Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

A História do Mundo: capítulo 28

27 de janeiro de 2012 6

Cem anos depois de Champollion decifrar os hieróglifos sem nunca ter pisado no solo do Egito, o inglês Howard Carter, munido de pá e picareta, escavando incansavelmente na areia macia e quente do deserto, fez uma das maiores descobertas da história da arqueologia. Encontrou a tumba de Tutancâmon, uma das poucas que haviam se mantido a salvo dos ladrões de sepulturas. Não que eles não a tivessem descoberto e violado. O mausoléu de Tutancâmon foi conspurcado por pelo menos dois arrombamentos, mas, por algum motivo, os ladrões não conseguiram acessar os tesouros nem o cadáver do faraó.

Alguém pode achar que o roubo de câmaras funerárias egípcias foi um fenômeno de uma época em que o país entrou em decadência, quando os valores tradicionais não eram mais respeitados. Nada disso. Os ladrões de sepultura agiram desde sempre. Há registro documentado de uma violação em 2.100 a.C., quando o rei Mérikaré escreveu a seu filho:

“Travaram-se combates nos cemitérios e os túmulos foram pilhados. Eu próprio o fiz”.

Alguns ladrões detalharam por escrito o seu modus operandi. O relato abaixo, redigido mais de mil anos antes de Cristo, é tanto espantoso quanto esclarecedor, e não deixa de pingar um acento de cinismo quando chama as vítimas falecidas de “veneráveis”:

“Pegamos os nossos utensílios de cobre e escavamos um corredor na pirâmide tumular do rei (...) descobrimos a câmara subterrânea e descemos com archotes (...) encontramos a sepultura da rainha. Abrimos os sarcófagos e os caixões nos quais repousavam e encontramos a venerável múmia do rei, armado de uma espada em forma de uma pequena foice. Numerosos amuletos e joias de ouro rodeavam-lhe o pescoço. A máscara de ouro recobria-o. A venerável múmia do rei estava inteiramente revestida de ouro. Os caixões estavam decorados com prata e ouro (...) e cobertos de todas as variedades de pedras preciosas. Arrancamos o ouro. Encontramos a rainha no mesmo estado e também arrancamos tudo. Deitamos fogo aos caixões”.

Havia tanta pilhagem que alguns faraós ordenaram a remoção das múmias dos seus antecessores para locais secretos, a fim de proteger-lhes o descanso, que deveria ser eterno. Ou seja: assim como os egípcios tinham adoração reverencial pelos mortos e consideravam a morte outra etapa da existência, não hesitavam em violá-los, se enfrentassem alguma crise e precisassem de recursos. O que mostra que, em qualquer época, as necessidades materiais da vida se impõem aos valores imateriais. Que a dor física é mais forte do que a dor da alma.

O homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.

Certo.

Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 Euros; você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.

Bem.

Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho. Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.

É por isso que você precisa evitar certas temeridades físicas. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de para-quedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer: que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.

O homem é um ser físico.

Por mesquinhas necessidades físicas, os egípcios violaram os túmulos de seus antepassados e de seus reis mais respeitáveis.

A carne é forte, o espírito é fraco.

Mas não sejamos injustos com o povo egípcio, até porque o conceito de “povo” é abstrato. Qualquer “povo” é tão genérico e tão amplo que se torna disforme.

O povo brasileiro é cordial? Pode um povo cordial admitir que alguém seja enfiado numa pilha de pneus encharcados de gasolina para ser supliciado até a morte com fogo, como já ocorreu nos morros do Rio de Janeiro, num tipo de execução batizado debochadamente de “micro-ondas”?

O povo americano é belicista? Mas um povo belicista seria capaz de criar e promover um dos maiores movimentos pacifistas da História, como o movimento hippie?

