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Posts de julho 2015

Uma conversa com Jorge Furtado

31 de julho de 2015 19

“Pesada é a pedra, pesada é a areia,
Mais pesada ainda é a cólera do tolo.”

Isso é sabedoria antiga, velha de 20 séculos. Arranquei o poema do Livro dos Provérbios, que a ficção hebraica atribui a Salomão, mas que, na verdade, é uma compilação de pequenos textos de uma miríade de autores, muitos deles egípcios ou de outras extintas nações orientais.

Realmente, a cólera, em si, já é pesada; a cólera do tolo é insuportável.

O Brasil, hoje, vive em meio a cóleras. A dos tolos você precisa ignorar, ou ela o amassará com seu peso. A dos sábios pode ser suportada, porque é mais leve.

Travei ontem uma conversa eletrônica com um brasileiro que julgo sábio, o cineasta Jorge Furtado. Falamos, exatamente, sobre a cólera que faz rugir o país, nestes dias tormentosos. As pessoas tomaram suas posições, assumiram os seus lados e não saem mais de trás das suas trincheiras. É pena, porque o debate faz evoluir.

Não concordo com todas as opiniões do Jorge Furtado, ele não concorda com todas as minhas, mas tivemos uma conversa saudável. Natural: ele não é um tolo. O desagradável, no inviável debate com os tolos, é que eles partem de pressupostos: como você não está no “time” deles, você não está errado: você é desonesto. Isso é muito rasteiro. E muito cansativo.

Vou entrar no conteúdo: não gosto do governo do PT; o Jorge Furtado, o Luis Fernando Verissimo e o Moisés Mendes gostam. Temos opiniões diferentes, mas, ainda assim, admiro os três e os respeito. Não espero admiração de nenhum deles. Respeito, sim. Porque minhas críticas ao governo do PT não são feitas porque defendo “as elites”, porque meus patrões assim o exigem, porque me vendi para o sistema ou porque apoio um golpe para derrubar o governo eleito. Não. As críticas que faço são produto de minhas reflexões, de minhas ideias e de minhas crenças. Se são tolices, são tolices honestas.

Agora: se sou tolo, não sou um tolo colérico. A cólera dos tolos (e dos sábios) brasileiros levou o país a raciocínios superficiais, do tipo:

Bolsonaro é contra o governo do PT; logo, quem é contra o governo do PT é a favor do Bolsonaro.

Não gosto das opiniões e das atitudes de Bolsonaro. E também não gosto do governo do PT. Não porque o governo é do PT, partido no qual outrora votei; porque é um governo ruim. Todas as supostas conquistas econômicas do PT, todos os índices positivos de hoje poderiam ser apresentados ontem pelo governo militar. Pegue o Brasil de 1964 e compare com o de 1985: o Brasil terá melhorado em quase tudo. Como o de 2002 comparado ao de 2015. Mas nem num período, nem no outro, houve melhora estrutural que pudesse construir uma nação de verdade. Você não faz uma nação de verdade permitindo ao trabalhador que compre um automóvel; você faz permitindo que o filho dele tenha uma educação de qualidade, tão boa que ele possa competir com o filho do rico para entrar numa universidade. Você não faz uma nação de verdade dando ao operário condições de ele viajar de avião; você faz ao dar a ele condições de passear à noite em sua própria cidade, sem medo de ser assassinado.

O PT podia ter feito isso. Tinha prestígio, força e condições econômicas para fazê-lo. Não fez. Essa é minha crítica, amarga crítica ao PT. O que não me ombreia com Bolsonaro, Cunha, Feliciano e tucanos em geral, o que não me torna golpista, o que não é fruto de interesses. Entendo que sábios eventualmente não concordem comigo. Não aceito que eles não entendam que a minha tolice cabe apenas a mim.

 

Por que o PT fracassou

30 de julho de 2015 29

O pior do governo do PT não é a corrupção. É a legitimação de uma espécie de guerra de classes no Brasil. Porque é assim que o governo se justifica. Este seria um governo “dos pobres”, um governo “de esquerda”, o que, por si, seria bom. Finalmente, os pobres estariam representados pela esquerda com consciência social. Os interesses dos ricos teriam sido contrariados para que os pobres, enfim, ascendessem socialmente.

Só que isso não é verdade.

Esqueça a corrupção. Esqueça o autoritarismo inato do PT. Esqueça as sabotagens à democracia representativa. Concentre-se apenas no que os governistas apresentam como pretexto para os seus defeitos: a suposta defesa dos pobres, o mérito intrínseco de ser “de esquerda”.

É um pretexto falso. É uma crença mentirosa.

Por quê?

Nenhuma classe social, nenhuma categoria, nenhum país pode ser bem atendido se for só por programas e obras materiais. O Bolsa Família, de longe a melhor ação do governo do PT, é, por natureza, emergencial. Em tese, você resolve aquela questão premente e depois passa para a administração de fato dos problemas da nação.

