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Posts de setembro 2015

Queridxs amigxs

30 de setembro de 2015 13

Astrônomos descobriram que um cometa vai cair bem em cima do Rio de Janeiro, esmagando a cidade inteira. Mas não se preocupe, isso só acontecerá em 3 ou 4 milhões de anos, é possível que nenhum de nós esteja vivo então, e que o Botafogo até já tenha sido campeão da Libertadores, embora duvide que consiga ser do mundo.

Mesmo assim, fico inquieto. Temos dificuldades com planejamento, no Brasil. Se deixarmos para os últimos 10 ou 12 mil anos, é certo que as obras de remoção vão atrasar e que os cariocas serão amassados pelo cometa, que nem o foram os dinossauros por aquele meteoro que atingiu o México, há 65 milhões de anos.

Fico encantado com a capacidade dos cientistas de descobrir essas coisas. Os cometas que caíram, os cometas que cairão, e tudo mais. Eles sabiam sobre o eclipse da Superlua, no domingo passado. Aquilo foi lindo. A Lua se escondendo nas sombras na hora exata em que os cientistas disseram que aconteceria.

Como eles são sabidos. Não apenas os cientistas. Hidráulicos e eletricistas, por exemplo, são detentores de um conhecimento que me fascina. Além de tantos outros sábios, como o pessoal do help desk e os mecânicos de carro.

Já eu sei de pouquíssimas coisas. Uma delas é algo que aprendi sobre a nossa língua portuguesa: ela é fonética, e isso é genial. Imagine que com apenas 23 sinais, representando sons, somos capazes de expressar tudo que existe no mundo. Todos os pensamentos. Todos os sentimentos. Todos os objetos e animais.

Posso escrever uma palavra abstrata, algo que não existe, por exemplo: “Iglenho”. Posso escrever isso, e você saberá pronunciar. As escritas japonesa e chinesa são muitíssimo inferiores à nossa, desculpem-me os entusiastas do Oriente. Porque são visuais, são ideográficas, as pessoas têm de decorar milhares de símbolos.

Nossa escrita e nossa língua, portanto, são pontos excelsos da evolução humana. Por isso, preciso pedir às feministas que parem com essa história de escrever “amigxs” em vez de “amigos”, com a presunção de que estão lutando contra um preconceito de gênero. Quando vocês fazem assim, queridxs amigxs, vocês estão subvertendo a lógica da língua portuguesa, porque ninguém consegue ler “axs mxxs carxs amigxs”, esse troço não existe. De onde é que vocês tiraram essa ideia? “PresidentA” já é medonho. Sou contra o impeachment, mas, quando ouço alguém falar presidentA, tenho vontade de irromper Planalto adentro e derrubar a Dilma a golpes de caneta. A palavra “presidente” já é neutra, como vocês querem: “o” presidente, “a” presidente. Tanto faz.

Aliás, o português, ou, se vocês preferirem, “a” língua portuguesa, é, como o Direito, o calendário e até o cristianismo, uma herança do Império Romano. Deriva do latim, e no latim existia esse gênero neutro. Na língua portuguesa não existe, mas nós temos os nossos lindos artigos: o “o”, o “a”. Quando escrevemos “alunos”, ao nos referirmos a moços e moças estudantes, não é por machismo. Há deslumbrantes palavras femininas que designam os dois gêneros. Um másculo carvalho sempre será uma árvore. Qual a semelhança entre ele e uma mulher? Talvez porque ambos gerem frutos, o que não deixa de ser uma poesia. Aliás, a poesia, mais importante do que o poema, é feminina. E as cidades são femininas também, inclusive “o” Rio de Janeiro, que será destruído por aquele cometa.
Não destruam também a língua portuguesa, a nossa pátria, como diria Fernando Pessoa, a “última flor do Lácio, inculta e bela”, como diria Bilac. Viram? Ela é a pátria, ela é uma flor. Ela é uma menina!

Cervantes, que em espanhol escreveu o primeiro grande romance do planeta, era apaixonado pela língua portuguesa. Chamava-a de “la Dulce”. Doce. Como uma mulher. Como vocês. Sejam doces com ela. Não a maltratem. Por favor.

 

Por sinal...

