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A mulher de 40 está acabada

Calma, leitorinhas. A frase é verdadeira, mas não fui eu que a proferi. O célebre dizer tem outro dono, o Everton Cunha. Ou Mr. Pi, como queiram.

As palavras do meu colega de Pretinho passaram a latejar sem parar na mente da ouvinte Lisiane, assim que ela chegou aos tais dos 40 anos.

Escuta aí o drama de Lisiane:

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A extinção das avós

Não existem mais avós. Avós de verdade, digo. De cabelos brancos e vestido floreado. Avós de óculos na ponta do nariz, que sabiam cozinhar, que passavam o dia produzindo bolos olorosos, que contavam histórias.

Avó de cabelo preto não é avó. Avó de calça jeans não é avó. AVÓ DE TATUAGEM NÃO É AVÓ!

Eu fui um neto feliz. Tive uma avó de verdade, que fazia schimier, figo em calda, pão de forno, que fazia ela mesma a massa do almoço de domingo e seu molho denso, uma avó que plantava flores nos canteiros e criava galinhas no quintal - vó tem que ter quintal.

Minha vó era devota do Padre Reus, minha vó sabia que formiga se combate com vinagre, minha vó nos dava Elixir Paregórico, minha vó dizia para minha irmã ter cuidado “porque a moça é como um cristal: depois que se quebra, não tem mais conserto”.

Eu tive uma avó!

Vocês, netos de agora, não.

Algumas tradições têm de ser preservadas.

Por isso é que não gostei da nova camisa do Grêmio.

E você, leitorinho e torcedor, aprovou a roupa nova?

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Uma frase que vale 10 mil anos

Walter, o centroavante, produziu uma frase de sociólogo alemão, dias atrás. Durante longo tempo fiquei pensando no que disse Walter, ele que, segundo comentam, não é exatamente um frasista; é goleador de pouco verbo.

Revelou, o jogador, que ganha R$ 15 mil por mês. E acrescentou:

- Sei que não é um mau salário, mas quanto mais a gente ganha, mais precisa.

Acertou no ângulo.

A História, com agá maiúsculo, comprova a afirmação de Walter. Desde que o homem passou a ter coisas, mais coisas ele passou a querer ter. Não faz muito tempo isso. A propriedade foi inventada há 10 mil anos, só - um subproduto da agricultura.

Antes, durante mais de dois milhões de anos, o homem caçava, coletava e pescava. Vivia do que lhe dava a Natureza. Os recursos terminavam cá, ele se mudava para lá. Era uma existência nômade, que, por ser nômade, prescindia de maiores posses além das pessoais, um ou outro instrumento que podia ser reposto rápida e facilmente, se fosse perdido.

Mas há 100 séculos foi descoberta a agricultura. O homem tinha de possuir a terra para cultivá-la e dela tirar o sustento. Sobre a terra, ele levantou uma casa; dentro da casa, montou camas em que dormir, mesas onde comer, fogões para cozinhar. O homem passou a ter coisas, e tudo mudou.

Hoje, as pessoas passam a vida pensando em ter e em acumular. É a fonte de todo o Mal.

Eu aqui, detrás da tela azul do meu computador, nunca imaginaria que o homem devesse retornar aos anos dourados do paleolítico, até porque não conseguiria viver sem serviço de tele-entrega e chuveiro a gás.

Mesmo assim, há o que seja mais importante do que ter. Walter mesmo, ele se angustia por querer ter muito dinheiro, e o mais rápido possível. Se pensasse em ser um grande jogador, talvez logo ali adiante viesse a ter mais do que pode amealhar agora.

Mas Walter olha para os lados e vê o dinheiro a cercá-lo. Como não querer ter, se tantos outros têm? Há dinheiro em demasia no futebol. Dinheiro que o desvirtua. Que faz com que um jovem jogador, antes mesmo de jogar, só pense em ter muito, não em ser grande. Pobre futebol brasileiro, que, de tão rico, apodreceu.

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A fórmula da esposa perfeita

Ontem, vocês sabem, foi o Dia Internacional da Mulher.

Uma ouvinte lá do Pretinho, a Juliana, de “quase 26 anos“, aproveitou a data para lembrar a nós, homens, umas das mais duradouras invenções femininas da história: o casamento.

Mas, pelo jeito, não foi para se regozijar ou tentar levar vantagem sobre a ala masculina. Do tipo, “conseguimos, prendemos vocês!”.

Não pareceu.

Juliana, sim, quis nos ajudar. Ela nos estendou a sua mão. Brindou a bancada do Pretinho com a fórmula da esposa perfeita. Hummm, interessante essa.

Ouve aí no player abaixo e toma nota das dicas:

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O ócio feminino matou o neanderthal

A HISTÓRIA DO MUNDO - 2º CAPÍTULO

A Natureza trabalhou com afinco em suas tarefas evolutivas até que a espécie humana atingisse o apogeu genético e produzisse a Megan Fox. Mas, biologicamente falando, o homem sapiens sapiens que cem mil anos atrás roncava sobre o solo duro de pedra de uma caverna da Espanha era igualzinho ao publicitário de rabo-de-cavalo que beberica clericot nos bistrôs do século 21. A diferença, portanto, está no espírito, nos costumes, na maneira de viver.

Na cultura.

O que acicatou essa mudança?

O que tornou o homem o que ele é?

Arrá! É aí que voltamos ao nosso amigo neanderthal. Durante milênios, mais precisamente cem deles, talvez 200, não passando de 300, o sapiens sapiens e o neanderthal experimentaram o mesmo estilo de vida. Ambos eram caçadores e coletores. Quer dizer: viviam do que lhes oferecia a Natureza, não produziam nada. O trabalho ainda não havia sido inventado.

Aquele chiste popular, “quem inventou o trabalho não tinha o que fazer”, provavelmente está certo. A invenção do trabalho foi fruto da reflexão, que é fruto do ócio.

Durante mais de dois milhões de anos, porém, o homem não trabalhou. Dois milhões de anos de alegre vadiagem. No máximo, o homem lascava algumas pedras para usá-las como ferramentas rudimentares e ajudá-lo nas caçadas, que, é evidente, não poderiam ser consideradas trabalho. As caçadas paleolíticas não serviam para produção, eram atividades de sobrevivência. Tal qual ocorre com os tantos predadores da Natureza. Um leão não trabalha, quando campana um gnu, persegue-o, pula sobre ele e lhe arranca um naco do pescoço. Não. O leão, apenas, se alimenta. Então, os homens da idade da pedra vez em quando desbastavam uma rocha para transformá-la em cabeça de machado ou ponta de lança — um trabalhinho. Mas isso era muito de vez em quando. No mais, sapiens sapiens e neanderthais viviam para comer e se reproduzir, como quaisquer outros animais do planeta. Foi como um dia resumiu Freud: tudo na vida é casa, comida e sexo.

