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Posts de março 2015

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31 de março de 2015 0

Eu queria ser negro

31 de março de 2015 6

Eu não queria ser negro. Deve ser difícil, e a vida já é repleta de dificuldades. Mesmo assim, gostaria de escrever A História dos Povos Negros. Seria esse o título do meu livro.

Será que os negros criticariam o livro devido ao fato de o autor ser branco? No Brasil, talvez não. Mario Filho escreveu O Negro no Futebol Brasileiro, um clássico, um dos melhores livros já escritos sobre futebol, sobre negros ou sobre qualquer outra coisa no Brasil, e Mario Filho era branco.

Verdade que os tempos são outros, as suscetibilidades aumentaram, alguém por certo ia reclamar. Deveria escrever?

Se escrevesse, não usaria o termo “afro-americano”. Não gosto, embora reconheça a boa intenção de quem o criou. O inventor do “afro-americano” pensou: não vamos identificar essa pessoa pela cor da pele, e sim por sua origem geográfica. Só que uma pessoa de ascendência egípcia que vivesse nos Estados Unidos ou no Brasil não seria chamada de afro-americana. Seria brasileira ou americana, simplesmente. E o Egito é africano há pelo menos 7 mil anos.

Assim, o “afro-americano”, de alguma forma, acentua o preconceito contra o negro. Porque você está chamando o cara de afro-americano exatamente porque ele é negro, não porque seus avós vieram da África.

Alguém dirá que todos os negros vieram da África. Certo. Só que todos os Homo sapiens vieram da África. Ou seja: todos nós viemos da África, todos somos um pouco negros, até a Scarlett Johansson. Até eu. O que me incentiva a escrever o livro.
O importante é que o negro não foi escravizado por ser africano, e sim por ser negro. Povos árabes africanos, inclusive, escravizavam os negros antes de os europeus o fazerem. E, na África do Sul, os brancos africanos impunham o Apartheid aos negros africanos. Quer dizer: africanos que não eram negros escravizavam africanos negros.

Logo, foi a negritude que justificou a escravização desses homens.
Tente entender este que é o maior drama da história humana: um homem é arrancado à força da sua terra e da sua família e é levado para outro continente, onde passará o resto da vida trabalhando como escravo. Isso aconteceu porque sua pele tem a cor negra.

Nesse lugar, há pessoas de várias outras partes do mundo, de várias outras cores de pele, mas essas pessoas estão ali por vontade própria. Os imigrantes ocidentais ou orientais vieram “fazer a América”. Ou conquistá-la. Ou apenas explorá-la. Ou fugir de alguma perseguição. De um jeito ou de outro, vieram porque quiseram. Os negros, não. Os negros vieram agrilhoados em porões de navios. Os negros, portanto, são estrangeiros.

Aí está a maior tragédia. E eu, que não sou negro, ouso afirmar que esse sentimento é maior nos Estados Unidos do que no Brasil. Esse sentimento de não pertencimento, essa exclusão. Não é à toa que os negros americanos se chamam de irmãos.

Esse pensamento me faz admirar ainda mais Barack Obama. A elegante autoridade desse homem. A maneira como ele caminha e se expressa. E seu desempenho como presidente dos Estados Unidos. Todos esses fatores reunidos, aliados à dificuldade intrínseca de ser negro na América, isso eleva Obama a uma altura poucas vezes alcançada por um líder mundial, em qualquer tempo, em qualquer lugar, de qualquer cor.

Fernando Henrique, um presidente intelectual, decepcionou. Lula, um presidente operário, decepcionou. Obama, um presidente negro, foi melhor do que se poderia esperar. Olhe para Obama. Todos queriam ser Obama. E Obama é negro. Eu queria ser negro.

 

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30 de março de 2015 0

Operação Zelotes

30 de março de 2015 8

Leitores estão cobrando publicação da minha “posição” diante da Operação Zelotes, em que a RBS foi citada como uma das empresas possivelmente investigadas.
Minha posição, suponho, é idêntica à de qualquer cidadão brasileiro: em qualquer caso, envolvendo quem quer que seja, se houver ilícito, há de ser punido.
Mas, nessa operação específica, a melhor notícia que posso dar para os leitores é que em nenhum momento, de nenhuma forma, alguém da direção ligou, enviou e-mail ou fez sugestões para evitar, dissimular ou proibir a divulgação de informações ou opiniões a respeito. A RBS vive de fazer jornalismo, o que é uma segurança e uma tranquilidade para os leitores. E para mim também.

