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Como o Brasil goleará o México

19 de junho de 2013 2

O México tem um jogador chamado Gerardo Flores, que, por algum motivo, é conhecido como “Jerry” pela torcida do seu time, o Cruz Azul. É um rapaz magrinho e moreno, nascido há 27 anos no Estado de Morelos, o mesmo do grande, heroico, bravo, incomparável Emiliano Zapata. Esse Jerry, se jogar hoje em Fortaleza, o Brasil vai golear.
Como posso afirmar isso com tanta segurança?
Pelo seguinte: Jerry joga na lateral direita, faixa do gramado que é habitat de Neymar. E Jerry é um jogador muitíssimo fraco. Tendo visto apenas uma partida do México, contra a Itália, domingo passado, alço-me à ousadia de dizer que ele é o jogador mais precário do seu time.

Jerry, contra os italianos, lembrou-me Claudio Radar em um Gre-Nal célebre dos anos 70. Claudio Radar era lateral-direito do Grêmio. Naquele clássico, o Inter pôs, em cima dele, Vacaria, Paulo César e Lula. Eles passaram a tarde inteira triangulando, colocando o Radar no bobinho. O Radar gritava por ajuda, mas os zagueiros, se não me engano Ancheta e Beto Fuscão (ou Beto Bacamarte) e mais o dedicado volante Cacau estavam mais preocupados com Flávio Minuano e Escurinho, que tinham o costume de cabecear na área do Grêmio. Deu que o Grêmio perdeu por 2 a 1 e, das tribunas do Olímpico, o então governador Guazzelli suspirou:

– Precisamos urgentemente de um novo lateral-direito.

Era o fim da carreira de Radar no Grêmio.

Radar nem era tão deficiente na marcação; Jerry é. E, se não terá pela frente um tripé como o do Inter de 1975, terá Neymar, o que pode ser ainda mais constrangedor.

Jerry é o nome do homem, Neymar. Meio índio. Número 22 às costas. Hesitante como se estivesse na primeira visita aos pais da namorada. Por ali passa a vitória, Neymar. Por ali.

O voluntário

O voluntário tinha no sorriso aquela luz clara que só os negros muito negros têm.

– E aiam, Davim – cumprimentou-me, enquanto passava meu laptop pelo raio X. – Eshtá tudo cehto?

Conferi o nome dele na credencial, como ele havia feito comigo, e caprichei no carioquês:

– Eshtá tudo bem, Denish.

Ele abriu mais o sorriso. Depois, arregalou muito os olhos redondos e baixou a voz para confidenciar:

– Cê já viu as mexicanash?

Balancei a cabeça.

– Ainda não...

– Muy bielash – suspirou. – Muy bielash...

A famosa repórter

Esse episódio com o voluntário Dênis aconteceu antes de Itália versus México. Quando ele falou da beleza das mexicanas, suspeitei que se referisse a Inez Sainz.

Inez Sainz (veja na página 43) é uma famosíssima repórter de TV do México. Ela usa sempre uma calça branca. E mais não digo a respeito.

O fato é que Inez Sainz não estava no jogo do México. Ela seguia a Seleção Brasileira. Hoje, estará em Fortaleza. Suponho que com aquela calça branca dela. E mais não digo.

* Texto publicado na Zero Hora desta quarta-feira, 19/06/2013

Motivos para dizer não

19 de junho de 2013 42

Tenho usado todos os meus escassos neurônios para compreender os protestos dos estudantes. Vamos lá. Penso melhor me questionando. Perguntando, por exemplo:

O que é líquido e indiscutível?

Resposta: que os protestos
são legítimos.

Sim, são. Se as pessoas se sentem injustiçadas, têm de protestar. O que não significa, evidentemente, que estejam de fato sendo injustiçadas. Mas legítimos, são; disso não há quem discorde.

Outro ponto indiscutível: as pessoas estão descontentes. Óbvio, ou não protestariam.

Com o que estão descontentes? Quais as razões dos protestos?

Aí complicou.

As manifestações foram desencadeadas devido ao preço das passagens dos ônibus e já desaguaram na corrupção, nos gastos com a Copa e nas deficiências de educação, saúde e custo de vida. Tudo que se sabe que está errado no Brasil.

Eles reclamam de tudo, pois. Um problema. Quem reclama de tudo, não ganha nada. O tudo é o mais próximo que existe do nada.

