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Posts de janeiro 2015

A saída de Barcos

31 de janeiro de 2015 18

Barcos fez dois gols e, no mesmo dia, anuncia-se que ele pode estar indo embora.
Barcos não é um Romário, de fato, mas também não é desprezível. Ao contrário: é bom jogador.
Neste momento, o Grêmio precisa dele.
É importante ter dois centroavantes, mesmo para um time que apresenta deficiências em outros setores.
É melhor ter dois centroavantes bons, um no time e outro no banco, do que dois defensores bons jogando.

Do Cenair

31 de janeiro de 2015 1

Neste Carnaval eu vou sair de Cerveró

30 de janeiro de 2015 47

Meu filho aproveitou a tempestade para fazer um boneco de neve na sacada. Os olhos e o nariz ele montou com três toquinhos de cenoura. Um olho ficou bem mais baixo do que o outro, aí é claro que o boneco foi batizado de Cerveró. Agora trabalho com o Cerveró me encarando com seu olho esquerdo. O direito, não. O direito fita, triste, a parede nua.
Juro que foi só depois de chamarmos o boneco de Cerveró que o Cerveró de carne e osso, não o de neve e cenoura, anunciou que vai processar quem fizer máscaras de Cerveró no Carnaval. Será que o nosso boneco de neve rende processo? Levei medo. Tenho vontade de pedir para o meu filho chutá-lo sacada abaixo, mas o guri se afeiçoou a ele. Eu mesmo, confesso, simpatizei com Cereverozinho. Gostei tanto da pequena criação do meu filho que acho que ela é bonita. Tem um olho sempre a boiar e outro que agita; tem um olho que não está, meus olhares evita, e outro olho a me arregalar sua pepita.
Mas nem toda a poesia do Chico Buarque haverá de consolar o Cerveró humano. Ele está decidido a levar quem gozar dele para as barras do tribunais. O que, francamente, me deixa muitíssimo intrigado. O homem foi preso, acusado de ter participado do maior esquema de corrupção da história do Brasil, pode ser julgado, condenado e talvez acabe passando algum tempo na cadeia. E está preocupado com as sacanagens dos foliões no Carnaval!
Talvez Cerveró não tenha sido culpado por toda essa roubalheira, talvez a presidente da Petrobras também não tenha sido, talvez ninguém no governo soubesse de nada do que estava acontecendo na maior empresa brasileira, nem a presidente Dilma, que, além de ser presidente da República pela segunda vez, foi presidente do conselho da empresa, ministra das Minas e Energia, chefe da Casa Civil e “mãe do PAC” na gestão de Lula. É. Talvez todos eles sejam inocentes. Pode ser. Quem sabe? Mas como eles não viram tudo isso que estava acontecendo? Bilhões sumindo, e ninguém notou… Para onde estavam olhando? A metade dos seus olhares estava chamando para a luta, aflita, e metade queria madrugar na Bodeguita, como bons simpatizantes de Cuba que todos são? É isso? Olhavam alhures e não viam o que se passava sob pelo menos um de seus olhos?
O que pode fazer o contribuinte, o eleitor, o cidadão brasileiro com tudo isso, já que todo mundo é inocente? Protestar não adianta. Reclamar? Pra quem? Chorar? Espernear?
Não, não há muito o que fazer. A não ser… brincar. Gozar disso tudo. Então, Cerveró, me desculpe, mas eu não vou chutar o Cerverozinho da sacada e vou, sim, me fantasiar de Cerveró de Carnaval. E vou convocar meus amigos, todos, a se fantasiarem de Graças Fosters, de Paulos Robertos Costas, de doleiros, de Dilmas. Vamos nos fantasiar deles, que é o que nos resta! Vamos tirar agora mesmo essa nossa fantasia de palhaço.

Som de Sexta

30 de janeiro de 2015 5

Esse policial de Dover virou celebridade internética.
O Departamento de Polícia da cidade liberou o vídeo gravado no interior do carro depois de uma revisão.

