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O poder do dedo

27 de junho de 2015 6

Houve algo de atávico, de ancestral, de visceral na reação de Cavani ao ataque traiçoeiro que sofreu do chileno Jara, motivando sua expulsão de campo na partida entre Uruguai e Chile, dias atrás.

A cena foi em tudo dramática.

Cavani estava concentrado no que se dava nas cercanias da bola, e Jara se aproximou à sorrelfa, por trás de seu ombro esquerdo. O chileno é quase uma cabeça mais baixo do que o uruguaio, mas isso não impediu a ação vil: Jara estendeu o dedo médio como se fosse uma pequena e afiada lança ou talvez um dardo envenenado e, de fato, foi assim que o usou: como uma arma terrível.

Mas, antes de prosseguir, preciso ressaltar uma coincidência: outro chileno, também chamado Jara, o cantor Victor Jara, teve, exatamente, os dedos esmagados com coronhadas de rifle, ao ser torturado pela repressão durante a ditadura Pinochet. Os verdugos disseram que lhe mutilavam as mãos para que ele não pudesse mais tocar seu violão subversivo.

Semelhante ao caso ocorrido com o brasileiro Antônio Maria, cronista que foi casado com Danuza Leão, autor da música Ninguém me ama. Maria teve os dedos quebrados pelos esbirros de Getúlio Vargas por causa de um artigo que publicara no jornal. Ferido, ele desdenhou:

– Tolos, pensam que escrevo com os dedos.

Bonita demonstração de galhardia, mas Jara, o jogador, mostrou que um dedo pode, sim, ferir. O que ele fez foi o seguinte: à solércia, introduziu aquele longo e ereto dedo médio entre as nádegas do desprevenido Cavani, dobrando-o depois feito um gancho e, pelo movimento do punho, muito provavelmente atingindo o alvo pretendido: o esfíncter!

Jara intuiu, ou sabia de antemão, que aquele era o ponto franco de Cavani, porque Cavani realmente ficou desconcertado.

Um antigo jogador do Inter detinha idêntica sabedoria: Carlitos, ponta-esquerda do Rolo Compressor. Eu o entrevistei em sua casa na zona sul de Porto Alegre. Carlitos era tão pequeno quanto Jara, mas, nas cobranças de escanteio, useira e vezeiramente marcava gols de cabeça. Naquela entrevista, contou-me o segredo: quando o cobrador de escanteio tocava na bola, lá no canto do campo, ele, dentro da área, fazia como Jara e introduzia um dedo pontudo precisamente na entrada do reto do zagueiro adversário. Carlitos dizia que, por algum motivo, ao sentir aquela invasão brutal e inopinada de suas intimidades, o zagueiro ficava petrificado, como que aparafusado ao chão, deixando-o livre para cabecear. Assim, tornou-se o maior goleador do Inter de todos os tempos.

Cavani sentiu o ultraje que sentiam os marcadores de Carlitos. No primeiro momento, também se quedou imóvel, tamanha a surpresa do ataque. Um soco na cara, um pontapé, até uma cusparada seriam aceitáveis, não aquela profanação. Ah, não.

E foi isso que foi: uma profanação. Cavani se sentiu violado. Ao reagir, era uma vítima defendendo, literalmente, o seu ser interior. Sua expulsão foi injusta. Foi a punição da vítima.

Veja como o ser humano é frágil: um dedo, um único dedo, e todo o equilíbrio se perde. Um dedo, nada mais do que um dedo, e está abalada a dignidade.