29 de setembro de 2015 4

Coisas que só Porto Alegre faz

29 de setembro de 2015 19

Qualquer coisa nem sempre é melhor do que nada. Às vezes, é bem pior. Estou falando do polêmico projeto do Cais Mauá, onde hoje nada existe e do que, dizem os críticos, querem fazer qualquer coisa.

Essas pessoas que são contra o projeto gozam de alguma relevância na cidade. São intelectuais e arquitetos. Mas também há intelectuais e arquitetos a favor do projeto. O que a princípio é bom, porque todos parecem querer debater para o bem de Porto Alegre.

O problema é que muito debate, em geral, não leva a ação alguma. E, quando leva, produz mediocridades. Não há como ser diferente: tudo que é feito “pela média” fica distante da excelência. A excelência está lá em cima, fora do alcance da imaginação comum.

As reformas decisivas nas grandes cidades do mundo foram feitas com autoritarismo, ao largo da média. A mais importante delas, a do Barão Haussmann, prefeito de Paris por quase 20 anos no Segundo Império. Haussmann redesenhou uma cidade que tinha traçado medieval e que se refocilava na insalubridade. Alargou avenidas, saneou bairros, transformou Paris no que Paris é. A esquerda o criticava, porque ele teria aberto os espaços na área central da cidade para evitar as barricadas populares que se repetiam havia 20 anos e porque, com as demolições, os pobres foram expulsos para a periferia.

Tudo isso é verdade, mas Haussmann transformou Paris no que Hitler chamaria de “a mais bela joia da Europa”, além de ter fundado o modelo em que se inspiraram Buenos Aires, Nova York e Rio de Janeiro, entre outras cidades.

No caso do Rio, o nosso Haussmann foi o prefeito Pereira Passos, que também remodelou a cidade e que também destruiu os cortiços (vide Aluísio de Azevedo), fazendo com que os ex-escravos que lá moravam se mudassem para os altos de um morro em que crescia uma erva chamada “favela”. Assim o Rio se tornou a cidade maravilhosa e assim foi criada uma nova palavra para a língua portuguesa.

Se no Rio e em Paris fossem travados os debates democráticos usuais em Porto Alegre, não haveria Cidade Maravilhosa nem Cidade Luz. Não haveria nada.

O debate, então, é ruim?

Claro que não. É bom, se feito com boa vontade. É bom, se as partes envolvidas não pretenderem derrotar uma à outra, e sim chegar a um denominador comum que construa algo, que chegue a algum lugar, que saia do nada.

Tenho passado certo tempo a me informar sobre esse projeto do Cais Mauá. Tem seus defeitos e tem suas qualidades. Não é tão ruim quanto alegam seus opositores e tampouco é o ideal.

Mas será que conseguiríamos alcançar o ideal? Porto Alegre não é uma cidade rica. Um investimento de R$ 500 milhões em obras de reforma, a criação de uma nova área de convivência e a geração de milhares de empregos são melhorias evidentes, que não podem ser desprezadas pela exigência do ideal ou da perfeição. Até porque quem mais ganha com isso é quem menos tem.

Uma democracia tem de ser transparente, uma democracia evolui através do debate, mas uma democracia também tem regras. Há pessoas eleitas, numa democracia, exatamente para tomar decisões e, às vezes, para desagradar a alguns, ou muitos, em benefício da maioria. Tomara que o candente debate sobre o Cais Mauá não se transforme, como quase todos os debates porto-alegrenses, em um debate amargo, em uma discussão de inimigos, em uma ação na aparência democrática, mas na essência destrutiva. Tomara que esse debate faça com que a cidade saia do nada. Não em direção a qualquer coisa: em direção a alguma coisa melhor.

Tenho medo de Lula

28 de setembro de 2015 57

Sou dos que sentem medo da possibilidade de Lula voltar à Presidência. Admito. Seria horrível e, sim, pode acontecer. Coisas horríveis acontecem. Mais quatro anos andando para trás. Mais quatro anos de atraso. O Brasil vai demorar muito tempo para se recuperar desses governos petistas. Se se recuperar. O PT, com seu discurso de “Elite Branca x Pobres Pretos”, conseguiu instaurar no país um clima de animosidade irracional que não será desfeito tão facilmente. E o pior é que a disputa não é entre a Elite Branca e os Pobres Pretos. A disputa é bem mais rasa, entre governistas e antigovernistas. Não é disputa por ideologia. É por poder.