O que se pode dizer do povo, de quaisquer povos, isto é, do homem comum e não-individualizado de qualquer parte do mundo, é que todos são iguais: o “povo” é crédulo, emotivo, supersticioso e influenciável. Ou seja: tocado pelos tais valores imateriais. No caso dos egípcios e suas velhas crenças, prova-o uma célebre e compassiva passagem da história da arqueologia da qual falarei mais adiante. Por ora, vamos sublinhar que nem todos os egípcios eram profanadores de cadáveres. E talvez por isso o sepulcro de Tutancâmon tenha conseguido manter-se mais ou menos intocado através dos milênios. Quando Howard Carter o descobriu, lá estavam os tesouros com que o faraó havia sido enterrado. Foi uma das grandes façanhas da arqueologia mundial de todos os tempos. Muito do que sabemos sobre os egípcios e, por conseguinte, sobre nós mesmos, se deve a Howard Carter.

A respeito de sua façanha imortal, Carter escreveu um pequeno livro, “A Descoberta da Tumba de Tut-Ankh-Amon”, à disposição em bom português, traduzido e prefaciado brilhantemente pelo brilhante Eduardo Bueno, o “Peninha”. Vou reproduzir o primeiro parágrafo da introdução escrita pelo Peninha, para você se situar nessa trepidante história:

“Em 1903, Howard Carter vivia precariamente na cidade do Cairo, capital do Egito. Sem dinheiro, sem amigos e enfraquecido por uma grave doença estomacal contraída depois de anos percorrendo os recantos mais abrasivos e insalubres do Egito, sobrevivia vendendo aquarelas nas quais retratava cenas e monumentos egípcios. De temperamento irascível, por vezes explosivo, olhar ameaçador e um bigode imperioso sob o nariz acentuadamente adunco, com certeza mais parecia um personagem de Conrad ou Kipling – um drifter, um autoexilado – do que o egiptólogo erudito que era. Na verdade, quem o encontrasse perambulando por mercados repletos de gente e moscas não poderia imaginar que, vinte anos mais tarde, Carter se tornaria o arqueólogo mais famoso da História – cuja fama, até hoje, só pode ser comparada à de Henrich Schliemann, o descobridor de Troia, ou a de Jean François Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios.”

Depois de realizado, um feito se torna simples. Talvez você imagine que, para descobrir um túmulo egípcio, bastaria dirigir-se até um cemitério, ou olhar para cima e identificar uma pirâmide que se elevava ao céu, ir até lá e fazer uma rápida exploração. Só que não é assim que funciona. A partir de 1.500 a.C. os egípcios pararam de erguer pirâmides e passaram a escavar os rochedos do Vale dos Reis para dentro deles construir galerias e câmaras que serviriam de sepulturas para os seus faraós.

Por que houve essa mudança?

Exatamente por causa dos ladrões de sepulturas. A fim de manter as múmias e seus tesouros a salvo dos violadores, os administradores egípcios camuflaram os túmulos das formas mais engenhosas. Esconderam-nos sob as areias do deserto e atrás de paredes de pedra. Se um arrombador descobrisse a entrada, poderia perder-se em um labirinto, ou então esbarrar em uma câmara aparentemente inconclusa que trazia, por trás de suas ruínas, outra câmara.

A propósito disso é que vou contar aquela história compassiva de que falei parágrafos atrás.

Aí vai:

No começo dos anos 80 do século 19, um grupo de arqueólogos europeus vivia e trabalhava no Egito com objetivo de descobrir, preservar e estudar as antiguidades do tempo dos faraós. Os europeus eram movidos pela febre da nova ciência da egiptologia, nascida da aventura dos savants de Napoleão e da descoberta de Champollion. Uma das angústias dos cientistas era o combate ao tráfico de antiguidades, prática comum dos habitantes dos lugarejos próximos ao Vale dos Reis. Seguindo a pista de um desses ladrões de sepulturas, o arqueólogo alemão Emil Brugsch-Bey fez uma descoberta tão sensacional que parece inverossímil, uma história que bem poderia virar roteiro de um filme de Indiana Jones.

