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Túnel do Tempo: Velhas noites de sexta

18 de maio de 2013 0

Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.

Bem.

Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia. E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:

— Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.

Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.

O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa...

O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.

Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.

De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.

Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção. Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:

— Queria saber como é ser bonita como ela...

Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser. Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.

O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.

* Texto publicado em 25/11/2009

Túnel do Tempo: O carreteiro perfeito

18 de maio de 2013 1

FragaJá houve algum dia um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher? Ou um que nunca tenha se decepcionado com um amigo, ou se aborrecido no trabalho, ou sentido dor? Algum dia viveu sobre a Terra um homem que atravessou a existência sem que em nenhum momento tivesse vontade de simplesmente sumir?

Pois existiu um homem que era como se fosse um desses homens.

Soube dele tempos atrás, quando cobria a Seleção Brasileira em uma dessas viagens pelo estrangeiro. Ronaldinho Gaúcho, então no zênite da carreira, chegou para mim e perguntou:

– Sabe quem de nós aqui é o que melhor bate na bola?

Hesitei. Olhei em volta. Era uma Seleção de virtuoses. Lá estavam todos eles, equilibrando a bola na ponta da chuteira. Seria o próprio Ronaldinho? Ou Ronaldão? Talvez Romário?

– Nenhum desses – sentenciou Ronaldinho. – É ele.

E apontou para um senhor de cabelos brancos e barriga bem fornida de jantares copiosos que arrastava sua pachorra pela grama perfeita da grande área. Era Valdir de Moraes, o treinador de goleiros. Valdir de Moraes?, perguntei de mim para mim. Não pode! Passei a observá-lo. O velho Valdir dominava a bola com a naturalidade de quem boceja e anunciava para um jogador lá na ponta-direita, a 60 metros de distância:

– Pé direito!

E mandava um lançamento macio como as canelas da Luana Piovani, que ia se aconchegar precisamente no pé direito do jogador. Sempre assim, tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Fui falar com ele. Queria saber de onde vinha tamanha habilidade, ainda mais que Valdir de Moraes não atuava na linha em seus tempos de jogador, mas no gol. Valdir contou-me que, quando jogava no Renner, time pelo qual foi campeão gaúcho em 1954, ele e o 10 do time, Ênio Andrade, passavam horas ensaiando chute a gol e lançamento. Com o pé direito, com o pé esquerdo, e de novo e de novo e de novo, sem parar. Donde, os dois amigos desenvolveram um talento para bater na bola que jamais os abandonou. Ênio, por exemplo, nunca, nunca (eu disse: nunca!) errou um pênalti.

Certo. Contei essa história durante um debate de que participamos eu e o Professor Ruy, segunda-feira, na Saraiva do Praia de Belas. Nossa conversa ocorreu durante o lançamento do livro do Maurício Noriega, colega paulista que escreveu sobre os 11 maiores técnicos da história do futebol brasileiro. Pois bem. Falei que Ênio Andrade nunca, nunca (falei: nunca!) havia errado um pênalti, e ilustrei essa lenda com um conhecido caso ocorrido em 1981. Ênio trabalhava no Grêmio. Leão pegava no gol. Em meio a um treinamento, Leão, com sua habitual imodéstia, arrostou:

– Aí, velho: bate um pênalti. Se acertar, pago uma cerveja.

Ênio redarguiu:

– Vamos fazer assim: vou bater dez pênaltis. Se você defender um, pago um engradado.

Leão pagou a cerveja.

Quer dizer: era verdade, Ênio Andrade nunca errou um pênalti. E, assim que pinguei um ponto final nessa frase, ergueu-se um senhor da plateia e, espetando o indicador no ar, acrescentou:

– Nem em treino! Ele batia com o peito do pé – simulou o chute de Ênio colidindo as costas da mão direita na palma da esquerda. – E nunca errava. Nunca. Nem em treino.

Nem em treino! Era o que eu dizia. Um homem que nunca errou um pênalti, nem em treino, é como um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher, um homem que nunca se decepcionou com um amigo, que em nenhum momento sentiu vontade de simplesmente sumir.

Depois do encontro na Saraiva, fomos provar o carreteiro da Dona Tereza, no Jazz Café, ali em frente à caixa d’ água. Trata-se de um carreteiro minucioso. O filé é cortado em pedaços mínimos, menores que a unha do minguinho. O molho é o da própria carne, denso, quase capitoso. Junto vem uma travessa de batatas portuguesas, delgadas como asas de borboleta, mais uma salada de tomate e alface para fazer o contraponto ao sabor quente do arroz. Perfeito. Tal qual um pênalti um dia cobrado por Ênio Andrade.

