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Sala de Redação

21 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de redação desta terça-feira.

O repórter

21 de maio de 2013 1

Todas as pessoas que conheço entendem de futebol, com a provável exceção da Cláudia Laitano.

Os milhares de táxis que já tomei na vida eram dirigidos por motoristas que entendiam de futebol. Os garçons que colocaram chopes gelados diante de mim nessas tantas noites da vida, todos eles entendiam de futebol. Meus colegas jornalistas, os políticos que entrevistei, meus amigos advogados, juízes, policiais, médicos, arquitetos, engenheiros, empregados domésticos, vigias noturnos, porteiros de edifício, faxineiras, estudantes e desempregados, todos com os quais já falei algum dia entendem de futebol.

E é verdade. Toda essa gente entende de futebol. Pelo menos em alguma medida. É fácil entender de futebol, até porque as pessoas estão sempre lendo sobre futebol e assistindo a programas de rádio e TV sobre futebol e discutindo sobre futebol como se fosse a coisa mais importante das suas vidas.

O problema é que o futebol é como o jornalismo. Há muita gente que lê jornal todos os dias, vê TV e ouve rádio todos os dias, acessa sites e blogs todos os dias e, por isso, acha que entende de jornalismo. Não entende. Sabe o que é bom e o que é ruim no jornalismo, mas não entende de jornalismo. Para entender de jornalismo você tem que ter alguma intimidade com as entranhas de uma redação, de preferência uma redação de jornal.

Isso não quer dizer que todas as pessoas que têm intimidade com uma redação de jornal entendem de jornalismo. Não. Há muitos jornalistas que não entendem de jornalismo.

O jornalismo, como o futebol, é um mundo. Mas há um tipo de jornalista que, pelas características da sua atividade, é quem de fato conhece a alma da profissão.

É o repórter.

Nem todo repórter entende de jornalismo, mas só o repórter, só aquele que saiu à rua com um bloquinho e uma caneta na mão, esperou quatro horas para colher uma única frase do vereador, entrou na vila que nem a polícia entra, fez perfil de miss e plantão de polícia, terminou o texto sobre o jogo cinco minutos antes do jogo terminar, entrevistou o gari e o governador, perguntou tudo sobre as variações do câmbio e os poderes da superbactéria, cobriu exposição de flores e assembleia de grevistas, só quem passou por isso e escreveu sobre isso esteve, realmente, nas entranhas do jornalismo.

Da mesma forma, só aquele que ganhou a camisa titular no recôndito do vestiário cinco minutos antes da partida e ouviu o som metálico das travas da chuteira batendo no piso do túnel e sentiu o bramido da torcida como se fosse um gladiador ouvindo o urro dos romanos sedentos de sangue e viu seu nome ser exaltado ou repudiado nos jornais, só quem passou por isso conhece a alma do futebol profissional.

O jogador profissional e o repórter, esses estão dentro da medula das suas atividades. Os outros todos, por mais que saibam, sempre terão dificuldade de sentir o que o repórter e o jogador um dia sentiram. O que significa que, pensando bem, a maioria das pessoas pensa que entende, mas não entende o futebol. Vivem todos na ilusão do conhecimento. Com exceção da Cláudia Laitano.

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 21/05/13.

A direção do Grêmio fez o certo

20 de maio de 2013 59

A direção do Grêmio fez o certo. A aposta em Luxemburgo é a aposta num técnico de ponta. Luxemburgo fracassou, é verdade, mas ele conhece o grupo e, se ainda tem orgulho profissional,  deverá trabalhar com mais concentração do que nunca para dar a volta por cima. O Grêmio, hoje, não manteve seu treinador: recontratou-o.

A direção do Grêmio fez o certo. A aposta em Luxemburgo é a aposta num técnico de ponta. Luxemburgo fracassou, é verdade, mas ele conhece o grupo e, se ainda tem orgulho profissional,  deverá trabalhar com mais concentração do que nunca para dar a volta por cima. O Grêmio, hoje, não manteve seu treinador: recontratou-o.