O fim de São Paulo

29 de janeiro de 2015 50

Um dia São Paulo ia acabar. Isso era óbvio. Bem… falta pouco. Quem vai querer viver num lugar em que os habitantes ficam cinco dias por semana sem água e cinco horas por dia presos em engarrafamentos?
Digo que era óbvio o fim de São Paulo porque essa é uma cidade pouco inteligente. Uma cidade sem estrelas. Uma cidade sem horizonte. À noite, você olha para o céu e vê uma capa cinza-chumbo. De manhã, você abre a janela e seu olhar esbarra numa parede. São Paulo não foi feita para as pessoas, nem foi feita para os automóveis. Para que foi feita São Paulo? Brasília, outra cidade pouco inteligente, por outros motivos, pelo menos foi construída para os automóveis. São Paulo, eles foram montando de improviso. A força da grana foi erguendo e destruindo coisas belas aleatoriamente, sem planejamento.
Agora a falta de planejamento está cobrando a conta.
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São Paulo tornou-se o inferno, mas isso não quer dizer que Porto Alegre seja o paraíso. Porto Alegre padece dos mesmos males de São Paulo, só que sem dinheiro. Sem a força da grana, as coisas belas são destruídas e, em seu lugar, são erguidas as de mau gosto.
Numa cidade que valoriza as pessoas, o tamanho e a arquitetura dos prédios, por exemplo, são controlados com rigor e critério. Vou citar dois pequenos exemplos: o Menino Deus e o Moinhos de Vento são bairros com evidente vocação residencial, e também para o comércio de rua e para a vida noturna amena, mas, a despeito dos protestos dos moradores, alguns edifícios de altura e arquitetura grotescas estão se levantando do chão já há anos, e vão continuar se levantando, e vão desfigurar ambas as regiões.
O planejamento urbanístico preserva as melhores características de uma cidade, preserva o meio ambiente e, por consequência, preserva os seres humanos. A falta de planejamento, como prova a iminente extinção de São Paulo, não apenas destrói as coisas belas erguidas pelo homem: destrói a vida ao redor.
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O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, foi um ministro da Educação volta e meia equivocado, mas ele tem boas ideias para a cidade, pelo que li em várias de suas entrevistas. Não estou falando das ciclovias que ele mandou pintar nas avenidas – ciclovias são algo positivos, mas não passam de paliativo. Na questão do trânsito, especificamente, Haddad quer transformar o transporte público paulistano em um sistema exemplar, com internet, ar-condicionado, conforto e rapidez em ônibus e trens. Em contrapartida, pretende taxar fortemente a circulação dos carros particulares.
Perfeito.
Em Porto Alegre, a prefeitura deveria cobrar uns 10 ou 20 reais a hora pelo estacionamento em vias públicas e reverter esses recursos para a qualidade dos ônibus, das lotações e dos trens.
Porto Alegre ainda pode se salvar. São Paulo, mesmo com as boas intenções do seu prefeito, talvez não.​

