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Posts de agosto 2015

Gil, Caetano e R$ 600 na conta

30 de agosto de 2015 17

Um ingresso para assistir ao show de Gil e Caetano custou mais ou menos o que um professor do Estado receberá hoje como parcela de pagamento do seu salário. Mesmo assim, pelo que soube, o show estava lotado. O preço, assim, se justifica. Caetano e Gil estavam certos ao cobrar o que cobraram.
Marx já ensinou que o capitalista detém os meios de produção e o proletário vende a sua capacidade de trabalho. O artista não é nem um nem outro, mas é mais parecido com o proletário, embora sua mercadoria, o talento, seja subjetiva. Se eu, Caetano e Gil apertarmos parafuso numa fábrica de carros, nosso trabalho valerá o mesmo. Ganharemos idêntico salário. Eu, Caetano e Gil apertamos parafuso, e aí está, e pronto.
Eu, Caetano e Gil também cantamos. Mas, se eu cobrar R$ 5 para que as pessoas ouçam minha maviosa voz, ninguém pagará. Justo eu, notável intérprete de Paulinho da Viola nas rodas da madrugada. Violão, até um dia, quando houver mais alegria eu procuro por você…
Já Caetano e Gil, por seu talento e sua história, valem a parcela de um salário de policial ou professor, e a prova disso é que as pessoas aceitaram pagar e o fizeram até com gosto.
E o professor e o policial, que hoje verão R$ 600 lhes pingando na conta bancária, quanto o trabalho deles vale para a sociedade? Por que eles ganham tão pouco?
Aqui, nesse escaninho dos Estados Unidos em que vivo, professores e policiais são tratados de uma forma que indica bem o apreço que a população sente por eles. Policiais de rua, singelos vigilantes de trânsito, têm e exercem uma autoridade jamais questionada. “Yes, sir!”, é como você responde a um policial que o interpela.
E o professor… Compreenda: não estou falando do enfatuado professor universitário, aquele que, no Brasil, ganha as benesses do Estado e a veneração dos estudantes. Estou falando do professor de ensino básico e fundamental. Pois esse professor, aqui, é uma estrela. O professor da escola pública recebe salário maior do que o da escola privada, e os melhores entre eles são disputados como centroavantes. A comunidade ajuda e participa. No ano passado, a escola do meu filho anunciou a intenção de dar um aumento de US$ 250 para cada professor da primeira série. A direção apresentou o orçamento da escola e informou quanto a mais era necessário para dar o reajuste. Os pais podiam colaborar? A maioria colaborou, e o aumento foi concedido.
Um mês depois, a filial do supermercado Whole Foods divulgou que, em um determinado dia, 5% da receita seria para a educação básica da cidade. Todos foram comprar lá.
Parece que esse tipo de iniciativa não é possível no Brasil. Li, em algum lugar, que isso seria considerado “privatização da escola pública”. Curiosamente, não se cogitou o contrário: de que, com as doações, o dinheiro privado estivesse se tornando público. Seja…
O brasileiro sabe valorizar grandes artistas, como Caetano e Gil. O brasileiro sabe o valor de um meia cobrador de falta. Sabe também, o brasileiro, quanto vale o médico que lhe tira a dor ou o advogado que lhe resolve a disputa com o vizinho. Mas será que o brasileiro, que tanto clama por segurança e educação, sabe quanto valem o policial e o professor?

Grêmio empatou, mas jogou bem. Inter foi goleado, mas Argel culpou o juiz

30 de agosto de 2015 32

O Grêmio jogou bem contra o Coritiba.
Teve o controle do jogo, pressionou, entrou na área, criou chances de marcar.
Não fez gol porque ainda falta ao time aquele goleador que poucos times têm no Brasil.
A partir de agora, o Grêmio passará pelo período mais crítico do ano.
O grupo, que já está desfalcado de Ramiro e Maicon, além de Douglas suspenso, perderá seus principais jogadores para as seleções.
Roger terá de colocar time misto para as próximas três ou quatro partidas.
A meta será manter o rendimento e a posição na tabela. É possível. Mas é difícil.
Já o Inter levou 3 a 0 do Avaí, só que Argel minimizou a goleada.
Para ele, a culpa da derrota não foi de um, mas de dois árbitros, que esse jogo teve dois – o primeiro saiu lesionado.
Se o técnico faz esse tipo de análise para o público externo, tudo bem. Se faz também internamente é um problema.
A derrota só é boa quando se aprende com ela.

