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Posts de maio 2015

Só tenho uma coisa a dizer deste jogo que foi o melhor do ano do Grêmio, mas que terminou em empate:

31 de maio de 2015 9

Centroavante.

Sergio Napp, o campeão dos campeões

30 de maio de 2015 9

Eu tinha uma raiva daquele Sergio Napp. Ele sempre ganhava o Prêmio Habitasul de Literatura. De mim, quero dizer – ele ganhava de mim. E de todos os outros também, diga-se a verdade. Inscrevia-me no concurso de contos, centenas de sôfregos candidatos a escritor se inscreviam, e, no fim, quem vencia? Sergio Napp.

Sergio Napp, Sergio Napp, Sergio Napp.

Me dava uma raiva. Mas quem é esse Sergio Napp?, perguntava. Descobri ao ouvir Desgarrados, que ele compôs em parceria com Mário Barbará. É uma canção belíssima, campeã (é claro) da Califórnia da Canção de 1981.

Que música linda. Que melodia docemente nostálgica. Que poesia tão cheia de significado e tão cheia de emoção. Esse Sergio Napp é bom demais, pensei. E admiti ser muita pretensão um pirralho de 15 anos de idade querer vencê-lo num concurso de contos.

Desgarrados. Até hoje aperta-me o peito quando a ouço. A história daqueles homens altivos do campo que se transformam em pingentes na Capital.

“Faziam planos e nem sabiam que eram felizes
Olhos abertos, o longe é perto, o que vale é o sonho.”

Tempos depois, passados tragos, muitos estragos, por todas as noites, meio que perdi Sergio Napp de vista. Acabei por reencontrá-lo após mais de 12 anos, também numa, por assim dizer, ocasião literária: lançava meu primeiro livro na Feira de Porto Alegre. Havia, sei lá, umas 10 pessoas na minha fila de autógrafos. Já a fila do autor sentado ao meu lado era imensa, cinco vezes maior, o cara não parava de fazer dedicatórias, era tanta gente em volta dele, que não conseguia vê-lo. A certa altura da noite, curioso, aproveitei uma oportunidade, estiquei o pescoço e o vi. Ele. Sergio Napp! Não é possível, rosnei, esse cara está de sacanagem comigo!

E sopraram os ventos, e mais tempo passou, e me desgarrei de Porto Alegre, e agarrei-me à minha cidade outra vez, e não sabia mais de Sergio Napp, até que um dia, depois de publicar uma crônica no jornal, recebi um e-mail dele. Era um caloroso elogio ao meu texto. Que felicidade! Sergio Napp, o campeão dos campeões, dizia gostar do que eu escrevia, eu, que, na arrogância da pré-adolescência, tive a audácia de competir com ele! Aquilo era um título para mim.

Não resisti. Respondi ao e-mail contando a história do prêmio de literatura. Ele riu muito e, a partir daquele dia, sempre enviava gentis considerações aos meus textos, enchendo-me de orgulho, ou então comentando algo sobre a cultura gaúcha ou sobre as amenidades do futebol. Tornou-se um agradável amigo virtual.

Sergio Napp morreu na quinta-feira. A morte de um amigo é um pedaço do mundo que deixa de existir. O mundo era de um jeito, agora é de outro. A gente se sente como que desgarrado, porque, o que foi, nunca mais será.

Som de Sexta

29 de maio de 2015 5

Em homenagem ao grande Sérgio Napp, que nos deixou hoje, essa grande obra do cancioneiro gaúcho:

A segunda rua mais bonita do mundo

29 de maio de 2015 5

A segunda rua mais bonita do mundo fica em Lucerna, na Suíça. Isso quem me disse foram suíços que encontrei na Copa de 2006. É mesmo uma rua linda, e é mais do que rua, porque dela se estica uma ponte de madeira, a Chapel Bridge, antiga de sete séculos.

Curiosamente, quando estive em Edimburgo, os escoceses me garantiram que a Princes Street é a segunda rua mais bonita do mundo. E essa também é belíssima, de suas calçadas avista-se o imponente castelo da cidade.

Interessante: nem suíços, nem escoceses contaram qual é a rua mais bonita do mundo. Qual será?

