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Chora, macaco imundo

11 de março de 2014 175

Machiavel dizia:

“Todos veem o que tu pareces, poucos sentem o que tu és”.

Eu digo:

“Às vezes é bom começar com uma citação. Dá o peso da Verdade ao texto”.

Mas não estou sendo cínico. Acredito na máxima de Machiavel, que, de resto, era homem inteligentíssimo. Você sente o que você é. Você tem, em algum lugar do fundo do peito, uma ideia do que é a sua vida. Você tem a sua própria história incrustada na alma, e você precisa ser coerente com essa história, ou implodirá psicologicamente.

Por exemplo: aquele sujeito musculoso que espanca gays na rua. Ele passa a imagem de que é um machão, e é como todos o vêem. Ele também quer acreditar que é assim, foi essa a história que construiu para si mesmo. Mas, nas profundezas do seu ser, ele sente um incompreensível desejo homossexual. E é por isso que ele bate nos gays: para expulsar um desejo que não deve sentir; um desejo que ele, mesmo sentindo, não pode reconhecer que sente. Porque, se reconhecer, estará sabotando a história que escreveu em sua alma e que apresenta com orgulho para os outros. O espancador de gays não chega a ser um gay frustrado, mas é uma pessoa que está sempre na iminência de se tornar incoerente com a sua própria história. Dramático.

Um país também tem uma imagem externa e uma história interna. Para o exterior, o Brasil construiu uma imagem de bonomia, de alegria, de tolerância e de felicidade. Durante muito tempo o brasileiro quis acreditar nisso, mas a história do Brasil teima em desmentir essa crença.

Vou citar um único fato que, como o desejo homossexual recôndito do machão, implode a história o Brasil de dentro para fora: por aqui houve 300 anos de escravidão. Fomos o último país a abolir a escravatura. E no Brasil não houve, como houve nos Estados Unidos, programas de integração dos ex-escravos na sociedade. E no Brasil as chamadas ações afirmativas são tardias, malfeitas e quase inócuas. E no Brasil nunca se produziu um filme como esse ganhador do Oscar que está em cartaz, “12 anos de escravidão”, que é uma exposição honesta e crua da história dos Estados Unidos para o mundo exterior. Este filme é como uma confissão. É como se o espancador de gays um dia admitisse: sim, eu sinto um desejo que não gostaria de sentir.

Os 300 anos de escravidão do Brasil são uma mácula horrenda que o Brasil jamais teve coragem de expor. Uma culpa nunca expiada. E, mais do que mácula e culpa, é um episódio definidor do caráter e da história do brasileiro. Por isso, toda reação a manifestações racistas será bem-vinda no Brasil. Ser chamado de gringo ou de alemão nunca foi pejorativo. Chamar alguém de macaco é ofensa no mundo inteiro, pela conotação histórica que a palavra ganhou. Pelo que o homem branco fez com o homem negro.

Torcedores gremistas juram não estar sendo racistas quando cantam para os colorados “chora, macaco imundo”. Está bem. Vou acreditar que não sejam, sou um crédulo. Mas a palavra é racista. É uma injúria eterna e universal, quando dita para um homem negro. É preciso evoluir até no xingamento. A torcida do Grêmio bem pode encontrar uma forma mais civilizada de agredir o tradicional adversário.

O grande prugurundum

04 de março de 2014 3

Bumbum paticumbum prugurundum. Eu estava na avenida quando a Império Serrano ganhou o Carnaval com este samba, nos longínquos anos 80. Não era integrante da escola, mas saí atrás no fim do desfile, cantando bumbum paticumbum prugurundum, o nosso samba, minha gente, é isso aí, é isso aí.

E o samba das escolas de samba é, de fato, isso aí. O bumbum paticumbum prugurundum resume à perfeição um samba enredo. Tanto que contagiou a Marquês de Sapucaí, como prometia. Eu mesmo sei toda a letra deste samba e sou, desde então, admirador da palavra “prugurundum”, a qual tenho usado com prodigalidade ao longo da vida:

_ Hoje me deu um prugurundum…

_ Tinha que ver: foi o maior prugurundum.

Restos de um Carnaval carioca que ainda carrego comigo.

Alguém pode achar que foi uma grande emoção, Carnaval do Rio, o maior espetáculo da Terra, toda essa coisa. Até foi. Mas não muito. A maior emoção que já experimentei num Carnaval, dentre todos os Carnavais da minha vida, para todo o sempre, Amém, foi ver a Mônica dançar com os pés descalços em Cachoeira do Sul.

Mônica. Dizia que ia ser atriz. Cheguei a Cachoeira levado pelo meu amigo Sérgio Ludtke, deitei os olhos nela e fiz uma oração silenciosa: “Senhor, conceda-me um pequeno milagre de Carnaval, Senhor. Por favor. Um pequeno milagre. É só o que peço”.

E o Senhor, em Sua infinita bondade, me atendeu. Mônica gostou de mim, e encetamos um breve romance naquelas noites de folia do nosso alegre bloco Alá-lá-ô. Passei meses com meu coração cheio e a cabeça vazia, graças a Mônica. Não precisava de toda uma escola de samba carioca, não precisava de um enredo retumbante, não precisava da paisagem suntuosa do Rio de Janeiro para viver o melhor Carnaval da minha vida. Precisava apenas de uma sílfide que bailasse de pés descalços. E gostasse de mim.

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Do que todos sabem

A felicidade está na simplicidade, todos sabem disso. Ou deveriam saber. Note aquele rapaz, Luan, jogando bola. Ele joga com alegria, ele dribla, ele negaceia, ele quer fazer exatamente isso: jogar bola, como se estivesse no campinho do bairro. E assim ele é feliz, e causa o maior prugurundum na defesa adversária, e faz o torcedor feliz. Com simplicidade. Não precisa mais.

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No campinho

Ronaldinho era assim, e, antes que críticos apressados me achaquem, advirto: não estou comparando o futebol de Ronaldinho com o de Luan, estou comparando o comportamento de Ronaldinho com o de Luan. Ronaldinho sempre disse que jogava com alegria, e era isso mesmo. Lembro de 98, quando Edinho era técnico do Grêmio e tinha problemas com Ronaldinho. Ronaldinho passou a jogar mal. “Estou triste”, suspirou, certo dia.

Para curar-se, voltou ao campinho de seu bairro, na Zona Sul, jogou uma pelada com os amigos, driblou, tocou de calcanhar, fez gol, dançou na comemoração e voltou inteiro ao futebol profissional. Depois disso, era, de novo, o grande Ronaldinho.

Ele precisava brincar um pouco para voltar a jogar sério. Precisava retornar à antiga simplicidade, que o devolveria à antiga alegria. Como nos antigos Carnavais.