Cuidado com os Ubers

29 de agosto de 2015 4

Sou usuário do Uber, aqui em Boston. Hesitei ao fazer essa confissão. Temo que, ao chegar ao Brasil, seja espancado por taxistas em fúria. Justo eu, tão amigo dos taxistas.

Duvida? Pergunte ao Mauro, do Taxitramas. Ao Jeferson, do aeroporto. Ao Luiz Carlos, da Azenha.

Já escrevi muito sobre taxistas. Até os 40 anos, só andava de táxi. Não tinha carro. Lembro de uma vez em que entrei num táxi no ponto da Botafogo e senti um cheiro estranho. Fiquei farejando o ar. Era um odor poderoso. Denso. Que se sentia na boca e provocava certa náusea.

– O que há com teu carro? – perguntei ao motorista.

– Não é o carro – ele respondeu. – Sou eu – e abriu a boca e mostrou a língua vermelha, onde duas elipses brancas dançavam em bolhas de saliva. – Mastigo alho todos os dias – ajuntou, com orgulho, e explicou: – Pra evitar gripe.

Ao fim da angustiante corrida, tive de ser sincero:

– Não leva a mal, mas é melhor ficar gripado.

Outro taxista que conheci, bom sujeito, certo dia, ao me acomodar no banco do carona de seu carro, a primeira coisa que ele disse, antes mesmo de me cumprimentar ou de perguntar para onde queria ir, foi:

– Minha mulher me traiu.

Aquela informação desferida assim de inopino, feroz e veloz feito um tapa, me deixou perplexo. O que dizer para um homem que lhe atira um peso desses no colo? Durante todo o trajeto, ele descreveu os pormenores do caso. Tratava-se de um clássico: ele a flagrou se refocilando na cama com um amigo.

De alguma forma, aquilo me comoveu: afinal, o taxista confiara em mim. Só que, no dia seguinte, um colega veio contar:

– Sabe que hoje entrei num táxi e o motorista saiu me dizendo que é corno?

Seria o meu corno? Era. Nos dias subsequentes, várias pessoas me relataram que elas também serviram como confessoras do taxista traído, o que me deixou um pouco decepcionado com minha capacidade de despertar confiança nas pessoas.

Mas essas são apenas histórias curiosas. O que importa é que sou amigo dos taxistas, e já fui salvo por alguns deles. É uma categoria que aprecio. Quando me valho do serviço do Uber, e o faço com frequência, não é por desgostar dos taxistas. É porque a corrida em geral é mais barata, porque os carros são melhores e, o que mais me interessa, quando chamo um motorista, ele chega antes que eu possa dizer Cucamonga.

Além do Uber, existe outro serviço semelhante por aqui, o Lyft. O nome da empresa é uma brincadeira com um dos termos em inglês para “carona”: lift. Sem ipsilone.

Essa história de economia compartilhada está se espraiando devido às facilidades da internet. Por exemplo: em algumas cidades americanas, cozinheiros amadores anunciam, por meio de sites, que vão preparar um jantar. Os candidatos a comensais conferem o horário, o preço e o cardápio. Se gostarem, se inscrevem. O jantar é servido na casa do cozinheiro. É o Uber dos restaurantes.

Nós, jornalistas, também temos nossos Ubers. Algumas lideranças da categoria lutam para que o diploma universitário seja obrigatório para o exercício da profissão. Perda de tempo. A sua faxineira, se quiser, faz agora mesmo um jornal na internet. Para isso, só precisa de um celular e de um laptop. Ou, pensando bem, só de um celular.

Não há como refrear o movimento natural das pessoas de ganhar a vida fazendo o que querem ou o que gostam de fazer. Teremos todos de nos adaptar. Os Ubers vêm aí.

Som de Sexta

28 de agosto de 2015 1

Quando penso no futuro não esqueço do passado.

Rua da Praia

28 de agosto de 2015 8

Houve um Natal em que nós descemos a Rua da Praia à noite. Tenho quase certeza de que era 23 de dezembro. Eu e meus irmãos, minha mãe, minha madrinha, meu avô e minha avó viemos lá de cima nos encantando com o brilho coruscante das vitrines. Não que desejasse o que ofereciam, apenas era bonito de olhar.

Sabe quando senti isso de novo? No último Natal, em que fiquei admirando as feéricas vitrines da Quinta Avenida. Não é estranho uma cidade contemporânea como Nova York guardar na calçada um pedaço do meu passado?

A Rua da Praia tinha essa aragem de quermesse cosmopolita, que é o que de melhor se pode esperar de uma cidade.

