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Túnel do tempo: uma cerveja amarga

22 de fevereiro de 2012 2

Não é que tenha enganado minha namorada (antiga namorada, bom ressaltar, a fim de evitar violência doméstica). Pois não é que a tenha enganado. Foi tão-somente uma omissão. Porque, afinal, Carnaval não combina com namoro, noivado, casamento e quejandos. Principalmente os quejandos. E meus amigos todos, toda a vagabundagem, eles iam a uma grande festa de Carnaval, enquanto eu estava lá, vendo Sessão Coruja na casa da namorada, se não me engano passava um filme do
Charles Bronson.

Tinha que fazer alguma coisa. Apelei para a tática do sono. Primeiro, bocejei umas três ou quatro vezes. Depois comecei a cabecear. Ela:

– Tadinho. Trabalhou demais.

Eu:

– Pois é...

E mais uma pescada. Quando já estava próximo de simular ronco, ela intercedeu:

– Vai pra casa, amore. Descansar...

Eu, demonstrando resistência heroica, aprumei-me:

– Nã, nã, quero ficar mais um pouco contigo, querrrida.

Ela sorriu. Esperei mais uns cinco minutos. E, de novo, afrouxei o pescoço, a cabeça caiu para trás, pateticamente.

Ela:

– Ah, não! Tu tens que dormir! Não existe nada mais importante do que o sono! Lembra da Xuxa, que dorme 13 horas por dia?

Suspirei, relutante, e relutantemente concordei:

– Sei, sei, mas queria taaanto ficar...

– De jeito nenhum!

Suspirei outra vez, e suspirando saí. Quinze minutos depois, lá estava eu, indicadores apontando para o teto, cantando será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé.

Cara, pejado confesso: engolesmeime naquela noite. Um fiasco. De manhã, sentia a boca pastosa, o mundo rodava mais que os casais, tudo era dor. E, Cristo!, tinha de ir a um almoço na casa da namorada. Cheguei lá indormido, amassado, parecia aquela jaqueta que tirei do cachorro, uma vez. Mas é claro que não podia dizer que havia bebido à noite, de jeito nenhum: eu saíra da casa dela para dormir, lembra?

Bom. A primeira coisa que a guria fez, quando sentei-me no sofá, mas a primeirona mesmo, foi vir lá da cozinha com uma garrafa de cerveja na mão. Bastou olhar para aquela garrafa para sentir uma quentura no estômago, uma tonteira, tudo ficou preto. Ela parou na minha frente, sorrindo, com a garrafa na mão. Tirou um grande copo de algum lugar, como se fosse o Toni Mágico. Sempre sorrindo, encheu o copo até a borda, vagarosamente. E estendeu-o para mim.

Tomei o copo, trêmulo. Fiz o possível para sorrir. Levei o copo até os lábios. E bebi. Aquela lágrima escorria pelo meu rosto, tinha vontade de morrer, mas bebi.

Foi um dia de sacrifícios, naquele distante Carnaval. Imagino um desses jogadores que bebe e, de manhã, não têm que enfrentar a namorada, mas têm que treinar. Solidarizo-me com eles. Poucas dores afligem tanto o homem como uma ressaca clandestina.

* Texto publicado em 29/04/2007.

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Som das madrugadas

22 de fevereiro de 2012 0

Dica do Airton Muzzi.

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Sala de Redação

21 de fevereiro de 2012 23

Ouça o Sala de Redação desta terça.

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Túnel do tempo: Quando chega a malícia

21 de fevereiro de 2012 8

Às vezes olho para o meu filhinho brincando com seu livro do castelo mal-assombrado e tento imaginar quando ele se tornará malicioso. Pois essa é a diferença fundamental entre a criança e o adulto: a malícia, a segunda intenção. A malícia é o que está escondido, é o subterfúgio, é o não dito por trás do dito. Agora, aos três anos de idade, tudo que meu filhinho faz é direto. Ele diz o que pensa e pensa o que diz. Não é à toa que fala o tempo todo – ele está falando o que está pensando. Mas sei que vai chegar um momento em que começará a premeditar suas ações, a esconder seus desejos e a jogar com os desejos dos outros. Quando isso vai acontecer? O que motivará essa mudança? Estou observando, curioso.