Lula gosta de se comparar a Getúlio, e ele tem razão. Ambos foram responsáveis por rompimentos do natural processo evolutivo da democracia brasileira. Getúlio deu um golpe num processo democrático regular que vinha desde Floriano Peixoto. Cada vez que escrevo isso, os getulistas modernos, que (assombrosamente) os há, gritam que na época havia fraude eleitoral e que a política “café com leite” revezava as elites paulista e mineira no poder. É verdade. Nenhuma democracia nasce pronta. Nenhuma democracia talvez nunca fique pronta. Prontas são as ditaduras. As democracias vão se aperfeiçoando com o exercício democrático, que não é só exercício do voto, é o exercício da convivência das diferenças.

É por isso que o impeachment de Dilma, se aprovado, será um golpe. Porque ainda não há provas provadas, sólidas o bastante, contra ela. Arranjem provas primeiro, para depois derrubá-la, se for o caso.

Aliás, quanto a isso, há um elogio que deve ser feito a Dilma: seu comportamento é absolutamente respeitoso com a democracia. Por mais acuada, por mais agredida, por mais ameaçada que esteja, ela nunca deu uma única declaração que arranhasse a normalidade da regra democrática, como Lula faz amiúde.

Natural. Lula está muito mais comprometido com o projeto de poder do seu grupo do que Dilma. Afinal, o grupo é DELE. Ele é o capo de tutti capi. Foi nessa condição que Lula golpeou a democracia brasileira, embora de forma muito menos contundente do que Getúlio.

O método foi quase o mesmo.

Externamente, Getúlio se associou aos ditadores da época, como Perón. Tentou até se consorciar a Hitler e Mussolini, mas foi dissuadido pelos dólares americanos. Já Lula se associou aos cubanos, à Venezuela, à Argentina.

Internamente, Getúlio fundou o peleguismo sindical. Que é um dos pontos de apoio de Lula.

Lula conseguiu chegar ao poder pelo voto, como Getúlio em 1950. Lula começou bem, com a ampliação do Bolsa Família e a manutenção da política econômica estabelecida pelo Plano Real. A impressão era de que o Brasil havia entrado num caminho de melhora sistemática e de possível solução de seus dramas históricos.

Aí se deu a traição. Nesse momento. Um presidente operário, simpático à população, com prestígio em todo o mundo, comandando um país com economia em ascensão, com uma indústria diversificada e uma agricultura poderosa, esse presidente e esse país podiam empreender as difíceis e necessárias reformas da escola pública, dos sistemas federativo, tributário, previdenciário e penal, poderiam, com muito esforço e pouco sacrifício, construir uma nação.

Mas Lula tinha o seu projeto particular. Tinha o seu grupo. Foi a eles que Lula dedicou seu empenho. E o Brasil ficou para trás. Esse tempo perdido não será recuperado sem dor. O Brasil perdeu muito por causa de Lula. E o pior nem foram as perdas na economia e na política. O pior foi a perda de esperança.

Sim, tenho medo de Lula. Não, não quero que ele volte. Nunca mais.

 

Cais Mauá - falta boa vontade

27 de setembro de 2015 21

Li todos os argumentos contra e a favor do projeto do Cais Mauá. Informei-me sobre o projeto e sobre as críticas a ele.
Não vi nada de tão terrível, para que tenha mobilizado a inteligentsia portoalegrense, como mobilizou.
O grupo que pretende investir no local vai gastar R$ 500 milhões. Porto Alegre é uma cidade pobre, não tem esse dinheiro. Os investidores querem construir um shopping e um estacionamento, acham que assim vão ter retorno. Que mal há nisso? A contrapartida vale a pena, me parece. O Barra Shopping renovou uma área da cidade que estava abandonada.Não servia para nada, não era usada por ninguém. Há duas torres lá no Barra Shopping. Melhor seria se não houvesse as torres? Talvez, mas o que foi feito na área compensou.
O grupo de intelectuais que se levantou contra a obra não está vendo o que ela significará para a cidade. Esses R$ 500 milhões e os investimentos que deles decorrerão vão proporcionar empregos a milhares de pessoas, vão criar uma nova área de convivência, vão fazer circular recursos em Porto Alegre. Porto Alegre precisa disso.
É certo que falta um pouco de transparência ao projeto. É certo que o projeto não é o ideal. Mas é muitíssimo melhor do que existe hoje, que é nada. Em vez de se opor, esse grupo, que é obviamente bem-intencionado, deveria compor. Deveria procurar o poder público para acrescentar ao projeto, não para eliminá-lo. Mas acho que isso não acontecerá. Acho que nada acontecerá. É muito mais fácil e rumoroso destruir e impedir do que construir e contribuir.