O ladrão de túmulos, depois de desmascarado pelos cientistas, foi levado à presença das temíveis autoridades muçulmanas do Egito. Como tentar ludibriar temíveis autoridades muçulmanas é temível, ele acabou concordando em mostrar o local de onde subtraía as antiguidades que vendia. O cientista que o acompanhou foi, exatamente, Emil Brugsch-Bey. Na madrugada de 5 de julho de 1881, Brugsch, seu auxiliar árabe e o ladrão de túmulos encaminharam-se para o deserto. Escalaram um monte com grande dificuldade e, depois de um percurso acidentado, o ladrão apontou para uma abertura na rocha muito bem disfarçada por pedras. Aquele lugar permanecera intocado por mãos humanas durante mais de três mil anos. O ladrão tirou uma corda que levava enrolada nos ombros e disse a Brugsch que ele devia descer com ela pela abertura. Brugsch fez como o indicado, não sem algum temor. O que ele encontraria no escuro lá embaixo? Poderia confiar no ladrão que ficava lá em cima?

O arqueólogo desceu 11 metros pela corda, chegou ao solo e acendeu uma tocha. Avançou alguns passos e, então, deparou com o inacreditável. Diante dele, dispostos em desordem, estavam ataúdes, múmias e objetos dos maiores soberanos do Egito Antigo. Ali jaziam os corpos de Amósis I, Tumés III e o próprio Ramsés II, o Grande, talvez o mais poderoso rei do Egito em todos os tempos. Ali estavam outras dezenas de múmias, 40 ao todo, e objetos que deviam acompanhar os faraós na sua viagem para o Além.

O esconderijo havia sido descoberto seis anos antes pelo ladrão de túmulos. Durante todo esse período, ele sua família enriqueceram vendendo com parcimônia as antiguidades tiradas do lugar. O segredo era partilhado por praticamente toda a comunidade em que vivia o ladrão. Todos se beneficiavam de alguma forma dos despojos dos faraós, num tardio arranjo de distribuição de renda entre os ricos mortos e os pobres vivos.

Brugsch emergiu do esconderijo encantado e preocupado: se deixasse as múmias no local, elas decerto seriam atacadas pelos ladrões, ansiosos por obter o derradeiro faturamento com as antiguidades. O que fazer? Tomou uma decisão rápida. Recrutou 300 operários e, em seis dias, levou as múmias, os sarcófagos e os objetos que os circundavam para um navio, a fim de transladar tudo para o Museu do Cairo. Ocorre que, nessa semana de trabalho, a notícia da mudança dos corpos dos faraós correu entre a população das aldeias do entorno. No dia em que o navio zarpou, deu-se o inusitado: camponeses e artesãos, homens, mulheres, crianças e velhos se perfilaram nas duas margens do Nilo e acompanharam o barco rio abaixo numa procissão de desesperados. Os homens atiravam para o alto com seus revólveres e espingardas, as mulheres gritavam e choravam, esfregavam a areia do deserto nos rostos pardos, atiravam os braços para o céu azul. Todos abanavam aos prantos para seus antigos reis, que iam embora para sempre. A cena era tão triste e, ao mesmo tempo, tão poderosa, que Emil Brugsch teve de virar o rosto para não se deixar comover.

O povo também é capaz de manifestações de cunho moral e desinteressado.

Nesse mesmo Vale dos Reis, Howard Carter encontrou a múmia de Tutancâmon e seus tesouros, que se mantiveram intactos por mais de 3.300 anos.

O que Tutancâmon fez de tão importante para merecer a posteridade?

Por que a descoberta de seu túmulo foi tão impactante?

Você saberá no próximo capítulo.

Share

Som de Sexta

27 de janeiro de 2012 1

Uma americana bem francesinha para esta sexta, em homenagem ao meu amigo Dinho, que está voltando para Paris:

Share

Som das madrugadas

27 de janeiro de 2012 1

A dica é do Jorge Zilio.

Share

Caio Jr avança

26 de janeiro de 2012 30

Caio Jr avançou na formação do time do Grêmio.

Parece ter um centroavante, Marcelo Moreno.

E um segundo atacante, Kléber.