E é.

O homem tinha casa, comida e sexo sem restrições, por isso não mudava a sua forma de viver. Você aí, que lê os classificados, que assiste ao Jornal Nacional, que faz buscas no Google, que dirige seu carro e preme os botões do controle remoto, você tem de entender que essa sua vida sofisticada é recente no mundo. Tem a idade de 10 ou, no máximo, 12 mil anos, enquanto que a existência caçadora e coletora durou, vou repetir, MAIS DE DOIS MILHÕES DE ANOS.

Por que durou tanto?

Porque era bom.

O paleolítico era uma festa.

Era uma vida despreocupada, compreende? Como já disse, havia comida em abundância, cavernas para se abrigar, água de beber. O sexo, o homem cometia quando bem entendia, sem objeções morais, sem considerações sentimentais, sem oposições outras que não o próprio móbil do sexo, que é a vontade.

Cobranças conjugais? Não existiam. Sabe por quê? Porque não existia casamento. Nem família existia. Porque o homem, e por homem, aí, me refiro ao gênero masculino, não à mulher, pois o homem não sabia que fazia filhos. Ou pelo menos não relacionava a função sexual com a reprodutiva. De repente, uma fêmea aparecia grávida. O que ocasionara aquela prenhez? Ninguém sabia com certeza. Ainda hoje há tribos indígenas que desconhecem o papel masculino na reprodução e tecem diversas teorias acerca da fecundidade feminil — por causa da lua cheia, por causa de banhos de rio em determinada época, picada de mosquito etc.

Além disso, por favor, ninguém ia pensar em ser monogâmico no paleolítico. Uma mulher mantinha intercursos com vários homens, ou até com TODOS os homens das imediações, como se só houvesse Paris Hiltons no mundo. Logo, a família também não tinha sido inventada. As pessoas se reuniam em clãs. Trinta ou quarenta indivíduos rodando pelo planeta, os homens caçando e pescando, as mulheres cuidando dos filhos, tudo muito tranquilo.

Do que mais precisava o homem?

De nada.

Tendo ao alcance de um braço tudo o que desejava, o homem não pensava no futuro, vivia no presente e para o presente. Não pensando no futuro, o homem não se angustiava. Não se angustiando, o homem não tinha problemas existenciais, depressão, aflições em geral, banzo. Os psicanalistas teriam dificuldade de encontrar freguesia naquele tempo.

Alguém aí pode argumentar que o homem era uma presa dócil de intempéries e desastres naturais, devido ao precário desenvolvimento tecnológico. É justamente o contrário. Desastres naturais pouco afetavam o homem primitivo. Enchentes, por exemplo. Se um rio desbordasse de suas margens, o homem singelamente desmontava o acampamento em que se instalara e se mudava para uma região mais alta. Se um período de seca sobreviesse, ele se transferia para uma região mais amena. O homem era nômade, não conhecia a ideia de propriedade, não possuía roupeiros, camas, fogões, geladeiras e tevês de plasma para levar consigo. Não precisava contratar caminhão de frete para fazer mudança, se quisesse se deslocar de um ponto a outro do planeta. Aliás, planeta mesmo: ninguém exigia passaporte em fronteira alguma, porque fronteiras não existiam. Assim, o sapiens sapiens saiu da mãe África e derramou-se pelo Globo ao sabor das conveniências.

Surge de novo, então, a pergunta fulcral: por que abandonamos aquele estilo de vida? Por que, meu Deus? Por quê???

Por causa das nossas mulheres.

As ardilosas sapiens sapiens.

Porque é o seguinte: como já sublinhei, frisei e destaquei parágrafos acima, a espécie humana caminha sobre dois pés pela superfície acidentada da Terra há dois milhões de anos, talvez mais. O sapiens sapiens, que somos nós, e o neanderthal, já extinto, apareceram há pouco tempo: 100 mil anos, embora alguns cientistas falem em 300 mil anos. Vamos ficar com um número redondo: 100 mil. O neanderthal desapareceu há 28 ou 29 mil anos. Vamos arredondar de novo: 30 mil. Fez os cálculos? Por 70 mil anos, no mínimo, sapiens sapiens e neanderthais partilharam o planeta. Bem. A agricultura foi inventada há não mais do que 10 mil. Portanto, não foi a agricultura que derrotou o neanderthal. O que houve nesses 20 mil anos de interregno, que liquidou com nossos primos?

Já vou dizer.

Foi uma sutil transformação, também patrocinada pelas mulheres. Descrevê-la-ei.

Ó:

Durante aqueles já referidos 70 mil anos de convivência, os dois últimos tipos de seres humanos existentes, eles, neanderthais, e nós, sapiens sapiens, vivemos caçando e coletando. Importante: os homens caçavam, mas não criavam animais. Não os tinham domesticado, nem tampouco os mantinham em cativeiro para abate. Tão-somente os procuravam em seus habitats, matavam-nos e os comiam.

Só.

Em algum momento, porém, um casal de filhotes deve ter sido poupado para diversão das crianças. Esse casal cresceu e se acostumou ao convívio com os seres humanos. E mais importante: crescido, cruzou e reproduziu. Quem estava lá para ver isso tudo acontecendo?

A mulher.

Sim, a mulher é que ficava com os filhos na caverna, na clareira, à beira do rio, onde quer que fosse que o clã acampava, enquanto os homens se divertiam e morriam nas caçadas.

A mulher testemunhou a adaptação do primeiro casal de animais ao meio humano. Que casal foi esse? Que espécie de animal? Difícil saber. Lobos, provavelmente. O lobo é o ancestral de todos os cães, até daquele poodle metrossexual da síndica do seu edifício. Os lobos serviram ao homem primitivo, e foram reduzidos a cachorros com o transcorrer dos milênios. Aquele cachorrinho minúsculo da Gisele Bündchen, que ela chama de, argh, “Vida”, aquele cachorro também descende dos lobos, acredite.

Que seja.

O fato é que a mulher viu como os, vá lá, lobos copulavam e, copulando, se reproduziam. Com isso, aprendeu. Tirou várias conclusões:

1. Que aqueles filhos que um dia lhe intumesceram o ventre decerto tinham sido concebidos graças ao intercurso que ela manteve com um dos homens do clã naquelas baladas loucas da caverna.

2. Que é possível domesticar um animal.

3. Que o animal pode ser criado em cativeiro para ser mais tarde abatido e comido, tornando supérfluas as irritantes saídas dos homens para as caçadas.