Inclusive...

27 de setembro de 2015 0

André Lima marca no Grêmio e goza do Inter

26 de setembro de 2015 33

André Lima, jogando pelo Avaí, marcando um gol no Grêmio, comemorou gozando do Inter, simbolizando, com as mãos o 5 a 0 do último Gre-Nal.

É uma formidável demonstração de força da rivalidade Gre-Nal.

Muita gente acha que a rivalidade faz mal aos dois clubes. É o contrário. A rivalidade acérrima os faz grandes.

Pense sobre isso: André Lima não é gaúcho, nem foi criado no Rio Grande do Sul.

Jogou no Grêmio menos de três anos.

Está jogando no Avaí.

E, ao marcar um gol NO GRÊMIO, gozou DO INTER.

Quer dizer: André Lima sentiu, jogando no Rio Grande do Sul, como é importante a disputa entre os dois clubes, como isso motiva as torcidas, como está nas cabeças das pessoas.

Mais ou menos o que sente D’Alessandro ao jogar no Inter.

É algo especial. Algo de que os gaúchos têm de se orgulhar.

Meus 100 anos

26 de setembro de 2015 5

Um velhinho, lá no Japão, tem 105 anos de idade e corre os cem metros rasos. Ele começou a correr não faz muito, aos 90. Mesmo assim, diz que um dos segredos da vida longa é a prática diária de exercícios. Os outros são comer pouco e mastigar bastante os alimentos.

Isso de comer pouco eu já sabia. E não graças aos japoneses; graças aos inimigos históricos deles, os chineses, que dizem: “Jamais te arrependerás de comer pouco”.

Levo essa frase sempre comigo e a repito a todo momento, embora jamais a tenha aplicado.

O velhinho japonês diz ainda que temos de mastigar bastante. Também já sabia disso. A minha madrinha Sônia insistia que temos de mastigar cada bocada 42 vezes. Um dia ela me levou para almoçar em um restaurante vegetariano que pregava algo parecido. A gente punha uma colherada de grão-de-bico na boca e ouvia um cara falar mansamente pelo sistema de som:

– Mastigue… Mastigue… Você deve facilitar o trabalho do estômago… O bolo alimentar tem de ser dissolvido completamente pelos ácidos estomacais… Você, de camisa azul e óculos… Você está comendo muito rápido… Mastigue… Mastigue… Você, perto da janela, de blusa verde: não é assim que se faz. Calma… Mastigue…

Nunca mais voltei àquele restaurante. Tinha medo de ser censurado pelo cara do sistema de som. Além disso, chamar comida de bolo alimentar me tira o apetite.

De qualquer forma, não consigo mastigar 42 vezes. Simplesmente não consigo. Nem quando a costela está meio emborrachada. Acho que não correrei os cem metros rasos aos 105 anos.

Deveria ser mais fácil passar dos cem. Segundo o Gênesis, era. Matusalém, o avô de Noé, viveu 969 anos. E Noé, o homem que não apenas salvou a humanidade, mas também plantou a primeira vinha, viveu 950 anos. O que aconteceu para que a expectativa de vida diminuísse? O Gênesis explica:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se na Terra e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram bonitas, e escolheram para si aquelas que lhes agradaram. Então, disse o Senhor: ‘Por causa da perversidade do homem, meu espírito não contenderá com ele para sempre, ele só viverá 120 anos’”.

