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Posts de junho 2015

Zeca Camargo e Cristiano Araújo

30 de junho de 2015 29

Nós brasileiros gostamos de nos emocionar. Foi isso que o Zeca Camargo disse num polêmico comentário de TV acerca da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. As implacáveis redes sociais estão sendo… bem, implacáveis com o Zeca Camargo, porque ele teria desrespeitado o artista.

Não desrespeitou.

Embora o comentário tenha ficado um pouco confuso quando ele comparou a comoção fácil à febre dos livros de colorir, Zeca Camargo acertou ao observar que o brasileiro sente uma necessidade catártica de se despetalar em lágrimas. Sente. E isso vem de longe.

Até a manhã de 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas era visto como um corrupto que, muito provavelmente, sairia algemado do Palácio do Catete. Um tiro de 32 no coração e uma carta-testamento febril de ufanismo o transformaram em herói do povo oprimido. Os mesmos que, nos bares, o chamavam de ladrão saíram às ruas em ira santa, atirando as máquinas de escrever dos jornais de oposição pela janela e quebrando as vitrines de quaisquer empresas que fossem vagamente associadas aos ianques exploradores.

Era uma morte trágica, perfeita para se prorromper em pranto purificador. Foi assim também com Francisco Alves, que morreu carbonizado num acidente na Via Dutra. Até os anos 1980, dizia-se que era impossível um povo chorar mais do que havia chorado Getúlio e Chico Viola. Aí morreu Tancredo. Lembro-me das cenas do caixão sendo transportado em carro de bombeiros pelas ruas, a multidão correndo atrás, derretendo-se em suor e lágrimas, e as TVs executando Coração de Estudante. Nossa, como o Brasil chorou! Era uma nação unida num só drama.

E, de fato, era de chorar. Tancredo seria o primeiro presidente civil do Brasil depois de 21 anos de ditadura, depois do fracasso das Diretas Já, depois da volta emocionante dos anistiados. Tamanha dor se justificava. Como se justificou a de Senna, um ídolo colhido pela foice do Ceifador em pleno exercício de sua atividade, um brasileiro vencedor, jovem, bonito, que arrancava conquistas impossíveis das unhas da derrota certa.

Todos esses personagens eram importantes, e morreram de mortes inesperadas. Natural que fossem chorados, como os Estados Unidos choraram Kennedy e Martin Luther King, como os britânicos choraram Lady Di.

E aí paro: o funeral de Lady Di.

Recordo-me de Elton John entrando ereto na Abadia de Westminster para cantar Candle in the Wind. “Você viveu sua vida como uma vela ao vento, sem saber onde se agarrar”, cantava ele ao piano, e todos na abadia ouviam em silêncio, e, lá fora, a multidão acompanhava por um telão, e a câmera passeava pelos rostos, e eles… aqueles ingleses… eles não choravam. Ou, pelo menos, não choravam como deviam chorar num momento tão comovente. Era um choro contido, um choro de poucos, duas ou três lágrimas recolhidas por um lencinho mínimo. Eu, olhando pela TV, pensava: como esses ingleses conseguem ser tão fleumáticos, se eu, aqui, já sinto uma bola de emoção na garganta?

Uma boa morte nos toca. E, na falta de um morto imponente, como uma princesa, um presidente ou um campeão, nos contentamos com os mortos periféricos. No ano passado, o fim de Eduardo Campos quase o elegeu presidente da República, representado por Marina.

Cristiano Araújo era um Eduardo Campos: muito conhecido regionalmente, desconhecido nacionalmente. Zeca Camargo e outros tantos se surpreenderam com a intensidade da dor dos que o prantearam. Mas era uma dor legítima. Era a dor necessária do brasileiro, que, ao experimentar o grande sentimento, seja com a grande paixão, seja com a grande tristeza, sente-se grande, ele também.

O cão negro da depressão

29 de junho de 2015 17

Um grande amor não vai fazer você feliz. Ao contrário, talvez o torne um miserável dependente.

As delícias da carne também não. Você pode se entregar ao deleite de todos os prazeres mundanos, todos os dias, sem sentir um minuto de alegria.

Fama? Se fama desse alívio à alma, Marilyn Monroe e Robin Williams não teriam se suicidado, e Michael Jackson jamais teria se tornado branco e triste.
Realizações? Que homem pode ter realizado façanha mais grandiosa do que Churchill, que salvou a civilização? E, ainda assim, ele sofria, e chamava a depressão de seu “cão negro”.

Dinheiro, quem sabe? Homens matam e morrem por dinheiro. Então, como se explica a vida do atormentado Howard Hughes, um dos seres humanos mais ricos de seu tempo, produtor de filmes de sucesso, considerado o maior aviador do mundo, conquistador das mulheres mais desejadas do cinema, como a volátil Ava Gardner e a lânguida Katharine Hepburn? Hughes era tudo o que todos queriam ser, e morreu solitário e louco, temendo germes invisíveis como se fossem feras famintas.

O que faz uma pessoa ser feliz não é nada que está fora dela. Não é nem o que ela é. O que faz uma pessoa feliz é o que ela tem por dentro.

***

Ontem, recebi um comovente e-mail sobre esse tema. É de um bom amigo, um ótimo jornalista que, devido aos seus problemas pessoais, está meio que na penumbra da profissão. Ele prefere não se identificar, porque diz existir preconceito contra a doença da infelicidade.

