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A questão do Enem

25 de outubro de 2015 19

Acompanhei a febril discussão travada “nas redes”, no fim de semana, sobre a frase de Simone de Beauvoir que caiu na prova do Enem. É frase conhecida, o mesmo debate já se deu muito tempo atrás, e foi sempre um debate sonolento. Mas não é a tese de Beauvoir que interessa. Nem vou reproduzi-la. O que interessa é que a maioria dos alunos que a leram não conseguiram interpretá-la, seja para concordar, seja pra discordar.
Não me incomodaria de ver as escolas públicas brasileiras educando pequenos Josés Dirceus ou pequenos Ronaldos Caiados, desde que as crianças saíssem de lá educadas. A ideologização é péssima, claro que é. Todas as ideologias são emburrecedoras, sem exceção. Mas, levando-se em conta a situação da escola pública brasileira, esse é um problema subalterno.
Cursei o segundo grau no Piratini, excelente colégio público. Havia ainda o Dom João Becker, nos altos do IAPI, o Parobé, célebre por seu ensino técnico, o Instituto de Educação, o Julinho, o Colégio Uruguai, o Irmão Pedro, o Infante Dom Henrique, e tantos outros, todos ótimos, de nível tão bom quanto qualquer escola privada.
O que aconteceu, de lá para cá? Por que a situação da escola pública, no Brasil em geral e no Rio Grande do Sul em particular, piora de ano para ano?
Não é só culpa dos governantes. Temos aí um problema cultural.
Quando Lutero liderou a reforma religiosa, há quase 500 anos, houve uma secularização do ensino na Europa. Um dos atos mais importantes de Lutero foi a tradução da Bíblia para o alemão. Não por diletantismo. Com esse trabalho, ele se tornou o fundador da língua alemã moderna, tanto quanto Dante o fora da italiana, 200 anos antes. Lutero dedicou-se a essa dura tarefa para que a Bíblia fosse acessível a todas as pessoas, o que as libertaria das amarras do papado, e permitiria que elas aceitassem as novas religiões. Mas, para que as pessoas pudessem ler em alemão, elas teriam de saber… ler! Logo, a educação era importante.
É por isso que, na fundação de qualquer cidade de raiz protestante, os primeiros prédios erguidos eram o da igreja e o da escola pública, muitas vezes lado a lado. A primeira escola pública da América foi levantada aqui, em Boston. É a Boston Latin School, que existe desde 1635, onde estudaram figuras como Benjamin Franklin.
Nos países católicos, a educação era restrita à nobreza e ao clero, precisamente porque a nobreza e o clero eram quase que a mesma coisa, havia interdependência entre eles, e a exclusividade do conhecimento lhes dava poder.
É claro que o mundo evoluiu e se transformou, mas você pode até mudar velhos hábitos, sem mudar velhos sentimentos. Há em nós, nos países católicos, um sentimento recôndito de que a educação não é um fim em si mesmo. A nossa percepção é de que a educação tem de servir a outro objetivo, e aí haverá de ser qualquer um: pode ser o mais comum, o de ganhar dinheiro, até o mais bizarro, o da “formação de quadros”, passando pelo supostamente libertário, que é o de “conscientização”, que na verdade não liberta: dogmatiza. O “conscientizado” pensa pela cartilha.
No Rio Grande do Sul havia, tempos atrás, uma educação de matriz protestante. Não por acaso, a melhor do país. Mas o Rio Grande do Sul foi se “abrasileirando”, todo o Brasil foi “se abrasileirando”. Hoje, mais do que nunca, o Brasil é um país homogêneo. Somos todos iguais, ou mais ou menos iguais. O que não significa que sejamos melhores.

Comentários (19)

  • Roberto Nunes diz: 25 de outubro de 2015

    A Classificação do Brasil em educação é péssima…
    A Classificação do RS no Brasil é péssima…

    E aqui no RS ainda, tem a particularidade de que o ensino público é melhor do que o ensino particular, embora o preço monumental que está o ensino particular… Se bem que se considerar pela média, acho que a média dos particulares deva ser maior do que as públicas…

    Mas não existe e nunca existiu uma disciplina especial…. “Interpretação de Textos”… Isto torna os alunos analfabetos funcionais….

  • Rafael Henrique Rabelo diz: 25 de outubro de 2015

    Morta a cobra!

  • JEFERSON diz: 25 de outubro de 2015

    PIPOCOU sobre a questão do ENEM, um tema tão pungente, pra falar mal da educação (algo que todos sabemos ser péssima).

    Escolheu o caminho fácil e covarde de falar mal do governo, educação, etc para se esquivar da questão da redação.

    Já foste melhor….

  • Gabriel diz: 25 de outubro de 2015

    Baita comentário David!

  • Andre diz: 25 de outubro de 2015

    As vezez voce fala ,fala , mas não diz nada, deve ser a necessidade de produzir.

