Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Resultados da pesquisa por "11 gols"

Convocação de Damião é apressada

21 de março de 2011 85

Sou um entusiasta do futebol do Damião, mas sua convocação para a Seleção Brasileira é, no mínimo, surpreendente.

Damião era reserva até o começo do ano. Nos últimos dois meses, marcou 11 gols no Guachão e dois na Libertadores, um no Emelec, outro no Jorge.

E já foi convocado para a Seleção Brasileira.

Está muito fácil ser convocado na Seleção Brasileira. Nos anos 70, o Inter tinha um supertime, o melhor da sua história, e era uma festa quando um Falcão ou um Carpegianne eram convocados.

Não estou dizendo que Damião não será um craque de Seleção. Estou dizendo que ainda não é.

Gol de placa (5)

29 de março de 2010 5

Chega ao fim a coleção de posts que reúne as reportagens da série  “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Confira abaixo a última reportagem, quando um jogo de futebol não se encerra em 90 minutos e se prolonga até os tribunais. Ó:

Dos campos para os tribunais

DIOGO OLIVIER – 25/10/2001

Em pé: Dreher, Vanderson, Rafael, Athos, Luís, Da Silva, Jairo, Cristiano, Cézar Vargas e Miltinho (técnico). Agachados: Funé, Anderson, Di Marcelus, Rodrigo, André Corrêa, Éwerton e Clai. Não aparecem na foto mas estão no time do sindicato: Odair, Tigrão, Luciano e o goleiro Preto. Todos procuram um clube

Ainda falta um longo caminho para os jogadores brasileiros atingirem níveis de organização como o dos argentinos e, assim, construírem instrumentos capazes de enfrentar o desemprego. Mas a criação da Federação Nacional dos Atletas Profissionais e o renascimento do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul lançaram o Estado à frente de um lento e gradual processo de conscientização em todo o país. Aos poucos, está indo embora o medo de enfrentar dirigentes.

As duas entidades são presididas pelo gaúcho Ivo Amaral e têm coordenação jurídica de Décio Neuhaus, um estudioso da legislação daqueles capazes de citar artigo, inciso, alínea de tudo. Os números gritam. Só este ano, foram ajuizadas 200 reclamatórias trabalhistas contra clubes. Trinta jogadores conseguiram passe livre na Justiça, a maioria por falta de recolhimento de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) ou salários atrasados. A maior parte dos beneficiários ganham salários de fome.

Reaver nos tribunais o dinheiro não pago pelo trabalho executado é fundamental para garantir o sustento durante o período de desemprego. Os exemplos incluem jogadores famosos, de alguma notoriedade ou meros desconhecidos. A juíza da 58ª Vara do Trabalho do Rio de Janeiro, Juliana Ribeiro, concedeu sentença em favor de Júnio Baiano, hoje no Shenshua, da China. Para conseguir o passe livre, o zagueiro da Copa de 1998 alegou que não recebia salários nem FGTS do Vasco há oito meses. O presidente do clube, Eurico Miranda, recorreu da decisão.

Antes dele, Juninho Pernambucano também conseguiu “alforria”, mas não sem dura batalha nos tribunais. O meia venceu em primeira instância. O Vasco deu o troco e cassou a decisão com mandado de segurança, mas o ministro Francisco Fausto, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), bateu o martelo em favor de Juninho. Livre, assinou contrato com o Lyon, da França.

O volante Rogério também se libertou do vínculo com o Palmeiras e, depois de um breve período desempregado, ganhou o direito de se transferir para onde bem entendesse: escolheu o Corinthians. O colombiano Aristizábal exerce sua profissão no América, de Cáli, através de mandado de segurança. Djair, ex-Grêmio, obteve passe livre graças à ação de Neuhaus, assim como Murilo, ex-Inter e desempregado.

Alguns aceitam receber passe livre em troca do FGTS. É o caso do zagueiro Márcio Tigrão, ex-Inter e ex-Sturmgraz (Áustria), hoje sem clube. Não é o ideal, mas houve tempo em que a relação jogador-dirigente era tão democrática como as liberdades das mulheres em alguns países islâmicos.

– Aos poucos, o pessoal vai percebendo que entrar na Justiça com o objetivo de defender seus direitos é o normal de qualquer trabalhador. Não é nada contra o clube, contra a torcida – ensina o zagueiro Scheidt, do Corinthians.

Scheidt se surpreendeu ao constatar que o FGTS nos tempos de Grêmio não fora recolhido. Entrou na Justiça. No Parque São Jorge, fiscaliza mês a mês os depósitos. Se no Brasil organizar uma greve de jogadores equivale a crer na paz entre judeus e palestinos a curto prazo, na Argentina é fato corriqueiro. Este ano, lá, o campeonato parou. As negociações terminaram por limitar a paralisação em dez dias, mas foram duas rodadas sem futebol aos domingos. Motivo: os 20 clubes da primeira divisão deviam US$ 60 milhões aos jogadores entre salários atrasados e premiações. O campeão era o River Plate: US$ 12 milhões, seguido pelos US$ 8 milhões do Boca Juniors. Somadas, as dívidas nas três divisões batiam em US$ 100 milhões.

Na Argentina, jogadores chegaram a fazer
greve de futebol duas vezes em dois anos

Numa segunda-feira à noite, em maio, os capitães de todos os times profissionais do país – nenhum deles faltou – se reuniram com o presidente da União dos Jogadores Argentinos, Sérgio Marchi, no centro de Buenos Aires.

– Os dirigentes acreditavam que a festa nunca iria acabar. Mas acabou – afirmou Marchi, ao deflagrar a greve.

O pagamento de 40% da dívida e a promessa de parcelamento do restante encerrou o levante. A mediadora do acordo foi ninguém menos do que a ministra do Trabalho, Patrícia Bullrich. Um ano antes, na terceira divisão, torcedores do Excursiones invadiram o campo e agrediram jogadores do Comunicaciones. Outra greve, desta vez por segurança nos estádios. O futebol no país só retornou depois de o presidente Fernando De La Rúa receber os líderes do movimento na Casa Rosada e declarar o assunto como “de Estado”.

– Há muito ainda por fazer. Mas nossa semente está plantada. E já colhemos alguns frutos – resume o presidente do Sindicato e da Federação dos Atletas, Ivo Amaral.

O incrível mercado do desemprego

O desemprego no futebol atingiu tal dimensão que começa a surgir uma espécie de mercado informal em torno do tema. Além do time do sindicato, que disputa jogos-treino com equipes profissionais e já conta com 70 nomes, há outras iniciativas.

É o caso do professor de educação física Renato Schmitt, 37 anos. Renato tem uma empresa que atua em várias frentes. O Inter contratou a Personal Soccer para fazer um trabalho menos cruel com as crianças que se submetem ao peneirão. Em vez do veredito baseado em alguns minutos de pelada, os futuros talentos passam uma semana sob supervisão de Renato, para qualificar os critérios de seleção.

Com 10 anos de futebol, tanto no Inter quanto no Grêmio, os desempregados correram para Renato. Desorientados, procuram um porto seguro ligado ao meio futebolístico para não afundar. Na prática, é uma ajuda sem contrapartida financeira alguma. Sem emprego, os jogadores prometem pagá-lo com o salário do próximo clube – se houver próximo clube. Renato não nega ajuda e nem cobra. O zagueiro Márcio Tigrão e os volantes Djair e Anderson são alguns dos que receberam o seu auxílio.

– Não pensei que a procura desta fatia da realidade do futebol seria tão grande. Eles ficam perdidos. A cabeça vira um porongo. Talvez o mais importante seja a parte psicológica até. Acabam querendo opinião de tudo. É uma pressão sobre mim – espanta-se Renato.

Cézar Vargas se especializou em empresariar os sem-clube

Outro exemplo é o empresário gaúcho Cézar Vargas. Iniciante na profissão, especializou-se em arrumar clubes para jogadores sem emprego. Terça-feira embarcou o volante André Vieira (ex-Grêmio) e o zagueiro Silvan (ex-Inter) para o Fortaleza, ambos do time do sindicato.

A promessa dos dirigentes é R$ 6,5 mil mensais. O primeiro esteve no Lugano, da Suíça. O segundo andou pela Coreia do Sul. Haverá pagamento? Impossível prever. Luciano Dreher desembarcou para jogar no Atlético-GO feliz da vida pelo salário de R$ 6 mil. Ao chegar em Goiás, ainda no aeroporto, ouviu de um dirigente que tratava-se, na verdade, de R$ 1 mil – nunca pagos, aliás.

– Já levei cada curva de empresário graúdo
aí que foi uma beleza. Mas tudo bem. É ótimo ajudar o pessoal que está sem emprego. Na Europa é mais complicado: eles pedem fita gravada com os melhores lances e outra com um jogo inteiro – explica Vargas, um dos personagens do incrível mercado dos desempregados do futebol.

