.

Dá para entender por que os americanos jantam às seis da tarde. É porque as seis da tarde, a famosa Hora do Angelus, não é da tarde coisa nenhuma: é noite fechada e chaveada. E, depois do Jornal Nacional, vai todo mundo para o berço, porque vem chegando a madrugada, ô, o sereno vem caindo.

É por isso, também, que esses caras enlouquecem no verão. Sai todo mundo para a rua e as mulheres usam aqueles shortinhos minúsculos, expondo generosamente as bochechas das nádegas, e vão para os parques e as praças, onde ficam tomando sol só de biquíni, e eles jogam baldes cheios de gelo nas cabeças uns dos outros.
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Essa noite prematura me faz lembrar um fascinante evento da natureza que testemunhei há exatos 20 anos: o eclipse total do sol. Deu-se aí no Brasil, no final de uma manhã de céu limpo e ar fino. O dia estava claríssimo e, de repente, a lua interpôs-se entre o sol e a Terra, e foi escurecendo, como se chegasse o crepúsculo, e a temperatura tornou-se mais amena, e os passarinhos, iludidos pela trama dos dois astros, recolheram-se para os galhos das árvores a fim de repousar, e os cães uivavam de nostalgia para a noite que vinha, e nós, seres humanos, ficamos tão extasiados com aquilo tudo que nos abraçávamos nas ruas e gritávamos de encantamento.

As mudanças da natureza mudam também a alma humana.
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Acontece que, assim como no Brasil as mulheres já estão se dourando ao sol e pondo seus corpos sinuosos em vestidinhos leves como a consciência do Wianey Carlet, por aqui até nevar, nevou. Todos estão se preparando para o inverno, inclusive os esquilos.

Que bicho interessante esse, o esquilo. Em Boston, você não vê cachorro ou gato solto na rua; vê esquilo. Há também lebres e patos, mas as lebres são antissociais, olham para a gente e saem correndo, e os patos preferem ficar perto d’água. Os esquilos, não. Esquilos você encontra em toda parte e, no Public Garden, um jardim botânico incrustado bem no centro da cidade, eles estão de tal maneira acostumados ao contato com seres humanos que vêm comer na sua mão, se você lhes oferece um quitute como, sei lá, nozes. Ande sempre com nozes nos bolsos, quando em Boston.

Agora, às vésperas do inverno, os esquilos estão em intensa atividade. Você pode ver quatro, cinco, seis deles correndo e saltando pelos galhos das árvores desfolhadas. Eles pulam em galhos altos e finos e de repente vão para os telhados das casas e logo já estão no solo de novo ou escalando os troncos, tudo isso com agilidade e velocidade espantosas. Alguns americanos me disseram que eles andam agitados desse jeito porque estão abastecendo a despensa para o inverno. Acho que eles moram em buracos nos troncos das árvores, que nem o Tico e o Teco, mas vou investigar.

Por estranho que possa parecer, também toda essa azáfama dos esquilos influenciou no meu estado de espírito. Como eles, estou me preparando para o inverno, comprando roupas adequadas e estocando comidas calóricas. Gordo. Vou me transformar num gordo, nos Estados Unidos.
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Os dias gelados desse outono americano, raspando nos cinco graus Celsius negativos, estão me deixando realmente apreensivo com o que virá depois de dezembro. Outro dia estava lendo um livro sobre o famoso inverno da temporada 1886-87. O autor descreveu-o desta forma:

“Em novembro, a camada de neve tornou-se tão espessa que o gado não conseguia mais pastar ao ar livre. Durante dois meses a neve persistiu, para amenizar apenas em janeiro, fazendo renascer a esperança de salvar os rebanhos. Mas logo começaram a soprar ventos glaciais como até então jamais se havia visto nas grandes planícies. No final de janeiro, a temperatura caiu a 30 graus abaixo de zero do Canadá ao Texas. Os cowboys tiveram de se entocar nos ranchos, deixando o gado à solta nos espaços gelados. Quando finalmente chegou a primavera, encontraram cadáveres acumulados nos córregos e reentrâncias dos campos”.

Que medo.