A fúria do céu

25 de fevereiro de 2014 7

O céu não se enfurece como o amor tornado em ódio.

Li essa frase algum dia, em algum livro. É de um poeta americano. Ou inglês. Gostei da frase, cito-a de vez em quando para causar impressão na mesa do bar. Meus amigos vasculharam os intestinos do Google e não acharam o autor. Dizem que a frase é minha, que estou mentindo com essa história de poeta inglês. Por que mentiria? Gostaria que fosse minha, me exibiria com ela por aí, dedo em riste, sobrancelha esquerda levantada. Mas não é. Pena.

O céu não se enfurece como o amor tornado em ódio.

Bonito. E verdadeiro.

Nunca odiei um ex-amor, não sou homem de ódios. De suaves desprezos, talvez. De indiferenças cansadas, certamente. Mas já cheguei ao estágio da raiva, tendo antes passado pela tristeza profunda, pela humilhação abjeta, pela tristeza de novo e pela raiva outra vez.

A fase do ódio mais poderoso do que o céu negro da tempestade não me alcança porque, de repente, passo uma noite inteira cevando a desilusão dentro de uma garrafa de cerveja, chego em casa de manhã, ouvindo o canto dos pássaros e vendo as pessoas praticando jogging em cima de tênis com dez amortecedores, adormeço concluindo que estou em plena decadência, só que sem elegância, e, no dia seguinte, surpresa… não penso mais nela. E se passa outro dia e ela não dói mais em parte alguma e então vou olhar para dentro do meu peito e lá não encontro nada. Não existe mais amor, nem dor. Só o vazio. O que aconteceu com aquele amor forte como a morte, como entoavam os cantares de Salomão? É que até o amor maior do mundo apodrece de rejeição.

Um alívio. Mas também uma tristeza. Porque aquele amor, mesmo que doesse, tornava a vida grande.

Já não há mais dor, já não há mais sofrimento, mas agora a vida é menor. Porque a função do amor romântico é essa: é tornar grande a vida. Tudo na sua vida é pequeno, tudo é comezinho, depois que você morrer a lembrança do seu nome se dissipará na poeira dos anos como se você não tivesse respirado debaixo do sol, mas, se você viveu um amor poderoso, se você foi capaz de entregar a alma para outro ser humano, ah, então houve algo de grande na sua existência. Então valeu a pena. O amor existe para nos fazer imortais.

Mas se nem o amor lhe sobrar, se você, como eu depois de uma madrugada de fogo e desafogo, sentir o peito vazio, sempre há o auxílio luxuoso das crenças mundanas ou sacras do ser humano. A religião. A política. Ou a paixão do futebol. Porque é essa também a função do futebol: engrandecer a vida. Aquele jogo que reúne em hora e meia tanto drama, tragédia, comédia, fracasso, glória e decepção, como um romance, aquele jogo lhe dá a ilusão da grandeza. É por isso que o futebol é caro ao povo brasileiro, que quase sempre vive uma vida tão sem sentido, tão rés do chão. É por isso que a Copa do Mundo deste ano será um sucesso. É por isso que quem protestar contra a Copa será escorraçado pelo povo como se fosse um corrupto que leva dinheiro na cueca. Porque, pelo menos por um momento, o povo brasileiro vai se sentir grande. Como se vivesse um amor mais forte do que a morte, mais furioso do que o céu que se enfurece.

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SINTONIA ESPIRITUAL

Havia uma sintonia quase espiritual entre Luan, Dudu, Ruiz e Barcos, sábado, contra o Novo Hamburgo. Eles não corriam, eles levitavam. Eles bailavam em meio ao desespero dos marcadores. E a torcida gania de prazer.

Quem os viu no sábado decerto quererá que Enderson os escale todos juntos, sempre e sempre.

Mas era contra o Novo Hamburgo, que não está nem na série B. Era Gauchão. Era começo de ano.

A vida não é tão fácil, ah, não é mesmo.

Tudo que quero da vida é tudo que quero

14 de fevereiro de 2014 9

Se tivesse conseguido tudo o que queria na vida, teria me dado muito mal.

Sei disso agora, olhando em retrospectiva. Houve coisas pelas quais lutei, lutei, lutei como um tigre, e perdi. Fiquei frustrado com a derrota, custei a me conformar, mas acabei aceitando, segui outro caminho e aí, surpresa!, aquele caminho que não pretendia seguir levou-me ao remanso de um oásis, a uma clareira verdejante
de paz e felicidade e realização.

Certo.

Depois disso, lá vou eu de novo, tocando a vida. E então surge-me um projeto, um plano para o futuro, e penso: é isso que quero! E-xa-ta-men-te isso! E começo a trabalhar para que o projeto seja bem-sucedido e me esforço e sonho e tenho certeza: agora vai!

Não vai.

Por algum motivo, apesar de todo o meu empenho, o troço não funciona.
Fico angustiado, me debato, tento, insisto, mas, quanto mais esperneio, mais afundo, como na areia movediça.

Mas que PRITZKLERKLWOLFREMBAERSON@!”@#$#KLIMBEST!!!

Nesse momento, lembro dos chineses, que dizem, do alto de seus 5 mil anos
de sofrimento: “Às vezes, você não deve agir, não deve decidir, nem pensar; deve apenas deixar que a correnteza do rio o leve para onde ela quiser”.

Sabedoria chinesa. Muito bem. É o que faço. Fico quietinho, vou para onde sou empurrado e, passado algum tempo, olho para meus encarquilhados projetos e digo para mim mesmo: Cristo!, como é que eu queria tanto aquilo???

O que é isso? É o Destino tomando as decisões por mim? A vida, estranha vida? Deus e Seus desígnios inescrutáveis? Ou simplesmente a sorte, o acaso e a coincidência?

Não, não acredito em Destino. Se houvesse Destino e eu fosse o herói da história, tudo daria certo, mesmo que tomasse decisões erradas. Mas, não. Vez em quando, tomo uma decisão errada e me dou mal. Dias atrás mesmo, tinha de tomar uma decisão. Ponderei. Refleti. Consultei outras pessoas.

Tomei a decisão.

E errei.

Logo percebi que errei e, quando erro, reconheço nem que seja só para mim mesmo, não fico dizendo “não me arrependo de nada”. Erro e me arrependo, sim. Maldição.

Isso significa que meu percentual de erro é muito grande. Quando acerto e sigo o caminho que queria, posso ter pego o caminho errado. Quando não acerto, pago pelo erro cometido.

