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Apalparam as costas de Bel - 2° capítulo

Bel usava um vestido de verão aberto na parte de trás. Sabia que suas costas eram atraentes. Sabia-se ela inteira atraente.

Loira, lábios de gomo de bergamota poncã, o corpo moldado por três dias de natação por semana, Bel podia arruinar um homem, se quisesse. Até arruinou um, certa vez: André, um advogado que perdeu tudo por ela, tudo!, mas que ainda hoje lhe lamberia as solas dos escarpins, se Bel pedisse.

André também estava no elevador quando a energia faltou, e sofria. A razão do sofrimento?

Bel.

Pudera: Bel bebia o capitoso licor dos 27 anos de idade. Era ainda jovem e, por jovem, seu corpo possuía carnes tenras e frescas como as manhãs de primavera nos altos dos Alpes. Admirá-la era como admirar uma felina se espreguiçando, era provar um pedaço da natureza indomada, era mastigar um naco sumarento da fruta mais açucarada. Ao mesmo tempo, havia lucidez naquela beleza. Bel já acumulara a experiência de uma mulher que sabe o que fazer, como fazer e, sobretudo, com quem fazer. Sim, Bel sabia avaliar um homem, sabia quando ele poderia satisfazê-la em seus desejos mais recônditos.

Ou quando não passava de uma fraude.

Por ironia, Bel atravessava uma fase de indecisão a respeito do seu próprio marido, o supervisor Noel. Será que Noel a merecia?

Será que ela não devia ceder aos seus impulsos, que eram tantos? A seus quereres, tão pulsantes? Será que Noel não passava de uma fraude bem-enjambrada?

Bem-enjambrada, sim, poder-se-ia dizer isso do supervisor Noel, porque ele era um homem desejado pelas mulheres. Não apenas por ser moreno, alto e ter porte atlético, mas porque jamais se intimidava diante de uma fêmea da espécie. Quando queria uma, sempre (sempre!) tentava conquistá-la.

Noel vivia para as mulheres, essa a realidade. No exato instante em que avistava uma mulher pela primeira vez, podia ser diante da gôndola de repolhos do supermercado, sobre a franja do meio-fio da calçada, numa curva da fila do banco ou entre os goles vodka com Red Bull de uma festa, não interessava onde nem como, naquele mesmo segundo, Noel cogitava: essa eu levaria para a cama? Ou não levaria?

Se a resposta fosse “sim”, a mente treinada de Noel começava a trabalhar no sentido de avaliar suas chances de colocar o projeto (levá-la para a cama) em prática. Ela parecia minimamente interessada? Havia possibilidade de abordá-la? Se houvesse, qual a melhor estratégia a empregar?

A partir de então, Noel tentava. E às vezes, muitas vezes, conseguia.

Quando a escuridão se fez no claustrofóbico espaço do elevador, o supervisor Noel dava sequência a mais um de seus planos, este um pouco menos sofisticado do que os de costume. Estava bem à frente de Bel. Logo, dificilmente seria ele o dono da mão que a acariciara nas sombras. Na verdade, no exato segundo em que a energia faltou, o supervisor Noel nem sequer pensava nas costas lisas de sua mulher Bel.

Pensava era na bunda de Bruna.

CONTINUA…

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Apalparam as costas de Bel - 1° capítulo

Quando apagou-se a luz e o elevador parou, Bel sentiu o toque daquela mão em suas costas.

Não se tratava de toque casual, não podia ser acidente, engano causado pela escuridão.

Não.

Era uma mão resoluta que a afagava. Uma mão que sabia o que fazia.

Apalpou-a, a mão macia e firme, doce e decidida, a mão cheia de longos dedos apalpou-a dos alicerces da coluna até o terraço da nuca, e o fez numa escalada vertiginosa, espalmada, os dedos bem abertos, quase sôfregos.

Apalpou-a com vontade de a apalpar.

A princípio, Bel assustou-se com o toque, suas costas ficaram em côncavo, seu peito ficou em convexo, sua boca ficou em círculo, de sua garganta quase pulou um ó, mas o ó não pulou, dissolveu-se nas papilas gustativas do fundo da língua, Bel se conteve, parou, esperou e… gostou.

