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Posts de novembro 2015

O fim do blog

03 de novembro de 2015 40

Leitorinhos amados, o blog vai acabar.
Ou talvez não. Talvez o mais correto seja afirmar, como ensinou Lavoisier, que o blog vai se transformar, porque nada acaba, tudo se transforma.
Vai virar uma página no site da Zero Hora. Ficará mais fácil de ser encontrado. Você poderá acessá-lo, a partir de amanhã, pelo seguinte endereço:

http://zh.clicrbs.com.br/rs/opiniao/colunistas/david-coimbra/

Ficará igualzinho, só que diferente.
Quero dizer que me sinto um pouco emotivo com essa despedida.
Fui o primeiro a ter um blog na Zero, junto com a Rosane de Oliveira, o Wianey Carlet e o Paulo Sant’Ana.
O diretor do blog, naqueles primórdios, era o grande PG, o Paulo Germano, que hoje se destaca escrevendo matérias especiais e colunas. Sim, o Paulo Germano nasceu com o blog.
Outro? O Bairrista. Exatamente. O Junior Maicá, cérebro do Bairrista, começou como meu fake no tuíter. Então, pegava as postagens dele e publicava como fatos do fake. Lembram?
Fizemos uma festa do blog, uma vez. Foi muito divertido. Tinha vontade de fazer outra. Talvez faça.
Publiquei vários folhetins que me divertiram muito e, espero, tenham divertido alguns de vocês.
Fizemos o concurso da Jô da Praia.
Tivemos os sons de sextas e os sons das madrugadas.
Tivemos personagens sensacionais, como o Macchi, o Daniel Aço, entre tantos.
E agora nos despedimos…
De fato, estou um pouco emocionado.
Mas vamos à nova página, vamos inventar coisas diferentes. Estou com umas ideias aí. Até lá!

O militante é chato

03 de novembro de 2015 11

Todo militante é um chato. Não importa a justiça da causa que ele defenda, no momento em que começa a carregar uma bandeira por onde anda, torna-se um importuno.

O militante não se transforma em advogado de defesa de um ideal; transforma-se em juiz. Ele passa a dividir os outros seres humanos entre os que estão contra e os que estão a favor do que ele pensa. Ou entre os que ele acha que são contra e os que ele acha que são a favor. E, é claro, condena os que são contra.

Infelizmente, o mundo do século 21 dispõe de uma fartura de militâncias jamais registrada na história da humanidade. Você está sempre cometendo algum erro, sob o ponto de vista de alguém.

Eu, aqui, eu cometo erros. Tenho cometido erros durante toda a minha vida, mesmo que tome cuidado. Minha lista de defeitos é interminável. Eu não sei dar tope, sabia? Tope, que digo, é laço. No sapato. No cadarço, quer dizer.

Pois não sei.

Mas, se você olhar para o cadarço do meu sapato, ele estará amarrado em um belo laço clássico e bastante harmônico. É que desenvolvi um método heterodoxo de dar tope. Assim: primeiro dou o nó comum. Depois, dobro pela metade cada lado do cadarço. Em seguida, ato mais um nó entre essas duas metades dobradas. Presto! Ninguém nunca desconfiou que aquele meu laço tão bonito não é feito do jeito convencional. Tenho vivido toda a minha vida assim. É uma fraude? É uma falsidade? Talvez. Mas não vou mudar agora, só porque você acha que o seu jeito de dar tope é o certo. Danem-se, você e seus nós de marinheiro!

Tenho muitos outros defeitos. Dezenas. Talvez centenas. Não duvido que milhares. E não será você que vai me julgar por eles. Agora, o que nós podemos fazer, eu e você, é julgar um militante. Sim, sim, coisa bem boa é julgar um militante e, evidentemente, condená-lo. Porque ele fica julgando os outros, ele fica enchendo o saco de todo mundo com aquela consciência dele, aquele seu discursinho em favor de alguma vítima de alguma coisa. Então, se ele cometer um erro, seja qual for, vamos endurecer o dedo indicador e apontar firmemente para ele. Ele vai ver o que é bom. Porque ele vai cometer erros. Ah, vai.

