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Posts de dezembro 2014

O Deus de duas faces

31 de dezembro de 2014 12

Já passeio o Réveillon em Paris. Não gostei. Fui para a Champs-Élysée ao bimbalhar da meia-noite, conduzido pelo meu amigo Fernando Eichenberg, o Dinho, para ver a clássica celebração de Ano-Novo dos parisienses. Pelas barbas de Catherine Deneuve, foi horrível! Os franceses levam champanhe nacional para a rua e, depois de beber tudo pelo gargalo, abrem grandes círculos humanos e começam a jogar as garrafas no meio. As garrafas se quebram, naturalmente, e os cacos de vidro afiados ficam espalhados pelo chão. Às vezes um francês bêbado atravessa o círculo, em desafio aos outros franceses bêbados, que atiram as garrafas enquanto ele passa. É um troço PERIGOSO!
Também já passei o Réveillon em vários pedaços das fímbrias do Atlântico, do Rio de Janeiro ao Uruguai, passando por Xangri-lá. Algumas festas foram gloriosas, outras nem tanto. Mas tem uma coisa que me incomoda no Réveillon do litoral: os foguetes. Não os fogos, que são bonitos; os foguetes. Não gosto de foguete. Não gosto, cara, não gosto. Os gatos ficam nervosos, os cachorros ficam nervosos, eu fico nervoso e todos temos razão. Para que aquela barulheira toda? Não consigo entender isso. Sinto-me tão inseguro com as explosões quanto com as garrafas quebradas nas calçadas de Paris.
Nos anos 80, tive um Réveillon singular. Morava em Criciúma, trabalhava no Diário Catarinense e estava duro, durango. Não tinha nenhum, mas nenhum mesmo, nem para comprar um único cachorro-quente sem molho. Brabeza. Namorava a Janinha, que hoje está casada com um grande cara, o Oderson. Com ele, ela tem uma linda filha e vivem, os três felizes, no Paraná.
Ocorre que, meses antes, eu havia feito uma aposta com o Nenê, dono de um bar que ainda vigora na cidade, o Varandas. Havíamos apostado um engradado de cervejas, e eu ganhei. Sentia vergonha de cobrar a aposta, mas a Janinha sempre foi despachada, sobretudo num momento de necessidade como aquele. Ela foi ao bar, lembrou a aposta, pediu o engradado e o Nenê, bom perdedor que é, deu. Para arrematar, ela disse que queria uma pizza e mandou o Nenê pendurar a conta num cabide ali atrás do balcão. Fomos para o meu apartamento, no décimo andar de um edifício a duas quadras de distância, e passamos a noite inteira comendo pizza, bebendo cerveja e rindo, até o alvorecer na região carbonífera. A cidade estava vazia, ninguém fica em Criciúma no Réveillon, tínhamos só pizza e cerveja e nenhum centavo. E foi muito divertido!
O que a gente precisa, para fazer uma boa festa, é gente de quem se gosta. As mais belas praias do mundo ou a avenida por onde desfilou Napoleão são dispensáveis.
Agora, vou passar o Réveillon com minha pequena e unida família, eu, minha mulher e meu filho, no extremo nordeste dos Estados Unidos, numa temperatura de sete graus abaixo de zero, e me sinto muito feliz. Poderia ter mais amigos por perto, poderia estar mais quente, poderia ter o chope brasileiro para brindar antes e depois da champanhe, mas você tem de se divertir com o que está à disposição, não é?
Esse é meio que um lema que me guia.
Uma data como o Réveillon presta-se para exercer esse lema, ou para refletir a respeito. Janeiro, não por acaso, é o mês de Jano, o deus de todos os finais e de todos os começos, o deus de duas faces, uma olhando para frente, outra olhando para trás.
Quando olho para trás, vejo dificuldades que enfrentei, sim, claro que as vejo, mas vejo, também, as pessoas que me ajudaram a enfrentá-las. São tantas e seu amor é tão poderoso… As pessoas. Como já disse, para se fazer da vida uma boa festa, só se precisa de pessoas de quem se gosta. Elas estão ao meu lado aqui, no Norte do mundo, e também aí, no Sul do Brasil. E eu estou com elas. É certo. Como puder, sempre estarei com elas. Olhando para frente, vejo-as comigo. Por isso, a outra face de Jano, a que mira 2015, observe, veja bem: ela está sorrindo.​