Agora um parêntese:

(Você, que joga futebol, repare como sua mulher fica inquieta quando você sai para jogar com os amigos. Não é por ciúme, não é na intenção de preservar sua integridade física das botinadas dos zagueiros toscos. Nada disso. É a angústia primeva que volta a se manifestar. É a ânsia velha de miríades de séculos, que palpitava quando das fêmeas viam seus machos saírem para as caçadas, para expedições que duravam dias ou semanas, quiçá meses, e das quais talvez eles não retornassem. Essa sua mulher que se apoquenta ao vê-lo partir para jogar bola, ela é a mulher da Idade da Pedra).

Fechado o parêntese, sigamos.

Tudo isso a mulher aprendeu. Ela ensinou o sapiens sapiens a domesticar e criar animais. E mudou o mundo primitivo. Porque alguns animais domésticos, como o supracitado lobo, passaram a auxiliar o homem a caçar outros animais. E porque o homem, ao manter os animais em apriscos, jaulas, currais ou galinheiros, começou a dispor de excedente de carne. Mas de que adiantava ter carne sobrando, se a Brastemp ainda não fora fundada e não havia freezers à venda? O homem necessitava de uma forma de conservar a carne. Sabido, descobriu que podia fazer isso salgando-a. Nas terras frias, os homens cavavam buracos no solo e depositavam a carne em geladeiras naturais mais eficientes do que uma de segunda mão que comprei em um brique quando morava em Santa Catarina.

Como descobrira formas de conservar a carne, o homem decidiu intensificar as caçadas. Desenvolveu armas poderosas, como a funda e o arco-e-flecha, bem como táticas arrasadoras: os sapiens sapiens erguiam muros de pedras em áreas enormes, de quilômetros de extensão. Esses muros iam se afunilando até acabar em uma clareira cercada — um matadouro. Os animais eram dizimados. Inúmeras espécies simplesmente deixaram de existir devido a essa matança. Uma delas foi um veado gigante, pouco menor do que um elefante, dono de chifres com três metros e meio de comprimento, de uma ponta a outra.

A ferocidade dos sapiens sapiens
aumentava a cada caçada, assim como sua destreza no manejo das armas e a tecnologia para desenvolvê-las. As manadas que nutriam as duas raças de homem, o sapiens sapiens e o neanderthal, foram escasseando. Mas o sapiens sapiens criava animais, tinha como se sustentar. O neanderthal, não. O neanderthal aferrou-se à existência nômade e livre. Continuou a viver como sempre viveu.

Foi o seu fim.

O neanderthal extinguiu-se por não poder enfrentar a guerra tecnológica do sapiens sapiens e porque o sapiens sapiens suprimiu-lhe a forma de vida ao liquidar com as manadas do mundo antigo. Ao mesmo tempo, com o fim da Era Glacial, as calotas de gelo recuaram para os pólos e as áreas amplas foram se transformando em florestas, tornando ainda mais raros os grandes animais que corriam pela vastidão das planícies. O neanderthal não tinha mais como se alimentar. O neanderthal morreu.

Por causa da mulher.

Vinte mil anos ainda se passariam antes que a mulher, sempre ela, descobrisse a agricultura, observando as sementes que caíam no solo e germinavam e transformavam-se em plantas de comer. Com essa descoberta, ele inventaria a Civilização. Tudo ia começar.

Mas disso nós trataremos no próximo capítulo.

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Amor seis vezes ao dia

Catarina II, a “Grande”, tinha necessidade de fazer sexo seis vezes ao dia, mas não foi por isso que a chamaram de Grande. Questão de precisão, não luxúria vulgar.

Talvez padecesse da doença do Tiger Woods. Kennedy padecia, coitado, se bem que com menor intensidade: desenvolveu o hábito de possuir pelo menos três mulheres por dia, em rapidíssimas sessões de amor agendadas por seus solícitos assessores, dois a três minutos cada. Kennedy tinha muita pressa e nenhuma paciência.

Catarina era mais dedicada.

Constituía amantes, envolvia-se com eles em profundidade e, quase sempre, só os dispensava quando encontrava outro mais tenro. Escrevi tenro, não terno. Embora tenha sido a czarina mais importante da Rússia, era alemã. Sabe como são essas alemãs… Não havia sido batizada Catarina, e sim Sofia Augusta Frederica. Gosto desse nome, Frederica.

Quando casou-se com o herdeiro do trono, Pedro, é que se renomeou Catarina. Também gosto de Catarina. Estava com 16 anos. Na noite do casamento, depois da festa, as criadas ajudaram-na a tirar as roupas pesadas de pedrarias e a levaram para a câmara nupcial.

Ansiosa, a jovem e fresca Catarina sentou-se à borda da cama debaixo de seus cabelos louros, esperando pelo marido como se esperasse pelo abate. É provável que não se sentisse empolgada com a perspectiva de ser deflorada pelo príncipe. Pedro era um feio. Fora vitimado pela varíola, que lhe deixara o rosto gretado. Acometera-lhe também uma calvície precoce, era magro como um espaguete e, nos quadros que lhe pintaram, aparece com um nada elegante ventre abaulado de chope. Ou, no caso, vodca.

Bem. É verdade que muitas mulheres não colocam a beleza masculina entre os principais atributos que deve ter um homem para atraí-las. Basta que ele seja rico. Ou poderoso. Ou famoso. Algumas até se contentam com os inteligentes e bem-educados.

Pedro decerto que era rico e tudo indicava que um dia auferiria poder. O problema é que de inteligência e educação não possuía nada. Era infantiloide, passava o dia brincando com soldadinhos de chumbo e não se entusiasmava com as mulheres. Existe um debate entre os historiadores sobre se era homossexual mesmo ou se não passava de mero desinteressado. Não faz diferença.

O fato é que Catarina permaneceu horas aguardando por ele. Pedro só apareceu no quarto tarde da madrugada, trançando pernas, bêbado como um Boris Yeltsin. Balbuciou que ficara comemorando com os criados na cozinha, meteu-se entre os cobertores e, antes que Catarina pudesse dizer cucamonga, começou a roncar.

Catarina não foi tocada pelo marido naquela noite. Nem na seguinte. Nem na outra. Ou na outra ou outra ou
outraououtraououtraououtra. Durante nove anos, Pedro conservou sua mulher virgem como uma madre superiora.

Quer dizer: virgem de Pedro. Catarina não demorou a providenciar um amante. E outro e outro e mais outro e outroutroutroutroutroutro. Acumulou dezenas deles com intensa devoção. Existem candentes relatos históricos sobre o desempenho da czarina de todas as Rússias entre lençóis. Não vou reproduzi-los porque coraria os leitores pudicos.