Muita gente me critica dizendo que, há alguns anos, escrevi colunas favoráveis ao governo do PT e que agora mudei. Não mudei. E nem o governo mudou. Quando o governo começou, pensei: Lula está tratando do que é urgente, em seguida passará às questões estruturais.

Nunca passou.

Lula e os governistas se acomodaram com a facilidade dos programas, com o populismo e com as obras de aço e concreto, fonte borbulhante de corrupção. Isso já foi feito pelo governo militar. Minha mãe conseguiu comprar nosso apartamento graças ao BNH, um programa habitacional. Paguei minha faculdade graças ao crédito educativo, um programa educacional. O Mobral era um bem-intencionado programa de inclusão social por meio da alfabetização. Da mesma forma, a ponte Rio-Niterói, a freeway, a refinaria Alberto Pasqualini, a Usina de Itaipu e outras tantas obras de infraestrutura eram uma espécie de PAC dos militares.

Mas onde ficaram as reformas estruturais depois de 21 anos de governo dos generais? Onde estão agora as reformas estruturais, depois de quase uma década e meia de governo petista?

Em lugar algum, porque não foram feitas.

Os pobres, e por consequência o Brasil todo, só serão realmente atendidos quando o país fizer reformas por dentro, quando for reestruturada a educação básica e fundamental, quando for instituído um federalismo de fato, quando houver uma reforma tributária, quando houver reforma na segurança pública, com mudanças no Código Penal, nas polícias e no sistema prisional, quando o sistema de saúde deixar de ser bom só na teoria.

É assim que os pobres serão ajudados de verdade no Brasil. Só assim. Por que o PT não fez essas mudanças quando tinha chance de fazê-las?

Por má intenção?

Não.

Simplesmente porque não sabe fazê-las.

O PT jamais teve um projeto de administração do Brasil. Sempre teve um projeto de poder. A ideia era chegar lá e depois ver como “ajudar os pobres”. Empossado, Lula foi tentando, palmeando no escuro. Lançou o Fome Zero. Não deu certo. Adotou o velho programa do Bolsa Família. Deu certo. Lula viu que esse era o caminho da popularidade. Seguiu por ele. E esqueceu-se do resto. Esqueceu-se de que o Brasil precisa de um trabalho duro, difícil, profundo e, muitas vezes, impopular para se tornar uma nação verdadeiramente justa.

Não festejo o fracasso do PT. Ao contrário: lamento. Perdemos tempo. E pior: acirrou-se uma disputa ideológica rançosa, de teor clubístico, que só nos empurra para discussões vazias. O PT não fracassou por ser supostamente de esquerda, não fracassou porque supostamente quer ajudar pobres. Fracassou porque não sabe governar.

 

Ela pintou o cabelo de azul

30 de julho de 2015 1

Conheci uma moça que pintava uma mecha dos seus cabelos de azul. Ela tinha a voz rouca e a pele morena. Namorava um amigo meu e, não, eu não a desejava, de forma alguma, mas admirava aquela pequena ousadia. Pintar o cabelo de azul, imagina. Estávamos nos anos 90, um tempo em que os cabelos não eram azuis. Hoje são.

Nos Estados Unidos, a todo momento deparo com mulheres de cabelos coloridos. Curiosamente, as americanas do Norte não parecem tão vaidosas quanto as americanas do Sul. Não usam salto alto no dia a dia e vestem-se como quem pegou o primeiro pano que estava pendurado na cadeira, de manhã cedo. Na rua das cidades tipicamente americanas, você vê mulheres até de… moletom!

Outro dia, testemunhei a conversa entre uma italiana e uma francesa que se queixavam da forma como as americanas se vestem. Para uma italiana, o despojamento das americanas é revoltante, porque elas, italianas, se sentem constrangidas de exercitar sua natural faceirice latina. Realmente, realmente. Certa feita, passei a manhã de sábado sorvendo um cappuccino numa mesa de beira de calçada nas imediações da Piazza di Spagna, em Roma. O que assisti ali foi um dos mais glamorosos desfiles do gênero feminino da minha vida. Registrei, em especial, que as italianas apreciam entrar em justíssimas calças brancas.

Já as francesas exalam aquela elegância magra, aquela delicadeza decidida. Por algum motivo, acho que são um pouco brabas.

Já no interior americano, uma mulher que se enfeita muito durante o dia destoa das nativas e chama a atenção.

Claro, não estou falando de Nova York, por exemplo. Nova York, como Miami e Los Angeles, é uma cidade voltada para fora dos Estados Unidos. Você caminha pelas ruas da Big Apple e encontra mulheres paramentadas como se estivessem prestes a subir na passarela. Um dia, num final de tarde, perto do Relais de L’Entrecôte, avistei uma jovem longilínea, encarapitada em saltos de uns 15cm de altura, as longas pernas mal cobertas por uma minissaia de palmo e meio de largura, os olhos de felina examinando o mundo com enfaro, a maior cara de modelo. Eu a vi e fiquei nervoso.

