Não é que tenha enganado minha namorada (antiga namorada, bom ressaltar, a fim de evitar violência doméstica). Pois não é que a tenha enganado. Foi tão-somente uma omissão. Porque, afinal, Carnaval não combina com namoro, noivado, casamento e quejandos. Principalmente os quejandos. E meus amigos todos, toda a vagabundagem, eles iam a uma grande festa de Carnaval, enquanto eu estava lá, vendo Sessão Coruja na casa da namorada, se não me engano passava um filme do
Charles Bronson.
Tinha que fazer alguma coisa. Apelei para a tática do sono. Primeiro, bocejei umas três ou quatro vezes. Depois comecei a cabecear. Ela:
– Tadinho. Trabalhou demais.
Eu:
– Pois é...
E mais uma pescada. Quando já estava próximo de simular ronco, ela intercedeu:
– Vai pra casa, amore. Descansar...
Eu, demonstrando resistência heroica, aprumei-me:
– Nã, nã, quero ficar mais um pouco contigo, querrrida.
Ela sorriu. Esperei mais uns cinco minutos. E, de novo, afrouxei o pescoço, a cabeça caiu para trás, pateticamente.
Ela:
– Ah, não! Tu tens que dormir! Não existe nada mais importante do que o sono! Lembra da Xuxa, que dorme 13 horas por dia?
Suspirei, relutante, e relutantemente concordei:
– Sei, sei, mas queria taaanto ficar...
– De jeito nenhum!
Suspirei outra vez, e suspirando saí. Quinze minutos depois, lá estava eu, indicadores apontando para o teto, cantando será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé.
Cara, pejado confesso: engolesmeime naquela noite. Um fiasco. De manhã, sentia a boca pastosa, o mundo rodava mais que os casais, tudo era dor. E, Cristo!, tinha de ir a um almoço na casa da namorada. Cheguei lá indormido, amassado, parecia aquela jaqueta que tirei do cachorro, uma vez. Mas é claro que não podia dizer que havia bebido à noite, de jeito nenhum: eu saíra da casa dela para dormir, lembra?
Bom. A primeira coisa que a guria fez, quando sentei-me no sofá, mas a primeirona mesmo, foi vir lá da cozinha com uma garrafa de cerveja na mão. Bastou olhar para aquela garrafa para sentir uma quentura no estômago, uma tonteira, tudo ficou preto. Ela parou na minha frente, sorrindo, com a garrafa na mão. Tirou um grande copo de algum lugar, como se fosse o Toni Mágico. Sempre sorrindo, encheu o copo até a borda, vagarosamente. E estendeu-o para mim.
Tomei o copo, trêmulo. Fiz o possível para sorrir. Levei o copo até os lábios. E bebi. Aquela lágrima escorria pelo meu rosto, tinha vontade de morrer, mas bebi.
Foi um dia de sacrifícios, naquele distante Carnaval. Imagino um desses jogadores que bebe e, de manhã, não têm que enfrentar a namorada, mas têm que treinar. Solidarizo-me com eles. Poucas dores afligem tanto o homem como uma ressaca clandestina.
* Texto publicado em 29/04/2007.









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