Definiu que Fernando deve jogar de centromédio, o que é bom.

Dá a impressão de ter visto que dois meias de pouca movimentação, Douglas e Marco Antônio, não podem jogar juntos. Talvez não devesse jogar nenhum deles, mas aí já seria esperar demais.

O Grêmio tem alguns defeitos graves, mas já mostra algumas valências: dois bons laterais, um bom centromédio, dois bons atacantes. Ainda falta muito para ser um time. O primeiro passo, porém, foi dado.

Share

Decisão fora de casa

26 de janeiro de 2012 20

A vitória de 1 a 0 do Inter sobre o Once Caldas, ondem à noite, no Beira-Rio, pela pré-libertadores, foi discutida no Sala de Redação desta quinta.

Embora a equipe de Dorival Júnior conte com a vantagem, a imprensa colombiana destacou a oportunidade do Once Caldas reverter o placar do primeiro jogo e garantir a vaga na fase de grupos do campeonato. Os dois times se enfrentam novamente na próxima quarta-feira, dia 1º, em Manizales, na Colômbia.

Mesmo com a decisão fora de casa, você acha que o Inter garante essa vaga?

Ouça o programa!

Share

Sem D'Alessandro, mas com time

26 de janeiro de 2012 1

O Inter tem um time pronto.

Pode não ser o melhor time do mundo, pode não ser imbatível, como quer o Kenny Braga, mas é um time pronto, bem concatenado, com bons valores em cada posição e alguns reservas de alto nível.

Passará pelo Once Caldas? Acredito que sim. É óbvio que encontrará dificuldades, mas a vantagem de ontem foi robusta.

Se perder D'Alessandro, e deve perder, terá de mudar um pouco sua forma de jogar, talvez com menos toque de bola, mas, quem sabe, com mais penetração. Prefiro meias que entrem mais na área, que marquem mais gols. São mais raros, mas são também mais decisivos.


Share

A História do Mundo: capítulo 27

26 de janeiro de 2012 11

Os antigos egípcios nunca chamaram as múmias de múmias. "Mumiyai" é palavra de origem persa incorporada ao árabe para designar uma mistura de pez e mirra, o chamado “betume da Judeia”. A partir dessa substância, reduzida a pó, produzia-se um famoso remédio da Idade Média. Os persas e árabes usavam múmia para tudo, desde a cicatrização de ferimentos ao tratamento de infecções, a urticária, a enxaqueca e até a paralisia. Era o que os gregos definiriam como panaceia.

A múmia era tão valiosa que, quando recebiam os reis ocidentais, os governantes árabes ofereciam-lhes pequenas porções do pó como presente diplomático. Tratava-se de produto raro, difícil de ser obtido. Mas, no século 12, um médico árabe concluiu que os cadáveres embalsamados dos egípcios haviam sido tratados com substâncias idênticas às que compunham a múmia persa. Como os egípcios passaram três mil anos embalsamando e enfaixando os seus cadáveres, eles (os cadáveres) existiam em abundância, não apenas no interior das pirâmides, mas bem conservados pelas areias quentes e secas do deserto, onde não existem fungos que se alimentem da matéria morta.

Aliás, eis uma curiosidade: durante séculos, o mundo se inquietou para descobrir o que os antigos egípcios faziam para conservar tão bem as suas múmias. Heródoto teceu uma alentada descrição do processo de mumificação, cientistas analisaram as substâncias que envolviam os cadáveres com os mais modernos aparelhos da tecnologia do século 20, muito se disse e se especulou: o que, afinal, faziam os egípcios?

E a resposta é:

Nada.

A areia e o clima quente e seco do deserto eram ótimos para conservar as múmias. Às vezes, a ação dos sacerdotes egípcios até atrapalhava a conservação, como no caso da múmia de Tutancâmon. Os sacerdotes a cobriram com unguentos gordurosos que, em tese, deviam ajudar a mantê-la intacta para a vida no Além. Mas, ao contrário, as partes do corpo do faraó que se mantiveram em contado com o unguento simplesmente se incineraram durante os três mil e trezentos anos em que o túmulo permaneceu intocado. Sobraram apenas o rosto e os pés, que estavam a salvo da pasta que, depois de 33 séculos, tornara-se enegrecida e dura.