Ouça o Timeline Gaúcha desta quarta-feira

28 de janeiro de 2015 1

O que fazer durante dois dias preso em casa

28 de janeiro de 2015 15

Neve é coisa linda, decerto que sim. Mas é também um estorvo. Na quantidade que se derrama do céu agora, aqui, na Nova Inglaterra, torna a vida humana quase impossível. No momento em que escrevo, imagine você, a neve cai há mais de 30 horas, e vai continuar caindo. Os flocos descem flutuando devagar das nuvens, como folhas brancas que se despegam das árvores no outono. Já se eleva, a massa de neve, mais de meio metro acima do chão. Pode ser muito divertido, vejo pessoas se atirando de costas no solo às gargalhadas, vejo crianças e jovens brincando com esquis ou se jogando ladeiras abaixo montados em pranchas, nos parques. Sim, neve pode ser algo divertido. Mas é muito mais trabalhoso.
A neve toma conta de tudo. Você não sabe onde está o leito da rua e onde está a calçada. A neve cresce em frente às portas das casas, feito bolha assassina, e os moradores têm de sair com grandes pás para retirá-la. Em algumas residências, se há neve demais sobre os telhados, as pessoas precisam ir lá e jogá-la para baixo. É nesse momento que muitos acidentes acontecem – as pessoa não foram feitas para se empoleirar em telhados. Numa nevasca de tamanha intensidade é mais fácil alguém morrer de uma queda do que de frio.
O que não quer dizer que não faça frio. Faz, e muito. Menos 10 graus Celsius, sensação térmica de menos 24, mas o aquecimento central dá conta. O problema é se faltar luz. A maior parte da rede elétrica no bairro em que moro é enterrada – é difícil cair a energia por causa de ventos fortes. Mas não impossível. Aí, se cair, a alternativa é o velho e bom poncho. Ainda bem que trouxe o meu poncho do Alegrete!
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As TVs transmitem a tempestade de neve como se fosse a Copa. Cada canal tens uns 40 repórteres espalhados por pontos estratégicos da região, levando neve e vento na cara, entrando ao vivo a todo momento, debaixo de tocas, luvas segurando microfones. Não é de se estranhar tanto interesse. São mais de 50 milhões de pessoas fechadas em suas casas durante dois dias, a TV e as notícias sobre o clima se transformam no centro da vida.
Que dramas será que se desenvolvem no interior dessas casas sitiadas? Conheço muita gente que preferiria se enterrar no gelo a passar um dia inteiro na companhia de seus entes queridos.
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Li, algum dia, em algum lugar, que as mulheres se tornam especialmente propícias ao sexo em meio a tragédias ou intempéries ameaçadoras. Há, em Blumenau, muitos filhos da grande enchente de 1983. Compreensível: é o instinto de preservação da espécie que freme e treme nos corpos das fêmeas.
Às mulheres cabem, digamos, as maiores responsabilidades nas tarefas de reprodução. Então, sob ameaça de extermínio da sua carga genética, esse instinto se transforma em premência. A Natureza grita, a Natureza clama para que seus desígnios sejam atendidos. E nós, homens, nos quedamos vítimas dessas vontades irreprimíveis.
Pobres de nós.
Ainda ouviremos falar nos filhos da Blizzard de 2015.​

Ouça o Timeline Gaúcha desta terça-feira

27 de janeiro de 2015 0

The Blizzard: Não há ninguém fora de casa

27 de janeiro de 2015 4

David Coimbra

A neve cai há mais de 24 horas na Nova Inglaterra, região formada pelos seis estados do Nordeste que fundaram os Estados Unidos. A Blizzard 2015, chamada pelos meteorologistas íntimos de “Juno”, fez um desvio em Nova York, poupando a maior cidade do país, e singrou para o Norte. Em Massachusetts, estado do qual Boston é a capital, foram registrados ventos de 126 quilômetros por hora.

Não há ninguém fora de casa. O comércio, as escolas, tudo está fechado. Os carros foram proibidos de circular. Só se veem caminhões que retiram neve do leito das ruas, carros de polícia, bombeiros e eventuais ambulâncias. Já há 40 centímetros de neve no solo. A previsão é de que chegue a um metro.

Até agora não houve falta de energia elétrica ou água, mas a Defesa Civil não para de advertir: “Quem sair à rua corre risco de vida!” Os americanos são estressados com tudo que envolve segurança.

Fiz um pequeno tour pela neve. Confira:

Dois anos da tragédia da Kiss

27 de janeiro de 2015 6

No dia em que o incêndio da Kiss completa dois anos, republico um texto que escrevi depois de ver uma das cenas mais horríveis da minha vida:

Vi uma menina em meio aos cadáveres, no ginásio de Santa Maria.

Não consigo esquecer aquela menina.

Eu estava caminhando pelos corredores de corpos das vítimas do incêndio na boate, estava angustiado com o cenário de horror. Na verdade, não sabia exatamente o que pensar nem o que sentir, e ainda estou pensando, ainda estou sentindo.

Então, avancei pelo corredor central, até onde haviam sido dispostas as mulheres, todas elas cobertas até a cintura por uma lona.