Sala de Redação

20 de maio de 2013 0

Ouça o Sala de Redação desta segunda-feira.

Túnel do Tempo: Como ser feliz

20 de maio de 2013 1

A felicidade não é o sucesso.
Nem a realização.
Não é o reconhecimento.
Nem mesmo o amor romântico, tão consagrado pela música popular e pelo cinema.
A felicidade é a ausência de sofrimento.
Mas, se a vida é uma sequência de perdas e sofrimentos, às vezes físicos, às vezes morais, como alcançar a felicidade? Pela resistência.
Pela capacidade de suportar o sofrimento.
Você sofre, porque todos sofrem, espera, tem paciência, espera, espera, paciência...
e o sofrimento passa.
Então, você se sente feliz.
Sempre achei que os boxeadores são especialmente dotados dessa capacidade.
Porque, no boxe, mais do que bater, o lutador deve saber apanhar.
Muhammad Ali detinha esse poder como nenhum outro, e era assim que vencia seus combates.
Chegou a suportar 12 rounds com o maxilar quebrado, nos anos 70.
Não por acaso, muitos o consideram o maior pugilista de todos os tempos.
Mas a história pessoal de muitos boxeadores mostra o contrário.
Mike Tyson, Jake LaMotta, Carlos Monzon e vários outros foram bem- sucedidos no ringue e nem tanto na vida – os três passaram algum tempo na cadeia.
O que mostra que a dor física não é o principal tipo de sofrimento.
O sofrimento espiritual de Tyson, LaMotta e Monzon era maior do que os castigos que os adversários seriam capazes de lhes infligir entre as cordas.
Isso me faz admirar ainda mais os grandes jogadores de futebol do Brasil.
A pressão a que eles são submetidos não é pequena.
Cada gesto deles, cada palavra, cada movimento é avaliado e julgado todos os dias.
Ninguém, no Brasil, é tão criticado, alvejado e, não raro, espezinhado como eles.
E eles resistem.
Não todos, é claro.
Refiro- me aos grandes.
Que capacidade eles têm de absorver os golpes e seguir em frente! Como um Muhammad Ali resistindo 12 assaltos com o queixo quebrado.
Só que eles são maiores, porque a dor psicológica é maior.
Os grandes jogadores de futebol do Brasil.
Parecem homens pueris, mas eles têm algo a nos ensinar.

*Texto publicado na Zero Hora de 21/08/2012

A má notícia

19 de maio de 2013 27

Quando descobri que estava com câncer, desmaiei. Que decepção comigo mesmo, eu que me achava tão forte. Hoje as coisas estão diferentes, e logo você vai entender por quê.

Naquele dia, 8 de março, uma sexta-feira azul e amarela de fim de verão, minha preocupação era uma misteriosa dor no peito que vinha sentindo havia algumas semanas. Os médicos fizeram todo tipo de investigação e não descobriam do que se tratava. Estava tudo bem com o coração, tudo bem com os pulmões, mas a dor aumentava a cada dia, até se tornar quase insuportável.

Então, um dos médicos da Santa Casa resolveu pedir uma tomografia. Você já fez tomografia? Eu nunca havia feito, e por isso me sentia meio apreensivo. Mas é uma barbada. Você não precisa fazer nada, só ficar bem quietinho. Sou muito bom em não fazer nada. Logo, minha tomografia foi um sucesso, em termos de eficiência. Os médicos de imediato viram o que tinham de ver. E ficaram desconfiados. Pediram que eu fizesse um contraste e que repetisse a tomografia.

O contraste é um líquido que eles injetam na sua veia. De ruim, tem a picada da injeção, mas também não é caso para drama. Bem, lá fui eu para nova tomografia. Ao cabo da qual, o médico se aproximou e perguntou:

– Você dá autorização para novo contraste e uma tomografia no abdômen?