Era bom sentir o toque daquela mão em suas costas. Bom… Tanto que queria mais. Ali, sob uma colcha de escuridão, teve vontade de pedir: “Me apalpa… Me apalpa…” Mas não pediu. O freio milenar da Civilização a impediu.

Restou a dúvida: de quem seria aquela mão?

CONTINUA…

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Para quem entende de futebol

Todas as pessoas que eu conheço entendem de futebol.

Todas as pessoas que eu não conheço também.

Refiro-me a amigos, vizinhos, parentes, contraparentes e torcedores, leitores, ouvintes, telespectadores e taxistas e designers e consultores de empresas e presidentes da República, todo mundo fala de futebol com muita autoridade. Muita segurança. Pudera: já jogaram ou jogam bola, acompanham as notícias dos seus times, vão ao estádio, debatem, consomem taludos nacos do dia pensando a respeito. Logo, entendem mesmo. E, com frequência, gabam-se dos seus conhecimentos. O curioso é que nunca ouvi ninguém dizer acerca de outro:

– Este entende de futebol!

O que me leva a crer que todo mundo entende de futebol, mas todo mundo acha que ninguém mais entende de futebol.

Isso, o fato de todo mundo entender de futebol, é uma aflição para quem tem de falar ou escrever sobre futebol, como este seu escravo dos erres duplos e dos cedilhas. Porque tudo que a gente escreve ou fala sobre futebol vai encontrar contestação. E contestação abalizada. Volta e meia, contestação agressiva.

É chato.

Alguém pode me contestar, dizendo:

– Vai dizer que não queria contestação!

Ao que respondo, entre melancólico e conformado: não queria…

Mas ela ocorre, paciência.

Sei que existe uma forma de esquivar-se um pouco dessa fúria contestatória. É a ardilosamente empregada pelos comentaristas esportivos e pelos técnicos. O jargão. Você fala em duas linhas de quatro, em flutuar atrás da zaga, em stopper. Você cita o ferrolho suíço e o dobrevê eme. Você arrola livros de tática escoceses. É o conhecimento exclusivo dos comentaristas e dos treinadores. O cara olha para um jogo e enxerga movimentos premeditados, as peças se deslocando conforme uma vontade superior, as causas de tudo. O problema é que às vezes um virtuose ou um perna de pau vai lá e desmonta todo aquele edifício teórico num único lance, seja uma bola de trivela no ângulo, seja uma atrasada canhestra para o goleiro. Uma falta de consideração a tanto estudo e formulação, mas é aí que entra a parte técnica, outra delícia dos analistas, tanto os amadores quanto os profissionais. Que prazer existe em reconhecer qualidades ou defeitos escusos em um jogador de futebol!

Verdade que se instaurou uma espécie de ética entre os analistas profissionais: a de restringir ao mínimo o exame técnico pessoal dos jogadores. Fica muito elegante, e eleva o futebol: tira o personagem de cena e faz com que cada bola na trave tenha uma razão histórica-sociológica-estratégica. Baggio chuta o pênalti por cima do travessão e a Geração Dunga, de maldita, torna-se vitoriosa. Zico chuta o pênalti no canto, o goleiro pega, e a Geração dos anos 80, de parâmetro de virtuose, vira símbolo de fracasso.

É muito recompensador traçar as razões do fracasso ou do sucesso, sobretudo depois que ocorreram. Uma espécie de determinismo histórico de chuteiras. Mas a discussão técnica acaba sendo mais forte, porque os meninos cresceram chamando um ao outro de ruim ou de bom de bola. Então, muitas vezes a discussão elevada perde para a conclusão crua, e o analista conclui:

– Este centroavante é um pereba.

Se bem que, de uns tempos para cá, até os perebas encontraram remissão, graças a outra valência bastante admirada no futebol moderno: a tal da garra. O espírito de luta, a alma guerreira, todas aquelas referências belicosas que estão aquém do talento.