E a vi.

Ela estava deitada à direita do corredor principal, numa das fileiras frontais. Era uma moreninha de cabelos pretos e lisos que lhe escorriam até um palmo abaixo dos ombros. O que primeiro me chamou a atenção foram, exatamente, os cabelos. Pareciam estar penteados. Tinham brilho. Em seguida, olhei bem para seu rosto. Era bonita, de feições delicadas, boca e nariz pequenos. Os olhos escuros estavam semiabertos, como se ainda enxergassem ou estivessem se abrindo de um sono reparador. Era muito jovem. Quantos anos teria? Dezoito? Dezenove no máximo.

Eu ia para um lado e para outro, mas acabava voltando e olhando-a. Por algum motivo, precisava olhá-la. Pensei que parecia uma menina bem cuidada. Sim, uma menina tratada com doçura, como têm de ser tratadas as meninas. Devia ser o orgulho dos pais, a paixão dos avós. Provavelmente estudava nos semestres iniciais de alguma das faculdades de Santa Maria. Talvez Veterinária. Sim, aposto que era Veterinária, a menina devia adorar bichos.

Devia ser uma menina alegre, que iluminava os locais em que chegava. Devia estar no primeiro namorado, nos primeiros beijos, nas primeiras dores de amor. Espantoso como dela emanava serenidade. A impressão era de que logo se ergueria dali, sorridente e estremunhada do adormecer, e olharia para mim, e me cumprimentaria com leveza, e sairia daquele lugar macabro com passos de quem já foi bailarina.

Lembrei de uma história contada no Evangelho de São Marcos. Jesus chega ao velório de uma menina. Todos choram, e ele diz:

- Por que estão chorando? Ela não está morta, está apenas dormindo.

As pessoas caçoam de Jesus, mas ele se aproxima do corpo e ordena:

- Talita, cumi!

Ou seja:

- Menina, levanta!

E a menina se levantou para a vida.

Pensei que aquela menina de Santa Maria poderia se levantar para a vida naquele momento. Porque ela parecia, mesmo, viva. Tão bela, tão criança, tanto para fazer neste mundo. E aí olhei para ela e pensei: menina, levanta! E, por um momento, acreditei que ela pudesse, de fato, se levantar. Olhei, olhei, mas ela não se mexia. Como podia, aquela menina ali? Não podia. Não devia. E de novo pedi: menina, levanta! E a fitei, fixamente. Levanta, menina, pedi outra vez. Levanta. Levanta. Levanta. Levanta.

Mulheres gordas e mulheres retas

27 de janeiro de 2015 17

Um americano criou um blog listando 20 coisas que odeia no Brasil e nos brasileiros. Ele morou no Brasil e, está claro, não gostou.

Eu poderia listar 20 coisas ruins dos Estados Unidos e dos americanos, mas isso não seria inteligente. Prefiro ver o que há de bom nos Estados Unidos e nos americanos. Para sorver melhor o tempo em que vivo aqui, sim, mas também, e principalmente, por pensar no Brasil. O que há de certo no Norte que poderíamos aplicar no Sul? É o que estou sempre me perguntando. Não que minhas conclusões venham a fazer a menor diferença, mas, puxa, sou brasileiro e me interessa pelo menos especular sobre o bem do Brasil.
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Os Estados Unidos não são melhores do que o Brasil, os americanos não são melhores do que os brasileiros, mas, não há dúvida, os americanos vivem melhor do que os brasileiros. Por quê? Por vários motivos, mas um mais do que todos: os americanos, em geral, aceitam o seu acordo social. Existe um parâmetro aqui, que é o cumprimento da lei e das normas de convívio. Quando eles estão insatisfeitos com algo, como agora com o comportamento da sua polícia, eles tentam mudar a lei. Não desrespeitam a polícia nem a lei; tentam mudá-las. Quer dizer: as instituições são preservadas, ainda que sejam imperfeitas. Isso dá segurança às pessoas, porque elas sabem o que esperar do Estado e dos demais cidadãos.
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Vejo isso de bom nos Estados Unidos, entre outras qualidades. Pena que o americano do tal blog não tenha enxergado pelo menos uma característica do povo brasileiro que o torna distinto de todos os outros povos do mundo: no Brasil, a despeito da fragilidade do nosso acordo social e da insegurança das nossas normas de convívio, as pessoas são naturalmente tolerantes. Não que o Brasileiro seja cordial. Não é. É tolerante.
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A respeito do brasileiro cordial, aliás, essa afirmação de Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico, “Raízes do Brasil”, foi mal interpretada. Buarque de Holanda não fazia um elogio ao brasileiro; na verdade, quase fazia uma crítica. A cordialidade, no caso, vinha do sentido etimológico da palavra: vinha do coração. Só que essa cordialidade no âmbito pessoal é um predicado: é a tolerância de que falo. Na esfera pública é um defeito: é a permissividade dos nossos governantes e o comportamento individualista do povo, o que horrorizou o americano esse.