Santas ou feras

30 de março de 2015 16

Soube que arrancaram todos os dentes de Santa Augusta. Arrancaram por tortura, porque ela teimava em rezar para o deus cristão e Jesus, e não para Odin ou Thor. Arrancaram a torquês, a mando de seu próprio pai, que, além de ser um homem muito brabo, era general do exército de Alarico, o rei dos visigodos, que saqueou Roma e deu apelido ao afilhado do Zé Antônio Pinheiro Machado.

Depois desse suplício, Augusta ainda teve o corpo queimado e foi torturada num equipamento tenebroso chamado “roda dentada”, para só então morrer decapitada. Aí virou santa. Era assim que as pessoas viravam santas.

Santa Augusta é o nome do presídio de Criciúma. Visitei-o várias vezes, nos anos 80, a fim de fazer matérias para o Diário Catarinense. Não foi a única cadeia em que entrei por força da profissão. Como velho repórter de polícia, estive em vários presídios, inclusive nos femininos e na Fase. Já dei palestras para detentos. Já escrevi um livro junto com um presidiário, sabia? Mas um dia aconteceu algo, nesse Santa Augusta, que me tocou em especial.

Naquele dia, o carcereiro estava todo orgulhoso porque havia conseguido montar o que chamava de “biblioteca” para os presos. Levou-me até o lugar: uma salinha pouco maior do que um armário em que ele empilhara revistas e livros usados. Enquanto folheava alguns exemplares, perguntei:

– Eles leem bastante?

– Não muito – reconheceu. – É que tenho de cuidar, quando empresto um livro. Tenho que ter certeza de que vão ler mesmo.

Achei estranho:

– Por quê?

– Porque muitas vezes eles pegam os livros para arrancar as páginas do meio. Para se limpar.

Para se limpar! Os presos do Santa Augusta usavam os livros como papel higiênico.

***

Dias atrás, vi uma matéria de TV sobre a cadeia em que está o Renato Duque. Vi cenas da cela em que o colocaram. Uma peça do tamanho de um quarto de solteiro, onde três detentos se acomodam com certa dificuldade. Não há banheiro – há um buraco no chão, fazendo as vezes de privada, e uma pia. O banho (frio) é coletivo. Sobre a cama, uma toalha, um cobertor e… um rolo de papel higiênico.

Aquele rolo de papel higiênico centralizou minha atenção. Teria sido posto ali, pelo administrador da cadeia, como prova da civilidade da sua prisão? Será que Duque vai continuar recebendo rolos de papel higiênico, ou terá de arrancar páginas internas de livros para se limpar, como faziam os detentos do Santa Augusta?

***

Não fiquei feliz ao saber dos sofrimentos pelos quais está passando o Renato Duque agora, não fico feliz ao saber dos sofrimentos pelos quais passam os mais de 500 mil presos do Brasil. Mais de meio milhão de pessoas que não estão na base da pirâmide social – estão sob ela, soterradas, esquecidas, pessoas com as quais ninguém se importa, nem direita, nem esquerda, nem Estado, nem nada.

***

Tenho acompanhado as discussões sobre a redução da maioridade penal no Brasil. Que debate é esse, se o Estado brasileiro não consegue sequer acomodar com dignidade os presos que já estão sob sua tutela?

Punição justa educa, isso é certo. Punição justa forma cidadãos. Mas é certo também que punição injusta forma feras. Só nos planos etéreos da igreja é que a crueldade transforma seres humanos em santos.

 

Resposta do governo do Estado

29 de março de 2015 16

O diretor geral de comunicação do governo do Rio Grande do Sul, Orestes de Andrade Jr, enviou um texto fazendo considerações às críticas que fiz ao governo do Estado. Reproduzo abaixo:

A redução no custeio da Segurança não é de 30%. O equívoco decorre da comparação de coisas diferentes. Explico: em 2014, o valor efetivamente executado na Segurança foi de R$ 518,5 milhões. O orçamento superestimado em outubro do ano passado projetava R$ 628,1 milhões para o custeio da Segurança este ano. É sobre isso que está sendo feita a comparação indevida, que resulta no suposto corte de 30%.

Do total executado no ano passado – R$ 518,5 milhões – ainda existiam despesas consideradas extraordinárias de R$ 22 milhões para pagamento de diárias na Copa do Mundo e de R$ 26 milhões de dívida quitada com a Corsan. Assim, os valores do custeio efetivamente executados ficaram em R$ 470,5 milhões em 2014. Com a reprogramação orçamentária do atual governo, que prevê corte de 25% nas diárias, entre outras medidas, o custeio de 2015 para a Segurança será de 434,5 milhões – redução de 7,65%.