Nesse momento, estremeci. Tomografia no abdômen? Por que, se a dor que sentia se localizava no peito? Algo devia estar errado.

Algo estava errado.

Quando saí debaixo do aparelho, perguntei ao médico:

– Por que a tomografia no abdômen?

Ele respondeu:

– Vou mostrar.

Levou-me para outra sala, onde havia alguns computadores. Apontou para uma tela e indicou:

– Esses são os seus rins.

Então, vi.

Vi.

Um rim tinha o dobro do tamanho do outro, e o rim grande tinha uma área escura no centro, uma mancha que lhe tomava quase todo o território. Arregalei os olhos e constatei, em voz baixa:

– É câncer...

Os médicos e técnicos em volta tentaram ser otimistas.

– É preciso fazer mais testes – disse um deles.

Mas eu sabia que era câncer. Não precisava ser médico para perceber o óbvio.

Fui levado até uma cadeirinha para me recompor da fraqueza dos contrastes e do jejum. Sentei-me, ainda com o tubo do contraste na veia da mão direita. Aí a certeza do que se passava comigo me assaltou. E comecei a me sentir mal. Não por medo da morte. Não tenho medo de morrer. Sério. Tenho medo da forma de morrer. Porque todos vamos morrer, até prova em contrário. E existem basicamente duas maneiras de, digamos, passamento: doença ou acidente. Por acidente refiro-me à morte matada: facada de marido traído, tiro na III Guerra Mundial, atropelamento por Rolls Royce, o cofre que cai do oitavo andar, um raio enviado pelo Todo-Poderoso. Quanto à doença, ela pode ser de dois tipos: a de desfecho rápido, como um infarto condescendente, ou o que a minha avó chamava de “doença ruim”, aquela que consome a vítimas aos poucos, fazendo-a esvair-se em dores. É dessa que tenho medo. Foi do que tive medo no fim da manhã de 8 de março de 2013. Em um segundo, me vi retalhado numa cama de hospital, justo eu que nunca fora internado, que nunca ficara doente, que nunca quebrara um osso, que nem gripe pegava. E a minha pressão foi baixando e baixando e desfaleci. Acordei cercado de enfermeiras, já tomando soro, deitado numa maca, confuso e envergonhado.

Hoje seria diferente.

Na próxima crônica conto por quê.

* Texto publicado no Caderno Vida de 18/05/2013.

Código David: 80 anos de virgindade

19 de maio de 2013 4

Dois meses antes de completar 80 anos, Kant morreu, virgem como havia nascido. Nunca teve mulher, noiva, namorada, um affair, nada. Tampouco parecia afeito ao que na época se denominava “amor grego”.

Não.

O sexo pouca importância tinha para Immanuel Kant. Ao contrário, ele era a favor da preservação dos humores. A saliva, o suor e o esperma deviam ser retidos no corpo a fim de conservar a força vital e prolongar a existência do homem sobre a Terra. No caso dele, deu certo – quatro quintos de século de castidade

Um pequeno gênio

Kant foi um dos maiores filósofos da História. Um Sócrates prussiano. Um Platão do século 18. Tinha apenas metro e meio de altura, mas era um gigante do pensamento.

Li o seu Crítica da Razão Pura. Exigiu suprema concentração do meu pequeno cérebro e, ainda assim, alguns trechos continuaram me parecendo insondáveis. No entanto, reconheci a obra do gênio. Aquele professor tímido e maniático de uma ponta oriental da Alemanha erigiu um sistema filosófico revolucionário.

A mesma paisagem

Kant nunca saiu de sua cidade, Konigsberg, depois incorporada pela União Soviética, hoje Rússia, agora chamada de Kaliningrado. Kant nunca se assombrou com os picos eternamente nevados dos Alpes, nunca se deixou maravilhar pela imponência histórica de Roma ou pela beleza clássica de Paris. Kant nunca viu uma praia ensolarada de um país tropical. Contentou-se em ver e analisar o mais profundo da alma humana.