É uma sacanagem. Estão de sacanagem comigo. Quem? A vida? O Destino? Deus? A sorte? O acaso? O que eles pretendem com isso? Querem que aprenda algo com meus erros? Para quê? O que vou fazer com toda essa sabedoria? Não sou um chinês. Não dá pra eu aprender com os acertos?

Chega! Quero as coisas que quero! Não quero que a vida me leve, quero levar a vida. Chineses? Seguir a correnteza? Não! Quero subir em uma lancha, ligar o motor e tocar contra a correnteza.

Vida, estranha vida. Desígnios insondáveis. Trapaças da sorte. Deixem-me em paz! Parem de me empurrar para o caminho certo.

Sozinha no apartamento

11 de fevereiro de 2014 7

Se quando você está sozinha, com nada para fazer, apenas você consigo mesma, quieta, sem a distração da luz azul da TV ou de uma conversa inconsequente no Facebook, sem falar com sua mãe ao telefone ou fazer a aflitiva conta das despesas do mês, se, nessa situação, você sente um ponto de apreensão pressionando-lhe o meio do peito, sente que algo pode estar errado, que algo não saiu como deveria ter saído, bem, então algo deve estar errado, algo não saiu como deveria ter saído.

Porque a vida não é reta e o destino não está escrito. A vida é surpreendente, sim, ela segura você pelos ombros quando você queria seguir em frente, e empurra você para um desvio do caminho quando você pretendia continuar no asfalto seguro da estrada principal, a vida faz tudo isso, verdade, mas é você quem toma as decisões. E muitas, muitas decisões são equivocadas.

Você deve ter humildade para reconhecer seus erros, garota. Mesmo que não possa voltar atrás, é importante para você saber que poderia ter sido diferente, e então, na próxima decisão, talvez você seja mais sensata. Talvez você cresça.

Ou não.

-x-x-x-x-

Do que estou falando, nessa terça-feira quente?

Do Gre-Nal de domingo, é claro. De Luan, que, se não é uma garota no recôndito do seu apartamento, ao contrário, é um galalau que parece ter metro e noventa de altura, mas tem menos, é um latagão, um mocetão, para usar adjetivos do Eça, esse Luan errou, e precisa saber que errou. Será bom para ele esse conhecimento.
Ou não.

-x-x-x-x-

Luan pode se tornar um ótimo jogador de futebol, quando aprender a jogar futebol. Ele tem tudo para isso. Tem até o amor da torcida do Grêmio e a complacência de quem o vê com a bola nos pés. Luan saiu aplaudido no Gre-Nal e ninguém disse que ele foi o responsável pelo gol do Inter.

Mas foi.

Culparam o Pará, coitadinho do Pará. Compreensível. Pará não tem a presuntiva habilidade de Luan, é um lateral-direito esforçado, nada mais do que isso. No lance do gol, Pará estava atento feito um dobermann. Marcava um jogador importante do Inter, Jorge Henrique, para quem a bola foi endereçada. Mas a bola passou por Pará e Jorge Henrique, seguiu deslizando em diagonal, área adentro, e foi parar nos pés de Fabrício, que estava sozinho, pronto para fazer o gol, como fez.

Todos disseram que Pará deveria estar marcando Fabrício. Mas como, se ele estava marcando Jorge Henrique?

Se Pará estivesse marcando Fabrício, Jorge Henrique receberia a bola com liberdade e faria o gol. Pará, inteligente e visionariamente, adiantou-se para bloquear o jogador que iria receber a bola.

Luan, que vinha molemente da intermediária, acompanhando o lance, ficou a quatro ou cinco metros de Fabrício, observando-o ingressar lampeiro na área. Não sei se Luan tinha ordens de acompanhar o lateral do Inter. Não importa. Naquele momento, sua obrigação era correr para não deixar o adversário livre. Luan não fez isso por desídia ou distração, e seu time levou o gol. A culpa foi dele. Se aprender com o lance, talvez cresça e se transforme em um grande jogador. Se não aprender, talvez seja só mais um dos tantos que estão dentro de chuteiras por aí. Cabe a Luan escolher o que vai ser na vida, e ele tem tudo para escolher ser grande, em vez de ser apenas mais um.

Ou não.

Dever cumprido para Grêmio e Inter no clássico da Arena

09 de fevereiro de 2014 16

Um minuto antes de a bola rolar para o primeiro Gre-Nal de 2014, neste domingo, na Arena, um repórter perguntou a Abel Braga o que ele esperava do clássico. O técnico do Inter sorriu:

– Para mim, se começar zero a zero e terminar zero a zero, está muito bom!

O desejo de Abel quase foi atendido. O Gre-Nal começou zero a zero, como todos os Gre-Nais, mas terminou em 1 a 1. Acabou, sim, sendo muito bom para o Inter, porque o Grêmio foi superior na maior parte do jogo. Mas não foi ruim para o Grêmio, porque o Inter saiu na frente e o empate só aconteceu num gol de pênalti.

Até nos esquemas táticos os times estavam equilibrados na noite abafada da Arena. Enderson Moreira armou um cinturão defensivo em frente à zaga do Grêmio. Edinho, Ramiro e Riveros, os três volantes, deram solidez ao meio-campo e permitiram que Zé Roberto, bem aberto na direita, e Luan, bem aberto na esquerda, volta e meia tivessem vantagem sobre seus marcadores. E para consolidar a superioridade gremista, Barcos, com intensa movimentação, parecia em dia inspirado.

Luan, a surpresa do Grêmio, não decepcionou. Ao contrário, tentou o lance pessoal desde o começo da partida e, quando saiu de campo, no segundo tempo, a torcida o aplaudiu. Foi dele, por exemplo, o primeiro chute do jogo, aos 4 minutos, numa bola que passou a metro e meio da trave direita de Muriel. Cinco minutos depois, Fabrício segurou e derrubou Pará dentro da área. O árbitro não marcou pênalti, os jogadores do Grêmio ficaram reclamando e Aránguiz se aproveitou, invadiu a área pela direita, chutou e Marcelo Grohe defendeu.

Aránguiz, aliás, era o destaque do Inter. Correndo de intermediária a intermediária, aparecendo na fronteira da área do Grêmio, distribuindo passes verticais, ele foi o desafogo do meio-campo colorado. Willians, atrás dele, também jogou boa partida, demonstrando vigor e concentração para bloquear as investidas gremistas pelo meio.  Rafael Moura, isolado entre os zagueiros, praticamente não tocou na bola, e D’Alessandro limitou-se a passes curtos, sem maiores ambições.

