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Fazer com amor

17 de junho de 2015 4

Anteontem conversamos com o Tostão no Timeline.

Aliás, anteontem. Poucas vezes, ouvi alguém falar, claramente: “anteontem”.

Conheço muita gente que diz “ontionti”, aí sim. Tenho simpatia por “ontionti”, acho cândido e levemente brejeiro, mas simplesmente não consigo falar isso. Agora: confesso já ter falado “antiontem”, o que me causa arrepios, porque “anti” ontem seria algo oposto ao ontem. Ou seja: o amanhã.

Está bem. Chega de tergiversações. Voltemos ao Tostão, com quem conversamos… anteontem. Falamos sobre Zito, que morreu. Nossa conversa foi ótima, porque amena. O futebol é bom quando é tratado com amenidade. Tostão ama o futebol na sua essência, o futebol do jogo jogado, da bola na grama, do virtuosismo e da plasticidade, e isso é bonito. É como um amante da música, da literatura, das artes ou do cinema falando sobre aquela atividade que lhe dá tanto prazer: ele passa a sensação prazerosa ao interlocutor.

Pessoas assim são abençoadas. Elas sempre encontrarão sentido na vida. Você está triste? Pense na beleza de um lançamento em profundidade de Roberto Rivellino, a bola viajando por 60 metros, até pousar, doce como o beijo da mulher amada, no pé direito de Gil, o Búfalo Gil, jogador de força e velocidade, que se consagrou graças à precisão dos passes do Riva. Isso que a torcida não queria que o Gil jogasse, queria o Cafuringa, ponta de drible fácil, mas que marcou só uns oito gols na carreira.

Cafuringa morreu moço, 42 anos. Jogava uma partida de veteranos e machucou o braço e a perna. Começou a doer, mas ele não quis ir ao médico. Tinha medo de hospital. Dois dias depois, o braço e a perna estavam inchados como duas jiboias, e ele não conseguia comer. Quando a família enfim o arrastou ao hospital, era tarde demais.

Mas essa é uma história triste, melhor não lembrar disso, melhor lembrar, talvez, da forma como Falcão corria com a cabeça levantada, a grande cabeleira encaracolada esvoaçando. Falcão e Batista tinham uma competição de melenas, naquela época. Hoje ambos são calvos, veja a ironia do mundo.

Palhinha, do Cruzeiro, usava o cabelo bem curto, à escovinha, como se dizia, mas era o último a entrar em campo, porque ficava ajeitando cada fio ao espelho, antes das partidas. Palhinha calçava chuteiras número 37,5, que mandava vir da Europa. Ele foi, exatamente, o sucessor de Tostão no Cruzeiro.

Tostão parou de jogar prematuramente, aos 26 anos de idade. Levou uma bolada no rosto e descolou a retina. Ainda posso ver a foto dele saindo de campo todo ensanguentado. Veio para os Estados Unidos a fim de tentar se recuperar, mas os médicos americanos disseram que, se levasse outra bolada, corria o risco de ficar cego.

Tostão abandonou o futebol e ficou amargurado. Não falava mais sobre o jogo. Não dava entrevistas. Tornou-se o “doutor Eduardo”, atendendo em Belo Horizonte. Mas seu amor pelo futebol foi maior do que a dor. Logo, ele estava se encantando com outros craques, outras jogadas, outros grandes times, e começou a se abrir, e cedeu à paixão e, em pouco tempo, estava falando e escrevendo sobre o jogo, sobre o que mais gosta na vida. Assim, Tostão se elevou de novo no mundo do futebol e suavizou sua vida. Porque faz o que gosta, e faz sem rancores, com doçura. Com amor. Os outros sentem, quando você faz algo com amor.

Comentários (4)

  • Dorian R. Bueno diz: 17 de junho de 2015

    O QUE PENSA O JOGADOR DE FUTEBOL !!!

    Puxa vida, tem um monte de torcedor que ao invés de ir até o estádio em dia de futebol para nos incentivar, vibrar, sorrir, chorar, vaiar, xingar, fica nas redes sociais antes, durante, depois dos jogos se machucando com as palavras, criando desavenças entre eles mesmos deixando de dar mais atenção para suas famílias ou quem sabe procurar algum trabalho para deixar de ficar ociosos e se distrair junto ao teclado.

    Um dia quem sabe vão aprender que quem contrata, treina, escala e desescala o time são profissionais preparados e contratados para isto.

    O melhor é que não acontecessem lesões, cartões amarelos, vermelhos e principalmente equilíbrio emocional de todos nós durante o desenvolvimento da partida, ou que todos os melhores e vencedores fossem clonados para não haver discórdia entre todos que são COLORADOS ou GREMISTAS.

    O futebol é assim mesmo, um dia vocês levantam a taça e no outro curamos juntos as mágoas.

    Ninguém joga para perder, até mesmo porque sabemos que isto será um retrocesso na carreira.

    Nós não ficamos nas redes sociais lendo ou xingando os torcedores, simplesmente temos que trabalhar no frio, na chuva, porque esta é a nossa profissão e somos muito bem pagos para isto.

    Quando chega o dia do jogo, todos os que estão relacionados sempre vão dar o máximo.

    Caso a vitória seja conquistada sabemos que logo após e no outro dia seremos manchete positiva em todos os jornais e redes sociais.

    É, mas não jogamos sozinhos, do outro lado também tem jogadores profissionais com nós em busca de objetivos.

    Os JORNALISTAS são pagos e cobrados para escrever sobre treinamentos, jogos e gerar repercussão.

    Os BLOGUEIROS escrevem sobre tudo para se distrair e gerar IBOPE aos BLOGS.

    Os DIRIGENTES ficam P… da vida nas derrotas porque foram eles que nos contrataram.

    Os nossos FAMILIARES também precisam enfrentar tudo antes, durante e depois.

    E nós JOGADORES que não escolhemos sermos PERDEDORES, também choramos.

    Imaginem se vocês todos que escrevem coisas legais e muitas vezes asneiras estivessem aqui dentro do vestiário, campo de treinamento, departamento médico, participando e conhecendo como funcionam as coisas para quem calça CHUTEIRA e não TECLADO, a ótica seria diferente.

    Estamos vivos, cientes que ainda temos futebol para alegrar os senhores TORCEDORES, vamos com o tempo remontar as equipes do INTERNACIONAL e do GRÊMIO e dar a volta por cima.

    Sabemos que tanto nós como os senhores, em nossos lares também temos altos e baixos todos os meses, vivemos a base de muito AMOR E PAZ, isto é escola da vida, BOLA PRA FRENTE…

    Abs. Dorian R. Bueno – POA 16.06.2015 -

  • celso diz: 17 de junho de 2015

    esqueceu de citar “ontonti” ou “ontonte”

  • Roberto Nunes diz: 17 de junho de 2015

    kkkk
    Antes de ontem é uma palavra bem coloquial
    Só eu já ouvi várias formas tipo:

    ontonti
    ontonte
    ontionti
    antionti
    antionte
    onteonte
    anteonte
    antiontem
    anteontem
    onteontem
    ontonce
    andiontem
    ansdionti

    E se andar por este interior nordestino, e outros via conhecer mais de 100…

    :-P

  • Renne Dante diz: 22 de junho de 2015

    Pow… um baita dum texto David, e cade o link pra ouvi o time line do dia??????????
    alias não tenho visto ha uns dias…

    abraços

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