—–

>>> Leia as reportagens anteriores da série:

O drama social do mundo da bola

O Felipão dos sem-trabalho

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

Um campeão gaúcho corre na rua

Gol de placa (4)

28 de março de 2010 5

Os gols de placa estão chegando ao final. Agora, no domingão, fiquem com a quarta, e penúltima, parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai recordar a história de Funé, integrante do eficiente banguzinho de Felipão, em 1995, que foi na conversa de certos empresários e acabou reforçando o time do Desemprego Futebol Clube. Ó:

Campeão gaúcho corre na rua

DIOGO OLIVIER – 24/10/2001

Em 1992, o Grêmio desembolsou por ele a pequena fortuna de US$ 30 mil ao América de Três Rios (RJ). Nada mal para um moleque de 16 anos. O nome de cartório é José Afonso da Silva, mas todos o conhecem pelo apelido que nasceu Cafuringa, evoluiu para Cafuné e, enfim, ganhou contornos definitivos: Funé.

Sempre foi titular nas divisões de base. O técnico Luiz Felipe o convocou, aos 19 anos, para disputar o Brasileirão e ser campeão gaúcho de 1995 com o Banguzinho. Seis anos depois, Funé amarga o sexto mês de desemprego no apartamento de 40 metros quadrados no Jardim Vila Nova, em Porto Alegre. Aos 25 anos, procura clube como 10 mil dos 22 mil jogadores brasileiros registrados na CBF.

Entre o começo promissor e o limbo atual, Funé protagonizou o enredo de como empresários de futebol têm poderes para determinar o sucesso de um jogador ou condená-lo ao desemprego, independentemente da questão técnica. Magro (66 quilos), altura de 1m75cm, ele próprio reconhece não ser assim nenhum Romário. Não haveria de ser por trucidar a bola que Felipão o pinçou dos juniores para o eficiente Banguzinho.

Como explicar, então, o desemprego? Funé ouviu o canto dos empresários. E se deu mal.

Nos tempos inesquecíveis de 1995 (foto), quando Felipão o escalou em sete jogos no espaço de cinco dias, empresários travestidos de benfeitores o aconselharam a pedir passe livre – aqui, um parênteses:

Em geral, empresários seguem à risca o estereóripo. Engravatados, armados de celulares minúsculos e caminhonetes incrementadas, grudam em talentos emergentes feito cola Superbonder. Aproveitam a cabeça cheia de sonhos de adolescentes ainda imberbes para lhes prometer o paraíso e, claro, lucrar muito com isso. Se der certo, restará algum para o jogador. Do contrário, crescem as chances de surgir um novo Funé – fecha parênteses.

Então, a direção do Grêmio atendeu ao pedido do lateral descoberto por Felipão e lhe deu passe livre.

– Diziam que eu ia ficar encostado, que não havia tempo a perder. Quando ganhei passe livre, sumiram todos e comecei a rodar por aí. Hoje, com outra cabeça, teria deixado meu passe preso ao clube. É o melhor para quem está começando – aconselha Funé.

Para alcançar o grupo principal da dupla Gre-Nal, o funil é estreito e cruel. Ficar vinculado ao clube pode ser a possibilidade de entrar em um negócio e tentar a sorte em outro lugar, no caso de não ser aproveitado no clube de origem. Tinga rodou pela segunda divisão japonesa, retornou ao Grêmio com atuações opacas, passou cinco meses no Botafogo-RJ sem receber salários e, até ser descoberto como volante, não passava de reserva em vias de dispensa.

– Nada é pior do que ficar sem emprego. Nada mesmo. A Lei Pelé é benéfica para Edmundo, Romário, para quem é craque e tem mercado garantido. Para nós, não mudou quase nada – revela o lateral.

“Me dá um troço quando vejo gente como
eu jogando bola na TV”, desabafa Funé

Desde quando recebeu o passe livre do Grêmio, Funé morou com a sogra, de favor. Parte do dinheiro que ganhava ia para a mãe comprar uma casinha no Rio. Há três meses, deu entrada de R$ 3 mil no apartamento onde mora com a noiva Rosimeri, funcionária do Grêmio. Os restantes R$ 22 mil serão repartidos em 36 vezes. O desemprego acendeu o sinal de alerta. Vendeu por R$ 8 mil um carro Pointer usado que valia R$ 12 mil. Os compradores perceberam a situação crítica e barganharam.

Se teve a carreira desviada prematuramente do curso normal pela sanha dos empresários, o círculo vicioso do futebol aponta os algozes de ontem como única solução para retomada dos trilhos. Nos descaminhos do mundo da bola, contrata-se mais pelo status do empresário do que pela capacidade de marcar, driblar
e fazer gols do jogador em questão.

– Sem empresário influente é impossível. Ligo a TV e vejo gente enchendo o bolso sem jogar mais do que muitos desempregados por aí. Às vezes dá um troço por dentro e até desligo a TV – emociona-se.

Enquanto o emprego não chega, só resta a Funé manter a forma correndo no asfalto duro das ruas da Zona Sul, desviando dos carros, ouvindo motoristas neuróticos buzinarem e correndo o risco de tropeçar em algum buraco. Correr e esperar que ainda seja possível retomar o caminho desviado em 1995 pela realidade do Desemprego Futebol Clube.

Na última parte, os jogadores que tentam se organizar para enfrentar o desemprego.
AGUARDEM…

>>> Confira as outras reportagens:

O drama social do mundo da bola

O Felipão dos sem-trabalho

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

Gol de placa (3)

27 de março de 2010 3

Nesta manhã de sábado, fiquem com a terceira parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai conhecer o volante Odair, que brilhou nos juniores do Inter, foi capitão em seleções de base e figurou no grupo principal no Beira-Rio. Mas a promissora carreira de Odair foi tristemente transformada, depois de ouvir que não servia mais.

Jovem, líder do Brasil. Mas desempregado

DIOGO OLIVIER – 23/10/2001


“Tu não serve mais”. A frase reverbera na cabeça do volante Odair desde uma certa sexta-feira de julho, final de tarde que tinha tudo para ser como tantos outros não fosse o fatídico telefonema do então supervisor do Inter, Édson Prates. Era antevéspera da reapresentação para o segundo semestre de 2000.

De lá para cá, conta-se pouco mais de um ano. O suficiente para desmoronar sua vida. Vendeu carro e objetos pessoais para enfrentar o desemprego. Está sem clube desde julho. Deixou o orgulho de lado e aceitou dinheiro de amigos e familiares. Faltam R$ 5 para estourar o limite da conta no banco.

O drama social que atinge 10 mil dos 22 mil jogadores profissionais com registro na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deixou de ser uma realidade vinculada exclusivamente ao circuito do Interior.

Odair, 24 anos, é prova irrefutável disso. Seu caso faria Salvador Dalí, o mestre do surrealismo, ficar de queixo caído. De capitão de juniores do Inter e da Seleção Brasileira no Mundial da Malásia, caiu direto no poço do desemprego, sem escalas.

– Depois de ouvir aquele “não te apresenta, tu não serve mais”, me dei conta que se colocar anúncio no jornal convocando jogador desempregado, aparece 200 só no centro de Porto Alegre – alerta Odair.

Aconteceu assim com o garoto de Salete (SC), após 14 anos de Beira-Rio:

Cena 1 –
lá estava Odair viajando com a Seleção Brasileira sub-20 para todos os cantos do mundo. Jogava nos melhores estádios do planeta. Com a braçadeira verde-amarela, ganhou o Sul-Americano e o Mundialito vergando uma certa Argentina de Pablo Aimar, Javier Saviola e Juan Riquelme. No Mundial da Malásia, os argentinos deram o troco. Voltou ao Inter e integrou o grupo campeão gaúcho de 1997 (foto ao lado). Em 1998, ainda em idade júnior, liderou a campanha do tetra na Taça São Paulo.

Corta.

Cena 2 – depois de um empréstimo ao Fluminense, onde venceu a Série C com Carlos Alberto Parreira de técnico, retornou. Aí, o telefonema fatídico: o Inter o dispensara. Foram três meses sem ser aproveitado, com o passe preso ao clube e o salário rebaixado de R$ 5 mil para R$ 3 mil – até o empresário Luciano Cavalheiro comprá-lo por apenas R$ 54 mil. Zanzou pelo Veranópolis de Tite e América-RN buscando tão somente dinheiro para sustentar mulher, um filho e um enteado. Vendeu carro e objetos pessoais para sobreviver. O dinheiro dos atrasados parcelados do Fluminense, fonte única de sustento, secou.

– Cara, é muito difícil acordar de manhã e ter de correr sozinho para manter a forma. Os conhecidos me encontram e perguntam: “onde tu tá, no Inter, no Fluminense?”. E eu não estou em lugar nenhum. É horrível. O dinheiro acabou, não dá mais – desabafa Odair, com as mãos no rosto.

A explicação poderia estar no joelho esquerdo, lesão contraída no fim do empréstimo ao Flumiense. Um estiramento nos ligamentos o obrigou a engessar a perna. Mas nem foi preciso operar. Quando foi dispensado do Inter participava de recreativos normalmente. Hoje, corre de segunda a quarta-feira no Parque Marinha do Brasil e, na quinta e na sexta, disputa até duas partidas de pelada por dia, indo de um lugar ao outro com o carro do sogro.

