Ouça o Sala de redação desta terça-feira.
Ouça o Sala de redação desta terça-feira.
Todas as pessoas que conheço entendem de futebol, com a provável exceção da Cláudia Laitano.
Os milhares de táxis que já tomei na vida eram dirigidos por motoristas que entendiam de futebol. Os garçons que colocaram chopes gelados diante de mim nessas tantas noites da vida, todos eles entendiam de futebol. Meus colegas jornalistas, os políticos que entrevistei, meus amigos advogados, juízes, policiais, médicos, arquitetos, engenheiros, empregados domésticos, vigias noturnos, porteiros de edifício, faxineiras, estudantes e desempregados, todos com os quais já falei algum dia entendem de futebol.
E é verdade. Toda essa gente entende de futebol. Pelo menos em alguma medida. É fácil entender de futebol, até porque as pessoas estão sempre lendo sobre futebol e assistindo a programas de rádio e TV sobre futebol e discutindo sobre futebol como se fosse a coisa mais importante das suas vidas.
O problema é que o futebol é como o jornalismo. Há muita gente que lê jornal todos os dias, vê TV e ouve rádio todos os dias, acessa sites e blogs todos os dias e, por isso, acha que entende de jornalismo. Não entende. Sabe o que é bom e o que é ruim no jornalismo, mas não entende de jornalismo. Para entender de jornalismo você tem que ter alguma intimidade com as entranhas de uma redação, de preferência uma redação de jornal.
Isso não quer dizer que todas as pessoas que têm intimidade com uma redação de jornal entendem de jornalismo. Não. Há muitos jornalistas que não entendem de jornalismo.
O jornalismo, como o futebol, é um mundo. Mas há um tipo de jornalista que, pelas características da sua atividade, é quem de fato conhece a alma da profissão.
É o repórter.
Nem todo repórter entende de jornalismo, mas só o repórter, só aquele que saiu à rua com um bloquinho e uma caneta na mão, esperou quatro horas para colher uma única frase do vereador, entrou na vila que nem a polícia entra, fez perfil de miss e plantão de polícia, terminou o texto sobre o jogo cinco minutos antes do jogo terminar, entrevistou o gari e o governador, perguntou tudo sobre as variações do câmbio e os poderes da superbactéria, cobriu exposição de flores e assembleia de grevistas, só quem passou por isso e escreveu sobre isso esteve, realmente, nas entranhas do jornalismo.
Da mesma forma, só aquele que ganhou a camisa titular no recôndito do vestiário cinco minutos antes da partida e ouviu o som metálico das travas da chuteira batendo no piso do túnel e sentiu o bramido da torcida como se fosse um gladiador ouvindo o urro dos romanos sedentos de sangue e viu seu nome ser exaltado ou repudiado nos jornais, só quem passou por isso conhece a alma do futebol profissional.
O jogador profissional e o repórter, esses estão dentro da medula das suas atividades. Os outros todos, por mais que saibam, sempre terão dificuldade de sentir o que o repórter e o jogador um dia sentiram. O que significa que, pensando bem, a maioria das pessoas pensa que entende, mas não entende o futebol. Vivem todos na ilusão do conhecimento. Com exceção da Cláudia Laitano.
* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 21/05/13.
A direção do Grêmio fez o certo. A aposta em Luxemburgo é a aposta num técnico de ponta. Luxemburgo fracassou, é verdade, mas ele conhece o grupo e, se ainda tem orgulho profissional, deverá trabalhar com mais concentração do que nunca para dar a volta por cima. O Grêmio, hoje, não manteve seu treinador: recontratou-o.
Quando descobri que estava com câncer, desmaiei. Que decepção comigo mesmo, eu que me achava tão forte. Hoje as coisas estão diferentes, e logo você vai entender por quê.
Naquele dia, 8 de março, uma sexta-feira azul e amarela de fim de verão, minha preocupação era uma misteriosa dor no peito que vinha sentindo havia algumas semanas. Os médicos fizeram todo tipo de investigação e não descobriam do que se tratava. Estava tudo bem com o coração, tudo bem com os pulmões, mas a dor aumentava a cada dia, até se tornar quase insuportável.