Mas o americano não viu, e muitos brasileiros não veem, que a nossa sociedade aceita as diferenças sem precisar de doutrinações. Repare nos casos da gordinha de Canguçu, que desfilou na passarela do Garota Verão, e da Fernanda Gentil, que não tem bunda, ou está sem bunda, e entrou num biquíni e foi à praia no Rio. Quando um site escreveu, grosseiramente, que a Fernanda Genil “é reta”, o Brasil se levantou em sua defesa. Quando a gordinha de Canguçu pisou na passarela, o público se levantou para aplaudi-la e ovacioná-la. Melhor ainda: tanto Fernanda Gentil quanto a gordinha reagiram com bom humor aos eventuais comentários de mau gosto sobre seus corpos. Nenhuma das duas tremulou bandeiras, nenhuma das duas deu discurso, se revoltou ou bradou contra o preconceito da sociedade, blablablá. Uma lição de tolerância de ambas e da sociedade em geral. Tudo muito natural. Tudo muito bonito. Tudo muito brasileiro.​

Ouça o Timeline Gaúcha desta segunda-feira

26 de janeiro de 2015 0

Panquecas para Gisele Bündchen

26 de janeiro de 2015 15

Aqui em casa quem cozinha sou eu. A Marcinha às vezes faz um macarrão e tal, mas é raro. O verdadeiro rei das caçarolas e das frigideiras é esse que vos escreve.
Sou um cozinheiro de comidas simples. Lembra da minha receita de tortilla de Rufles?
Pois é.
Ultimamente, tenho me especializado em panquecas. Preparo-as basicamente em três modalidades:
1. Com molho vermelho com carne moída, que supera o molho do cachorro-quente do Rosário;
2. Com a tradicional dupla Queijo & Presunto;
3. Com banana frita salpicada de canela.
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Uma manhã de sábado, estava começando a primeira de várias panquecas e a Marcinha veio com uma foto que a Gisele Bündchen postou em alguma rede social. Era o marido dela, o Tom Brady, fazendo, exatamente, panquecas. A legenda dizia algo como: “Tom Brady, the Pancakeman”.
Ora, ora. Duvido que as panquecas de Tom sejam melhores do que as minhas. Somos vizinhos, eles moram aqui perto. Um dia, vou bater lá casa de Gi e desafiar Tom para um concurso de panquecas. Eles vão ver quem é o Pancakeman.
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Suspeito de que a intenção de Tom, ao cozinhar para sua família, seja a mesma que a minha: praticar uma ação de amor. Partilhar refeições já é um ato de congraçamento; cozinhar, muito mais. As pessoas evitam sentar à mesma mesa com quem acham desagradável, alegando que isso lhes faz mal. E faz mesmo. O que você come é absorvido pelo seu corpo, se transforma em parte de você. Você não vai querer que parte de você seja também parte de quem você não gosta.
Jesus valeu-se muito disso em suas pregações. Ele partilhava refeições com as pessoas e assim se aproximava mais delas. Não por acaso, a comunhão é feita através de uma refeição simbólica. Dividir refeições une as pessoas.
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Certa feita li um conto de Michael Downs em que a protagonista é uma cozinheira de presídio. Ela acredita que as pessoas se tornam mais respeitáveis quando diante de uma refeição requintada, e tenta provar essa tese preparando pratos delicados para os presos embrutecidos. Então, chega o momento em que ela descobre que terá de cozinhar a última refeição de um condenado à morte. A cozinheira se informa sobre o que o homem fez, e o que ele fez foram coisas terríveis. O tempo vai passando, o dia da execução se aproxima, e a cozinheira descobre mais e mais crimes abjetos do sentenciado. Ela passa a sentir ódio dele. Na hora de preparar-lhe a derradeira refeição…
Não vou contar o final e estragar o seu prazer de ler o conto. O que interessa é que me lembrei dessa história no dia em que eu e Tom preparávamos panquecas para as pessoas que amamos. Nesse mesmo dia, aquele brasileiro sentenciado à morte comeu sua última refeição na Indonésia. Li que uma tia levou-lhe doce de leite do Brasil. Terá ela feito o doce de leite com suas próprias mãos? O que sente alguém que prepara a última refeição de um homem que vai morrer? Pena de morte não é dramática só para o condenado. Pena de morte muda a alma de um país. Não, não, pena de morte não combina com o Brasil.​