A melhor oportunidade de gol do primeiro tempo ocorreu aos 14 minutos: Barcos dominou a bola pela direita dentro da área e, num único corte, livrou-se de dois jogadores do Inter. Quase caminhando, ele aproximou-se do gol, pensou e tentou colocar entre as pernas de Muriel, mas o goleiro foi mais rápido e fez a defesa. Aos 33, Edinho quase marcou, num chute violento da intermediária. Muriel praticou uma defesa clássica, voando na horizontal e espalmando a escanteio.

O Grêmio era melhor e dava a impressão de que logo faria o gol, mas quem fez foi o Inter. Aos 42 minutos, Willians deu um passe em diagonal para Jorge Henrique, que estava marcado por Pará na frente da área. A bola escapou de ambos e caiu no pé de Fabrício, sem marcação, que, ao contrário de Barcos, não tentou colocar: fuzilou o goleiro e estabeleceu o 1 a 0. Era muito mais do que Abel queria.

No segundo tempo, o jogo tornou-se mole, pastoso, como se os jogadores estivessem amassados pelo calor de mais de 30°C, apesar de a noite já estar caindo no Guaíba, do outro lado da estrada que se estica diante da Arena. De atividade mesmo, houve cinco  minutos: logo na saída de bola, Aránguiz cruzou da direira, Rafael Moura cabeceou no meio da área e Marcelo Grohe saltou numa defesa plástica, espalmando para escanteio. Aos seis minutos, o Grêmio respondeu com Ramiro chutando de longe. Muriel defendeu, mas soltou para o meio da área. Não havia nenhum atacante para aproveitar a chances. Depois disso, o jogo entrou no ritmo do pesadelo, lento, picado por erros de passes.

Enderson Moreira tentou dar mais dinamismo ao time colocando Maxi e Deretti em lugar de Luan e Ramiro. Deretti ainda conseguiu alguns dribles sobre os zagueiros do Inter, mas Maxi só se enrolou com a bola, colado à linha lateral esquerda. Abel, por sua vez, substituiu Jorge Henrique por Otavinho, que ontem completava 19 anos. Otavinho se assanhou um pouco, mas sem grandes resultados.

A partir dos 25 o Grêmio se reanimou, intensificou a pressão e empurrou o Inter para a sua defesa. Aos 32, a bola ficou pingando na área colorada sem que ninguém conseguisse afastá-la. Paulão, meio perdido na floresta de jogadores, tocou na bola com a mão. O árbitro marcou pênalti. Barcos cobrou e empatou o clássico.

Os dois times ainda se agitaram um tantinho nos minutos restantes, o Inter um pouco mais do que o Grêmio, mas de onde tirar energia atuando sob tamanho calor? O 1 a 1 não ficou ruim. Abel saiu da Arena contente. Afinal, ele queria zero a zero antes do jogo. Enderson também não saiu triste. Afinal, ele não perdeu seu primeiro Gre-Nal. Foram todos aliviados para a noite do verão porto-alegrense, refrescar-se com o sentimento do dever cumprido.

O clássico é o teste que pode apontar o caminho certo

08 de fevereiro de 2014 1

1) Aquele esquema do Grêmio que arrepiou os pelinhos da nuca do Brasil no ano passado, aquele quase indevassável campo de força defensivo com três zagueiros rosnantes e três volantes resfolegantes, aquele sistema que muitos diziam ser inviável, mas que, ao fim e ao cabo, levou o Grêmio ao consolo do vice-campeonato e ao remanso da Libertadores, aquele esquema nasceu em um Gre-Nal.
O Grêmio avançava puxando de uma perna, vinha de fracassos, nada funcionava, o medo grassava, e Renato fechou o time. Dominou o clássico, foi melhor do que o Inter e deu um sinal para o treinador: é por aí.
Foi por ali.
Em seguida, o Grêmio teceu uma fieira de vitórias que o fizeram destacar-se na tabela, junto com o inalcançável Cruzeiro.
O Gre-Nal tem essa propriedade. Por ser um jogo decisivo, por ser um campeonato dentro do campeonato, por ser a disputa mais importante para as torcidas dos dois clubes, é também o teste que pode apontar o caminho certo.
É o que espero do Gre-Nal deste domingo.
A fórmula correta dos times de Grêmio e Inter ainda não foi encontrada por seus treinadores. Abel parece mais convicto do que quer, mas isso só acontece porque seu time jogou uma única vez neste ano. Quer dizer: a amostragem é pequena e o Inter de Abel ainda não teve tempo para errar.
O Grêmio de Enderson teve, e assim Enderson é assolado por mais dúvidas. Parece uma desvantagem, talvez não seja. Ao contrário. Depende do próprio Enderson. Se ele tomar as decisões acertadas, suas dúvidas podem se transformar em soluções. Será que Luan, Jean Deretti e Riveros devem ser titulares? Enderson terá coragem de escalá-los em um clássico? Se forem escalados, eles darão resposta? O Gre-Nal responderá.
O Gre-Nal pode fazer com que o dilema se torne uma bênção. Do Gre-Nal pode começar a ser desenhado o futuro.
Essa é a força do Gre-Nal.
Mas ter uma ideia do que será o futuro é apenas o principal item dos seis que eu gostaria de ver neste clássico. Os demais são os seguintes:
2. Kléber, que saiu vaiado na última partida, mostrará que é Homem Gre-Nal, como acredito que seja?
3. Wellington Paulista poderá mostrar que gosta de fazer gol no Grêmio, como acredito que goste?
4. As torcidas se comportarão com civilidade, apesar do calor do clássico e do clima?
5. Quem será o xerifão do jogo, Paulão ou Rhodolfo?
6. Zé Roberto conseguirá assumir a coordenação do meio-campo do Grêmio como D’Alessandro assume no Inter?
A Arena responderá.

Gisele no parque

04 de fevereiro de 2014 4

Os americanos chamam a Gisele Bündchen de “Djisell”. Ela mora em Boston. Outro dia, usavas suas longas pernas douradas para correr em um parque da cidade, fiquei sabendo. Não pela imprensa daqui; pela imprensa daí.

Não fui vê-la. Tenho mais a fazer do que ver a Djisell correndo.

Em Boston, Djisell pode correr ou fazer polichinelo no parque sem ser incomodada pelos fãs, porque o astro de verdade é o marido dela, Tom Brady, jogador do New England Patriots. O Patriots foi eliminado do Super Bowl no que se poderia chamar de semifinal, dias atrás. A derrota foi motivo de dolorosa decepção na cidade.

Mas Boston tem outros times, em outros esportes, o consolo chega rápido. Os americanos são assim, eles gostam de vários esportes, não são como os brasileiros, que só querem saber de futebol, futebol, futebol.

