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Posts de outubro 2015

Quem perde na briga entre esquerda e direita

31 de outubro de 2015 10

Entrevistei o Brizola umas 10 vezes. Em quase todas, ele disse, acerca da discussão sobre a reforma agrária no Brasil: “A questão da reforma agrária precisa ser desideologizada”.

Escandia as sílabas ao pronunciar essa palavra pedregosa, de-si-de-o-lo-gi-za-da.
Ficava pensando: o Brizola do socialismo moreno criticando as ideologias… É que ele era mais prático do que idealista. Sabia que, quando alguém tenta solucionar um problema através da ideologia, torna a solução quase impossível. Porque a questão vira causa e a causa vira luta e não há como lutar se não houver inimigo. Você precisa lutar CONTRA alguém.

A reforma agrária não foi desideologizada no Brasil. Ao contrário. Não é por acaso que o MST é chamado de “exército” pelo ex-presidente Lula. Hoje, se você der terra a todos os sem-terra, você acha que acabaria o MST? Claro que não. O MST faria o que já faz: recrutaria nas periferias das cidades os seus novos “soldados”, porque a ideologia, além de dar sentido à vida, também pode ser um bom negócio.

Quanto mais ideologizada é uma discussão, mais inócua ela se torna. Para cada Maria do Rosário haverá um Jair Bolsonaro, para cada Marco Feliciano haverá um Jean Wyllys, e nada jamais irá a lugar algum.

Você decerto vê isso no seu dia a dia. Você não resolve nenhuma pendência brigando, resolve ponderando. Cada lado cede um pouco, e todos convivem em paz com suas diferenças. Esse o ideal.

No Brasil, questões humanitárias tornaram-se questões amargamente ideológicas. Não existem, por acaso, homossexuais de direita, que querem ter seus direitos respeitados? É óbvio que sim. Tornar a defesa dos direitos dos homossexuais uma causa exclusiva da esquerda reduz a importância da causa. E atrai opositores encarniçados.

Escrevo isso a propósito do Projeto de Lei 5069, que Eduardo Cunha conseguiu fazer ser aprovado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Esse projeto limita as possibilidades do chamado “aborto legal”. Atinge, diretamente, as mulheres da faixa de renda mais baixa do país. Elas são as maiores vítimas de violência sexual e elas não têm recursos para pagar caríssimas clínicas clandestinas de aborto. O que elas farão, no caso de carregarem o indesejado fruto de um estupro? Tentarão retirá-lo por conta própria.

O aborto legal, em caso de violência sexual, é caso de saúde pública, não é caso de ideologia. Eduardo Cunha e outros deputados conservadores, porém, estão tratando esse tema, e outros tantos, como cavalo de batalha contra seus inimigos da esquerda. Quem vai sair perdendo, nessa disputa? As mulheres pobres e indefesas das periferias do Brasil.

Os direitos dos homossexuais, a regulação do uso das drogas, o porte de armas, a violência contra a mulher, a violência em geral, a reforma agrária, a educação, a saúde, o aborto e várias outras questões importantes do Brasil precisam de debates feitos com inteligência, não com emoção. Não são bandeiras da esquerda nem da direita. São problemas a serem resolvidos com bom senso.

Pessoalmente, nessa questão específica do aborto, penso que a grávida deveria ter o direito de decidir se quer ou não fazê-lo, até porque ninguém, a priori, sente vontade de se submeter a essa operação. É algo que se faz por necessidade. Mas essa é uma discussão longa, cheia de vírgulas éticas e morais. Agora, se você prefere ser como o Brizola, se você quer ignorar a parte ideológica para entrar na prática, peço-lhe para abrir um mapa-múndi na sua frente e marcar os países onde o aborto é permitido com uma cor e aqueles em que não é permitido com outra cor. Você verá a diferença entre uns e outros. O que, talvez, sirva para alguma reflexão.

 

Som de Sexta - II

30 de outubro de 2015 0

Xixi na rua

30 de outubro de 2015 9

Vi a notícia de que alunas da Universidade de Pelotas ficaram nuas durante uma manifestação feminista, dias atrás. Não é novidade, mulheres têm tirado a roupa por ideologia, calor ou diletantismo. Mas houve algo de inédito nesse protesto, algo que me fez trocar o tema da crônica. Ia escrever sobre aquele terrível projeto do Cunha, o PL 5069, contra o qual espero que as meninas tenham protestado e a respeito do qual escreverei amanhã. Por ora, atenho-me a um gesto das peladas de Pelotas: elas urinaram em baldes, a fim de reclamar contra os homens que urinam na rua. Isso realmente me intrigou. É uma reivindicação muito justa essa, de que os homens parem de fazer xixi na rua. É um troço nojento. Será hábito dos pelotenses?