Nesse e-mail, meu amigo pede que eu escreva a respeito do mal de espírito que o aflige, para, talvez, fazer com que as pessoas pensem a respeito. Preferi dar-lhe voz direta. Gostei do que escreveu, da forma como escreveu, e acho que há nesse pequeno depoimento força suficiente para provocar uma reflexão. Eis:

“Meu!
Um dia desses, quando nem mesmo um esquilo te açular a imaginação, pensa nos bipolares. Não com a graça que o anedotário empresta ao tema. Não com o falso jargão que tenta mimetizar o sujeito que pode oscilar de humor de vez por outra. Não. Falo da doença. Dessas que te levam ao precipício da morte, quando a fase é depressiva. Dessas que te carregam para situações de perigo. É uma doença infame. Vive-se, sempre, à espreita de duas sombras, euforia ou depressão. Por vezes, em ciclos diários. Um estrago sem fim. Não sobram relacionamentos. Não sobram estabilidades de emprego. Restam uns poucos, bem poucos, amigos. Há dias em que o fim de noite é o único aconchego, porque a dor costuma ser amenizada pelo silêncio do escuro. Não há genialidade póstuma que valha uma doença degenerativa. Van Gogh seria rico e feliz, e com as duas orelhas, se não fosse depressivo. Outros tantos teriam visto quão lindo é o sol. Mas, na depressão, tudo fica embotado. Pensa nisso. Tens palavras e sensibilidade para chamar a atenção para esse mal. Faz isso!”

Está feito.

Casamento gay: Brasil X EUA

27 de junho de 2015 11

As pessoas se confundem quando comparam Brasil e Estados Unidos. São países muito parecidos e, ao mesmo tempo, muito diferentes.
Essa questão do casamento gay. Há quem diga que a festa que se faz pela decisão da Suprema Corte americana é uma prova de colonialismo brasileiro, porque o STF já admite o casamento entre iguais há três anos.
É uma comparação equivocada.
O maior debate na Suprema Corte nem foi o direito de os gays se casarem, foi a questão do federalismo americano. Os Estados Unidos são, de fato, uma federação, ao contrário do Brasil. Cada estado tem suas leis, que, às vezes, são bem distintas das de outros estados. No estado em que vivo, Massachusetts, o casamento gay é legalizado há mais de 10 anos. Apenas 14 estados do velho Sul não admitiam esse direito. A Suprema Corte teve de discutir se os estados podiam ou não negar esse direito, se era constitucional ou não esse poder dos estados. Decidiu que não. Bem parecido com o caso dos Direitos Civis, nos anos 60 do século passado.
Só que, nos Estados Unidos, a Constituição não especifica se o casamento tem de ser entre homem e mulher. No Brasil, sim. É nisso que se apegam parlamentares homofóbicos, como Malafaia e Feliciano. Eles gritam: “Está na Constituição!” E é verdade. Está.
O STF, ao permitir o casamento gay, legislou, o que, de certa forma, é uma ação fora da sua alçada. Mas o impedimento continua existindo na Constituição, e pode ser alegado, com é. Para o Brasil avançar realmente, sem que exista possibilidade de recuo neste assunto, o Congresso deveria mudar a Constituição. Porque esse é o papel do Congresso.
A decisão da Suprema Corte americana diz que negar o direito ao casamento a duas pessoas que querem se unir fere direitos básicos do ser humano, seja qual for o sexo dessas pessoas. Essa a grande evolução, algo que pode e deve ser copiado por outros países, inclusive pelo Brasil. Espero.

O poder do dedo

27 de junho de 2015 6

Houve algo de atávico, de ancestral, de visceral na reação de Cavani ao ataque traiçoeiro que sofreu do chileno Jara, motivando sua expulsão de campo na partida entre Uruguai e Chile, dias atrás.

A cena foi em tudo dramática.

Cavani estava concentrado no que se dava nas cercanias da bola, e Jara se aproximou à sorrelfa, por trás de seu ombro esquerdo. O chileno é quase uma cabeça mais baixo do que o uruguaio, mas isso não impediu a ação vil: Jara estendeu o dedo médio como se fosse uma pequena e afiada lança ou talvez um dardo envenenado e, de fato, foi assim que o usou: como uma arma terrível.

Mas, antes de prosseguir, preciso ressaltar uma coincidência: outro chileno, também chamado Jara, o cantor Victor Jara, teve, exatamente, os dedos esmagados com coronhadas de rifle, ao ser torturado pela repressão durante a ditadura Pinochet. Os verdugos disseram que lhe mutilavam as mãos para que ele não pudesse mais tocar seu violão subversivo.

Semelhante ao caso ocorrido com o brasileiro Antônio Maria, cronista que foi casado com Danuza Leão, autor da música Ninguém me ama. Maria teve os dedos quebrados pelos esbirros de Getúlio Vargas por causa de um artigo que publicara no jornal. Ferido, ele desdenhou:

– Tolos, pensam que escrevo com os dedos.

Bonita demonstração de galhardia, mas Jara, o jogador, mostrou que um dedo pode, sim, ferir. O que ele fez foi o seguinte: à solércia, introduziu aquele longo e ereto dedo médio entre as nádegas do desprevenido Cavani, dobrando-o depois feito um gancho e, pelo movimento do punho, muito provavelmente atingindo o alvo pretendido: o esfíncter!