Então, um dos médicos da Santa Casa resolveu pedir uma tomografia. Você já fez tomografia? Eu nunca havia feito, e por isso me sentia meio apreensivo. Mas é uma barbada. Você não precisa fazer nada, só ficar bem quietinho. Sou muito bom em não fazer nada. Logo, minha tomografia foi um sucesso, em termos de eficiência. Os médicos de imediato viram o que tinham de ver. E ficaram desconfiados. Pediram que eu fizesse um contraste e que repetisse a tomografia.
O contraste é um líquido que eles injetam na sua veia. De ruim, tem a picada da injeção, mas também não é caso para drama. Bem, lá fui eu para nova tomografia. Ao cabo da qual, o médico se aproximou e perguntou:
– Você dá autorização para novo contraste e uma tomografia no abdômen?
Nesse momento, estremeci. Tomografia no abdômen? Por que, se a dor que sentia se localizava no peito? Algo devia estar errado.
Algo estava errado.
Quando saí debaixo do aparelho, perguntei ao médico:
– Por que a tomografia no abdômen?
Ele respondeu:
– Vou mostrar.
Levou-me para outra sala, onde havia alguns computadores. Apontou para uma tela e indicou:
– Esses são os seus rins.
Então, vi.
Vi.
Um rim tinha o dobro do tamanho do outro, e o rim grande tinha uma área escura no centro, uma mancha que lhe tomava quase todo o território. Arregalei os olhos e constatei, em voz baixa:
– É câncer...
Os médicos e técnicos em volta tentaram ser otimistas.
– É preciso fazer mais testes – disse um deles.
Mas eu sabia que era câncer. Não precisava ser médico para perceber o óbvio.
Fui levado até uma cadeirinha para me recompor da fraqueza dos contrastes e do jejum. Sentei-me, ainda com o tubo do contraste na veia da mão direita. Aí a certeza do que se passava comigo me assaltou. E comecei a me sentir mal. Não por medo da morte. Não tenho medo de morrer. Sério. Tenho medo da forma de morrer. Porque todos vamos morrer, até prova em contrário. E existem basicamente duas maneiras de, digamos, passamento: doença ou acidente. Por acidente refiro-me à morte matada: facada de marido traído, tiro na III Guerra Mundial, atropelamento por Rolls Royce, o cofre que cai do oitavo andar, um raio enviado pelo Todo-Poderoso. Quanto à doença, ela pode ser de dois tipos: a de desfecho rápido, como um infarto condescendente, ou o que a minha avó chamava de “doença ruim”, aquela que consome a vítimas aos poucos, fazendo-a esvair-se em dores. É dessa que tenho medo. Foi do que tive medo no fim da manhã de 8 de março de 2013. Em um segundo, me vi retalhado numa cama de hospital, justo eu que nunca fora internado, que nunca ficara doente, que nunca quebrara um osso, que nem gripe pegava. E a minha pressão foi baixando e baixando e desfaleci. Acordei cercado de enfermeiras, já tomando soro, deitado numa maca, confuso e envergonhado.
Hoje seria diferente.
Na próxima crônica conto por quê.
* Texto publicado no Caderno Vida de 18/05/2013.
Criticar o Grêmio hoje é repisar o óbvio.
O clube está inçado de problemas que estouram no time. O time é o reflexo do clube como os olhos são as janelas da alma, nas palavras de Leonardo.
Começa pela direção - sempre começa pela direção. O Grêmio é um clube dividido politicamente, e isso faz mais de dez anos. A política no Grêmio se desenvolve pelo ódio e pelo ressentimento. Nunca vi algo de bom ser construído partindo-se de uma base de ódio e ressentimento.
No Grêmio, até o campo de jogo é dividido. Qual é a casa do Grêmio? De onde despacha o presidente Koff? Onde os jogadores treinam? Olímpico ou Arena?