 

Comentários (6)

  • Everaldo diz: 27 de junho de 2015

    Grande David! Sempre fui teu fã. Para mim, a tua maestria em expor opiniões é ímpar e extremamente prazerosa de se ler. Não desejo ser rude e nem descortês contigo, mas meu bom amigo, escritores talentosos como você tem se mostrado até agora, deveriam ser PROIBÍDOS de escrever diariamente em periódicos! Eu sei que existe toda uma questão comercial e financeira nesse ajuste, mas, infelizmente, assim como a monotonia diária dos afagos, acaba com qualquer casamento perfeito… Não é preciso ser Nostradamus, para profetizar que teus belos escritos de ontem, não terão nem o brilho e nem a vital SINGULARIDADE – amanhã! E os sinais, estão aí, diariamente para serem analisados por nós. Sou teu leitor e assim como um cusquito amigo acompanha o moribundo que desfalece no chão até o seu ultimo suspiro… Aqui permanecerei, todos os dias, lendo e vendo-te (de forma empáfia) perder teu bem mais precioso – A tua genialidade. Engana-se quem supõe ser o talento, algo inesgotável. REITERO: – Escritores como o senhor, deveriam ser PROIBÍDOS de escrever todos os dias… Assim como, Bethooven ou Leonardo da Vinci, não compuseram e nem pintaram suas obras de segunda a sexta-feira! Abraço amigo. MELHORAS! Ama Victor.

  • Carlos Xavier Rosa diz: 27 de junho de 2015

    Então, Carlitos fazia a maioria dos gols em cima do grêmio, enfiando o dedo no esfíncter dos zagueiros tricolores !!!!
    Hahahahahaha, muito bom esclarecimento david.

  • Machiavellirs diz: 27 de junho de 2015

    O PODER DO DEDO INVISÍVEL

    Vocês viram a entrevista do filho caçula do Lula, o Luis Cláudio Lula da Silva, que está circulando na internet?

    Pois eu vi e achei interessante o seguinte escrito: “Luis Cláudio tem experiência no futebol em grandes clubes. Foi auxiliar-técnico nas categorias de base do São Paulo e depois trabalhou com Luxemburgo em 2008 no Palmeiras, ano em que o clube foi campeão paulista. Seguiu para o Santos com o treinador e posteriormente integrou a comissão de Mano Menezes, no Corinthians.” (http://esporte.uol.com.br/futebol/ultimas-noticias/2015/06/26/filho-de-lula-comanda-o-futebol-americano-no-brasil-nunca-fracassei.htm)

    Agora eu, igual ao Sócrates, pergunto: aí tem ou não tem o dedo invisível do Lula na jogada? Será que o Luis Cláudio foi um aluno de educação-física tão aplicado, estudioso e eficiente que conseguiu, graças à sua aplicação, estudo e eficiência, trabalhar no São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians, ou seja, trabalhar em quatro clubes que formam a elite do futebol brasileiro?

    Pois eu acho que nessa jogada tem o dedo invisível do Lula! E, agora, a pergunta que não quer calar: esses clubes levaram alguma vantagem nessa jogada? Partindo do fato de que não existe almoço grátis, eu, modestamente, penso que sim! Talvez até esteja errado, porém, acho que tenho o direito de pensar errado, não é verdade?

  • O Melhor jogador do Chile na Copa América diz: 27 de junho de 2015
  • Roberto Nunes diz: 27 de junho de 2015

    Pior que o Uruguai quer por na justiça… kkkkk

    E a desculpa do chileno…
    Eu Estava com inflamação na unha, e o doutor mandou eu colocar o dedo em lugar bem quente… rsrs

    Machi….
    Este negócio é mais velho do que o Lula…

    Olha, se vc soubesse o que já vi….

    Em orgãos do estado ou de economia mista, só se promove e vai longe o cara que está envolvido com políticos no partido…

    O que realmente, trabalha e tem competência para melhorar a empresa mas não está envolvido no partido, trabalha trinta, quarenta anos nos piores lugares nos piores cargos, praticamente vive como um escravo, sem darem uma oportunidade para o competente.

    :(

  • João Carlos diz: 27 de junho de 2015

    Os esbirros eram de Carlos Lacerda, não de Vargas. Antônio Maria trabalhava na Última Hora, jornal que apoiava Getúlio.

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