
Dois meses antes de completar 80 anos, Kant morreu, virgem como havia nascido. Nunca teve mulher, noiva, namorada, um affair, nada. Tampouco parecia afeito ao que na época se denominava “amor grego”.
Não.
O sexo pouca importância tinha para Immanuel Kant. Ao contrário, ele era a favor da preservação dos humores. A saliva, o suor e o esperma deviam ser retidos no corpo a fim de conservar a força vital e prolongar a existência do homem sobre a Terra. No caso dele, deu certo – quatro quintos de século de castidade
Um pequeno gênio
Kant foi um dos maiores filósofos da História. Um Sócrates prussiano. Um Platão do século 18. Tinha apenas metro e meio de altura, mas era um gigante do pensamento.
Li o seu Crítica da Razão Pura. Exigiu suprema concentração do meu pequeno cérebro e, ainda assim, alguns trechos continuaram me parecendo insondáveis. No entanto, reconheci a obra do gênio. Aquele professor tímido e maniático de uma ponta oriental da Alemanha erigiu um sistema filosófico revolucionário.
A mesma paisagem
Kant nunca saiu de sua cidade, Konigsberg, depois incorporada pela União Soviética, hoje Rússia, agora chamada de Kaliningrado. Kant nunca se assombrou com os picos eternamente nevados dos Alpes, nunca se deixou maravilhar pela imponência histórica de Roma ou pela beleza clássica de Paris. Kant nunca viu uma praia ensolarada de um país tropical. Contentou-se em ver e analisar o mais profundo da alma humana.
Vinho húngaro
Todos os dias, sem exceção, Kant era despertado por seu criado Lampe quando faltavam cinco minutos para as cinco horas da manhã. Às cinco, irrevogavelmente, estava sentado diante da sua mesa de trabalho, preparando as aulas de lógica que ministrava na universidade local. Era adorado pelos alunos. Seu método pedagógico era dedicar-se aos de inteligência média. Explicava que aos tolos não adiantava ensinar: eles não aprenderiam. E os brilhantes se virariam sozinhos.
Às seis da manhã, depois de tomar duas xícaras de chá, Kant fumava seu cachimbo. Às 12h45min, degustava uma taça de vinho da Hungria. Quinze minutos depois, almoçava. Às 15h30min, saía para caminhar. Fazia sempre o mesmo trajeto, até hoje conhecido como “O Passeio do Filósofo”. Respirava pelo nariz, para evitar resfriados. Se chovesse, seu criado Lampe o acompanhava com um guarda-chuva aberto. Às 22h, Kant se recolhia ao seu quarto, que ficava o ano inteiro com as janelas fechadas. Enrolava-se nos cobertores como se num casulo e adormecia. Se tinha de levantar-se à noite por alguma contingência urinária, uma corda esticada entre a cama e o sanitário o guiava no escuro.
Eis o homem.
O livro e o sexo
Escrevo sobre Kant porque, tempos atrás, o Zé Antônio Pinheiro Machado falou-me de um livro que está incrustado em sua biblioteca: A vida sexual de Immanuel Kant, autoria de um filósofo francês chamado Jean-Baptiste Botul.
A vida sexual de Kant? Que vida sexual? Saí atrás do livro, até que, nesta semana, o encontrei. Um opúsculo de menos de 100 páginas, publicado pela Unesp, que li de uma só vez. Trata-se de uma coletânea de palestras que esse filósofo Botul ministrou sobre o tema em 1946 numa cidadezinha chamada Nueva Konigsberg, situada no peito do Paraguai. A plateia era composta de alemães egressos da Konigsberg original, que atravessaram o oceano fugidos da guerra. Todos adoravam Kant, vestiam-se como ele e se comportavam como ele.
Minha cabeça rodava, depois de ler o livro. Que história! Eu, que sou um admirador de Kant, nunca ouvira falar em nada daquilo. Saí a pesquisar. Nos meus livros não encontrei nada sobre Botul, Nueva Konigsberg ou kantianos radicados no Paraguai. Fui ao Google, que o Google tudo sabe. Deparei com uma matéria da Veja sobre o livrinho, publicada quando do seu lançamento, em 2001. Focinhei mais um pouco nos escaninhos da internet.
Então, descobri. Descobri!
É tudo mentira. Nueva Konigsberg, kantianos emigrados, Botul, nada disso existe ou existiu. Foram, todos, criações luminosas de um jornalista francês, Frédéric Pagès, que, no livro, faz a apresentação de A vida sexual de Immanuel Kant. Um trote genial, bem escrito, engendrado com astúcia, costurado com informações verdadeiras, no qual caiu a Veja, o Le Monde Diplomatique, dezenas de blogues, sites, livrarias e críticos.
Sorri ao fazer a descoberta. E me senti gratificado por ter lido o livro, pesquisado a respeito e passado o dia envolvido na trama. Leia A vida sexual de Immanuel Kant. E veja como até o deboche pode ser belo, desde que seja inteligente.
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