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Posts de fevereiro 2015

Uma casa de madeira

28 de fevereiro de 2015 27

Ainda vou ter uma casa de madeira. Não um casarão, um sobrado: uma casinha de piso único, com sótão e porão, um pequeno jardim na frente e um corredor ao lado, que leve para o pátio nos fundos. É óbvio que nesse pátio vai haver um cachorro grande, de preferência um pastor alemão, que vou chamar de Kaiser. O Kaiser será um cachorro manso, mas imponente e disposto a mostrar os dentes de navalha para defender o dono, se necessário.

Falando em necessidades, é necessário que ao menos uma galinha cisque pelo quintal, para que ouça seu cacarejar durante as tardes. Uma tarde de sol, uma rede, um livro e, ao longe, o som da corneta do sorveteiro. Penso nisso e já sinto a preguiça morna a me amolentar os ombros.

Os sorveteiros ainda sopram suas cornetas nas tardes de verão? Se soprarem, darei uma nota amarrotada de 10 reais que tenho no bolso para meu filho comprar um de tangerina para mim e um de uva para ele. Será que a Marcinha vai querer também? Se quiser, será Chicabon. Será que 10 reais ainda compram três picolés?

Talvez monte uma biblioteca num puxadinho atrás da casa, para lá ficar escrevendo, lendo e conversando com os amigos. Talvez faça um canteiro em que plante tomates e limões. Eu tinha um canteiro quando morava no Parque Minuano, na zona norte profunda de Porto Alegre. Minha mãe dizia que tenho mão boa para plantar. Ah, e talvez, nos dias amenos das primaveras e dos outonos, possa tomar café sob a sombra da parreira do quintal.

Há uma coisa que quero muito fazer, na minha casa de madeira: tirar a sesta. Meia hora depois do almoço, não mais. Vou deixar o rádio ligado na Gaúcha, para ouvir o Sala de Redação bem baixinho. Lembro que meu avô fazia isso. Eram o Foguinho, o Cid Pinheiro Cabral e o Cândido Norberto que falavam no Sala, naquele tempo, e eu gostava quando o Foguinho analisava um jogador pela foto que saíra no jornal.

O cômodo mais importante de uma casa de madeira é a cozinha. Tem de ser espaçosa, aberta como as cozinhas dos americanos, e precisa estar sempre em atividade. Numa cozinha de casa de madeira, assam-se pães e bolos. O cheiro de pão saído do forno e de café quente há de se espalhar pela minha casa de madeira e fazer a gente suspirar de leve. Então, nos reuniremos em torno da mesa, sorriremos um para o outro e veremos a manteiga derretendo na fatia de pão recém-cortada.

Não preciso de Porsches que encantam juízes de Direito. Não. Um cachorro no quintal, o cheiro de pão quente e sorrisos de afeto, é só do que preciso. Um dia, ainda junto tudo isso na minha casa de madeira.

De onde vêm os novos jogadores

27 de fevereiro de 2015 8

A direção do Grêmio foi buscar seus reforços no Uruguai.
Um está 99% certo.

Grêmio anunciará contratações

27 de fevereiro de 2015 12

Nas próximas horas a direção do Grêmio revelará os nomes de dois novos jogadores que serão contratados:
um centroavante
e
um meia-atacante.

No Brasil tem pastel

27 de fevereiro de 2015 14

Acho que não existe pastel nos Estados Unidos. Isso me deixa um pouco triste. Viver num país sem pastel.

É verdade que, mesmo sob o sol do Brasil, é difícil encontrar um bom pastel. Ou eles são muito secos ou muito oleosos ou têm pouco recheio ou o recheio é simplesmente ruim. Por isso, evito comer pastel em bares e assemelhados.

Falando em assemelhados, aí está algo intrigante: o que é um assemelhado? Um lugar que é quase um bar, mas ainda não chegou lá? Nunca ouvi alguém dizer: “Estou indo ali no assemelhado da esquina, tomar uma gelada”. Eu, se tivesse um bar, colocaria o nome de Bar Assemelhado.

Mas voltemos ao nosso pastel. Os melhores pastéis são os que a minha mãe faz, mas comida de mãe não conta – comida de mãe sempre é a melhor do mundo.