Um dia, o embaixador da Inglaterra, para agradá-la, ofereceu-lhe um rapaz bonitão de presente. Catarina agradeceu, penhorada, levou o moço para cama e desfrutou dele por alguns anos.

Como naquele tempo não havia pílula, Catarina teve vários filhos com os amantes. Pedro se conformava.

– Não faço a mínima ideia de como a minha mulher fica grávida, mas suponho que tenho de assumir os filhos – comentou, em meio a uma das tantas gestações.

Catarina seguiu somando amantes e filhos pelas estepes, até que traiu de verdade o marido: deu um golpe de estado, mandou Pedro ir brincar com seus amiguinhos e reinou com radiosa luz sobre a Rússia.

Seu vício, o sexo desenfreado
, não a prejudicou nessa missão. Algum excesso, afinal, o ser humano pode cometer, de vez em quando. Deve, até.

Walter aprecia comida
calórica? Sem problemas, desde que apareça para treinar. Mário Fernandes é adepto do sono pela manhã? Que é que tem? Desde que, é claro, não faça samba e amor até mais tarde.

Como fazia, e bem, a loira Catarina.

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Seres superiores hidratam o cotovelo

O meu colega de Pretinho Básico Alexandre Fetter é um voraz adepto do hidratante no cotovelo.

- Eventualmente - rebate ele, explicando que às vezes a região citada fica áspera como um abacaxi (com casca, lógico).

Pode soar estranho, mas também é algo sensacional. As mulheres, e o Fetter, são seres ímpares. Conseguem se preocupar com o cotovelo! E encontrar um creme especialmente para o dito cujo.

Fetter não foi poupado por nós, do Pretinho. Mas um ouvinte saiu em contundente defesa do radialista e dos seus ásperos cotovelos.

Confere aí o áudio:

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Peixe e jujuba

A Marisa Monte compôs uma música enaltecendo a jujuba, tempos atrás. É preciso destreza para cantar a jujuba e não ficar parecendo, sei lá, meio abobado. Porque a jujuba é irrelevante em si. Chegou a gozar de certa fama no planeta quando foi divulgado que Ronald Reagan amava a jujuba, que mastigava jujuba todos os dias na Casa Branca. Fama, porém; não prestígio. A jujuba não cresceu graças a Reagan; Reagan é que diminuiu por causa da jujuba.

Marisa Monte também não conseguiu sublimar a jujuba. A música saiu-lhe juvenil. Enfim. Talvez a jujuba só se eleve a outro patamar se for versejada por um Chico Buarque, um Paulinho da Viola. De qualquer forma, o que importa é que algumas músicas dizem muito de quem as faz, bem como de quem as admira.

Houve, por exemplo, um presidente da República que tinha como música preferida o Peixe Vivo. Juscelino Kubitschek. O Peixe Vivo foi entoado no enterro dele, inclusive. Isso sempre me intrigou. Porque, se o Peixe Vivo, em termos melódicos, empata com O Sapo não Lava o Pé, perde de goleada, em profundidade poética, para Atirei o Pau no Gato. Como pode, então, um peixe vivo viver fora da água fria e um presidente da República ter essa música como a sua preferida, dentre todas as músicas da Terra? Seria JK um indivíduo prejudicado intelectualmente? Meio abobado, como soam os bardos da jujuba?

Não é o que aparenta. JK é incensado como presidente. Ganhou minissérie e tudo mais. Por que mesmo? Qual a sua grande realização? Foi um desenvolvimentista, tanto quanto Lula ou Médici. Mas sua maior façanha foi a construção de Brasília, que está prestes a completar 50 anos.

Brasília deve ter algum ponto positivo, embora eu não saiba qual. No aspecto urbanístico é um desastre. Uma cidade que exclui as pessoas. Que foi (mal) planejada para o automóvel. Não se pode caminhar na vastidão de Brasília, é impossível vencer qualquer distância, se o percurso não for feito sobre rodas.

Mas esse nem é o principal defeito da cidade. Seu principal defeito é a sua razão de existir. Brasília foi erguida para ser a capital política do Brasil. Plantada no meio do nada, habitada por funcionários públicos, Brasília vive longe do Brasil. Muito do pior que ocorreu no país, nestes 50 anos, não ocorreria se a capital fosse o Rio. Exemplo: em 1984, os militares mandaram cercar o Congresso para impedir que o povo assistisse à votação da emenda das Diretas Já. Isso seria concebível no Rio? Numa cidade de verdade? Brasília é permissiva. É a Sodoma dos corruptos.

JK, ao que se sabe, não foi corrupto. Mas permitiu que a corrupção se misturasse ao cimento de cada prédio de Brasília, enquanto ela era construída. Por fim, a própria construção da cidade é um escândalo.

Constantino transformou Bizâncio em Constantinopla e para lá transferiu sua capital, mas Constantino era o imperador de Roma. Queóps plantou no deserto a Grande Pirâmide, mas Queóps era o faraó do Antigo Egito. JK aparafusou Brasília no vazio, e quem era JK?

Não acredito que fosse um tolo. Era um espertalhão. Sabia o que fazia, seu objetivo era tornar-se imortal como um faraó, como um césar. Conseguiu. Até o gosto pelo Peixe Vivo deve ter sido calculado a fim de massagear o espírito singelo do brasileiro. Assim, posso dizer que compreendo o Peixe Vivo de JK. Para a jujuba de Marisa Monte, não tenho explicação.

*Texto publicado hoje em Zero Hora

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Se beber, não case

Beber antes de casar, acredite, pode causar algumas confusões. Sobrou até para a mãe do noivo, que levou uma mordida no braço.

A velha soltou um grito… uma tragédia.

Confere aí a história que contei no Pretinho Básico:

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A História do Mundo - próximo capítulo

Estou aqui, desde os albores da manhã, remando no segundo capítulo do nosso modesto livro “A História do Mundo e o Sentido da Vida”, o livro que resolverá todos os seus problemas, que responderá a todas as suas perguntas.

Logo o capítulo será editado pelo novo diretor do blog, que em breve apresentarei a vocês, o jornalista Lucas Rizzatti, um rapaz muito inteligente e que faz explosivo sucesso com as fêmas da espécie, sobretudo as tenras auxiliares da redação que enxameiam em torno da Zero Hora on line.

Enquanto isso, vou brindar os leitores com um texto com o qual esbarrei nas pesquisas para escrever essa história. É um texto antigo de milênios, mas cheio de vida, exsudante de vigor despótico. Foi escrito por um faraó, Amenemhet, que deixou em um rolo de papiro esses conselhos para o seu filho e herdeiro. Poderia ser adotado pelo seu chefe, querido leitor:

“Ouve com atenção o que te digo

Para que venhas a ser rei da Terra Para que possas prosperar:

Endurece com todos os subordinados

- O povo só dá atenção a quem os aterroriza.