Tanto assim que foi dele, por ironia, o primeiro gol, de falta, na vitória por 2 a 0 do time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Pérez e Leandro Machado, dia 10 de setembro, pouco mais de um ano depois do telefonema. Só desempregados jogam no time treinado por Milton Pedroso da Silva, o Miltinho, o Felipão dos sem-trabalho.

Apesar da melancolia e da depressão, Odair promete não se entregar. Mas para quem comandou a Seleção Brasileira ao redor do mundo, é difícil participar de jogos de sem-camisa versus com-camisa, como faz durante a semana. É quase inevitável uma ponta de melancolia ou mesmo depressão.

Não virar um amargurado “jogador free-lancer”, como são chamados nos bastidores do mundo da bola os que não param em clube algum, é uma meta de Odair:

– Não vou me entregar. Não quero pensar no Miranda e no Medina (Fernando Miranda e João Paulo Medina, presidente e coordenador técnico do Inter). Quero esquecer que me esqueceram depois de 14 anos de clube.

Ao tentar driblar a mágoa, Odair aprendeu com o desemprego. Aprendeu que, além dos problemas de sempre – calendário, recessão econômica, dirigentes autoritários, coronelismo político – o futebol brasileiro enfrenta um agravante necessário e justo. As investigações das CPIs no Congresso amedrontaram os investidores. Assim, o desemprego não para de crescer e tornou-se perversamente democrático: afeta jogadores da Capital e Interior, com ou sem currículo.

– Pelo menos, esta situação está me ensinando muita coisa. Em um ano, aprendi mais que em uma vida inteira – suspira Odair Hellmann, o volante que, em um ano, saiu da capitania da seleção de juniores para a angústia de não ter trabalho.

—-
Na parte 4, o lateral descoberto por Luiz Felipe no Grêmio que passou a correr no meio da rua para manter a forma física.
AGUARDEM…

Gol de placa (2)

26 de março de 2010 3

Como prometido, abaixo segue a segunda parte da reportagem “Desemprego Futebol Clube, de Diogo Olivier, integrante do livro “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

Nela, você vai conhecer o técnico Miltinho, 45 anos. Sua agenda soma 70 jogadores profissionais desempregados à espera de uma chance na equipe comandada por ele.

O Felipão dos sem-trabalho

DIOGO OLIVIER – 22/10/2010

Ele precisa escolher 11 entre 70 jogadores, não ganha nada para isso e ainda suporta a pressão dos que ficam de fora. Se Luiz Felipe enfrentasse metade da realidade de Milton Pedroso da Silva, talvez encucasse menos com a celeuma nacional criada em torno da expressão “do tempo em que se amarrava cachorro em linguiça”, cunhada numa entrevista sobre o futebol do passado. Aos 45 anos, Miltinho – é esse o seu apelido – lidera uma iniciativa pioneira no Brasil.

É treinador de um time formado só por jogadores desempregados. A história da seleção dos sem-clube dá a dimensão exata do tamanho do problema. Formado apenas por alguns gaúchos no início, em março, hoje há jogadores de todos os Estados pedindo uma chance a Miltinho, ex-jogador que pintou com luzes cintilantes nos juvenis do Inter campeão gaúcho em 1975 (no detalhe), mas seguiu carreira no Interior.

Para um grupo sem preparação adequada, os resultados surpreendem. O time do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul (Siapergs) venceu o misto do Inter por 2 a 0 e empatou com os do Grêmio em 0 a 0. Com substancial dose de incentivo de Luiz Carlos Winck, técnico do São José, que franqueou o Estádio Passo D’Areia para as reuniões iniciais, o projeto deu os primeiros passos. Em 12 jogos, os desempregados perderam só quatro vezes – justamente as quatro primeiras partidas, quando a experiência era ainda mais improvisada e aparentemente condenada a não sair do papel.

A vitória do dia 10 de setembro sobre o Inter de Martinez, Juca, Jackson, Fábio Pinto, Eros Perez e Leandro Machado motivou um diálogo inusitado entre Miltinho e Carlos Alberto Parreira:

– Parabéns! Onde vocês treinam? – perguntou o cortês Parreira, cumprindo a tradição segundo a qual vencedores e vencidos se cumprimentam ao fim do confronto.

– Não treinamos – respondeu Miltinho.

– Como assim? – insistiu Parreira, espantado.

– Não treinamos. Ligo para o pessoal um dia antes e pronto – repetiu Miltinho, acrescentando detalhes que deixaram Parreira ainda mais estupefato.

Funciona assim.

Na véspera das partidas, geralmente jogos-treino contra equipes profissionais, Miltinho deixa de lado a sua casa lotérica na Avenida Assis Brasil e convoca os jogadores por telefone. Numa agenda vermelha, tem exatos 70 números de goleiros, zagueiros, volantes, meias e laterais. Ao lado de cada nome, rabisca informações adicionais, como ex-clubes e habilidades específicas. Se o jogo é em Porto Alegre, o deslocamento fica por conta do convocado. Se é no Interior, o clube adversário banca hospedagem e transporte.

A palestra ocorre dentro do campo, no aquecimento. Há regras rígidas. Quem for contratado abre vaga para um companheiro desafortunado. Paulo Henrique, ex-Inter e Grêmio, era seu atacante. Um olheiro assistiu ao time do sindicato e o levou para o Olaria-RJ. O ponteiro Almir perdeu lugar na equipe ao acertar-se com o São Caetano.

– Sofro muita pressão. Mas não dá para todo mundo jogar. Fiquei surpreso com a procura. Primeiro, achei que só o pessoal do Interior ia ligar, mas não: o desemprego está afetando jogadores com passagem por times grandes – revela Miltinho.

O próximo passo é fechar convênio com a Academia de Polícia Militar para uso do complexo esportivo da entidade. Se for possível patrocínio – aqui, fala-se de camisetas, chuteiras – tanto melhor.

– Se não, tudo bem. O certo é que vamos continuar – avisa Miltinho, o Felipão dos desempregados.

A lenta agonia do futebol no Interior

Não é difícil compreender as razões que levam Milton Pedroso da Silva ser obrigado a escolher entre 70 desempregados para escalar o time do sindicato. O futebol gaúcho está morrendo. Em 1999, 16 clubes disputaram a terceira divisão – batizada de “Segundona” pelos dirigentes.

Este ano, restaram apenas sete. Os outros fecharam as portas. Em dois anos, portanto, o mercado do futebol gaúcho encolheu 47,3%. Levando-se em conta 11 titulares e cinco reservas por time, são 144 vagas a menos. O público médio da Série B deste ano foi de 1,2 mil pessoas, aí incluída a fase final.

Na “Segundona”, a Federação Gaúcha de Futebol (FGF) sequer teve como aferir o público, virtualmente inexistente. O Riograndense-SM, já sem chances no quadrangular final, cumpriu a última rodada, diante do Juventus, com 15 jogadores. Nem ônibus havia para levar o time até Santa Rosa. A saída foi enfiar todos numa van arrumada às pressas.

Mesmo os times vencedores não têm o que comemorar. O São Gabriel sagrou-se vice campeão da Série B e retornou ao pelotão de elite após duas décadas. Houve até desfile em carro de bombeiro na cidade. Encerrada a Série B, só parte do time arrumou emprego na terceira divisão, cujo torneio ainda estava em andamento.

– Já recebi quatro telefonemas de jogadores nossos pedindo ajuda. Faço o que posso, dou um dinheirinho. É brabo deixar o pessoal sem pagar luz e aluguel – lamenta o presidente do São Gabriel, Roque Oscar Hermes.


Na parte 3, o calvário do volante de 24 anos que passou de capitão da seleção brasileira sub-20 ao desemprego.

AGUARDEM!

Gol de placa (1)

25 de março de 2010 5

Foi lançado agora, este mês, um livro com 11 das melhores reportagens escritas no Brasil sobre esporte. Alguns amigos meus estão entre os autores: o Sérgio Rangel, o André Rizek e o Diogo Olivier, que trabalha aqui ao meu lado, na Redação da Zero. Vou reproduzir a reportagem do Diogo, para que vocês possam apreciá-la. Ah, o título do livro é, muito apropriadamente, “11 Gols de Placa”, editora Record (reprodução ao lado).

A reportagem “Desemprego Futebol Clube” foi publicada em cinco partes na Zero Hora, em 2001. Aí vai a primeira delas:

O drama social do mundo da bola


DIOGO OLIVIER

Torcedores de todos os matizes aprenderam a ouvir que certas mazelas sociais brasileiras não se aplicam ao mundo mágico da bola. É um erro. O desemprego no futebol é ainda maior do que em outras profissões. Só este ano, nove clubes do Interior fecharam as portas. Assim como há metalúrgicos, bancários, metroviários e professores desesperados atrás de ocupação, jogadores sem clube compõem um batalhão crescente.

Como qualquer brasileiro sem emprego, moram de favor, pagam contas graças à boa vontade dos amigos, recorrem a bicos para sobreviver. Sem glamour, sem lindas mulheres, sem autógrafos, sem fotos no jornal, sem as luzes da TV. Desvendar os meandros deste drama social desconhecido é o objetivo da série de reportagens Desemprego Futebol Clube, que começa hoje e vai até quinta-feira em Zero Hora.