Acho que não. Isso acontece em todo o Brasil. No Rio, o xixi na rua se tornou caso de polícia. No Carnaval do ano passado, mais de mil pessoas foram multadas em até R$ 500 cada uma, lembro bem desse número. Cento e tantas foram presas. Só que mais de 10% dos infratores eram mulheres.

Agora: é claro que os homens fazem muito mais xixi na rua do que as mulheres, devido à facilidade da operação. O homem permanece de pé, é tudo muito rápido e dissimulado.

Obviamente, sou contra esse comportamento incivilizado, mas, por amor à verdade, tenho de confessar que já o cometi.

Foi assim: eu trabalhava no Centro e, no fim do expediente, saí com colegas para tomar uns chopes. Tomamos vários. Na hora de ir embora, senti uma vontadezinha de ir ao banheiro, mas cometi o erro de pensar: estou com pressa, faço xixi em casa.

Eis um ensinamento precioso que aprendi neste mundo, mundo, vasto mundo, caro leitor. Se há um conselho que posso dar, certamente é este. Preste atenção, imprima a frase seguinte em letras douradas e pendure-a, devidamente emoldurada, em um lugar em que ela esteja sempre à vista. É a seguinte:

“Se você sentir vontade de ir ao banheiro, vá”.

Sim, vá, porque, se não for, todo o seu ser logo estará a serviço daquela imperiosa necessidade, e nada mais será relevante na vida, nem o amor, nem a glória, nem o dinheiro, nem a fome mundial, nem a cura da ressaca, nada.

Pois, naquele dia, não fui ao banheiro. Tomei o lotação rumo à Zona Norte e, nem bem o carro arrancou, percebi que precisava, PRECISAVA!, esvaziar a bexiga. O lotação seguia devagar pelas ruas da cidade, parava nas esquinas à espera de passageiros que não vinham, e eu, angustiado como poucas vezes na existência, só pensava em chegar em casa.

Seguíamos lentamente, o motorista olhava para um lado e outro da rua e avançava a 10 ou 20 km/h, uma aflição. A cada semáforo, eu gemia. A cada solavanco, meus órgãos internos doíam e latejavam. Todo o meu corpo reclamava por se ver livre daquele excesso líquido.

O lotação foi rodando, moroso, trepidante, como num pesadelo. Até que, à altura da Carlos Gomes, não aguentei mais. Pedi ao motorista que me deixasse numa esquina, desci correndo, esquivei-me para um canto escuro da rua e, ahhhhhhhh! Aaaaaaaaah!, fiz o xixi mais espetacular da minha vida. O prazer que senti naquele momento foi maior do que toda a vergonha, todo o receio de ser flagrado, todo o apelo milenar da civilização. Sorri, ao cabo daquele xixi. Vibrei. Cantei. Era um novo ser humano que fechava a bragueta, um homem mais leve. Mais feliz.

Errei. Sei que errei. Mas, devido às circunstâncias, espero que as meninas de Pelotas me perdoem.

Som de Sexta

30 de outubro de 2015 1

O amor à linguiça

29 de outubro de 2015 9

Fiquei um pouco ressentido com essa história de que os embutidos dão câncer. É algo que preciso abordar, mas, antes de ir em frente, tenho de ressaltar que estou ciente dos riscos que corro, riscos que foram ignorados pela própria presidente da República. Eu, se fosse assessor da Dilma, teria sido pressuroso em advertir, antes do seu famoso discurso de saudação à mandioca:

– Presidente, há certas palavras que, por si só, tiram a seriedade de qualquer manifestação, no nosso querido e irreverente Brasil.

A mandioca é uma delas. Bem como a linguiça, o salame e outros produtos com formato sugestivo.

Ocorre que, sim, sempre fui apreciador de embutidos. Meu arroz de china pobre, também conhecido como arroz com linguiça, tornou-se célebre nos anos 1990, em Porto Alegre. Eu morava num apartamento modesto, porém funcional, nos altos da Rua Portugal, e foram inúmeras as noites em que recebi amigos com uma olorosa travessa de arroz de china pobre, mais, é claro, cerveja branquinha, de tão gelada. Todos se repimparam à grande, e elogiaram meus dotes culinários, e uma ou duas moças que me eram caras sorriram com mais brandura para mim, terminado o jantar.