  • Claudio diz: 25 de outubro de 2015

    Desenvolveu o texto de forma muito produtiva. Demonstrou ótimo conhecimento de história. No final do texto o de sempre… tropeçou no juiz e caiu…”pênalti para o Corinthians”…ou roubou(mesmo que 80% dos ladrões sejam do PP), “abrasileirou”, sonegou (vixiiii! assunto delicado!), patrocinou inclusão social, diminuiu a pobreza, desonerou tributos (alegria dos empresários), segurou preço dos combustíveis, colocou um neoliberal no Ministério da Fazenda (que os tucanos teriam colocado se ganhassem), ganhou a eleição do Aécio, luta contra o Cunha, chamam a autoridade máxima do país de VACA…etc…etc..etc… tudo CULPA DO PT! Vira o disco David!

  • William Ribeiro diz: 26 de outubro de 2015

    “A Cabeça do Brasileiro – Alberto Alemida”. Aposto que leste esse livro. Post bem parecido com o que o livro diz. Bom texto.

  • Rodrigo Ulrich diz: 26 de outubro de 2015

    Caro David Coimbra!
    Escrevo para lhe cumprimentar:
    pela excelente reflexão;
    pelo resgate à essência da educação;
    pela lembrança de Lutero e toda a consequência positiva gerada à educação;
    por mencionar uma prática educacional nem sempre conhecida e reconhecida em nosso país.
    Enfim, por mostrar que a roda já foi inventada e, portanto, não há necessidade de reinventá-la. E que isto tudo tem relação com inovação e evolução.

    Um abraço.

  • João Agrário diz: 26 de outubro de 2015

    Mas Davi, Espanha, França e Itália são países católicos e estão à frente dos EUA no ranking PISA.

    A tese de que os países protestantes teriam uma ética do trabalho e de educação superior foi muito popular em círculos acadêmicos durante anos. O próprio Max Weber foi um dos maiores divulgadores. Mas hoje está superada.

    Marie Curie, Enrico Fermi e tantos outros gênios estudaram em colégios católicos. Mesmo que renegassem o catolicismo mais tarde, são produtos do sistema educacional católico.

  • Maurino diz: 26 de outubro de 2015

    Voa aumentar a proposta que a tempos faço e não encaram. Jogo meu fusca e mais um fiat 147 contra uma bala ( doce) que esse Claudio não trabalha numa empresa privada. Alguém pra vir aqui e defender um partido que pratica um assalto de us 70 bilhões de rombo nas contas e outro rombo de uns 60 bilhões na Petrobras, só pode ser mal intencionado.

  • Carlos Guilherme diz: 26 de outubro de 2015

    Excelente análise David, parabéns.
    Estudei no Julinho na década de sessenta. Para se ter uma ideia da qualidade do ensino que era praticado no então “colégio padrão do Rio Grande do Sul”, os que ali cursavam o científico não precisavam fazer cursinho para passarem no vestibular, coisa impensável nos dias de hoje.
    Cito esse fato para salientar a degradação que o ensino no estado e no pais sofreu nas últimas quatro décadas.
    Aliás, basta dar uma passada de olhos na prova do Enem de ontem para se ter certeza disso!

  • marcelo 1968 diz: 26 de outubro de 2015

    tsc..tsc….
    a insistência da quadrilha PTralha é grande né david.
    è por todos os lados as tentativa infâme de doutrinação.
    Mas os santinhos do dinheiro, na cueca, na suiça, nas gráficas fantasmas, nunca desistem, sempre se acham injustiçados.
    Logo eles que colocaram cunha lá,
    logo eles que tinham cunha como aliado,
    logo eles que montaram o esquemas onde cunha é delatado,
    logo eles PTralhas que montaram o mensalão o petrolão e foram denunciados junto com…..com cunha,
    logo eles que são processados por vários por calúnia,
    logo eles os destruidores de reputação vem papagaiar como que os patrulheiros da imoralidade
    Chato?
    virar o disco?
    è isso mesmo que queremos, virar o disco, tirar essa opera Bufã “algo de tudo de podre no reino do lulloPTismo”.