Eu aqui também dou importância à tática, à garra e à técnica, mas advirto: não muita. E agora peço que o leitor preste ainda mais atenção às frases que se derramarão linhas abaixo, porque sou como todas as pessoas que conheço: acho que entendo de futebol. Menos por me interessar pelo tema e mais pelo tempo de convívio com o futebol profissional. Suponho que tenha aprendido algo em tantos anos. Arrogo, por exemplo, a pretensão de conseguir identificar um time vencedor, quando o vejo. E um time vencedor tem que ter algo mais do que tática engenhosa, técnica refinada e suor abundante.

Tem que ter personalidade.

Todos os times vencedores são formados por alguns, ou muitos, jogadores de personalidade forte e razoável inteligência. Cito dois: o Inter dos anos 70 tinha Figueroa, Claudio, Marinho, Falcão, Paulo César, entre outros; o Grêmio dos anos 90 tinha Adilson, Roger, Goiano, Dinho, Mauro Galvão, e tantos mais.

Este perfil é o que Mano Menezes está construindo no Corinthians. William, Roberto Carlos, Tcheco, Ronaldo e Iarley estão no clube para ganhar a Libertadores. Só. Se Mano conseguir fazer com que eles se unam em torno deste objetivo, será campeão.

Eu, imodesto como você, afirmo que não existe uma fórmula para um time de futebol tornar-se vencedor. Não, pelo menos, uma única fórmula. Existem várias.

Mas também afirmo que existe uma condição para um time ser vencedor: dentro de campo, é preciso ter algo além de técnica, tática e garra. É preciso um pouco de reflexão. Um pouco de entendimento.

Você sabe: a velha inteligência.

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Os presos do Brasil

Prende-se demais neste país.

Prende-se errado.

A prisão é um instrumento punitivo mais ou menos recente no mundo ocidental. Consagrou-se com a Revolução Francesa, como quase todas as instituições do Estado moderno. Antes do século 18, os criminosos não eram presos. O Estado já se vingou do infrator, e o fazia com tanta crueldade que a Lei de Talião, o “olho por olho, dente por dente”, foi considerada um avanço - pelo menos estabelecia-se uma relação entre o delito e a punição. Com a sofisticação da Civilização, houve outros avanços, embora lentos. A ninguém ocorria a ideia de restringir a liberdade do condenado.

O buraco no chão em que Herodes atirou João Batista, a masmorra na qual os legionários de Nero aprisionaram Pedro, a caverna em que Sócrates recebia Platão durante o período do seu julgamento, cada cárcere desses tinha a mesma função: reter o acusado até que fosse proferida a sentença. Assim, a pena de João Batista foi a decapitação, a de Pedro ser crucificado de cabeça para baixo no Coliseu e a de Sócrates beber um cálice de cicuta. A nenhum deles cabia a possibilidade da reclusão forçada.

Na Idade Média, a mesma coisa. Não havia penitenciárias. As masmorras serviam para que o acusado esperasse pela condenação, que não era raro de mutilação, açoite, estripamento, humilhação pública ou , se o sujeito tivesse sorte, a morte rápida.

A restrição de liberdade surgiu como uma medida humanitária, portanto. E foi. Mas está desgastada.

A Arte, que está sempre à frente do Direito, ofereceu um exemplo bem ilustrativo disso, e o melhor: com base na realidade. No filme Meu Nome não é Johnny, o protagonista, João Estrela, é preso por tráfico de drogas. Ele de fato é um traficante, mas a juíza que examina seu caso percebe que se trata mais de um aventureiro do que de um traficante profissional. Pela letra fria da lei, teria de condená-lo à reclusão por longo período.  Mas resolve lhe imputar uma pena alternativa: o recolhimento por dois anos a um manicômio judiciário. É o que lhe salva a vida. Saído do manicômio, João Estrela passou a trabalhar e reintegrou-se à comunidade. Tivesse sido preso, transformar-se-ia irremediavelmente em um bandido.

É o que causam certas condenações. O sujeito comete um delito, mas não é bandido. Talvez seja um projeto de, mas ainda não é. Preso, torna-se um. Pelo convívio com assassinos, estupradores, sequestradores e traficantes, por ter de sobreviver nesse meio e, também, porque ele passa a ver-se como um bandido. Ele foi reduzido a tal, agora é esta a sua vida. Ele não tem alternativa, porque suas referências sociais são as do presídio. As do mundo do crime.