Muitos juram ser a Champs-Élysées, de Paris. Pode ser. Ela é elegante como uma Catherine Deneuve. Foi lá que Napoleão e Joséphine cevaram seu amor. Joséphine recebia cartas de Napoleão em que ele pedia: “Estou voltando da batalha. Não se lave”. Os franceses não têm preconceito contra cheiros.

Tempos atrás, uma eleição via internet escolheu como rua mais linda da Terra a Gonçalo de Carvalho, de Porto Alegre. É encantadora, sem dúvida. As copas das árvores se fecham sobre o leito, transformando-a em um corredor verde. Mas não sei se confio em eleições pela internet.

Aqui, num canto de Boston, há uma rua das mais graciosas. Chama-se Beals Street. Foi ali que nasceu o Kennedy. Da pequena casa da família fizeram um museu que abre na primavera e fecha no outono. É uma residencial, margeada por altas árvores, muito bucólica. Um mês antes da festa do Halloween, os moradores reformam e pintam suas casas e as decoram com coisas assustadoras, como aranhas e morcegos de plástico. No Halloween, a Beals é fechada às cinco da tarde, e logo se enche de crianças e adultos fantasiados de tudo que você possa imaginar, de bruxas a Batmans. Eles vão de casa em casa, e ganham doces. Às oito e meia, um policial avisa de um carro: “Todos nas calçadas!” E abrem a rua, e a festa acabou. É uma comemoração comovedoramente familiar.

Agora, para mim, a rua mais linda do mundo não é nenhuma dessas. Para mim, é uma da qual não sei nem o nome. Fica empoleirada em cima do morro do Alim Pedro, no IAPI. Começa na Amovi, a Associação dos Moradores, que tinha uma cancha de cimento que roeu pedaços dos joelhos de todos nós. Ao lado, ainda existe o coleginho onde uma freira muito braba me ensinou a datilografar. Mais adiante, serpenteia uma escadinha. Lá, a Alice e a Ariadne, duas das gurias mais bonitas da turma, escondiam uma carteira de cigarro e um isqueiro. Elas nos levaram, eu, o Plisnou e o Barnabé, para fumar escondido. Foi uma humilhação, porque não sei fumar.

Se você continuar subindo, verá, à esquerda, o bar onde o pessoal da vila canta samba aos sábados. Sempre em frente, e estará pisando nos paralelepípedos à sombra dos cinamomos. Era para lá que o Bira ia com a sua Mobilete, sempre com uma menina na garupa, e dizem que ele lhes dava beijo de língua, a audácia. À direita está o Becker. As alunas do Becker encurtavam as saias antes da aula. Era legal. Ali, enveredávamos para jogar bola no Dom Bosco. Nosso time era imbatível. Passamos um ano sem perder, por Deus. E descendo até a Industriários você chega à casa de Elis Regina, para a qual não dávamos muita bola na época, mas agora dou.

Aquela rua tem sua importância. E é linda de verdade. Dê uma passeada por lá num fim de semana desses. Talvez você nem tenha mais vontade de ver a Champs-Élysées.

O traidor da pátria

28 de maio de 2015 9

A professora avisou que iríamos discutir uma reportagem do New York Times em aula. Tive medo. Entenda: assino o Times “de papel”. Sou daqueles que gostam de apoiar o tornozelo direito no joelho esquerdo e abrir o jornal em cima da canela, enquanto bebo café. Ocorre que quase nunca há nada sobre o Brasil no NYT. O correspondente, que, se não me engano, mora no Rio, deve viver na praia.

Dias atrás, porém, saiu uma matéria alentada, de capa, a respeito da violência da polícia brasileira. Compreensível: violência policial é o assunto do ano, nos Estados Unidos.

Meu medo era de que a professora tivesse trazido justamente essa matéria. Não que queira esconder a realidade, mas não gosto de falar mal do Brasil para estrangeiros. Nós que tratemos de nossas mazelas internamente.

Bem. Era a maldita matéria.