Você talvez diga que arroz com linguiça não é prato para ser oferecido a uma mulher que se anseie conquistar, mas uma vez ouvi a seguinte frase de uma jovem semideusa, enquanto ela tirava, com um decidido golpe de guardanapo, um pingo de molho de tomate que lhe tingia os lábios de gomo de bergamota:

– Isso foi muito, muito bom…

Ah! Primeiro a linguiça, depois o champanhe. Sim, senhor.

Meu cachorro-quente também ombreia com o cachorro-quente do Rosário, e a minha avó, a saudosa dona Dina, suprema cozinheira, fazia um prato de linguiça bem fininha com abóbora que, Jesus Cristo!, jamais provei iguaria semelhante, desde que ela se foi para um plano mais elevado, onde certamente se pode comer de tudo, beber de tudo e todos os sinais de wi-fi são liberados.

E tem o salame! E tem a mortadela, tão generosamente distribuída entre duas fatias de pão amigas nos eventos patrocinados pelo PT. O povo ama os embutidos, essa é a verdade.

E eu também.

Mas, olha, outro dia, andei tendo um câncer, e não duvido que tenha sido coisa da linguiça. Com o que, declaro agora, com pesar e circunstância, que renuncio aos embutidos.

Nunca mais salsichão com salada de batata como entrée dos churrascos na casa do Degô.

Nunca mais hot dogs, nem mesmo aqui, na terra das oportunidades, da liberdade e, bem, dos hot dogs.

Nunca mais salame e salamito, esses dois primos-irmãos que acompanharam fatias de pão francês que me foram servidas em antigos cafés da tarde, tipo de refeição extinto pelo açodo da vida moderna.

Nunca mais minha pièce de résistance, o inefável arroz de china pobre…

Nunca mais. Nunca mais.

Não sei como será viver num mundo sem a linguiça, sem a salsicha, sem nem o chouriço. O velho chouriço. Será um mundo mais saudável, é certo que será, e daqui a pouco lançarão embutidos light e inofensivos como um grão-de-bico, também disso sei, mas… Não seremos mais os mesmos. Paciência. Que a vida sem embutidos valha a pena ser vivida.

O que Lima Barreto escreveu sobre o Enem

28 de outubro de 2015 5

Em homenagem a todos os adoradores de Milton Santos e da linguagem, digamos, “acadêmica” da prova do Enem, dedico esse divertido conto que Lima Barreto escreveu há mais de cem anos, “O Homem que Sabia Javanês”. Para mostrar que o Brasil não mudou tanto, afinal:

 

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho.

Contava eu isso. O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo !

- Só assim se pode viver… Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado !

- Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático

- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!

- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

- Bebo.

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei: – Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte: “Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc.” Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os “cadáveres”. Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu. A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los. À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu “a-b-c” malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

- Breve… Espere um pouco… Tenha paciência… Vou ser nomeado professor de javanês, e…

Por aí o homem interrompeu-me:

- Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:

- É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder “como está o senhor?” – e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico. Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil – podes ficar certo – aprender o javanês… Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza… Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas. Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças.

Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento. Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos… Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

- Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.

- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?

- Não, sou de Canavieiras.

- Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo.

- Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu.

- Onde fez os seus estudos?

- Em São Salvador.

- E onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

- E ele acreditou? E o físico? – perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

- Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio…Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

- Bem, fez o meu amigo, continua.

- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:

- Então está disposto a ensinar-me javanês?

- A resposta saiu-me sem querer: Pois não.

- O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas…

- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos… ? .

- O que eu quero, meu caro senhor….

- Castelo, adiantei eu.

- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: “Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz.” Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito. Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano. Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia. A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo. Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava !” O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens !… Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos ! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também. Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo.

- “Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!”

Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou os chefes de secção: “Vejam só, um homem que sabe javanês – que portento!” Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: “Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!” O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: “É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?” Disse-lhe que não e fui à presença do ministro. A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: “Então, sabe javanês?” Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. “Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta… O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Linguística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!”

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios. O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento. Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio! Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: “Lá vai o sujeito que sabe javanês.” Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna…

- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.

- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.

- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.

- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês – uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi- guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi. Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga. Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia. Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser ?

- Que?

- Bacteriologista eminente. Vamos?

- Vamos.

O robozinho

28 de outubro de 2015 9

Tem um robozinho que varre a casa. Ainda compro um, quando o real tomar tenência e o dólar arrefecer. Não sou muito de comprar coisas, mas esse robozinho eu quero. Ele parece um disco voador, só que pequeno, mais ou menos do tamanho daquilo que antes se chamava LP e hoje é vinil. Você liga o robozinho, larga-o no chão e ele sai limpando tudo. Onde tem sujeira, ele vai. Passa o dia inteiro assim, a casa fica faiscando de asseio.

Do que mais gosto nesse robozinho nem é tanto sua eficiência como faxineiro, embora possa me considerar adepto entusiasmado da higiene. Falo sério. Desenvolvi um revolucionário método de lavação de louça, se você quer saber. Lavo a louça de um lauto jantar antes que você possa dizer Cucamonga sete vezes. Está certo, não sou exatamente destro em limpeza profunda, mas, para isso, sempre contei com profissionais especializados.

Esse assunto me traz recordações. Tive uma faxineira pelada, certa feita. Ela limpava meu apartamento semanalmente. Uma tarde, fui mais cedo para casa, por algum motivo. Percebi, pelo barulho, que ela estava trabalhando no banheiro. Caminhei até lá para falar com ela e… Jesus! Vi a faxineira sem nenhuma roupa, de quatro, lavando o chão afanosamente, as grandes nádegas leitosas apontando para mim, ameaçadoras. Aquilo me deixou em pânico. Engoli um grito de horror. Como ela não tinha notado minha presença, recuei com cuidado até a porta e saí. Só voltei quando tive certeza de que ela fora embora. A partir daquele episódio, nunca mais fui para casa sem ligar antes, no dia da faxina.

Depois dessa faxineira, tive outra que era muito controladora. Ela trabalhava às segundas. Chegava de manhã, via as garrafas de cerveja espalhadas pelo apartamento, olhava-me maliciosamente e comentava, erguendo uma sobrancelha de acusação:

– Parece que tivemos uma festinha por aqui, no fim de semana…
Aquilo me deixava nervoso. Eu gaguejava:

– Não… Não foi fes-festinha… Só recebi uns amigos e…

Ela me dava as costas, não sem antes rosnar:

– Sei!

E ia-se para o quarto.

Eu saía de casa me sentindo culpado.

Troquei-a por uma que não limpava tão bem, mas que era mais tolerante. O problema dessa é que toda segunda ela quebrava alguma coisa. Um dia a chamei e mostrei-lhe uma estante cheia de porcarias de porcelana:

– Está vendo essa estante? Quebra esses troços aqui, certo? Te concentra nessa estante.

Não adiantou.

A verdade é que gostava de todas elas, apesar de suas eventuais idiossincrasias. Todo mundo tem seus defeitos, ora. Mas o robozinho acho que não. O robozinho é perfeito. E o que mais aprecio nele, como ia dizendo aí em cima, o que me deixa realmente encantado é algo de especial que ele faz, que vi na TV.

É o seguinte: quando a bateria do robozinho está no fim, ele mesmo procura uma tomada pela casa e se acopla nela, a fim de recarregar as forças. Isso, de alguma forma, me comove. Porque parece uma demonstração de humildade do robozinho. Parece que ele está dizendo: “Limpei tudo, agora estou cansado, vou ali me recuperar”. E calmamente, docemente, humanamente, desliza para a tomada e se aconchega, como quem puxa o cobertor até o queixo, ao se deitar numa noite de inverno. Deve ser bonito ver isso. É certo que vou comprar esse robozinho.

Cidade sem lei

27 de outubro de 2015 12

 

Leia a mensagem que recebi de um amigo que mora em Porto Alegre:

 

Numa tradicional rua do bairro Floresta, um casal tomava chimarrão na varanda da sua casa. Era domingo, 5 horas da tarde. Entre a varanda e a rua há uma distancia de mais ou menos uns 5 metros. De repente chegam dois jovens e começam a arrombar um carro estacionado bem na frente da varanda onde o casal tomava seu mate. Já tinham iniciado o “trabalho”, quando viram que estavam sendo observados por este casal. Imediatamente um deles sacou o revólver, apontou para o casal e berrou: “Entrem pra dentro de casa, senão vou mandar bala!” O casal, apavorado, entrou voando para dentro de casa. Os rapazes concluíram o “trabalho” com toda a calma e saíram de carro. Tudo isto a 50 metros do Shopping Total…

 

A questão 14

26 de outubro de 2015 46

Recebi de presente a cópia dessa questão 14 do Enem. Trata-se de uma safira da língua escrita. Leia o texto escolhido pelos organizadores da prova, de Santos, M. Ele começa com autoridade:

“No final do século XX e em razão dos avanços da ciência, produziu-se um sistema presidido pelas técnicas de informação”.