Vinho húngaro

Todos os dias, sem exceção, Kant era despertado por seu criado Lampe quando faltavam cinco minutos para as cinco horas da manhã. Às cinco, irrevogavelmente, estava sentado diante da sua mesa de trabalho, preparando as aulas de lógica que ministrava na universidade local. Era adorado pelos alunos. Seu método pedagógico era dedicar-se aos de inteligência média. Explicava que aos tolos não adiantava ensinar: eles não aprenderiam. E os brilhantes se virariam sozinhos.

Às seis da manhã, depois de tomar duas xícaras de chá, Kant fumava seu cachimbo. Às 12h45min, degustava uma taça de vinho da Hungria. Quinze minutos depois, almoçava. Às 15h30min, saía para caminhar. Fazia sempre o mesmo trajeto, até hoje conhecido como “O Passeio do Filósofo”. Respirava pelo nariz, para evitar resfriados. Se chovesse, seu criado Lampe o acompanhava com um guarda-chuva aberto. Às 22h, Kant se recolhia ao seu quarto, que ficava o ano inteiro com as janelas fechadas. Enrolava-se nos cobertores como se num casulo e adormecia. Se tinha de levantar-se à noite por alguma contingência urinária, uma corda esticada entre a cama e o sanitário o guiava no escuro.

Eis o homem.

O livro e o sexo

Escrevo sobre Kant porque, tempos atrás, o Zé Antônio Pinheiro Machado falou-me de um livro que está incrustado em sua biblioteca: A vida sexual de Immanuel Kant, autoria de um filósofo francês chamado Jean-Baptiste Botul.

A vida sexual de Kant? Que vida sexual? Saí atrás do livro, até que, nesta semana, o encontrei. Um opúsculo de menos de 100 páginas, publicado pela Unesp, que li de uma só vez. Trata-se de uma coletânea de palestras que esse filósofo Botul ministrou sobre o tema em 1946 numa cidadezinha chamada Nueva Konigsberg, situada no peito do Paraguai. A plateia era composta de alemães egressos da Konigsberg original, que atravessaram o oceano fugidos da guerra. Todos adoravam Kant, vestiam-se como ele e se comportavam como ele.

Minha cabeça rodava, depois de ler o livro. Que história! Eu, que sou um admirador de Kant, nunca ouvira falar em nada daquilo. Saí a pesquisar. Nos meus livros não encontrei nada sobre Botul, Nueva Konigsberg ou kantianos radicados no Paraguai. Fui ao Google, que o Google tudo sabe. Deparei com uma matéria da Veja sobre o livrinho, publicada quando do seu lançamento, em 2001. Focinhei mais um pouco nos escaninhos da internet.

Então, descobri. Descobri!

É tudo mentira. Nueva Konigsberg, kantianos emigrados, Botul, nada disso existe ou existiu. Foram, todos, criações luminosas de um jornalista francês, Frédéric Pagès, que, no livro, faz a apresentação de A vida sexual de Immanuel Kant. Um trote genial, bem escrito, engendrado com astúcia, costurado com informações verdadeiras, no qual caiu a Veja, o Le Monde Diplomatique, dezenas de blogues, sites, livrarias e críticos.

Sorri ao fazer a descoberta. E me senti gratificado por ter lido o livro, pesquisado a respeito e passado o dia envolvido na trama. Leia A vida sexual de Immanuel Kant. E veja como até o deboche pode ser belo, desde que seja inteligente.

Túnel do Tempo: Velhas noites de sexta

18 de maio de 2013 3

Havia um bar bem ao lado do Teatro Presidente, teatro que, aliás, também havia, não há mais, foi-se o teatro, foi-se o bar, muito se foi naquela região da cidade. Edelweiss chamava-se o bar, nome de uma flor e de uma música da Noviça Rebelde.

Bem.