No antigo refeitório da Zero Hora, quando tinha pastel, dava-se uma comoção. Lembro que o antigo editor de dupla Gre-Nal, o Renato Bertuol Barros, comia sete pastéis num único prato, junto com arroz e feijão, o que é uma combinação deliciosa.

Sete pastéis…

Uma vez, eu e meu amigo Chico Camboim estávamos em São Paulo, em deslocamento para o Rio. Íamos de ônibus, que os tempos eram de muita alegria e pouco dinheiro. Paramos num assemelhado vulgar, no mais vulgar dos endereços: na frente da rodoviária. O dono era um japonês. Japoneses são especialistas em pastel, então tive a inspiração:

– Que tal dois pastéis de carne e uma geladinha, Chico?

O Chico topou e, cinco minutos depois, lá estava aquele pastel fumegante na minha frente, um pastel inesquecível, o melhor que já provei em qualquer bar ou assemelhado, e só não diria que foi um pastel inefável porque seria exagero, em se tratando de um humilde pastel de japonês paulista.

O certo é que nós nos repimpamos com nossos pastéis e pedimos outros e a cerveja estava geladíssima, como jamais se encontra no lado de cima do Equador.

Era um rasteiro bar de japonês em frente à rodoviária, nós só tínhamos umas poucas notas amassadas nos bolsos, mas comíamos com gosto, comíamos rindo um para o outro, e eram risos de amizade e brindávamos com nossos copos de cerveja gelada e ríamos de novo, felizes com um pastel, apenas com um pastel, e com a vida. Ah, os americanos podem ter tudo o que o dinheiro compra, mas eles não têm pastel.

Som de Sexta

27 de fevereiro de 2015 1

Essa é a melhor versão desse clássico que todos os boêmios do Brasil um dia já cantaram numa mesa de bar. Maria Creuza está imbatível e o arranjo é maravilhoso:

Cuidado: o PT quer defender a Petrobras

26 de fevereiro de 2015 123

Os petistas estão quase me convencendo de que a Petrobras tem de ser privatizada. Eu era figadal, intestinal e cerebralmente contra a privatização, mas eles estão me abrindo os olhos. Imagine você, estupefato leitor, que um grupo de petistas botou camisas vermelhas e saiu por aí, gritando “em defesa” da Petrobras. Mas como? Os petistas defendendo a Petrobras? Contra quem?

Juro que fiquei confuso e, quando fico confuso, apelo para a matemática. Faço uma espécie de teorema para tentar entender o assunto. Então, vamos lá. Temos um problema a resolver, resumido na seguinte pergunta: contra quem a Petrobras deve ser defendida? Os dados concretos:

1. A Petrobras está sendo mesmo roubada. Isso está provado de sobejo.

2. A revelação do roubo prejudicou a empresa, o valor de suas ações despencou e ela está sendo olhada com desconfiança por investidores. Isso também é fato.

3. Conclusão: a Petrobras precisa realmente de defesa.

Com o que, voltamos à questão original: quem são os responsáveis? Talvez o roubo venha desde a década de 50, quando Getúlio Vargas discursava no São Januário e dizia que o petróleo era nosso. Talvez tenha havido roubo quando Ernesto Geisel foi presidente da Petrobras, quando Shigeaki Ueki anunciou a descoberta de petróleo no mar do Rio de Janeiro, quando Sarney, Collor e Fernando Henrique foram presidentes da República. Talvez. Se esse roubo pretérito for comprovado, que sejam manchadas as memórias dos ditadores Vargas e Geisel e que sejam punidos os vivos.

Só que há mais de 12 anos a Petrobras está sendo controlada por governantes do PT. E são 12 anos de roubo comprovado. E as investigações apontam que, nesses 12 anos, o roubo foi sistematizado, tornou-se um roubo orgânico e metódico.

Doze anos… Transforme esse tempo em bilhões de dólares, tente imaginar o tamanho do que foi subtraído do país e se assombre.

Doze anos… Vamos acreditar que nenhum petista tenha posto a mão em qualquer centavo sujo nesse tempo todo. Vamos acreditar que a corrupção não serviu ao projeto de eternização no poder do PT. Sejamos crédulos: os outros roubaram; eles, não. Mas, em 12 anos, eles não viram nada? Eles estavam no comando da Petrobras, e não perceberam nem um único bilhãozinho sendo desviado? Neste caso, o PT foi de uma incompetência retumbante, coisa nunca vista na história da administração pública mundial.