Assim que li a primeira frase, pensei, um pouco aflito: a que técnicas se referirá Santos, M.? Estará ele falando da internet? A internet é uma “técnica da informação”? Oh…

Mas Santos, M., pouco ligando para minhas dúvidas, foi em frente com galhardia, afirmando que as técnicas essas “passaram a exercer um papel de elo entre as demais, unindo-as e assegurando ao novo sistema uma presença planetária”.
Fiquei ainda mais intrigado. “As demais”? As demais o quê? As demais técnicas? Técnicas de quê?

Santos, M. afirmou que as técnicas de informação serviram de elo entre duas outras técnicas. Uma técnica numa ponta, outra técnica na outra ponta e as técnicas de informação entre elas, unindo-as a fim de assegurar ao tal novo sistema “uma presença planetária”. Que técnicas foram unidas pelas técnicas de informação, Santos, M.? Me diga!

Ele não disse. Santos, M. mostrou-se indiferente à minha ignorância. Ele apenas acrescentou, de modo sombrio, que “um mercado que utiliza esse sistema de técnicas avançadas resulta nessa globalização perversa”.

Santos, M. me deixou realmente inquieto.

Só que, abaixo de seu texto enigmático, vem o dos professores que redigiram a prova do Enem. E eles me aliviaram, dizendo coisas como “eliminação das vantagens locacionais”. Que palavra tão bonita essa, “locacionais”. Nunca a tinha usado. Senti inveja dos professores do MEC, que saem por aí falando em coisas locacionais. Anotei essa palavra e qualquer dia vou engastar um “locacional” num texto, de preferência antes de um ponto de exclamação:

“Isso é locacional, meu caro! Muitíssimo locacional!”

Já o item B falou em “limitação dos fluxos logísticos”. Isso me revoltou. Onde se viu um absurdo desses, limitar os fluxos logísticos? Temos de lutar para que os fluxos logísticos não sejam limitados! Fluxos logísticos, obviamente, têm de fluir, não ficar emperrados. Não, senhor!

Poderia derramar dezenas de parágrafos ponderando acerca das vantagens locacionais e até dos fluxos logísticos, mas sei que a resposta correta é a derradeira: “Automatização dos processos fabris e aumento dos níveis de desemprego”. Isto é: foram os avanços da ciência que causaram o aumento do desemprego no Brasil e no mundo. Maldita ciência! O que será que Santos, M. sugere para nos proteger dela?