Mas, nas pequenas cidades, agora, durante o verão do Hemisfério Norte, o que as mulheres fazem é meter-se em roupas sumárias, coisinhas mínimas mesmo, do tamanho da minissaia da modelo new yorker, com uma diferença importante: o gosto das americanas do interior é andar o dia inteiro com aqueles shorts de corrida. São shorts bem curtos e leves e de cores chamativas. Só que serão sempre comuns shorts de corrida, e elas os usam até para ir a bares. E, nas gramas das pracinhas, as mulheres estendem toalhas e se deitam de biquíni para tomar sol, tudo muito natural, não há nenhuma insinuação sedutora, nenhuma sugestão, nada.

Mas, entre a seminudez assexuada das americanas e a sensualidade aparatosa das italianas, prefiro a brasileira dada a atitudes como, numa primavera, por algum motivo, pintar um feixe dos seus cabelos negros de azul. Um mínimo atrevimento, uma rebeldia sutil, um rosnado de fêmea.

 

A comovente história do cavalo Farrapo

28 de julho de 2015 15

Esta é uma história real. Deu-se poucos meses atrás. Seu protagonista é o cavalo Farrapo, um mangalarga marchador de estirpe, campeão do Brasil. O proprietário de Farrapo, um estancieiro de outro Estado, queria vendê-lo para um rico estancieiro gaúcho. Ofereceu-o por R$ 100 mil. Depois de alguma ponderação de parte a parte, o negócio foi fechado.

O estancieiro gaúcho, que é meu amigo, contou sobre o dia em que viu Farrapo pela primeira vez: era um garanhão branco como a pureza, vistoso como um diamante, elegante como um felino e orgulhoso como um fidalgo. Chegou à fazenda feito o príncipe que era, observando os súditos do alto de sua cabeça empinada e poderosa.

O capataz quis montá-lo. Não conseguiu. Farrapo derrubava qualquer ser humano que ousasse tentar dominá-lo. Meu amigo o deixou na estância e foi tratar de seus negócios tantos. Farrapo empenhou seu vigor, então, como reprodutor. Semanas se passaram até que meu amigo voltasse àquela fazenda, uma entre várias de suas propriedades. Ao chegar, foi logo perguntando pelo Farrapo. O capataz, antes de responder, vacilou por uma dúzia de segundos:

– E-er… Ele está bem…

Meu amigo sentiu que havia algo errado:

– O que houve? Diz logo o que está acontecendo!

– É que… É que o Farrapo está namorando um burro…

– O quê?

Era verdade. O estancieiro foi lá e viu com seus próprios espantados olhos que Farrapo, agora, se relacionava amorosamente com um burro. Ficou furioso. Não que seja homofóbico, não se trata disso, não acionem o Jean Wyllys, mas é que Farrapo, simplesmente, não queria mais saber das éguas. Só se interessava pelo burro. Essa era a vida de Farrapo na estância: não podia ser montado, não montava égua alguma, só o que fazia era correr livre pelos campos e refocilar-se com o burro.

Meu amigo achou a situação insustentável. Ordenou:

– Capa esse cavalo!

A determinação horrorizou os empregados. Mas como? Capar o Farrapo? Um garanhão de tamanha qualidade? Não, não devia, não podia. Mas o estancieiro estava inflexível:

– Capa!

A notícia da ordem terrível alcançou os ouvidos do antigo dono do Farrapo, que se revoltou:

– O Farrapo ser capado?! Nunca! Eu compro de novo o cavalo!

Mas o fazendeiro gaúcho havia decidido, e não voltaria atrás:

– Capa!

– Mas…

– Capa!

Caparam.

Sim.

Caparam.

Cumprida a ordem, meu amigo dedicou-se mais uma vez a seus outros afazeres e deixou a fazenda por algum tempo. Quando retornou, o capataz quis saber:

– O senhor quer ver o Farrapo?

Ele disse que não. Preferia não encontrar outra vez aquele cavalo. Mas o capataz insistiu e trouxe-o do fundo do campo, puxando-o pela rédea. O que meu amigo viu, naquele momento, o enterneceu. Farrapo era outro. Veio devagar, cabisbaixo, triste mesmo. A antiga dignidade tinha ido embora acompanhada pela virilidade. Ante a cena deprimente, meu amigo suspirou, pesaroso. Mas ainda não era o fim da história. Porque, em um minuto, sem ser chamado, quem veio em direção a eles foi o burro. Aproximou-se lenta, mas decididamente, olhando para Farrapo e apenas para Farrapo. Encostou-se ao seu lustroso pelo branco. E começou a acarinhá-lo com a cabeça, com o pescoço, com todo o corpo. Brad e Angelina, Romeu e Julieta, Abelardo e Heloísa, todos perderiam para o burro e o cavalo. Porque era amor. O que havia entre eles, genuinamente, era amor.

 

Quem é a elite perversa de Lula

27 de julho de 2015 103

Lula acha que os governos do PT são criticados e que a popularidade de Dilma é de apenas 7% porque graças a ele, Lula, os pobres agora viajam de avião e comem em restaurantes.