Para compensar esta perda de recursos, algumas medidas de inteligência e eficiência administrativa estão em vigor, garantindo um policiamento dentro dos parâmetros dos últimos anos, senão melhor. Entre eles, destaque para o uso de novas tecnologias no Centro Integrado de Comando e Controle (CICC), otimizando o emprego de efetivos em ocorrências, e o remanejamento de PMs da área administrativa para o policiamento ostensivo três vezes por semana. O uso das Plataformas de Observação Elevadas (POEs) também foi intensificado na atual gestão. De seis no segundo semestre de 2014, chegou a 11 nos meses de janeiro e fevereiro.

Por que, então, parece ter menos policiais nas ruas? Acontece que, a partir do dia 19 de agosto do ano passado, 200 policiais vindos do interior do Estado reforçaram o policiamento ostensivo da Capital. A iniciativa trouxe uma sensação de maior segurança, sobretudo nos bairros centrais e movimentados de Porto Alegre, que receberam, de fato, uma robusta presença policial a pé. Mas às custas dos municípios do interior, que cederam parte de seus efetivos em sistema de rodízio a cada 20 dias. Com a volta desses brigadianos para suas bases, no final de dezembro, e o início da Operação Golfinho, a população ficou com a nítida sensação de que os policiais sumiram. E é claro que a culpa recaiu sobre o novo governo que recém assumia.

Vale comentar que os 12% previstos pela Constituição para a Saúde estão garantidos este ano, mesmo com o déficit de R$ 5,4 bilhões no caixa do RS. Em 2014, a execução orçamentária foi de R$ 1,69 bilhão na Saúde; neste ano, será de R$ 1,75 bilhão. Na Educação, todos os programas serão preservados, mas terão de se adequar à escassez financeira. Mesmo assim, o custeio geral executado pela pasta terá praticamente o mesmo valor do ano passado – R$ 1,6 bilhão.

Antes de encerrar, devo dizer que o governo Sartori – apesar da grave crise financeira vivida pelo Estado, que nos últimos 44 anos gastou mais do que arrecadou em 37 exercícios – cumprirá com a sua tarefa compulsória de prestar os serviços básicos e essenciais aos cidadãos. E, aos poucos, caminhará para melhorias na qualidade de vida dos gaúchos e gaúchas, respeitando a realidade econômica do RS, ou seja, de todos nós.

Eu amo meus clientes

28 de março de 2015 19

Comprei um carrinho de polícia para o meu filho. Estou olhando para o carrinho neste momento, estacionado em cima da minha mesa. Viatura número 388. Os dois pneus traseiros estão com a borracha meio derretida, parece que foram esvaziados por algum fora da lei. A tinta branca da porta descascou, mal se consegue ler o lema: “To protect and to serve”.

Como é que nós não vimos esses defeitos? Meu filho o escolheu criteriosamente, entre tantos outros na lojinha. Ao chegarmos em casa, a Marcinha mal pôs os olhos no carrinho e apontou:

– Está todo estragado.

As mulheres têm essa capacidade de ver coisas que nós não vemos.

A lojinha em que o compramos fica perto da escola em que meu filho estuda. É uma tabacaria, só que quase sem cigarros.

Falando nisso, me diga: ainda existem tabacarias como as d’antanho, quando fumar e escrever com apóstrofo era elegante?

Essa tabacaria é das antigas. Poderia passar horas dentro de um lugar assim. Sempre gostei de tabacarias, mas essa é especial. Na porta, há um pequeno cartaz escrito à mão: “Meus clientes são as melhores pessoas do mundo”. Você entra e lá está aquela velhinha, sentada numa poltrona, com um cobertor sobre os joelhos. Ela tem um bóton pregado no peito, onde se lê: “Eu amo os meus clientes”.

Na parede, há fotos da velhinha em diversas fases da vida, sempre dentro da tabacaria. Ela em 1975, uma jovem senhora sorridente de cabelos longos. Ela em 1983, os cabelos mais curtos, mas o mesmo sorriso. Perguntei-lhe há quanto tempo tem a loja, e ela, orgulhosa:

– Há 75 anos!