Pensando nessa óbvia, clara e corrosiva incompetência, não em desonestidade ainda não julgada, concluo que os petistas não têm moral para sair à rua em defesa da Petrobras. Os petistas dizem que algo tem de ser feito com a Petrobras? Faça-se o contrário. Petistas gritam que a Petrobras não pode ser privatizada? Opa! Aí está uma forte indicação de que a Petrobras talvez tenha de ser privatizada. Porque a Petrobras tem de ser defendida, sim. Defendida de quem a rouba e de quem a comanda e não vê quem a rouba. Defendida do PT.

 

Ouça o Timeline Gaúcha desta quarta-feira

25 de fevereiro de 2015 0

Com o carro do Eike

25 de fevereiro de 2015 9

Do meu amigo Gilberto Jasper:

Não há nenhuma irregularidade nesta história do juiz flagrado com o Porsche do Eike, pois todo mundo sabe que é dever do juiz conduzir os autos do processo.

Ser pouco adulto

25 de fevereiro de 2015 7

Olhei para o monte de neve e, mesmo com um guarda me observando, resolvi: vou me atirar. É que… bem, você precisa entender como é isso da neve. Eu não entendia, até passar um inverno no nordeste americano. Imagine que, desde dezembro, as temperaturas estão abaixo de zero. Há dias em que faz 20 graus negativos. Então, se a neve cai durante a noite, ela não vai embora de manhã. Quer dizer: não derrete ao sol. Fica de pé nas calçadas, debruçada sobre os telhados, equilibrada nos galhos nus das árvores. E no novo dia neva de novo e a neve que cai se acumula sobre a neve que havia caído. Os funcionários da prefeitura passam as madrugadas trabalhando para liberar as ruas, empurram a neve com máquinas modernas e pás rústicas, até que, no meio-fio, aqueles morros de creme branco alcançam a altura de um homem.

Era para um desses morros que olhávamos, eu, o guarda e uma mulher que passeava com um cachorro. A presença deles me intimidou um pouco. Devia me atirar? Sempre tive vontade de fazer isso. Deve ser uma delícia. Vi um bostoniano realizando esse desejo num vídeo, só que ele quis se exibir: vestia apenas calção. Saiu de casa correndo, usou o alpendre como trampolim, deu uma ponta na neve, sumiu e reapareceu metros à frente. Voltou gritando e rindo. Era, óbvio, um desafio.

Eu não pretendia cumprir desafio algum, queria tão somente satisfazer uma vontade meio infantil. Não ia tirar a roupa, até porque o policial, a mulher e o cachorro me olhavam. Ao contrário, estava bem paramentado, com luvas, gorro, cuecão e botas adequadas. Essas botas daqui são especiais. Chamam-se “Ug”, que vem de “ugly”, “feio”. São feias, mas quentes e impermeáveis. Nem as mulheres mais vaidosas deixam de usá-las devido à aparência. Com minhas botas feias e minhas roupas de esquiador, podia me atirar na neve, que não sentiria frio, pensei.

Mas será que o policial não ia me censurar? Aqui a polícia xinga mesmo. Cogitava a respeito, quando passou uma máquina de remoção de neve. Trata-se de um aparelho admirável. Vai afastando a neve para os lados e esparramando sal na rua. Eles têm vários equipamentos assim. No aeroporto, retroescavadeiras retiram a neve da pista e jogam-na numa máquina que a faz derreter. A água escorre por um ralo no chão. A prefeitura foi proibida de despejar essa água no mar, porque, depois do derretimento, ela fica cheia de sal e areia. Não entendi. Afinal, o mar tem sal e areia, mas eles dizem que polui e pronto, ninguém discute.

Bem, mas devia me atirar? Hesitei. Parecia que o guarda realmente me observava, e a mulher e o cachorro também. Estariam adivinhando minha intenção? Seria algo muito terceiro-mundista me jogar na neve? Seria algo pouco adulto? Não, não devia me atirar, definitivamente não, claro que não, seria um absurdo, pensei, e, enquanto pensava, girei e me atirei de costas na cama de neve e, blof, afundei até os ombros e ri e me ergui rindo e olhei para o guarda e ele ria e a mulher ria e acho que até o cachorro ria. Rindo, voltei para casa. É divertido ser pouco adulto.