*Texto publicado na Zero Hora em 20/05/2009

Sala de Redação

17 de maio de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

O que o Grêmio deve fazer

17 de maio de 2013 89

Criticar o Grêmio hoje é repisar o óbvio.
O clube está inçado de problemas que estouram no time. O time é o reflexo do clube como os olhos são as janelas da alma, nas palavras de Leonardo.
Começa pela direção - sempre começa pela direção. O Grêmio é um clube dividido politicamente, e isso faz mais de dez anos. A política no Grêmio se desenvolve pelo ódio e pelo ressentimento. Nunca vi algo de bom ser construído partindo-se de uma base de ódio e ressentimento.
No Grêmio, até o campo de jogo é dividido. Qual é a casa do Grêmio? De onde despacha o presidente Koff? Onde os jogadores treinam? Olímpico ou Arena?
Então, chega-se ao recôndito do vestiário. É Luxemburgo mesmo quem manda? A direção tem convicção sobre as ações do Departamento de Futebol? Esse time, caríssimo, com reservas caríssimos como Kléber e Welliton, esse time é o que o Departamento de Futebol queria montar? Por que esse time formado com bons e ótimos jogadores fracassa em todas as decisões desde o ano passado?
Antes de desfazer tudo, antes de demitir e procurar culpados, o Grêmio terá de se reunificar. É preciso introspecção, reflexão e, o mais difícil, paciência.
Só com paciência se descobre para onde, de fato, se quer ir.

A gueparda

17 de maio de 2013 6

Por que tem tanto documentário sobre os suricatos na TV? Não entendo a popularidade do suricato. Os felinos, sim, esses merecem todos os filmes que estrelam. São os mais belos animais do planeta. Os cavalos têm nobreza. Os pássaros, graça. Os peixes, todas as cores. Os elefantes são imponentes. Mas nenhum deles tem a sensualidade elástica dos felinos. Não é à toa que a mulher mais linda é chamada de gata.

Então, paraliso diante do aparelho quando passa um filme sobre os grandes gatos. Foi assim que, dia desses, afundei na poltrona quando vi que seria exibido um documentário sobre o reino dos felinos ou o mundo deles, coisa que o valha.

A principal protagonista era uma mãe gueparda. Os guepardos são os mais velozes animais sobre a Terra, alcançam 110 km/h. Essa gueparda do filme teve cinco filhotes. Andava com eles pela savana em busca de sustento, como tantas mães solteiras andam pelo cimento da cidade. Num desses momentos de caça à comida, os filhotes se desgarraram. A noite caía sobre a África, e ela se desesperou. Chamou os rebentos com miados parecidos com latidos, conseguiu reunir três deles, mas, desgraça!, outros dois foram levados por um bando de repugnantes hienas que por ali rondavam. As hienas assemelham-se aos cães, mas na verdade também são felinos, sabia? São.

Ao alvorecer, a mãe gueparda subiu num pequeno monte para tentar avistar os filhotes desaparecidos, enquanto os outros três brincavam indiferentes sobre suas costas. Miava, a coitada, miava, miava, e nada. Estavam perdidos para sempre.

Seguiu seu caminho até que, lá adiante, em meio à vegetação amarelecida pelo sol, deparou com a visão horrenda: a morte se aproximava sob a forma de três irmãos guepardos desconhecidos. Não existe corporativismo entre os guepardos. Os machos adultos, quando avistam filhotes de outros machos, costumam devorá-los. A mãe sabia disso, sabia que não tinha chance contra os três, mas os esperou bravamente. E os enfrentou com a coragem das mães. Um a mordia numa pata, outro no flanco, o terceiro tentava lhe dilacerar o pescoço, mas ela resistia. Com as unhas afiadas cortando feito giletes, com os dentes pontiagudos à mostra, com rosnados de ameaça, ela resistiu. Sobreviveu ao ataque dos três bandidos. Mas acabou separada dos filhotes. Impotente e horrorizada, a mãe gueparda viu os malfeitores se aproximando dos pequenos, que miavam sem esperança de salvação.