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A questão do Enem

25 de outubro de 2015 19

Acompanhei a febril discussão travada “nas redes”, no fim de semana, sobre a frase de Simone de Beauvoir que caiu na prova do Enem. É frase conhecida, o mesmo debate já se deu muito tempo atrás, e foi sempre um debate sonolento. Mas não é a tese de Beauvoir que interessa. Nem vou reproduzi-la. O que interessa é que a maioria dos alunos que a leram não conseguiram interpretá-la, seja para concordar, seja pra discordar.
Não me incomodaria de ver as escolas públicas brasileiras educando pequenos Josés Dirceus ou pequenos Ronaldos Caiados, desde que as crianças saíssem de lá educadas. A ideologização é péssima, claro que é. Todas as ideologias são emburrecedoras, sem exceção. Mas, levando-se em conta a situação da escola pública brasileira, esse é um problema subalterno.
Cursei o segundo grau no Piratini, excelente colégio público. Havia ainda o Dom João Becker, nos altos do IAPI, o Parobé, célebre por seu ensino técnico, o Instituto de Educação, o Julinho, o Colégio Uruguai, o Irmão Pedro, o Infante Dom Henrique, e tantos outros, todos ótimos, de nível tão bom quanto qualquer escola privada.
O que aconteceu, de lá para cá? Por que a situação da escola pública, no Brasil em geral e no Rio Grande do Sul em particular, piora de ano para ano?
Não é só culpa dos governantes. Temos aí um problema cultural.
Quando Lutero liderou a reforma religiosa, há quase 500 anos, houve uma secularização do ensino na Europa. Um dos atos mais importantes de Lutero foi a tradução da Bíblia para o alemão. Não por diletantismo. Com esse trabalho, ele se tornou o fundador da língua alemã moderna, tanto quanto Dante o fora da italiana, 200 anos antes. Lutero dedicou-se a essa dura tarefa para que a Bíblia fosse acessível a todas as pessoas, o que as libertaria das amarras do papado, e permitiria que elas aceitassem as novas religiões. Mas, para que as pessoas pudessem ler em alemão, elas teriam de saber… ler! Logo, a educação era importante.
É por isso que, na fundação de qualquer cidade de raiz protestante, os primeiros prédios erguidos eram o da igreja e o da escola pública, muitas vezes lado a lado. A primeira escola pública da América foi levantada aqui, em Boston. É a Boston Latin School, que existe desde 1635, onde estudaram figuras como Benjamin Franklin.
Nos países católicos, a educação era restrita à nobreza e ao clero, precisamente porque a nobreza e o clero eram quase que a mesma coisa, havia interdependência entre eles, e a exclusividade do conhecimento lhes dava poder.
É claro que o mundo evoluiu e se transformou, mas você pode até mudar velhos hábitos, sem mudar velhos sentimentos. Há em nós, nos países católicos, um sentimento recôndito de que a educação não é um fim em si mesmo. A nossa percepção é de que a educação tem de servir a outro objetivo, e aí haverá de ser qualquer um: pode ser o mais comum, o de ganhar dinheiro, até o mais bizarro, o da “formação de quadros”, passando pelo supostamente libertário, que é o de “conscientização”, que na verdade não liberta: dogmatiza. O “conscientizado” pensa pela cartilha.
No Rio Grande do Sul havia, tempos atrás, uma educação de matriz protestante. Não por acaso, a melhor do país. Mas o Rio Grande do Sul foi se “abrasileirando”, todo o Brasil foi “se abrasileirando”. Hoje, mais do que nunca, o Brasil é um país homogêneo. Somos todos iguais, ou mais ou menos iguais. O que não significa que sejamos melhores.

Grêmio tem "Douglas demais"

25 de outubro de 2015 15

O Grêmio pode jogar com um Douglas, não com dois.
Bobô, se é diferente de Douglas quando está com a bola, é igual a ele quando está sem: colabora pouco com a marcação.
Antes um atacante movediço, como Éverton, Mamute ou Fernandinho. Antes outro meia, como Maxi Rodriguez. Mas, se estiver em forma, quem tem de jogar, em vez do pesado Bobô, é Ramiro, deixando Douglas “livre para criar”.
O Grêmio perdeu o meio-campo para o Vasco, por isso sofreu no Maracanã.
Time que gosta de tocar a bola, como o Grêmio, precisa… da bola. Mas, para tê-la, é necessário tirá-lo do adversário. Aí todos têm de colaborar. Quando dois ficam vendo o jogo, quem joga é o adversário.

Um homem amado

24 de outubro de 2015 13

Conheci cachorros chamados Nero. Cachorros antigos. Todos já falecidos, suponho. As pessoas botavam o nome de Nero nos cachorros como espécie de desagravo aos cristãos supliciados por ele. Nero tinha péssima fama entre os cristãos. Tem ainda. Porque os culpou pelo incêndio de Roma e porque, durante seu reinado, foram executados Pedro e Paulo.

Pedro, você sabe, foi a pedra sobre a qual Jesus construiu sua igreja, e Paulo foi arquiteto, engenheiro e decorador da obra. Pedro morreu crucificado de cabeça para baixo, numa cruz em forma de xis. Paulo, decapitado.

Todos os apóstolos, com exceção de João, tiveram fim violento. Uns foram apedrejados, outros acabaram chicoteados, crucificados, apunhalados… Foi por isso que, em certa passagem do Novo Testamento, Jesus disse que não vinha trazer a paz, mas a espada. Ele se referia, exatamente, aos apóstolos. Era para eles que falava, prevendo os sacrifícios que os discípulos passariam por pregar em seu nome. Já li cada interpretação torta acerca desse episódio…

De qualquer maneira, o que dizia é que Nero goza de péssima imagem devido à sua implicância com os cristãos e porque três historiadores se empenharam em difamá-lo: Suetônio, Cássio Dio e Tácito. Muito do que sabemos sobre Nero se deve a eles, só que nem tudo que sabemos é verdade.