Todas as sextas-feiras íamos ao Edelweiss. Não precisava marcar, era certo: sexta, a partir da última esquina das 11, Edelweiss. O pedido não variava: uma pizza à xadrez que o dono do bar, o Tio Beto, fazia na manteiga, ficava crocante e macia, e não grudava no fundo da forma, uma delícia. E cerveja, claro. Lembro que um dia cheguei por volta da meia-noite, cansado, sedento, precisando tirar a poeira da garganta, como diria o Tex Willer, e o Tio Beto fez aterrissar aquela garrafa branquinha de tão gelada na minha frente, declarando:

— Esta é melhor maneira de dizer boa noite a um amigo.

Lágrimas de emoção subiram-me aos olhos.

O Chico Trago levava o violão para o Edelweiss e cantávamos madrugada adentro. Mão, violão, canção, estrada e viola enluaradaaaaa...

O pessoal do Taranatiriça também ia tocar lá, e às vezes juntávamos as mesas.

Na hora de ir embora, abríamos a porta da rua e, Cristo!, a luz do sol nos cegava por instantes. Como a luz do sol é deprimente no fim da festa.

De qualquer maneira, era um belo bar, o Edelweiss, desses que não há mais na cidade.

Uma noite, cheguei antes da turma, sentei-me, eu com minha cerveja, e vi três moças que ainda não conhecia, na mesa ali adiante. Estavam entretidas numa conversa audível, não tive como não prestar atenção. Mas não lembro de nenhum dos assuntos que tratavam, lembro apenas de uma única frase dita pela mais magrinha, a mais sequinha, a mais murchinha, quando a mais exuberante delas levantou-se para ir ao banheiro. Tratava-se, a exuberante, de uma morena magra, porém curvilínea, de cabelo reluzente e olhos d’água. Deslizou cheia de graça para o extremo sul do bar, enquanto as duas amigas a observavam. Aí a tal magrinha, a sequinha, a murchinha falou para a outra, num suspiro:

— Queria saber como é ser bonita como ela...

Foi como se me tivessem sacudido na cadeira. A singeleza triste da observação me enterneceu. Ela dizia, a murchinha, que queria saber como é ser bonita. Ou seja: sabia que não era. Que nunca seria. Mas desejava experimentar a sensação de ser. Sua vida de feia de nascença decerto ensinara-lhe que, ao contrário do que a literatura e o cinema pregam com tanta generosidade, a beleza faz, sim, diferença. Mais: que alguns simplesmente vêm ao mundo privilegiados. São mais belos, mais inteligentes, mais ricos, têm mais sorte, e isso não significa que sejam menos bondosos, menos decentes, menos dignos.

O que a murchinha certamente sabia é que o mundo não é justo. Às vezes é até cruel. Cabe ao ser humano atenuar essas injustiças, corrigir as distorções da Natureza e dar mais a quem tem menos. Se a vida é torta, o homem tem de lutar pela retidão. Portanto, nada deste injusto e desigual campeonato de pontos corridos. Em nome da justiça e da suspirante murchinha do Edelweiss, que o campeonato volte a ter uma final.

* Texto publicado em 25/11/2009

Túnel do Tempo: O carreteiro perfeito

18 de maio de 2013 2

FragaJá houve algum dia um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher? Ou um que nunca tenha se decepcionado com um amigo, ou se aborrecido no trabalho, ou sentido dor? Algum dia viveu sobre a Terra um homem que atravessou a existência sem que em nenhum momento tivesse vontade de simplesmente sumir?

Pois existiu um homem que era como se fosse um desses homens.

Soube dele tempos atrás, quando cobria a Seleção Brasileira em uma dessas viagens pelo estrangeiro. Ronaldinho Gaúcho, então no zênite da carreira, chegou para mim e perguntou:

– Sabe quem de nós aqui é o que melhor bate na bola?