Minha mãe era professora do Estado e, no dia do pagamento, ela nos levava à Rua da Praia, a mim e aos meus irmãos. Cada um tinha direito a um presentinho e a um lanche nas Americanas. Eu adorava subir naquela escada rolante e comer o sanduíche americano. Uma vez, minha irmã derrubou um manequim e quebrou uma vitrine. Saímos correndo, e minha mãe saiu correndo junto, com medo de lhe cobrarem o prejuízo.

Mais tarde, o que mais me atraía na Rua da Praia eram o desfile das meninas de minissaia e a Livraria do Globo, que não era uma livraria, era uma catedral.

Trabalhei no Centro, então passava todos os dias pela Rua da Praia, o que sempre me suavizou o espírito. Lembro de duas vezes em que precisei muito disso, dessa suavidade. Em 1998, já editor de Esportes da Zero Hora, desisti de ir à Copa da França, acredita? Seria minha primeira Copa, e desisti, por questões administrativas. Achava que havia feito o correto, mas, naquela noite, andando pela Rua da Praia em direção ao lotação, me sentia angustiado. Depois, tudo deu certo, mas é história comprida. Um dia conto.

O segundo momento difícil na Rua da Praia se deu por causa de uma namorada. Ela vivia em Cachoeira do Sul. Havíamos brigado e, no desfecho da briga, rosnei: “Não me escreve mais! Não me telefona!” Pois ela, desgraçadamente, fez o que eu não queria: obedeceu. Fazia três meses que só pensava nela, sem saber de nada dela. Vinha bem chateado ali pela altura da Borges, imaginando uma forma de revê-la, e, aí, o que vi? O que vi?

Sim. Ela.

Vinha sorridente ao lado de uma amiga, a uns 30 metros de distância. Com mil violinos plangentes, era muita sorte! Era a chance de dizer algo inteligente e espirituoso, algo que ficaria inscrito na sua alminha de algodão-doce e que faria despertar a antiga paixão.

Agora havia 20 metros entre nós. O que dizer??? Ela já tinha me visto. Sorria. Ou seja: a situação era favorável. Bastava aproveitar a oportunidade e pronunciar uma frase encantadora, que a enternecesse e a fizesse sorrir, que atingisse em cheio seu tenro coração feito de merengue, que pulsava naquele peito de quindim.

Dez metros. Tive uma ideia. E outra. E mais outra. Mas não gostei de nenhuma. Cinco metros. Puxei o ar para cumprimentá-la com graça e garbo. Dois metros. Estávamos frente a frente. Ela parou. Eu parei. Ela sorriu. Eu tentei sorrir. Ela disse oi. Eu disse grfllmkrstbl. Só conseguia pronunciar consoantes. Ela comentou algo que não entendi. A amiga comentou sobre seu comentário. As duas riram. Tentei rir. Elas se despediram. Se foram, serpenteando pela Rua da Praia. Estendi o braço e observei: grbt. E foi só. Segui meu caminho na direção oposta, derrotado. Cada pedra da Rua da Praia, para mim, vale uma lembrança. Que bom que vão reformar a Rua da Praia.

Taylor Swift canta o imortal Smelly Cat!!!

27 de agosto de 2015 3

Se você não é um alienado, assistiu ao cândido e engraçado seriado Friends nos anos 90.
Bem.
Um dos episódios clássicos é quando a personagem Phoebe canta “Smelly Cat”, que pode ser traduzido por “Gato Fedorento”, no café em que a turma de amigos se reunia, em NYC.
Ontem, num show em Los Angeles, a cantora Taylor Swift chamou ao palco a atriz que interpretava Phoebe, Lisa Kudrow, e as duas fizeram um harmônico dueto, empolgando 60 mil pessoas com esse diamante do cancioneiro pop mundial.

Desejo de matar

27 de agosto de 2015 7

Outro dia, um americano me contou que o pai dele foi assaltado em Nova York em 1973. O homem ficou tão traumatizado, que nunca mais voltou à Big Apple. Nas suas férias, ele prefere ir para… o Rio de Janeiro! O americano meu amigo disse que vive a jurar para o seu pai que Nova York agora é segura, que ele pode ir lá. Não adianta. O velho só vai para o Rio. Já foi assaltado três vezes em Copacabana, mas volta sempre.

Não me surpreende. A cidade do Rio é como certas mulheres: perigosa, mas sedutora. Cada um que calcule se vale a pena correr o risco.