Na verdade, os americanos gostam de emoções. Estão sempre procurando-as, como o Roberto Carlos. Estão sempre tentando colorir a vida. O problema é o exagero. Filmes com efeitos especiais demais, com perseguições de carros demais; comidas com molhos demais, com frituras demais; mulheres com peitos demais.

O esporte também tem de ser assim, intenso. Por isso o futebol demora tanto a cair no gosto popular. O futebol é um jogo de uma hora e meia, que às vezes é lento, pastoso e, que horror!, termina em zero a zero. Para eles, aborrecido como uma litúrgica refeição francesa. Ou, pior, como um filme francês. Compreendo os americanos. Algumas das experiências mais maçantes da minha vida deram-se diante de uma tela em que passava um longuíssima-metragem francês. Um ou dois filmes do Godard me deram vontade de sair correndo e gritando do cinema.
Mas, voltando aos esportes intensos apreciados pelos americanos, uma noite dessas soube que os Boston Bruins iam enfrentar os Florida Panthers. São dois times de hóquei no gelo, esporte muito apropriado para esses tempos em que a temperatura é de 10 subzero no Grande Irmão do Norte.

Decidi que ia ver esse jogo. Só que não do ginásio; de um sports bar, como fazem muitos americanos sedentos. Foi o que fiz. Entrei, sentei-me ao balcão e pedi um Jim Beam com duas pedras de gelo. O jogo ia começar. Todos torciam para os Bruins. O que significará Bruins? Perguntei àquele que tudo sabe, o Google, e o Google não sabia. Isso me deixou mais aliviado. Se o Google não sabe o que é Bruins, por que eu haverei de?

O disco deslizou. Será que é assim que se diz? O disco deslizou? O que quero dizer é que o jogo começou. Logo percebi que os Bruins são adeptos do hóquei-arte, enquanto os Panthers praticam o hóquei-força. Os Bruins são muito habilidosos. Dominaram a partida com alguma facilidade, trocaram passes envolventes e acantonaram os Panthers em volta da goleirinha deles. O jogo é frenético, impossível desviar o olhar da TV. O disco não para. As coisas acontecem em sucessão, uma engatada na outra. Os Bruins venceram por 6 a 2 e eu saí do sports bar quase sem fôlego. Que partida! Resolvi que vou me tornar um adepto do hóquei no gelo. Emoções. Como o Roberto e os americanos, também quero emoções.

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A final de 94

Dia desses passou de novo a final da Copa de 94 entre Brasil e Itália. Aquele zero a zero. Claro, não consegui ver todo o jogo, só uns nacos. Mas foi o suficiente para recordar que se tratou de uma das piores e mais chatas partidas de futebol que assisti em toda a minha vida. E aconteceu nos Estados Unidos, na Copa americana. Imagino que aquele jogo deva ter atrasado o desenvolvimento do futebol nos Esteites em uns 20 anos.

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Grêmio: nada mudou

Vi a escalação do Grêmio contra o Juventude. É o time que deve enfrentar a Libertadores. O que há de acréscimo em relação ao treinado por Renato? Edinho, nada mais. Olhando assim, por cima, parece uma equipe frágil, desprotegida, carente de criatividade. Para o Grêmio ter sucesso em 2014, só se Enderson for um mago do futebol.

O bar do Soho

28 de janeiro de 2014 15

Fui a um bar de blues em Nova York. Gosto demais de blues. Talvez seja meu gênero musical preferido, ainda não decidi sobre isso. Era um bar no Soho, lugar em que Peter Parker vive com sua tia May. Terra Blues, o nome do bar. Fica na parte superior de um pequeno prédio de dois andares. Você entra por uma escada externa. Lá dentro, eles te oferecem o melhor blues ao vivo, bebidas quase geladas e sorrisos que enlanguescem. Para comer, nada. Nem piriris. Mas você pode levar sua própria comida. Vi as meninas mais delicadas chegando com suas quentinhas, tirando os talheres das bolsas e comendo com a devoção de um quarto-zagueiro de futebol americano. Uma delas parecia Mary Jane. Será que Peter e Harry Osborn andavam pela vizinhança?

No palco, desempenhava uma banda de blues do Sul. Imagino que do Mississipi. Talvez Louisiana. Gostaria que fossem de New Orleans. Não conheço, mas tenho de conhecer New Orleans. Por causa do blues, sim, mas principalmente por causa de Truman Capote. Pelo estilo, pelo ritmo, pelos recursos, Capote é, para mim, o blues da literatura. Ele definiu a forma como eu gostaria de escrever. “Procuro a frase que seja resistente e maleável como uma rede de pescar”, disse. E é isso. Essa é a frase perfeita.

Outro dia escrevi um texto ruim. Quando o reli, depois de publicado, quase fiquei doente. Prefiro a dor de uma desilusão amorosa a escrever um texto ruim. E o ruim a que me refiro é estabelecido pelo meu critério. Vá que você ache que só escrevo textos ruins. Paciência. Mas EU tenho de achar bom. Tenho de saber que fiz tudo para que fosse o melhor texto da minha vida. Se não sai assim, oh, sinto-me como os escravos africanos trabalhando nas plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos de antes da Guerra de Secessão. Sinto-me triste, e aí cantaria, como eles cantavam, o blues. Oh, yeah.

O blues do bar do Soho fazia com que todos nos sacudíssemos, naquela noite. Eu me balançava com a minha Samuel Adams na mão e pensava em Truman Capote. Porque, sim, ele escrevia com o embalo do blues de sua New Orleans. Bonequinha de Luxo é um exemplo desse ritmo. Mas também é um exemplo do quanto Capote se tornou nova-iorquino. O livro todo se passa em Manhattan _ o título em inglês é Breakfast at Tiffany’s. A cidade é quase um personagem da trama, junto com a garota charmosa e leviana que Audrey Hepburn imortalizou no cinema. Então, Bonequinha de Luxo é uma bem-sucedida combinação de New Orleans com Nova York.

Capote conquistou o mundo quando conquistou Nova York. Só que Nova York também foi a causa da sua perdição. Capote se enfunou com o tanto que foi bajulado na grande cidade, avaliou mal o seu poder, escreveu um livro que ridicularizava a maioria da sociedade nova-iorquina e, depois disso, passou a ser desprezado por quem ele dizia desprezar, que era muita gente. Morreu de desgosto e de abandono.

Capote não se satisfazia apenas com a produção do texto perfeito, portanto: o alimento que o mantinha de pé era o reconhecimento.

Qual é a importância do reconhecimento para mim? Tenho de avaliar isso, depois de decidir qual é o meu gênero musical predileto. E para você, o que é importante?