Hesitei. Olhei em volta. Era uma Seleção de virtuoses. Lá estavam todos eles, equilibrando a bola na ponta da chuteira. Seria o próprio Ronaldinho? Ou Ronaldão? Talvez Romário?

– Nenhum desses – sentenciou Ronaldinho. – É ele.

E apontou para um senhor de cabelos brancos e barriga bem fornida de jantares copiosos que arrastava sua pachorra pela grama perfeita da grande área. Era Valdir de Moraes, o treinador de goleiros. Valdir de Moraes?, perguntei de mim para mim. Não pode! Passei a observá-lo. O velho Valdir dominava a bola com a naturalidade de quem boceja e anunciava para um jogador lá na ponta-direita, a 60 metros de distância:

– Pé direito!

E mandava um lançamento macio como as canelas da Luana Piovani, que ia se aconchegar precisamente no pé direito do jogador. Sempre assim, tranquilo e infalível como Bruce Lee.

Fui falar com ele. Queria saber de onde vinha tamanha habilidade, ainda mais que Valdir de Moraes não atuava na linha em seus tempos de jogador, mas no gol. Valdir contou-me que, quando jogava no Renner, time pelo qual foi campeão gaúcho em 1954, ele e o 10 do time, Ênio Andrade, passavam horas ensaiando chute a gol e lançamento. Com o pé direito, com o pé esquerdo, e de novo e de novo e de novo, sem parar. Donde, os dois amigos desenvolveram um talento para bater na bola que jamais os abandonou. Ênio, por exemplo, nunca, nunca (eu disse: nunca!) errou um pênalti.

Certo. Contei essa história durante um debate de que participamos eu e o Professor Ruy, segunda-feira, na Saraiva do Praia de Belas. Nossa conversa ocorreu durante o lançamento do livro do Maurício Noriega, colega paulista que escreveu sobre os 11 maiores técnicos da história do futebol brasileiro. Pois bem. Falei que Ênio Andrade nunca, nunca (falei: nunca!) havia errado um pênalti, e ilustrei essa lenda com um conhecido caso ocorrido em 1981. Ênio trabalhava no Grêmio. Leão pegava no gol. Em meio a um treinamento, Leão, com sua habitual imodéstia, arrostou:

– Aí, velho: bate um pênalti. Se acertar, pago uma cerveja.

Ênio redarguiu:

– Vamos fazer assim: vou bater dez pênaltis. Se você defender um, pago um engradado.

Leão pagou a cerveja.

Quer dizer: era verdade, Ênio Andrade nunca errou um pênalti. E, assim que pinguei um ponto final nessa frase, ergueu-se um senhor da plateia e, espetando o indicador no ar, acrescentou:

– Nem em treino! Ele batia com o peito do pé – simulou o chute de Ênio colidindo as costas da mão direita na palma da esquerda. – E nunca errava. Nunca. Nem em treino.

Nem em treino! Era o que eu dizia. Um homem que nunca errou um pênalti, nem em treino, é como um homem que jamais foi rejeitado por uma mulher, um homem que nunca se decepcionou com um amigo, que em nenhum momento sentiu vontade de simplesmente sumir.

Depois do encontro na Saraiva, fomos provar o carreteiro da Dona Tereza, no Jazz Café, ali em frente à caixa d’ água. Trata-se de um carreteiro minucioso. O filé é cortado em pedaços mínimos, menores que a unha do minguinho. O molho é o da própria carne, denso, quase capitoso. Junto vem uma travessa de batatas portuguesas, delgadas como asas de borboleta, mais uma salada de tomate e alface para fazer o contraponto ao sabor quente do arroz. Perfeito. Tal qual um pênalti um dia cobrado por Ênio Andrade.

*Texto publicado na Zero Hora em 20/05/2009

Sala de Redação

17 de maio de 2013 6

Ouça o Sala de Redação desta sexta-feira.