Em defesa do Paulo Sant'Ana

30 de dezembro de 2014 214

Todos sabem que tive um sério contencioso com o Sant’Ana. Não nos falamos há meses, e é provável que não voltemos a nos falar nunca mais, o que não me abala.
Poderia, por isso, estar salivando de satisfação com o massacre virtual que ele está sofrendo devido à coluna que escreveu no domingo passado, em Zero Hora.
Mas, não. Não estou salivando de satisfação. Ao contrário: estou triste com mais essa demonstração da necessidade que as pessoas têm de odiar. Do amor que elas têm pelo ódio.
Em parte, isso é compreensível. As ideologias estão doentes de morte, e as pessoas precisam de algo em que acreditar. Os jovens, sobretudo os jovens precisam de bandeiras que lhes elevem a alma. Precisam lutar contra as injustiças do mundo, mesmo que as causas dessas injustiças não estejam bem nítidas para eles.
O Sant’Ana foi vítima dessa ânsia, uma ânsia que facilmente se transforma em peçonha.
Ele escreveu o seguinte:

“Finalmente, é incrível, mas não há sequer um negro em Punta del Este. A 150 quilômetros de Punta, em Montevidéu, há milhares de negros.
Mas em Punta nenhum empregado, nenhuma empregada doméstica negra, nem camareiras de hotel.
Foi feita em Punta uma segregação racial pacífica e não violenta.
Há mais negros na Dinamarca e na Noruega do que em Punta del Este.
Ou melhor, não há sequer um só negro ou uma só negra em Punta.”

Onde está o racismo? Ele fez uma descrição. Contou que não há negros em Punta, não disse se isso é bom ou ruim, não disse se gosta ou não, não qualificou. Se eu disser que rodei durante uma hora pelo centro de Johannesburgo e não vi um branco sequer, o que, aliás, é verdade, se contar isso, estarei sendo racista? Se contar que desembarquei do trem-bala na estação central de Tóquio e não vi um único ocidental, o que também é verdade, estarei sendo racista?
Não. Eu estaria fazendo descrições. E, inclusive, já fiz essas descrições, exatamente essas, sem nenhuma intenção ou conotação racista.
O Sant’Ana não foi racista. Digo mais: o Sant’Ana não é racista. Ele é casado com uma negra, sabiam?
O Sant’Ana foi mais uma vítima das correntes inquebráveis de ódio das redes sociais. Essas correntes de ódio escravizam e, às vezes, nos atam a elas. Confesso que, às vezes, me vejo preso a alguma, e o resultado disso nunca é positivo. Não tem como ser.
As pessoas interpretaram o que estava escrito de acordo com o que elas sentem. De acordo com que elas têm dentro delas. E o que elas têm dentro delas não é bom.