Jara intuiu, ou sabia de antemão, que aquele era o ponto franco de Cavani, porque Cavani realmente ficou desconcertado.

Um antigo jogador do Inter detinha idêntica sabedoria: Carlitos, ponta-esquerda do Rolo Compressor. Eu o entrevistei em sua casa na zona sul de Porto Alegre. Carlitos era tão pequeno quanto Jara, mas, nas cobranças de escanteio, useira e vezeiramente marcava gols de cabeça. Naquela entrevista, contou-me o segredo: quando o cobrador de escanteio tocava na bola, lá no canto do campo, ele, dentro da área, fazia como Jara e introduzia um dedo pontudo precisamente na entrada do reto do zagueiro adversário. Carlitos dizia que, por algum motivo, ao sentir aquela invasão brutal e inopinada de suas intimidades, o zagueiro ficava petrificado, como que aparafusado ao chão, deixando-o livre para cabecear. Assim, tornou-se o maior goleador do Inter de todos os tempos.

Cavani sentiu o ultraje que sentiam os marcadores de Carlitos. No primeiro momento, também se quedou imóvel, tamanha a surpresa do ataque. Um soco na cara, um pontapé, até uma cusparada seriam aceitáveis, não aquela profanação. Ah, não.

E foi isso que foi: uma profanação. Cavani se sentiu violado. Ao reagir, era uma vítima defendendo, literalmente, o seu ser interior. Sua expulsão foi injusta. Foi a punição da vítima.

Veja como o ser humano é frágil: um dedo, um único dedo, e todo o equilíbrio se perde. Um dedo, nada mais do que um dedo, e está abalada a dignidade.

 

Som de Sexta

26 de junho de 2015 1

Gaúchos e gaúchas de todas as querências!

26 de junho de 2015 10

Nico Fagundes tinha aquela cara de brabo. Andava sempre pilchado por aí, dando a impressão de que, por qualquer olhar de través, puxaria do rebenque e daria uma tunda no vivente temerário que o desafiara.

Mas que nada.

Nico era um doce de pessoa, sempre bem-humorado e brincalhão, que nem guri em sanga. Entrava na Redação da Zero Hora fazendo alarde, troçando com todo mundo, arrancando risadas pelo caminho.

Essa alegria ruidosa é típica do gaúcho, e Nico era o gaúcho típico. Mais até: ele foi um dos construtores da imagem do gaúcho típico espalhada pelo Brasil. Nico, mais um punhado de tradicionalistas e cantores nativistas, mais o escritor Erico Verissimo e seu Capitão Rodrigo, esses foram os personagens que inventaram o gaúcho.

“Até domingo que vem, gaúchos e gaúchas de todas as querências!”

Essa despedida, que Nico repetiu semanalmente durante mais de 30 anos, no encerramento de cada Galpão Crioulo, é um símbolo do gauchismo. É uma saudação calorosa, amistosa, franca, como tem de ser o gaúcho. Nós, gaúchos de querências distantes, nos sentimos reconfortados só de ouvir um conterrâneo nos saudar dessa forma. Nos sentimos mais… gaúchos, e gaúcho, no caso, não é um gentílico, é um adjetivo. É ser bravo, reto, leal, amigável e feliz. Como era o Nico.

Nico, com seu irmão Bagre, é autor do segundo hino do Rio Grande, o Canto Alegretense. Só de ouvir o sobrinho do Nico, o Neto Fagundes, a entoá-lo a garganta plena e peito inflado, só de ouvi-lo, confesso, me arrepio. Ouve o canto gauchesco e brasileiro desta terra que eu amei desde guri! Ouvir o Canto Alegretense faz a gente se sentir… gaúcho. Faz a gente se sentir um pouco Nico Fagundes.

É bem bom se sentir um pouco Nico Fagundes, gaúchos e gaúchas de todas as querências!

Nico e Cristiano

Nico morreu no mesmo dia da morte do cantor sertanejo Cristiano Araújo. A imprensa brasileira deu vasto espaço à cobertura do velório de Cristiano, mas, no leste do país, não eram muitos os que o conheciam. Eu mesmo jamais tinha ouvido falar dele ou de suas músicas.

Nico é conhecido e amado em todo o sul do Brasil, mas decerto que em Goiás, terra de Cristiano, poucos sabem quem ele é, e isso que Nico foi mais do que um cantor; foi compositor, escritor, folclorista, historiador e apresentador de TV.

Isso bem mostra que, se nós gaúchos não conhecemos muito do Brasil, o Brasil também não conhece muito do que somos nós.

O Brasil não é um só, o Brasil são tantos. É um continente com culturas diferentes, economias diferentes e hábitos diferentes, mas a mesma lei que vale para o interior da selva do Acre vale para as coxilhas do Alegrete, ainda que poucos, bem poucos, nas lonjuras do Acre, saibam onde fica o Alegrete.

 

Ao Nico

25 de junho de 2015 3

O Brasil que não existe mais

25 de junho de 2015 9

É bonito ser Botafogo. Acho que vou virar Botafogo. Se me tornar mesmo Botafogo, criticarei com veemência o processo que o clube está movendo contra o Porta dos Fundos. O Botafogo está pedindo R$ 10 milhões ao Porta dos Fundos por causa de um vídeo que brinca com os patrocínios da camisa do time.