Então, chega-se ao recôndito do vestiário. É Luxemburgo mesmo quem manda? A direção tem convicção sobre as ações do Departamento de Futebol? Esse time, caríssimo, com reservas caríssimos como Kléber e Welliton, esse time é o que o Departamento de Futebol queria montar? Por que esse time formado com bons e ótimos jogadores fracassa em todas as decisões desde o ano passado?
Antes de desfazer tudo, antes de demitir e procurar culpados, o Grêmio terá de se reunificar. É preciso introspecção, reflexão e, o mais difícil, paciência.
Só com paciência se descobre para onde, de fato, se quer ir.
Por que tem tanto documentário sobre os suricatos na TV? Não entendo a popularidade do suricato. Os felinos, sim, esses merecem todos os filmes que estrelam. São os mais belos animais do planeta. Os cavalos têm nobreza. Os pássaros, graça. Os peixes, todas as cores. Os elefantes são imponentes. Mas nenhum deles tem a sensualidade elástica dos felinos. Não é à toa que a mulher mais linda é chamada de gata.
Então, paraliso diante do aparelho quando passa um filme sobre os grandes gatos. Foi assim que, dia desses, afundei na poltrona quando vi que seria exibido um documentário sobre o reino dos felinos ou o mundo deles, coisa que o valha.
A principal protagonista era uma mãe gueparda. Os guepardos são os mais velozes animais sobre a Terra, alcançam 110 km/h. Essa gueparda do filme teve cinco filhotes. Andava com eles pela savana em busca de sustento, como tantas mães solteiras andam pelo cimento da cidade. Num desses momentos de caça à comida, os filhotes se desgarraram. A noite caía sobre a África, e ela se desesperou. Chamou os rebentos com miados parecidos com latidos, conseguiu reunir três deles, mas, desgraça!, outros dois foram levados por um bando de repugnantes hienas que por ali rondavam. As hienas assemelham-se aos cães, mas na verdade também são felinos, sabia? São.
Ao alvorecer, a mãe gueparda subiu num pequeno monte para tentar avistar os filhotes desaparecidos, enquanto os outros três brincavam indiferentes sobre suas costas. Miava, a coitada, miava, miava, e nada. Estavam perdidos para sempre.
Seguiu seu caminho até que, lá adiante, em meio à vegetação amarelecida pelo sol, deparou com a visão horrenda: a morte se aproximava sob a forma de três irmãos guepardos desconhecidos. Não existe corporativismo entre os guepardos. Os machos adultos, quando avistam filhotes de outros machos, costumam devorá-los. A mãe sabia disso, sabia que não tinha chance contra os três, mas os esperou bravamente. E os enfrentou com a coragem das mães. Um a mordia numa pata, outro no flanco, o terceiro tentava lhe dilacerar o pescoço, mas ela resistia. Com as unhas afiadas cortando feito giletes, com os dentes pontiagudos à mostra, com rosnados de ameaça, ela resistiu. Sobreviveu ao ataque dos três bandidos. Mas acabou separada dos filhotes. Impotente e horrorizada, a mãe gueparda viu os malfeitores se aproximando dos pequenos, que miavam sem esperança de salvação.
Não quero ver!, disse para mim mesmo. Não quero ver! E desliguei a TV. O mundo animal é muito cruel, pensei. Peguei o jornal para me distrair. E a primeira notícia que li foi sobre uma mãe humana da zona norte da cidade que ensinava seu filho a espancar um cachorrinho que mede palmo e meio do focinho ao rabo. Parei de ler no meio do texto. Fechei o jornal com um suspiro. O mundo animal é mesmo muito cruel.
* Texto publicado na página 2 da Zero Hora desta sexta-feira, 17 de maio
Não contem para o Piangers, mas eu gosto do Phil Collins.