Não quero ver!, disse para mim mesmo. Não quero ver! E desliguei a TV. O mundo animal é muito cruel, pensei. Peguei o jornal para me distrair. E a primeira notícia que li foi sobre uma mãe humana da zona norte da cidade que ensinava seu filho a espancar um cachorrinho que mede palmo e meio do focinho ao rabo. Parei de ler no meio do texto. Fechei o jornal com um suspiro. O mundo animal é mesmo muito cruel.

* Texto publicado na página 2 da Zero Hora desta sexta-feira, 17 de maio

Som de Sexta

17 de maio de 2013 2

Não contem para o Piangers, mas eu gosto do Phil Collins.

Sala de Redação

16 de maio de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Túnel do Tempo: Quando descobri a internet

16 de maio de 2013 1

Internet é coisa de jovem, mas a primeira pessoa que me falou sobre sua existência foi um cara que respira neste Vale de Lágrimas pelo menos uma década antes de mim: o velho lobo da imprensa Carlos Wagner. Isso se deu lá nos albores dos anos 90. Wagner, o repórter mais premiado do Brasil, me pegou na redação e contou, entusiasmado, que estava participando de uma rede virtual entre universidades que, em algum tempo, transformaria o mundo. O mundo! Ouvi, algo distraído, e saí para fazer minha pauta. Transformar o mundo. Sei.

Veja você como a gente deve prestar atenção no que diz um velho lobo da imprensa.

Li outro dia que apenas 18% das pessoas com 50 anos ou mais usam a internet. Coisa de jovem. Compreensível. As pessoas, depois das aventuras e desventuras da juventude, adotam uma forma de viver, cultivam hábitos, aferram-se a eles. Aí, quando tudo está bem posto, surge uma novidade que lhes exige o esforço do aprendizado. Mais trabalho. Exatamente no momento em que elas planejavam, tão somente, fruir a existência.

Sacanagem.

Eu aqui não cultivo preconceitos em relação à internet. Não tenho tuíter, não tenho Facebook, estou reduzindo a leitura de e-mails a menos de meia hora, e só nos dias úteis, mas não faço tais restrições por achar a internet algo ruim. Ao contrário, é algo bom. Mas toma tempo. Trata-se de uma questão de prioridades.

A internet é uma ferramenta, nada mais. Pode ser bem ou mal usada, como qualquer ferramenta.

Tempos atrás, discuti por e-mail com um estudante de Letras. Ele foi arrogante, e decidi dar-lhe uma resposta no mesmo tom. Ele postou minha resposta nas chamadas “redes sociais”. Quer dizer: tornou pública uma correspondência pessoal. Depois disso, reavaliei meu relacionamento virtual com leitores.

Também aprendi que, às vezes, o que está na internet só tem importância na internet. Fora dali, no mundo real, aquilo que pulsa e freme na internet inexiste. É zero. Torna-se verdadeiro apenas quando o mundo real o reconhece. Por que 1 milhão de pessoas acessam uma besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”? Resposta: porque 1 milhão de pessoas acessaram a besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”. O troço faz sucesso porque faz sucesso, sem mérito algum. Vira realidade quando vai para a TV, para o jornal, para a rua. Se fica restrito à internet, evapora.

Porém... algo que só deveria existir na internet pode transformar-se em realidade distorcida. O tal filmeco que ofende o Islã não passa disso: de um filmeco malfeito e mal-intencionado, feito por um picareta, com 14 minutos de duração, algo de péssimo gosto que deveria se esfarelar no YouTube sem que ninguém lhe desse importância. Mas, por razões diversas, os radicais lhe deram importância, e tem gente matando e morrendo por causa disso. Matando e morrendo, graças às facilidades da internet. O mundo mudou, como havia vaticinado o Wagner, e ainda não aprendemos a lidar com essa mudança. Dá trabalho aprender. E é preciso aprender. Sempre.

* Texto publicado em 28/09/2012

Sala de Redação

15 de maio de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta quarta-feira.

Texto do leitor: Balada Segura pra quem ?

15 de maio de 2013 57

Texto do leitor Diego Alves

Balada Segura pra quem ?

É, eu vejo o Estado comemorando a realização da Operação Balada Segura, tantos infelizes multados, apreendidos, guinchados, encadeiados e por aí vai.

Nossa, que legal! Parabéns para o Estado, que conseguiu mais uma maneira de fazer o povo de trouxa e ganhar dinheiro da gente, em termos de educação, é motivo de riso, porque ninguém deixou de sair, beber, e por aí vai, apenas abriu-se uma espécie de "roleta russa dos motoristas" onde todo mundo tenta fugir dos "anjos" da balada segura.