O debate que levanta o Rio Grande, o chamado “prende-solta”, é  um debate atrasado e triste. Nunca se prendeu tanto no Brasil, nunca os presídios estiveram tão lotados, e nunca a criminalidade foi tamanha. A repressão do Estado é importante e tem de ser bem aparelhada. Mas a pena de restrição de liberdade não há que ser a principal forma de punição. A Justiça precisa dispor de outras ferramentas punitivas. Não porque é mais humano. Não para que se faça bondade com o infrator. Mas porque é mais inteligente.

* Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora

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Fatos do Fake

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O Beatle que não foi Beatle

Vi uma entrevista com o Pete Best, dias atrás. Sou fascinado por sua história, cada vez que ele aparece na TV fico mesmerizado.

Pete Best é o Beatle demitido. Foi um dos Beatles pioneiros, estava na formação originalíssima da banda, com os gênios George, Paul e John. Os quatro se reuniam na casa da mãe de Pete para ensaiar. Tocaram juntos durante dois anos, juntos viajaram para Hamburgo, numa temporada que marcou o amadurecimento público do grupo. Eram tão amigos, que, numa noite hamburguesa, estando eles sem dinheiro, Pete e John assaltaram um marinheiro e lhe tomaram a carteira estufada de marcos. Ou acharam que a haviam tomado: quando voltaram ao hotel, um perguntou ao outro se estava com a carteira, e nenhum estava.

Apesar de toda essa intimidade, George, Paul e John achavam que Pete não era bom o bastante. Além disso, havia a mãe de Pete. Mona, esse o nome dela. Era uma mulher de uns 30 e tantos anos, muito bonita e de forte personalidade. Arrogou a si própria a função de conselheira e mentora da banda. Os Beatles iam ensaiar na casa dela e ela ficava dando palpite. Metida. Tão metida que se meteu com um rapaz que funcionava como uma espécie de produtor do grupo e teve um filho com ele. O pai de Pete, bonzinho, assumiu a criança e lhe acoplou o sobrenome. Mais um Best no Reino Unido.

George, Paul e John, personalistas e até algo chauvinistas, não apreciavam as intervenções não solicitadas da mãe de Pete. Mas como dizer isso ao filho dela? É provável que, se Pete fosse um baterista um pouco mais carismático, eles o teriam mantido no grupo. Mas, aparentemente, não era. Ou pelo menos não era tão concentrado e tão brilhante quanto seus amigos.

E havia Ringo logo ali.

A história de Ringo é sen-sa-cio-nal. Ringo era de família pobre. Quando tinha três anos, o pai dele embarcou num dos navios que aportavam em Liverpool e foi-se mar afora, para nunca mais retornar. Ringo virava-se como podia na periferia da cidade, até que, aos sete anos, foi acometido de uma doença grave. Passou um ano no hospital, meio morto. Quando voltou ao colégio, sentiu o atraso. Os colegas o humilhavam, ele não conseguia aprender. Começou a matar aula. Aos 12 anos, era quase analfabeto. Uma prima decidiu ensiná-lo em casa, Ringo se entusiasmou, progrediu, mas, aos 13 anos, contraiu tuberculose. Mais um ano no hospital.

Alguém poderia dizer que foi muita falta de sorte. Ao contrário. Como Ringo já estava habituado ao ambiente hospitalar, comportava-se com desenvoltura entre doentes, médicos e enfermeiras. Em pouco tempo, organizou uma bandinha com os pacientes, improvisou umas baquetas e arvorou-se como baterista. Ao sair do hospital, o padrasto, que era um bom homem, presenteou-o com uma bateria usada.

Foi assim que Ringo aprendeu a tocar.

Foi a partir daí que se tornou um Beatle e entrou para a História.

Quer dizer: se não tivesse ficado doente da primeira vez, provavelmente não se sentiria à vontade para fazer a banda na segunda vez que ficou doente. Logo, as duas doenças foram fundamentais na construção do destino estrelado de Ringo Star.