Compre ações da Petrobras

30 de dezembro de 2014 22

Sei exatamente o que faria com meu dinheiro nesse momento, se tivesse algum: compraria ações da Petrobras.
Eis aí, inclusive, um conselho financeiro que dou a você, nababo leitor, e tão-somente pelo preço do exemplar de Zero Hora: invista em ações da Petrobras e você ganhará muito dinheiro daqui a algum tempo.
Ou você acredita que a Petrobras vai à falência? Claro que não acredita, ninguém acredita, todos sabemos que a Petrobras vai se recuperar ali adiante. A Petrobras é a maior empresa da América do Sul, é robusta como um javali, é uma das vigas que sustentam a economia brasileira. Esse governo pode até cair; a Petrobras não cairá.
O Brasil democrático também não cairá, ainda que metade do governo faça solene entrada na Papuda, com o braço esquerdo erguido e o punho cerrado em desafio.
Assim como a Petrobras, a democracia brasileira pode ser abalada, não derrubada. Não mais. Esse tempo já passou. Ninguém nem leva a sério as rarefeitas manifestações pela volta dos militares ao poder. São tão anedóticas. São ridículas.
Mas observe como se luta contra a ditadura agora, nas franjas de 2015. Observe. A Avenida Castelo Branco mudou de nome. Um busto de bronze de Costa e Silva foi removido com pompa em Taquari. Faltou apenas o soar de trombetas para festejar a coragem do prefeito do PT, que enfim derrotou o ditador. E todos os dias alguém esbraveja contra os ditadores nos jornais, nas TVs, nas redes sociais.
Só que Costa e Silva e Castelo branco morreram há mais de quatro décadas, todos os generais-ditadores morreram, aliás, e a democracia é exercida integralmente no país pelo menos desde a eleição de 89.
Então, qual é o verdadeiro objetivo dessa suposta luta contra uma ditadura que, felizmente, já faleceu e já se decompôs na sepultura?
O objetivo é desviar a discussão do que realmente importa. E o que realmente importa é que o Brasil está passando por um processo purgativo mais profundo do que foi a Operação Mãos Limpas, na Itália. O que realmente importa é que a varrição está só começando.
Não acredite nessas miragens. Não invista sobre essa capa que estão sacudindo na sua frente. Os militares golpistas são tão inofensivos quanto os agentes do comunismo cubano. Não é mais necessário lutar contra a ditadura. A ditadura se foi para sempre. Deve ser lembrada, deve ser estudada e dever ser lamentada. Combatida, não, porque não há o que combater.
O pretenso debate ideológico no Brasil não passa disso mesmo: de pretensão fátua, de cortina de fumaça, reles manobra diversionista. Vamos nos concentrar no que fará diferença para o Brasil, que se resume numa palavra:
Punição.
Os corruptos têm de ser punidos. Roubou-se no governo Fernando Henrique? No governo Collor? No governo Sarney? Nas capitanias hereditárias?
Parece que sim. E daí? O roubo pregresso absolve o ladrão de hoje? Purifica-o? Torna-o menos ladrão?
Vamos fazer o seguinte: está provado que roubou, em qualquer tempo ou lugar, que seja punido. Sem ponderações. Sem relativização.
Só com a punição dos culpados alcançaremos a redenção. Porque a democracia brasileira vai seguir em frente e a Petrobras vai se recuperar. Mais limpos, ambos. Mais fortes.
É certo.
Pode apostar seu dinheiro nisso.​

Ouça o Timeline Gaúcha desta segunda-feira

29 de dezembro de 2014 1

Xingado pelos leitores

29 de dezembro de 2014 32

Sócrates, o filósofo, dizia de si mesmo que era um moscardo. Ou seja: uma dessas moscas grandes, que estão sempre incomodando. Com isso reconhecia ser um chato _ por causa, basicamente, de seu método investigativo da alma humana e da sociedade, que ele chamava de “parto de ideias”.
Esse parto funcionava assim: Sócrates abordava um cidadão ateniense na rua e jogava-lhe no colo uma pergunta simples e conceitual. “O que é a sabedoria?” “De onde vem a coragem?” O interlocutor respondia e Sócrates contestava, ele era bom em contestar. O sujeito rebatia e ele contra-argumentava em cima de alguma falha do seu raciocínio. E assim prosseguia com perguntas, respostas e novas perguntas, até chegar ao núcleo da questão ou, o que era mais usual, enfurecer o outro, que só queria ir ali ao mercado, comprar uma escrava nova que havia chegado da Trácia. Tenho fortes suspeitas de que Sócrates foi morto, mesmo, mesmo, devido a essa sua mania irritante.
Não quero me comparar a Sócrates, por amor de Deus!, mas aprecio esse método da busca da verdade pelo debate. Gosto do debate. Lanço uma ideia, vem alguém e a critica, pergunto a razão e vamos em frente. Se o outro tem um bom estoque de argumentos, pode muito bem me convencer de que estou errado, o que sói acontecer, porque sói acontecer de eu estar errado. Mas, lamentavelmente, as pessoas não debatem. Não ponderam sobre o que o outro está dizendo. Não argumentam. Elas logo atacam o debatedor, acusam-no de ser isso ou, o que é pior, aquilo e, aí, em vez de luzes, o que sobrevém são trevas.
Sei qual é a razão disso. É porque as pessoas empunham bandeiras. Não é possível compreender o que alguém está dizendo, se você está tremulando uma bandeira. Por esse motivo, não me filio a movimento algum, por justo que seja. O movimento pode ter a minha simpatia, jamais a minha adesão, porque preciso ter espaço para pensar. É uma deficiência minha, essa de ter tantas dúvidas.
Exatamente devido à minha ignorância, queria debater com pessoas mais preparadas do que eu. O problema é que essas pessoas mais preparadas são também as mais suscetíveis à contestação. Elas ficam fulas à primeira crítica e já me chamam de tudo que é ruim, dizem até que eu era mau zagueiro. Triste. Não sou nem jamais serei um Sócrates, mas suspeito de que sou um moscardo.
Teço todo esse arrazoado para contar que muitos leitores me criticaram por ter defendido a legalização do aborto, na coluna de sexta-feira passada. Mas foram críticas educadas, algumas compassivas. Portanto, por amor ao debate e na busca da luz, é para esses que escrevo agora. Escrevo para você que é contra o aborto.
Acontece que você não está sozinho. Todas as pessoas são contra o aborto. Quem seria a favor? Que mulher gostaria de fazer um aborto?
O aborto não é como a droga. A droga, a princípio, procura-a quem quer. A droga é usada por prazer ou por curiosidade e, depois, pelo vício. A mulher que faz o aborto não o faz porque deseja. Faz porque considera necessário.
Não é agradável fazer um aborto, não é bom, não acrescenta nada ao status social de quem faz, não lhe melhora a imagem, não o torna mais popular.
O que quero dizer, com isso, é que a legalização do aborto não vai fazer com que ocorram mais abortos.
Já a ilegalidade não diminui o número de abortos. Submete-se a aborto quem achar que precisa, e até com certa facilidade. O problema é que, devido à ilegalidade, as milhares de mulheres passam por aborto todos os anos têm de entregar-se a médicos clandestinos, quando não curandeiros, ou então, o que é horrendo, elas mesmas se ferem com objetos, como agulhas de tricô.
Então, a questão do aborto ultrapassa quaisquer debates religiosos ou morais. É uma questão de saúde pública. De sobrevivência e de dignidade de multidões de mulheres. Se você é contra o aborto, deve concordar com sua legalização. Todos devem concordar. Porque, afinal, todos são contra o aborto.​