Neste caso, porém, o que mais me chamou a atenção foi a lembrança de Nova York nos anos 1970. Naquela época, até a Times Square era ameaçadora. Charles Bronson estrelou um filme de ação chamado Desejo de Matar. Interpretava um morador de Nova York que teve a mulher assassinada e a filha estuprada por bandidos. Tornou-se, por isso, um justiceiro. Saía pelas ruas exterminando foras da lei à bala.

Um filme desse tipo nunca será o que se chama de grande arte, mas atende ao apelo do seu tempo. Os americanos, acossados pela violência, também sentiam desejo de matar os bandidos que lhes roubavam os bens e a paz, e assim o filme fez enorme sucesso. Tanto, que Bronson seguiu dando tiros em Desejo de Matar 2, 3, 4 e 5. Só parou 20 anos depois, quando os Estados Unidos mudaram e as pessoas se acalmaram.

O que mudou dos anos 1970 para os 1990?

Os Estados Unidos tornaram-se um país mais seguro. O que parece estranho de afirmar, um dia depois de o mundo ter assistido, perplexo, às cenas dos assassinatos de dois jornalistas da Virgínia. Mas isso acontece porque qualquer estressado pode comprar uma arma nos Estados Unidos, não por ação da criminalidade profissional. Há quase 300 milhões de armas em poder dos cidadãos americanos. Um problema, se você está diante de um maluco que não tem nada a perder.

Ainda assim, o pai do meu amigo poderia passear tranquilamente por Nova York, mesmo tarde da noite, sem correr riscos. Em algumas regiões do país, casas e carros ficam abertos, sem que seus proprietários sintam a menor inquietação. E na comunidade em que moro, onde vivem outras 58 mil pessoas de todo o mundo, o último assassinato ocorreu há nove anos.

Curiosamente, os Estados Unidos também se tornaram mais desiguais, dos anos 1970 para cá. Há maior diferença entre os ricos e os pobres.

Como, então, se deu essa mudança?

Pela lei. Nos anos 1980, Ronald Reagan liderou um endurecimento da lei criminal. Qualquer delito passou a custar 10 ou 15 anos de prisão. Os presídios ficaram lotados. Os Estados Unidos do século 21 têm a maior população carcerária do mundo, com mais de 2,5 milhões de presos. E, claro, o sistema judiciário e a polícia também são aparelhados e eficientes.

Cito tudo isso por perceber que hoje, no Brasil, as pessoas sentem desejo de matar. Linchamentos se multiplicam pelo país, garis jogam carros de atropeladores no Arroio Dilúvio, e, nas redes sociais, a intolerância freme e ruge. Ontem, ante a notícia do assassinato dos jornalistas, comentei que sou contra liberar o porte de armas para qualquer um, e os leitores bradaram que preferem loucos armados a bandidos soltos.

Por que os brasileiros estão assim? Pela mesma razão que os americanos assim estiveram nos anos 1970. Por medo.

Qualquer animal, quando sente medo, transforma-se em fera perigosa. Um rato acuado salta no pescoço do homem que tenta esmagá-lo a vassourada. O medo desumaniza.

Até os que defendem a tolerância e os direitos humanos terão de trabalhar com afinco para que as pessoas deixem de sentir medo no Brasil. Nenhum bom argumento, nenhuma ponderação, nenhuma racionalização jamais será maior do que o desespero.

 

A gente tem que fazer

26 de agosto de 2015 9

Cocô. É simples, mas é verdadeiro: a gente tem que fazer cocô todos os dias. Xixi, a mesma coisa. Largue o brinquedo ou esse jogo um pouco e vá fazer xixi. Não prenda! Minha vó dizia que uma das piores coisas pra saúde é ficar segurando o xixi. Deve ser verdade. Muito do que os antigos diziam era verdade, só que eles não sabiam direito por quê.

Mas eu sei, meu filho. Estou dizendo: todos os dias. Todos os dias a gente tem que se levantar, mesmo que queira ficar na cama, e todos os dias a gente tem que se deitar, mesmo que queira ficar acordado. Todos os dias a gente tem que comer, se bem que não muito, e é bom que se coma no horário certo. Café da manhã. Olha como os americanos valorizam o breakfast. Todos aqueles ovos. Panquecas. Bacon. A principal refeição do dia, eles dizem, e é bem possível que seja mesmo. Então, a gente tem que comer e, depois de comer, tem que escovar os dentes. Isso é importante porque, logo depois que a gente come, aquelas bactérias ficam agindo nos dentes durante 40 minutos. Depois desses 40 minutos, elas se aquietam. Cansam, provavelmente. Até as bactérias cansam. Quer dizer: é preciso escovar os dentes assim que sair da mesa. Escove os dentes, meu filho! Esse é um conselho fundamental, que evita muita dor.