Setenta e cinco anos! Ficarei feliz se viver o tempo que ela passou dentro da tabacaria. Quantos anos terá? No mínimo, 90. Nem se levanta da poltrona. Fica ali, sorrindo de leve para os clientes, que diz amar. Como esse lugar se sustenta? Tudo é tão… antigo… tão fora de moda…

Olhei para as prateleiras e senti uma onda de nostalgia aquecer-me o peito. Além de poucas caixas de charuto e muitos carrinhos de metal, havia gibis dos super-heróis Marvel, almanaques, lápis de cor, revólveres de brinquedo, cartões-postais, um arco e flecha de plástico, um nariz falso com óculos e bigode igualzinho ao que vi no rosto do meu avô numa foto de um Carnaval dos anos 1940, cobras e aranhas de borracha, bolas de vários tamanhos, cubos mágicos como nunca tive, jogos de monopólio, baralhos, isqueiros e, o que mais gostei, soldadinhos de chumbo e bonequinhos do Faroeste. Fiquei tocado ao ver estes últimos itens porque, quando guri, um dos meus brinquedos favoritos era um Forte Apache que ganhei de Natal. Mas meu filho não se interessou por nada disso. Na verdade, encarou tudo com certo desdém, a não ser o carrinho de polícia número 388. Senti vontade de comprar o cubo mágico, mas me contive. Paguei os US$ 5 pelo carrinho, meu filho o colocou na mochila, sorriu para a velhinha e ela sorriu para ele. Quando estávamos na porta de saída, ela disse:

– Vocês me fizeram felizes com sua visita.

Por algum motivo, achei que estava sendo sincera.

Então, chegamos em casa e minha mulher viu os defeitos do carrinho. Coloquei-o sobre a mesa e me pus a examiná-lo. A Marcinha quer que a gente vá trocar por outro, mas, sei lá, me afeiçoei ao carrinho. Acho que é meio parecido comigo, tortos que somos. Vou ficar com ele por mais algum tempo. Talvez, mais tarde, volte à tabacaria, mas não sei se terei coragem de devolvê-lo. Talvez converse um pouco com a velhinha, dê uma folheada no gibi do Fantasma e, quem sabe, compre aquele cubo mágico, afinal.

Som de Sexta

27 de março de 2015 3

Nunca gostei muito da canadense Celine Dion, acho-a meio melosa, mas é preciso admitir que se trata de profissional.
Nesta interpretação, ela chega até com humildade, pega do microfone mostra que sabe o que faz. Cada nota, cada sílaba está colocada à perfeição.
Veja e ouça:

A receita da felicidade

27 de março de 2015 16

O filé há de ser cortado em fatias delgadas, da espessura do dedo minguinho de uma criança de sete anos de idade. Se você não tem criança de sete anos de idade em casa, peça uma emprestada ao vizinho. Ou procure no Google, o Google tudo sabe. Ah: é fundamental que o filé seja fatiado na direção das fibras.

Vamos preparar um estrogonofe simples, mas, você sabe: as coisas simples são as melhores da vida, e esse estrogonofe, eu o preparei ontem e extraí suspiros e sorrisos dos comensais agradecidos.

Certo. O próximo passo é remover a indesejável capa de gordura que eventualmente exista no flanco de qualquer pequena tira. Feito isso, tempere com sal e pimenta-do-reino. Essa dupla, sal e pimenta-do-reino, já mudou o mundo. Lembre-se: de sal vem a palavra salário, porque salarium era o que os legionários romanos recebiam para comprar… sal. E Jesus disse a nosso respeito, nos superestimando: “Vós sois o sal da terra!”

Já a pimenta-do-reino era tão valiosa que, no século 5, quando o bárbaro Alarico submeteu Roma após três meses de cerco, exigiu 2,5 mil quilos de ouro, 15 mil de prata e 1,5 mil de pimenta-do-reino. Os romanos, escandalizados com o valor do resgate pedido, balbuciaram:

– O que vai sobrar para nós?

E Alarico:

– Suas vidas.
Então, saiba que nossas fatias de filé estarão ricamente temperadas apenas com sal e pimenta-do-reino.

Depois, acomode na frigideira um naco de manteiga do tamanho exato de uma caixa de fósforos Paraná. E acenda o fogo. Frite os pedaços de carne aos poucos, para que não liberem caldo.

Um punhado.

Em seguida: outro punhado.

