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O amor à linguiça

29 de outubro de 2015 9

Fiquei um pouco ressentido com essa história de que os embutidos dão câncer. É algo que preciso abordar, mas, antes de ir em frente, tenho de ressaltar que estou ciente dos riscos que corro, riscos que foram ignorados pela própria presidente da República. Eu, se fosse assessor da Dilma, teria sido pressuroso em advertir, antes do seu famoso discurso de saudação à mandioca:

– Presidente, há certas palavras que, por si só, tiram a seriedade de qualquer manifestação, no nosso querido e irreverente Brasil.

A mandioca é uma delas. Bem como a linguiça, o salame e outros produtos com formato sugestivo.

Ocorre que, sim, sempre fui apreciador de embutidos. Meu arroz de china pobre, também conhecido como arroz com linguiça, tornou-se célebre nos anos 1990, em Porto Alegre. Eu morava num apartamento modesto, porém funcional, nos altos da Rua Portugal, e foram inúmeras as noites em que recebi amigos com uma olorosa travessa de arroz de china pobre, mais, é claro, cerveja branquinha, de tão gelada. Todos se repimparam à grande, e elogiaram meus dotes culinários, e uma ou duas moças que me eram caras sorriram com mais brandura para mim, terminado o jantar.

Você talvez diga que arroz com linguiça não é prato para ser oferecido a uma mulher que se anseie conquistar, mas uma vez ouvi a seguinte frase de uma jovem semideusa, enquanto ela tirava, com um decidido golpe de guardanapo, um pingo de molho de tomate que lhe tingia os lábios de gomo de bergamota:

– Isso foi muito, muito bom…

Ah! Primeiro a linguiça, depois o champanhe. Sim, senhor.

Meu cachorro-quente também ombreia com o cachorro-quente do Rosário, e a minha avó, a saudosa dona Dina, suprema cozinheira, fazia um prato de linguiça bem fininha com abóbora que, Jesus Cristo!, jamais provei iguaria semelhante, desde que ela se foi para um plano mais elevado, onde certamente se pode comer de tudo, beber de tudo e todos os sinais de wi-fi são liberados.

E tem o salame! E tem a mortadela, tão generosamente distribuída entre duas fatias de pão amigas nos eventos patrocinados pelo PT. O povo ama os embutidos, essa é a verdade.

E eu também.

Mas, olha, outro dia, andei tendo um câncer, e não duvido que tenha sido coisa da linguiça. Com o que, declaro agora, com pesar e circunstância, que renuncio aos embutidos.

Nunca mais salsichão com salada de batata como entrée dos churrascos na casa do Degô.

Nunca mais hot dogs, nem mesmo aqui, na terra das oportunidades, da liberdade e, bem, dos hot dogs.

Nunca mais salame e salamito, esses dois primos-irmãos que acompanharam fatias de pão francês que me foram servidas em antigos cafés da tarde, tipo de refeição extinto pelo açodo da vida moderna.

Nunca mais minha pièce de résistance, o inefável arroz de china pobre…

Nunca mais. Nunca mais.

Não sei como será viver num mundo sem a linguiça, sem a salsicha, sem nem o chouriço. O velho chouriço. Será um mundo mais saudável, é certo que será, e daqui a pouco lançarão embutidos light e inofensivos como um grão-de-bico, também disso sei, mas… Não seremos mais os mesmos. Paciência. Que a vida sem embutidos valha a pena ser vivida.

Comentários (9)

  • Roberto Nunes diz: 29 de outubro de 2015

    Bom, este câncer nos intestinos que a linguiça dá, passa a valer a partir de agora, nos milhares de anos anteriores podia se comer sem dar câncer.

    Pena que o porco tem sido tão desvalorizado, agora a linguiça, salame, salsichão, etc está sendo condenado, antes já o torresmo, bacon, etc…

    Antigamente tudo do porco era aproveitado, desde o torresmo até a linguiça, bem, menos o espírito…

    Mas espero que uma segunda ordem venha a inocentar estes vilões como já aconteceu com outros alimentos…

  • Xcake diz: 29 de outubro de 2015

    Apego

    Dizem que o corpo da gente é aquilo que a gente come. Na verdade nossa vida é aquilo que a gente come e faz a vida inteira. Nos apegamos a cada coisa, até a uma toalha, um brinquedo, uma coleção de figurinhas, bolitas águias da infância, etc.

    Uma coisa que eu tive e perdi e que de fato foi penoso e deixou ressentimento, foi sem dúvida o futebol. A maioria de nós jogou futebol a infância inteira, a adolescência e entramos na vida adulta fazendo isso. É certo que jogamos tantas outras coisas: bolita, xadrez, tênis de mesa e de campo, trilha, damas, etc. Mas nada foi como o futebol. Até porque os outros jogos a gente não perde de forma traumática.

    O futebol pra mim foi assim, de uma hora para outra tive uma torção de joelho. Depois uma segunda e uma terceira. E tive que deixar aquela turma de toda terça, quinta e sábado, pois foi ficando chato ir só assistir e participar da cerveja e churrasco.