Dilma é honesta

27 de dezembro de 2014 48

Jeferson é motorista de táxi em Porto Alegre. É um negro magro, dono de uma voz grave e limpa, que usa para contar histórias com impecável concordância verbal. Tomei o táxi dele para ir a uma festa, meses atrás _ eu e Marcinha tínhamos a intenção de beber naquela noite. Chegando ao local, anotei seu telefone a fim de chamá-lo para voltar para casa. Tudo bem, tudo certo. Só que, na hora de pagar a corrida, eu só tinha uma nota grande, e ele estava sem troco. Ele não queria cobrar, mas não permiti. Dei o dinheiro e disse que o chamaria outro dia, para outra corrida. Só que acabei me mudando para os Estados Unidos e esqueci desse episódio.
Bem.
Agora, neste dezembro, passei alguns dias em Porto Alegre. Estava sem carro e precisava dar umas voltas. Liguei para empresas de tele-táxi. Sem sucesso. Nem me atendiam. Aí lembrei do Jeferson, liguei para ele e, em poucos minutos, estava rodando pela cidade. Ocupei-o por algumas horas e, finalmente, no momento em que saquei o dinheiro do bolso para pagar, ele:
_ Não mesmo. Hoje é de graça.
_ Como assim?
Não lembrava que havia lhe dado dinheiro a mais, meses antes. Ele, sim. Insisti em pagar algo, até porque a corrida devia ter saído mais cara do que a do passado. Não adiantou, ele não aceitou.
Saí do táxi pensando em algo que sempre me assombra: a sólida honestidade do povo brasileiro. Não estou sendo irônico. Pense: a impunidade grassa nesse país. Além disso, a rigor, qualquer um pode fazer praticamente o que quiser, porque o aparato repressivo é ineficaz _ você só encontra polícia na rua quando tem Copa. Há incentivo diário à desonestidade no Brasil. E, mesmo assim, a grande maioria da população é honesta. Vá a qualquer favela carioca, a qualquer vila pobre de Porto Alegre e você verá o mesmo: uma pequena parcela de bandidos vivendo em meio a pessoas trabalhadoras e cumpridoras de suas obrigações.
São essas pessoas que não podem ser perfiladas a certo tipo de gente que ora ocupa cargos no governo brasileiro. Mas, na sua defesa desesperada das denúncias de corrupção em que se refocila, o governo faz exatamente isso: alega que todos são iguais a ele. Foi esse o argumento durante toda a campanha eleitoral e, dias atrás, a presidente chegou a dizer, em seu discurso de diplomação, abre aspas:
“É preciso uma nova consciência, uma nova cultura fundada em valores éticos profundos. Ela tem de nascer dentro de cada lar, dentro de cada escola, dentro da alma de cada cidadão e ir ganhando, de forma absoluta, a esfera pública, as instituições e todos os núcleos de decisões”.
OPA! Espere aí, presidente! Fale pelo seu governo! A imensa maioria das pessoas que conheço são honestas! Na verdade, conheço pouquíssimas pessoas desonestas, e conheço proletários e empresários, descamisados e magnatas. Digo mais, presidente: acho que até a senhora é honesta e vários integrantes do seu partido também o são. Mas o seu governo e o seu partido não têm sido. Existe corrupção no seu governo, e a senhora sabe disso. A mudança, portanto, não deve se dar a partir dos lares brasileiros para migrar em direção à esfera pública, como a senhora propôs. Não! Tem de começar aí por cima, por Brasília, pelo seu partido. Tem de sair das entranhas do governo federal. Roubaram antes? Decerto que sim. Mas vamos resolver os problemas que estamos enfrentando agora, e grande parte dos nossos problemas é a craca corrupta que se grudou no governo. No seu governo. Remova-a, presidente, e comece a mudança. Em nome do motorista Jeferson e de todas as mulheres e homens corretos desse país.​