Sério, ele pensa isso.

Sua frase, durante um discurso para 200 pessoas no ABC paulista, no fim de semana, foi a seguinte:

“Eu ando de saco cheio. Tudo que é conquista social incomoda uma elite perversa neste país”.

É estranho. Jurava que a elite amava Lula. Afinal, vejamos:

1. Nunca na história deste país, os banqueiros obtiveram tantos lucros como nos governos do PT;

2. A elite política, representada por Maluf, Sarney, Calheiros, Temer, entre outros, sempre esteve fechada com Lula. Um de seus aliados, Fernando Collor, inclusive, pôde montar uma linda coleção de carros de playboy durante as administrações petistas;

3. Empresários emergentes, como Eike Batista, emergiram de vez graças a generosos empréstimos do BNDES, mesmo que depois tenham submergido;

4. Há vários amigos próximos de Lula morando atualmente no Paraná, todos com sobrenomes famosos, como Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. Um deles até o apelidou, carinhosamente, de “Brahma”.

Esses é que são a elite do Brasil. A elite do Brasil mora em tríplex, como Lula. Roda em Maseratis, como Collor. Tem contas na Suíça, como Odebrecht. Assalariados, como eu e a maioria dos meus amigos, não pertencemos à elite. Mas Lula quer dizer que sim. Quer dizer que eu, filho de professora primária e neto de sapateiro, que sustento minha família com meu salário, amigo de aposentados que ganham mil reais por mês, de funcionários públicos que pagam aluguel, de jornalistas que andam de ônibus, Lula quer dizer que eu e toda essa gente que sofre com o desconto do Imposto de Renda, com a falta de água e de luz a cada chuva, com as ruas esburacadas, com os assaltos, com a educação deficiente, com os hospitais lotados e com o preço do tomate, Lula quer dizer que nós somos da elite?

Não somos, Lula. E tampouco nos importamos, eu e todas, absolutamente todas as pessoas que conheço, com pobres que frequentem restaurantes ou aeroportos. Nos importamos é com um país em que os assalariados pagam imposto para ter segurança, saúde e educação públicas e, ao mesmo tempo, pagam por segurança, saúde e educação privadas. Nos importamos é com um país que coloca presos em masmorras medievais, um país em que 60 mil pessoas são assassinadas e outras 50 mil morrem em acidentes de trânsito a cada ano, um país em que são gastos bilhões para construção de estádios em lugares onde praticamente não existe futebol, um país que tem sua principal estatal sangrada em bilhões de dólares pela navalha da corrupção. É com isso que nos importamos, nós, que você chama de elite perversa. Nós, elite perversa? Não. Elite perversa são seus amigos magnatas que o levam para passear de jato fretado, são seus intelectuais apaniguados, seus jornalistas financiados, seus donos de blogs comprados, seus parlamentares cooptados. Você, Lula, e os parasitas dos trabalhadores do Brasil, vocês são a elite perversa.

 

Grêmio jogou bem e merecia a vitória

25 de julho de 2015 29

O Grêmio perdeu dois pontos contra o Sport, é verdade.
Mas perdeu-os fazendo o que tinha de fazer.
Dominou todo o jogo, se impôs, pressionou, manteve o adversário empacotado em seu campo de defesa.
O que aconteceu foi obra do acaso, que também faz parte do futebol.
Atrás, o jovem goleiro Tiago falhou no gol; na frente, o goleiro do Sport estava num dia especial e impediu o segundo gol do Grêmio.
Desta vez, até Fernandinho e Brian Rodriguez entraram bem.
Fernandinho foi uma opção aguda pela esquerda e Brian só não marcou de cabeça porque o goleiro fez uma defesa acrobática.
O Sport jogou retrancado, jogou como time pequeno, desesperado pelo empate. Conseguiu seu objetivo, mas por um golpe de sorte.
O Grêmio merecia vencer.

Não confie em ninguém com mais de 30 anos

25 de julho de 2015 3

Aos 30 anos de idade, o homem é definitivamente homem. Verdade que, hoje em dia, as pessoas amadurecem mais tarde, ou não amadurecem nunca, mas aos 30 anos um atleta já é veterano e uma mulher continua sendo balzaquiana, como era no século 19.

A propósito, esse breve romance, A mulher de 30 anos, não é dos melhores de Balzac, mas se consagrou devido ao título e ao tema. Porque os 30 anos são emblemáticos para a mulher – ela começa a se aproximar de um importante limite fisiológico: o limite da maternidade. Balzac, ao exaltar a atormentada mulher dessa faixa etária, deu um grande golpe de marketing, porque, depois da barreira dos 30, a mulher quer saber tudo sobre ela mesma.

Não confie em ninguém com mais de 30 anos, dizia uma antiga música do Marcos Valle, no tempo em que os jovens e seus hormônios rebeldes iam mudar o mundo. Ou seja: abaixo dos 30, a juventude; acima, a decrepitude.