Isso não é Botafogo. O Botafogo é um time do Brasil antigo, o Brasil pelo qual os estrangeiros suspiram sem saber que não existe mais, o Brasil dos brasileiros que não se levavam a sério. Só no Brasil antigo um Garrincha seria possível, por exemplo.

Garrincha, o jogador-símbolo do Botafogo, era o que no Brasil antigo se chamava de “aleijado”. Hoje essa palavra motiva processo, mas no Brasil antigo viveu até um grande artista plástico que era chamado, imagine, “Aleijadinho”. Fico pensando como chamariam o Aleijadinho hoje. “Deficientefisicozinho?” Não pode ser… De qualquer forma, Garrincha não era deficiente físico. Era… aleijado. Na velha concepção, é claro, algo difícil de explicar em 2015.

Garrincha bebia antes dos jogos, fugia da concentração e não voltava para ajudar na marcação. Em tudo, um ser do passado, que vivia uma vida extinta, algo como Luis XIV, o Rei Sol, como Sócrates, Buda, professores da datilografia e vendedores de fita cassete.

Depois de Garrincha, o Botafogo montou um time que era conhecido como “Time do Bagaço”. Era sensacional: Paulo César Caju, que foi campeão do mundo pelo Grêmio, um cracaço que falava francês, usava cabelo black power e vestia pantalonas com a boca de sino do tamanho de um cone; Zequinha, que também jogou no Grêmio, autor de três gols num Gre-Nal de 1975, ponta clássico que jogava só de um jeito, driblando para a linha de fundo e cruzando, só; mais Jairzinho, o Furacão; e Gérson, o Canhotinha de Ouro, que fumava três carteiras de cigarro por dia. Bonito de ver aquele time jogar. Time impossível num tempo de campeonato de (argh) pontos corridos.

Naquele Brasil, daquele Botafogo, ninguém se preocupava em processar ninguém. Como as pessoas não se levavam tão a sério, elas viviam suas vidas, pronto. Está certo que às vezes dava algum problema. Até no Botafogo: uma vez, o técnico-jornalista-comunista João Saldanha sacou de um revólver e saiu atrás do goleiro Manga, a quem acusava de ter se vendido para outro time em extinção, o Bangu. Manga, para se salvar, pulou um muro de três metros de altura, demonstrando toda a agilidade que resplandeceria no Inter, oito anos depois.

João Saldanha era um tipo do Brasil antigo, inviável no atual. João Saldanha dizia verdades com coragem e mentiras com graça, parecido com Vinicius de Moraes, outro que não sobreviveria agora. Bem como Tom, Elis, Lupicínio, Iberê, João Gilberto, Dorival Caymmi. A música e o futebol brasileiros não sobreviveriam no Brasil de hoje, nem o verdadeiro Rio de Janeiro, que esse de agora é falso.

O Botafogo só não é campeão de nada porque é um Botafogo de um Brasil que não existe mais. Se quiser ser campeão, terá de mudar. Terá de deixar de ser Botafogo. Mas aí eu não serei Botafogo também. Só serei Botafogo antigo, do Brasil antigo. Acho que sou um antigo, afinal. Nós, antigos, não somos campeões no século 21.

O milagre

24 de junho de 2015 15

Uma árvore é um milagre. Estava olhando uma árvore que se ergue aqui perto de casa. É um grande e escuro carvalho. Suas raízes emergem do solo como jiboias e se transformam no tronco poderoso que dois homens juntos não conseguiriam abraçar. Ela se eleva para o céu, frondosa, orgulhosa, amenizando o clima à sua volta e abrigando uma pequena fauna, entre formigas, esquilos e passarinhos. Como é linda. Tamanha perfeição e imponência tem de ser um milagre.

Gosto de árvores. Tenho planos de visitar o Parque das Sequoias, na Califórnia, talvez ainda neste verão. Lá vive a rainha de todas as árvores da Terra, uma sequoia que já existia quando Alexandre, o Grande, usou mais a inteligência do que a força para domar o indomável garanhão Bucéfalo. Estou falando de uma árvore de 2 mil e 500 anos de idade e 82 metros de altura, tão alta quanto um prédio de 30 andares. Essa sequoia tem nome de homem: General Sherman. Deste nome não gosto. O general Sherman foi um matador de índios. Foi ele quem disse que “índio bom é índio morto”.

Os índios sabiam que as árvores são milagres.

Uma mulher grávida também é um milagre. Sempre fico encantado ao ver uma mulher grávida. Ela está “preparando outra pessoa”, como diria Caetano. Como isso é possível, um ser independente e individual se originar das entranhas de outro?

Uma mulher grávida, uma árvore, um gato se espreguiçando, uma tempestade no horizonte, o troar do trovão, o cheiro que se desprende da terra no começo da chuva de verão, o sol que se levanta todos os dias atrás do Monte Fuji, tudo isso é um milagre porque é apenas o que é. Verdade que a mulher grávida, ao contrário de todos os demais exemplos que citei, tem consciência de existir e da sua gravidez. Ela bem pode estar se preocupando com o futuro da pessoa que está dentro dela, mas o que está acontecendo com seu corpo, a formação do feto até a transformação em criança, aquele processo inteiro se dá independentemente da sua consciência. É uma atividade da natureza, como o ir e vir das ondas do mar. É um milagre.