O mundo adulto é repleto dessas ações arrevesadas. É por isso que o adulto inventa atividades que imitam brincadeira de criança. Certos jogos são jogados só para se aplacar a nostalgia da infância. O  futebol é um caso clássico de homens se esforçando para voltar aos tempos de menino. O futebol é para ser uma brincadeira, é para ser direto. É um jogo: você ganha se fizer mais gols do que o adversário. Pronto. Simples como simples é qualquer guri.

Mas chega um momento em que o mundo adulto se apropria da brincadeira. É quando ela rende lucros. Quando o jogo faz dinheiro. Os senhores da FIFA e da CBF, os organizadores do futebol, eles são os adultos. Eles se apropriaram da brincadeira. O Inter já sentiu o peso da mão de ferro desses senhores em 2005, quando tentou protestar contra o campeonato que lhe foi tirado pela justiça. Agora, de certa forma, está sentindo de novo. Os senhores da FIFA impõem uma série de condições para que o Inter sedie jogos da Copa do Mundo. Cumpri-las pode fazer mal ao clube, mas não existe saída. É preciso obedecer. Porque eles são adultos e perigosos. Eles têm segundas intenções e malícia. E, muitas vezes, eles estragam a brincadeira.

* Texto publicado em 23/03/2011.

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Sala de Redação

20 de fevereiro de 2012 32

Confira o que foi dito sobre a queda do técnico Caio Júnior no Sala de Redação desta segunda.

Você concorda com a saída do treinador do Grêmio?

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Som das madrugadas

20 de fevereiro de 2012 2

Dica da Marisa Oliveira.

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O verão dos vestidos

19 de fevereiro de 2012 16

Que verão glorioso, esse de 2012, em que as mulheres voltaram a usar vestido e saltos altos. Chega a ser comovente vê-las com seus vestidos bem cintados, vaporosos, as panturrilhas empinadas, os cabelos soltos. Mulheres de verdade, é isso que são as mulheres de vestido e saltos altos. Não é tão simples? Tão ortodoxo? Nada de invenções esquisitas, como aquelas abomináveis calças sem fundilhos.

Tem que ser assim. Em geral, o melhor é o mais simples. Um outeiro de arroz branco com um ovo frito em cima, a gema mole e a clara dura. A manteiga derretendo no pão e a xícara fumegante de café preto. Um filme de mistério sem entranhas expostas. Um livro do Ed MacBain. Um time com um centromédio que fique na frente da área. Coisas simples, mas que funcionam. Sempre funcionaram. Como é prazeroso ver as mulheres de vestido. Faltava só elas reaprenderem a cozinhar.

A invenção do pecado

A suprema invenção de Moisés e, por consequência, dos hebreus não foi o monoteísmo; foi o pecado. Certo, o monoteísmo foi fundamental para que a noção de pecado vicejasse na alma humana, porque era preciso unificar as regras da divindade. O Egito, de onde os hebreus e Moisés saíram, tinha cerca de três mil deuses. Tudo era adorado, o sol, a lua, bichos com cabeça de gente, gente com cabeça de bichos, bichos com corpo e cabeça de bichos, tudo. Assim, cada divindade tinha lá suas características e, naturalmente, suas implicâncias, suas demandas e seus regulamentos. O deus uno não unificou apenas a adoração; unificou as normas de comportamento. Dez, tão somente, muito resumidas, mas bastante coercitivas. Agora não se podia mais nem cobiçar a mulher do próximo, maldição!

Essa nova religião foi a primeira religião moral. Antes, o deus só pedia um sacrifício humano ou animal, e pronto. O crente conquistava suas benesses, tudo estava resolvido. Agora, não. Agora era necessário comportar-se bem em sociedade, não matar, não roubar, todas aquelas coisas. Se o crente não obedecesse aos mandamentos, seria punido; se obedecesse, seria recompensado.