Não te aproximes de ninguém sem estar bem protegido,

Não te abras com um irmão, Não reconheças um amigo.

Quando no sono, guarda para tim mesmo o teu coração,

Porque um homem não tem amigos no dia da desgraça”.

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A luz que se apagou

O meu amigo Salim Nigri morreu. Era um amigo peculiar. Devo tê-lo visto umas quatro ou cinco vezes em duas décadas, mas nos falávamos semanalmente. Houve época em que ele me telefonava todos os dias. Gostava de conversar com o Salim. Ele tinha uma voz que acalmava.

Vou fazer agora uma confissão.
Um dia, um sábado de inverno, eu sentia muito cansaço, mas, de tão agitado, não conseguia dormir. Não havia passado bem a noite, o almoço me caíra mal, eram já duas ou três da tarde e continuava agitado. Então, sabe o que fiz? Estendi-me na cama, a nuca apoiada ao travesseiro, tomei o telefone do criado-mudo e liguei para o Salim.

Aleguei que pretendia escrever um texto sobre qualquer coisa relacionada com os anos 40 e pedi que me contasse uma de suas histórias. Ele começou a falar com aquela sua voz grave e melodiosa, escandindo as sílabas com sonoridade, pronunciando cada palavra como se declamasse um poema. A voz dos velhos homens de rádio, uma voz que foi se me derramando ouvido adentro e me aplacando a alma, e logo me senti repousado e satisfeito, e me despedi do Salim, e submergi em um sono restaurador.

Mesmo quando o Salim me alcançava no bulício da redação, mesmo quando me achava premido pelo tempo para entregar a coluna ao editor, mesmo assim parava para ouvi-lo. Não por condescendência. Porque falar com ele era bom. Bom. Eis um adjetivo singelo, mas que resume à perfeição quem era o Salim. Tratava-se de um homem bom.

Ele poderia ter sido um ressentido com a vida. Afinal, jovem ainda, com vinte e poucos anos, a visão foi se lhe embaçando devido a uma doença incurável, até que, por volta da década de 60, a escuridão o envolveu para sempre. Nunca mais Salim viu o azul do céu, do mar, dos olhos de certas mulheres perturbadoras e, sobretudo, do Grêmio, a grande paixão da sua vida.

“Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”,
escreveu ele em uma faixa levada para as arquibancadas de madeira da antiga Baixada em 1946. Sete anos depois, Lupicínio Rodrigues tomou a frase emprestada e, com a sensibilidade dos poetas imortais, aplicou-lhe uma torção tão mínima quanto genial, incrustando-a no hino do clube: “Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”.

Era o suficiente para Salim entrar para a história, mas ele fez muito mais.

Mudou a forma de os gremistas torcerem, ajudou a colorir os estádios e, mais importante, portou-se, sempre e sempre, com cordialidade e bom humor, inclusive, e principalmente, diante dos adversários. Enfim, portava-se com esportividade, predicado que nem todos os esportistas possuem. Salim brincava com algum eventual fracasso do Grêmio, brincava com as vicissitudes da vida, brincava com a própria cegueira. Uma vez comentou, rindo:

– Não entendo por que todo mundo que vai falar comigo pega no meu braço. Eu não consigo é ver; andar eu consigo!

Numa noite de 1975, Salim esperava pela filha em uma rua do Centro. Um ladrão se aproximou por trás e afanou-lhe a carteira. Horas depois, o Grêmio venceu um Gre- Nal por 3 a 1, três gols de Zequinha, encerrando uma invencibilidade do Inter de quase três anos.

No Gre-Nal seguinte, Salim postou-se na mesma rua, com a carteira recheada bem à vista no bolso de trás, esperando que o ladrão da sorte aparecesse para roubá-la de novo. Valia perder uns trocados pela vitória do Tricolor.

Há alguns meses, o Salim contou que tinha acabado de retornar de um exame do coração.

– E como foi? – perguntei.

– Meu coração está ótimo. Em grande forma.

– Parabéns!

– Parabéns por quê?

– Pela saúde do teu coração, ora!

– Devias me dar os pêsames – zombou. – Porque isso significa que não vou morrer do coração, mas de todas aquelas outras doenças intermináveis, que fazem a gente sofrer. Estava torcendo era para ter um enfarte!

Salim não morreu de enfarte. Mas também não foi torturado por uma doença de longa duração. Teve uma morte suave e indolor. Um dia, simplesmente fechou os olhos e não os abriu mais. Aqueles olhos por tanto tempo apagados, que, agora cerrados para sempre, deixam o mundo que enxerga com um pouco menos de luz.

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Salim, o parceiro involuntário de Lupe

Aos 83 anos, morreu ontem Salim Nigri. Grande figura do Grêmio, entrou para a história do clube por toda a sua dedicação ao clube. Mas também por duas contribuições: criou um verso do hino e fundou a primeira torcida organizada tricolor.

Você leu aqui no blog algumas histórias dele. Mas Salim Nigri tinha muitas outras.

Em matéria de 2001,  ele me contou essas duas em especial. Dá uma olhada:

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O parceiro involuntário de Lupe

Em meados dos anos 40, Salim Nigri percebeu que havia algo de errado com seus olhos – o campo de visão, aos poucos, se lhe estreitava. Ainda não sabia, mas fora capturado por uma retinite que lhe roeria a visão com fúria lenta e invencível. Hoje, faz já três décadas que Salim convive com a cegueira absoluta.

É com alegria, porém, que lembra daquele tempo como a melhor época da sua vida.

Por causa do Grêmio.

Em 1943, com 14 anos, Salim pagou dois cruzeiros e se tornou sócio-colegial do Grêmio. Desde então, o Grêmio é a razão de sua vida. Em 45, Salim fundou a primeira torcida organizada da história do clube, o DTG (Departamento do Torcedor Gremista), rival do colorado DCP (Departamento de Cooperação e Propaganda). O DCP era comandado pelo lendário Vicente Rao, o mais famoso dos Reis Momos de Porto Alegre.

Era uma rivalidade saudável. Rao e Salim passavam o tempo troçando um do outro, mas cultivavam, antes de mais nada, uma amizade caudalosa como as águas do Guaíba.

Certa feita, Rao foi até o DTG para pedir um martelo emprestado. Era possível fazer isso naquela época – as sedes de Grêmio e Inter eram contíguas, na Rua da Praia, onde hoje é o Edifício Santa Cruz. Pois bem, Rao pediu um martelo emprestado a Salim. Que negou!