Internet é coisa de jovem, mas a primeira pessoa que me falou sobre sua existência foi um cara que respira neste Vale de Lágrimas pelo menos uma década antes de mim: o velho lobo da imprensa Carlos Wagner. Isso se deu lá nos albores dos anos 90. Wagner, o repórter mais premiado do Brasil, me pegou na redação e contou, entusiasmado, que estava participando de uma rede virtual entre universidades que, em algum tempo, transformaria o mundo. O mundo! Ouvi, algo distraído, e saí para fazer minha pauta. Transformar o mundo. Sei.
Veja você como a gente deve prestar atenção no que diz um velho lobo da imprensa.
Li outro dia que apenas 18% das pessoas com 50 anos ou mais usam a internet. Coisa de jovem. Compreensível. As pessoas, depois das aventuras e desventuras da juventude, adotam uma forma de viver, cultivam hábitos, aferram-se a eles. Aí, quando tudo está bem posto, surge uma novidade que lhes exige o esforço do aprendizado. Mais trabalho. Exatamente no momento em que elas planejavam, tão somente, fruir a existência.
Sacanagem.
Eu aqui não cultivo preconceitos em relação à internet. Não tenho tuíter, não tenho Facebook, estou reduzindo a leitura de e-mails a menos de meia hora, e só nos dias úteis, mas não faço tais restrições por achar a internet algo ruim. Ao contrário, é algo bom. Mas toma tempo. Trata-se de uma questão de prioridades.
A internet é uma ferramenta, nada mais. Pode ser bem ou mal usada, como qualquer ferramenta.
Tempos atrás, discuti por e-mail com um estudante de Letras. Ele foi arrogante, e decidi dar-lhe uma resposta no mesmo tom. Ele postou minha resposta nas chamadas “redes sociais”. Quer dizer: tornou pública uma correspondência pessoal. Depois disso, reavaliei meu relacionamento virtual com leitores.
Também aprendi que, às vezes, o que está na internet só tem importância na internet. Fora dali, no mundo real, aquilo que pulsa e freme na internet inexiste. É zero. Torna-se verdadeiro apenas quando o mundo real o reconhece. Por que 1 milhão de pessoas acessam uma besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”? Resposta: porque 1 milhão de pessoas acessaram a besteira no YouTube, tipo “Luísa está no Canadá”. O troço faz sucesso porque faz sucesso, sem mérito algum. Vira realidade quando vai para a TV, para o jornal, para a rua. Se fica restrito à internet, evapora.
Porém... algo que só deveria existir na internet pode transformar-se em realidade distorcida. O tal filmeco que ofende o Islã não passa disso: de um filmeco malfeito e mal-intencionado, feito por um picareta, com 14 minutos de duração, algo de péssimo gosto que deveria se esfarelar no YouTube sem que ninguém lhe desse importância. Mas, por razões diversas, os radicais lhe deram importância, e tem gente matando e morrendo por causa disso. Matando e morrendo, graças às facilidades da internet. O mundo mudou, como havia vaticinado o Wagner, e ainda não aprendemos a lidar com essa mudança. Dá trabalho aprender. E é preciso aprender. Sempre.
* Texto publicado em 28/09/2012
Texto do leitor Diego Alves
Balada Segura pra quem ?
É, eu vejo o Estado comemorando a realização da Operação Balada Segura, tantos infelizes multados, apreendidos, guinchados, encadeiados e por aí vai.
Nossa, que legal! Parabéns para o Estado, que conseguiu mais uma maneira de fazer o povo de trouxa e ganhar dinheiro da gente, em termos de educação, é motivo de riso, porque ninguém deixou de sair, beber, e por aí vai, apenas abriu-se uma espécie de "roleta russa dos motoristas" onde todo mundo tenta fugir dos "anjos" da balada segura.
Pensem bem, será que seria preciso aplicar uma multa de 2 mil reais, em alguns casos pedir fiança, e por aí vai?
Não não, era mais fácil reter o carro do indivíduo por ele não poder dirigir até um responsável vir fazer isso. Mas outro porém... Vou falar por Rio Grande, minha cidade atual, pergunto para os amigos, o município disponibiliza transporte urbano que passe perto de festas para transportar os bêbados ? Se sim, mais uma. Será que eles disponibilizam segurança nas ruas para sairmos das baladas e pegar o ônibus no abrigo ?