Não haverá de ser linear a interpretação desse texto, mas, veja: sempre as mulheres… Em todo caso, o que resta é que podemos viver 120 anos, e a Bíblia não fala em ter de praticar exercício, comer pouco e mastigar muito. Logo, mesmo sem adotar esses hábitos nipônicos, posso chegar lá. Estou cogitando com seriedade essa possibilidade. Já planejo minha festa de cem anos. Vou encomendar alguns barris de chope cremoso, muitos quilos de picanha e convidar todos os meus amigos. Mas todos! Estaremos num grande salão cheio de painéis, como numa exposição de fotos, e, na verdade, é isso mesmo que será: uma exposição de fotos dos afetos da minha vida: minha família, meus parceiros de infância, da faculdade, das redações em que trabalhei, os antigos vizinhos, os companheiros de mesa de bar, a turma do futebol, os que serão centenários, como eu, e os que já não estiverem mais debaixo do sol. Então, passaremos, munidos de nossos copos de chope e nossos nacos de picanha, passaremos diante de cada quadro e contaremos histórias do personagem retratado ou do momento em que a foto foi tirada. Ficaremos assim durante toda a noite, e quem sabe invadiremos o dia seguinte e outros mais. Vamos beber, comer, contar histórias e rir, sobretudo rir, porque a regra é que poderemos falar de tudo, até das partes ruins, mas sem jamais brigar, sem jamais ofender, sem jamais perder o riso. Afinal, já teremos bastante experiência para saber aproveitar só o lado bom de cada um de nós.

Som de sexta

25 de setembro de 2015 3

O carrinho vermelho

25 de setembro de 2015 13

carrinho1

Meu plano era ver o outono chegar. Sabia de antemão que ele faria sua entrada no Hemisfério Norte às 4h20min da madrugada de quarta, no mesmo momento em que a primavera derramaria seu charme pelo Brasil. Queria testemunhar o acontecimento. Sempre quis experimentar o exato segundo da mudança de estação.

Assim, pouco antes das 4h20min, iria para a calçada e ficaria esperando, atento, com o nariz farejando o ar, feito um perdigueiro. Imagino um pé de vento de cheiro diferente quebrando a esquina ou, muitíssimo mais apropriado, uma folha amarela despegando-se do galho da árvore e flutuando devagar até o chão, imagino que algum sinal desses seria enviado e eu, inflando o peito, suspiraria:

– Aí está o outono…

Mas, maldição!, não consegui acordar.

As trocas de estação por aqui são bem mais marcantes, preciso dizer. Boston se torna pelo menos três cidades completamente diferentes a cada ano, uma branca, outra laranja e a terceira azul e amarela. E, curioso, a transformação se dá em grande velocidade, quase que de um dia para outro. Por isso, na primeira manhã do outono, saí de casa tentando identificar as novidades. Aí, atravessando uma praça, deparei com esse carrinho vermelho.

Conheço a praça e conheço o carrinho. Já o tinha visto, inclusive à noite, debaixo de alguma árvore. O carrinho está sempre por ali. Pertence à praça. Faz parte da paisagem. Mas, desta vez, parei para admirá-lo.

Uma noite, quando meu filho tinha uns três anos, cheguei em casa depois do trabalho e o vi andando num carrinho parecido, em círculos, no pátio. Fiquei algum tempo observando, enternecido. Poucas coisas são mais puras do que um menino pedalando um carrinho no pátio de casa. Ali não há maldade, não há segunda intenção, não há nem reflexão. Um menino e seu carrinho. Só.

O carrinho vermelho da praça, esse especificamente, que parei para ver e fotografei com meu celular, esse carrinho vermelho, com a moça atrás embalando um nenê em um berço, com a grande árvore entre eles, com as rosas ao fundo, essa cena produziu em mim o mesmo enternecimento. A mãe embalando o seu nenê, o frondoso carvalho que se abre para o céu e o carrinho vermelho esperando pelo menino, eles reunidos na primeira manhã do novo outono. As maldades do mundo, as ganâncias dos homens, os desencontros da vida perderam sua relevância por alguns segundos, diante do carrinho vermelho. Pode ser banalidade minha, pode ser divagação de meia-estação, decerto que é, mas queria dividir esse pequeno pedaço de paz com você.

Por sinal...

24 de setembro de 2015 0

Cartas na rua

24 de setembro de 2015 4

Vi uma moça escrevendo uma carta no parque, outro dia. Sei que se tratava de carta, porque ela escrevia, exatamente, em papel de carta. Estava sentada em um banco de madeira, com uma caneta azul na mão. Escrevia muito concentrada, com o papel apoiado em um livro ou caderno.