Já Pete Best, comunicado de que o tinham excluído da banda, e excluído- justamente às vésperas da assinatura do primeiro contrato que os elevaria ao firmamento do rock, Pete Best literalmente recolheu-se à insignificância. Trabalhou como funcionário público, tentou o suicídio abrindo o gás do banheiro, foi salvo pela mãe e retornou à sua vida comum. Está casado há 45 anos com a mesma mulher, ainda mora em Liverpool e montou sua própria banda, a Pete Best Band, com a qual excursiona pelo mundo, ganhando algum dinheirinho, afinal. Na entrevista que assisti, falava com voz grave e melodiosa. Trata-se de um senhor grisalho, com o bigode frondoso dominando o rosto risonho e melancólico. Diz não saber por que foi demitido da maior banda pop de todos os tempos, diz que o importante é ter saúde, diz que é feliz.

Não deve ser.

Imagino que nenhum dia da sua vida termina sem que ele pense que poderia ter sido um Beatle. Pior: que ele FOI um Beatle, e agora não é mais. O único Beatle fracassado da banda mais bem-sucedida da História.

Essa é a diferença entre os vencedores e os perdedores. Essa a atual diferença entre as direções do Grêmio e do Inter. Alguns nascem para ser Ringo Star. Outros sempre serão Pete Best.

* Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

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Grêmio: é hora de terra arrasada

Um jogo como o Gre-Nal, que na verdade é o único tipo de jogo que importa, uma decisão nervosa em que se diferenciam os homens dos meninos e os tigres dos ratos, a essência do futebol, o resumo de um trabalho e de um pensamento, um jogo como este serve para que identifique quem vingará e quem não vingará numa equipe. O Gre-Nal de domingo passado foi especialmente esclarecedor para o futuro do Grêmio, já que o Inter que entrou em campo já é conhecido desde o ano passado. Esse Grêmio vai fracassar. Por vários motivos. O principal deles: trata-se de um grupo sem personalidade. Quem são os líderes deste Grêmio? Victor, um goleiro introspectivo; e Souza, um folclórico. Não existe um William, um Sandro Goiano, um Tcheco, um Gavillán. Verdade que o Inter só tem Bolívar e, no fundo do pântano da reserva, Clemer. Mas também tem Fernando Carvalho, atento como um dobermann, do lado de fora do campo. Mas há outras razões para o óbvio fracasso do Grêmio que ocorrerá nos próximos 11 meses. Uma delas são os jogadores medianos que barram as boas promessas. Ferdinando é um Diogo. A diferença é que um veio do Avaí, o outro do Figueirense. Mas Ferdinando não sairá do time, ele é da confiança do treinador. Adilson é incensado como jogador “tático”. Chamar um jogador de tático é um eufemismo, todo mundo sabe. Adilson e Ferdinando seguirão jogando, enquanto Fernando e Maylson seguirão no banco. Fernando e Maylson são melhores do que eles? Não é certo que sejam. Mas é certo que não são piores. O mesmo ocorrerá com Hugo e Douglas. Douglas nem jogar jogou, mas já sei como jogará: trata-se, como Hugo, de um acadêmico. Só poderia ser o centro técnico de um time como o Grêmio se tivesse atrás dele motores como um William Magrão, um Rafael Carioca, um Tinga, jogadores que fazem o time correr. Por tudo isso, e por mais alguns pequenos motivos, o Grêmio fracassará. Em maio, Rospide deve assumir o time a fim de livrá-lo da tortura da zona de rebaixamento no Brasileirão. A não ser, é claro, que a direção tomasse a atitute correta, que é a atitude radical, fazer terra-arrasada, varrer para fora do Olímpico quem não vai funcionar antes que seja tarde demais. E já é quase tarde demais.

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Café TVCOM

Aí vai a íntegra do Café TVCOM, exibido neste sábado:

Assista abaixo:

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O gol que entrou

(Fotos: Fernando Gomes)  Logo no início do clássico, o lateral-direito Nei, do Inter, dá um carrinho sobre Lúcio com força suficiente para levantá-lo do gramado: clássico de Erechim teve apenas lances isolados de violência

Por que o Inter venceu o Gre-Nal de ontem, por 1 a 0, em Erechim? A pergunta cabe, porque o jogo foi em tudo igual: nos esquemas táticos das equipes, nas circunstâncias técnicas e até nos lances de gol. E o empate por pouco não ocorreu aos 48 minutos do segundo tempo, quando Maylson acertou um chute poderoso no lado de dentro da trave de Lauro. Por que, então, um dos times venceu? Estrela da dupla Vitorio Piffero & Fernando Carvalho, que vem sendo vitoriosa desde meados da primeira década do século? Azar de Duda Kroeff e Luiz Onofre Meira, que há um ano alcançam derrotas que se originam de quase vitórias? Ou quem sabe o detalhe mais cartesiano dos recursos que os técnicos tinham no banco de reservas?