É engraçado, porque a balada segura é para tirar bêbado da direção, mas não serve para tirar criminoso da rua.
Então, vamos aplaudir a quem protege 10 ou 20 vidas por noite, e põe em risco centenas, milhares sem um policiamento decente e conscientização inteligente. E não falo apenas de policiamento a noite, de dia também, senão as coisas não seriam tão tristes, com estupros a solta no RJ e demais cidades. Vejo um bando de policiais "coçando" e rindo de quem leva multa e pode parar na cadeia e nenhum botando o pé na esquina para impedir vagabundo de destruir a dignidade dos outros.
Sim,
É triste, mas é verdadeiro,
A Polícia não vai na frente da festa para te proteger, ela vai para te oprimir, para te arrancar dinheiro e te impedir de voltar para casa.
Policia ou ladrão ? Brincavamos disso quando éramos pequenos.
Agora, eles brincam disso e nós só podemos escolher: "Vítima".
A lista dos convocados para a Seleção Brasileira é fosca. Há poucas chances de brilho, ali. Mas de onde Felipão poderia tirar o brilho? Na coletiva, os repórteres cobraram muito a ausência de Ronaldinho. Natural: o último jogo sempre é o que vale, e Ronaldinho foi um jogador de Seleção contra o São Paulo e contra o Cruzeiro, seus últimos jogos. Porém, na Seleção ele não tem sido de Seleção. Tem sido... fosco.
Por isso, a convocação é lógica e defensável. E talvez até possa dar uma esperança de brilho futuro. Afinal, nessa lista há Neymar, há Lucas, há Bernard, há Fernando, há Oscar, jogadores jovens e que têm potencial de crescimento. Quem sabe não é esse o germinal da nova Seleção? Uma Seleção capaz de ser campeã do mundo. Quem sabe?
O futebol gaúcho não existe mais.
Ao mesmo tempo, o futebol gaúcho venceu.
Hoje, quase todos os times do Brasil professam o futebol gaúcho, garra, garra, garra, marca, marca, marca! Uma desgraça.
O único time que não pratica o futebol gaúcho é o melhor deles, o Atlético Mineiro, que ataca com quatro, alegremente. Brasileiramente.
Sei quando o futebol gaúcho venceu e, vencendo, foi absorvido pelo resto do Brasil e, sendo absorvido, deixou de existir: foi mais ou menos na época em que o mundo inteiro mudou.
Curioso isso. Nos anos 90, achávamos que não haveria mais surpresas. O Muro de Berlim havia sido derrubado, a União Soviética havia se desunido, e Francis Fukuyama dizia que a História havia chegado ao fim. Já o futebol-força europeu, que fora assimilado por Foguinho nos anos 50, aplicado ao Grêmio de Aírton e Gessy e depois ao Inter de Falcão e Figueroa, esse futebol-força se consagrara em 1994, com a Seleção Brasileira mais dura da história conquistando uma Copa nos pênaltis.
Ou seja: estava tudo posto.
Então, Bin Laden derrubou as Torres Gêmeas e Guardiola levantou o Barcelona. A História não havia acabado e o futebol não estava pronto. Inacreditável. Como podia, ali, diante dos nossos olhos redondos de incredulidade, ao vivo pela TV, suceder-se algo com a dimensão da Tomada de Constantinopla, da Queda da Bastilha, da Passagem do Rubicão? Como podia formar-se um time que tocava a bola como a Seleção Brasileira de 70 ou como o Flamengo de 80 e marcava como o Grêmio de 90? Como explicar aqueles pequeninos, Xavi, Iniesta e Messi, habilidosos como Paulo César Caju, Zico e Rivellino, esforçando-se como Mauro Silva, Zito e Dinho?