Fiquei admirado. Alguém escrevendo uma carta em 2015.

Eu escrevia cartas outrora, e você sabe que outrora é tempo antigo. E as recebia, claro. Tinha uma caixa de sapatos cheia de cartas. Duas caixas, na verdade.

Eram, na maioria, cartas de namoradas ou de namoradinhas, que são categorias diferentes de relacionamento amoroso. É que tive namoradinhas em outras cidades. Era ainda guri, mas levava no bolso a chave da caixa de correspondência lá de casa. Todos os dias a abria, ansioso. Receber uma carta dá à gente sensação de ser especial. O seu nome escrito à mão naquele envelope. Alguém teve trabalho para enviar aquilo para você, funcionários dos Correios se mobilizaram para levar a mensagem até seu endereço. Não, não é qualquer um que recebe uma carta. Quem recebe uma carta é importante, nem que seja para um único outro ser humano.

E uma carta amorosa, então… Fernando Pessoa escreveu que todas as cartas de amor são ridículas. Decerto que são, mas quem recebe uma carta de amor não precisa de psicanalista.

Recebi e escrevi cartas de amor ridículas, mas, confesso aqui, não era a intensidade de sentimento que mais me comovia naquelas cartas do passado: era o estilo. Algumas pessoas sabem escrever cartas. São os tais missivistas.

Havia uma menina que conheci na praia, uma vez… Hoje, se ela passasse por mim, ainda que estivesse igualzinha, não a reconheceria. Mal lembro o nome dela. Era alguma coisa com Mara. Lia Mara, talvez. Ou Mara Lia. Não sei. Mas sei que Lia Mara escrevia cartas com graça. Ela contava algo comezinho de seu dia, a primeira colherada de um sorvete de morango que lhe derreteu na boca, a travessura cometida pelo gato, a forma como reorganizou as gavetas da cômoda… ocorrências corriqueiras, que, pela sua descrição, pareciam grandes aventuras, e sempre divertidas.

O que será feito de Mara Lia hoje? Terá se tornado escritora? Será que conseguiria manter a verve no e-mail? Creio que não. Até porque um dos atrativos da carta era a letra do missivista. Da letra escorre um pouco da personalidade do escrevinhador ou de seu estado de espírito no momento da escrita.

Havia nas cartas d’antanho, que é tempo ainda mais antigo do que outrora, pois havia, naquele tempo, letras evidentemente nervosas, escritas de lado, como que correndo folha afora, letras já saindo. Havia letras furiosas, que quase furavam o papel. Um erre bem redondo, com a perna chicoteando por baixo da vogal seguinte, denotava certa vaidade. E um eme com pé em curva dizia que a pessoa queria impressioná-lo. Sem falar nos ós. Um ó perfeito como uma moeda mostrava capricho. Quem escreve exatamente sobre a linha tem senso de organização. Quem começa a frase no alto e vai descendo certamente não está em boa fase. Já o contrário, quem vai subindo como numa escada na certa está em estado de euforia.

Lia Mara tinha critério, ao compor uma carta. Via-se que tudo ali era de caso pensado. Ela tinha técnica. Era racional, intencionalmente leve, quase fria. Uma mulher perigosa. Como terá escrito sua carta a menina do banco da praça? Uma moça que ainda escreve cartas é uma romântica de letra de forma redonda, desenhada com gosto, artística até. Feliz do homem que vai receber essa carta. É um homem importante.

Resultado do Inter não foi tão ruim

24 de setembro de 2015 4

Parte da torcida vaiou o Inter, mas o resultado não foi tão ruim. O Palmeiras tem um bom time, que sabe fazer gol, mas que leva muitos gols, também. Basta marcar um gol em São Paulo, um só, e a situação vira a favor do Inter. D’Alessandro deve continuar fora, sim, mas Alex é um substituto à altura. Em São Paulo, o time tem que atacar, tem que marcar gol. Parece perigoso, mas penso o contrário: time que ataca sempre está mais perto de ganhar o jogo. Às vezes, é bom jogar com essa exigência.