Que conquista da Civilização! É por isso que acreditamos sempre que o Mal vai perder no fim. Que o bem sairá vencedor. Antes de passar a fio de espada todos os moradores de uma cidade, Gengis Khan discursou:

– Eu sou o Flagelo de Deus. Vocês devem ter cometido grandes pecados, ou Deus não me mandaria para puni-los.

Ou seja: o sofrimento foi causado pelo pecado do sofredor. Até Gengis Khan acreditava nisso. Ou era-lhe conveniente acreditar.

Há quem acredite que o Corinthians caiu para a segunda divisão em 2007 por ter tomado o campeonato do Inter em 2005. Bobagem. Foi por acaso. Se tivesse sido punido por seus pecados, o Corinthians não estaria se tornando agora, como está, um clube hegemônico no futebol brasileiro. O Corinthians ganha mais verba do que os outros, ganha um estádio financiado com recursos públicos, ganha influência direta na CBF, ganha favores de todos os lados, e duvido que tenha se tornado mais virtuoso nos últimos seis ou sete anos.

O Mal às vezes vence. E então só a crença acima dos limites da razão pode trazer alguma compensação.


Qualidade e quantidade

A direção do Grêmio está fazendo tudo o que tem de fazer para o time dar certo em 2012. Contratou com critério e com abundância. Quer dizer: com qualidade e quantidade. Mais: agiu rápido. Constatou que uma ou outra contratação não funcionou como devia, foi em busca de saídas e, aparentemente, as encontrou. Agora Caio Jr. tem de fazer tudo funcionar. Ou tudo funcionará sem ele.


O simples é o bom

O melhor time do Grêmio da década passada foi ajustado em menos de um mês por Tite, e foi ajustado com um improvável esquema 3-5-2. Por que aquele sistema tão pouco racional funcionou? Porque havia muita gente boa no time. Os 11 eram ótimos e ainda havia reservas do mesmo nível. Os bons fazem até o que é estranho parecer simples.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 18/02/2012.

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Som das madrugadas - 2

19 de fevereiro de 2012 0

Sugestão do Airton Muzzi.

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Som das madrugadas - 1

19 de fevereiro de 2012 1

Dica do Ruy Maier.

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O que querem os que vão morrer

18 de fevereiro de 2012 21

Os Cinco Maiores Arrependimentos à Beira da Morte é o título do livro escrito por uma enfermeira australiana que trata de pacientes em estado terminal. Li uma reportagem a respeito na Folha de S.Paulo. O título diz tudo: o livro relaciona os cinco maiores...enfim. A pergunta que a enfermeira fez aos seus pacientes foi: o que eles queriam ter feito na vida e não fizeram? As cinco respostas que mais apareceram foram as seguintes, ela ordem:

1. Ter vivido a vida que eu desejava, não a que os outros esperavam de mim.

2. Não ter trabalhado tanto.

3. Ter tido mais coragem de expressar meus sentimentos.

4. Ter estado mais perto dos meus amigos.

5. Ter me feito mais feliz.

Os desejos 1, 2 e 5 são da mesma natureza, assim como os 3 e 4. Poderiam ser acoplados. Restam, portanto, duas vontades básicas, duas ânsias que, por si, resumem tudo o que é importante para um ser humano: usufruir a vida e estar em harmonia com as outras pessoas.

O triste é que essas pessoas só perceberam o que era importante para elas quando estavam penduradas nas franjas da morte. Algo que faz lembrar os que iam morrer no 11 de Setembro. Refiro-me aos que, de um momento para outro, descobriram que lhes restava muito pouco tempo de existência – porque ficaram presos, sem perspectiva de saída, em um dos prédios em chamas, ou eram passageiros de um dos aviões sequestrados, prestes a se espatifar no solo ou na parede de uma torre.