– Eu empresto o martelo e depois vocês fazem macumba nele – alegou. – Deixa que eu vou lá e prego o que vocês quiserem.

E assim fez. O chefe da torcida organizada do Grêmio foi até a sede do Inter e pregou o que os colorados queriam que fosse pregado. Uma cena pouco provável de ocorrer hoje em dia.

Salim tinha medo de feitiçaria porque os colorados eram assistidos por uma afamada mãe-de-santo, a temida Mãe Geralda. Mas os gremistas também contavam com assessoria no terreno sobrenatural. Valiam-se das artes do Homem dos Cachos, a quem muitos atribuíam a histórica conquista do Campeonato Farroupilha, em 1935.

Foi sobretudo devido a esse supertime dos anos 30 que Salim contraiu seu amor pelo Grêmio. Eram estrelas como Eurico Lara, Dario, Sardinha, Luiz Luz, Foguinho e Luiz Carvalho. Difícil não se deixar enlevar.

Ainda hoje, Salim guarda uma fita cassete que mandou gravar nos anos 80, simulando a narração radiofônica do Gre-Nal Farroupilha de 35, vencido pelo Grêmio por 2 a 0, o maior jogo da carreira do meia-equerda Foguinho. Na mesma fita há uma rara execução do hino original do clube, um ranchinho singelo com um título grandiloqüente, “Marcha de Guerra do Grêmio Porto-Alegrense”, de autoria de Breno Blauth. A letra, como a música, é… Bem, julgue você mesmo:

Abram alas, abram alas
Lá vem o quadro tricolor
Nós estamos confiantes
No nosso Onze de valor
Nosso time da Baixada
Não tem receio de nenhum
Pois a bola vai ao golo
E a torcida quer mais um
O Grêmio é o tal
Não teme seu rival
É o mosqueteiro do esporte nacional
O nosso tricolor
É um quadro de valor
ele é fidalgo, é destemido e é leal
Viva o Grêmio, viva o Grêmio
Não ganhará o jogo em vão
De conquista em conquista
Vai ser de novo campeão
Nosso time da Baixada
Não tem receio de nenhum
Pois a bola vai ao golo
E a torcida quer mais um
O Grêmio é o tal…

Esse o hino do Grêmio até 1953, quando foi substituído pela composição com a qual Lupicínio Rodrigues venceu o concurso do hino do cinquentenário. Salim tem uma participação decisiva na canção de Lupe, justamente no seu verso mais forte e conhecido. A participação, porém, não chegou a configurar a formação de uma parceria entre Salim Nigri e Lupicínio Rodrigues. O que se deu foi que, em 1946, Salim pintou com tinta branca, numa faixa de pano azul, a seguinte frase: “Com o Grêmio, onde estiver o Grêmio”. Sete anos depois, Lupicínio inverteu a sentença, deu-lhe contundência poética e criou um dos mais célebres refrões do futebol brasileiro:

Até a pé nós iremos
Para o que der e vier
Mas o certo é que nós estaremos
Com o Grêmio, onde o Grêmio estiver

O lema ostentado na velha faixa de pano deu tanta sorte que, em 1946, o Grêmio, contrariando todas as expectativas, reconquistou o Campeonato Gaúcho. Uma façanha estrondosa. O Rolo Compressor estava no seu apogeu, com um ataque que provocava devastação nas defesas mais herméticas: Tesourinha, Adãozinho e Carlitos.

A vitória foi festejada por um mês inteiro. Salim conseguiu um enorme sino de bronze, instalou-o na sede do Grêmio e, todos os dias, com determinação incansável, batia-o, para desespero dos vizinhos colorados e dos alunos de uma escola das imediações.

Aquela foi a época da boemia para Salim e sua turma. Uma turma de gremistas. Ao todo, eram 25 amigos – 24 torcedores do Grêmio e um colorado solitário, Lambari, que, no final das contas, torcia pelo Grêmio também.

– É que, quando o Grêmio perde, os meus amigos ficam chateados – explicava.

Reuniam-se todas as noites no Bar Aimoré, na Praça Ruy Barbosa, num tempo em que ainda existia vida noturna no Centro da cidade. Um dos habitués do Aimoré era o dublê de jornalista e pândego Túlio de Rose. Por obra de Túlio, a cada semana era publicada no jornal uma nota sobre o “Aimoré Tênis Clube”. Um dia, a diretoria do Aimoré TC informava os resultados de uma competição de pingue-pongue, noutro, a nomeação de um cônsul no Rio de Janeiro. Porto Alegre se inteirava dos assuntos do Aimoré, discutia as crises internas do clube e o clube só existia nas divagações etílicas dos amigos de Salim.

Certa manhã, o jornal publicou uma notícia sobre a temporada de caça à raposa realizada na “sede campestre” do Aimoré. O governador do Estado, Ernesto Dornelles, acabou de ler a matéria e gritou para o chefe da Casa Militar, o coronel da BM Max Hanke:

– Como é que tu não me avisas da temporada de caça à raposa? Tu sabes que adoro caça à raposa!

Quem disse que Max conseguiu convencer o governador de que o Aimoré Tênis Clube não passava de um botequim da Praça Ruy Barbosa? Dos “sócios” do Aimoré continuam vivos e atentos ao futebol o colorado Lambari, o Jaburu e o Maria Caxuxa. Além de Salim Nigri, claro.

Salim ainda vai ao Olímpico. Em jogos importantes pode ser visto sentado nas tribunas de honra, cercado pelos outros conselheiros, sempre com o radinho ao ouvido. É o rádio a sua comunicação com o mundo. Pelo rádio, Salim sabe do que está acontecendo com o Grêmio, imagina os gols de Tinga, refaz os vôos de Danrlei, vibra e sofre.

Salim é funcionário público aposentado, passa os dias em seu apartamento no bairro Bom Fim, ele, sua mulher Vera Luci, que o acompanha já há 50 anos, e Robertina, uma empregada que, em dias especiais, serve o jantar fardada com a camisa do Grêmio. Salim Nigri adora que ela vista a camisa do seu clube, ainda que não consiga vê-la. Garante que a sente. Deve sentir. É muito amor. É como Salim diz, sem esconder a emoção nos olhos vazios:

– Eu durmo o Grêmio, eu como o Grêmio, eu vivo o Grêmio. Eu amo o Grêmio.

*Texto publicado em ZH em 08/04/2001

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As muitas histórias do Salim

Morreu hoje Salim Nigri. Ele sofreu um AVC no dia 18 de fevereiro e estava internado no Hospital de Clínicas. Salim foi o autor da frase “Com o Grêmio onde estiver o Grêmio”. Tempos atrás, foi personagem de uma seção da minha coluna, do tanto que tem para contar.