    Olha que legal a zelotes da pegando geral, vai pegar o mantega o mniistérios do planejamento olha que legal, ops, vai ser seletivo falar da zelotes?

    olha que legal tem os reis da ilegalidade de novo envolvidos, mas surpresa nenhuma,,,,PTralhas são ronaldinhos da corrupção.

    tudo culpa do PT. dos militontos, do povão que recebe sestas básicas que votam a cabrestos..
    isso é democracia…toma sesta, toma ajuda isso….democracia…báh

    perguntou um desses beatifiados defensor dos injustiçados ée tudo culpa Sim tudo culpa e de mais coisas que ainda não sabemos direito tipo roubar dinheiro dos fundos de pnesão por exemplo do fundo dos funcinários. vai parecer, mais culpa vem ai
    Mas tem mais, tem mais delação por ai, ainda vai aparecer que a vaca máxima que chantageou o próprio brahma para se reeleger ano passado, isso já corre a boca solta, vandinha , chantageou o ladrão mor, para ficar mais 04 anos, tinha que dar no que deu né…os ladrões descobertos.
    Mas isso é chato vira o disco. isso mesmo vamos virar o disco, falar sobre amenidades e prender essa cambada PTralha junto com seus alidas de ocasião maluf,renan, cunha, sarneis todos esses, fechar ONG de araque, discutir educação não ideologia ultrapassada do inicio do século passado, mandar professor dar aula, se els tiverem capacidade,pois só querem politica.
    acabr com essa cambada do foro de são pualo
    e extinguir essa legenda criminosa, que, já está debandando para a rede e Psol da vida…como os ratos que são é claro.
    Mas a lei chegara antes.
    todo mundo vai conheçer bumlai e outros.

    imprensa golpista;;;;que piada

  • Diego diz: 26 de outubro de 2015

    Davi, tenho dúvida sobre uma afirmação colocada no início do teu texto, sobre a “primeira escola pública das Américas”.
    Já no século XVI por estas bandas os padres jesuítas mantinham instituições de instrução pública (voltadas aos indígenas); creio que podemos chamá-las de escolas, pois, por mais que seu modelo diferisse muito do que hoje conhecemos como “escola”, também essa de Boston era pouco parecida com uma “High School” de hoje em dia.

  • Adis Azevedo diz: 26 de outubro de 2015

    David você é ótimo.Quero muito ler seus livros.

    A sua cultura geral é de dar inveja(no bom sentido).

    É um prazer ler seus textos.

  • gilson diz: 27 de outubro de 2015

    Hoje qualquer um tem a capacidade de baixar todo o material ensinado no MIT, se assim quiser.

    Então alegar que o que o cenário atual está sofrendo é um resquício de uma desigualdade do passado, acho que não é o que ocorre. Nunca houve tanta igualdade como hoje.

    O aprendizado só é válido se ele for uma ferramenta de criação. De que vale o aprendizado quando este não é mais associado a criação?

    Os aprendizes de hoje precisam mesmo é de mais silêncio. Mais silêncio para que eles descubram seus próprio teoremas, para que eles criem suas próprias coisas e até mesmo para que batam com a cabeça na parede (pq não).

    Dane-se Martinho Lutero, dane-se o papa. Eu estou mais interessado é nos heróis que ainda não existiram.

  • Tiago Lopes diz: 27 de outubro de 2015

    Não consegui ler o teu texto até o final. Investigue isso. Por este motivo, não comprei esse tal livro teu.

  • Lucas Graffunder diz: 28 de outubro de 2015

    Senhor David, muito obrigado pelo resumo que deste. Sou estudante de teologia da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Fiquei muito feliz, pois tu és uns dos meus inspiradores quando preciso de assuntos ou ideias para sermões ou estudos bíblicos.
    Grandes filósofos, cientistas ou médicos, podem ser produzidos em qualquer escola. Na teologia-filosófica Luterana a escola é o lugar em que o ser humano tem a oportunidade de conhecer e aprender a teologia para cobrar o ensino correto da bíblia de seus pastores. E também e muito mais importante a escola serve para dar ao ser humano o conhecimento necessário para se ter uma vida boa, para cobrar de seus superiores e para ter educação e responsabilidades, para então se tornar um líder.
    Que Deus continue te abençoando. Nos sofrimentos e alegrias.
    Graça e Paz.

  • Rafael José Caruccio diz: 29 de outubro de 2015

    Olá João Agrário, de fato alguns países católicos são desenvolvidos e alguns protestantes estão em decadência (Inglaterra). Mas esses países europeus católicos que citaste contaram com elites modernizantes que, via Estado, fizeram as reformas. A França após a Revolução, a Itália após a reunificação em 1870 e a Espanha ao longo do século XX, principalmente no final. Mas o diferencial dos países protestantes (principalmente EUA) é que a noção de que educação é importante parte da sociedade civil, e não do Estado. E eles não valorizam tanto o diploma como os latinos/católicos. No mundo protestante é o conhecimento que conta, tanto é que os grandes inovadores da economia americana nunca exibiram e às vezes nem tinham diploma. Henry Ford, Mark Zuckerberg, Steve Jobs. No Brasil, pelo fato de não terem diploma, seriam esquecidos em algum beco.

  • Marcelo diz: 30 de outubro de 2015

    “Andre diz: 25 de outubro de 2015

    As vezez voce fala ,fala , mas não diz nada, deve ser a necessidade de produzir.”

    O cara vem criticar um texto e me sai com “vezeZ”…

    Como é medonha essa nossa educação, capaz de gerar esses A.F.

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