Agora é a hora dos champignons, delicada intervenção francesa nesse prato tipicamente russo. Aliás, da nobreza russa. Dizem que foi no tempo dos czares que a baronesa Stroganov criou essa iguaria, que permaneceu no interior das fronteiras da terra gelada de Dostoiévski e Yelena Isinbayeva até que a revolução bolchevique expulsou do país os nobres e sua boa mesa.

Quando eu era pequeno, muito ouvi acerca da fidalguia do estrogonofe, servido com pompa no famoso Maxim’s, de Paris. Agora, que tudo se vulgarizou sob o pretexto de tudo se democratizar, é que qualquer bufê serve estrogonofe, inclusive de camarão e frango, o que são, obviamente, repugnantes excrescências (se você gostar de estrogonofe de frango, por favor, não fale mais comigo).

Mas, enfim, havíamos acrescentado a fleuma do champignon. Assim, precisamos nos debruçar sobre ingredientes aparentemente brutos, mas eficientes, como a mostarda e o ketchup, uma colherada de sopa dela e três dele, e mexa. Mexa, mexa, mexa suave e incessantemente, sabendo que, ali ao lado, aguarda o astro da noite: o creme de leite.

Com o soro separado, evidentemente.

Mas, calma, ainda não derrame o creme de leite. É o momento do toque de gênio, e o gênio não é outro senão minha mãe, dona Diva, a melhor de todas as cozinheiras, como o são todas as mães.

Ocorre que minha mãe flamba.

Também nós flambaremos.

Peguemos uma taça daquele líquido cremoso, de cor âmbar: o conhaque. Derramemos metade na nossa alquimia. Na outra metade, basta encostar a chama de um palito de fósforo (Paraná) e… fogo! A seguir, juntemos o fogo à superfície do molho. Pronto. Flambamos.

E aí vem ele: o creme de leite, afinal. Diminua o fogo, porque, se ferver, o creme talha. E mexa.

Mexa, mexa, mexa. Meiga, doce, carinhosamente.

O arroz branco já está pronto. Todos estão em torno à mesa, salivando. Sirva. Vamos esquecer, por um momento, do Sartori, da Dilma, das dores do mundo.

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26 de março de 2015 0

Se essa rua fosse minha

26 de março de 2015 20

Descobri um novo prazer. Você não vai acreditar: ir ao supermercado. Por Deus, adoro ir ao supermercado.

Já sei, você dirá: “Está em idade provecta”.

Talvez esteja, mas não foi o peso dos anos que me fez descobrir esse contentamento. Vou explicar o que foi. Deu-se assim:

Outro dia, voltava do Trader Joe’s com duas sacolas de compras nas mãos. Na verdade, não era dia; era noite – umas 22h, com temperatura amena, para surpresa e gáudio de homens e bichos.

Esse Trader Joe’s é um supermercado meio natureba, não vende nem refrigerante, que faz mal. A região em que moro é ecologicamente correta, as sacolas de plástico são proibidas. Então, eu carregava duas resistentes sacolas de papel reciclado cheias de mantimentos, entre os quais um bolo de banana que gosto de comer enquanto vejo House of Cards.

Aí tocou o celular.

Era o meu irmão, que ligava da outra ponta do continente. Como as sacolas me atrapalhavam, pousei-as no chão, refestelei-me sobre um banco plantado na calçada e comecei a falar ao telefone. Aos 10 minutos de charla é que dei por mim. Descobri, naquele momento, o prazer a que me refiro. Disse para ele:

– Cara, tu não imaginas a sensação boa que é poder fazer apenas isto que estou fazendo agora: numa noite tranquila, no caminho entre o supermercado e a casa, sentar-me em um banco na calçada para conversar sem pressa.

Pois aqui tenho feito essas coisas incríveis: vou a pé buscar o meu filho na escola, caminhamos despreocupados pela rua e, às vezes, decidimos tomar um sorvete de baunilha na J.P. Licks, que fica a uma quadra de distância. Sentamos nas poltronas de couro, ouvindo a velha e boa música nacional de caras como Billy Joel ou Bob Seger. Depois, saímos devagar, conversando sobre questões prementes, como se a capacidade que o Homem-Aranha tem de escalar paredes vem da aranha radioativa ou de algum poder de sucção da roupa que ele costurou. Volta e meia entramos na livraria que fica mais adiante e damos uma olhada nos livros. Comprei alguns mapas para ele lá, meu filho é um apreciador de mapas. À noite, se não faz muito frio, eu, ele e a Marcinha zanzamos pelas ruas próximas, admirando os grandes sobrados de madeira e os esquilos que correm pelos galhos das árvores. Ou então… que delícia, vou ao supermercado.