O que o Grêmio deve fazer

17 de maio de 2013 98

Criticar o Grêmio hoje é repisar o óbvio.
O clube está inçado de problemas que estouram no time. O time é o reflexo do clube como os olhos são as janelas da alma, nas palavras de Leonardo.
Começa pela direção - sempre começa pela direção. O Grêmio é um clube dividido politicamente, e isso faz mais de dez anos. A política no Grêmio se desenvolve pelo ódio e pelo ressentimento. Nunca vi algo de bom ser construído partindo-se de uma base de ódio e ressentimento.
No Grêmio, até o campo de jogo é dividido. Qual é a casa do Grêmio? De onde despacha o presidente Koff? Onde os jogadores treinam? Olímpico ou Arena?
Então, chega-se ao recôndito do vestiário. É Luxemburgo mesmo quem manda? A direção tem convicção sobre as ações do Departamento de Futebol? Esse time, caríssimo, com reservas caríssimos como Kléber e Welliton, esse time é o que o Departamento de Futebol queria montar? Por que esse time formado com bons e ótimos jogadores fracassa em todas as decisões desde o ano passado?
Antes de desfazer tudo, antes de demitir e procurar culpados, o Grêmio terá de se reunificar. É preciso introspecção, reflexão e, o mais difícil, paciência.
Só com paciência se descobre para onde, de fato, se quer ir.

A gueparda

17 de maio de 2013 8

Por que tem tanto documentário sobre os suricatos na TV? Não entendo a popularidade do suricato. Os felinos, sim, esses merecem todos os filmes que estrelam. São os mais belos animais do planeta. Os cavalos têm nobreza. Os pássaros, graça. Os peixes, todas as cores. Os elefantes são imponentes. Mas nenhum deles tem a sensualidade elástica dos felinos. Não é à toa que a mulher mais linda é chamada de gata.

Então, paraliso diante do aparelho quando passa um filme sobre os grandes gatos. Foi assim que, dia desses, afundei na poltrona quando vi que seria exibido um documentário sobre o reino dos felinos ou o mundo deles, coisa que o valha.

A principal protagonista era uma mãe gueparda. Os guepardos são os mais velozes animais sobre a Terra, alcançam 110 km/h. Essa gueparda do filme teve cinco filhotes. Andava com eles pela savana em busca de sustento, como tantas mães solteiras andam pelo cimento da cidade. Num desses momentos de caça à comida, os filhotes se desgarraram. A noite caía sobre a África, e ela se desesperou. Chamou os rebentos com miados parecidos com latidos, conseguiu reunir três deles, mas, desgraça!, outros dois foram levados por um bando de repugnantes hienas que por ali rondavam. As hienas assemelham-se aos cães, mas na verdade também são felinos, sabia? São.

Ao alvorecer, a mãe gueparda subiu num pequeno monte para tentar avistar os filhotes desaparecidos, enquanto os outros três brincavam indiferentes sobre suas costas. Miava, a coitada, miava, miava, e nada. Estavam perdidos para sempre.

Seguiu seu caminho até que, lá adiante, em meio à vegetação amarelecida pelo sol, deparou com a visão horrenda: a morte se aproximava sob a forma de três irmãos guepardos desconhecidos. Não existe corporativismo entre os guepardos. Os machos adultos, quando avistam filhotes de outros machos, costumam devorá-los. A mãe sabia disso, sabia que não tinha chance contra os três, mas os esperou bravamente. E os enfrentou com a coragem das mães. Um a mordia numa pata, outro no flanco, o terceiro tentava lhe dilacerar o pescoço, mas ela resistia. Com as unhas afiadas cortando feito giletes, com os dentes pontiagudos à mostra, com rosnados de ameaça, ela resistiu. Sobreviveu ao ataque dos três bandidos. Mas acabou separada dos filhotes. Impotente e horrorizada, a mãe gueparda viu os malfeitores se aproximando dos pequenos, que miavam sem esperança de salvação.