O homem deixa de ser um milagre quando se inquieta com o que virá. Ele é o único elemento da natureza que tem a concepção do futuro. Na verdade, o homem inventou o futuro. Nem as formigas e os esquilos que acumulam mantimentos no carvalho perto da minha casa se angustiam com o futuro. Sua atividade faz parte do movimento da sua existência, como o dia que sucede a noite.

Tenho a convicção nada mística, mas completamente cerebral, de que nosso maior problema é pensar nos problemas. A cada dia basta o seu cuidado, disse Jesus. Mas aprender a viver bem o dia, sabendo que os problemas do dia seguinte só importam ao dia seguinte, isso também seria um milagre.

Os vampiros

23 de junho de 2015 29

Todo mundo quer ajudar os pobres do Brasil. É comovente. O ex-presidente Lula, que secundou o ditador Getúlio Vargas no coruscante posto de “Pai dos Pobres”, foi tão convincente em sua pregação social, que duas das maiores empreiteiras do país, a Odebrecht e a Camargo Corrêa, aceitaram doar R$ 7,5 milhões para que ele fizesse palestras a fim de ensinar o planeta a combater a fome. Quanto desprendimento desses grandes homens! Lula, Odebrecht e Camargo Corrêa unidos contra as elites brancas e a favor dos descamisados. Quem poderá vencê-los?

***

Outro paladino dos pobres é o pastor Malafaia, que anda às turras com o jornalista Boechat. Vi um vídeo em que ele (o pastor, não o jornalista) explica aos pobres como realizar o sonho mais sonhado dos brasileiros: o tal da casa própria. É assim: se você paga aluguel, tem de dar o valor de um mês para o Malafaia; se você fez financiamento, tem de dar uma prestação; se você mora de favor num quarto do apartamento de um amigo, tem de dar 30% do seu salário; se você está desempregado, nem salário recebe, tem de dar 30% do que ganha para sobreviver, como, sei lá, a féria da esmola.

Se você fizer isso, Malafaia garante que o próprio Deus lhe conseguirá uma casa quitada.

***

Lula, Odebrecht, Camargo Corrêa e Malafaia. O interesse deles pela pobreza mostra que, por menos coisas que você tiver, sempre haverá alguém disposto a deixá-lo sem coisa alguma.

***

Não é por outro motivo que as histórias de Drácula fazem tanto sucesso. Estava lendo sobre a possível descoberta do túmulo de Vlad, o Empalador, em Nápoles. Vlad, como se sabe, é o personagem da vida real que inspirou Bram Stocker a criar o vampiro da ficção. O mundo se excita com tudo que cerca o homem e a lenda. É lógico: as pessoas reconhecem a história da civilização na história do velho conde. Ele é um vampiro, e vampiros sugam o sangue dos vivos para sobreviver. Eles extraem das pessoas tudo o que elas têm, até deixá-las secas.

Quando as nações foram constituídas, 10 mil anos atrás, do que elas se alimentaram para crescer? Da escravidão e da pilhagem das guerras, como vampiros dos derrotados. Esse sistema funcionou de forma mais ou menos amadora, até o surgimento da mais extraordinária e funcional máquina militar e administrativa da História, o Império Romano, formador do Ocidente. Os romanos sofisticaram a instituição da escravidão, a ponto de um nobre contar, às vezes, com 3 mil cativos. Três mil pescoços para um único par de presas.

Com a vitória do cristianismo, porém, a escravidão perdeu sua base filosófica. Como um povo cristão aceitaria escravizar outros povos, se todos os homens são irmãos, filhos do mesmo Pai? Foi então que os vampiros descobriram um homem que, para eles, era menos humano: o negro. E o sumo da vida do negro foi extraído até a última gota, sobretudo pelos dois grandes países da América, Brasil e Estados Unidos, igualados em sua sede de sangue africano.

E hoje, quem são as vítimas dos vampiros?

Os substitutos dos escravos da Antiguidade, dos servos da Idade Média e dos negros da era mercantilista, no século 21, são os chineses que trabalham quase de graça sob o tacão do Partido Comunista, para gáudio das empresas de todo o Globo. Além dos miseráveis de vastos nacos do mundo, que acreditam que serão salvos por Pais dos Pobres ou por pastores que falam em nome de Deus.

Se você está em busca de ajuda, preste atenção: quando um partido, um líder ou um sacerdote se apresentar como Salvador, fuja correndo: ele é um vampiro.

Onde encontrar a liberdade

22 de junho de 2015 6

Malcolm X, falei que escreveria mais sobre Malcolm X, e vou, e começo contando que Malcolm X, antes de se tornar ícone mundial do movimento negro, foi gigolô amador, assaltante profissional, traficante de drogas por conveniência e adicto convicto. Era líder de uma ativa quadrilha de assaltos a residências, aqui, em Boston. Um dia, porém, foi preso, julgado e condenado a uma pena pesada: 10 anos de reclusão.

Mas, para sua sorte, e para sorte da Humanidade, Malcolm acabou sendo enviado para uma colônia penal que não havia sido construída apenas para ser penal, e sim para ser correcional.

Bem. Fazia já algum tempo que ele constatara que homens lidos se expressavam e pensavam melhor, e os invejava por isso. Assim, decidiu que se transformaria, ele também, em leitor de livros. O que era factível: a penitenciária dispunha de uma grande biblioteca, doada por um milionário filantropo. O problema era que, quando entrava nos livros, Malcolm simplesmente não entendia o que estava escrito. Seu vocabulário se limitava à gíria dos negros manemolentes do Harlem e de Roxbury.