Aqui, nos Estados Unidos, alguns jovens se suicidaram porque Justin Bieber foi preso. Você pode achar que isso é estúpido, até porque Justin Bieber nem canta blues, mas Justin Bieber era importante para eles. Assim como o futebol é importante para uma multidão no Brasil, e aqui não passa de uma curiosidade. O máximo de futebol que aparece nas ruas de Nova York são as fotos de David Beckham de cueca, que estão por toda parte. Mas, no Sul do Brasil, as pessoas rompem amizades ao discutirem o cartão amarelo que o juiz não deu durante um jogo do Gauchão. Vá lhes dizer que isso é tolo. Para elas, não é. Para elas, trata-se de uma fonte de tristeza.

Eu preferia que todas essas tristezas fossem resolvidas como os escravos do Sul as resolviam, no século 19: cantando um blues. No bar do Soho, sorvendo a minha Samuel Adams, tenho a pretensão de ter resolvido alguns de meus dilemas. Ajudado pelo blues. Sempre com a ajuda do blues.

A dança da sobrevivência

21 de janeiro de 2014 4

Do que um homem precisa, quando acorda de manhã?

Do que um homem re-al-men-te precisa?

É óbvio: precisa do beijo da mulher amada e de scrambleds, necessariamente nessa ordem.
Mas, por infortúnio cultural e geográfico, brasileiros não estão acostumados com scrambleds matinais, embora beijos de mulheres amadas sejam plausíveis. Scrambleds, você sabe: ovos mexidos.

Existem preconceitos proteicos no Brasil, e é por isso que os scrambleds foram banidos das mesas de café da manhã de Porto Alegre a Manaus, com exceção das de hotéis e pousadas, que anseiam por seduzir estrangeiros. Então, os grandes scrambleds da minha vida ocorreram em viagens e é por isso ora trato deles: porque estou indo passar uma temporada no Grande Irmão do Norte, a terra abençoada dos scrambleds, do bacon, do hot-dog e da Megan Fox.

Mas terá sido um norte-americano o iluminado inventor dos scrambleds? Ou tal iguaria foi concebida na pátria-mãe, a Velha Álbion? O omelete, sei que sim. Séculos atrás, respirava na Inglaterra um rapaz chamado Oswald Mellet. Amante da boa mesa, tanto gourmet quanto gourmand, seu sonho era abrir um restaurante, mas os pais dele queriam que fosse médico. Obediente, o jovem Oswald cursou medicina, formou-se com honras e, por fim, apresentou o diploma aos pais orgulhosos. Só que não montou o consultório, e sim o restaurante. E, numa ironia tipicamente britânica, pregou na parede uma placa com os dizeres: “Dr. O. Mellet”. Como sua casa era especializada em pratos com ovos, a receita principal passou a ser designada pelos clientes como… omellet. Donde, omelete.

Será que o doutor Mellet servia scrambleds em seu estabelecimento? Tenho de pesquisar.

Em todo caso, já provei excelsos scrambleds na terra da rainha. Uma vez, em Edimburgo, na Escócia, a dona da pensão em que me hospedava perguntou, ao café da manhã:

_ Quantos ovos você vai querer?

E eu:

_ Um, obrigado.

Ela:

_ Quantos ovos você vai querer?

Eu, desconfiado do meu inglês, escandindo as sílabas:

_ Just one, thank you.

_ Quantos ovos você vai querer?

Eu, mostrando o indicador espetado no ar:

_ Um! Um! Um!

Ela, balançando a cabeça:

_ Um homem do seu tamanho não pode comer apenas um ovo de manhã.

Eu, humilhado:

_ Dois ovos, por favor.

Devia ter pedido scrambleds.

Mas o melhor scrambled da minha vida não o comi em hotéis ou pousadas, não o comi nem em minha própria casa ou na da mãe ou na da avó, sublime cozinheira. O melhor scrambled da minha vida foi um scrambled improvável.

Estava em missão jornalística no alto dos Andes colombianos, 4 mil metros acima do nível do mar, num povoado em que restavam tão-somente 12 famílias _ os outros moradores haviam fugido da guerra das Farc. Passava da meia-noite, nosso carro havia quebrado, nós não tínhamos como continuar a viagem para cima nem para baixo, não existia transporte no lugar, nem posto de abastecimento, nem polícia, nem prefeitura, nem nada, e ninguém abria as portas para nós, em obediência ao toque de recolher da guerrilha. Estávamos, eu, o motorista colombiano e o fotógrafo José Doval, cansados, famintos e com frio. Então, batemos com insistência à porta de um pequeno armazém, e o dono atendeu. Explicamos nossa situação e ele aceitou nos ajudar. Conseguiu-nos cobertores, ligou um grande rádio de ondas curtas, serviu-nos uma cachaça branca colombiana e foi para a cozinha. Voltou de lá com latas de sardinha abertas e scrambleds numa panela. Comemos feito leões devorando gnus. Comemos feito feras. E depois, ouvindo a música alegre que se evolava do rádio, dançamos na madrugada andina, os três em volta à mesa como índios, enrolados nos cobertores, para divertimento do dono do armazém. Dançávamos, veja só. Dançávamos como se estivéssemos na festa mais louca, alegres pelo acolhimento, por aquela saborosa refeição, por estar vivos.

Foram os scrambleds da minha vida. Scrambleds de sobrevivência.

É assim. As coisas boas da vida ocorrem nos momentos e nos lugares mais imprevisíveis. Era para ser só um chopinho, e foi um encontro encantador. Minha intenção era ficar 15 minutos, e agora não saio mais daqui. Era um autor desconhecido, mas para mim virou um clássico. E até o Gauchão pode vir a ser uma grande alegria, por que não? Você não sabe onde vai encontrar os scrambleds da sua vida.

A mulher mais linda do mundo

14 de janeiro de 2014 13

A única foto de mulher que guardei na carteira em toda a vida foi uma da Jacqueline Bisset. Nem foto original era, era um recorte de revista. Vez em quando sacava-o do bolso traseiro das calças e ficava contemplando a beleza serena e profunda de Jacqueline Bisset. Ela não estava sorrindo naquela foto, e na verdade Jacqueline Bisset pouco sorria e nunca, nunca gargalhava. Uma mulher com algo de triste no olhar. Mulheres algo tristes são comoventes. Elas parecem saber de alguma coisa que nós não sabemos e, em geral, sabem mesmo.

Jacqueline Bisset. Mulher de classe. Uma francesa típica, apesar de ser inglesa. Não sei o que fiz daquela pequena foto que por tanto tempo me acompanhou, não sei quando renunciei à contemplação dos olhos enigmáticos de Jacqueline Bisset, mas sei por que os fitava, sei por que levava comigo aquela imagem: para que, nos momentos difíceis da vida, soubesse que existe um mundo melhor, e, existindo um mundo melhor, imaginar que um dia eu podia passear por ele e sorver-lhe as delícias. Sim, eu poderia, por algum ardil da sorte, respirar o ar do mundo em que vivia Jacqueline Bisset, por que não?