Som de Sexta

26 de dezembro de 2014 4

Em homenagem a Sophie Charlotte, que cantou “Sua Estupidez” olhando nos olhos do Rei, aí vai a melhor de todas as interpretações deste clássico de RC, na voz de uma das melhores, senão a melhor, intérprete do brasil:

A morte de Juraci

26 de dezembro de 2014 7

Minha amiga Juraci morreu assassinada na antevéspera de Natal. Foi esfaqueada diante da filha, no saguão do edifício em que morava, no Centro de Porto Alegre. O assassino é o porteiro do prédio, com quem, minutos antes, ela travou uma discussão.

Juraci trabalhava como telefonista da Zero Hora havia já mais de 20 anos. Todos no jornal a conheciam e nutriam afeto por ela. Era uma pessoa doce. Doce.

Dias atrás, Juraci me enviou uma mensagem tão carinhosa que me marejou os olhos.

Era uma pessoa doce.

Fiquei triste e furioso com a morte de Juraci. Triste por razões óbvias. Furioso porque esse é mais um covarde caso de violência fatal contra mulheres. Não vou desfiar aqui um rosário de contas feministas. Não que tenha algo contra o feminismo; não tenho. Contra as feministas, talvez. Em especial as neofeministas, que são umas chatolas.

As neofeministas fariam um grande bem ao feminismo se não ficassem julgando as outras pessoas e se adotassem causas práticas. O caso do aborto, por exemplo. O aborto é legalizado em vários estados americanos, o que é uma tendência das sociedades modernas. Mas as neofeministas brasileiras não conseguem tratar a questão de forma adulta, como o problema de saúde que é. Elas preferem chocar ou levar a discussão para o pantanoso campo moral ou ético, tornando o debate menor do que poderia ser.

Outra: as pobres prostitutas brasileiras. É provável que em nenhum outro país do mundo o exercício da prostituição seja tão amplo e livre como no Brasil, mas isso é feito de maneira clandestina e hipócrita, e todos os dias prostitutas são exploradas, agredidas e, não raro, escravizadas.

Ou: por que ninguém se bate por creches públicas nos bairros pobres das cidades brasileiras? Por que ninguém lembra das mães que saem para trabalhar todas as manhãs e não têm com quem deixar os filhos pequenos?

Mas talvez o mais importante, e o que vem ao caso, é que é um erro terrível considerar mulheres e homens iguais. Um erro que é causa indireta de crimes como o que vitimou Juraci. Feministas, neofeministas, homens, todos deveriam compreender que o respeito às diferenças é o respeito à natureza humana.