Foi um pormenor desses, porque Grêmio e Inter pareciam gêmeos univitelinos, no clássico do Alto Uruguai. Foram comandados por técnicos estreantes em Gre-Nal, que armaram seus times no mesmo esquema: um 3-5-2 cauteloso, sem ser defensivo. Os quatro laterais se comportaram da mesma forma: apoiaram bastante, jogaram bem, foram perigosos. Os meias, Souza no lado do Grêmio, Giuliano no do Inter, atuaram como têm de atuar meias – comandaram seus times, mostraram técnica e centralizaram os lances de ataque. Já os atacantes, bem vigiados pelo trio de zagueiros do adversário, não tiveram muita efetividade. Tanto que dois deles acabaram substituídos no segundo tempo, e por aí passou o resultado da partida.

Estando assim tão parecidos, os dois eternos rivais tiveram produção… parecida. O domínio da partida alternou-se o tempo todo entre um e outro. O jogo começou com o Grêmio mais impetuoso. Com menos de um minuto, Souza cruzou da direita, a bola raspou em Jonas dentro da área e saiu. Aos dois minutos, Lúcio recebeu de Souza, invadiu a área, chutou forte e Lauro espalmou a escanteio. Na cobrança, Jonas cabeceou no travessão.

A resposta do Inter acabou na rede: Giuliano marcou o gol, mas antes havia ajeitado a bola com a mão e o árbitro anulou a jogada. Eram seis minutos, e o Gre-Nal já estava fremente. O Inter construiu outras boas chances de gol na sequência: Índio cabeceou com perigo aos 15 e Victor defendeu.

Aos 22, Taison chutou forte da entrada da área e Rafael Marques tirou de cima da linha. Nei cabeceou para baixo aos 24 e Victor defendeu de novo.

Aos 29, a vez do Grêmio: Jonas roubou a bola de Fabiano Eller, entrou na área, passou para Borges, que girou em cima do zagueiro e chutou fraco, para a defesa de Lauro. Três minutos depois, Lúcio passou para Jonas, que, num chicotaço desferido com a chuteira verde-limão, chutou por cima.

Grêmio e Inter se assemelharam até em seus pontos fracos. Dois dos quatro volantes, Adilson e Guiñazu, estiveram muito mal. Adilson errando passes, protagonizando bisonhas tentativas de dominar a bola e, em um de seus lances equivocados, recuando com tanto perigo para Victor, que o goleiro preferiu deixar que a bola saísse para escanteio a dominá-la com o pé. Já Guiñazu, embora tivesse demonstrado a garra usual, não repetiu a vitalidade usual. Foi driblado com facilidade, cometeu muitas faltas, sobrecarregou Sandro.

Foi no segundo tempo que se deu a pequena, e fundamental, diferença a favor do Inter. A torcida do Grêmio gritava por Hugo, Hugo, Hugo. O técnico Silas a atendeu. Erram ambos, técnico e torcida. Hugo entrou no lugar do goleador do time, Jonas, que vinha jogando bem. E Hugo foi sonolento, modorrento, um estafermo zanzando em algum lugar mais ou menos situado entre as intermediárias. O Grêmio, então, perdeu toda a agressividade que tinha.

Já a torcida do Inter pedia por Andrezinho, Andrezinho, Andrezinho. O técnico Fossatti atendeu. Acertaram ambos, técnico e torcida. Andrezinho deu mais movimentação ao Inter, foi vibrante, interessado e, aos 35 minutos, deu um lançamento em profundidade que bateu na nuca de Edu. A bola sobrou para Alecsandro, que chutou forte e rasteiro, no canto: era o 1 a 0 mínimo, porém definitivo. Mais uma vitória do Inter, que desde 2001 não perde clássico em Gauchão. Mais uma vitória de quem sabe como fazer sua estrela brilhar.