Era essa substância que envolvia as ataduras da múmias. Ou seja: essa substância era a múmia árabe. Por isso, o tal médico da Idade Média propôs que os corpos ressecados fossem pulverizados e transformados em remédio. Assim, os cadáveres dos egípcios, que nada tinham a ver com o preparado persa, passaram a ser conhecidos no Ocidente como múmias, mesmo quando se mantinham intactos e não eram comidos por ninguém.

O pó de múmia virou mania na Europa e até meados do século 19 era comprado nas boticas. O sujeito chegava sem necessidade de receita médica, apontava para um pote na estante e pedia:

– Quero uma múmia.

E, mediante certa quantia, ia embora para casa levando sua própria múmia. Isso todos, inclusive os mais ilustres.

O rei Francisco I, apelidado de "O Narigudo" porque, bem, carregava no meio do rosto um grande e batatudo nariz, era também um homem de luzes. Foi ele quem começou a construção do Louvre e convidou Leonardo da Vinci para morar na França. Pois Francisco I nunca se afastava do seu pozinho de múmia. Ingeriu múmia, ou seja, egípcios mortos, até ele próprio morrer, em meados do século 16.

Outra consumidora fiel foi Catarina de Médici, ela também uma rainha ilustrada. Catarina era tão sofisticada que se pode dizer que a França deve a ela grande parcela da sua fama de país requintado. Foi Catarina quem levou da sua terra natal, Florença, para a terra do seu real marido, Paris, o costume de comer com talheres. Antes dela, os franceses comiam com as mãos nuas. Até as princesinhas francesas  mais delicadas e alvas e magrinhas e sensuais, como são as francesas em geral e a cantorinha Alizée em particular, metiam a mão no assado na hora do jantar.

Outra façanha de Catarina, essa ainda mais relevante para a Humanidade, foi a invenção da... calcinha! É que Catarina gostava muito de cavalgar, e cavalgar de verdade, não de andar de ladinho no cavalo, como faziam as moçoilas da época. O problema é que, quando ela ia montar, precisava abrir as pernas, ação que deixavam expostas as intimidades reais. A fim de não ficar divertindo os súditos com o espetáculo de suas partes pudendas, Catarina bolou uma calçola para ser vestida sob a saia. As francesas viram, se admiraram e adotaram a moda. Depois, Catarina engordou tanto que, contam os cronistas da época, chegou a matar um cavalo sob seu peso. Há quem diga que a porta de uma igreja de Paris teve de ser alargada para permitir a entrada da rainha roliça. O que não é de se espantar, porque naquele tempo ninguém contava calorias, ninguém corria na esteira, como um esquilo, ninguém tomava refrigerante ligth. Mas, enquanto era magra e ágil, Catarina disseminou esta delicada peça do vestuário feminino, que mais tarde seria diminuída, acrescentada de rendinhas e posta em volta das suaves ilhargas de Gisele Bündchen. Da próxima vez que você vir uma calcinha pequeninha e cheirosa, recheada com bom conteúdo, pense em Catarina, em como ela foi uma mulher admirável, no tanto que devemos a ela.

Pois Catarina também se medicava com pozinho de múmia.

Tudo isso expõe a desinformação do Ocidente acerca da veneranda civilização egípcia. Foi Napoleão Bonaparte quem conquistou o Egito para a Europa. E aí explode um paradoxo: o grande general francês, em terreno militar, foi derrotado pelos ingleses no Egito. Mas nos terrenos cultural, histórico e científico, a vitória de Napoleão é eterna, é monumental. Os soldados de Napoleão, irônica e despeitadamente, chamavam os sábios franceses de “asnos”. Mas os soldados voltaram para casa batidos e humilhados, enquanto os asnos voltaram como conquistadores.