O mundo ficou mais confuso, de uns tempos para cá. Nessa confusão, as ideologias e os estilos de futebol se misturaram. Como pode a China ser uma ditadura comunista com um sistema econômico capitalista? Como pode um time alemão como o Bayer atacar com dois pontas abertos?
Os maiores afetados por tais dilemas foram os campeões do capitalismo, os Estados Unidos, e os campeões do futebol, a Seleção Brasileira. Um e outra perderam a segurança.
Quem somos? Gaúchos como o Corinthians ou cariocas como o Atlético Mineiro? Respostas até 1014, por favor.
-x-x-x-x-
OS QUATRO GRANDES
O futebol gaúcho se ergueu sobre três pilastras.
1. O inventor.
Foi Foguinho, que, em 1953, em excursão histórica com o Cruzeiro de Porto Alegre, viu o Real Madrid de Puskas e voltou embasbacado e decidido a implantar o futebol-total.
2. Os propagandistas.
Foram dois, Lauro Quadros e Ruy Carlos Ostermann. O primeiro, Ruy, que bebia direto dos ensinamentos de Foguinho. Depois, Lauro popularizou o que Foguinho pregava. Ruy e Lauro fundaram a ideologia do futebol gaúcho, como se fossem Marx e Engels lançando o Manifesto Comunista.
3. O símbolo.
Foi Caçapava. Em 1975, ele marcou, e anulou, o melhor jogador do Brasil, Rivellino, no templo do Maracanã. Era a vitória da força sobre a arte; do esforço sobre o talento. Ninguém mais se lembraria que o futebol gaúcho vencia graças a Falcão e Renato. Era o começo da confusão.
Minha amiga Priscila Montandon enviou-me um vídeo, outro dia. Um comercial de TV de algum país estrangeiro. Inglaterra, talvez.
Os protagonistas são dois meninos de cerca de 10 anos de idade. Eles brincam pelas ruas do bairro em que moram. Correm juntos às gargalhadas, lutam com galhos de árvore como se fossem espadas de corsário, um ajuda o outro a se dependurar no travessão da goleira de um campinho de futebol, depois eles caçoam de três meninas que estão sentadas num muro, provocam-se um ao outro, simulam um round de boxe.
Fazem coisas de menino.
Finalmente, chegam em casa. Um deles abre a geladeira e de lá tira uma garrafa de suco de laranja. Bota dois dedos de suco amarelo em dois copos e completa com água da torneira. Lado a lado, bebem gostosamente. Por fim, um deles adormece sentado no sofá da sala. O outro lhe tira os tênis com cuidado. Em seguida, toma-o nos braços e sobe com ele as escadarias que levam ao segundo piso da casa. No quarto, aconchega o menino adormecido na cama e cobre-o com os cobertores quentes. Então, a cena final: meio dormindo, meio acordado, o menino na cama, sem abrir os olhos, murmura:
— Boa noite, pai.
E a câmera desliza para a porta do quarto, onde está não o menino de 10 anos que ele imaginava acompanhá-lo o dia inteiro nas correrias pela cidade, mas o adulto que dele cuida desde que nasceu, seu pai, que, antes de sair, responde num sussurro carinhoso:
— Boa noite, amigo.
Nesse momento, ao terminar de assistir ao vídeo, lembrei do meu filhinho de cinco anos de idade, e veio-me à mente a cena de nós dois correndo em volta da mesa da sala, eu rosnando me fazendo de monstro terrível, ele tentando fugir e rindo e gritando por socorro, e senti um nó me apertando a garganta e pensei que não estou sabendo mais por estar mais velho. Estou, apenas, sentindo mais.
O velho Macca vai embalar seu uiquêndi, amigão:
Minha amiga Priscila Montandon me enviou esse filme e eu, pensando no meu filhote, me emocionei:
Acordei com sede. Consultei o relógio: quatro da madrugada. Fui à cozinha tomar água e, quando acendi a luz, percebi uma sombra se movimentando velozmente junto à parede.
Era uma aranha.