E, se os dentes têm de ficar limpos, o resto do corpo tem de ficar limpo também. Por isso, a gente tem que tomar banho, mesmo que não queira entrar no banho, e mais tarde a gente tem que sair do banho, mesmo que queira continuar no banho. Por causa da água. Lembre-se dos coitados dos paulistas com suas notas de cem, mas com suas torneiras secas. A gente tem que economizar a água do planeta, meu filho.

Depois do banho, é importante secar bem entre os dedos, pra não dar frieira. Entre as pernas também. Fiquei sabendo de um cara que, uma vez, perdeu um testículo por causa de uma frieira. Um perigo. Ah! E nunca vá dormir de cabelo molhado, pelo amor de Deus. Seque esse cabelo. E, uma vez por mês, corte. Já as unhas a gente tem que cortar uma vez por semana.

A gente tem que fazer exercício também, mesmo que nenhum outro bicho do mundo faça exercício. É ridículo fazer exercício, eu sei. Olha pra essas pessoas que botam um calção e saem correndo. Não tem lógica. Mas é preciso. Só não se pode exagerar. Chega uma hora em que a gente tem que parar de fazer aquele exercício que a gente não queria ter começado, ainda que a gente queira prosseguir.

Depois do exercício, a gente tem que tomar água e fazer alongamento, embora isso de fazer alongamento seja mais ridículo do que fazer exercício. Aliás, dizem que a gente precisa tomar dois litros de água por dia. Dois litros é muita coisa, a gente vai querer fazer xixi. Aí, não prenda! Faça esse xixi, rapaz. A minha vó já dizia que… Bom, a gente sabe o que dizia a minha avó. A gente sabe.

Os Coutos

25 de agosto de 2015 10

Tenho um amigo jornalista que fazia o jornal da família dele. Mais ou menos de 15 em 15 dias, lançava uma edição. Era uma família de nome bem brasileiro. Couto, digamos. Os Coutos, o nome da publicação. Ele imprimia numa gráfica da cidade e distribuía para amigos e parentes. Felizmente, eu era um dos assinantes.

Gostava muito de receber Os Coutos. Meu exemplar era entregue na redação em que trabalhava. Corria, então, a me municiar de café quente e, quiçá, alguma bolachinha, me aboletava na poltrona mais confortável e me inteirava sobre o que havia se passado com a família nas duas últimas semanas. Claro que as manchetes em geral versavam sobre seu núcleo familiar: a mulher, os filhos. Mas havia muitos Coutos espalhados pelo planeta que mereciam reportagens interessantes. Um primo-irmão que vivia no norte da Itália, onde era próspero funcionário de uma fábrica de carros; uma tia de São Paulo que andava meio adoentada desde o começo do ano. De repente, um Couto morria e ganhava um belo obituário. A descrição de suas realizações comezinhas me deixava enternecido. Aquele Couto adorava jogar escova. Uma vez, foi vice-campeão de escova num animado torneio disputado em Urussanga. Tinha um pintassilgo chamado Bicudo e um cachorro chamado Capitão. Amava-os mais do que tudo. E agora faleceu, aquele bom Couto. O que será feito de Bicudo? O que será feito de Capitão? Essas questões me inquietavam por alguns segundos.

Os Coutos eram dados a viagens pelo interior do Brasil. Ler sobre suas aventuras em estâncias de águas termais me dava uma lassidão, uma preguiça, que era como se eu mesmo estivesse mergulhado naquelas piscinas mornas. E as comidas que os Coutos saboreavam! Densas feijoadas, alegres churrascos, e volta e meia uma avó vinha com um pudim de leite condensado que me fazia sorrir, só de olhar a foto.

Lendo Os Coutos, acompanhei o crescimento das crianças, seus sucessos escolares, seus eventuais acidentes domésticos, como a vez em que a pequeninha engoliu uma tampa de certa garrafa posta ao alcance de seu curto braço, no balcão da cozinha.

A periodicidade de Os Coutos não era infalível. Às vezes, uma edição demorava três semanas para ser finalizada, às vezes um mês, às vezes dois números eram apartados por apenas três dias. Talvez seja por isso que não dei por falta de Os Coutos quando meu amigo passou grande tempo sem distribuir uma edição. Passaram-se, sei lá, uns três meses, até que um dia perguntei para mim mesmo:

– E Os Coutos, que nunca mais vi?