Com sua aguçada visão histórica, Napoleão fez com que os sábios da expedição, os “savants” (ou “asnos”, para os soldados), perscrutassem aquela antiga civilização, registrassem tudo e levassem seus conhecimentos para o Velho Mundo, que era um mundo jovem, se comparado ao dos faraós.

Um livro em especial incendiou a imaginação europeia. Era “A Descrição do Egito”, de autoria Dominique Vivant Denon, artista que foi recomendado a Napoleão por ninguém menos do que Josefina. O grande alemão C.W. Ceram, autor do fundamental livro “Deuses, Túmulos e Sábios”, resume a história de Denon com graça e concisão incomparáveis:

“Sob Luis XV, ele fora intendente de uma coleção de pedrarias antigas, passando por valido de Pompadour. Em Petesburgo fora secretário de embaixada, muito estimado por Catarina. Homem do mundo, diletante em todas as artes, cheio de malícia, desdém e espírito, era, não obstante, estimado por todo o mundo. Como diplomata junto aos Confederados, fora hóspede frequente de Voltaire e pintara o famoso ‘Almoço de Ferney’. Com outro quadro, ‘A Adoração dos Pastores’, pintado à maneira de Rembrandt, conseguira entrar para a Academia. Finalmente em Florença, na atmosfera saturada de arte dos salões toscanos, recebera a notícia do advento da grande Revolução Francesa. Dirigira-se apressadamente a Paris. E o embaixador de há pouco, ‘gentilhomme ordinaire’, rico, independente, dum momento para outro encontrara o seu nome na lista dos emigrantes, vira seus haveres confiscados e suas propriedades sequestradas. Pobre, desprezado por muitos, vegetou em bairros pobres, alimentando-se com o produto de alguns desenhos, mandriando pelas praças; viu rolar na Praça de Grève as cabeças de muitos que tinham sido seus amigos. Até que encontrou um inesperado benfeitor na pessoa de Jacques Louis David, o grande pintor da Revolução. Denon viria a gravar os desenhos de trajes de David, os quais deveriam revolucionar a moda. Por esse meio obteve a benevolência dos ‘incorruptíveis’ e, pondo em jogo a sua habilidade diplomática, obteve de Robespierre a restituição de seus bens e que seu nome fosse riscado da lista dos emigrantes. Travou conhecimento com a bela Josefina Beauharnais, foi apresentado a Napoleão, agradou e acompanhou-o na expedição ao Egito”.

Denon desenhou tudo o que viu. O resultado foi uma obra portentosa dividida em 24 volumes caríssimos, mas, apesar disso, célebres e populares em toda a Europa. “A Descrição do Egito” tornou-se um clássico e abriu os olhos do Ocidente para aquele novo velho mundo de pirâmides, esfinges, múmias e colossos. Como escreveu um dia Mário Quintana, “os livros não mudam o mundo. O que muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

Entusiasmados com o livro de Denon , muitos europeus visitaram o Egito no século 19. Alguns mudaram-se para lá. Houve quem roubasse antiguidades ou as destruísse no afã de levar relíquias para casa. Mas houve quem defendesse o passado. Foram europeus que reprimiram o tráfico de antiguidades e fundaram o Museu Egípcio do Cairo. O próprio Napoleão insistiu para que fossem tiradas cópias fieis da Pedra de Rosetta, e uma dessas cópias parou sob o sábio olhar de Chapollion, que só foi conhecer o Egito no fim da sua curta vida (morreu de enfarte, aos 42 anos). Os europeus fundaram uma nova ciência, a egiptologia. E foi um europeu, o inglês Howard Carter, o autor de uma das maiores descobertas da arqueologia: a tumba de Tutancâmon. Foi um feito espetacular, extraordinário, único, sobre o qual você saberá no próximo capítulo.

Share

Um cara que não toca sem camisa

25 de janeiro de 2012 4

O velho e bom Leonard, para você:

Share

Som das madrugadas

25 de janeiro de 2012 2

Sugestão do Adilson Kim.