Um brasileiro de 30 anos, imagine, votou pela primeira vez para presidente em 2002. Isto é: mesmo sendo ele já um homem feito ou uma mulher madura, seu tempo de consciência política foi todo preenchido por governos do PT.

Que importância tem, para esse cidadão, o antigo governo do PSDB? Para ele e tantos outros, FHC é pouco mais do que uma sigla vaga, como JK.

Eis o fato: o PT é o presente dos brasileiros, e é o passado também. Algo que se passou quase década e meia atrás, quando não existia Facebook, quando Bin Laden ainda era ameaça, quando o Grêmio era campeão, algo que se passou nesse tempo remoto é algo muito impreciso, muito pouco palpável, algo sem relevância.

Só quem se importa com os governos pretéritos dos tucanos são os petistas. Porque precisam deles. Para os petistas, é fundamental mostrar que todos os governos brasileiros foram ruins, que todos foram corruptos e que todos serão. Que não fará diferença tirar o PT do poder para substituí-lo por outros que são iguais ou até piores, como o vilão do momento, Eduardo Cunha.

E o PSDB não faz nada que demonstre o contrário. O PSDB é tão inexpressivo, que, pela última pesquisa, seu principal líder, Aécio Neves, não alcançaria 50% dos votos. Quer dizer: mesmo com o PT derretido, Aécio precisaria de dois turnos para ganhar a eleição.

A porteira está aberta para quem quiser passar, como canta aquela musiquinha infantil. Quem passará?

 

Som de Sexta

24 de julho de 2015 1

É velha, mas é boa:

A cantada infalível

24 de julho de 2015 12

Um bom amigo meu, solteiro militante, conhecedor dos escaninhos mais esconsos da noite porto-alegrense, esse meu amigo, contrariando todas as expectativas, está namorando há um ano.
Um ano!
Quando os amigos comuns perguntam que centelha faiscou entre o casal para provocar tamanha transformação naquele lobo solitário, ele e a namorada contam como se viram pela primeira vez.
A mágica aconteceu assim: era já uma e meia da madrugada, e meu amigo estava encostado com sua típica manemolência à parede de um famoso bar da cidade, sorvendo sua cerveja às bicadas. Ela o viu e decidiu tomar a iniciativa. Aproximou-se. Perguntou, a sedução em cada vogal:
– Tem fogo?
E o meu amigo, erguendo a sobrancelha esquerda e emprestando um tom rouco à voz:
– Só no atrito…

***

Algumas mulheres teriam o que cronistas d’antanho chamariam de frouxos de riso, ao ouvir essa resposta. Mas a namorada do meu amigo ficou paralisada de surpresa, sem ação. Deu certo. Tanto que eles estão juntos até hoje.
Fico pensando se o sucesso do relacionamento não se deu também porque ele ficou surpreso por ela não ter se evadido ante essa resposta. “Só no atrito”, imagine. De qualquer forma, o ingrediente que fundiu o casal foi, mesmo, a surpresa.
Era do que queria falar. Da surpresa.

***

O ponta-esquerda era, quando existia, um profissional da surpresa, assim como meu amigo era profissional do que se chama de “noite forte” de Porto Alegre. Achei que nunca mais veria um ponta-esquerda, até o jogo do Inter no México. Lá estava ele. Pequeninho e magrinho, como eram os pontas-esquerdas. Veloz. Driblador. E surpreendente.
Esse Aquino, o nome dele é Aquino, foi ele quem desestabilizou a defesa do Inter. Não lembro de alguém ter conseguido tirar a bola dele durante o jogo. Será que alguém consegue, durante algum jogo? No lance do pênalti, ele não deu um nem dois, mas três dribles de futsal nos zagueiros, todos dribles de palmo e meio, daqueles que se dava em um único parquê. Foi derrubado porque tinha de ser, ou irromperia gol adentro feito um Garrincha.
Aquino. É um jogador antigo. Felizmente, antigo. Parecia Joãozinho, do Cruzeiro, que fazia exatamente assim contra, exatamente, o Inter. Ou Lula, do próprio Inter, ou Ortiz, do Grêmio, ou Nei, do Palmeiras, ou Zé Sérgio, do São Paulo, ou Júlio César “Uri Gheller”, do Flamengo, ou Jésum, da Dupla Gre-Nal.
Pontas que não existem mais, de um futebol que não existe mais.
O ponta-esquerda foi a primeira vítima do futebol moderno, o futebol endinheirado, de cinco no meio-campo, da TV paga, dos estádios com preço de teatro, da garra, da marcação, da porrada, o futebol do jogador que beija seis camisas diferentes em seis anos, o futebol dos grandalhões, do técnico de gravata, do marketing, dos executivos, dos empresários, do padrão Fifa.
O Inter foi derrotado pelo passado. Pela surpresa. Pela novidade de ter enfrentado o velho futebol.