Pouco tempo depois, descobri que meu amigo havia se separado da mulher. Fiquei chocado. Para mim, aquele casal era uma coisa só. O casal era um indivíduo, e a família, os Coutos, uma entidade. E é assim: uma família desfeita é uma história que deixa de ser contada, um jornal com edição interrompida, um filme visto pela metade. As redes sociais, vulgares esfoliadores das cascas das intimidades, as redes sociais não são nada, perto do que foi o jornal dos Coutos. Toda família devia ter um jornal. Todo casal, até. Para que, ainda que se findasse o amor, ficasse imortalizado em papel. Tempo de fausto aquele, Coutos. Não volta mais.

Abaixo o óleo de coco!

24 de agosto de 2015 13

Passei o fim de semana preocupado com dois conflitos: a ameaça do exército de Evo Morales de invadir o Brasil, tornando-nos colônia da Bolívia, e o confronto entre os defensores do óleo de coco e os adeptos do óleo de canola.

Se você não sabe sobre esse conflito amargo, explico: no programa Bem-Estar, da Globo, uma nutricionista disse que o óleo de canola é melhor do que o de coco, que, segundo ela, engorda. A reação dos coquistas foi imediata e furiosa. Correram às redes sociais e passaram a atacar a apresentadora com um bombardeio de posts e tuítes arrasadores, a maioria com aquele argumento que pode ser resumido assim: “Como é que uma jornalista, formadora de opinião, deixa alguém falar algo contra a minha opinião?”

Outros identificaram os interesses escusos da Rede Globo, que está evidentemente decidida a acabar com o óleo de coco a fim de beneficiar o de canola. O povo não é bobo! O povo bradou: “Não acredite na Rede Globo: óleo de coco é bom”.

Até esse momento, confesso, não sabia da existência do óleo de coco. Mas agora, depois da polêmica, me posicionei: sou contra. Se a Rede Globo está contra o coco e a favor da canola, serei contra o coco e a favor da canola. Porque, afinal de contas, sou da Grande Mídia, não sou? A Grande Mídia tem sido muito atacada. Até quem trabalha na Grande Mídia a combate e fustiga. Alguém tem de se sacrificar e ficar ao lado dela. Esse alguém sou eu. Estarei atrás das trincheiras da Grande Mídia, antes da invasão boliviana e da transformação de todos os jornais em Pravdas. Portanto: MORRA, ÓLEO DE COCO!

 

Quantidade e qualidade

 

Marx dizia que a quantidade gera qualidade. Esse devia ser o lema do Campeonato Brasileiro.

Se o Grêmio tivesse quantidade razoável de jogadores com as mesmas características dos titulares, seria favorito para ganhar o título.

Mas não é o que acontece. A perda de um único jogador, Luan, atrapalhou todo o sistema do time, que só se manteve invicto nas últimas três partidas porque Roger conseguiu arrancar a solidariedade do peito dos jogadores e porque Marcelo Grohe é um goleiro muito seguro.

Neste domingo, contra a Ponte, Luan jogou. Só que Roger trocou Pedro Rocha por Fernandinho. Um erro. Fernandinho, quando entra no segundo tempo, pega o adversário cansado e o atormenta a dribles. Nessas circunstâncias, ele muda o jogo. Quando sai jogando, não.

Quando sai jogando, Fernandinho tem que exercer uma função para a qual não está preparado: ele não tem a mesma capacidade de entrega de Pedro Rocha à marcação, nem a mesma energia da juventude. Repare no já histórico gol que o Grêmio marcou naquele contra-ataque em Belo Horizonte, diante do Atlético: Pedro Rocha estava no campo de defesa, ao lado da área, posicionado como um volante. Ele deu uns três toques na bola. Pedro Rocha faz isso. Ele está onde tem que estar, ele corre, se apresenta para o passe, incomoda o adversário. Fernandinho tentou ser participativo contra a Ponte, e até foi, mas jamais conseguirá alcançar o nível de entrega de Pedro Rocha.

Pedro Rocha tem seus defeitos, sobretudo na conclusão, o que pode corrigir, mas ele é um dos estabilizadores do Grêmio. Foi assim que Roger fez o time engatar: conscientizando os jogadores de que cada um tem que jogar por dois. Todos podem compreender isso. Nem todos podem fazer.