Jacqueline Bisset. Nunca mais soube dela, até ontem. Li que ela ganhou o Globo de Ouro e, emocionada, ficou 20 segundos diante do microfone, com o troféu na mão, sem conseguir articular um muito obrigado sequer. Vinte segundos é uma vida nesse tempo de 4Gs _ o discurso de Jacque foi cortado da transmissão da TV. Falta de consideração para com minha antiga musa.

Olhei para as fotos de Jacque no Globo de Ouro. Uma senhora de 69 anos, longe da exuberância da juventude, mas ainda com aquela dignidade imperial. Ainda Jacqueline Bisset.

Não guardaria mais uma foto dela na carteira, mas o reaparecimento de Jacqueline Bisset me deu alento nesses albores de 2014. Estava desconfiado deste janeiro. Soube que existem ralos de piscina assassinos, um perigo novo. Soube que telespectadores divergem sobre se personagens gays devem ou não se beijar na novela das 9, um debate velho, de opiniões velhas. Soube que os presídios no Maranhão são desumanos, mas disso já sabia, presídios desumanos há no Brasil inteiro, inclusive aqui, no peito pulsante do Rio Grande. Soube que Grêmio e Inter estão em crise financeira, mas quando não estiveram? Não é sempre uma dificuldade administrar o futebol? Os clubes não estão sempre devendo? Isso não é assim há mais de cem anos?

Pensando bem, só os ralos assassinos é que são novidade em 2014. E a volta de Jacqueline Bisset, mesmo que perplexa em frente às câmeras, mesmo que já não tão gloriosa como nos tempos em que garotos suburbanos carregavam suas fotos pela vida, a volta de Jacqueline Bisset é a lembrança de que o mundo pode ser melhor, pode ser um mundo que aceite as diferenças, que trate com decência até os pretos e pobres dos fundos das cadeias, que cuide dos pormenores da segurança das crianças. O mundo pode ser melhor. Que gremistas, colorados e alheios ao futebol saibam disso. O mundo pode ser belo como o os olhos azuis de mar de uma deusa distante, uma deusa que sabe coisas que você jamais poderá saber.

Presente de Natal

24 de dezembro de 2013 3

Meu filho era bem pequeno, mal sabia falar, mas havia uma palavra que ele repetia a todo momento:

Quero.

Na verdade, “eu quero”. Tudo ele queria e a cada instante queria. Fiquei fascinado. Ali estava um resumo da vida. O ser humano atravessa seu tempo debaixo do sol querendo, a vida inteira é um querer sem fim.

Agora, no desfecho de dezembro, a primeira pergunta que você se faz é: o que eu quero de Natal e para o ano que vem? E à noite, no recôndito do seu quarto, à meia-luz, você fecha os olhos em oração, concentra-se no Deus em que acredita e faz o quê? Um pedido. “Pedi e vos será dado”, disse Jesus.

Pedi e vos será dado. Linda promessa. Uma promessa de esperança. Mas o que você quer? Você sabe, realmente, o que você quer? Você sabe se o que você pensa querer é o melhor para você? Você tem certeza?

Aquela pequena deusa de pele de ouro, se ela se olhar no espelho, ela vai dizer: “Eu gosto daquele cara, é dele que gosto”. Ela gosta. Mas o que ela vai fazer com este sentimento? Ela não sabe.

E aquele seu colega devasso, ele é guiado pelo desejo, ele busca o prazer, mas nunca encontra satisfação. Ele deseja, mas não sabe de fato o que quer. Não sabe nem se a realização do seu desejo lhe fará bem ou mal.

E a mulher executiva, ela recebe um gordo salário, ela tem autoridade dentro do seu tailleur, ela é dona de uma beleza clássica, mas falta-lhe algo, e ela não sabe o que é. O que pode ser, se ela aparentemente tem tudo o que uma mulher pode querer?

Eu quero, eu quero. Você sabe o que quer? Muito dinheiro no bolso? Saúde pra dar e vender? É o suficiente? Ou você quer apenas uma casa no campo, do tamanho ideal, pau-a-pique e sapê? Ou você é um menino que sonha com o título do seu time no ano que vem? Lembro de um final de ano no IAPI em que um grupo de garotos passou a virada do dia 31 de dezembro para o 1º de janeiro jogando bola. “Para jogarmos bem no ano que vem”, explicaram. São esses anseios prosaicos que o motivam? Que bom, se for.

Eu quero. O budismo ensina que a felicidade está na extinção do desejo. Quanto menos você quiser, mais próximo estará da satisfação. Mas como não querer, se esse é um mundo de quereres?

O que eu quero para 2014? Querer menos, talvez. Sim, eu queria querer menos. Mas queria também ter inteligência para compreender as pessoas que me amam. E paciência para me conformar quando elas não me compreendessem. E atravessar o dia sem tentar resolver todos os problemas da minha vida. Apenas, viver. Suavemente, serenamente, aceitando o tempo que passa, no ritmo das ondas do mar, viver, apenas viver.

Contratação de Edinho é típica de perdedor

19 de dezembro de 2013 40

A contratação de Edinho pelo Grêmio é típica. É assim que se comporta um time perdedor. Nos 25 anos em que o Inter viu o Grêmio alcançar suas maiores glórias, era desta forma que os dirigentes colorados se comportavam: contratando jogadores que haviam feito sucesso no Grêmio. No Inter jogaram Cuca, Tita, Lima e outros tantos ex-gremistas. Em geral, não deu certo.

Antes de Edinho ser anunciado pelo Grêmio, houve a especulação de que ele seria recontratado pelo Inter. Ele e Rafael Sobis. Falei, então, no Sala de Redação, que o Inter se espelhava em demasia no seu antigo sucesso. Que o Inter precisava sair de 2006.

Talvez o Inter tenha saído. O Grêmio, como se vê, não. Edinho era contestado pelos colorados em 2006, e agora terá que agradar aos gremistas. Uma tarefa gigantesca para Edinho. Ele não terá muito espaço para errar. Terá que começar acertando e seguir acertando. Terá de acertar sempre. Difícil de dar certo.

Coisa de meninos

17 de dezembro de 2013 16

Estou muito velho para amadurecer. Outro dia, um homem dotado de alguma sabedoria me disse:

— Você parece um menino.

Não fisicamente (preferia que fosse fisicamente). Espiritualmente. Ele queria dizer que meus sentimentos ainda são os de um menino, para o bem e para o mal.