Dados oficiais da CBF enviados ao Tribunal Superior do Trabalho (TST) revelam a existência de 22 mil jogadores contratados por cerca de 800 clubes no Brasil. Destes, apenas 12 mil têm camisetas para vestir e partidas a disputar. Os outros 10 mil padecem do mesmo mal que assola 1 milhão de brasileiros só nos grandes centros urbanos – 245 mil na Grande Porto Alegre – e desafia políticos de todas as ideologias na entrada do milênio: o desemprego.

Os indicativos apontam para o agravamento de um quadro já suficientemente preocupante. Segundo Zero Hora apurou nesta reportagem, a parte pobre e majoritária do futebol percebe a Lei Pelé como um debate longínquo, de magistrados, cujo eco nunca chegará ao seu cotidiano.

Algo assim como uma conversa entre milionários e ricos: para os pobres, não afeta nem mais, nem menos. Para estes, não há “antes” ou “depois” da Lei Pelé. O desemprego não passa por ela porque suas raízes são mais profundas. À medida que o tempo passa, o espaço já espremido encolhe. Um rápido exame nos números da CBF abre uma luz sobre os afluentes deste imenso rio caudaloso. Dos 800 clubes brasileiros, apenas 50 têm atividades o ano inteiro. O resto funciona três, quatro, no máximo seis meses.

Vivem enquanto durar o campeonato em seus Estados. Depois, despejam times inteiros na rua e só reabrem no ano seguinte. Apenas 1,5 mil jogadores exercem a sua profissão o ano inteiro.

Dos 22 mil registrados na CBF, só 1,5 mil trabalham o ano todo

De outra parte, o sonho de virar astro e ganhar fortunas na Europa segue embalando o sono de garotos pelo país afora. Em 1999 e no ano passado, 12.678 buscaram inscrição na CBF, sem dar importância ou, talvez, sem saber das notícias cada vez mais freqüentes de clubes em vias de fechar as portas. Este é o mundo real do futebol, à margem das discussões acadêmicas.

Na hora de deixar um clube, não há pagamento de salários atrasados, fundo de garantia, direito de arena. Luvas e bicho por vitória fazem tão parte do cotidiano como arroz, bife e feijão na mesa dos refugiados afegãos. Dos 22 mil jogadores existentes, 20 mil ganham até R$ 360 reais (dois salários mínimos). Isso, claro, no papel. Pagamento é sempre uma surpresa. Só 750 andam de carro importado e ganham dezenas de milhares de reais. Na prática, a teoria é outra.

Assim, o desemprego vai empilhando histórias comoventes, tristes, humilhantes. Ex-promessas com passagem pela Seleção Brasileira hoje correm sozinhas na rua para manter a forma. É o caso de Odair, ex-Inter. Por não servirem mais ao atingir a idade de se profissionalizar, ex-campeões recebem, numa prática antiga, passe livre dos mesmos dirigentes que hoje discursam contra a Lei Pelé, sendo obrigados a se oferecer para jogar. É o caso de Funé, ex-Grêmio. Ou de Claudiomiro, com passagem por uma dezena de equipes do interior gaúcho e brasileiro.

Aos poucos, sindicato ganha força e enfrenta dirigentes

Não bastassem o calendário mal feito e a barbárie gerencial a alimentar o desemprego, há ainda as artimanhas dos cartolas de grandes clubes que integram a bancada da bola no Congresso Nacional. Muitos jogadores, alguns conhecidos até, são afastados do time mas proibidos de procurar emprego. Em linguagem popular, ficam de castigo, à mercê do humor de alguns dirigentes feudais. É o pouco conhecido “passe preso”.

Aí, uma novidade. Duas, aliás: o Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio Grande do Sul e a Federação Nacional dos Atletas Profissionais, ambas presididas pelo gaúcho Ivo Amaral e sob a batuta jurídica do advogado Décio Neuhaus. O conceito de sindicalismo no futebol ainda está longe de alcançar o nível de unidade dos argentinos, capazes de parar o campeonato em defesa do interesse de seus afiliados.

Entretanto, no contexto de alienação histórica do jogador brasileiro, o avanço é consistente. O Rio Grande do Sul é o único Estado da Federação com piso definido em convenção coletiva, no valor de R$ 246,79. O número de jogadores que admite entrar na Justiça para defender os seus direitos aumentou. Hoje, existem 200 ações ajuizadas na Justiça Trabalhista. São as muitas facetas do Desemprego Futebol Clube, a fratura exposta e, ao mesmo tempo, escondida do país tetracampeão mundial.

Claudiomiro, o capitão e operário

Claudiomiro de Lima Kershner tinha um futuro promissor. Surgiu no Guarani, de Cruz Alta, quinto lugar no Gauchão de 1994. Num piscar de olhos, estava no Grêmio. Foi colega de Danrlei, Arílson e Emerson no time finalista de torneios importantes como a Taça Belo Horizonte de juniores. O técnico Luiz Felipe recomendou que o jogador não fosse negociado, talvez surgisse uma chance logo ali.

Mas quando se viu sem aproveitamento imediato, deu ouvidos aos amigos errados e preferiu o passe livre. Paga pelo erro até hoje. Tem conseguido trabalho, mas paga-se tão raramente e mal que fica difícil festejar cada nova vitória sobre o desemprego. Apucarana, Londrina (Paraná), Inter e Riograndense (Santa Maria),

Riograndense e Guarani (Cruz Alta), Avenida, Gaúcho, Pradense, São Paulo-RG, CRB (Alagoas): com exceção dos seis meses no Nordeste, para onde foi levado pelo ex-jogador Tonho, hoje treinador das divisões de base do Grêmio, em nenhum destes times Claudiomiro alcançou R$ 1 mil mensais. Os salários vão do mínimo a R$ 500, quando muito. Não há sequer como guardar economias.

Claudiomiro é o legítimo exemplo do capitão dentro e fora do campo, em versão desprovida de glamour. Em 1999, protagonizou uma das mais comoventes histórias de luta contra o desemprego do futebol gaúcho. O Riograndense, de Cruz Alta, planejava retornar aos gramados após dois anos de inatividade. Tinha três probleminhas: não havia time, estádio ou dinheiro.

O advogado José Portinho e o ferroviário aposentado Catarino Ajalla (morto em maio de complicações no coração) resolveram reviver o Riograndense. Nos bares, nas esquinas, nos campos de várzea de Cruz Alta, a notícia se espalhou. Quem não dava dinheiro ajudava com lâmpadas, argamassa, cimento. Claudiomiro festejou a possibilidade de arrumar vaga no mercado sem sair da cidade onde tenta terminar de pagar uma minúscula casa no valor de R$ 5 mil, na periferia de Cruz Alta. Só que o estádio Siqueira Borges parecia aquelas cidades fantasmas dos filmes de faroeste. Então, comandados por Claudiomiro – capitão do time – os próprios jogadores tornaram-se operários. Pegavam no batente às 8h e paravam só para o carreteiro do almoço. Treinavam à tarde e iam embora à noite, em  ônibus de linha.

Em 100 dias, cumpriram as exigências da Federação Gaúcha de Futebol: ergueram um alambrado novinho, reconstruíram as casamatas, substituíram as instalações  hidráulicas e pintaram o pavilhão social. O time alcançou o octogonal final e terminou em sétimo lugar.

- Valeu a pena. Arrumamos trabalho para um grupo inteiro naquele semestre – sorri o volante, sentando no sofá de casa, observado pela sogra.

Dois anos depois, o estádio está abandonado. A crise obrigou o clube a fechar as portas. Mas a luta dos jogadores-operários de Cruz Alta contra o desemprego nunca mais será esquecida.

Procura-se time. Mas por telefone

Sentado nas paupérrimas arquibancadas de madeira rachada do estádio do Riograndense, de Santa Maria, Claudiomiro é o retrato emblemático do desemprego no futebol gaúcho. Eliminado da terceira divisão, o seu ex-clube só voltará às atividades no segundo semestre do ano que vem. Só restou ao volante de 26 anos implorar para receber algum dinheiro do salário atrasado de R$ 400, acomodar umas poucas peças de roupa na mochila e voltar para a periferia de Cruz Alta, onde mora com a mulher e a sogra. Está começando o momento mais deprimente na vida de um desemprego da bola: o de se oferecer para jogar.

A sina dos sem-trabalho no futebol tem muitas facetas. Pode-se dizer que é preciso talento de Garrincha para driblá-la e seguir em frente. O misto de humilhação e constrangimento experimentado na hora de telefonar para dirigentes implorando emprego é um soco na boca do estômago de um sonho.

No imaginário da gurizada nos campinhos de várzea, seu destino será entregar o futuro na mão de empresários engravatados, guiando Cherokee, com celular desligado e ar enfarado para não ouvir mais uma proposta milionária pelo seu pupilo. Mas o sonho vira realidade só para 1%. Não há espaço para todos neste universo. Para cada Ronaldinho, há centenas de Claudiomiros.

– Cara, nem me fala dessa hora. É brabo. A gente ouve cada coisa. Os dirigentes sabem que a gente tá na pior e muitos jogam com isso. Pô, é só não, não e não. Bate um desânimo – desabafa Claudiomiro.