O texto começa com a morte daquele menino no Complexo do Alemão, no mês passado, e segue descrevendo o “massacre de crianças e adolescentes pela polícia”. A folhas tantas, um diretor do Instituto Sou da Paz declara que a classe média brasileira “aceita assassinatos feitos pela polícia como uma prática legítima”.

A classe média. Sempre aprontando…

Os outros alunos me olharam, e havia certa censura no olhar deles. Preferi calar. Mas, por deboche do destino, esse gozador, havia um brasileiro novo na aula. Era a primeira vez que aquele cara aparecia, um economista de algum lugar como, sei lá, Goiânia. Esse brasileiro era desinibido e ficou excitadíssimo porque estavam falando do Brasil. A todo instante, fazia intervenções:

– Recomendo que vocês nunca visitem o Rio! Nunca! Lá, as pessoas são assassinadas a facadas em pontos turísticos!

Todos me olharam de novo.

– Não é bem assim… – tentei argumentar. – Existe violência em algumas regiões, como em qualquer lugar, mas o Rio é a cidade mais linda do mundo. Vale a pena ver.

– Na Lagoa! – gritou o brasileiro. – Estão matando na Lagoa!

– Mas as pessoas não são presas no Brasil? – perguntou a chinesa.

– São, claro. Há 500 mil presos no Brasil e…

– Mas eles são soltos! – atalhou o economista. – Presos de manhã e soltos à tarde!

– É verdade? – quis saber o russo neoliberal.

–  É verdade, mas existem 500 mil presos. Quer dizer: muita gente está presa, mesmo que muita gente seja solta quando é presa…

Vi que eles ficaram confusos. E eu também. Como explicar aquilo? E em inglês?

– Os presídios lá são desumanos! – interrompeu o espanhol comunista.

–  E a polícia mata crianças! – acrescentou a ucraniana, já levemente emocionada.

–  Não é bem assim – protestei, temendo que a ucraniana chorasse. – No meu Estado, por exemplo, é diferente. Eu sou do sul do Brasil, e lá…

Mas ninguém me deixava concluir. A italiana havia se virado para o espanhol comunista e comentava, para que todos ouvissem:

– Eu li que os presídios do Brasil são horríveis, pior que pena de morte.

– Você deve ter lido sobre o Pizzolato – observei. – Esse caso é complicado. Esse homem é um ex-diretor do Banco do Brasil que foi condenado por corrupção. Ele alegou a má condição dos presídios brasileiros para não ser deportado, mas, na verdade…

– Ah, o Pizzolato! A corrupção no Brasil! – exaltou-se o economista. – Vocês tinham que ver o que é a corrupção no Brasil!

Suspirei. As chamas da revolta consumiam a aula inteira. A ucraniana estava prestes a chorar. Olhei para o brasileiro traidor da pátria.

– Não basta a Alemanha? – rosnei, em português.

Ninguém entendeu. Ele, sim.

Só tenho uma coisa a dizer sobre a classificação do Inter:

27 de maio de 2015 20

Centroavante.

Seja assassinado corretamente

27 de maio de 2015 7

Os Titãs estavam errados. Pobrezas são mais diferentes do que riquezas. Ser pobre na Alemanha é uma coisa. Vá ser pobre no interior da Síria, quero ver se você é macho.

No Brasil, o pobre tem sua quota de sofrimento, como sói acontecer com pobres, mas pelo menos ela vem cercada por uma aragem de santidade. O pobre, no Brasil, é pobrezinho, fica em geral entre a vítima e o herói. É por isso que Mujica, por levar uma vida simples, sem ambições materiais, gera tanta louvação entre brasileiros.

As pessoas se encantam: oh, ele anda de Fusca. Ei! Eu não tenho carro, não tenho relógio, nunca tive máquina fotográfica, meu celular, foi o Juninho quem me deu, praticamente não compro roupa, mas quem diz que, por essa razão, posso ser presidente do Uruguai?

Não, eu não teria capacidade para ser presidente do Uruguai, nem de nada além. Aí está uma coisa que nunca serei: um presidente. Fico triste. Queria ser um presidente.

O Mujica, sim, ele foi presidente, e parece ter sido bom. Então, é por isso que admiro o Mujica, não por ele andar de Fusca. Qualquer David pode andar de Fusca, mas você terá de ser um Mujica para ser presidente.