Por exemplo: é certo que Nero mandou matar a própria mãe, a pérfida Agripina, mas também é certo que ele NÃO estava tocando cítara no telhado do seu palácio enquanto Roma ardia em chamas.

Nero foi vítima da mídia burguesa. A elite branca não gostava dele. Os pobres, sim. Porque Nero seguia alegremente a política que Juvenal denominou de “panem et circenses”, pão e circo. Quando ele morreu, tornou-se o que o rei dom Sebastião foi para os portugueses. Os romanos suspiravam esperando pelo seu retorno nos braços do povo. Corria uma lenda de que ele continuava vivo, e vários Neros se apresentaram como se fossem o imperador. A crença na volta de Nero vicejou pelo menos depois de 20 anos de sua morte. Um dos impostores, um homem chamado Terêncio Máximo, era parecidíssimo com ele. Andava igual, falava igual e até cantava igual, tocando harpa e tudo mais. Terêncio teve a ousadia de reivindicar a coroa, então usada por Tito, chegou a firmar um pacto com os partas, tradicionais inimigos dos romanos, mas foi descoberto e executado.

Veja que estou falando de Nero, uma espécie de Hitler da antiguidade, tão infame que seu nome era posto nos cães como vingança por suas maldades. Nero foi amado, quem diria? E o foi porque dava ao povo o que o povo queria, quer e para sempre quererá. O povo está pouco se importando para governos austeros, para responsabilidade fiscal ou para quem administra pensando no futuro.

Liberdade? É um luxo.

Igualdade? Não precisa tanto.

Precisa é ter comida na mesa, um lugar onde morar e uma cervejinha para beber com os amigos no sábado. A popularidade do governo anda baixa? Basta aquecer a economia. Ninguém tem de ser bom presidente, se tiver um bom ministro da Fazenda.

 

Som de Sexta

23 de outubro de 2015 1

A própria Terra

23 de outubro de 2015 11

Estava lendo sobre um cara chamado Richard Lee Armstrong. Um cientista. Ele passou muitos anos estudando a crosta terrestre, que, você sabe, é a camada externa do nosso amado planeta azul. É como se fosse a pele da Terra. É bem fina, se você pensar em todo o corpo, mas nós, que sobre ela vivemos, ainda não conseguimos atravessá-la com nossos equipamentos, apesar de toda a tecnologia concebida pela civilização. A crosta tem dezenas de quilômetros de profundidade, e o buraco mais profundo que já cavamos não alcançou 15 quilômetros.

Há muito chão debaixo de nossos pés, essa a verdade. Imagine que, se você realizar aquela fantasia de infância e perfurar um túnel em linha reta até o Japão, os japoneses perplexos só verão sua cabeça emergir do solo de Tóquio depois de 12.700 quilômetros. É uma longa viagem. Pense que de Boston a Porto Alegre são pouco mais de 8.300 quilômetros, e é longe…

Então, o que estava dizendo é que nós sabemos muito pouco sobre a Terra, e esse geólogo, esse Armstrong, concluiu que a crosta foi formada num processo que ele denominou de irrupção prematura, um evento mais ou menos rápido, que ocorreu quando o planeta estava sendo criado, há uns 4 bilhões de anos, talvez um pouco mais.

Certo.

O problema é que vários outros cientistas discordavam de Armstrong. Eles achavam que a crosta da Terra foi preparada lentamente, numa espécie de fogo brando.

O que você acha disso tudo?

Coisa nenhuma, não é? Você está pouco ligando para a maneira como a crosta da Terra se formou, desde que continue respirando alegremente acima dela e abaixo do sol. E você está muito certo. Não há nenhuma razão lógica para você se inquietar com isso. Mas, para Armstrong, havia. Ele consumiu seus últimos 30 anos de existência discutindo ferozmente com os outros geólogos a respeito. Foi um debate tão amargo, tão pessoal, tão visceral, que arruinou a vida de Armstrong. Ele morreu infeliz, usando seus últimos suspiros para vociferar contra os adversários.

Valeu a pena?

Não. Não valeu a pena, porque, apesar da grande causa, a vida se tornou pequena.