As desculpas variam pouco. A mais comum é “ainda não contratamos treinador”. Sem as indicações do técnico não há mesmo como buscar jogadores. O problema é que, quase sempre, é mero despiste. Outra enrolação é a universal “deixa o telefone que quando a gente começar a formar o time eu te ligo”. Mas Claudiomiro não desiste. Telefona até para clubes nos quais não tem contato assinalado na agenda surrada:

– Me apresento, digo os clubes por onde passei, dou a idade. Vou à luta. É chato, mas é o jeito.

Assim, vão surgindo as dificuldades próprias de qualquer desempregado, mas inverossímeis aos olhos dos torcedores acostumados a ver na TV seus ídolos entrando em carrões e cercados de loiras esculturais. A conta telefônica de Claudiomiro em períodos sem trabalho salta de R$ 30 para cerca de R$ 100. Para quem está terminando de pagar uma casa humilde no valor de R$ 5 mil em 24 prestações, é caro. Até os R$ 10 da passagem de ônibus de Santa Maria até Cruz Alta pesam no orçamento:

– Teve uma vez que quase cortaram o meu telefone. Já recebi até rifa de carro como pagamento na hora de acertar as contas ao terminar um campeonato. Em vez de dinheiro na mão, tive de sair vendendo rifas.

Para não perder a forma, só resta correr num
gramado esburacado e duro, ótimo para lesões

Como sobreviver até março, quando recomeçam as competições da Série B, do Gauchão e da Segundona? E no caso de não conseguir clube até lá, como pagar as contas? A alternativa seria retomar o ofício de chapeador, atendendo os apelos da mulher, cansada de ver o marido tanto tempo longe de casa com tão pouco resultado financeiro. O sonho de ser descoberto por um olheiro o faz continuar.

Claudiomiro acorda todos os dias por volta de 8h para correr sozinho em um campo de várzea perto do bairro Nossa Senhora de Fátima, periferia de Cruz Alta. Companhia, só a dos cavalos que pastam atrás das goleiras. Recheado de buracos e desníveis, o local de grama rala, cercado por eucaliptos, é o mais inadequado possível. O solo duro multiplica o impacto nas articulações e amplia as chances de tendinites, por exemplo. Claudiomiro sabe disso.

– É o melhor lugar que há por aqui. O outro é um areião puro em frente de casa – suspira.


Na segunda parte, o técnico da seleção dos desempregados.
AGUARDEM!

Os medrosos

08 de junho de 2015 20

O medo não é o oposto da coragem. O medo não é ruim; é bom, porque serve de sinal de alerta. É um aviso do seu cérebro e de todo o seu conjunto de percepções de que há uma ameaça ali adiante. Kant, quando criticou a razão pura, falava exatamente sobre esse conjunto de percepções, algo que vem antes da experiência, algo de bicho, que às vezes você chama de reflexo, às vezes de intuição.

É importante prestar atenção no medo, portanto, refletir sobre ele antes de tomar uma decisão. Se estou sentindo medo, talvez tenha de ter cautela. A cautela é boa amiga da inteligência.

Mas o medo em demasia paralisa e, aí sim, se transforma em covardia. Você sente tanto medo, que não consegue fazer o que faria com facilidade se não sentisse. Medo demais tira a naturalidade.

Gosto muito da história da guerra dos germanos contra os romanos, na Antiguidade. Os romanos descreviam os germanos como gigantes loiros, de longas barbas e longos cabelos, selvagens e indômitos. Numa das primeiras incursões dos legionários pela Gália, eles marchavam com certa apreensão pelas florestas sombrias da Alemanha quando um enorme bando de (literalmente) bárbaros assomou de entre as árvores, urrando como animais, correndo com os olhos azuis esbugalhados e os dentes à mostra, feito feras, as armas brandindo acima das cabeças amarelas. Os legionários, ante aquela visão aterradora, ficaram de fato aterrorizados e fizeram o que eu faria no lugar deles: correram.

Os decuriões e centuriões tiveram muito trabalho para formar pelotões com soldados mais experientes e disciplinados que, enfim, empregaram a perícia das legiões para derrotar os germanos, mostrando aos outros que não era preciso sentir tanto medo assim.

Em outra batalha, ocorreu o seguinte: os romanos trouxeram leões da África a fim de açulá-los contra os germanos. O encontro entre os inimigos se deu à beira de um rio. No momento em que os bárbaros se preparavam para investir, os romanos abriram as jaulas e soltaram os leões. Os germanos, vendo aqueles animais que eles não conheciam, pensaram que se tratava de grandes cachorros amarelos e mataram todos.

No primeiro caso, os romanos perderam a batalha porque deram importância excessiva ao medo que sentiram. No segundo, os germanos venceram porque não sentiram medo algum.

O futebol é o maior esporte do mundo porque consegue demonstrar, em um único jogo, esses vitais sentimentos humanos que se tornam expostos na guerra. No futebol e na guerra, a cautela é tão fundamental quanto a coragem.

Sábado, vi pela TV um dos mais medrosos times que o Grêmio montou em 112 anos de história. Um time que fica resumido por uma cena do final da partida: o São Paulo tocava a bola na intermediária sem ser acossado, enquanto a torcida gritava olé nas arquibancadas. A bola rolava de pé em pé, como se os jogadores do São Paulo estivessem brincando antes do treino. Só um jogador do Grêmio corria atrás: o uruguaio Braian Rodríguez, um centroavante que não marca gols.

De repente, o uruguaio se irritou, parou de correr e olhou para seus companheiros acuados no campo de defesa. Gritou com eles, gesticulou, censurou-os. Então eles não iam jogar? Iam ficar assistindo?

Foi o que eles fizeram. Ficaram assistindo.

O Grêmio é um time cheio de problemas, e não estou dizendo isso agora, depois da derrota para o São Paulo. Disse depois da vitória sobre o Corinthians. Trata-se de um time mediano, não mais do que isso. Mas nenhum defeito técnico é pior do que sua falta de coragem. Não falta de gana ou de garra; falta de coragem. No futebol, como na vida, é preciso ter bastante coragem para saber vencer, mas muito mais para saber perder.

 

Grêmio se classifica, apesar de Douglas

09 de abril de 2015 43

O Grêmio pagou o preço de ter no time um jogador antigo, meia cadenciador de jogo de estilo que deixou de dar certo em 1970.
Douglas, além de transformar o time em algo… clássico, no pior sentido do termo, teve uma atuação desastrosa. Uma das piores atuações individuais de um meiocampista do Grêmio em 112 anos de história, Amén.
Douglas não apenas errou um pênalti, mas perdeu dois gols na frente do goleiro, e errou passes, e ficou assistindo ao adversário jogar, e ficou trotando na intermediária, uma meleca.
O Grêmio foi salvo por ele, sempre ele, Marcelo Grohe, o melhor goleiro do Brasil.
Uma boa notícia para o Grêmio é que Yuri Mamute é o melhor atacante do grupo e tem que ser titular.
Uma má notícia para o Grêmio é que Yuri Mamute não é centroavante. Ele foge da área.
Mais uma má notícia para o Grêmio é que Yuri Mamute não tem estofo suficiente para se transformar no grande atacante de que o Grêmio precisa. No fim do jogo, sozinho na área, ele parou, olhou para trás e esperou a chegada do zagueiro a fim de ser abalroado e sofrer o pênalti. Faltou-lhe coragem. É um jovem, claro, mas essa é uma qualidade difícil de ser adquirida com a experiência. O Grêmio continua sem centroavante.

12 minutos

11 de novembro de 2014 45

Há 7 bilhões de seres humanos respirando debaixo do sol. Outros tantos jazem sob a terra e multidões incontáveis já não são nem pó, são só lembrança, e muitos, muitos mais nem lembrança são, nada restou de sua passagem pelo planeta, a não ser, talvez, uma difusa e anônima herança genética.

É assim que é. Pessoas que amaram e foram amadas, que odiaram e foram odiadas, pessoas que sofreram, riram, choraram, viram coisas belas e feias, pessoas que se achavam importantes, que tinham certeza de que o mundo existia por elas e para elas, pessoas que fizeram a alegria ou a tristeza de outras pessoas, essas pessoas simplesmente desapareceram. Não há mais nada delas no mundo, nem jamais haverá. É como se elas não tivessem existido.

E não é diferente para a grande maioria dos seres humanos. O destino de quase todos nós é a escuridão e o esquecimento.

Mas não o de Alán Ruiz.

Por causa de 12 minutos, Alán Ruiz inscreveu seu nome na eternidade. Daqui a 50, a cem anos, a posteridade saberá que, numa tarde de domingo do começo do século 21, Alán Ruiz entrou no campo da Arena do Grêmio durante um Gre-Nal e, sob a vista de 47 mil torcedores, driblou, sofreu falta, marcou um gol de cabeça, sofreu mais faltas, brigou, discutiu, sofreu novas faltas, driblou de novo, chutou, marcou mais um gol, este com o pé, e comemorou na frente do banco do Inter, e causou grande confusão, e levou um cartão amarelo, e fez D’Alessandro perder a cabeça, e riu, e abraçou-se a Luiz Felipe e aos companheiros de time, e foi substituído, por fim.