No Brasil, a pobreza tem certa beleza, o que até rende rima. Ao rico está reservada profunda antipatia, mas quem diz que o rico se importa com isso? Ele não está nem aí. Ele está no Caribe.

Agora, a classe média, sim. A classe média, no Brasil, é um caso diferente das outras classes médias. Porque, no Brasil, a classe média tem os ônus das outras classes médias, sem usufruir dos bônus. Em todos os países do mundo, é a classe média quem sustenta a economia, paga os impostos, consome e produz. Você mede a justiça social de um país pelo tamanho da sua classe média. No Brasil, também. Mas, no Brasil, a classe média, chamada com desdém de “pequena burguesia”, é desprezada. Intelectuais do governo, como aquela professora da USP, proclamam: “Eu odeio a classe média!”, e um ex-presidente da República ri à grande ao ouvir isso.

A classe média paga impostos para a educação, a saúde e a segurança, e também escolas particulares, planos de saúde e vigilância privada. A classe média gasta em dobro, mas não deve reclamar, porque, supostamente, ela está se sacrificando em nome da felicidade dos pobres. É o que o governo alega. O governo é dos pobres, os pobres agora rodam em carros melhores do que o Fusca do Mujica, viajam de avião e fazem faculdade. Os pobres brasileiros são felizes. E a classe média, se não está contente, é egoísta.

A classe média não aprende a se resignar nem quando morre. Outro dia, um médico foi esfaqueado na Lagoa Rodrigo de Freitas porque um sujeito precisava da bicicleta que ele pedalava. Um latrocínio na Lagoa, à luz do sol, equivale a um na Times Square, na Fontana di Trevi, no Portão de Brandemburgo ou no pátio do Palácio de Buckingham. Como reagiriam os Estados Unidos, a Itália, a Alemanha e a Inglaterra se isso ocorresse? Com escândalo, obviamente. Seria um absurdo impensável. Manchetes. Revolta. Afinal, se não existe segurança num lugar turístico desses, imagine no Harlem, na Suburra, no Mitte ou em Stratford? Um assassinato como o da Lagoa, em outros países, traumatizaria a população não pela vítima, mas pelo local em que ocorreu.

No Brasil, não. No Brasil, os intelectuais gritaram: “Por que não falam tanto assim dos mortos pobres dos morros?”

É preciso ter cuidado, neste nosso país de paladinos intelectuais. No Brasil, você tem de ser assassinado na classe social certa.

Roger vai depender da sorte

26 de maio de 2015 15

Tudo indica que, depois do fracasso com Cristóvão e Doriva, o novo técnico do Grêmio será o ex-lateral Roger.
Historicamente, o Grêmio se dá bem com essas escolhas domésticas, vide Ênio Andrade, Tite, Mano e Felipão.
O problema é a absoluta falta de estrutura de hoje.
O Grêmio está sem vice de futebol. Precisava de um forte, atuante, que desviasse as questões futebolísticas para ele e permitisse ao técnico se concentrar no trabalho com o grupo.
Hoje, quem manda no vestiário do Grêmio são os jogadores.
E nem são jogadores de história no clube, como D’Alessandro tem no Inter, por exemplo.
Nada disso, são jogadores sem grande identificação com Grêmio, mas que ocuparam um espaço de influência que estava vazio.
Roger, se fechar, vai depender da sorte para se dar bem.