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O apanhador nos campos do Gauchão

A morte de Salinger fez-me lembrar de Otto Maria Carpeaux.

Carpeaux era austríaco. Até os 40 anos de idade não sabia falar português. Mas foi autor da mais importante obra sobre literatura já publicada no Brasil, entretecida por um texto tão escorreito, tão saboroso e tão consistente que rivaliza com os melhores autores analisados. Que aliás não foram poucos. Neste livro, “História da Literatura Ocidental”, Carpeaux examina a obra de nada menos do que oito mil escritores, dos antigos clássicos do teatro grego aos fundadores do novo jornalismo norte-americano. Tenho lá em casa uma edição primorosa, oito tomos encadernados em couro, o primeiro deles da espessura de um tijolo de seis furos, o último só com o índice remissivo. No penúltimo volume, Carpeaux fala de Salinger. Costura um parágrafo de três dedos de altura sobre o americano, incrusta-lhe elogios ao estilo, avança uma linha no parágrafo seguinte, e só.

Mais ou menos duas décadas depois de compor essa breve análise, lá pelos anos 70, Carpeaux escreveu novamente sobre Salinger. Foi para uma luminosa série da revista “O Cruzeiro” a respeito de grandes romances da literatura universal. Carpeaux faz a exegese de “O Apanhador no Campo de Centeio”.

E destrói o livro.

Considera-o infantil, quase irrelevante. Até o estilo, outrora incensado, merece-lhe considerações desairosas.

Entendi a crítica de Carpeaux. Porque sei quem ele foi. Imagine que esse homem aprendeu a escrever em português em um ano e, depois de ter aprendido, o fazia com a mestria de um Machado de Assis.

Carpeaux, pessimamente comparando, era o oposto de Manga, o ex-goleiro da dupla Gre-Nal. Manga saiu do Brasil para jogar no Nacional, de Montevidéu. Em solo uruguaio, ao entrar em contato com a língua de Cervantes e Penélope Cruz, ocorreu um fenômeno estranho com o goleiro: ele desaprendeu a falar o português e não aprendeu a falar o espanhol. Mesclou as línguas e passou a falar uma terceira, o manguês. Carpeaux, ao contrário, falava 11 línguas, cada qual com maior fluência, e essa capacidade o fez aprender a falar e escrever em português como se vestisse o fardão da Academia.

Um homem desse quilate não podia ter contato algum com o universo abordado por Salinger em “O Apanhador no Campo de Centeio”. Salinger escreve sobre a sociedade americana, em geral consumista, fútil e rasteira. Os dramas do protagonista de O Apanhador… não dizem nada a Carpeaux, um erudito de formação germânica, que contava ter sentado a dois metros de Kafka num café da vibrante Berlim do entreguerras, que tinha o ouvido apurado pelas sinfonias de Beethoven, que tinha o gosto literário cevado nos clássicos do Velho Mundo. Seria ilógico Carpeaux gostar do livro de Salinger.

Mas, e este mas é que importa, mas então por que Carpeaux não criticou Salinger em sua primeira análise, urdida no monumental “História da Literatura Ocidental”?

Tenho cá minha tese, reforçada pela postura de outros críticos, estes não tão instrumentados quanto Carpeaux: os críticos de futebol que desaprovaram a realização do Gre-Nal em Erechim. Durante a semana, ouvi gente reclamar que um Gre-Nal no Interior é menos seguro e mais caro do que um ocorrido na Capital.

Ora, o Gre-Nal do Interior é uma aragem de renovação que não acontecia no Campeonato Gaúcho há pelo menos 20 anos. Tirado de seu ambiente rançoso, o clássico se tornou de novo um jogo civilizado, de convivência amistosa de torcidas rivais.