Tudo isso aconteceu em 12 minutos.

Em 12 minutos você não vai do Centro ao Sarandi, em 12 minutos você não vê todo um capítulo de uma série de TV americana, em 12 minutos você não pinta um quadro, não escreve um livro, nem aprende uma língua nova. Uma árvore leva mais de 12 minutos para crescer e um homem precisa de muito mais do que 12 minutos para amadurecer.

E Alán Ruiz só precisou de 12 minutos para inscrever seu nome na História.
Para sempre, Alán Ruiz. Para sempre.

-x-x-x-x-x-x-

A BELEZA DO DRAMA

Nenhuma seleção feita no Brasil bateria a da Alemanha nas circunstâncias em que foi disputada aquela semifinal da Copa do Mundo. Porque o futebol brasileiro está em fase decadente e por causa de todo o clima emocional que o país viveu durante a competição.

Mas o resultado normal não seria 7 a 1, como foi. O normal seria qualquer placar modesto, com um ou dois gols de diferença. O 7 a 1 foi épico e trágico. E, de certa forma, lindo, porque os grandes dramas também fazem parte da beleza do futebol.

Belas histórias precisam de dramas, ou não têm a carga emocional suficiente para se transformarem em belas histórias. E os grandes personagens, os grandes heróis, têm, necessariamente, de passar por esses dramas. E superá-los.

Luiz Felipe é um desses personagens heroicos. Se Luiz Felipe não tivesse participado do drama dos 7 a 1, não teria voltado ao Grêmio. Se não tivesse voltado ao Grêmio, não teria participado da histórica goleada no Gre-Nal do último domingo. Essa é a beleza da história. Essa é a beleza do futebol. A grande tragédia, às vezes, está às vésperas da glória imortal.

FOTOS: O Gre-Nal 403 que você não viu

Quem chega melhor ao Gre-Nal

08 de agosto de 2014 13

É óbvio que o Inter é favorito para vencer o Gre-Nal. Por muitas razões tangíveis e outras nem tanto. Historicamente, o Inter tem dado mais importância ao clássico. Começa por aí. Esse Inter, moldado pelas mãos de Fernando Carvalho 10 anos atrás, cresceu ao impor-se sobre o Grêmio. Foi assim que Fernando Carvalho cimentou o seu trabalho de engrandecimento do clube. Duvida? Pergunte a ele.

Uma das muitas providências tomadas por Fernando Carvalho foi viajar até Buenos Aires quando da contratação de D’Alessandro, sentar-se com ele e repetir:

— O importante, lá, é ganhar do Grêmio, ganhar do Grêmio, ganhar do Grêmio.

D’Alessandro entendeu. Tanto que o Gre-Nal tornou-se o jogo da sua vida. Ele pode até falhar em outras decisões, como falhou contra o Mazembe. No Gre-Nal, dificilmente falha.

Além de D’Alessandro e de uma filosofia de compreensão do jogo, o Inter tem Aránguiz, o melhor jogador em atividade no Rio Grande do Sul. E tem um centroavante com confiança, que já marcou gol decisivo em Gre-Nal. E um técnico que conhece bem o clube e o time. E melhor campanha no campeonato. E vai jogar em casa.

São muitas vantagens. Quase insuperáveis.

Do outro lado há um Grêmio lanhado e traumatizado, com jogadores que ainda sentem as dores da surra de 1 a 4 do último Gre-Nal e com um técnico que ainda suspira pelos 1 a 7 que levou da Alemanha, com um time que vem de derrota na Bahia, que se refocila na 11ª colocação do Brasileiro, que não tem forma de jogar definida e com um centroavante inseguro pela quantidade oceânica de gols perdidos.

Antes do jogo, a vitória é do Inter.

Antes do jogo.

Um tempo sem kiwi e sem heróis

06 de abril de 2014 12

codigodavid

david0604_01Sou de um tempo sem kiwi. Não havia kiwi, não havia sushi, o pão era semolina de meio quilo, tudo era mais difícil naquela época. Também não havia internet, logo não havia e-mail ou Facebook, não havia nem celular e nós nem sequer tínhamos telefone fixo em casa. Como nos comunicávamos? Não sei. Como arranjávamos amigos e namoradas? Não faço a mais tísica ideia.

Que mundo estranho era aquele sem kiwi.

Naquele tempo tão longe, de mim distante, os guris não sonhavam em ganhar iPad de Natal. Não, não, nossos anseios, basicamente, se resumiam a três presentes:

1 Uma bola de couro número 5, coisa cara.

2 Uma bicicleta, coisa caríssima.

3 Um autorama, coisa para nababo.

david0604_03Uma vez ganhei uma bola de couro número 5, costurada a mão por algum presidiário, gomos pretos e brancos, uma lindeza, o único tipo de bola que deveria ser utilizado em quaisquer campeonatos do mundo para todo o sempre, amém.

Lembro-me da pena que senti em chutá-la pela primeira vez, mas, bem, eu tinha de chutá-la, para isso ela existia, e a chutei com gosto, todos nós da turma a chutamos, jogos épicos foram disputados com aquela relíquia, marquei gols com ela, sim, os marquei, até que ela foi gastando com o tempo e com o uso, e logo a tinta branca e preta desbotou, e em seu lugar restou o cinza sujo do couro, e um dia a costura de um gomo se abriu como uma fenda na carne, e olhei para a minha linda bola de couro número 5 com alguma tristeza, sabia que ela estava chegando ao fim, mas sabia, também, que tudo na vida nasce, alcança o auge, passa pela decadência e morre, e via que a morte da minha bola se iniciava, e logo os gomos foram se soltando, um a um, um por jogo, e em pouco tempo ela parecia uma velha casa com a tinta descascada e as janelas arrombadas, uma casa abandonada e melancólica, e logo ela nem rolava mais direito, e um dia foi substituída por uma bola novinha que algum outro guri ganhou de aniversário, e foi posta de lado, e murchou, esquecida, como murcham até os grandes sentimentos, e morreu como morrem até os amores imortais.

Foi triste perder aquela bola. Mas valeu a pena, porque você só perde o que você um dia teve, e eu a tive.

david0604_02Autorama, não. Autorama nunca tive. Autorama era areia demais para o caminhãozinho financeiro da família. Mas bicicleta um dia ganhei. Recordo minúcias daquele feliz Natal. Foi um esforço conjunto de mãe, vô, madrinha e vó. Um mutirão. E lá estava ela, uma Caloi azul escura, de trava torpedo, aro grosso, pneus pretos da espessura do meu braço. Que emoção.

Era uma bicicleta sem marchas. Ninguém ganhava bicicleta com marcha num tempo sem kiwi. Depois é que surgiu a Caloi 10. Dez marchas, um luxo. Diziam que com uma bicicleta de 10 marchas você podia subir a lomba da Lucas assobiando, mas acho que era lenda.

De qualquer forma, percorri toda a cidade com minha Caloizinha. Saíamos em cardumes, pedalando pelos bordos das avenidas. Fomos até a longínqua Zona Sul, região por nós desconhecida, hábitat de gente esquisita, que convivia com o rio. Fomos à inóspita Alvorada. Nos aventuramos pela Freeway. Pedalamos, pedalamos, e nem sabíamos que éramos heróis.

Como o tempo é injusto com os homens. Fosse hoje, seríamos incensados na cidade. Seríamos reportagem de jornal. Seríamos personagens de discurso na Câmara. Sim, porque, agora, neste tempo de kiwis, existe a crença de que andar de bicicleta muda o mundo, de que andar de bicicleta é fazer a Revolução.

Quem poderia imaginar? Nenhuma daquelas duplas famosas, Marx & Engels, Lenin & Trotski, Fidel & Che, nenhum deles imaginaria que o capitalismo seria abalado a pedaladas.