A casa número 59

26 de maio de 2015 11

00ae6756Esta foto não é do Kadão. É minha, um canhestro que nunca teve máquina fotográfica. Precária foto, portanto. Mas a imagem ilustra o que pretendo dizer. Essa casa número 59 fica na periferia de Boston. Apesar da fachada pretensiosa, com pilares e tudo mais, trata-se de uma residência de classe média. Não classe média alta; média média. O jardim não tem cerca – fiz a foto pisando na grama. Note à direita, ao pé da escadaria, uma bola de basquete cor de laranja. Acima, uma caixa retangular de papelão – alguma mercadoria comprada pela internet. No outro lado, encostados na cadeira, estão um patinete e uma muleta. É uma cena comum por aqui. As casas não são cercadas, e os moradores deixam suas coisas no alpendre ou no jardim: rádios, carrinhos de bebê, ferramentas, brinquedos, pequenos armários e todo tipo de encomendas, inclusive TVs. Como pode isso? Por que ninguém rouba? Será a educação americana? Sempre ouvi que segurança pública se resolve com educação. Mas não pode. Aqui, vive gente do mundo inteiro. Já contei que só nas escolas de nível básico de um único distrito são faladas, oficialmente, 50 línguas. Brasileiros, por exemplo, há às dezenas de milhares. Então, não é educação. Policiamento ostensivo, talvez? Também não. É verdade que há bastante polícia, mas não em todo lugar. Quando tirei essa foto, a rua estava deserta. E não há câmeras de vigilância por lá. O que poderá ser? Direi: é a compreensão que existe nos Estados Unidos do que é a democracia. A democracia é o cumprimento do que Rousseau chamava de “contrato social”. Todos os que vivem no país têm de cumprir esse contrato, que é definido pela lei. Quem faz a lei? O povo, através de seus representantes no Legislativo. Essa noção é fundamental: é o povo quem faz as leis. Quando alguém infringe a lei, agride o povo. Donde, nos julgamentos, se diz: “O povo versus fulano”. E, se você descumprir a lei, deve ser punido sem ponderações de qualquer ordem. A punição é dura e certa. Aí está. Existe desigualdade nos Estados Unidos. Existe injustiça social nos Estados Unidos. Muita coisa errada ocorre todos os dias nos Estados Unidos. Mas os Estados Unidos, desde a sua fundação, são uma democracia sólida, aceita e compreendida. *** Por isso aquela bola laranja fica intocada no jardim. Porque democracia é mais do que voto. Democracia é saber que você tem de cumprir a regra que você mesmo escreveu.

O lado selvagem

25 de maio de 2015 10

Fazia um sábado azul, amarelo e verde-claro e a brisa soprava macia e cheguei para meu filho e disse:

– Hey, man! Que tal sairmos por aí sem destino, rodando pelas estradas de New England?

Ele sorriu um sorriso de sete anos de idade.

– Boa ideia, papai!

Ganhamos a rua.

Não tenho carro. Faço quase tudo que tenho de fazer a pé, ou uso trem, ou o Uber, que sei que já existe no Brasil. Quando quero um carro, como no sábado, valho-me de um sistema parecido com esse de empréstimo de bicicletas, que tem em Porto Alegre: o Zipcar. Há milhares de carros espalhados pelas ruas. Escolho um pela internet, marco por quanto tempo quero e vou até o lugar em que está estacionado, geralmente bem próximo. Passo um cartão no para-brisa e as portas se abrem. A chave está no console. Não precisa nem pagar gasolina, porque eles deixam um cartão de crédito para isso no porta-luvas. São sempre carros ótimos e novos. Mostrei as fotos para o Bernardo escolher em qual iríamos passar o dia. Ele apontou para uma BMW.

Agora fui eu que sorri um velho sorriso.

– Grande escolha, man!

Entramos no carro. Conferi o painel, para ver se entendia como funcionava. Dei a partida. E o motor ronronou. Enquanto rodávamos devagar, liguei o rádio, sintonizei na WROR e Lou Reed começou a cantar: “Hey honey! Take a walk on the wild side!”.

O Bernardo apurou o ouvido:

– O lado selvagem, papai?

Ele está falando dos bichos, como os tigres?

– Não – respondi, enquanto pegava a estrada. – Ele está falando do lado selvagem da vida. Às vezes, a gente tem de andar pelo lado selvagem da vida, entende?

– Mas não é perigoso?

– Não tem de ser perigoso.

Nem para nós, nem para ninguém. Mas às vezes você tem de simplesmente fazer o que não está acostumado a fazer, entende? Pode ser algo pequeno e singelo, como ver filme na TV até de manhã, tomar champanhe na segunda-feira, preparar uma massa à bolonhesa às duas da madrugada, pegar um trem para Nova York só para ver a grande cidade, comprar um carrinho de bombeiros novo para o seu filho sem motivo algum, levar rosas para a sua mulher no fim da tarde de quinta-feira, mandar um cartão-postal para um amigo dizendo que ele é um grande cara ou sair por aí sem destino, como nós estamos fazendo agora. O lado selvagem da vida pode ser doce!