O que ele fez, então, a fim de melhorar a interpretação de texto, é algo extraordinário. Malcolm pediu um dicionário de inglês, um caderno e uma caneta à direção da penitenciária. E passou a copiar o dicionário, página por página, palavra por palavra, até os sinais. Em sua autobiografia, ele conta sobre o começo desse processo:

“Uma coisa engraçada: neste momento, a palavra que me surge à mente, daquela primeira página do dicionário, é aardvark, uma espécie de porco africano”.

Sabe que sempre tive vontade de fazer isso? Copiar e, por consequência, compreender todo o dicionário seria como saber o significado de tudo que há no mundo. Confesso, até, que cheguei a percorrer o A, mas, como não sou um Malcolm, não copiei todos os verbetes, só os que não conhecia. Como “aférese”, palavra bem linda, toda proparoxítona e requintada. Palavra de tese científica, de arrazoado de causídico, de relatório de pesquisa de sociólogo socialista, de artigo de psicanalista que gosta de escrever “empoderamento”. Aférese, por favor, é muito melhor do que empoderamento! Pena que aférese signifique o contrário da sua aparência. Aférese é a essência do coloquialismo. “Tá”, por exemplo, é uma aférese. Que decepção.

Mas o que importa é que, dentro do presídio, Malcolm teve acesso aos livros e à instrução de professores da Harvard e da Boston University, que davam palestras e cursos aos detentos. O presídio, para ele, foi um local de regeneração, não de degradação. No presídio, ele se converteu de bandido vulgar em herói de um povo.

Em um trecho de sua autobiografia, talvez sem perceber, Malcolm X dá um testemunho emocionante do poder do conhecimento sobre a alma do homem. Ele discorre a respeito de seus anos na prisão e conta que, entre as correspondências que escrevia e a leitura de livros, “os meses foram passando sem que sequer pensasse que estava preso”. E arrematou com uma frase que diz tudo o que há a dizer: “Para dizer a verdade, até aquele momento eu nunca fora tão verdadeiramente livre”.

Filhos, melhor tê-los

20 de junho de 2015 14

Caetano Veloso, certa feita, observou sobre a paternidade:

“Se eu disser que ter filho é a melhor coisa do mundo, vou parecer essas moças que dão entrevista à tarde, na TV. Mas é verdade: ter filho é a melhor coisa do mundo”.

Caetano estava certo: declarações desse tipo são feitas por moças que dão entrevista à tarde, na TV. E também por mães e pais do Facebook ao narrarem historinhas de seus rebentos que eles anunciam como engraçadas, mas que na verdade acham geniais. E outros tantos pais sempre deslumbrados com as reações de seus pequenos às contingências da vida. Afinal, façanhas cotidianas de crianças sempre são graciosas e rendem comentários elogiosos.

Só que há o seguinte: ter filho é, realmente, a melhor coisa do mundo.
Tornar-se pai é como viajar. As coisas entram em outra perspectiva. Tudo aquilo que parecia importante vira secundário. Até as outras pessoas. Até você mesmo.

***

Minha amiga Marianne Scholze tem uma filhinha com meu amigo Leandrão Behs, ambos jornalistas dos bons. Outro dia, ela escreveu o seguinte no Facebook:

“Que mal há de afligir a pessoa que ouve ‘Tu é a melhor mãe do mundo’, apenas por ter servido um prato de sucrilhos?”

É isso! É isso! Venham todos! Não gostam de mim? Querem me importunar? Venham! Porque, olhe aqui, tenho cá comigo, pronto para me defender, o sorriso do meu filho e, quiçá, a crença dele de que sou o melhor pai do mundo.
Não preciso de mais nada. Nem eu, nem a Mari e o Leandrão, nem o Caetano. Um sorriso é o que nos basta para inflar o peito e arrostar a vida.

***

Escrevi um livro acerca do meu filho e da gravidez da minha mulher. Meu Guri, o título. Meu amigo Piangers vai lançar um livro sobre suas filhas. Papai é Pop, o título. Veja como somos todos pais embevecidos. E não há novidade nisso. Podemos ser pop com nossos guris e gurias, mas sentimos o mesmo que sentiram pais zelosos de todos os tempos. Acreditamos, sempre, que nossos filhos são especiais. O meu é. Ele faz algo que nenhum outro menino faz: come brócolis. E adora.

E, há cerca de um ano, esse menino enfrentou uma circunstância mais pedregosa do que hortifrutigranjeiros hostis, em seus seis anos de idade: mudou-se para outro país, em que se fala uma língua completamente diferente da sua língua materna. Eram um país novo, uma cidade nova e uma escola nova. Ao deixá-lo na sala de aula, me sentia como se o deixasse nos degraus do cadafalso. Nos primeiros dias, contaram-me depois as professoras, ele tentava conversar com as outras crianças. Mas ninguém o entendia, e ele não entendia ninguém. Nem as professoras. Meu menino ficou triste, chorava à porta da sala de aula. Mas foi em frente, com coragem.

Agora está cheio de amigos americanos, chineses, japoneses, israelitas, argentinos, franceses, meninos de todo o mundo. Pois era exatamente sobre alguns de seus amigos multinacionais que conversávamos, ontem mesmo, ele e eu, seu velho pai brasileiro. Falávamos em inglês, e fui pronunciar uma palavra trivial, boca, “mouth”. Ele riu:

– Não é assim que se fala, papai!