Os perigos do fio-terra

24 de fevereiro de 2015 4

Esse texto foi escrito pelo meu amigo Nei Manique, de Criciúma. Gostei quando o li que pedi para transcrevê-lo:

Resolvi, após uma década, religar um velho rádio e para isso tive que comprar uma fonte. Na real, um adaptador 220 / 12 volts. Na hora de conectar, problema: onde, diabos, foram parar aqueles fios vermelho (positivo) e preto (negativo)?
Um dos fios da nova fonte era preto e o outro também, mas com uma faixa branca exígua que lhe emprestava um tom de cinza. Grunff!
A modernidade tecnológica, também ela, parece ter estreitado as diferenças, sucumbido aos preceitos politicamente corretos.
Então, recordei. Fio preto sempre foi negativo. Ou “fio terra”, para traduzir a bipolaridade elétrica a um leigo.
Na dúvida, fiz o que 99% das pessoas sem qualquer conhecimento a respeito do que quer que seja fazem: joguei no Google!
Digitei “fio terra”. Apareceram 20 sites explicando às mulheres como enfiar um dedo no ânus de um homem. Nenhum dos sites cogitava sequer o uso de um vibrador cujos fios poderiam ter esta ou aquela cor.
Help zero, enfim!
Refinei a busca: como diferenciar fio terra do fio positivo?
Agora, sim: apareceram 12 sites com dicas no campo da eletricidade. E oito sites refinando a dedada no c*!
Um dos fóruns que acessei matou a pau. “Lembre-se”, diz o editor, “que o fio preto é sempre negativo”. Pronto! Fim das buscas. Liguei a fonte ao rádio. Funcionou.
Só não imaginava o quanto uma perguntinha banal jogada no Google poderia resultar em tantas respostas idiotas (“encoste o dedo; se levar choque, é positivo”),
comentários (“meu noivo repeliu, depois aceitou e agora pede três dedos; ele é gay?”),
dicas (“experimente óleo de amêndoa”)
e finalmente uma solução.
Vivemos a Era dos Algoritmos, eu sei. E você sabe disso tanto quanto eu. Não que eles interpretem nossos sonhos ou desejos. Mas… na dúvida, refina-se antes.
E só depois, bem depois, pergunte.

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24 de fevereiro de 2015 0

As brasileiras nuas

24 de fevereiro de 2015 11

Há coisas que só o Brasil tem. Olhando assim de longe é que a gente percebe. No quesito, digamos, moralidade sexual, o Brasil é muito mais relaxado do que qualquer outro lugar do planeta. O Carnaval mostra isso com fartura. As mulheres desfilam praticamente nuas, algumas só com aquele tapa-sexo pequeninho, umas nem isso. A Mulata Globeleza passa todo o verão sambando nuinha na telinha, da manhã à noite, inclusive em meio à Sessão da Tarde. E, tomando a TV aberta como medida do senso comum, veem-se, durante a programação diária, com serena naturalidade, travestis variados e todos os tipos de casais homossexuais.

Como é que pode alguém reclamar de repressão sexual no Brasil?

Não estou dizendo que isso é bom ou ruim, estou fazendo uma constatação. Talvez seja prova até de certa evolução brasileira, produto da nossa suave miscigenação, da cordialidade com que encaramos as relações sociais, como já identificou o Sérgio Buarque de Holanda. Talvez.

O fato é que somos diferentes. Na Alemanha, vi mulheres completamente nuas tomando sol nos parques públicos. Mas é uma nudez anódina, você olha para aquelas mulheres e vê apenas um corpo humano, conjunto de cabeça, tronco e membros, só que sem roupa. Poderia ser um cadáver. A nudez das brasileiras, não. Na avenida, em cima de um carro alegórico, elas estão rebolando sobre saltos de 15 centímetros de altura, faiscantes de cores, ataviadas com penas como se fossem grandes pássaros, a sensualidade exsudante.