Pensem bem, será que seria preciso aplicar uma multa de 2 mil reais, em alguns casos pedir fiança, e por aí vai?
Não não, era mais fácil reter o carro do indivíduo por ele não poder dirigir até um responsável vir fazer isso. Mas outro porém... Vou falar por Rio Grande, minha cidade atual, pergunto para os amigos, o município disponibiliza transporte urbano que passe perto de festas para transportar os bêbados ? Se sim, mais uma. Será que eles disponibilizam segurança nas ruas para sairmos das baladas e pegar o ônibus no abrigo ?

É engraçado, porque a balada segura é para tirar bêbado da direção, mas não serve para tirar criminoso da rua.

Então, vamos aplaudir a quem protege 10 ou 20 vidas por noite, e põe em risco centenas, milhares sem um policiamento decente e conscientização inteligente. E não falo apenas de policiamento a noite, de dia também, senão as coisas não seriam tão tristes, com estupros a solta no RJ e demais cidades. Vejo um bando de policiais "coçando" e rindo de quem leva multa e pode parar na cadeia e nenhum botando o pé na esquina para impedir vagabundo de destruir a dignidade dos outros.

Sim,
É triste, mas é verdadeiro,

A Polícia não vai na frente da festa para te proteger, ela vai para te oprimir, para te arrancar dinheiro e te impedir de voltar para casa.

Policia ou ladrão ? Brincavamos disso quando éramos pequenos.

Agora, eles brincam disso e nós só podemos escolher: "Vítima".

Sala de Redação

14 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta terça-feira.

Seleção: fosca, mas com esperança de brilho

14 de maio de 2013 30

A lista dos convocados para a Seleção Brasileira é fosca. Há poucas chances de brilho, ali. Mas de onde Felipão poderia tirar o brilho? Na coletiva, os repórteres cobraram muito a ausência de Ronaldinho. Natural: o último jogo sempre é o que vale, e Ronaldinho foi um jogador de Seleção contra o São Paulo e contra o Cruzeiro, seus últimos jogos. Porém, na Seleção ele não tem sido de Seleção. Tem sido... fosco.
Por isso, a convocação é lógica e defensável. E talvez até possa dar uma esperança de brilho futuro. Afinal, nessa lista há Neymar, há Lucas, há Bernard, há Fernando, há Oscar, jogadores jovens e que têm potencial de crescimento. Quem sabe não é esse o germinal da nova Seleção? Uma Seleção capaz de ser campeã do mundo. Quem sabe?

Tudo tão confuso

14 de maio de 2013 26

O futebol gaúcho não existe mais.

Ao mesmo tempo, o futebol gaúcho venceu.

Hoje, quase todos os times do Brasil professam o futebol gaúcho, garra, garra, garra, marca, marca, marca! Uma desgraça.

O único time que não pratica o futebol gaúcho é o melhor deles, o Atlético Mineiro, que ataca com quatro, alegremente. Brasileiramente.

Sei quando o futebol gaúcho venceu e, vencendo, foi absorvido pelo resto do Brasil e, sendo absorvido, deixou de existir: foi mais ou menos na época em que o mundo inteiro mudou.

Curioso isso. Nos anos 90, achávamos que não haveria mais surpresas. O Muro de Berlim havia sido derrubado, a União Soviética havia se desunido, e Francis Fukuyama dizia que a História havia chegado ao fim. Já o futebol-força europeu, que fora assimilado por Foguinho nos anos 50, aplicado ao Grêmio de Aírton e Gessy e depois ao Inter de Falcão e Figueroa, esse futebol-força se consagrara em 1994, com a Seleção Brasileira mais dura da história conquistando uma Copa nos pênaltis.

Ou seja: estava tudo posto.

Então, Bin Laden derrubou as Torres Gêmeas e Guardiola levantou o Barcelona. A História não havia acabado e o futebol não estava pronto. Inacreditável. Como podia, ali, diante dos nossos olhos redondos de incredulidade, ao vivo pela TV, suceder-se algo com a dimensão da Tomada de Constantinopla, da Queda da Bastilha, da Passagem do Rubicão? Como podia formar-se um time que tocava a bola como a Seleção Brasileira de 70 ou como o Flamengo de 80 e marcava como o Grêmio de 90? Como explicar aqueles pequeninos, Xavi, Iniesta e Messi, habilidosos como Paulo César Caju, Zico e Rivellino, esforçando-se como Mauro Silva, Zito e Dinho?