Meu filho ficou pensando.

Nesse momento, rolava outra velha canção na WROR. “Please, tell me who I am”, pedia o Supertramp. Por favor, me diga quem eu sou. Combinava com o dia. Que importa quem eu sou?, pensei.

O que importa é viver este sábado azul, amarelo e verde-claro e poder sair por aí com meu filho e ouvir um rock’nd’roll suave e ver esse mar imenso que vejo agora pela janela do carro e saber que está tudo bem e…

– Papai… – meu filho interrompeu o devaneio.

– O que é?

– Eu vou ganhar aquele carrinho de bombeiros mesmo?

– Por que não, garoto?

E lá fomos nós, pelo lado mais ou menos selvagem da vida.

 

Grêmio repete o velho Inter

24 de maio de 2015 10

O Inter terminou o ano de 1968 enfrentando um pesadelo que parecia não ter fim. Nos últimos 13 anos, o Grêmio havia sido campeão 12 vezes. O heptacampeonato fora conquistado numa goleada de 4 a 0. O Inter estava sem estádio, sem dinheiro e sem alento. Um de seus jogadores, o jovem ponta Valdomiro, era vaiado até quando marcava gol.
Curiosamente, foi a partir desse rejeitado que o técnico Daltro Menezes decidiu construir seu novo time. Daltro chamou Valdomiro e anunciou:
_ Você é titular. Você pode errar, a torcida pode vaiar, a imprensa pode criticar. Troco todos os outros 10, menos você. Você é titular.
Valdomiro se transformou, nos anos seguintes, no maior jogador da história do Inter. Todos os gols importantes do Inter nos anos 70 tiveram participação de Valdomiro. Porque ele recebeu do técnico o que mais precisava para se desenvolver: confiança
A história se repete, como sói acontecer. Só que do outro lado. O Grêmio vive, hoje, situação semelhante à vivida pelo Inter em 1968.
Ontem, no jogo contra o Figueirense, a falta de confiança dos jogadores era visível até pela TV. Falta, talvez, um Daltro ao Grêmio. E, mais do que um Daltro, falta um Valdomiro.

Som de Sábado

23 de maio de 2015 1

Eles eram só uns meninos, os caras dos Sex Pistols, mas a agressividade e o deboche deles era divertido.

O que falta a Maria Casadevall

23 de maio de 2015 12

Podem me insultar, podem me vaiar, pouco se me dá, mas o que acho mesmo é que a Casadevall ganha de 10 a 0 da Marquezine.

Dez a zero, não deixo por menos.

A Casadevall tem classe sem perder a sensualidade. Da Marquezine, você dirá que é mais opulenta, tudo bem, admito que seja, mas a Marquezine parece, sei lá, brejeira em demasia.

A Marquezine perderá o encanto quando perder o viço. A Casadevall ainda é menina, mas vê-se que será mulher, está quase lá. O que lhe faltará? Tenho de descobrir.

A Marquezine é o Rio, a Casadevall é Paris. A Marquezine é Nietzsche, a Casadevall é Kant. A Marquezine é Dumas Pai, a Casadevall é Balzac.

A Casadevall tem uma beleza mais versátil. Da Casadevall, pode-se dizer o que disse Capote sobre a arte de escrever:

– Meu objetivo é construir uma frase tão resistente e flexível quanto uma rede de pescar.

Que bela definição do que é um bom texto. Dostoiévski, outro grande texto, para dizer o mínimo, porque Dostoiévski era mais do que um bom texto, ocorre que Dostoiévski, ao ser perguntado acerca de escrever bem, respondeu:

– Se você quer escrever bem, você tem de sofrer, sofrer, sofrer.