Túnel do Tempo: Uma conversa com os meninos surdos

25 de janeiro de 2015 2

Vou contar algo que aconteceu comigo esta semana, quando fui dar uma palestra para crianças surdas. Eram os alunos da Frei Pacífico, uma escola para surdos que fica nos altos do bairro Santo Antônio. Como entre as minhas incontáveis ignorâncias está a de não saber a língua dos sinais, a Libras, precisei da professora, a Andréia Didó, como intérprete.

Fiquei emocionado ao conhecer os alunos. Eles leram alguns dos meus livros, ou a professora leu para eles, e fizeram trabalhos a respeito. Descobri que surdos desenham muito bem e que são observadores sagazes. Em breves minutos, eles analisam uma pessoa, tiram conclusões sobre ela e criam um sinal para designá-la. Gostei do sinal que me designava.

Há algo sobre os surdos que a maioria dos ouvintes não sabe: é terrivelmente difícil, para um surdo, aprender a ler e a escrever. Porque a nossa escrita é fonética, cada letra representa um som. Aliás, outro dia disse isso para o meu filho, e ele:

– Todas as letras são sons, papai? Todas?

– Sim. Todas.

– E o agá?

Sacaninha.

Mas a verdade é que as letras representam, sim, sons, mesmo que o agá seja como o arroz e só sirva para combinações. Assim, os surdos precisam atravessar obstáculos do tamanho de cordilheiras para aprender a ler, e o trabalho de professoras como a Andréia é heroico. Tentei incentivá-los garantindo que, se aprendessem a ler e a escrever com fluência, eles desbravariam mundos novos, mas logo percebi que, ali, eu talvez tivesse mais a aprender do que a ensinar.

Descobri, por exemplo, o quanto o preconceito os amassa a cada dia. Um menino bom de bola desistiu de ser jogador de futebol porque não conseguia entender o treinador, nem ouvir o apito do juiz. Uma menina pediu para uma senhora lhe indicar as horas no relógio, na parada de ônibus, e foi enxotada como se a estivesse assaltando. Outra confessou sentir profunda vergonha quando os ouvintes ficam olhando com intensidade para os surdos que conversam por sinais.

E, finalmente, havia aquele menino. Um garotinho muito inteligente, muito vivaz, muito participativo. Estava instalado na primeira fila, fazia perguntas e, quando soube que eu ia falar de pé, fez questão de pegar a cadeira que fora reservada para mim, só porque era onde deveria sentar-me. Gostei de imediato daquele menino tão espirituoso.