E é verdade. O que é um problema. Afinal, não sou mais um menino em termos cronológicos. Maldita cronologia.
Isso de ser adulto, isso é com as mulheres. As mulheres são racionais com seus sentimentos. Têm autocontrole. Tomam decisões. Muito irritante.

É por isso que admiro tanto as mulheres, esses seres superiores. Elas são donas do mundo. Sempre foram. Antes, quando elas eram oprimidas e discriminadas, na verdade elas toleravam essa opressão e essa discriminação, e a permitiam, como um pai permite certas manhas do filho. Era-lhes confortável, elas estavam preocupadas com assuntos mais importantes. Se nós homens tivéssemos sido competentes no nosso domínio, elas continuariam nos deixando com a ilusão do poder. Mas, não. Nós fomos como os nazistas quando invadiram a Europa. Em alguns lugares, como na Áustria e na Checoeslováquia, os nazistas foram recebidos com festa, como uma espécie de salvadores. Mas foram tão tiranos, tão… nazistas, que logo os movimentos de resistência foram postos em atividade.

As mulheres, muito mais racionais, calculistas, muito mais adultas do que nós, as mulheres aceitaram o domínio masculino até perceberem que não estava dando certo. Então, elas se levantaram e se ombrearam aos homens, e agora o mundo é delas.

Pena que não vai dar certo também. Elas estão seguindo o mesmo caminho errado que nós traçamos. O caminho certo a percorrer era outro, era o antigo, o das mulheres condescendentes do passado. O caminho da simplicidade.
De qualquer forma, o fato é que elas são adultas, e nós, não. Nós precisamos extravasar nossa infantilidade. É por isso que pintamos a Gioconda e tiramos de um bloco do mármore de Carrara a Pietà e escrevemos Crime e Castigo e nos matamos em guerras cruentas. É por isso, também, que inventamos o futebol.

O futebol é a expressão da meninice do homem. Que importância tem se um time é campeão ou se é rebaixado? Nenhuma. Absolutamente nenhuma. Mas nós homens nos importamos com isso, e agora muitas mulheres também se importam, provando que elas realmente seguiram o caminho errado.

O futebol é uma brincadeira de meninos, nada mais do que isso. Movimenta bilhões de dólares, faz a glória ou a desgraça de milhares, muda a vida de outros milhares, mas, no cerne duro, não passa de uma brincadeira de meninos.
Meninos podem fazer coisas boas, coisas geniais, coisas sublimes. Mas, da mesma forma, podem fazer coisas horríveis. Aqueles seres humanos sem camisa que quase se mataram a socos, pauladas e pontapés, em Joinville, são meninos. Meninos maus. Mulheres jamais fariam aquilo. Mulheres são adultas. Ou, pelo menos, a maioria das mulheres era adulta.

Elas estão se modificando. Estão se tornando cada vez mais parecidas conosco. Tenho medo do que elas podem se tornar. Se algum dia dois bandos de mulheres que não se conhecem fizerem algo semelhante ao que fizeram os torcedores em Joinville, se algum dia virmos cenas como aquelas protagonizadas por grupos de mulheres, aí, oh, Deus, aí tudo acabou. Aí não haverá mais esperança. Mas ainda acredito nas mulheres. Acredito que elas conseguirão compreender que o caminho é outro, que darão meia-volta e que nos conduzirão pela vereda da luz. Só as mulheres podem fazer isso. Ainda há tempo. Mas não muito.

Você quer ser Van Gogh?

10 de dezembro de 2013 25

Existe sorte?

Van Gogh, por exemplo, teve sorte ou azar na vida?

Van Gogh viveu 37 anos infelizes. Foi um frustrado, um fracassado, um solitário, muito provavelmente um chato. Quase ninguém gostava de Van Gogh. Mas, depois de morto, ele se transformou num dos maiores personagens da história da Humanidade, um artista imortal.

Você gostaria de ter sido Van Gogh, em vez de ser você?

Você, digamos que você seja uma das bilhões de pessoas comuns que vivem ou já viveram debaixo do sol. Você teve e tem seus sucessos e suas desilusões. Você se orgulha de algumas coisas, de outras se envergonha. Mas digamos que seu saldo seja positivo. Que você seja uma pessoa feliz.

Certo.

Você é feliz, você sorri nas fotos do Facebook, mas você nunca será um Van Gogh. A sua vida não fará a menor diferença na história do planeta. Passados alguns anos depois da sua morte, nem lembrança você será mais. As futuras gerações o esquecerão. A posteridade irá ignorá-lo como a um rato de praça.

Então? Valerá a pena a sua felicidade? Ou você preferia viver 37 anos torturados e ser um Van Gogh?

Churchill! Churchill sofria de depressão. Chamava-a de o seu “cão negro”. Churchill cometeu muitos erros e falhou em boa parte da vida. Mas redimiu-se na II Guerra Mundial e ajudou a salvar o mundo. Você enfrentaria o cão negro de Churchill em troca de ser o salvador do mundo? Ou você fica com a sua vida de assalariado, contente com as pequenas espertices do seu filho, satisfeito com uma conquista amorosa inusitada e com as férias nas franjas do Atlântico?

O que é, realmente, ter sorte na vida?

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O SORTUDO E O AZARADO

O Grêmio, diz-se que o Grêmio terminou o ano como vice-campeão porque teve sorte. O Inter, diz-se que o Inter terminou o ano a um degrau do rebaixamento porque teve azar.

D’Alessandro, o grande líder do Inter, o centro técnico do time, o chefe do vestiário, D’Alessandro experimentou o melhor ano da sua carreira.

Damião até outro dia era o centroavante da Seleção.

Forlán foi o melhor da última Copa.

Alex chegou como um quase craque.

Otavinho e João Afonso são revelações luzidias.

Índio é um dos maiores zagueiros da história do Inter.

Juan era homem de confiança de Dunga na Copa.

Clemer era invencível nas categorias de base.

Mas o Inter empatou com o time sub-20 da Ponte Preta, saiu de campo vaiado e termina o ano cabisbaixo.

Já no Grêmio, Renato não treina, não entende de tática e é arrogante.

O clube está endividado.

A OAS é quem manda na Arena.

O craque do time tem 39 anos.

As revelações vieram da base do Juventude.

O ataque não marca gols.

E o meio-campo não cria nada.

Mas o time está na Libertadores em 2014.

Por sorte? O Grêmio tem sorte e o Inter tem azar? É isso? Ou o Inter teve sorte por não ter caído e o Grêmio teve azar porque não foi campeão? Quem sairá melhor para a posteridade? Essa resposta só quem tem é a posteridade.