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O Brasil que não existe mais

25 de junho de 2015 9

É bonito ser Botafogo. Acho que vou virar Botafogo. Se me tornar mesmo Botafogo, criticarei com veemência o processo que o clube está movendo contra o Porta dos Fundos. O Botafogo está pedindo R$ 10 milhões ao Porta dos Fundos por causa de um vídeo que brinca com os patrocínios da camisa do time.

Isso não é Botafogo. O Botafogo é um time do Brasil antigo, o Brasil pelo qual os estrangeiros suspiram sem saber que não existe mais, o Brasil dos brasileiros que não se levavam a sério. Só no Brasil antigo um Garrincha seria possível, por exemplo.

Garrincha, o jogador-símbolo do Botafogo, era o que no Brasil antigo se chamava de “aleijado”. Hoje essa palavra motiva processo, mas no Brasil antigo viveu até um grande artista plástico que era chamado, imagine, “Aleijadinho”. Fico pensando como chamariam o Aleijadinho hoje. “Deficientefisicozinho?” Não pode ser… De qualquer forma, Garrincha não era deficiente físico. Era… aleijado. Na velha concepção, é claro, algo difícil de explicar em 2015.

Garrincha bebia antes dos jogos, fugia da concentração e não voltava para ajudar na marcação. Em tudo, um ser do passado, que vivia uma vida extinta, algo como Luis XIV, o Rei Sol, como Sócrates, Buda, professores da datilografia e vendedores de fita cassete.

Depois de Garrincha, o Botafogo montou um time que era conhecido como “Time do Bagaço”. Era sensacional: Paulo César Caju, que foi campeão do mundo pelo Grêmio, um cracaço que falava francês, usava cabelo black power e vestia pantalonas com a boca de sino do tamanho de um cone; Zequinha, que também jogou no Grêmio, autor de três gols num Gre-Nal de 1975, ponta clássico que jogava só de um jeito, driblando para a linha de fundo e cruzando, só; mais Jairzinho, o Furacão; e Gérson, o Canhotinha de Ouro, que fumava três carteiras de cigarro por dia. Bonito de ver aquele time jogar. Time impossível num tempo de campeonato de (argh) pontos corridos.

Naquele Brasil, daquele Botafogo, ninguém se preocupava em processar ninguém. Como as pessoas não se levavam tão a sério, elas viviam suas vidas, pronto. Está certo que às vezes dava algum problema. Até no Botafogo: uma vez, o técnico-jornalista-comunista João Saldanha sacou de um revólver e saiu atrás do goleiro Manga, a quem acusava de ter se vendido para outro time em extinção, o Bangu. Manga, para se salvar, pulou um muro de três metros de altura, demonstrando toda a agilidade que resplandeceria no Inter, oito anos depois.

João Saldanha era um tipo do Brasil antigo, inviável no atual. João Saldanha dizia verdades com coragem e mentiras com graça, parecido com Vinicius de Moraes, outro que não sobreviveria agora. Bem como Tom, Elis, Lupicínio, Iberê, João Gilberto, Dorival Caymmi. A música e o futebol brasileiros não sobreviveriam no Brasil de hoje, nem o verdadeiro Rio de Janeiro, que esse de agora é falso.

O Botafogo só não é campeão de nada porque é um Botafogo de um Brasil que não existe mais. Se quiser ser campeão, terá de mudar. Terá de deixar de ser Botafogo. Mas aí eu não serei Botafogo também. Só serei Botafogo antigo, do Brasil antigo. Acho que sou um antigo, afinal. Nós, antigos, não somos campeões no século 21.

Comentários (9)

  • Idacil Amarilho diz: 25 de junho de 2015

    Sou Colorado e gaúcho, nesta ordem.
    No Rio sempre torci pro Botafogo, muito em função do que relatas na tua coluna de hoje. Craques como Jairzinho, o ÚNICO a fazer gols em todos os jogos de uma Copa do Mundo, um cracaço do qual o Neymar não seria digno de amarrar suas chuteiras.

  • Marco diz: 25 de junho de 2015

    Tens razão, David, este Brasil que retratas realmente não existe mais. Foi substituído pelo Brasil do politicamente correto, das redes sociais patrulhadas por radicais de toda espécie, da chatice de pessoas sem imaginação e sem espírito para viver o melhor da vida. Talvez alguma coisa parecida com o Brasil antigo ainda exista em algum lugar, na Jamaica de repente? Mas o mais certo é que ele só se mantenha vivo nas nossas memórias mesmo.

  • Gigante diz: 25 de junho de 2015

    O co-irmão campeão do mundo ??? Quando isso ??? A tá o mundo pros gremistas só tem 2 continentes ???? Por que vcs da RBS não criam vergonha na cara e vão a fundo pesquisar essa farsa de mundial que tu citaste ???Por que não esclarecem o tipo de droga usada pelos dopados ??? Se fosse o Inter iam tratar como chacota essa farsa a vida inteira, mas o problema é que é o time que vcs torcem. Uma vez na vida RBS, falem a verdade e esclareçam os fatos. As pessoas de bem agradecem.

  • Gustavo diz: 25 de junho de 2015

    Eu sou antigo, mas como sou Colorado, fui várias vezes Campeão no século 21. Já um outro time de Porto Alegre…………..

  • Roberto Nunes diz: 25 de junho de 2015

    Gerson de oliveira Nunes…

    Tem 74 anos…

    Jairzinho tem 70 anos

    Garrincha o eterno…

    Na verdade Botafogo teve grandes tempos, acho que nunca mais o terá…
    É o único clube carioca que ganhou o campeonato estadual por quatro vezes seguidas, é o único tetra campeão carioca.