Tigres venceu porque é muito melhor do que o Inter

23 de julho de 2015 36

Os colorados estão procurando explicações internas para compreender a derrota para o Tigres, e as explicações são externas.
O Tigres venceu porque tem um time melhor do que o do Inter.
Simples.
Verdade que a defesa do Tigres é frágil, mas a do Inter também.
Nessas defesas, os destaques são os dois goleiros. Ontem, Alisson evitou a goleada. Foi o melhor jogador do Inter em campo.
Os dois laterais fracassaram bisonhamente. Gefferson ter sido convocado para a Seleção Brasileira é algo inexplicável. E William passou o jogo inteiro correndo atrás do habilidoso ponta-esquerda Aquino, sem alcançá-lo jamais.
Esse ponta-esquerda é um alento para quem gosta de futebol. Felizmente, não tem nada de jogador moderno. É antigo e bom. Fez a diferença. Deixou a defesa do Inter em pânico.
O atacante francês é outro jogador diferenciado do Tigres. É um tipo de jogador superior.
A reunião de jogadores que o Inter proporcionou ao seu técnico é o que de melhor pode fazer um time brasileiro, nesse século de decadência do nosso futebol. O Inter tem uma folha caríssima, dizem que chega aos 17 milhões de reais, tem pelo menos dois jogadores da mesma estirpe para cada posição. Fez o que tinha de fazer. Mas o Tigres fez melhor. É do jogo.

Tribunal permite que pai jogue bola com o filho

23 de julho de 2015 7

A Justiça concedeu a um pai e seu filho o direito de jogarem futebol no pátio da casa deles, em Santa Cruz.

Li isso na ZH online.

Os vizinhos desse pai e desse filho desportistas são um casal de aposentados. Eles se incomodam com o barulho do joguinho, que dura cerca de uma hora por dia, e entraram na Justiça pedindo que fosse proibido.

Veja você: tenho lido muita notícia. A maior corrupção de todos os tempos. A maior violência de todos os tempos. Não são coisas boas. Mas o que mais me entristeceu, em meses, foi essa de a Justiça tendo de assegurar a um pai que possa jogar bola com seu filho no pátio de casa.

Não que conflitos que tais sejam novos para mim. Eu mesmo, quando guri, jogava bola com meus amigos em locais inóspitos. Nós gostávamos de fazer peladas num espaço de areão entre dois blocos de edifícios. Chamávamos o lugar de Rua da Tendinha. Porque era mesmo uma rua, embora lá não passassem carros, só carroças. Inclusive, fui atropelado por uma, certa feita, o que deve consistir na maior humilhação por que passou um atropelado em todos os tempos. Mas essa é outra história.

O que dizia é que a Rua da Tendinha era realmente uma minúscula rua, e lá havia… bem, uma tendinha. Vendia pão, leite, açúcar, essas miudezas. A Ruazinha ficava margeada pelos muros dos dois blocos de edifício. Um dos nossos craques era o Ricardinho, um tipo pequeno, retaco, de olhar desafiador, pele escura, quase negra, e cabelo liso, bem preto. Ele era dono de uma bomba na canhota. Ocorre que, uma tarde, o Ricardinho deu um espingardaço com aquela perna esquerda dele. A bola zuniu, fazendo um arco, passou como uma bala de bazuca por cima de um dos muros e desapareceu. As informações seguintes que recebemos sobre ela foram auditivas: um som seco, TAN!, mas bastante identificável de bola de couro duro se chocando contra a carne humana mole. Depois, um lamento em voz feminina: “AUHAN!”. E, por fim, o baque surdo e inequívoco de um corpo caindo no chão de pedra. BLOF!

Maldição! Corremos para nos dependurar no muro, e a cena que vimos foi terrível: uma senhora estendida na calçada em decúbito dorsal, com braços e pernas abertos em xis, provavelmente desacordada, tendo ao lado um par de óculos gravemente danificado e, mais adiante, já imóvel, a bola criminosa.

Foram duas as nossas preocupações:

1. Se o Ricardinho havia matado a velha e…

2. Se conseguiríamos recuperar a bola.

Conseguimos recuperar a bola. E a senhora sobreviveu para passar o resto da tarde procurando (em vão) pelos agressores nos blocos de edifícios, levando na mão os restos dos óculos, vasculhando cada canto com um único e furioso olho bom, uma vez que o outro estava roxo e do tamanho de uma laranja de umbigo.

Pobre senhora. Tinha razão em sua brabeza. Mas, que saiba, não lhe ocorreu procurar a polícia ou o juiz. Isso já seria exagero. Saber que os senhorinhos de hoje apelam para a Justiça a fim de impedir jogos de bola me faz pensar que algo está errado com o século 21. Será que eles nunca quebraram vidraça num chute de Patada Atômica? Será que nunca acertaram uma bolada no olho de um transeunte indefeso? Que mundo bem triste, esse mundo de gente sem infância.

 

Existe uma explicação para Roger colocar Brian Rodrigues em campo

22 de julho de 2015 40

Ainda vou descobrir qual é.