Essas pessoas sabiam que iam morrer em questão de minutos. O que elas fizeram então? Tomaram do telefone celular, que todas tinham telefone celular, e ligaram para a pessoa que mais amavam. Não fizeram disposições testamentárias nem confissões. Disseram, quase todas, a mesma frase:

“Eu te amo”.

Dá a impressão de se tratar de uma formidável vitória do amor. Não é bem assim. Na verdade, o que as pessoas pretendiam com o gesto derradeiro das suas vidas era realizar o anseio que aflige todos os seres humanos desde que aprendem a pensar: alcançar a imortalidade. Ao gritar“eu te amo” para alguém, os que iam morrer queriam ficar imortalizados no coração e na memória dessa pessoa. Não se esqueça de que aquele que está morrendo agora sente tanto amor por você que lhe dedicou o último ato da sua vida.

Bem. Agora dá a impressão de que se trata de puro egoísmo. Também não é bem assim. Aqueles que buscaram a imortalidade gritando“eu te amo”ao morrer e os que se arrependeram de não ter dito mais“eu te amo”enquanto viviam compreenderam, no último instante, que qualquer coisa que se vá realizar, durante a vida, só pode ser realizada com as outras pessoas. Seja por egoísmo vão, seja por amor abnegado, seja por prazer vulgar, seja pelo que for, as pessoas só se realizam com as outras pessoas. Pena que, muitas vezes, essa verdade só apareça quando é tarde demais.

* Texto publicado na Zero Hora de ontem, 17/02/2012.

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Novas contratações

17 de fevereiro de 2012 34

Depois de fechar contrato com Souza, o Grêmio segue na busca por novos reforços para a temporada.

Confira o que foi dito sobre as apostas gremistas no Sala de Redação desta sexta.

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Som de Sexta

17 de fevereiro de 2012 2

Preste atenção nesta beleza de letra do grande Paulo César Pinheiro:

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Túnel do tempo: A mãe do filósofo

17 de fevereiro de 2012 5

A pedido da leitora Géssica Marques, releia a crônica A mãe do filósofo, publicada em 13/09/2011.

Arthur Schopenhauer tinha problemas com a mãe, e isso lhe marcou a vida para sempre. Já li alguma coisa dele e a respeito dele, mas talvez o que tenha gostado mais seja um volume que o meu amigo Guilherme, da Beco dos Livros, enviou-me dias atrás. Trata-se de uma alentada biografia escrita pelo alemão Rüdiger Safranski, um professor de Berlim. Nesse livro está reproduzido um extenso trecho de uma carta de Johanna, a mãe de Schopenhauer, para o filho, quando ele ainda era jovem e ainda não havia rompido com ela. A carta é famosa. Johanna faz uma crítica corrosiva ao filho e, ao mesmo tempo, lhe dá conselhos que poderiam ajudá-lo bastante, se os acatasse. A análise da mãe de Schopenhauer é tão arguta que serve para qualquer pessoa, em qualquer época, inclusive eu e você. Vou reproduzir abaixo um pedaço ácido de sabedoria e de franqueza:

“Tu não és um homem mau, não estás desprovido de inteligência, nem de educação, em suma, dispões de tudo que poderia fazer de ti um modelo e exemplo para a sociedade humana. Conheço muito bem os teus sentimentos e sei que existem poucos melhores do que tu, mas és também aborrecido e insuportável em outros sentidos e acho muito difícil conviver contigo. Todas as tuas boas qualidades são empanadas porque te julgas ‘esperto demais’ e essa arrogância não te serve para nada nesse mundo, simplesmente porque não podes controlar essa tua mania de querer saber mais do que os outros, de encontrar defeitos em toda parte, menos em ti mesmo, de querer controlar tudo e de te achar capaz de melhorar as pessoas com que te relacionas. Isso serve apenas para exasperar os que se acham ao redor de ti, ninguém está interessado em ser assim ensinado e melhorado de uma forma tão violenta, menos ainda por um indivíduo tão insignificante como ainda és; ninguém pode suportar uma censura vinda de alguém que ainda demonstra tantas fraquezas em seu caráter pessoal e muito menos pode gostar dessa tua maneira de criticar os outros em um tom oracular, definindo tudo à tua maneira, sem admitir a menor objeção. Se fosses menos instruído e inteligente do que és, serias simplesmente ridículo; mas, mesmo que reconheçam tuas qualidades, continuas extremamente irritante. Os seres humanos, em geral, não se portam com maldade quando não se sentem atacados”.