    Não sei pq Botafogo não tem muita torcida, visto que ele é o clube mais antigo do rio… 1894…

    Mas o nome:

    “No século XVI, Portugal construiu o maior navio de guerra da Europa. O Galeão S. João Batista, de 1000 toneladas que, por seu poder de artilharia e conquistas, ficou conhecido como “Botafogo”. João de Souza Pereira, fidalgo português, natural de Elvas, famoso oficial de artilharia ganhou o apelido de Botafogo e incorporou ao seu sobrenome.”

    “Botafogo era um instrumento militar, uma haste com um pavio, com o qual o artilheiro detonava os canhões.” Bota Fogo”, era sinônimo de detonar.”

    Dizem que quando os outros times estavam se firmando no Rio, o Botafogo os goleava, sendo a maior goleada foi num jogo que ele ganhou de 24×0, e não acabou, quer dizer acabou em briga.

    :roll:

  • Miracoles diz: 25 de junho de 2015

    O Brasil de hoje é reflexo deste Brasil de ontem narrado por você. Errado, malandro, do jeitinho, do “torto” que dá resultado. O que era um pouquinho errado na época de garrincha, do time do bagaço, do botafogo quando ainda era um time grande, tomou corpo e ficou BEM errado hoje.

    Talvez não tivessem nossos antepassados suavizado, ou até em alguns pontos idolatrado este perfil “abrasileirado / gouche / underdog” de ser, TALVEZ nossos males de corrupção e total ausência de respeito ao próximo hoje fossem mais equivalentes aos narrados por você em seu dia a dia em Boston.

    Portanto, o Brasil errado de hoje é um perfeito reflexo do Brasil de ontem narrado por você. Não vejo, assim, razão alguma para saudade ou saudosismo deste tempo. Pudera a punição ao errado e a quem se usa da lei de Gerson tivesse começado lá atrás, acho que estaríamos bem mais “evoluidos” hoje, em diversos sentidos cívicos.

    Concordo com 90% de suas opiniões e textos na coluna. Este, em particular, está nos 10%.

    Mas permita-me mui respeitosamente discordar uma vez ou outra! Continue com o bom trabalho.

    Um abraço!

  • João Agrário diz: 25 de junho de 2015

    “Garrincha bebia antes dos jogos, fugia da concentração e não voltava para ajudar na marcação. Em tudo, um ser do passado, que vivia uma vida extinta”

    Isso ainda não acabou, Davi
    Ronaldinho, Douglas, Ganso, Robinho etc.

    O futebol brasileiro quase só tem esse tipo de jogador!

    Essa falta de profissionalismo, dos Garrinchas e Gerson, é que atrasa o futebol brasileiro. O mundo mudou. Hoje o jogador precisa estar 100% fisicamente, só com qualidade não joga mais. Porém a imprensa insiste em exaltar esses chinelões preguiçosos. É bonito ser bagaceiro, não treinar, ir para a balada, tocar pandeiro.

    É o que o Tostão sempre diz: O Brasil parou no tempo, aí joga o futebol do passado. O futebol folclórico, de pouco treino e mta displicência.

  • Francisco diz: 26 de junho de 2015

    É, prezado David…………o Brasil mudou, o Mundo mudou, nós mudamos, enfim a vida é assim, não podemos mudar a trajetória do tempo……..nós precisamos mesmo é nos adaptar, não há outro jeito.

    O desenvolvimento tecnológico é fantástico e muito maior será o que está por vir………..A metáfora da tua narrativa é bem apropriada mas……….o que fazer?

    Hoje em dia somos mais longevos e somos mais críticos da Sociedade , dos Costumes e Tradições. Precisamos nos policiar constantemente para sermos “políticamente corretos”, pois sempre vai haver alguém próximo ávido para auferir alguma vantagen , em face de algum ato praticado, independente de qualquer intenção.

    Uma frase que considero de grande sabedoria:……….. “Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és. Saiba eu com quem te ocupas e saberei no que te poderás tornar.” – Johann Goethe –

    Vivemos em um Mundo e Sociedades extremamente competitivas, onde “alcançar o topo”, não é suficiente. É preciso ganhos sem limite…….Poder a qualquer preço……..onde enganar, extorquir , mentir , manipular , se tornaram requisitos indispensáveis para o Sucesso.

    Caro David……….eu acredito piamente no chamado “olho gordo”, a inveja destrutiva,…….a energia má que emana de pessoas negativas, invejosas e prepotentes.
    Para se contrapor a tudo isso………..temos que nos refugiar na espiritualidade , seja qual for a religião, pois alguns sentimentos de pessoas negativas, podem irradiar energias a ponto de nos causar doenças psicossomaticas.

    É, David, às vezes é questão de sobrevivência, a mudança para “novos ares” e nos afastar de ambientes e pessoas que nos causam desconforto e tensão.

    A vida social e laboral , nos ensina a separar o “joio do trigo” e, para isso nada melhor que a maturidade, para parar e pensar:…….. “Ôpa, isso já não me serve mais….., conviver com essas pessoas está me fazendo muito mal!”

    O dinheiro não é o mais fundamental, apesar de ser importante………; a vida é importante, a família é importante, os poucos amigos são importantíssimos.

    A tranqulidade e a paz de espírito, é o que nos proporciona a alegria de viver e o que nos mantém vivos!

  • Francisco Azambuja diz: 26 de junho de 2015

    Tenho saudades daquele Brasil…e olha que nasci em 71…até 94 nunca tinha visto o Brasil Campeão…Mas, como citado, o tempo muda tudo, não sei bem se podemos chamar de evolução…Aí entram os filhos, são eles que nos conectam nessa “Admirável Mundo Novo”, que fazem a ponte entre o novo e o antigo, algo como, preservada as proporções, Lestat e Louie em Entrevista com o Vampiro.

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