E a causa era grande mesmo, era a própria Terra, o planeta em que vivemos e ao qual somos tão apegados. Poucas coisas no mundo são maiores do que o próprio mundo.

Mas é assim que é. Não importa o tamanho da causa: se você ficar amargo por causa dela, perderá, ainda que ganhe. Nenhuma bandeira, nenhuma luta, nenhuma ideologia vale uma alma ressentida. Um homem importante já disse, e Richard Armstrong não aprendeu: de nada adianta ganhar o mundo inteiro se você perder a própria alma.

 

Maria

22 de outubro de 2015 7

Marias importantes voltarão. Falo de Maria do Carmo, de Maria da Paixão. Nomes bonitos. Bem sei que essas são coisas da moda. Cada época e lugar tem seu estilo de nome. Classe social também influencia. O rico pode botar nome simples no filho. João. Não tem problema. Quando crescer, o rapaz será dono daquela firma ali. Já o pobre passa mais trabalho. Ele não quer que o filho seja qualquer um, que é o destino da maioria dos pobres. Então, precisa ser inventivo. Donde, os complexos nomes dos meninos de pé no chão do Brasil, em geral com sotaque americano. Muito ipsilone, muito cá, muito dábliu. Welklerson.

Quero dizer que isso, de estrangeirizar o nome do filho, é uma estratégia bastante inteligente de pais pobres. Eu, se minha mãe não tivesse amarrado o segundo dê no i do meu nome e eu fosse um desses Davis com pouco elã e pouca consoante que andam por aí, eu teria, agora, muita dificuldade, aqui nos Estados Unidos. O dê extra me dá naturalidade intercontinental. Aí sou Davi; aqui, Dêividi. Tudo bem lá e cá.

Então, concordo com todos os Washingtons dos morros do Rio e os Jeffersons das vilas de Porto Alegre e os Lincolns das periferias tantas. Se no futuro eles trocarem de hemisfério, não haverá estranhamento. Eles têm nomes de presidentes. Eu, de rei.

Mas falava das Marias. De minhas relações, lembro-me de uma única Maria do Carmo: a colega apresentadora de TV, uma das mulheres mais sorridentes e encantadoras que conheci. O que talvez prove a graça do nome. Aliás, algumas Marias são, exatamente, da Graça, o que acho quase tão bonito quanto do Carmo e da Paixão.

Há miríades de Marias no Brasil. Minha mãe, mesmo: Maria. Mas não usa. É sempre só Diva, nunca Diva Maria. É que, quando Maria entra em segundo, fica meio clandestino. Silvia Maria, Alice Maria e Luísa Maria são apenas Silvia, Alice e Luísa, o Maria elas omitem.

Por isso, Maria tem de estar lá na frente. Com toda a razão: trata-se do maior nome da cristandade, a mãe de Jesus, a Deusa substituta de todas as deusas antigas. A nossa Cibele. A nossa Ísis. A nossa Magna Mater. Um símbolo da maternidade até para os descrentes. É ela a Lacrimosa. É ela a Pietà. E, sendo Lacrimosa, sendo Pietà, ela é da Paixão.

Maria da Paixão.

Uma vez, conheci uma. Ontem, um velho colega do segundo grau enviou-me um e-mail e citou-a de passagem. Então, lembrei. Estávamos no pátio, eu nunca tinha conversado com ela e, depois de uma troca de frases, perguntei-lhe o nome. Ela respondeu:

_ Meu nome é Maria da Paixão.

Aquilo me fez estremecer. Ela me olhava firme com seus olhos que talvez fossem negros ou verdes ou meio azulados, não duvido até que fossem castanhos. Seus cabelos, possivelmente loiros, ou não, provavelmente esvoaçavam. E é certo que era atraente, isso, sim, é certo. Mas o que importou mesmo foi a forma como ela disse o que disse. “Meu nome é Maria da Paixão.” Considerei algo poderoso. Não pensei na Paixão de Cristo, admito. Pensei na paixão de ardores. Uma Maria que inspirava paixão. O que mais ela falou? O que falei para ela? O que houve com Maria? Não sei. Só sei que ainda hoje recordo o jeito como ela pronunciou aquele nome. Era mais do que uma apresentação. Era um título. Quase uma afronta.

_ Meu nome é Maria da Paixão.

Salve, Maria, eu devia ter dito. Ave, Maria.