Mais amor, menos motor.

david0604_04

Tem um lugar que aplica essa máxima. É a Coreia do Norte. Na Coreia do Norte existem só 25 mil carros para 25 milhões de habitantes. E lá mulher não pode dirigir. Você vê a foto de uma avenida na Coreia do Norte e suspira de felicidade. Todo aquele asfalto vazio, as pessoas se deslocando de bicicleta ou a pé mesmo. Pena que na Coreia do Norte todo mundo tenha que usar o cabelo do rapaz aquele, o ditador, filho de ditador. Se Hitler tivesse obrigado os alemães a usar seu bigodinho, seria derrubado em seis meses e não teria ocorrido a II Guerra Mundial, e o Ocidente seria diferente.

david0604_05Mas enquanto não nos transformamos numa ecologicamente correta Coreia do Norte, fico pensando nas soluções para o trânsito de Porto Alegre. A bicicleta seria parte delas, decerto que sim. O problema é que, mesmo com 10 marchas, bicicleta não sobe a lomba da Lucas. Moto sobe. Então, me quedo a cogitar: ninguém se importa com as motos. Motoqueiros morrem aos quilos todos os meses, e ninguém protesta, ninguém fecha rua, ninguém cerra o punho de indignação por eles. Ninguém clama por “motovias”, tampouco, e ninguém usa nariz de palhaço na Câmara para defender motoqueiro. Ninguém liga se o motoqueiro é humilhado, amassado, atropelado, e por quê? Porque, para eles, motoqueiro é entregador de pizza. É pobre. E é o que digo, sempre digo: brasileiro não gosta de pobre.

david0604_06

Grêmio só não ganhou por causa dos atacantes

22 de setembro de 2013 24

De volta à formação com três zagueiros e três volantes, o Grêmio voltou a jogar bem e só não venceu a partida contra o Vitória devido à incompetência de seus atacantes.
A sequência de jogos no campeonato, desde o Gre-Nal, provou que o tripé Souza-Ramiro-Riveros é o que dá mais estabilidade ao time. São três jogadores de técnica razoável, que se movimentam muito e marcam com competência. Mas o fundamental desta formação é que todos se empenham para tirar a bola do adversário. Todos, inclusive Barcos e Kléber, os atacantes. Essa atuação solidária faz do Grêmio um time difícil de ser batido, já que o adversário está sempre sob pressão.
Mas o Grêmio é, ao mesmo tempo, uma contradição dentro de chuteiras. Renato só conseguiu dar essa consciência ao grupo graças à liderança de Barcos e Kléber. São esses dois que, inclusive com exemplo dentro de campo, fazem todo o time ser abnegado. Mas Barcos e Kléber são atacantes, no máximo, medianos. Kléber é melhor do que Barcos. Porém, Kléber tem um defeito grave para um atacante: marca poucos gols. Barcos combate no meio do campo, luta, se esforça, mas fica quase sempre longe da área e, quando está dentro, comete às vezes erros básicos. Contra o Vitória, Barcos furou em bola na marca do pênalti, um lance grotesco que, se tivesse ocorrido com um jogador da base, o queimaria por longo tempo. Kléber, no fim da partida, recebeu a bola livre na meia-lua. Era só entrar na área e marcar o gol. Mas ele não conseguiu dominá-la, e o domínio de bola é predicado fundamental para qualquer jogador profissional.
Vargas é melhor do que Kléber e Barcos, mas, se Renato tirar um dos dois, comprometerá a equipe no quesito disposição.
Elano e Zé Roberto têm mais técnica do que qualquer um dos 11 titulares, mas, com eles, o time perde em combatividade.
Os irmão Biteco daqui a alguns anos farão sucesso na Europa, mas continuam nas sombras da reserva.
Lucas Coelho e Yuri Mamute, se jogassem no Santos, no mínimo teriam mais oportunidades.
Wendell é técnico, é habilidoso e parece destinado a ser um dos grande laterais do Brasil, mas não sai do banco.
E agora?

Todos os mortos são bons

20 de novembro de 2012 14

Os mortos são bons porque não ocupam mais espaço.

Tudo é espaço, na vida. As pessoas acham que não há espaço para todos. Como se houvesse uma quota. Como se não existisse fama, prestígio e dinheiro em quantidade suficiente. Donde, a inveja. Se aquele cara está com todo aquele naco de prestígio, vai faltar para mim.

Mas a inveja só se dá em âmbito local. Nenhum artista gaúcho sentirá inveja do Paul McCartney, pela razão evidente de que a fama do Paul está além do âmbito da fama do artista gaúcho. Ou seja: o artista gaúcho pode venerar o Paul à vontade, porque o Paul sempre estará acima dele e de todos os outros artistas gaúchos. Mas houve problemas entre Paul e John, e entre os Beatles e os Stones. Por quê? Porque eles, sim, disputavam prestígio.

Pelo mesmo motivo, artistas locais de lugares diferentes são os melhores amigos. No entanto, artistas locais nem sempre amam os artistas locais da sua própria cidade. Óbvio: o espaço que eles ocupam é o mesmo.

Tudo é espaço, na vida.

Grêmio e Inter disputam o mesmo espaço. Por isso se odeiam, se temem e se respeitam. Nenhum gremista sente inveja das conquistas do Real Madrid, que se arroga o maior clube de futebol do mundo. Nenhum colorado se morde com a grandeza do Manchester United, que parece ainda sustentar o poder do velho Império Britânico. Gremistas e colorados são distraídos até com o que acontece com o São Paulo, o Flamengo ou o Cruzeiro. O que interessa, para um colorado, é o Grêmio; o que interessa, para um gremista, é o Inter.

Se os colorados deixassem de existir, as conquistas do Grêmio perderiam sentido, e vice-versa. De quem se sentir superior, de quem gozar, a quem provocar? Essa é a lógica do futebol.

Por isso, o único jogo que realmente importa, para gremistas e colorados, é o Gre-Nal. Por isso, antevejo e garanto: o Gre-Nal do dia 2 será uma guerra. Mesmo que o Grêmio já esteja garantido na Libertadores, mesmo que o Inter não tenha mais ambição no campeonato, será um jogo de luta incomum. Porque, no fim de um ano em que ninguém ganhou nada, num único jogo pode-se ganhar tudo.

Frouxo na hora decisiva

Algum incauto poderá achar que o Grêmio, por estar melhor na tabela, tem vantagem sobre o Inter neste clássico.

Engano.

Sempre digo que, quando um time é muito melhor do que o outro, existe, sim, favoritismo em Gre-Nal, e muitas vezes o favoritismo se cumpre. Só que, no caso dos times deste ano, há algo que os iguala: a falta de estofo do Grêmio em decisões. O Grêmio enfrentou três decisões em fases intermediárias, neste ano. Jogou contra três adversários inferiores a ele próprio: o Caxias, o Palmeiras e o Millonarios. Perdeu para os três. No caso do Millonarios, uma derrota constrangedora, porque perdeu depois de estar vencendo por 2 a 0, faltando apenas 45 minutos para o fim. O que significa isso? Que o time tem pouca fibra. Que sua fraqueza não é das pernas, mas da cabeça. O Gre-Nal do dia 2 será uma decisão. E o Grêmio de 2012 é um fracassado em decisões.

Os pequenos é que são grandes

Eis duas provas provadas de como é muito mais fácil ganhar um campeonato de pontos corridos:

1. O Grêmio, que não tem têmpera para enfrentar decisões, é o vice-campeão.

2. O campeão insofismável, dono da taça um mês antes do fim do campeonato, não venceu o vice, nem o terceiro colocado. Ao contrário, perdeu para ambos, ganhando dois pontos em 12.

A fórmula de pontos corridos é assim enganadora. Você quer vencer nos pontos corridos? Faça guerra contra a Portuguesa, o Figueirense, o Sport. Se tiver de poupar jogadores, poupe contra os grandes; escale-os contra os pequenos. Na fórmula de pontos corridos, todos os jogos são iguais, mesmo que os adversários não sejam.

O verdadeiro campeão

Como é que um verdadeiro campeão joga metade de uma partida em que está na casa do adversário, na altitude de 2.600 metros, cansado, mas com dois gols a seu favor, como foi ocorreu com o Grêmio na Colômbia? Assim: o goleiro cai, simula lesão e leva dois minutos para se levantar. Depois o volante cai, simula lesão e leva um minuto e meio para se levantar. Em seguida, o capitão reclama do juiz. Aí o atacante cai, simula lesão e leva um minuto para se levantar. Então, o zagueiro se queixa para o juiz. Mais um pouco e é o técnico quem chama a atenção do juiz. Se um meia apanha, como alguns do Grêmio apanharam, todos cercam o adversário agressor, gritam, clamam contra a injustiça, urram, fazem o jogo parar três, quatro minutos, esfriam o adversário, irritam a torcida, mostram para o juiz que ele não pode marcar um pênalti aos 47 do segundo tempo sem se incomodar. Um verdadeiro campeão não admite perder, sobretudo quando está ganhando.

* Texto publicado na Zero Hora desta ter;ca-feira, 20/11/2012.

Túnel do Tempo: Depois de tanto tempo

11 de julho de 2012 5

Débora, depois de tanto tempo. Débora causara dor. Um dia ela disse:

– Não estou mais apaixonada por ti.

Direto assim. Suave, porém duro. Foi a pior coisa que ele ouviu em toda a vida. Nunca ouvira nada parecido. O que acontecia era o contrário: ELE se desinteressava pelas mulheres. Ele era o cara, o centroavante, o ídolo da cidade, desejado por todas, matador sobre a grama e sob os lençóis. Não podia uma mulher, depois de ano e pouco de namoro, chegar e decretar:

– Não estou mais apaixonada por ti.

Não podia.Até porque… (era-lhe difícil confessar) até porque ele continuava apaixonado por ela. Sim. Continuava. Ele, Darlan, o artilheiro, o homem que durante tanto tempo não teve mulher, teve mulheres, ele finalmente se apaixonara, decidira namorar, quem sabe até casar. Ele, que lhe cobria de presentes caros e coloridos, joias do Antônio Bernardo, viagens para além de oceanos, ele que lhe pagava jantares de 300 reais, ele que até vinha sendo fiel, ele ouvia:

– Não estou mais apaixonada por ti.