O passarinho desconhecido

22 de julho de 2015 6

Queria saber mais dos bichos, e não sei. De todas as minhas vastas ignorâncias, essa me aborrece em especial. Agora mesmo, veio um passarinho e pousou na mureta da sacada. Passarinhos são importantes para cronistas que, vez em quando, pretendam ser líricos. O que seria do Rubem Braga sem os passarinhos? Então, olho para esse belo espécime que pia, trina e gorjeia a um braço de distância, decerto um tipo que só bate asas pela América do Norte, exótico aos leitores brasileiros, perfeito para um parnasianismo de meio de semana, e penso: vou dar uma poetada. Mas que raio de passarinho é esse? Não faço ideia. Que tristeza.

Sei alguma coisa dos grandes gatos. O rugir do leão pode ser ouvido a 20 quilômetros de distância, na noite da savana. Ele, às vezes, devora os filhotes para que a leoa entre novamente no cio. Quando isso acontece, o jovem macho pode se repoltrear no sexo 50, 60, cem vezes num único dia. Um campeão.

Mas tenho mais admiração pelos tigres. O tigre é como o detetive Philip Marlowe: um predador solitário. Ele gosta de atacar a presa pelas costas, quando ela está desprevenida. É quase impossível fugir do tigre: ele é capaz de escalar as árvores mais altas e nadar até no mar com velocidade cinco vezes maior do que a de Michael Phelps em dia de medalha olímpica. Só não é tão rápido quanto outro grande gato, o jaguar, que seria multado na maioria de nossas estradas, já que atinge 110 km/h.

Os africanos, obviamente, sabem muito sobre os bichos. Vi cenas de indígenas africanos roubando a carne da caça de um bando de leões. Foi impressionante. Tratava-se de uma zebra ou um gnu. Os leões o devoravam, cinco ou seis rosnando sobre o corpo inerte, quando os africanos chegaram com seus arcos e flechas. Os leões levantaram as cabeças e se afastaram, prudentemente. Os homens puxaram de facões, retalharam o pedaço de carne que queriam, jogaram-no nas costas e foram embora. Os leões voltaram para comer os restos.

Num outro filme, vi um africano enrolar a perna direita num pedaço de pano. Em seguida, ele enfiou a perna num grande buraco no chão. Ficou lá por alguns segundos. Aí, agitou-se, sentindo um repelão. Os amigos o puxaram, e a perna veio da terra abocanhada por uma cobra negra e gigantesca, de uns seis metros de comprimento. Os homens empunharam facas e a retalharam com paciência e método. O africano serviu de isca!

E agora, dias atrás, explodiram em toda parte dois filmes sobre tubarões. Num, os cientistas conseguiram colocar uma câmera dentro da cratera de um vulcão e viram que ela estava cheia de tubarões nadando. Quer dizer: cair dentro de uma cratera de vulcão já é ruim, imagine dentro de uma com tubarões.

Noutro filme, um surfista foi atacado não por um, mas por dois tubarões, e safou-se ileso dando chutes nos focinhos deles. Aí está: esse surfista sabe tanto sobre os bichos do mar quanto os africanos sobre os bichos da terra. Conhecimento útil para todos eles, que depararam com feras assassinas e saíram inteiros. Já eu, que quero apenas traçar algumas frases acerca de um inofensivo passarinho, nada sei, além do pouco que aprendi sobre canarinhos e pintassilgos de gaiola, pardais de calçada e vulgares pombas de praça. Como escrever a respeito do desconhecido? A ignorância, de fato, dói.

 

O Dilúvio

21 de julho de 2015 12

Já houve um Dilúvio, e nós sabemos sua data exata. Está escrito no Gênesis:

“No ano 600 da vida de Noé, no segundo mês, no décimo sétimo dia do mês, romperam-se naquele dia todas as fontes do grande abismo, abriram-se as comportas do céu”.

Sei bem que os gaúchos devem estar achando que, outra vez, romperam-se todas as fontes do grande abismo, pois só se ouvem e só se leem notícias de chuva sobre o Rio Grande.

Mas não.

Não pode.

Porque, depois de 40 dias e 40 noites de precipitação e um ano de reclusão na Arca cheia de insetos zumbidores, répteis rastejantes e mamíferos famintos, o Senhor prometeu:

“Enquanto durar a Terra, não mais cessarão a sementeira e a colheita, o frio e o calor, o verão e o inverno, o dia e a noite”.

E desenhou no céu azul o primeiro de todos os arco-íris, como símbolo da aliança entre Ele e os homens.

O Senhor não mudaria de ideia, não é? A não ser que… Bem… A causa do Dilúvio foi a corrupção da humanidade. Lembram-se do que concluiu o Senhor? “A Terra se perverteu. E encheu-se de violência”. E, irritado com o que via debaixo do sol, Ele enfim anunciou, certo dia:

“Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de 120 anos”.