Homens são diferentes de mulheres. Homens são mais fortes fisicamente do que mulheres, e isso é importante. A História mostra que a força física tem papel definitivo nas relações humanas e nas relações entre as nações. O mais forte tende a oprimir.

Mulheres são mais fracas, velhos são mais fracos, crianças são mais fracas. Os mais fracos precisam de proteção. Não privilégios: proteção. A legislação teria de ser mais dura contra quem agride fisicamente mulheres, crianças e velhos.

A filha de Juraci, que também foi apunhalada pelo assassino, a filha de Juraci praticamente viu a mãe morrer em seus braços, na antevéspera do Natal de Porto Alegre. Que espécie de Natal teve essa menina? Que não haja mais Natais assim. Que a punição de homens que agridem fisicamente mulheres seja uma punição especialmente dura. Que sejam protegidas essas meninas, essas mulheres. Que tristeza, Juraci, minha amiga. Uma pessoa tão doce.​

Presente de Natal

25 de dezembro de 2014 15

Meu amigo Cosme Rímoli, grande colunista de São Paulo, me deu um presente de Natal que me emocionou.

Clique nesse link para ler.

Os meninos maduros do Brasil

25 de dezembro de 2014 2

Contratei um Papai Noel para ir lá em casa, no Natal do ano passado. Foi um dos melhores investimentos da minha vida. Nunca mais vou esquecer a alegria do meu filho quando o Papai Noel bateu à porta. Tampouco esquecerei a reação dele: para meu grande espanto, o menino correu para o quarto e voltou voando, com o bico na mão. Tinha decidido, estoicamente, que entregaria o bico para o Papai Noel. E o fez, de fato, mas, na hora de dormir, bateu a síndrome de abstinência.

_ Quero o bico! _ Gritava. _ Quero o bico! Liga pro Papai Noel! Pede pra ele trazer o bico de volta! Liga pro celular dele!

Por sorte, o Papai Noel, velho malandro da Lapônia, não havia levado o bico. Assim, quando o Bernardo começou a chorar, suspirei, desci até a sala, tirei o bico do esconderijo e voltei o quarto para dar a ele. Que se surpreendeu:

_ Como o Papai Noel veio rápido.

Desconversei:

_ Aquelas renas não brincam em serviço…

Seis meses depois, quando ele e a minha mulher enfim se juntaram a mim, aqui nos Estados Unidos, a primeira coisa que o guri fez, no momento em que pôs os pés em sua nova casa, foi tirar o bico de algum desvão da mochila e estendê-lo para mim:

_ Pode botar fora.

Peguei o bico e sorri com complacência. Botar fora. Sei.

Guardei o bico na gaveta da cozinha, supondo que, à noite, ele o pedisse aos prantos. Não houve pranto, nem pedido. Para arrematar, na manhã seguinte, na hora da mamadeira, ele anunciou, de queixo empinado:

_ Não vou mais tomar mamadeira.

E nunca mais tomou mamadeira. E nunca mais quis o bico.

Corta.

Ontem, a Marcinha puxou o bico e a mamadeira do fundo de uma gaveta e me mostrou:

_ Lembra disso?

Havia esquecido. Então, dei-me conta do tanto que o meu filho amadureceu em tão pouco tempo. Ao chegar aqui era um bebezão; agora é um gurizinho.

Sei o que fez com que amadurecesse tão velozmente: as dificuldades. Ele não apenas mudou de escola e de colegas; mudou de cidade, de país e de língua. Imagine que, no primeiro dia de aula (a professora me contou), ele começou a falar com todo mundo, falante que é, e ninguém respondia. Ninguém entendia… O começo foi duro, e são assim os começos, mas agora tudo está bem com esse brasileirinho na América do Norte.

As crianças têm grande capacidade de resistência e de adaptação. Elas se transformam de acordo com o que é exigido delas. E de acordo com o que é dado a elas. Uma pessoa só vai dar amor, por exemplo, se tiver amor para dar. Quer dizer: se o amor lhe tiver sido dado na infância, que é quando fazemos esse estoque de sentimentos.

No enfrentamento desses desafios, meu filho teve todo o apoio e o amor dos pais, é verdade, mas teve, também, um outro auxílio luxuoso: o de competentíssimos professores de uma excelente escola pública. Não gasto um único dólar com a escola, e meu filho, que não é cidadão americano, é tratado com uma atenção e um desvelo que custariam fortunas em uma escola particular brasileira.