Share

Contagem regressiva

24 de janeiro de 2012 6

* Texto de Denise Tamer, correspondente do blog em Londres.

O relógio com a contagem regressiva para a cerimônia de abertura das Olimpíadas de Londres está localizado em um dos pontos mais visitados da cidade: a Trafalgar Square. Praça que abriga fontes e a famosa National Gallery.


O relógio com a marcação regressiva do tempo possui dois lados. Virado para as fontes está a contagem para a  cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, que serão realizados entre os dias 27 de julho e 12 de agosto de 2012.


Já do outro lado, virada para a entrada principal da National Gallery, está a contagem para a Paraolimpíada, que será realizada entre 29 de agosto e 9 de setembro.


O relógio virou parada obrigatória em Londres! Principalmente para turistas, mas também para escolas da Inglaterra. Como alunos da turma do colégio Bisham School.  “Estamos muito animados para as Olimpíadas!”, falou a professora Charlotte Shaw, seguida de aplausos das crianças.


As Olimpíadas de Londres deste ano será muito especial para a gaúcha Daiane dos Santos. Pois irá marcar a despedida da ginasta que é uma das principais atletas do esporte brasileiro.  Aos 28 anos, Daiane anunciou que após os Jogos deste ano vai se aposentar. A ginasta foi muito importante para garantir a classificação da equipe do Brasil nas Olimpíadas, que aconteceu ontem, na North Greenwich Arena, em Londres.

E a gaúcha sonha com a medalha para encerrar sua carreira:

- Quero uma medalha no solo. Primeiro, segundo, terceiro, não interessa. Mas eu quero ser medalhista olímpica.

Se depender da torcida brasileira, Daiane irá dizer adeus à carreira com a medalha de ouro.

Share

Sant'Ana comove os ouvintes do Sala

24 de janeiro de 2012 8

Ouça o programa desta terça.

Share

A palestra na Saraiva

24 de janeiro de 2012 30

Recebi emails furiosos de pessoas que foram me ver palestrar ontem na Livraria Saraiva do Praia de Belas Shopping, num evento marcado desde o ano passado.

Não foi algo que disse. É que NÃO FUI à palestra.

Sabem por quê? Simplesmente me esqueci do evento. Não é displicência, juro por Deus. Meus defeitos são incontáveis, mas entre eles não está esse tipo de falha. Faço questão de cumprir meus compromissos.

Foi a troca de agenda, acho.

O que posso dizer?

DESCULPA!

Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa!

Share

Não mande flores para o inimigo

24 de janeiro de 2012 10

Tamerlão tinha o hábito de derramar prata derretida na garganta dos seus inimigos. Nunca entendi isso. Por que prata? Água quente, por exemplo, também dói, e sai muito mais em conta. Mas, não. Era só prata, prata, prata.

Tamerlão não economizava, quando o assunto era execuções sádicas.

Tamerlão gostava de intitular-se “O Flagelo de Deus”, como Gengis Khan antes dele e, antes ainda, Átila, o Huno. Tamerlão, inclusive, se dizia parente distante de Gengis Khan. Não era, mas quem haveria de contestá-lo?

Tamerlão aterrorizou o mundo durante a segunda metade do século 14. Sua política era exatamente esta: a do terror. Quando atacava uma localidade qualquer, esperava rendição incondicional. Se houvesse resistência, vae victis, ai dos vencidos, como havia dito Breno em bom latim, ao saquear Roma. A vingança mongólica era crudelíssima. Uma vez, ao invadir certa cidade asiática, Tamerlão mandou que cada um de seus mongóis lhe trouxesse duas cabeças masculinas a fim de empilhá-las em pirâmide na praça principal, prática que, aliás, já havia sido muito empregada por Gengis Khan dois séculos atrás. Assim, os soldados saíram cortando pescoços. Decepa daqui, decepa dali, decepa acolá, acabou faltando cabeça de homem. O jeito foi pegar mulheres, raspar-lhes as cabeças e apresentá-las ao chefe como se fossem de homem.