Grêmio é o time mais bem treinado do Brasil

24 de setembro de 2015 5

O Grêmio sabe o que quer. É o time mais bem treinado do Brasil. Disparado. É uma equipe mais bem ajustada do que o Corinthians e do que o Atlético Mineiro. Se vai ganhar algo, não sei. Sei que é uma equipe, um conjunto, os jogadores têm consciência exata de como se comportar em campo. Hoje, não ganhou de dois ou três a zero do Fluminense porque lhe falta contundência. Falta jogador afeito a marcar gol. Mas é um time de aproximação, de marcação sufocante, de calma. Tem tudo para passar à próxima fase, até porque o Fluminense é um time emasculado. Mas é um time grande. Quer dizer: sempre será perigoso. Além disso, a Copa do Brasil é a competição do imponderável, porque a classificação pode ser decidida num único lance. Se o Grêmio jogar com um pouco mais de ímpeto, tem ótimas chances de ganhar o título.

Os sabotadores do Brasil

23 de setembro de 2015 18

A ideia de que as maiorias têm poder é falsa, mesmo numa democracia.
As minorias mandam.

Minorias articuladas, naturalmente.

As maiorias querem viver em paz, não se mobilizam, salvo casos extremos, como na Revolução Francesa. Mesmo assim, a maioria dos cidadãos franceses se cansou do Terror que se seguiu à Revolução. Tanto que, poucos anos depois, um novo monarca arrancava a coroa das mãos do papa e coroava-se a si próprio na Notre-Dame de Paris.

Para se manter no poder e oprimir as maiorias, os grandes tiranos da história sempre se valeram de minorias organizadas e, em geral, violentas. Quando não fanatizadas.

A Revolução Russa foi desencadeada por um descontentamento geral parecido com o da Revolução Francesa, mas, como na Revolução Francesa, logo deixou a população exausta e desejosa da volta à suavidade da rotina dos dias. Os russos e demais povos agregados, assim, submeteram-se tristemente a um dos maiores carniceiros da história, o ditador de aço, Stálin. Processo semelhante ocorreu na China, no meio do século 20. Controlando alguns milhares, Mao matou milhões. Quando lhe perguntaram se lamentava o morticínio, respondeu que a China tinha uma população tão grande, que suportaria o sacrifício.

O poder das minorias sólidas é imenso.

Hoje, 50 pessoas param Porto Alegre.

Hoje, 300 deputados param o Brasil.

A oposição é parte indispensável de uma democracia saudável. Mas não o tipo de oposição que se faz no país.

No Rio Grande do Sul, desde a semana passada havia uma minoria ansiando pelo confronto com a polícia, trabalhando pela promoção de cenas iguais às ocorridas no Paraná no começo do ano, quando a PM bateu nos professores. Queriam que gente saísse da Assembleia sangrando e gritando contra a truculência do governo repressor. Essa é a prática das oposições no Rio Grande do Sul, uma oposição que não se importa se o que está sendo feito é bem ou malfeito, porque para ela só importa que não seja feito.

O projeto de Sartori é bom ou ruim? Não sei. Não o analisei em profundidade para dizer. Mas posso dizer que os que foram para a Assembleia armados ou dispostos a “quebrar para entrar”, como gritavam ontem, foram, exatamente, para criar um “fato político” que expusesse o governo, o atrapalhasse e, de preferência, o paralisasse. A derrubada do projeto tornou-se quase irrelevante. Queriam desgastar o governo.

Assim em Brasília. O que os deputados federais, inclusive alguns da base governista, estão fazendo? Estão inviabilizando o país. Estão sabotando o Brasil. Chegaram a aprovar um aumento de 57% nos salários do Judiciário, um acréscimo de despesas de mais de R$ 100 bilhões em três anos, para anular a economia proposta por Levy. Que tipo de oposição é essa?

Todos os projetos de Dilma serão rejeitados. Todos. Porque são ruins? Não. Porque, para os opositores, é importante que Dilma não tenha outra saída que não a renúncia. Empresas estão falindo, trabalhadores estão sendo demitidos, os brasileiros estão sofrendo, mas isso não interessa para eles. Interessa é que Dilma se veja diante do impasse de ter de renunciar para que o país volte a funcionar. E é o que acabará acontecendo. Tudo pelo poder. Algumas minorias podres. É o que basta para apodrecer todo um país.