Não quero ver!, disse para mim mesmo. Não quero ver! E desliguei a TV. O mundo animal é muito cruel, pensei. Peguei o jornal para me distrair. E a primeira notícia que li foi sobre uma mãe humana da zona norte da cidade que ensinava seu filho a espancar um cachorrinho que mede palmo e meio do focinho ao rabo. Parei de ler no meio do texto. Fechei o jornal com um suspiro. O mundo animal é mesmo muito cruel.

* Texto publicado na página 2 da Zero Hora desta sexta-feira, 17 de maio

Som de Sexta

17 de maio de 2013 3

Não contem para o Piangers, mas eu gosto do Phil Collins.

Sala de Redação

16 de maio de 2013 2

Ouça o Sala de Redação desta quinta-feira.

Túnel do Tempo: Quando descobri a internet

16 de maio de 2013 1

Internet é coisa de jovem, mas a primeira pessoa que me falou sobre sua existência foi um cara que respira neste Vale de Lágrimas pelo menos uma década antes de mim: o velho lobo da imprensa Carlos Wagner. Isso se deu lá nos albores dos anos 90. Wagner, o repórter mais premiado do Brasil, me pegou na redação e contou, entusiasmado, que estava participando de uma rede virtual entre universidades que, em algum tempo, transformaria o mundo. O mundo! Ouvi, algo distraído, e saí para fazer minha pauta. Transformar o mundo. Sei.

Veja você como a gente deve prestar atenção no que diz um velho lobo da imprensa.

Li outro dia que apenas 18% das pessoas com 50 anos ou mais usam a internet. Coisa de jovem. Compreensível. As pessoas, depois das aventuras e desventuras da juventude, adotam uma forma de viver, cultivam hábitos, aferram-se a eles. Aí, quando tudo está bem posto, surge uma novidade que lhes exige o esforço do aprendizado. Mais trabalho. Exatamente no momento em que elas planejavam, tão somente, fruir a existência.

Sacanagem.

Eu aqui não cultivo preconceitos em relação à internet. Não tenho tuíter, não tenho Facebook, estou reduzindo a leitura de e-mails a menos de meia hora, e só nos dias úteis, mas não faço tais restrições por achar a internet algo ruim. Ao contrário, é algo bom. Mas toma tempo. Trata-se de uma questão de prioridades.

A internet é uma ferramenta, nada mais. Pode ser bem ou mal usada, como qualquer ferramenta.

Tempos atrás, discuti por e-mail com um estudante de Letras. Ele foi arrogante, e decidi dar-lhe uma resposta no mesmo tom. Ele postou minha resposta nas chamadas “redes sociais”. Quer dizer: tornou pública uma correspondência pessoal. Depois disso, reavaliei meu relacionamento virtual com leitores.

Também aprendi que, às vezes, o que está na internet só tem importância na internet. Fora dali, no mundo real, aquilo que pulsa e freme na internet inexiste. É zero. Torna-se verdadeiro apenas quando o mundo real o reconhece. Por que 1 milhão de pessoas acessam uma besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”? Resposta: porque 1 milhão de pessoas acessaram a besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”. O troço faz sucesso porque faz sucesso, sem mérito algum. Vira realidade quando vai para a TV, para o jornal, para a rua. Se fica restrito à internet, evapora.

Porém... algo que só deveria existir na internet pode transformar-se em realidade distorcida. O tal filmeco que ofende o Islã não passa disso: de um filmeco malfeito e mal-intencionado, feito por um picareta, com 14 minutos de duração, algo de péssimo gosto que deveria se esfarelar no YouTube sem que ninguém lhe desse importância. Mas, por razões diversas, os radicais lhe deram importância, e tem gente matando e morrendo por causa disso. Matando e morrendo, graças às facilidades da internet. O mundo mudou, como havia vaticinado o Wagner, e ainda não aprendemos a lidar com essa mudança. Dá trabalho aprender. E é preciso aprender. Sempre.

* Texto publicado em 28/09/2012