O que está acontecendo no Brasil

22 de novembro de 2014 17

Em geral, tenho preconceito contra os chamados “cientistas sociais”. Mas esse artigo do cientista social Leonardo Barreto publicado pela ZH faz uma análise precisa do que está acontecendo no Brasil, e o que está acontecendo é um avanço da sociedade, nunca, jamais em tempo algum uma concessão do governo, de qualquer governo, muito menos desse que está aí, extorquindo o povo brasileiro.
Leiam:

Se você ouvisse que a Operação Lava-Jato está mostrando o quanto o Brasil mudou para melhor, você acreditaria? Pode parecer loucura ou propaganda eleitoral dizer que um escândalo que envolve dezenas de políticos, partidos, o governo federal, alguns governos estaduais, as maiores construtoras do país e a Petrobras esteja mostrando que ventos novos estão soprando por aqui, mas não é.

Sem querer parecer ingênuo (único pecado que a política não admite), o fato é que nunca houve um ambiente institucional tão hostil para suspeitos de corrupção como agora. Tudo resultado de um processo paulatino e incremental de mudanças que, sem que muita gente percebesse, fez com que a lei passasse a jogar a favor de quem vigia e investiga.

A Operação Lava-Jato dificilmente teria chegado aonde chegou sem a nova lei do crime organizado, aprovada pelo Congresso Nacional em 2013. Foi ela que potencializou o instrumento da delação premiada que serviu de catalizador das denúncias feitas pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Os acordos de leniência previstos na lei de defesa econômica estão sendo importantes para que as empresas colaborem em troca do alívio penal, e quando a Lei Anticorrupção, aprovada também em 2013, for regulamentada, não apenas os executivos de empresas responderão criminalmente como as pessoas jurídicas que eles representam poderão sofrer consequências. A tendência é que as companhias criem regulamentações éticas mais rígidas para controlar o comportamento dos seus operadores e melhorem suas estruturas de governança.

No campo político, duas mudanças tornaram os políticos envolvidos com corrupção mais suscetíveis de punição. A primeira é a conhecidíssima ficha limpa, que retira das disputas eleitorais personagens com condenação em segunda instância. Criada em 2010, ela foi fruto de uma intensa campanha da sociedade civil que apresentou a ideia na forma de um projeto popular e pressionou o Congresso Nacional pela sua aprovação. A segunda é o fim do voto secreto em processos de cassação parlamentar, aprovado em 2013 sob o calor gerado pelas manifestações de junho. Com as pessoas vigiando o voto dos parlamentares, dificilmente algum réu com indícios de problemas sobreviverá a julgamentos de perda de mandato.

Sobre o funcionamento da Justiça, recentemente o Supremo Tribunal Federal decidiu mudar o seu regimento interno, transferindo o julgamento de autoridades com direito a foro privilegiado do plenário para as turmas, diminuindo o número de julgadores de onze para cinco. O objetivo é reduzir o tempo dos julgamentos pelo menos pela metade, dado que se passa a ter com a alteração menos votos para serem lidos, menos juízes para pedirem vistas ao processo, menos movimentos protelatórios, etc. Como sinal de que a medida é efetiva e torna a vida dos acusados mais difícil, o ato do Supremo despertou a reação do Congresso Nacional, que entrou com uma ação de inconstitucionalidade para reverter a medida.

Tudo isso sem falar da independência do Ministério Público, garantida pela Constituição de 1988 e pela decisão política do fortalecimento da autonomia Polícia Federal, que data de antes deste governo.

É natural que governantes queiram obter o crédito pelas mudanças institucionais relatadas. Isso sempre vai acontecer e, convenhamos, será muito bom para o país se o combate efetivo à corrupção se tornar um poderoso ativo eleitoral, pois teremos mais gente empenhada nisso. No entanto, as variáveis que melhor explicam os acertos recentes são a vigilância e a pressão da sociedade. Não é coincidência que o fim do voto secreto para cassações e as leis de combate ao crime organizado e anticorrupção tenham sido aprovadas em 2013. Mesmo reconhecendo que há mérito quando as organizações de poder são sensíveis às demandas de seus cidadãos, o verdadeiro fator de mudança é a presença das pessoas no processo político.