Todo ele é carne. De fato. Disso não tenho dúvida. Mas por que o dilúvio sobre o Rio Grande? Por que as comportas do céu não se abrem acima de certas paragens de Brasília, ou sobre determinado edifício de São Bernardo do Campo, ou nas imediações dos prédios de algumas estatais?

O que vocês andaram aprontando?

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Instinto de preservação

 

Por um compreensível e eficiente mecanismo de preservação da espécie, as mulheres ficam mais excitadas durante as enchentes. É fato isso, e provo.

Em 1983, em meio às cheias que praticamente destruíram Blumenau, em Santa Catarina, as mulheres da cidade, retidas por semanas em suas casas e apartamentos, cercadas pelas águas ameaçadoras, clamaram por seus homens e exigiram deles todo o amor que pudessem dar. Nove meses depois, nasciam os filhos da enchente, frutos da angústia primeva, da ânsia imemorial que a raça humana carrega na alma desde que seus mais remotos antepassados passaram aquele longo ano na Arca, vendo seus semelhantes afundarem para a extinção.

Alvíssaras, portanto. Apesar de todo o sofrimento atual, talvez o próximo outono esteja repleto de vida com a chegada de novos gauchinhos.

 

A continência no pódio

20 de julho de 2015 23

As lideranças militares não queriam que Getúlio Vargas vencesse as eleições de 1950. Mas ele venceu. Chegou ao poder “nos braços do povo”, em sua própria definição. Foi a propósito disso que um repórter perguntou-lhe, antes da posse:

– O que os militares farão agora?

E Getúlio:

– Continência.

Perfeito. Getúlio deu uma resposta de democrata, a despeito de ter sido ele o maior sabotador da democracia brasileira. Não fosse por Getúlio e o golpe de 1930, o Brasil hoje seria outro. Porque, até então, o Brasil experimentava o que hoje se chama de “normalidade democrática”, mesmo em meio a fraudes eleitorais e uma série de outras falcatruas. Era preciso o que hoje se reivindica: uma profunda reforma política. Os avanços sociais ocorridos durante a ditadura de Vargas acabariam acontecendo mais cedo ou mais tarde. Era uma tendência internacional irreversível.

O golpe de 1930 criou o precedente. A partir dali, alguma facção sempre tentaria tomar o poder à força, e as regras passaram a mudar de acordo com a conveniência. Depois de 1930, o Brasil teve de esperar a virada do século para experimentar dois mandatos presidenciais sem sobressaltos ou mudança de lei.

Vou abrir um parêntese para você conferir o que digo: (Depois de 1930, 15 anos de Pai dos Pobres. Em 1946, o inexpressivo Dutra é eleito apoiado por Getúlio e, depois dele, o Pai dos Pobres volta. Mas mete uma bala no coração em 1954. De 1955 a 1960, governa o faraó Juscelino, construtor daquela inexplicável pirâmide do Planalto Central, onde Dilma anda de bicicleta. Mas seu sucessor, Jânio fi-lo porque qui-lo, renuncia após proibir o jogo, condecorar Che Guevara e tirar as caspas do paletó. Em 1961, Brizola garante a posse de Jango no blefe, o Brasil passa rapidamente do parlamentarismo para o presidencialismo, Brizola sonha com o golpe, mas quem dá o golpe são generais de óculos escuros, que ficam no poder de 1964 a 1985. Então, era para Tancredo subir a rampa do Planalto, mas quem sobe é Sarney. Em 1990, finalmente, um civil é eleito. Não por acaso, trata-se de um arremedo de Jânio Quadros. Mas ele não tem partido que o sustente e é impichado. Seu vice dá a impressão de ser insignificante, mas, em dois anos, faz o melhor governo da história do país, acabando com a inflação e estabilizando a democracia. Quando se pensava que tudo enfim seria previsível, as regras são mudadas de novo, para permitir a reeleição de FHC. Só aí o Brasil conseguiu encadear mandatos. De novo, não por acaso, arremedos de Getúlio e Dutra: o Padrasto dos Pobres e sua criatura amorfa. Fecha parêntese).

Getúlio, portanto, foi o grande verdugo da democracia brasileira. Mas fez uma leitura certa do que são as Forças Armadas: instituições que devem estar a serviço do país, protetoras da democracia. Donde, a continência aos superiores. E o superior dos generais é o presidente eleito.

É isso que é a continência: uma manifestação de respeito ao superior. Quando atletas fazem continência à bandeira brasileira no pódio do Pan, não estão fazendo uma manifestação ideológica: estão manifestando respeito ao país. Depois que Ulysses brandiu a Constituição na tribuna do Congresso, em 1988, os militares se afastaram em definitivo da política. Passamos por muitos percalços, e estamos passando ainda, e passaremos por outros tantos, mas chegamos a uma conclusão: o Brasil quer ser uma democracia, é uma democracia e será uma democracia. Este foi nosso maior avanço e daí não haverá recuo. É algo que os militares entenderam. Falta a alguns civis entender o que são os militares.