Dostoiévski sofreu. Com os credores, que o perseguiam, e com a política, que quase o matou. O curioso é que Dostoiévski não era um revolucionário, como um Bakunin, como um Górki. Não. Dostoiévski gostava do czar. Era um coxinha. Mas se envolveu com uns amigos que queriam derrubar o governo, participou de reuniões subversivas mais por curiosidade do que por convicção, e foi aí que a polícia czarista o prendeu.

Dostoiévski foi condenado à morte.

Levaram-no para a frente do pelotão de fuzilamento.

Vendaram-lhe os olhos, as mãos amarradas às costas.

O comandante gritou “preparar… apontar…”. Na hora do “fogo”, um cavaleiro entrou a galope no pátio e anunciou que o czar havia concedido o perdão ao escritor. Tudo montado para dar um susto em Dostoiévski, que saiu de lá agradecido ao soberano, mas deportado para a Sibéria.

O sofrimento burilou o verbo de Dostoiévski, cevou a misoginia genial de Schopenhauer, que só tinha mulher a soldo, fermentou a rebeldia de Marx, que dizia que os capitalistas lamentariam até a morte por seus furúnculos, encorpou a coragem de Churchill, que chamava a depressão de seu “cão negro”, tornou sublime a arte de Leonardo, que foi preso por homossexualismo em Florença.
O sofrimento agiganta quem é grande.

Garrincha, porque sofreu, foi mais amado do que Pelé. Garrincha era torto, era o drible; Pelé era reto, era o gol. As pessoas admiravam Pelé e adoravam Garrincha. E é assim: o futebol é o esporte mais apaixonante do mundo porque faz sofrer.

A dor.

O que pode ser mais humano do que a dor?

Aí está! Achei! É só o que falta a Casadevall. Um pouco de dor. Nada pode ser mais comovedor do que a tristeza serena de uma bela mulher. Uma gota de tristeza no olhar negro de Casadevall e o Brasil rastejará abaixo de seus tornozelos macios. Sofra, Casadevall. Sofra.

Romildo Bolzan conta o que aconteceu no "Caso Doriva"

22 de maio de 2015 19

Recebi uma ligação do presidente do Grêmio, Romildo Bolzan.
Gostei do que ouvi.
Explica o que houve em relação à negociação com Doriva, que parecia algo trágico para o Grêmio. Parecia um gesto de completo amadorismo do clube. Felizmente para o Grêmio, não foi bem assim.
O que aconteceu foi o seguinte:
Bolzan queria contratar Doriva e ligou para ele a fim de saber se havia possibilidade de conversa.
“Se houver”, disse o presidente do Grêmio, “vou falar com o Eurico Miranda e pedir sua liberação. Se não houver, você pode considerar essa conversa como algo que nunca aconteceu”.
Doriva respondeu que ficava contente com o contato, mas que tinha um projeto no Vasco.
Bolzan desligou e deu o assunto por encerrado.
Mas, horas depois, dois empresários de Doriva, Bernardo e Wagner, ligaram para Bolzan e disseram que Doriva tinha interesse em negociar. Bolzan achou estranho e ligou de volta para Doriva, perguntando se os dois empresários o representavam. Doriva disse que sim. A negociação parecia aberta, mas foi a partir daí que Eurico Miranda entrou em ação.
Ou seja: o que houve foi oportunismo dos dois empresários de Doriva.
E a reação furibunda e ardilosa de Eurico, bem ao estilo dele.

Eurico ridiculariza Romildo para todo o Brasil

22 de maio de 2015 8

Estou chocado com o amadorismo do presidente do Grêmio.
Eurico Mirando, o velho Eurico Miranda, o ridicularizou para o Brasil inteiro.
O Grêmio tentou Cristóvão, conversou, conversou e não fechou.
Por quê?
Suspeito que Cristóvão pediu o que pediu para não acertar.
Agora, a tentativa canhestra de contratar Doriva sem falar com Eurico, com o Vasco no meio de uma competição…
Credo! Que dirigente com um mínimo de experiência faria isso?
Imagine Vasco versus Grêmio!
O Grêmio caminha para a segunda divisão. Se seu presidente não passar o poder de decisão no futebol rapidamente para alguém que entenda do assunto, o rebaixamento é inevitável.