Republico agora algumas de suas deliciosas histórias em homenagem a esse grande torcedor tricolor:

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Até a pé nos iremos em francês

Pouco antes da Copa do Mundo de 1998, a professora Janete Sessim, da Aliança Francesa, recebeu uma curiosa ligação.

Uma voz grave e melodiosa, parecida com a do Lauro Quadros, lhe perguntou sem explicação prévia:

– A senhora é gremista?

Janete inflou o peito:

– Muito!

– Então a senhora vai fazer um trabalho por amor ao Grêmio – informou a voz, febril de confiança.

Quem ligava era o Salim Nigri.

Apresentou-lhe uma proposta intrigante: a professora teria de traduzir o Hino do Grêmio para o francês a fim de que fosse gravado em fita cassete e apresentado, na Copa, como uma autêntica composição gaulesa em homenagem ao Tricolor.

– Mas como o senhor vai fazer isso? – quis saber a professora.

– Aí a senhora deixe comigo.

Janete se pôs a trabalhar. Fez uma versão da composição de Lupicínio na língua de Balzac e Zinedine Zidane e ainda arranjou outro professor da Aliança Francesa, um pianista, para gravá-la. Enquanto isso, o Paulo Sant´Ana recebia uma curiosa ligação. Aquela voz maviosa, parecida com a do Lauro Quadros, propunha:

– O que tu achas de comprar em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês?

O Sant´Ana saltou:

– Supimpa!

– Pois é o que tu vais dizer no ar, na Gaúcha, quando estiveres lá na Copa – recomendou o Salim, começando a expor o plano.

O Sant´Ana, gaiato que é, ficou encantado com a idéia. Dias depois, já da França, ele ligou para a rádio a fim de fazer seu comentário matinal.

– Imagina que encontrei aqui em Paris um disco com o Hino do Grêmio em francês! – contou.

Rogério Mendelski, o apresentador da época, duvidou. O Sant´Ana, vitorioso:

– Pois então escute.

E colocou a gravação no ar:

– Même à pied nous iroooons…

Em casa, ao pé do rádio, o Salim comemorou com a mulher:

– Olha só, velha, o Grêmio é mesmo um sucesso mundial!

*Texto publicado em Zero Hora em 06/03/2005

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Quando o Papa abençoou o Grêmio

Na primeira partida das finais contra o São Paulo, em 1981, no Olímpico recém-concluído e regurgitante de torcedores, o Grêmio teve um pênalti a seu favor. O escalado para bater foi o centroavante Baltazar. Bateu. Errou. O Grêmio acabou vencendo por 2 a 1, dois gols de Paulo Isidoro.

Baltazar, ao sair de campo, conformou-se:

– Deus está reservando algo melhor pra mim.

Estava. No dia da final, 3 de maio, Baltazar recebeu a bola de Renato Sá, matou no peito e mandou no ângulo de Waldir Peres. O Grêmio era campeão brasileiro pela primeira vez.

O Salim Nigri jura que, no momento em que a bola tocou a medalhinha de Nossa Senhora que Baltazar levava no peito, nesse momento João Paulo II assinava, no Vaticano, a bênção papal conferida ao Grêmio.

Ontem, depois da eleição do novo papa, o Salim ligou, excitado:

– Alguém tem que fazer esse papa abençoar o Grêmio! Alguém tem que fazer isso!

Tem que. Mas também haveria de ter Baltazar, Paulo Isidoro, Renato Sá…

*Texto publicado em ZH em 20/04/2005

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As luzes do Salim

Mal saído dos 20 anos, Salim Nigri começou a ficar cego. Não demorou muito para que seus olhos se apagassem para sempre. Mas hoje, aos 80 anos de idade, a vida de Salim é cheia de luz. Graças ao Grêmio. Salim passa o dia a ouvir as notícias de futebol nas emissoras de rádio.

Bem informado, planeja brincadeiras, ações de marketing e, claro, gozações com os colorados. Passa o dia a se divertir.

Salim teria todos os motivos para ser um desses tristes fanáticos que todos os dias enviam imeils mal-humorados para as redações de jornal, poderia ser um desses pobres de espírito que agridem outras pessoas ou que deixam seu dia azedar por causa de um mero jogo de futebol. Mas, não: o Salim é inteligente, criativo e vivaz.

Nunca odiou os colorados. Para ele, o Inter é adversário, não inimigo. O futebol seria muito mais saudável e muito mais bonito, se todos tivessem as luzes do Salim.

Aliás, depois da conquista do Inter, o Salim ligou:

– Então, o Inter é campeão da América?

– É…

– E antes do Inter, quem foi?

– O São Paulo.

– E antes do São Paulo?

– O Once Caldas.

– Ah, o Once Caldas foi campeão da América…

*Texto publicado em ZH em 20/08/2006

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Com a cara de Ferdinando

Às 19h02min de ontem, o dirigente mais vitorioso da história do Inter, Fernando Carvalho, entregou a taça que leva o seu nome ao presidente do Grêmio, Duda Kroeff, oficializando o clube do Olímpico como campeão do primeiro turno do Gauchão 2010. Foi o que de melhor aconteceu ao Grêmio no domingo azul da decisão. Porque em campo, na bola, quase todas as notícias foram ruins para o time do técnico Silas.

O único gol da vitória sobre o Novo Hamburgo foi um símbolo disso. Pelo seu autor: o mediano Ferdinando, que, como sempre, teve uma atuação mediana. E pela forma como ocorreu: de uma cobrança de falta da intermediária.

O Grêmio, ontem, foi precisamente assim. Foi todo ele Ferdinando. Alguns menos ainda, entre esses os dois de quem se esperava criatividade, os meias Douglas e Hugo. Vez em quando, Douglas recebia a bola e arremedava o velho Mário Sérgio: olhava para um lado e passava a para o outro. Só que, ao contrário de Mário Sérgio, errava o passe. Hugo, nem isso. Nem enfeitar, enfeitava. A melhor participação de Hugo na partida foi sofrer a falta que originou o gol de Ferdinando. Esses dois, Hugo e Douglas, deram ao Grêmio um ritmo de bolero, enquanto o Novo Hamburgo era punk rock até os ossos.

O Novo Hamburgo dominou o jogo.

Todo o jogo.

Com um minuto, o Noia já tinha dois escanteios. A tarde inteira o time do Vale do Sinos ficou rondando a área do Grêmio. Não marcou porque faltou refinamento aos seus atacantes. E porque, debaixo do travessão, havia Victor. Aos 12 minutos do segundo tempo, Rodrigo Mendes chutou forte de perna esquerda, a bola desviou na zaga e Victor defendeu com o pé. Foi o lance mais perigoso da partida.