Entre tantas verdades ditas por Johanna em sua carta, há duas que chamam mais a atenção:

1. Quando ela observa que o filho tem a tendência de ver e apontar os defeitos das outras pessoas.

2. É a frase que encerra o parágrafo: “Os seres humanos, em geral, não se portam com maldade quando não se sentem atacados”.

As sentenças se completam. Uma decorre de outra. As pessoas se sentem atacadas quando surge alguém que tem o hábito de ver e apontar os seus defeitos e, sentindo-se atacadas, se portam com maldade e, portando-se com maldade, acabam demonstrando com ainda maior clareza os seus defeitos, que são apontados por quem tem o hábito de assim o fazer, e a coisa nunca mais cessa, para todo o sempre.

É muito difícil compreender esse ensinamento de madame Schopenhauer, apesar da sua simplicidade. Você pode ver as pessoas pelo lado bom ou pelo lado ruim. Isso depende de você, não das pessoas. Logo, o que é bom e o que é ruim não está nelas, mas em você, que as vê.

Pegue como exemplo alguns dos profissionais mais bem remunerados e com maior prestígio do Brasil: os técnicos de futebol. Como é que, ganhando 500, 600, 700 mil reais por mês, alguns deles se portam de forma tão ranzinza, agressiva e amarga? É porque eles não ouvem o elogio, ouvem a crítica. Deixam-se abalar pelo que existe de negativo, jamais se elevam pelo que há de positivo em sua atividade. São poucos os que aprendem. Celso Roth aprende. Vejo Celso Roth evoluindo a cada jogo e a cada entrevista. Prova de inteligência, que é mais importante do que conhecimento. Schopenhauer precisou criar um sistema filosófico para superar o desamor da mãe e, por fim, encontrar a paz. Celso Roth, como qualquer bom técnico de futebol, não precisará de tanto para encontrar a vitória.

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Sala no Litoral

16 de fevereiro de 2012 7

A derrota do Santos para o The Strongest, da Bolívia, foi um dos assuntos discutidos no Sala desta quinta.

Ouça o programa, transmitido diretamente do Litoral.

Inter e Santos dividem o mesmo grupo da Copa Libertadores. Você acha que o time de Muricy Ramalho representa uma ameaça à equipe gaúcha?

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Túnel do tempo: O pensador francês e a minha avó

16 de fevereiro de 2012 9

Segundo o pensador Edgar Morin, minha vó tinha razão. Dona Dina, lembro bem de quando ela dizia coisas parecidas com as que disse o grande sociólogo francês segunda-feira passada, no Fronteiras do Pensamento. Lembro bem. Dona Dina cozinhava, estava sempre cozinhando. Preparava iguarias deliciosas. Massa feita em casa, ela mesma retalhava as tiras e as dispunha lado a lado sobre a mesa da cozinha, polvilhadas de farinha branca. Da uva das parreiras do quintal ela fazia schmier, suco, sagu. Do leite, coalhada, requeijão e até manteiga.

Minha avó criava bichos para deles se servir. Matava uma galinha com um único golpe: torcia-lhe o pescoço e a coitada só emitia um “c...” e morria. Tinha uma porca, a Chica, que lhe atendia quando a chamava com sua voz fina:

– Chiiiiiiiica!

A Chica vinha correndo, balançando as gordas ancas suínas. Mesmo assim, minha vó não a poupou. Num domingo de outono, a Chica se transformou em lingüiça, torresmo e tempero da feijoada. Dona Dina era implacável, sim senhor. E falava verdades tais quais Edgar Morin, como:

– Chegamos ao fim do mundo.