Qual é, pois, o motivo da crítica? O mesmo pelo qual Carpeaux criticou “O Apanhador no Campo de Centeio”: por mau humor. Quando escreveu para O Cruzeiro, Carpeaux experimentava, no Brasil, os efeitos de uma ditadura. Justo ele, que, no fim dos anos 30, viera para o Brasil fugido de uma ditadura. Claro, o regime militar brasileiro não se comparou em rigor e crueldade ao nazismo, mas um e outro continuaram sendo… ditaduras. Um intelectual refinado como Carpeaux só pode se sentir mal em uma ditadura, só pode ficar amargo. Era como, suponho, ele se sentia, quando releu O Apanhador: sentia-se amargo. Mas o livro de Salinger, como o Gre-Nal de Erechim, não tem culpa da amargura de quem quer que seja. E um e outro, livro e jogo, seguirão suas trajetórias de sucesso. Por mais preparado que possa ser quem faz a crítica.

* Texto publicado hoje na página 43 de Zero Hora.

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Fatos do Fake

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Formas de crueldade

Dois brasileiros assaltaram um homem, dias atrás, e ele não tinha dinheiro para lhes dar, então eles o manietaram e atearam fogo em suas mãos. Isso ocorreu ainda esta semana, no interior do Estado.

Também no Interior, mais exatamente em Erechim, outros brasileiros pegaram outro homem e, por algum motivo, deceparam-lhe os dois braços e as duas pernas e o deixaram largado em um bueiro. Isso foi na semana passada.

Se lesse em um livro de história que algo desse quilate havia sido cometido na Antiguidade ou na Idade Média, suspiraria pelos tempos de trevas que já foram atravessados pela Humanidade. Mas essas barbaridades foram perpetradas agora, sob as luzes do século 21, bem aqui no Rio Grande do Sul, e os autores desses atos são brasileiros, como a maioria das pessoas que conheço.

Suponho que as vítimas desses brasileiros devam ter sofrido atrozmente, mas nem demos muita importância a elas. Mereceram citações pálidas na imprensa e no dia seguinte já estavam esquecidas. Não sei de ninguém que se comoveu pelo que passaram, ninguém que chorou por sua dor.

Há algo errado conosco.

-

Uma vez, Noé tomou um porre. Já não estava mais confinado na Arca, a havia deixado encalhada no alto do Monte Ararat, na distante Turquia. Desceu à terra, cultivou-a, plantou a vinha e fermentou o vinho. Exagerou ao experimentar sua própria produção, o venerando patriarca, e aí sabe como é: saiu dizendo para todo mundo te considero pra caramba, fez um strip e desmaiou de bêbado, peladão.

Um de seus filhos, Cam, flagrou a fiasqueira do velho, achou a maior graça e correu para contar a Sem e Jafé, seus irmãos. Sem e Jafé, porém, ficaram com pena de papai, tomaram um manto e com ele cobriram pudicamente Noé, tendo o cuidado de entrar de costas na tenda em que ele roncava, para não vê-lo nu.

Ao acordar, Noé ficou sabendo do comportamento de seus filhos. Enfureceu-se com Cam. Talvez até além da conta, suponho que por causa da ressaca de vinho, que, como se sabe, é a pior das ressacas. Esbravejou:

– Que seu filho seja escravo dos escravos de seus irmãos!

Os hebreus diziam que esse filho de Cam chamava-se Canaã, de quem descenderam os cananeus. Já os árabes dos séculos 8 e 9 garantiam que o neto amaldiçoado de Noé chamava-se Cush, que, em hebreu, quer dizer “preto”. A partir de Cush foi fundada a nação Cuxe, que era a Núbia, mais ou menos onde hoje fica o Sudão.

Essa suposta descendência forneceu aos árabes muçulmanos uma engenhosa justificativa para escravizar os negros africanos durante a Idade Média, já que os árabes, bem como os hebreus, se originaram de Sem, enquanto os indo-europeus vieram de Jafé. Logo, os negros africanos tinham mesmo de ser escravizados pelos semitas e pelos europeus – de acordo com os semitas e os europeus, claro.

Mas o que interessa agora não é a lógica escravagista, e sim a maldição de Noé. Ele a lançou sobre o filho que o expôs. Noé não tinha feito mal a ninguém, apenas havia bebido demais. Cam, no entanto, o ridicularizou e deu publicidade à humilhação do pai. Esses que filmam e fotografam com celular e expõem as pessoas na internet, esses não fazem hoje como fez o desgraçado Cam? Não merecem eles também uma maldição?

* Texto publicado hoje na página 2 de Zero Hora.

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