E me corrigiu, mostrou como era, a língua entre os dentes, até eu aprender. Depois do que, foi brincar, feliz, enquanto eu pensava que Caetano e as moças das tardes da TV sabem das coisas: ter filho é a melhor coisa do mundo.

Uma causa para viver

19 de junho de 2015 11

Gastei um bom dinheiro para comprar a autobiografia do Malcolm X, escrita em colaboração com Alex Haley, o autor de Negras raízes. Custou caro, porque não encontrava o livro em lugar algum. Mas valeu a pena. Malcolm X viveu uma vida cinematográfica, e Haley soube imortalizá-la em papel. Ainda vou escrever mais sobre esse livro.

Por ora, quero me deter nos últimos acontecimentos. Um em especial: a história ilustrativa daquela líder de uma entidade de defesa dos afro-americanos, que é branca de leite e se fez passar por negra.

O caso dessa moça é curioso. Nas fotos e nos filmes da adolescência, ela aparece loira como uma Xuxa. Para transformar-se em negra, passou por um processo de escurecimento da pele e encrespou os cabelos até ficarem ao estilo black power.
Rachel, esse o nome dela, Rachel é meio que o oposto de Michael Jackson, que nasceu com cabelo duro, nariz batatudo e pele negra, e morreu com cabelo ondulado, nariz fino e pele esbranquiçada. Ela é o contrário, também, do atacante Carlos Alberto, do Fluminense, um mulato que, antes de entrar em campo, no começo do século 20, tapava o rosto de talco a fim de parecer branco. As torcidas adversárias, debochadas, gritavam das arquibancadas: “Pó de arroz! Pó de arroz!”. Era uma tentativa de constranger Carlos Alberto e envergonhar o Fluminense, mas, como sói acontecer no futebol, a torcida do Flu incorporou o apelido e ele virou símbolo do clube.

Um dos maiores jogadores do futebol brasileiro em todos os tempos, o lendário centroavante Friedenreich, que, dizem, marcou mil gols, fazia algo parecido. Fried era filho de um alemão com uma negra brasileira. Para desmanchar o cabelo pixaim, untava a cabeça de óleo no vestiário e consumia horas diante do espelho, espichando os fios.

Esses exemplos bem mostram como os negros eram discriminados no Brasil, após a abolição da escravatura. O racismo era “natural”, pode-se dizer. Depois, a discriminação racial misturou-se com a discriminação social. O negro pobre e o branco pobre sofrem juntos, no Brasil, e pelo sofrimento acabaram por atingir certa igualdade.

Mas esse é tema para outra crônica. Agora me ocupo de Rachel. Ela tem irmãos adotivos negros, provavelmente testemunhou o preconceito. Não havia nada, porém, que a forçasse a experimentá-lo em pessoa. Portanto, ela quis viver a discriminação, quis tornar-se negra e, mais, decidiu dedicar sua vida ao combate ao racismo.

Não creio que Rachel tenha feito isso para colher qualquer vantagem material. Ela decerto é sincera em sua atuação. E é isso que é o mais interessante: as pessoas estão sempre em busca de um sentido para suas vidas. Uma causa, uma única causa, se elevada, pode elevar também aquele que combate por ela. Bater-se contra o preconceito é bonito. Rachel, de certa forma, é um símbolo deste nosso tempo de pessoas que estão sempre à procura: à procura de um amor, de uma ideologia, de uma paixão, de uma bandeira, até de um ódio, tanto faz. É preciso haver uma razão para se estar por aqui, respirando debaixo do sol.

Como é realmente o Brasil

18 de junho de 2015 17

“Como é, realmente, o Brasil?”, pergunta-me Richard, americano que uma só vez afundou os tornozelos pálidos na areia de Copacabana e, desde então, passou a interessar-se por tudo o que se relaciona com o Patropi de Ben Jor e Bündchen. O Brasil vive a desconcertá-lo, suspira.

Penso um pouco antes de responder. Como é, realmente, o Brasil?

Rick diz não saber, por exemplo, se o brasileiro é alegre ou agressivo.

Bem. Decerto que o brasileiro é povo alegre. O que não significa que não seja, também, violento. Curioso isso, porque o Brasil não é um país guerreiro. Os Estados Unidos, sim. Um soldado é olhado com admiração, nos Estados Unidos. As pessoas não deixam que um soldado entre numa fila e, nos restaurantes, não raro ele é dispensado de pagar a conta do jantar. Porque, afinal, os Estados Unidos estão sempre envolvidos em alguma guerra. O Brasil, quase nunca. Mesmo assim, o brasileiro mata, sobretudo outros brasileiros. Em um ano, morrem mais brasileiros assassinados do que todos os americanos mortos em mais de uma década de guerra no Vietnã.