    Acredito que com as linguiças seja a mesma coisa. Com as salsichas também. A gente nota e fica comovido com o apego que o David tem com as linguiças (me refiro a estas do cachorro quente, que é o que ele nos revelou). Mandioca já é outra coisa, pois essa que eu saiba não proibiram. Eu não sou tão apegado na mandioca como alguns são. Se proibirem nem vou sentir tanta falta. O David, já não sei. A Dilma, a gente sabe, respeita bastante a mandioca.
    Eu particularmente, no lugar da mandioca para acompanhar a galinha caipira em molho, prefiro a polenta. Talvez vão proibir o milho logo logo, que já era hibrido, e agora, transgênico e cheio de agrotóxicos. Tudo é cancerígeno. Está sobrando pouca coisa.

    Sinto muito David, por esta perda traumática de seu contato com as linguiças e salsichas de todos os tipos e tamanhos. Mas é um trauma superável, fique tranquilo. Tem igrejas e pastores aqui no Brasil que curam traumas de todo tipo. Acho que até o meu trauma com o futebol eles curam também. Eu é que sou preguiçoso e não fui procurá-los ainda. Força aí amigo de todos nós. Você é um índio cuera e vai tirar de letra. O importante é a sua saúde, lembre-se disso.

    Fora salsichas! Fora linguiças! Ou poderia ser: “Sai desse corpo salsicha infame!”

    Será que vão proibir também a costelinha de porco a pururuca? Daí vai ser outra cicatriz.

  • Rafael diz: 29 de outubro de 2015

    Embutidos causam câncer.
    O PT distribui pão com mortadela.
    Logo, O PT CAUSA CÂNCER.

  • Felipe diz: 29 de outubro de 2015

    David,tu mesmo escreveu q devemos correr riscos as vezes para a vida ter graça…nao grandes riscos,mas pequenos,como assistir um filme ate as 3 da manha na terça feira!acho q comer embutidos é hoje um desses pequenos riscos que podemos correr…pra vida não ficar ensossa como um arroz sem a saborosa linguiça!

  • cesaR diz: 29 de outubro de 2015

    De fato é sempre difícil mudar de hábito depois de tantos anos.
    é difícil renunciar as coisas boas mas a idade nos faz aos poucos ir pelo menios diminuindo de tudo um pouco.
    Quem não gosta de um salame puro de porco ou até misto com um bom queijo de leite gordo ou seja o queijo bem amarelo forte, tipo da região de parma.
    quem não gosta de uma azeitona junto com um ovinho de codorna, e tudo isso acompanhado com um bello tanat de safra adequada.
    mas mudando de saco pra mala, porque tu não posta mais sobre os problemas do pais e nem sobre as falcatruas que andam descontroladas nos dias atuais.
    Ate´os pt cruz na testa pararam de encher o saco com os questionamentos porque tu não escreve sobre as zelotes? Talvez porque começo a aparecer os rastos da familia do Lulla, ou dele mesmo nesse escândalo. Talvez comece a aparecer até os subordinados da presidente dilma roussef, como a erenice guerra e os ministro mantega e golberto carvalho, talvez seja por isso.
    Mas como tu não escreve mais sobre isso tomei a liberdade de escrever afinal
    não podemos deixar passar batido o maior assalto já feito em um governo na era moderna.
    Outro assunto que poderia discorrer é sobre a falta de vontade e determinação desse time do GREMIO que só joga serio e com alma castelhana quando joga com os grandes clubes que estão na frente da tabela.
    quando joga com os iguis se caga tudo e volta o marasmo e a indolência impera.
    Se o GREMIO TIVESSE A DETERMINAÇÃO E INICIATIVA E VONTADE QUE O FLUMINENSE TEVE E MAIS UM CENTROAVANTE DO QUILATE DO FRED SERÍAMOS CAMPEÃO SEM DUVIDA.
    Segue o Baile….

  • Fabiano diz: 29 de outubro de 2015

    Aqui em Curitiba não temos problemas, porque não temos salsicha, que é o que causa a dita doença…Aqui só comemos vina!

  • otimista gaudério diz: 29 de outubro de 2015

    Eu gostava do arroz com linguiça no tempo do trema. Era Arroz com Lingüiça. Muitos chamavam de “arros de carreteiro”, pois os antigos carreteiros, cujas viagens duravam vários dias, paravam à beira da estrada, armavam o “fogão” com duas forquilhas e penduravam a panela de ferro, com alça, em um suporte metálico apoiado nas forquilhas. Era, praticamente, o alimento diário desses viajantes. Não sei se há estatísticas a respeito, mas não me consta que muitos carreteiros tenham morrido de câncer…

  • Maurí Luiz Fritzen diz: 29 de outubro de 2015

    David, se você fosse assessor da Dilma, creio que teria sido pressuroso em ADVERTI-LA…

  • Enzo Bigolin diz: 29 de outubro de 2015

    Adorei a matéria sobre a Operação Zelotes?
    Pena que só existe na grande mídia quando um parente do Lula está envolvido, até quando vão se esconder.
    É deprimente ver no JA notícias sobre as precariedades da saúde e educação e saber que determinado meio de comunicação, grandes empresas e bancos devem bilhões de reais de impostos.

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