Caminhar pela cidade, nada mais do que isso, na hora em que quiser, sem medo, sem olhar para os lados, sem ter de tomar cuidado com o que quer que seja: que grande, que inaudito, que inesperado prazer. Mas isso você só pode fazer num lugar em que o Estado o respeita, onde o Estado é responsável pela segurança do cidadão, onde jamais o Estado cogitará cortar um terço das despesas de áreas vitais para as pessoas, como saúde, educação e segurança pública.

Caminhar na rua, sentir que a rua é minha. Um Estado que não proporciona ao menos esse prazer gratuito ao cidadão, francamente, é um Estado para se ter vergonha.

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25 de março de 2015 0

Medo na madrugada

25 de março de 2015 16

Era uma noite amena, de ar fino, de céu de azul profundo, e eu me sentia inquieto dentro do meu apartamento. Tinha trabalho a fazer, mas algo na rua me chamava. A vida estava acontecendo em algum lugar longe de mim. Corria nas minhas veias e pulsava-me no peito uma ânsia de sair de casa, simplesmente sair de casa. Disse, então, um palavrão para mim mesmo, peguei a carteira e saí.

Às vezes, a gente tem de seguir os instintos, sussurrei, estufando o peito e sorvendo o ar fresco da noite.

Sorri e pensei: nesta noite, a sorte é que vai me guiar. A sorte!
A sorte… Se soubesse o que a noite me reservava, teria ficado feliz na solidão do meu apartamento.

Mas não sabia, e fui em frente. Para o desconhecido.

Morava perto de uma região de bares. A luz amarela de um deles chamou-me a atenção, como se eu fosse um inseto atraído pela lâmpada acesa. E, de certa forma, era isso mesmo que era.

Nunca antes havia entrado naquele bar. Entrei e, já a caminho do balcão, a vi. Jamais a esquecerei. Era morena-jambo, longilínea e sinuosa. Nossos olhares se cruzaram enquanto eu pedia um chope. O garçom fez aterrissar o copo na minha frente. Senti o primeiro gole rolar gelado garganta abaixo. Então, um sujeito alto e forte, que estava apoiado no balcão, girou o corpo, olhou-me nos olhos e o que disse a seguir me fez estremecer.

***

Infelizmente, vou ter que encerrar a história por aqui. Não havia mais espaço, e precisei fazer um corte no texto. Não me critique: na edição, tomei por base o modelo administrativo atual do Estado do Rio Grande do Sul: quando é preciso cortar, corta-se. Pronto.

Já sei. Alguém vai dizer que eu poderia ter abreviado algumas descrições para dar o final da história, porque o final é fundamental para o leitor e blá-blá-blá, assim como alguém vai dizer que em saúde, segurança e educação não se corta, porque são fundamentais para o cidadão, e que a economia no orçamento do Estado poderia ter sido mais radical em outras áreas menos importantes, sim, sim, já sei que haverá quem diga isso a mim e ao governador Sartori. Mas dirão isso porque não sabem como é difícil cortar um texto pelo meio, sem que perca o sentido, ou como é difícil eliminar despesas em setores que, se não são vitais, causam grande desgaste político ao serem reduzidos ou eliminados.

Muito mais fácil e rápido fazer como eu e Sartori fazemos: remova dois parágrafos e um terço da verba da segurança pública. Se pessoas vão ser sequestradas debaixo de semáforos ou se o leitor ficará furioso porque o texto não tem final, por favor!, que falta de compreensão. Isso é intriga da oposição. Maldita oposição.

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24 de março de 2015 0

Donos de pitbulls contra os pitbulls

24 de março de 2015 43

Em geral não aprovo comentários ofensivos ou agressivos demais.
Só os que são… um pouquinho agressivos.
É até uma medida didática, de não incentivar a incivilidade.
Mas, no caso dos donos de pitbull, fiz questão de aprovar a maioria, só para você, leitor civilizado, compreender o perigo que é essa raça de cães (estou falando dos cachorros).
Os donos de pitbull dizem que a agressividade do bicho depende do dono.
Leia os comentários dos donos.Pense, agora, no que eles transformam os bichos sob sua tutela.
O pitbull, está mais do que provado, é um animal que mata. Estando na posse de pessoas com tal nível de agressividade, é como se fosse uma bazuca.
Os argumentos dos donos de pitbull são os melhores argumentos para quem prega a extinção dos pitbulls.