Há uma agenda enorme ainda por enfrentar, como a reforma do Judiciário, do processo penal, entre outros. Como trabalhos de construção institucional nunca ficam prontos, precisando sempre de aprimoramentos, o importante é saber que estamos caminhando em uma boa direção. Durante a campanha, a presidente Dilma sinalizou com cinco projetos que aumentam o cerco à corrupção e seria muito bom que ela cumprisse com sua palavra. No entanto, a esta altura, já espero que tenha ficado claro que o que faz a diferença é a eterna vigilância (e cobrança) das pessoas, como dizia Thomas Jefferson.

Sem deixar de reconhecer o mérito do juiz paranaense Sérgio Mouro, que hoje é candidato a substituir o ex-ministro Joaquim Barbosa como herói nacional, a recuperação recorde de recursos desviados, a colaboração de empresários e o receio geral que tomou conta do meio político é consequência de um aprimoramento institucional intenso e importante que vem acontecendo desde a redemocratização. Além disso, se é bom que um país tenha capacidade de produzir heróis, não é recomendável que um povo dependa deles. Um bom país se faz com a aplicação de boas regras.

O artigo de Ricardo Semler

22 de novembro de 2014 28

Amigos me enviaram um artigo escrito pelo empresário paulista Ricardo Semler na Folha de S. Paulo. Contaram que esse texto está sendo festejado pelos governistas acuados pelas acusações de corrupção no governo do PT.
Fui ler.
O artigo é um pouco confuso. A folhas tantas, o empresário alega que a Polícia Federal “não teria autonomia” para investigar a roubalheira, se fosse outro o presidente. É um equívoco do empresário. A Polícia Federal e o Ministério Público têm autonomia constitucional para promover investigações, seja quem for o presidente.
Seu outro argumento é que esse governo é tão bom porque os percentuais de propina caíram: antes eram de 10%, hoje são de 3%. Quer dizer: os ladrões governistas de hoje são mais modestos do que os ladrões governistas d’antanho. É mais ou menos assim: o empresário Ricardo Semler tem na sua empresa um funcionário que rouba um milhão de reais por mês. Ele acha que é demais e substitui esse funcionário por outro que se contenta em roubar 300 mil reais por mês. Aí fica tudo bem, o empresário Ricardo Semler fica feliz.
O empresário também informa que uma certa “turma global” que monitora a corrupção “estima que 0,8% do PIB é roubado. Este número já foi de 3,1% e estimam ter sido de 5% há poucas décadas”.
Esse trecho valeu a leitura. Quem será essa “turma global”? Como é que a turma global, tão sabida, conseguiu chegar a esse número, 0,8%? Não seriam 0,9%? Ou 0,7%? Ou, quem sabe, 0,76%? A turma global já sabia do quanto se roubava na Petrobras, no Mensalão, nos sete ministérios abalados por corrupção no governo Dilma, no Pronaf do Rio Grande do Sul? Para que dar tanto trabalho à Polícia Federal e ao Ministério Público, se podemos chamar a turma global para nos fornecer essas informações precisas?
Outro ponto delicioso é que a turma global estimou que “há poucas décadas” o roubo era de 5% do PIB. Quantas décadas serão essas poucas? Duas? Oito? Vinte? E, no meio disso, eram exatos e certeiros 3,1%. Ou seja: antes de “poucas décadas”. Há uma década, quem sabe? No governo Lula? Quando, turma global?
De qualquer forma, o empresário faz pesadas acusações contra Dilma. Ele diz ter votado contra ela e o PT porque “enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas”. E acrescenta: “A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário”.
São acusações graves, mas os governistas ficaram faceiros, e sei por que: porque, para eles, é elogio dizer que seu governo rouba pouco. Para eles, é orgulho ser um ladrão menor.

Som de Sábado

22 de novembro de 2014 0

O meu amigo Diogo Olivier sugeriu que esse fosse um dos temas da minha entrada no Timeline Gaúcha.
Gostei. Porque sou um fã desse filme, porque essaq música me dá uma boa sensação de nostalgia.
Vou falar com o pessoal da Gaúcha.

A isonomia do roubo

21 de novembro de 2014 6

No tempo do Adhemar era “rouba mas faz”.
Agora é: “Nós roubamos, mas eles roubaram também”.

Novos ministros

21 de novembro de 2014 2

Agora entendi por que os petistas criticaram tanto Marina Silva por ela ter algum tipo de relacionamento com a herdeira do Itaú.
É porque o banco do PT é o Bradesco.