O Grêmio construiu apenas uma chance real de marcar, aos 10 minutos do primeiro tempo, quando Borges fez de cabeça, mas em impedimento. Nesse momento, Fernando Carvalho chegava ao Estádio Olímpico, em silêncio. Assistiu a 80 minutos de um Grêmio abúlico, sem gana na marcação ou talento na criação, sem esquema ou estratégia, perdendo rebotes, sendo envolvido e não sabendo reagir.

Aos 35 minutos, mais uma má notícia para os gremistas: o goleador Borges saiu de campo lesionado. Entrou em seu lugar William, centroavante egresso do Avaí, que jogou como se no Avaí estivesse. A tarde caiu sobre Porto Alegre sem que William tivesse acertado uma só jogada. O jogo terminou com o Grêmio perfilando quatro volantes em frente à área: Rochemback, Ferdinando, Adilson e Maylson. Mário Fernandes ganhava tempo demorando a cobrar um lateral. Victor simulava falta na área. O árbitro reserva mandava que os gandulas repusessem a bola com maior velocidade.

Tudo se justificava, porque o Novo Hamburgo era o gigante do Vale dentro do Olímpico.

Quando Carlos Simon indicou quatro minutos de descontos, todo o banco do Grêmio, aflito, reclamou. Quando ele trilou o último apito, os quase 35 mil gremistas das arquibancadas, aliviados, festejaram. O constrangimento havia terminado. E trocara de lado. Estava desenhado no rosto sisudo de Fernando Carvalho, que, com evidente contragosto, mas com elogiável elegância, repassou a taça, a sua taça, ao eterno rival. Duda Kroeff era todo alegria ao recebê-la. É a primeira da sua gestão. E é sempre preciso a primeira para se ganhar muitas.

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Não mande flores para o inimigo

Tamerlão tinha o hábito de derramar prata derretida na garganta dos seus inimigos. Nunca entendi isso. Por que prata? Água quente, por exemplo, também dói, e sai muito mais em conta. Mas, não. Era só prata, prata, prata.

Tamerlão não economizava, quando o assunto era execuções sádicas.

Tamerlão gostava de intitular-se “O Flagelo de Deus”, como Gengis Khan antes dele e, antes ainda, Átila, o Huno. Tamerlão, inclusive, se dizia parente distante de Gengis Khan. Não era, mas quem haveria de contestá-lo?

Tamerlão aterrorizou o mundo durante a segunda metade do século 14. Sua política era exatamente esta: a do terror. Quando atacava uma localidade qualquer, esperava rendição incondicional. Se houvesse resistência, vae victis, ai dos vencidos, como havia dito Breno em bom latim, ao saquear Roma. A vingança mongólica era crudelíssima. Uma vez, ao invadir certa cidade asiática, Tamerlão mandou que cada um de seus mongóis lhe trouxesse duas cabeças masculinas a fim de empilhá-las em pirâmide na praça principal, prática que, aliás, já havia sido muito empregada por Gengis Khan dois séculos atrás. Assim, os soldados saíram cortando pescoços. Decepa daqui, decepa dali, decepa acolá, acabou faltando cabeça de homem. O jeito foi pegar mulheres, raspar-lhes as cabeças e apresentá-las ao chefe como se fossem de homem.

Durante outra invasão, ao deparar com inimigos mais renitentes, Tamerlão ficou irritado com a teimosia dos adversários e, como punição, emparedou duas mil pessoas vivas em uma torre. Os gritos e os gemidos dos supliciados foram ouvidos por dias, nas imediações.

Os líderes de uma cidade assediada tentaram comover Tamerlão apelando para seus hipotéticos sentimentos paternos. Reuniram todas as crianças pequenas do lugar e as levaram para um monte, imaginando que a visão dos inocentes desprotegidos amolentaria o coração do bárbaro. Tamerlão ordenou que sua cavalaria pisoteasse os bebês até a morte.

Não era bacana ser inimigo de Tamerlão
.

Vivesse hoje e fosse dirigente de futebol, ele seria um Fernando Carvalho. Não que Fernando Carvalho seja cruel, mas ele também não manda flores para a cova do inimigo. Fernando Carvalho começou a reconstrução do Inter ao compreender que havia um único adversário a ser batido: o Grêmio. Sabia, Fernando Carvalho, que só derrotando o Grêmio, solapando-o, reduzindo seu prestígio, só assim o Inter cresceria. E foi o que Fernando Carvalho fez – para o que, é verdade, contou com o auxílio luxuoso de alguns dirigentes do Grêmio.

Mas, como todo conquistador, Fernando Carvalho sabe que, às vezes, ele tem de reprimir seu impulso belicoso para dar lugar ao bom senso e à cordialidade. É por isso que, urbanamente, sensatamente, ele estará no Estádio Olímpico neste domingo, para entregar a taça que leva o seu nome ao vencedor do turno, ainda que o vencedor seja o Grêmio.

Ponto para Fernando Carvalho.

Tamerlão também faria isso. Sua crueldade era mais estratégia do que traço de caráter. Cronistas medievais atestam que ele era um homem que valorizava a cultura. Antes de liberar a pilhagem, postava sentinelas às portas das casas de artistas, artesãos, escritores e historiadores, protegendo-os da rapacidade da soldadesca. Depois, os enviava para trabalhar em sua capital, Samarcanda, cidade que fica onde hoje é o Uzbequistão.

O lema de vida de Tamerlão, inclusive, poderia servir de dístico para qualquer intelectual moderno. Estava gravado em seu sinete de governo: “rasti rusti” – em turco, “a verdade é segurança”.

Certa feita, ao tomar a cidade de Chiraz, Tamerlão chamou à sua presença Hafiz, o maior poeta da Pérsia. Hafiz apresentou-se, cheio de temor. Tamerlão revelou que apreciava poesia, mas acrescentou estar deveras agastado com um verso escrito pelo poeta. O seguinte:

“Se aquela ingrata turca de Chiraz em suas mãos meu coração tomara,
Eu daria, pelo sinal do rosto dela, Samarcanda ou Bucara”.

Após declamar os versos, Tamerlão esbravejou:

– Então, gasto tempo, esforço e sangue para dar segurança a estas cidades, e você pretende trocá-las pela pinta do rosto de uma jovem?!?

Hafiz rebateu, sem vacilar:

– Essa minha generosidade excessiva vive me causando problemas…

Tamerlão riu à larga com a tirada e, depois de cumprimentar o poeta, despediu-o com presentes dignos de rei.

Grandes conquistadores têm senso de humor.

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