Morin foi igualzinho, no Fronteiras. A civilização está em crise, alardeou, os problemas da humanidade não foram resolvidos e o modelo de vida nesse vale de lágrimas caminha para o
fim inexorável. Mas pingou ponto final de esperança: talvez, e apenas talvez, depois do caos esse tipo de sociedade seja trocado por outro um pouco melhor.

Sei porque Morin pensa dessa forma. Porque é francês. Mais: francês e comunista. Os franceses comunistas juram que as revoltas de maio de 68, em Paris, mudaram o mundo e foram decisivas para os rumos da Humanidade. A velha arrogância gaulesa. Nesse caso, concordo com outro francês, Michel Houellebecq, que no ano passado, no mesmo Fronteiras, disse que o rock transformou muito mais o mundo do que as rebeliões estudantis de maio de 68.

Agora, há que se admitir: maio de 68 foi responsável por pelo menos uma transformação: a da própria França, mumificando-a. Culturalmente, nada mais surgiu na França, desde então. Os pensadores, os filósofos, os músicos e os escritores franceses não produziram nada que amarrasse a botina esquerda de seus conterrâneos do século 19. Por quê? Porque econômica e politicamente a França caminhou para trás, a partir de 68, seguindo justamente os modelos pregados pelos estudantes rebelados. Hoje, o Estado francês está emperrado pela burocracia e por sua estrutura paternalista. Os compatriotas de Morin terão de promover reformas profundas em setores como a previdência. Terão de fazer mais ou menos o contrário do que o Senado brasileiro pretende ao aprovar o recente projeto paternalista para os aposentados, de autoria do gaúcho Paulo Paim.

O que franceses comunistas não suportam é que a estrutura de pensamento mais humana, libertária e bem acabada da Civilização tenha surgido nos Estados Unidos, mais de uma década antes da Revolução Francesa, e que, implantada, essa ideologia tenha funcionado e ainda funcione. Já a Revolução Francesa, depois de mergulhar o país em sangue, acabou na volta da monarquia. A pátria da liberdade não é a França; são os Estados Unidos.

Assim, Morin e quaisquer outros franceses comunistas não enxergam que o mundo está melhor do que jamais esteve. Morin gritou que estamos em crise. O mundo sempre esteve em crise. Com guerras mundiais, com exploração desumana dos trabalhadores, com uma medicina bárbara, com falta de noção de higiene e saúde, com restrições de liberdade.

Hoje existe consciência de Direitos Humanos, de ecologia, da importância da paz, hoje o racismo é reprimido, a alimentação e o vestuário estão mais acessíveis do que em qualquer época da História, hoje a mulher tem liberdade, pelo menos a mulher do mundo ocidental, e hoje as comunicações aproximaram as pessoas. Hoje qualquer lúmpen tem telefone celular e ninguém mais precisa montar uma biblioteca em casa para ter informação precisa. Hoje a medicina elevou a expectativa de vida para as fímbrias dos cem anos. Hoje as pessoas sabem mais acerca de si mesmas e das outras pessoas. Hoje a Europa de Morin está consolidando pacificamente o sonho de Júlio César, Hitler e Napoleão e transformando-se num único país.

E tudo isso aconteceu, em grande parte, graças aos Estados Unidos. Mas não é algo que um francês comunista reconhecerá.

Há um setor no qual o pessimismo francês se encaixa: no futebol. O velho futebol acabou. Pelo menos o brasileiro, transformado pela CBF num território colonial dos europeus, com sua nefanda Lei Pelé, suas seleções de crianças tipo exportação, seu soporífero campeonato de pontos corridos. Não é à toa que 25% dos brasileiros sentem ojeriza ao futebol, de acordo com pesquisas de opinião. Esse percentual vai aumentar a cada dia, a cada mês, a cada ano. E assim, pelo menos num terreno, Morin e a minha vó terão razão.

* Texto publicado em 16/04/2008.

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