O mundo ficou mais confuso, de uns tempos para cá. Nessa confusão, as ideologias e os estilos de futebol se misturaram. Como pode a China ser uma ditadura comunista com um sistema econômico capitalista? Como pode um time alemão como o Bayer atacar com dois pontas abertos?

Os maiores afetados por tais dilemas foram os campeões do capitalismo, os Estados Unidos, e os campeões do futebol, a Seleção Brasileira. Um e outra perderam a segurança.

Quem somos? Gaúchos como o Corinthians ou cariocas como o Atlético Mineiro? Respostas até 1014, por favor.
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OS QUATRO GRANDES

O futebol gaúcho se ergueu sobre três pilastras.

1. O inventor.
Foi Foguinho, que, em 1953, em excursão histórica com o Cruzeiro de Porto Alegre, viu o Real Madrid de Puskas e voltou embasbacado e decidido a implantar o futebol-total.

2. Os propagandistas.

Foram dois, Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann. O primeiro, Ruy, que bebia direto dos ensinamentos de Foguinho. Depois, Lauro popularizou o que Foguinho pregava. Ruy e Lauro fundaram a ideologia do futebol gaúcho, como se fossem Marx e Engels lançando o Manifesto Comunista.

3. O símbolo.
Foi Caçapava. Em 1975, ele marcou, e anulou, o melhor jogador do Brasil, Rivellino, no templo do Maracanã. Era a vitória da força sobre a arte; do esforço sobre o talento. Ninguém mais se lembraria que o futebol gaúcho vencia graças a Falcão e Renato. Era o começo da confusão.

Sala de Redação

13 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: Coração selvagem

13 de maio de 2013 4

Esse senhor de basto bigode que zanzou feito um fantasma por Porto Alegre dias atrás, Belchior, esse senhor estranho é um símbolo. Belchior é uma estátua viva à juventude, à inconformidade, à contestação reflexiva e, também, à imaturidade.

Você pode aprender muito, se conhecer Belchior, se prestar atenção no que ele escreveu e no que ele se transformou. Belchior foi um poeta inexcedível. Repare neste verso:

“Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção.

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão”.

Não é uma bela imagem, o beijo que ela leva escondido nas dobras do blusão?

Em outro poema, Belchior tomou emprestada a verve de Olavo Bilac:

“Ora, direis, ouvir estrelas! Certo perdeste o senso. Eu vos direi, no entanto: enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer não, eu canto”.

Bonito.

Mas o importante de Belchior não é a beleza das suas composições. O importante é quando ele confessa que a sua alucinação é suportar o dia a dia. É a alucinação de todos, certo, mas Belchior não está exagerando sobre si mesmo. Em outra canção ele diz a um parceiro:

“Se você vier me perguntar por onde andei

No tempo em que você sonhava,

De olhos abertos lhe direi:

Amigo, eu me desesperava”.

Ele se desesperava com o dia a dia, ele se desesperava ao perceber que a juventude do seu coração era perversa, uma juventude que só entendia o que era cruel, o que era paixão, porque assim é a juventude.

Belchior sabia que a felicidade é uma arma quente, mas isso não lhe serviu de consolo. A fama, o sucesso e o dinheiro não foram suficientes para aplacar a dor existencial de Belchior. Ele não se conformou. Prova-o o seu futuro, que o futuro dele está acontecendo hoje. Prova-o esse ser humano enigmático que vaga pelo sul do continente meio que sem rumo, hospedando-se em hotéis sem ter dinheiro para pagá-los, doce e arredio ao mesmo tempo, parecendo ora aflito, ora sereno, sendo hoje o que foi sempre.

Belchior ficou congelado nos anos 70. Jamais saiu de sua própria juventude e, suponho, jamais sairá. Em uma de suas grandes composições há uma frase que diz tudo sobre ele, uma frase que resume o que é o coração selvagem de quem começa a se conhecer:

“Ainda sou estudante da vida que eu quero dar”.

É isso. Belchior sabia que a vida de uma pessoa é dada a outras pessoas. Mas que vida ele queria dar? Para quem? Essas eram as perguntas que o inquietavam, e que inquietam a quem quer que pense. Olhando para o Belchior pálido de hoje fico pensando se ele, enfim, descobriu as respostas.

* Texto publicado em 30/11/12