Uma aranha do tamanho de uma moeda de um real, marrom-clara, suas oito pernas muito magras e compridas. Fiquei olhando para aquela aranha. Devia esmagá-la? Ela havia parado. Ficou estática, decerto achando que a imobilidade lhe camuflaria a presença. Ora, ora, estava muitíssimo enganada. Eu não só a vira como sabia que bastava avançar um passo para, com meu poderoso chinelo, transformá-la em pasta de aranha. Mas não fiz isso. Fui até a pia, peguei um copo e o enchi com água do filtro. Durante esse tempo, não desviei os olhos da aranha. Ainda não decidira o destino dela.
Quatro da manhã de domingo para segunda-feira. Praticamente toda a cidade dormindo. Ao longe, ouvia um latido de cachorro. Som de motor de carro, nenhum. Numa cidade com um carro para cada dois habitantes, era um fenômeno. Mas as pessoas valorizam muito o sono da noite entre domingo e segunda, não havia ninguém na rua. É o sono que as prepara para uma nova semana. Imaginei as pessoas que conheço aconchegadas debaixo dos cobertores. Do que elas falariam na manhã de segunda? Eu sabia: do gol anulado do Juventude. Porto Alegre não ficaria indiferente àquele gol anulado.
A aranha, sim. Olhei para a aranha, ainda imóvel. Que importa um gol anulado, para uma aranha? Que importa o futebol, a política, a Operação Concutare, a filosofia? Uma aranha existe, e pronto. Naquele momento, a única coisa que importava para ela era se eu ia ou não esmigalhá-la. Devia fazê-lo? A maioria das aranhas é inofensiva. A aranha mais venenosa do mundo é a aranha-marrom, que existe nos Estados Unidos. Verguei a coluna para observá-la melhor. Seria uma aranha-marrom perigosíssima? Ela era marrom, de fato, mas de um marrom clarinho, quase bege. Será que a aranha-marrom americana podia ser meio bege? Humm. Será que ela sabia que eu estava, naquele instante, resolvendo sobre sua existência?
Pensando bem, as pessoas todas que dormiam naquele momento eram como a aranha. Para elas, só importava existir, repousar, sentir o calor reconfortante das cobertas, nada mais, nem o gol anulado do Juventude. Porque, na verdade, o gol anulado do Juventude não tem nenhuma importância, só importância retórica. Eu tinha a consciência de que, na segunda, as pessoas debateriam com paixão o gol anulado e que nada do que dissessem mudaria o que aconteceu: o gol foi anulado, o jogo terminou, os jogadores foram para casa e, na madrugada de domingo, deviam estar dormindo, como todo mundo, menos eu e a aranha. Só nós dois ali, e o cachorro ao longe, e ninguém mais. Compartilhávamos um momento único, eu e a aranha. A cidade adormecida, ausente, silenciosa, enquanto dois seres se confrontavam. Um, gigantesco, bebendo água. Outro, minúsculo, paralisado de terror.
Devia esmagá-la?
As terríveis aranhas-marrom estão nos Estados Unidos, aquela não podia ser uma aranha-marrom. Afinal, aranhas não são animais migratórios, como os pássaros e as tartarugas. Seria possível que uma aranha americana fosse parar no Brasil por algum motivo, trazida inadvertidamente num navio, como a peste bubônica que atravessou continentes?
Não, não, aquela era uma aranha tipicamente gaúcha, completamente gaúcha. Quer dizer: na medida em que uma aranha pode ser gaúcha. Aranhas não têm nacionalidade, apenas têm procedência. Aquela aranha nascera e crescera no Rio Grande do Sul, mas, para ela, isso não interessava, nada lhe interessava, nem ser gaúcha ou americana, nem o gol anulado do Juventude. Só interessava continuar existindo. Será que ela devia continuar existindo? Pensando nisso, coloquei o copo vazio sobre a pia, agachei-me, tirei o chinelo do pé direito e o empunhei. Aproximei-me da aranha. Bem perto.
Bem perto.
Notei certo estremecimento em uma das suas oito pernas.
Comentários