Eis um dos grandes trunfos dos americanos: o investimento que eles fazem, que sempre fizeram na educação básica e fundamental.

As crianças _ eles se preocupam com as crianças.

Hoje é Natal, e das crianças são todos os natais, mas queria que as crianças brasileiras tivessem mais do que um Natal por ano. Queria que as prioridades da educação fossem invertidas, que a Constituição fosse modificada, que os investimentos do país fossem derramados nas crianças e quase que só nas crianças. Nossos meninos precisam de ajuda. Eles já são mais maduros do que deviam ser.​

Luzes de Natal e seres humanos elétricos e a pujança do capitalismo

23 de dezembro de 2014 7

Tomo cada choque aqui… Sério, choque mesmo, não choquinho. Basta encostar em uma maçaneta ou em qualquer objeto de metal que… bzzzz! Um choque forte! Como se metesse os dedos na tomada.

Você não vai acreditar, mas já tomei choque até de madeira, que nem é condutor de eletricidade, deve ser madeira fake de americano, sei lá, só sei que tomo choque de madeira e de outras pessoas. Minha mulher volta e meia reclama:

_ Tu estás chocante hoje!

Explicaram-me, os americanos, que tem a ver com o frio e o clima seco. Você fica carregado de eletricidade e, de súbito, descarrega quando em contato com algo que funciona como condutor. Agora: por que você fica carregado de eletricidade? Isso não sei. Alguém inteligente e didático, por favor, me diga como uma coisa dessas pode acontecer com um ser humano.

-x-x-x-x-
O fato é que a vida é diferente aqui, ao Norte do mundo. Tem uma rádio de Boston que desde o meio de novembro, desde antes do famoso Dia de Ação de Graças está tocando música de Natal. E não é música de Natal de vez em quando. É SÓ música de Natal, música de Natal o dia inteiro, sem parar, sem nenhuma outra música a não ser música de Natal. Não imaginava que existisse tanta música de Natal, por Deus.

Às vezes tiro do rock’nd roll clássico da WROR e sintonizo nessa rádio para conferir se continua rolando música de Natal. Não dá outra. Música de Natal e música de Natal, como se você estivesse o dia todo na frente das Lojas Americanas, ouvindo a Simone cantar “…a festa cristã…”.

Credo.

É insuportável. Todo aquele amor fraternal escorrendo do radinho, melecando o ouvido da gente. Dá para aguentar duas músicas, no máximo. É muito dingobéu para um homem tão pouco natalino feito eu. Como é que essa rádio se sustenta? Como ela tem audiência? O inteligente que me explicar sobre os choques me explique isso também, por amor de Santa Claus.

-x-x-x-x-x-
Natal é festa de criança. Tenho que aproveitar enquanto meu filho é pequeno, porque, depois, quando ele se tornar adolescente, se tornará também cínico, como todos os adolescentes, e aí foi-se um pedaço da magia do mundo e a chance de um pai se consagrar. Então, exerço todas as ortodoxias natalinas com meu filho. Há uns dois anos, levei-o para ver o Natal Luz de Gramado. No fim de semana passado, levei-o para ver o inigualável Natal de Nova York.

E o Natal de Nova York é mesmo inigualável, mas, em alguns pontos, é igual ao de Gramado. Dois exemplos: a decoração feérica da cidade, algo excelente, e a quantidade de gente na rua, algo nem tanto. Sentia-me, nas avenidas de Manhattan, como me sentia na Emancipação, em Tramandaí, nos verões dos anos 70. Quanta gente! Era difícil de caminhar. Minha avó teria comentado:

_ Será que é a saída da fábrica?