Isso se vê nas ruas. Quando você está no Exterior, reconhece uma brasileira até pelo jeito de andar. A feminilidade da brasileira é coruscante, perto de uma anglo-saxã.

Ao mesmo tempo, a nossa flexibilidade moral explica o crescimento da onda moralizante no país. Não é à toa que a bancada evangélica no Congresso é a maior da história. O Brasil é um país violento, em que mais de 100 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito ou assassinadas a cada ano, é um país em que a corrupção das autoridades explode todos os dias, é um país em que a falta de planejamento leva a crises de água e de energia elétrica, é um país com saúde, educação e transporte precários. Misture a essa paisagem tensa as imagens de inédita liberdade sexual na TV e o resultado são mentes confusas, tudo parece Sodoma, Gomorra e Chicago dos anos 30.

O povo brasileiro está clamando por disciplina e é nessa hora que surgem os falsos profetas, os aproveitadores, os salvadores da pátria. À direita ou à esquerda, entre Marcos Felicianos e Jeans Wyllys, só o que se encontra é o confronto. Tudo é emocional, tudo se transforma em bandeira. Poucos perigos são maiores do que viver num tempo sem ponderação.

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23 de fevereiro de 2015 0

Todos somos Tio Patinhas

23 de fevereiro de 2015 30

O que é que aconteceu com o Tio Patinhas, afinal?

Fugimos da era do gelo na Nova Inglaterra e descemos até a florida Flórida, levamos o B à Disney e sobre o que vimos e vivemos tenho muito a contar, mas, por ora, o que me intriga é essa inquietante pergunta. Pois, acredite, Tio Patinhas sumiu. Imagine que, em pleno mundo da Disney, não se encontra traço dele em lugar algum. Para ser mais preciso, em uma semana, deparei com uma única ilustração em que ele figurava, e ainda assim como coadjuvante. Um mistério.

O meu filho, que tem sete anos, nunca ouviu falar em Tio Patinhas. Nem a Sophia, filha do meu amigo Degô, que tem a mesma idade e estava junto conosco. Baniram o Tio Patinhas? É isso? Por quê? Porque ele é quaquilionário? Porque é propagandista do capitalismo, algo assim? Os petistas não gostam do Tio Patinhas? Mas estamos nos Estados Unidos, aqui não há petistas. Os democratas não gostam do Tio Patinhas? Ei, Obama, o que vocês fizeram com o Tio Patinhas?

Eu gostava do Tio Patinhas. Ele era o pato mais humano dos quadrinhos. Amava o seu dinheiro aparentemente acima de tudo, era sovina e inescrupuloso, não raro explorava o Pato Donald e seus três sobrinhos, mas, de repente, se arrependia, sentia remorsos e se tornava de súbito generoso, para logo depois retomar o velho egoísmo. Era verossímil, o Tio Patinhas. E agora se foi. Ou o levaram embora. Digam-me, por favor, o que foi feito do Tio Patinhas.

Suspeito de que o expurgo do Tio Patinhas tenha algo a ver com a burrice dos nossos tempos politicamente corretos. O Tio Patinhas seria um símbolo do culto americano à riqueza e ao sucesso, o que é muito criticado por… americanos.

Aí está algo que quem olha de fora, em qualquer circunstância, tem dificuldade de ver: todas as pessoas são muitas pessoas dentro de uma só, todas as nações são muitas nações dentro de uma só, com certas características marcantes que podem levar à construção de estereótipos. E a injustiças.

O que são os Estados Unidos?
O que é o Brasil?
Quem é você?

Não há respostas simples para tais perguntas, mas é certo que ações são mais eloquentes do que sentimentos.

Como você trata os outros? Você os respeita? Isso diz muito de quem você realmente é.

Como um país trata os seus cidadãos? Onde as pessoas vivem melhor? Isso diz muito do que é de fato uma nação.

Em que países do mundo as pessoas vivem com mais liberdade e segurança, dois conceitos quase opostos entre si? Em que países os direitos humanos são mais respeitados? Onde existem mais garantias de igualdade de gênero, raça e orientação sexual?

Dá para listar esses lugares. Estados Unidos e Canadá. Austrália e Nova Zelândia. Japão e Coreia do Sul. Israel. E mais os países da Europa Ocidental. Ficamos por aí.