Durante outra invasão, ao deparar com inimigos mais renitentes, Tamerlão ficou irritado com a teimosia dos adversários e, como punição, emparedou duas mil pessoas vivas em uma torre. Os gritos e os gemidos dos supliciados foram ouvidos por dias, nas imediações.

Os líderes de uma cidade assediada tentaram comover Tamerlão apelando para seus hipotéticos sentimentos paternos. Reuniram todas as crianças pequenas do lugar e as levaram para um monte, imaginando que a visão dos inocentes desprotegidos amolentaria o coração do bárbaro. Tamerlão ordenou que sua cavalaria pisoteasse os bebês até a morte.

Não era bacana ser inimigo de Tamerlão.

Vivesse hoje e fosse dirigente de futebol, ele seria um Fernando Carvalho. Não que Fernando Carvalho seja cruel, mas ele também não manda flores para a cova do inimigo. Fernando Carvalho começou a reconstrução do Inter ao compreender que havia um único adversário a ser batido: o Grêmio. Sabia, Fernando Carvalho, que só derrotando o Grêmio, solapando-o, reduzindo seu prestígio, só assim o Inter cresceria. E foi o que Fernando Carvalho fez – para o que, é verdade, contou com o auxílio luxuoso de alguns dirigentes do Grêmio.

Mas, como todo conquistador, Fernando Carvalho sabe que, às vezes, ele tem de reprimir seu impulso belicoso para dar lugar ao bom senso e à cordialidade. É por isso que, urbanamente, sensatamente, ele estará no Estádio Olímpico neste domingo, para entregar a taça que leva o seu nome ao vencedor do turno, ainda que o vencedor seja o Grêmio.

Ponto para Fernando Carvalho.

Tamerlão também faria isso. Sua crueldade era mais estratégia do que traço de caráter. Cronistas medievais atestam que ele era um homem que valorizava a cultura. Antes de liberar a pilhagem, postava sentinelas às portas das casas de artistas, artesãos, escritores e
historiadores, protegendo-os da rapacidade da soldadesca. Depois, os enviava para trabalhar em sua capital, Samarcanda, cidade que fica onde hoje é o Uzbequistão. O lema de vida de Tamerlão, inclusive, poderia servir de dístico para qualquer intelectual moderno. Estava gravado em seu sinete de governo: “rasti rusti” – em turco, “a verdade é segurança”.

Certa feita, ao tomar a cidade de Chiraz, Tamerlão chamou à sua presença Hafiz, o maior poeta da Pérsia. Hafiz apresentou-se, cheio de temor. Tamerlão revelou que apreciava poesia, mas acrescentou estar deveras agastado com um verso escrito pelo poeta. O seguinte:

“Se aquela ingrata turca de Chiraz em suas mãos meu coração tomara, Eu daria, pelo sinal do rosto dela, Samarcanda ou Bucara”. Após declamar os versos, Tamerlão esbravejou:

– Então, gasto tempo, esforço e sangue para dar segurança a estas cidades, e você pretende trocá-las pela pinta do rosto de uma jovem?!?

Hafiz rebateu, sem vacilar:

– Essa minha generosidade excessiva vive me causando problemas...

Tamerlão riu à larga com a tirada e, depois de cumprimentar o poeta, despediu-o com presentes dignos de rei. Grandes conquistadores têm senso de humor.

* Texto publicado em 28/02/2010.

Share

Som das madrugadas

24 de janeiro de 2012 1

A dica é da Gabriela Oliveira.

Share

Concurso com os leitores

23 de janeiro de 2012 125

Vamos fazer uma prova com os leitores.

Aquele que apresentar um texto ou uma gravação da minha lavra em que esteja afirmado que "Giuliano já é do Grêmio" ou que "o Grêmio contratou Giuliano", ganha um milhão de reais. Agora!

Mas se tal não for encontrado, os que estão fazendo comentários falando em informação errada, blablablá, esses terão de escrever mil vezes:

"Não sei ler, vou voltar à escola".

Combinados?

Share