O militante, o que ele não entende é que todas as causas justas só serão atendidas quando houver respeito não pelo coletivo, mas pelo indivíduo. Uma coletividade só vive bem quando respeita o indivíduo. Parece uma contradição; não é. Quando uma sociedade se desenvolve no respeito à individualidade, ela não se torna individualista. Ela se torna uma comunidade de seres humanos que compreendem os limites da convivência. Eles sabem que a necessária convivência só funciona com a indispensável privacidade. Com a inestimável garantia do direito do indivíduo.

Quando o direito de um só é violado pela causa de milhares, a causa de milhares perdeu.

Viva o “Eu” heroico, digno, que resiste sozinho ao egoísmo dos coletivos! Viva! Só não me torno um militante do individualismo porque, bem, você sabe: todo militante é um chato.

 

O mundo é bonito

02 de novembro de 2015 6

davidarvore

Já vi coisas bonitas na vida. Já me emocionei com a beleza do mundo. Lembro de quando me pus diante do Duomo de Milão pela primeira vez. Muito tinha lido sobre essa grande catedral gótica e estava ansioso para conhecê-la. Quando enfim pisei na praça em frente à igreja e levantei os olhos para suas paredes brancas, falhou-me a respiração. Era mais magnífica do que podia ter imaginado. E, como um bobo deslumbrado, senti os olhos umedecidos. Mas me contive. Não chorei. Sou do IAPI, afinal.
Fiquei encantado com a beleza de outras cidades. Roma, por seu significado histórico. Paris, porque Paris é Paris. E a mais bela entre todas as belas: o Rio.
Em meio a 10 arco-íris formados pelas Cataratas do Iguaçu, sentindo no peito o poder da natureza, gritei de alegria.
E também me enlevei pelo encanto de certas mulheres. Uma mulher que de repente espia o vento lá fora ou que baixa os olhos e perscruta pensativa os nós dos dedos, que observa os homens grandiosos com condescendência suave, que pendura uma vírgula de melancolia na comissura dos lábios, uma mulher assim com uma pequena tristeza dançando numa esquina da alma, essa é uma mulher para quem você olha e não consegue mais deixar de olhar.
A beleza serve para tocar o espírito.
Agora, estou vivendo numa linda região do planeta, esse gelado e luminoso norte dos Estados Unidos. Outro dia, saí a caminhar e, numa esquina, vi uma arvorezinha. Chamo-a de arvorezinha porque ela é minúscula, perto dos carvalhos imponentes da cidade. Essa arvorezinha está plantada no jardim de uma casa sem qualquer requinte, engastada numa ladeira pouco íngreme, bem na esquina de duas ruas onde não passa carro nenhum. O jardim é aberto, não tem cerca. Se você quiser, pode pisar na terra e tocar na arvorezinha. Foi exatamente o que fiz.
Havia parado a fim de admirar as folhas avermelhadas da arvorezinha. Não sei com certeza se aquilo era vermelho. Talvez fosse rosa ou roxo. Sei que era tão bonito. A copa da arvorezinha não era densa, mas era ampla, como se quisesse dar um abraço.
Foi sentindo isso, sentindo como se estivesse sendo abraçado, que entrei no jardim, me aproximei da arvorezinha e parei sob sua sombra vermelha. Toquei de leve no tronco fino. Levantei o braço. E acariciei uma folha. Virei-me, então, para continuar a caminhada, e aí vi que alguém me observava. Era uma senhora, decerto a dona da casa, parada de pé, ao lado da escada. Olhei-a, surpreso. Ia me desculpar pela invasão, mas ela falou antes. Disse, sorrindo:
– O mundo é bonito.
Concordei:
– É bonito…
E fui embora, agradecido e um pouco emocionado. Mas só um pouco. Sou do IAPI, afinal.