O que essas nações têm em comum? São todas democracias capitalistas fortemente guiadas pelo respeito à lei e às instituições.

Assim, vejo que o Brasil está no caminho certo. Com perigos à frente e muito ainda a percorrer, mas, pelo menos, no caminho certo.

 

Ideias que matam – como ser breve

21 de fevereiro de 2015 24

Sei que você está mais interessado em saber quem será o novo centroavante do Grêmio ou nas ideias do técnico do Inter do que no destino de velhos cartagineses, por isso serei mais breve do que o rei Pepino, o Breve, que era breve mesmo, porque era baixinho, mas que não era pepino, era Pépin, e pépin, em francês, significa “semente”, e não “pepino”, que é “concombre”, então o breve do Pepino não é um mistério da história, mas o pepino do breve, sim.

Droga. Não estou sendo breve. Então, o serei e direi que, depois de toda a humilhação, os cartagineses decidiram enfrentar os romanos, se acantonaram e resistiram a um cerco de três anos. Quando os romanos por fim invadiram a cidade, foram implacáveis: passaram os homens no fio da espada, escravizaram mulheres e crianças e salgaram a terra para que lá belos e luzidios figos nunca mais nascessem. Cartago foi destruída, como queria Catão.

Por quê?

Não por ideologia. Não por religião.

Pelo poder.

Sem Cartago como rival, os romanos podiam submeter os outros povos, e os outros povos, depois de submetidos, se apaziguavam. Porque os romanos, em geral, não mexiam nos estamentos das sociedades que conquistavam. A situação dos pobres não piorava e a das elites quase sempre melhorava. Ficava tudo igual a sempre. Ou desigual como sempre. Mas, como já disse, um pouco de desigualdade não incomoda tanto.

Os povos só se tornavam insubmissos quando os romanos se comportavam mal, como na Bretanha. Os romanos não gostavam de morar naquela ilha chuvosa e fria, sobretudo porque naquele tempo não havia Beatles nem Rolling Stones, acabavam se irritando com os hábitos dos bretões e, sentindo-se distantes da autoridade do césar, cometiam arbitrariedades contra a população. Foi esse o germinal de várias revoltas britânicas. Numa delas, os rebelados destruíram uma colônia, que não era exatamente a colônia que você conhece. “Colônia” era como os romanos chamavam os assentamentos de soldados aposentados em terras conquistadas. Depois é que a palavra colônia ganhou acepção civil e virou sinônimo de lindos lugarejos na serra gaúcha.

Pois os bretões acabaram com essa colônia e mataram vários soldados e suas famílias. Houve também uma inédita revolta liderada por uma mulher, Boadiceia, história espetacular que não vou contar agora, porque prometi ser breve como o rei Pepino. Agora, o que quero dizer é que os homens continuaram matando e morrendo por poder, até que, primeiro com o monoteísmo e bem depois com a Revolução Francesa, passaram a matar e morrer por deuses e ideias. Pela religião e pela ideologia.

As religiões matam por causa do prefixo “mono”: porque o monoteísmo, como a monogamia, exige o monopólio da devoção. Os vários deuses da Antiguidade conviviam harmonicamente uns com os outros, mais ou menos como convivem hoje os 10 mil santos do catolicismo, esse politeísmo envergonhado. Só que um deus do monoteísmo não é sociável: Ele exige exclusividade.

As ideologias, essas sempre mataram. As mais assassinas foram o nazismo e o comunismo, verdugos de milhões. Já o capitalismo não é ideologia. Não é uma ideia. O capitalismo não tem dogmas. O capitalismo é um sistema econômico que aceita qualquer ideia, até o comunismo chinês. O capitalismo se molda à doutrina que se apresentar, se adapta ao regime que for imposto e, por fim, se acomoda para que a vida siga seu curso, exatamente como faz o povo. O povo tenta sobreviver e se adequar às exigências dos que estão no poder. Não muito mais do que isso.

Alemães não são austeros, gregos não são perdulários, americanos não são liberais, franceses não são esquerdistas. Podem até ser tudo isso como indivíduos, não como povo. Como povo, eles, e todos nós, somos como qualquer povo: só queremos viver bem. E morrer em paz. Fim.