 

Porque o Grêmio decaiu

23 de agosto de 2015 10

O grande achado tático de Roger no time do Grêmio tinha sido o posicionamento de Pedro Rocha.
Pedro Rocha corria por ele e por Douglas, que ficava na marcação ao zagueiro, quando o time era atacado.
Com a lesão de Luan, Roger desmontou esse sistema.
Quando colocou um centroavante, perdeu dois jogadores na marcação: o centroavante, porque Bobô e Brian são jogadores de pouca movimentação, e Douglas, que não tem energia para marcar o volante.
No jogo deste domingo, Roger cometeu outro erro: tirou Pedro Rocha e colocou Fernandinho.
Ao fazer essa mudança, perdeu a surpresa da entrada de Fernandinho no segundo tempo, quando ele pega os adversários cansados e os maltrata a dribles, e perdeu a combatividade de Pedro Rocha durante toda a partida, tornando o Grêmio submisso a um time inferior tecnicamente, mas que tem alguns bons valores, como o ótimo volante Fernando Bob.
Pedro Rocha tem seus defeitos, sobretudo de conclusão, algo que ele pode aperfeiçoar, mas é um jogador muito colaborativo. Observe o grande gol que o Grêmio marcou este ano: aquele do contra-ataque no jogo com o Atlético Mineiro. Pedro Rocha aparece no começo do lance, no campo de defesa, marcando como um volante, tocando duas ou três vezes na bola. Fernandinho, contra a Ponte Preta, tentou ser solidário, ajudou na composição, mas não tem a juventude e a abnegação de Pedro Rocha.
Contra a Ponte, o Grêmio perdeu o meio-campo e foi dominado o tempo inteiro. Não perdeu o jogo, mais uma vez, graças a Marcelo Grohe. E à trave.
É verdade que Roger não tem muita gente para substituir quem sai por lesão, mas, a deixar dois jogadores inativos na frente, melhor reforçar a marcação atrás.

Fora da realidade

22 de agosto de 2015 6

Sol Nascente é um romance policial do americano Michael Crichton. Rendeu o roteiro de um ótimo filme com Sean Connery como ator principal. Leia o livro na primavera que se insinua e, antes disso, neste fim de semana, assista ao filme. Você vai adorar.

Bem. Lá pelo final do livro, um dos personagens lembra que os monges zen do Japão devem escrever um poema quando sentem que a morte se aproxima. Essa derradeira tarefa lhes acarreta muita tensão, porque, afinal, todos esperam algo definitivo para um momento tão definitivo. O personagem, no entanto, prefere o poema escrito por um monge que se enfarou dessa exigência e escreveu o seguinte:

“O nascimento é assim.
A morte é assim.
Poema ou não poema.
Por que tanto barulho?”

Que belo suspiro de fastio com as coisas sem importância às quais as pessoas dão tanta importância.

Volta e meia tenho vontade de dizer algo do gênero. Ei, deixa disso, vem aqui, vamos tomar um chopinho gelado e falar do que realmente interessa, que são as mulheres difíceis e os gols fáceis?

Será essa a ideia do programa de rádio que estou concebendo. A princípio, o nome é Fora da Realidade. Porque falarei apenas sobre amenidades, o que não significa que falarei sobre insignificâncias. Falarei de amenidades verdadeiras e fundamentais, como a música que me ocupou a cabeça nesta semana, Vento Negro, dos Almôndegas.

Falei dos Almôndegas no Timeline, da Gaúcha, programa que está definitivamente dentro da realidade.

Os Almôndegas surgiram nos anos 1970, liderados pelos irmãos Kleiton e Kledir Ramil. Exatamente há quatro décadas, em 1975, eles lançaram um disco que os críticos chamariam de “seminal” da música urbana gaúcha. Foi o Rock no Quintal. Tenho ainda esse disco.

Ao mesmo tempo, havia em Porto Alegre uma rádio que não existe mais, não aquela rádio: era a Continental, uma espécie de precursora das rádios FM. Na Continental, rodava o som dos Almôndegas. Era excitante ouvir uma música porto-alegrense numa rádio, coisa que não acontecia, até então.

E, de todas as músicas dos Almôndegas, nenhuma foi tão poderosa quanto Vento Negro, composta por Fogaça, que na época era um famosíssimo professor de cursinho pré-vestibular. Esse é outro fenômeno daquele tempo: os professores de cursinho usavam uma linguagem jovem, criativa, colorida, e assim se tornaram celebridades. Tristemente, nunca tive condições de fazer cursinho e conhecer um desses magos da gurizada de Porto Alegre.

Mas Vento Negro conheci. Todos conhecemos. A música, depois, tornou-se tema de abertura do Portovisão, programa antecessor do Jornal do Almoço.