Fomos ao grandioso espetáculo de Natal da Radio City e, na saída, ao ingressarmos na 5ª Avenida, deparamos com o desfile de carros da Chanukah, a festa das luzes dos israelitas. Muito bonito e tudo mais, só que, naquele frio de zero grau, não conseguíamos pegar um táxi, o que é espantoso para Nova York, a cidade mais bem servida de táxis do mundo. Seguimos em frente. Havia turistas por toda parte, comendo cachorros-quentes nas esquinas, carregando sacolas de compras. Os restaurantes estavam todos lotados e havia filas de meia quadra nas portas das lojas. Filas para comprar! Os Estados Unidos, definitivamente, emergiram da crise de queixo erguido e peito estufado.​

Joe Cocker - esquecer jamais

22 de dezembro de 2014 5

Tive uma fase joecockeriana na minha vida. Tinha todos os discos dele, ouvia todos os dias.
Em 2012, quando o velho Joe foi a Porto Alegre, lá estava eu, na plateia.
Fiquei triste com sua morte. Não esquecerei suas músicas jamais, como ele cantava nessa bela canção, ainda mais com a belíssima Catherine estrelando o clipe:

Ouça o Timeline Gaúcha desta segunda-feira

22 de dezembro de 2014 1

Uma mulher se olhando no espelho

22 de dezembro de 2014 1

Ela era oriental. Grandes olhos escuros e amendoados. Uns vinte e poucos anos, o negro reluzente dos cabelos se derramando à altura dos ombros, a pele cremosa. Você entende o que é uma pele cremosa? Dessas boas de se tocar.

Há orientais aos cardumes por aqui. Japonesas, chinesas, coreanas, vietnamitas. As vietnamitas trabalham como manicures. Pelo que apurei, praticamente todas as manicures da cidade são vietnamitas. Qual é a razão disso?, aí está algo que alguém algum dia vai ter de me explicar.

Essa menina não se parecia com uma manicure vietnamita. Tinha jeito de ser coreana, talvez estudante de uma das tantas universidades de Boston.

Estávamos no trem. No trem, o que as pessoas fazem no trem, por aqui, é lidar com seus celulares. Quase todos, senão todos, passam a viagem olhando para o colo e digitando com os polegares. A habilidade de digitar com os polegares é algo que me fascina. Como conseguem? Meus polegares, positivamente, não dispõem dessa motricidade fina.

Faço questão de deixar o celular no bolso, quando no trem, exatamente para poder observar as pessoas, como fazia agora com a moça oriental. Ela também não manuseava o celular, mas não me via, não olhava para ninguém. Nem olhar para dentro do vagão olhava. Foi o que mais me chamou a atenção: ela olhava pela janela. Ocorre que o trem tinha penetrado na terra, tinha virado metrô, e não havia nada para ver, além de paredes passando em rápida sucessão. Mas ela não desviava o olhar da janela.

Para que olhava? Só compreendi depois de alguns minutos: ela olhava para ela mesma. Fitava sua própria imagem refletida no vidro, como se estivesse diante de um espelho. Era um olhar de exame intenso. Levantou um pouco o queixo, entreabriu os lábios — era dona de lábios carnudos, principalmente o lábio superior. São especialmente misteriosas as mulheres de lábio superior mais polpudo do que o inferior. Um naco branco de seus dentes frontais apareceu.

Ela agora respirava pela boca. Semicerrou os olhos. Ergueu a mão devagar e levou dois dedos até o rosto. Tocou-se. Acariciou aquela pele cremosa com suavidade, desceu os dedos até a base do queixo e, finalmente, sorveu um gole de ar. Continuou se admirando, virou o rosto de leve para um lado e para outro, para se ver de perfil. Devia estar se achando bonita. Então, pensou em algo. Acho que em alguém.

Na verdade, tenho certeza de que pensou em alguém, porque, em um segundo, desviou o olhar da janela e deixou os olhos vagando pelo vazio do ar do vagão. Enfim, baixou a cabeça, abriu a bolsa que levava sobre as pernas e de lá tirou o celular. Começou a digitar com os polegares, como faziam os outros passageiros. Suponho que tenha mandado uma mensagem, suponho que tenha sido para um homem, porque seu rosto de repente se iluminou.

O que ela escreveu? Que mensagem enviou? Queria tanto saber. Foi algo definitivo. Porque, em um segundo, ela voltou a se mirar no vidro da janela, e ali havia uma expressão nova. Ali havia um sorriso. Um sorriso mínimo, mas, sem dúvida, de vitória. Estávamos na minha estação. Eu tinha de desembarcar. Vacilei um segundo, mas por fim desci. Fiquei olhando o trem ir embora, levando com ele uma mulher que não precisa mais do que olhar para si mesma para se sentir feliz.

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19 de dezembro de 2014 2