Darlan sofreu. Rastejou como um homem não deve rastejar. Implorou para que ela voltasse como jamais se deve implorar. Chegou a chorar alguns dias, sentindo pena de si mesmo, lágrimas e soluços vindos direto dos aurículos e ventrículos. Ela se mantinha impenetrável como uma defesa montada por Felipão. Ela apenas repetia, baixo e cortante:

– Não estou mais apaixonada por ti.

Darlan entrou em depressão. Parou de fazer gols, perdia pênaltis.Migrou para a mais sombria reserva. Demorou meses para se recuperar. Quando enfim conseguiu botar a cabeça para fora da tristeza, as névoas foram se dissipando, a vida foi se tornando de novo colorida e, um dia, tudo voltou ao normal. Os gols foram retornando aos poucos, a camisa 9 foi-lhe devolvida e as mulheres voltaram a ser belas e desejáveis.Agora, quando a carreira de Darlan alcançava uma maturidade gloriosa, quando ele estava casado com uma boa mulher, com três bons filhos, agora que a vida parecia seguir um curso tranquilo e moderadamente feliz, justo agora luziu na tela de seu computador aquele email:

“Oi. É a Débora. Tudo bem?”

Só isso.

Depois de tanto tempo.

Ele ficou alguns minutos olhando para o email. O que devia responder? Ela só perguntava se estava tudo bem… Darlan aterrissou dedos trêmulos sobre o teclado e escreveu algo. O que foi exatamente nem conseguia se lembrar, mas funcionou. Começaram a conversar por email, a trocar informações. Ela também havia se casado, mas agora estava separada. Um dia, assistiu a uma entrevista dele na TV e sentiu saudades. Ele pensava nela às vezes? Sim, ele pensava. Queria vê-la? Ele respondeu a essa pergunta com o coração dando saltos na garganta. Queria… Marcaram de se encontrar num fim de tarde, na praça de alimentação de um shopping.

No dia aprazado, Darlan chegou 15 minutos antes e ficou sentado no carro parado na vaga do estacionamento subterrâneo do shopping. Permaneceu com as mãos ao volante, tentando pensar. O que estava fazendo ali? O que significava aquele encontro? Débora. Será que ainda a amava? Sim… ele sentia algo poderoso por ela, sabia disso, não ia se enganar. Se era amor, se era paixão, se era ressentimento, isso ele não sabia direito, mas sabia que sentia algo. Sempre pensava nela, volta e meia sonhava com ela, já a havia procurado no Facebook e no Twitter. Sim, ele sentia.

O que aconteceria naquele reencontro? Provavelmente eles começariam um caso. Claro.Afinal,qual era a razão de estarem ali? Eles não eram amigos. Eles não eram nada. Fazia dez anos que nem se falavam.Dez anos… Sairiam da praça de alimentação para um motel,se repoltreariam na cama,ele sussurraria no ouvido dela “Débora…”,e todo aquele sentimento voltaria com força renovada.Era isso que aconteceria,essa era a lógica.

E sua mulher, em casa? Sua doce mulher… Decerto que ela sentiria a mudança nele, as mulheres sempre sentem essas coisas. Seu casamento ficaria estremecido. Será que iriam se separar? E os filhos? Como viver longe dos filhos? Droga, ele gostava da vida que levava, gostava da mulher, da cobertura em que passavam os dias, de seus programas juntos, das viagens nas férias de verão.Teria de mudar tudo isso para ficar com Débora. E Débora? Por que ela surgia agora? Será que ela havia engordado? Tomara que sim. Tomara que estivesse
feia. Seria uma vitória para ele. Seria maravilhoso. Ele sairia do shopping livre daquela assombração, certo de que a vida acertara as coisas para ele, mesmo que ele, na época do rompimento, não soubesse disso. Mas, não. Ela não devia estar feia. Ele achara uma foto dela, uma única foto, no Google Imagens. Estava igualzinha, linda, linda. Débora. Que mulher. De quando seria aquela foto?

Abriu a porta do carro. Saiu. Fechou a porta. Consultou o relógio. Já estava na hora. Caminhou para a escada rolante. Enfrentaria o seu destino. Era o destino, não era? Ou ele tinha opção? O que ele poderia fazer a respeito? Parou. Pensou que nada daquilo tinha lógica. Por que ela voltava agora? Dez anos antes, ela disse que não o amava.

– Não estou mais apaixonada por ti.

Aquela frase miserável que até hoje reboava em seu cérebro. Como é que algum tipo de sentimento poderia ter retornado agora, sem que eles nunca mais tivessem se falado, nem se visto, nada? O que ela queria? De repente, compreendeu o que ela queria. Compreendeu qual era o seu papel ali naquele shopping. Qual era? Descubra lendo a parte final da história, terça que vem.

*Texto publicado na Zero Hora em 19/11/2011

Túnel do Tempo: Cinco mil mulheres

07 de julho de 2012 10

asta alguém mencionar “Renato Portaluppi” e as pessoas já pensam nas mulheres com quem ele se repoltreou. Há quem diga que foram cinco mil. Há quem diga que o próprio Renato confirma esse número. Se for verdade, trata-se de uma façanha só superada por marcar dois gols na decisão do Mundial Interclubes. Imagine que Giácomo Casanova, que não era um casanova, era “O” Casanova, construiu sua fama imortal ao refestelar-se com 123 mulheres.

Está certo, Renato não vivia no século 18, tempo de espartilhos cerrados e virgindades convictas, mas calcule: se você se refocilar com uma mulher diferente a cada dois dias, precisará de 30 anos de atividade ininterrupta para chegar a cinco mil, sem repetir mulher.

Números que tais impressionam. O ex-ministro Paulo Brossard, por exemplo, leu 20 mil livros, ele lê um por dia. Pense: são 365 livros por ano, 3.650 em 10 anos. Em 50 anos, Brossard teria lido 18.250 livros. Ele está com 85 anos. Quer dizer: aí está um número factível. Desde que, é claro, o leitor não pretenda somar cinco mil mulheres aos seus 20 mil livros.

Mas o que dizia a respeito do Renato é que as pessoas sempre pensam na relação, ou relações, que ele teve com as mulheres e se esquecem do seu caráter. Bom caráter. Entendo a reação do vulgo. Eu mesmo vi uma cena que demonstrou como Renato se move com desenvoltura no pantanoso mundo feminino.

Deu-se em 1995. Fui ao Rio para entrevistar o Renato. Ele jogava no Fluminense e me recebeu na bela sede do clube nas Laranjeiras. Pediu que o acompanhasse até o Departamento Médico – precisava tratar do joelho. Estava deitado na maca, uma toalha cobrindo-lhe as ilhargas. O massagista pressionava uma bolsa de água sobre o joelho magoado. Ficamos conversando. De repente, alguém anunciou:

– Renato: visita pra você.

E fez entrar uma atriz de alguma novela. Uma loirinha de minissaia. Mas uma loirinha! Ela ondulou cheia de dentes brancos e pernas douradas em direção ao Renato. Miou:

– Aaai, Renatooo, eu guoshto tanto de vuocê… Queria tanto uma camisa sua…

Ao que, fez sua branca mãozinha alçar voo como uma borboleta de carne tenra, e aqueles dedinhos delgados e serelepes adejaram por alguns centímetros, e depois pousaram na base do joelho saudável de Renato. E sorrindo a loira seguiu reafirmando o quanto admirava Renato e ainda a sorrir fez sua mãozinha de mariposa escalar o outeiro do joelho dele, depois a base da coxa, em seguida a coxa inteira, até o alto, até o extremo norte, e aí transformou-se em uma marmota e enfiou-se sob a toalha, e lá ficou por alguns instantes aflitivos (para mim e para o massagista), enquanto Renato ordenava ao roupeiro:

– Traz uma camisa minha pra ela!

O roupeiro veio de lá meio chateado:

– Não tem a deish, só sete…

– Vai a sete?

Ela ficou com a sete. Saiu do vestiário serpenteando dentro daquela sumária minissaia. Ricardo Rocha, que a tudo assistia, pasmo detrás do frondoso bigode, festejou com os punhos erguidos:

– Mais uma!!!

Donde, compreende-se a reação das pessoas à citação do nome Renato Portaluppi. Mas há quem saiba que Renato é também um homem generoso. Tem 11 irmãos, deu uma casa a cada um e outra à mãe. Quando era apenas um juvenil promissor do Grêmio, passou por momentos de dificuldade. Uma tarde, no Olímpico, contou a um repórter de rádio que não havia almoçado naquele dia. O repórter, compadecido, pagou-lhe um lanche.

Esse repórter era o célebre Pelotinha, que hoje milita em Criciúma. Bem. Passados alguns anos, a situação se inverteu: o Pelotinha estava desempregado, havia se separado da mulher e sofria, enquanto Renato vivia um de seus tantos períodos de glória no Grêmio. Ao saber o que acontecia com o Pelotinha, Renato não vacilou: arrastou-o até o seu apartamento e lá o instalou. Enquanto durou o tempo de indigência, o Pelotinha teve todas as despesas pagas pelo Renato. E participou das melhores festas da sua vida. Alguns, como o Pelotinha, sabem que o Renato é mais do que cinco mil mulheres e dois gols no Mundial.