Nos bares e nas festas, sempre que algum malandro surgia com um violão, logo alguém tentava tocar Vento Negro. Sem muito sucesso, porque há de se ter certa habilidade para executar os clássicos acordes iniciais. É um dos hinos do Rio Grande do Sul. Contei essa história para o meu filho, nesta semana. Mostrei-lhe a música, porque isso tudo foi importante para a minha geração, embora não soubéssemos, na época, que vivíamos algo de que nos lembraríamos para sempre. Na época, dávamos importância a outras coisas. Falávamos dos Lulas e das Dilmas, dos Cunhas e dos Aécios de então. Assuntos sobre os quais não tratarei no meu programa revolucionário, o Fora da Realidade. Não vale a pena. Afinal, por que tanto barulho?

Som de Sexta

21 de agosto de 2015 10

Falei sobre essa grande música no Timeline desta semana.
Os Almôndegas formaram um grupo importantíssimo nos anos 70.
Em 75, há 40 anos, lançaram um disco histórico.
Pela primeira vez, no Rio Grande do Sul, músicas com linguagem urbana gaúcha eram tocadas numa rádio de Porto Alegre. No caso, a Rádio Continental, uma espécie de precursora das rádios FM.
Essa música, “Vento Negro”, composta por Fogaça, tornou-se um clássico. É um dos hinos do Estado. Rodava na abertura do antigo programa Portovisão, o antecessor do “Jornal do Almoço”. Em todas as rodas em que havia um violão alguém tentava tocar o Vento Negro, e todos cantavam, emocionados, que a música é emocionante.

Sartori e Dilma, irmãos na dor

20 de agosto de 2015 25

Em Brasília, Dilma queixa-se da oposição irresponsável, para quem “quanto pior, melhor”.

E ela tem razão. Muitos não se importam de ver a população sofrer, desde que o governo federal sofra também.

No Rio Grande do Sul, os que prestam solidariedade a Dilma fazem o mesmo que faz a oposição em Brasília: quanto pior para Sartori, melhor para eles, ainda que crianças fiquem sem aula, ainda que o cidadão fique exposto à violência urbana, ainda que doentes não sejam atendidos nos hospitais.

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Tudo vale, para chegar ao poder. Tudo vale, para destruir um opositor. Até o apelo para o nonsense. No Rio Grande do Sul, foi composta a teoria segundo a qual Sartori, se quisesse, teria dinheiro. Mas ele não quer. Na verdade, Sartori seria uma espécie de gênio do mal do liberalismo. Seu plano malévolo é “agudizar” a crise a fim de justificar a venda das empresas do Estado. Tudo faz parte da trama terrível: as empresas privadas, sedentas para se apossar das estatais rentáveis, investiram em Sartori, e ele assumiu pronto para convencer os gaúchos de que esse Estado rico e viável na realidade é pobre e falido.

Primeiro achei que isso fosse matéria daquele site Sensacionalista. Depois vi que as pessoas estavam realmente levando essa ideia a sério. Tanto, que foi proposta uma auditoria nas contas do Estado, provavelmente para conferir se o governador não está mentindo, quando diz não ter recursos.

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Mas vamos supor que essa tese exótica seja verdadeira. Diga-me: será que não está acontecendo o mesmo em Brasília? Será que Dilma não é uma agente do capitalismo glutão e está “agudizando” a crise para privatizar o Brasil?
Francamente.

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Você e eu sabemos como funciona: nenhuma proposta de Sartori será boa para o PT; nenhuma proposta de Dilma será boa para os tucanos. O PT e seus braços nos sindicatos, nas universidades, ONGs e movimentos rurais passarão quatro anos tentando sabotar o governo Sartori. O PSDB passará quatro anos sangrando Dilma no Congresso.

O PT fez desse comportamento a sua marca, e é por isso que experimenta hoje o ódio de grande parte da população brasileira. Para fazer uma única ilustração disso, lembro que o PT se opôs ao Plano Real.

O PSDB, percebendo que a estratégia petista funcionava, apropriou-se dela. Hoje, tucanos criticam um plano econômico que, em linhas gerais, eles colocariam em funcionamento, se tivessem vencido as eleições.

A oposição que protagonizam tucanos e petistas é tão nociva quanto seus governos. Já eu, daqui da insignificância do meu canto, posso não gostar de nenhum deles. Posso ser oposição aos dois.

Grêmio: a hora da mudança

20 de agosto de 2015 20

O Grêmio venceu as duas últimas partidas porque enfrentou adversários bem inferiores.
E porque tem um grande goleiro.
É agora, no momento em que está em alta, que deve ser feita a mudança.
Em time que está ganhando se mexe, sim. Para que continue a ganhar.