É que é muito fácil arrumar uma arma de fogo no Brasil, conto a Rick, e ele balança a cabeça em sinal de compreensão e lembra que em vários Estados americanos as armas também são livres – no Oregon, você vê um pai com um nenê no colo e uma pistola na cintura. Mas aí quem balança a cabeça sou eu, só que em negativa, para contar que, não, não é o que ele está pensando, não existe essa liberdade de posse de armas no Brasil, só que as pessoas têm armas. O problema é a lei, observo. Não que as leis não sejam boas. São. A Constituição do Brasil é avançada e tudo mais. Mas as leis não são cumpridas. Quer dizer: são cumpridas, mas apenas por quem está dentro da lei. Os descumpridores da lei, quando apanhados e condenados, o que acontece é que a pena deles é muito branda. O que não quer dizer que as cadeias não estejam cheias. Estão. Prende-se bastante, no Brasil, só que muitos que são presos de manhã são soltos à tarde, nem vão para os presídios, e os que vão para os presídios às vezes cumprem penas leves para crimes pesados, embora vários nem tenham sido julgados ainda e continuem presos. Então, a condenação, no Brasil, é terrível e suave ao mesmo tempo, porque muitos pobres que são presos não têm condições de pagar uma defesa decente. Lembre-se, Rick: o Brasil é um país de pobres, mesmo que seja a oitava economia do mundo. Na verdade, o Brasil é rico e o povo é pobre, o Estado arrecada fortunas, mas está sempre quebrado, o que não significa que seja um Estado pequeno, ao contrário, é um Estado gigantesco, porém fraco, ele está em toda parte e se mete em tudo, sem de fato fazer nada, e assim as pessoas ficam esperando muito do Estado e o Estado até concede muito, só que não o que deveria conceder, como educação, segurança e saúde, que ele até concede, mas não como tinha de ser. Aliás, o nosso sistema de saúde é melhor do que o americano, ainda que o americano funcione e o brasileiro, não. Isto é, trata-se de um excelente sistema, pena que não tenha dado certo, como todo o resto, entende?

Richard me olha, piscando. E repete:

– Mas como é, realmente, o Brasil?

Fecho os olhos. Abro.

– Alegre – respondo, suspirando. – Pode dizer pra todo mundo que o Brasil é alegre.

Fazer com amor

17 de junho de 2015 4

Anteontem conversamos com o Tostão no Timeline.

Aliás, anteontem. Poucas vezes, ouvi alguém falar, claramente: “anteontem”.

Conheço muita gente que diz “ontionti”, aí sim. Tenho simpatia por “ontionti”, acho cândido e levemente brejeiro, mas simplesmente não consigo falar isso. Agora: confesso já ter falado “antiontem”, o que me causa arrepios, porque “anti” ontem seria algo oposto ao ontem. Ou seja: o amanhã.

Está bem. Chega de tergiversações. Voltemos ao Tostão, com quem conversamos… anteontem. Falamos sobre Zito, que morreu. Nossa conversa foi ótima, porque amena. O futebol é bom quando é tratado com amenidade. Tostão ama o futebol na sua essência, o futebol do jogo jogado, da bola na grama, do virtuosismo e da plasticidade, e isso é bonito. É como um amante da música, da literatura, das artes ou do cinema falando sobre aquela atividade que lhe dá tanto prazer: ele passa a sensação prazerosa ao interlocutor.

Pessoas assim são abençoadas. Elas sempre encontrarão sentido na vida. Você está triste? Pense na beleza de um lançamento em profundidade de Roberto Rivellino, a bola viajando por 60 metros, até pousar, doce como o beijo da mulher amada, no pé direito de Gil, o Búfalo Gil, jogador de força e velocidade, que se consagrou graças à precisão dos passes do Riva. Isso que a torcida não queria que o Gil jogasse, queria o Cafuringa, ponta de drible fácil, mas que marcou só uns oito gols na carreira.

Cafuringa morreu moço, 42 anos. Jogava uma partida de veteranos e machucou o braço e a perna. Começou a doer, mas ele não quis ir ao médico. Tinha medo de hospital. Dois dias depois, o braço e a perna estavam inchados como duas jiboias, e ele não conseguia comer. Quando a família enfim o arrastou ao hospital, era tarde demais.

Mas essa é uma história triste, melhor não lembrar disso, melhor lembrar, talvez, da forma como Falcão corria com a cabeça levantada, a grande cabeleira encaracolada esvoaçando. Falcão e Batista tinham uma competição de melenas, naquela época. Hoje ambos são calvos, veja a ironia do mundo.

Palhinha, do Cruzeiro, usava o cabelo bem curto, à escovinha, como se dizia, mas era o último a entrar em campo, porque ficava ajeitando cada fio ao espelho, antes das partidas. Palhinha calçava chuteiras número 37,5, que mandava vir da Europa. Ele foi, exatamente, o sucessor de Tostão no Cruzeiro.

Tostão parou de jogar prematuramente, aos 26 anos de idade. Levou uma bolada no rosto e descolou a retina. Ainda posso ver a foto dele saindo de campo todo ensanguentado. Veio para os Estados Unidos a fim de tentar se recuperar, mas os médicos americanos disseram que, se levasse outra bolada, corria o risco de ficar cego.

Tostão abandonou o futebol e ficou amargurado. Não falava mais sobre o jogo. Não dava entrevistas. Tornou-se o “doutor Eduardo”, atendendo em Belo Horizonte. Mas seu amor pelo futebol foi maior do que a dor. Logo, ele estava se encantando com outros craques, outras jogadas, outros grandes times, e começou a se abrir, e cedeu à paixão e, em pouco tempo, estava falando e escrevendo sobre o jogo, sobre o que mais gosta na vida. Assim, Tostão se elevou de novo no mundo do futebol e suavizou sua vida. Porque faz o que gosta, e faz sem rancores, com doçura. Com amor. Os outros sentem, quando você faz algo com amor.