No final do encontro, ao ser acompanhado pela professora pelo pátio da escola, fiz algumas perguntas sobre ele. Soube, então, que o menino é portador de uma síndrome e que está ficando cego. A missão da professora é ensinar-lhe o quanto antes a linguagem dos sinais e o alfabeto, para que ele possa reconhecê-los pelo tato. Cego, surdo e, por consequência, mudo. Meu Deus. Pensei nas minhas aflições, e senti vergonha. Na saída, com o coração apertado, insisti:

– Mas a cegueira é irreversível? Não tem cura?

Não há nada que se possa fazer?

– Não tem…– disse a professora. – A família já tentou tudo.

Ela abriu o portão e eu o cruzei. Da calçada, fiz uma última pergunta:

– Como ele é no dia a dia?

A professora sorriu e deu a última resposta:

– É um menino muito feliz.

Fui embora, deixando, ao pé do portão de ferro, um pedaço de mim.

*Texto publicado em 2/11/2012

Um pedido para a deputada das medalhas

24 de janeiro de 2015 153

Não é verdade que a deputada Marisa Formolo, do PT, homenageou 21 parentes na Assembleia Legislativa. Nada disso. Foi VOCÊ quem homenageou os 21 parentes da deputada, o marido dela, seus filhos e netos, todos aqueles cunhados, mais um genro e, o que mais me surpreende, uma nora – as mulheres em geral não se dão bem com as noras.
Sim, foi VOCÊ e, glup, eu também, porque a Assembleia Legislativa representa o povo do Rio Grande do Sul. Nós é que pagamos aquelas medalhas que os Formolo ostentarão com orgulho cívico na galinhada de domingo. Espero que ninguém deixe a medalha que nós demos cair na sopa de capeletti.
A deputada disse que tomou essa iniciativa para valorizar a família. Achei bonito. Tanto que venho aqui, como contribuinte e cidadão, fazer uma solicitação à parlamentar. É o seguinte:
Dona Marisa, gostaria, por favor, que o povo do Rio Grande do Sul desse uma medalha para a minha mãe.
Dona Diva, o nome dela. A minha mãe, digo.
Veja, deputada: minha mãe era professora da rede estadual de ensino. Só por isso ela merecia ser homenageada. Ensinou as criancinhas por anos e anos e anos. Eu mesmo testemunhei galalaus se aproximando emocionados dela e balbuciando, como se ainda fossem meninotes:
_ Profe… A senhora me ensinou a tabuada…
Mas, depois de se desquitar, minha mãe não conseguiu sustentar os três filhos com o salário pago pelo mesmo Estado que paga o seu salário, deputada. Assim, ela foi ser vendedora de livros da Abril Cultural. Trabalhava sábados, domingos e, desta forma, os três filhos conseguiram fazer faculdade, sonho de toda família descendente de imigrantes.
Verdade que a minha mãe nunca foi do PT. Reconheço que isso pesa contra a concessão da homenagem. Ser do PT é legal porque você pode fazer o que quiser, mentir na campanha, montar caixa dois, tomar algum da Petrobrás, tudo, e continuará com a imagem de defensor dos oprimidos. Você pode até ser preso, que entrará no presídio de punho cerrado, vitorioso, uma vítima dos poderosos. É lindo ser do PT.
Li também que seu irmão foi agraciado com a maior honraria do Estado porque foi presidente de sindicato. Droga. Minha mãe nunca foi presidente de sindicato. Não dava tempo! Ela tinha de trabalhar para pagar as prestações do BNH, as contas da casa, os livros que a escola pedia todo começo de ano, essas coisas que as pessoas que não têm medalha pagam.
Por fim, fiquei sabendo que a senhora é autora do projeto de lei que institui a Política Estadual de Apoio ao Bambu, no que, evidentemente, teve o respaldo e o incentivo de toda a sua prolífica e engalanada família. Maldição! Que eu saiba, minha mãe nunca deu muita bola para o bambu.
É… pensando bem, deixa a minha mãe sem homenagem mesmo. Vou ter que avisar para a Dona Diva que o almoço de domingo vai ser sem medalha.​