Talvez encontre uma resposta se tomar as queixas pontualmente.

Vamos lá de novo.

Intriga que as manifestações começaram com questões de transporte e, logo em seguida, de saúde. Bem. Sabe-se que nunca tanta gente comprou carro, no Brasil, como nos últimos anos. Da mesma forma, nunca tanta gente adquiriu planos de saúde.

As ruas ficaram engarrafadas e os planos de saúde não conseguem mais atender a demanda. O que incomoda quem já tinha carro e plano de saúde, mas será que incomoda quem não tinha, a ponto de sair à rua para protestar? Duvido.

É um protesto de quem já tinha, portanto. O que não lhe rouba a legitimidade, nem a justiça. Quem tem pode protestar tanto quanto quem não tem.

E os gastos com a Copa? E os estádios que foram construídos em cidades de quase nenhum futebol, como Brasília e Manaus? Uma boa causa, mas por que ninguém protestou quando os estádios estavam sendo erguidos do chão? Agora o dinheiro já está gasto...

Há uma confusão de causas. Quais serão as consequências?

A corrupção não vai acabar por causa disso. Corrupção não acaba por deliberação política. Nem vão melhorar a educação ou a saúde. E a Copa do Mundo será realizada, decerto que sim.

O que vai acontecer, então?

O governo será atingido, isso é outro ponto indiscutível. O PT talvez perca votos e Dilma talvez não seja reeleita. O próximo presidente pode ser do PSDB ou do PP ou do PSTU, sabe-se lá.

Mas isso, realmente, não importa.

O que importa, nos protestos, não são suas causas difusas nem suas consequências vagas. O que importa, nos protestos, são os protestos.

Há 20 anos os jovens não protestavam. Há 20 anos, ajudaram a derrubar um presidente da República. Era uma causa bem identificável. De 20 anos para cá, a moeda se estabilizou, o desemprego diminuiu, dezenas de milhões ascenderam de classe social, os brasileiros elegeram um sociólogo, um operário e uma mulher.

Ainda há muita coisa errada? Sim! Mas isso não interessa. O que interessa é que o jovem de hoje saiu à rua e está participando de algo grandioso, algo que quebra a cabeça da polícia e picha a parede do palácio, algo que é contra, seja lá contra o que for. Não importa, o que importa é dizer não.

O jovem diz não e se orgulha de dizer não, mesmo que não saiba exatamente para o que está dizendo não. Daqui a 20 anos ele verá as fotos e os filmes dos movimentos de agora, e inflará o peito ao contar que estava lá.

– Eu estava lá. Eu disse não – dirá para seu filho.

E o filho dele vai admirá-lo e vai também sentir vontade de sair à rua e, por algum motivo, qualquer motivo, gritar: não!

* Texto publicado na Zero Hora desta quarta-feira, 19/06/2013

A carioquice de Robinho

18 de junho de 2013 1

Robinho é o apelido do rapaz da banca de jornais aqui perto do meu apartamento de Copacabana. O Rio é uma cidade de banca de jornais, porque o Rio é uma cidade em que se caminha nas ruas. Uma cidade só realmente é das pessoas se é feita a pé.

Mas o guri (no Rio diz-se “garoto”). Pois o garoto, esse Robinho, não é muito parecido com o Robinho da pedalada. É um mulato claro, o Robinho de Copacabana, tem o cabelo pintado de laranja e vive a vida com uma parcimônia de dar inveja. Nunca tem pressa, o Robinho da banca de jornais. Seus movimentos são pastosos, seu olhar baço, ele pensa muito antes de dar o troco ou de alcançar um gibi. Você fica esperando e pensa que ele desistiu de esticar o braço. Aí o braço vai esticando, esticando. Robinho vive no gerúndio. Alguém fala com ele e ele responde Á.

– Valeu, Robinho – agradece um gordo que trocou uma nota de R$ 50 por algumas de R$ 10 e outras de R$ 5.

– Á.

– Acho que não chove amanhã, Robinho – comenta uma senhora de bermuda, enquanto folheia uma revista de novela.

– Á.

– Até amanhã – despede-se um senhor que leva o jornal do dia sob o braço.

– Á.

A tranquilidade de Robinho me fez ficar um pouco mais dentro da banca. Estava intrigado. Seria ele sempre assim, tão indiferente às demandas do mundo exterior?

Graças à minha curiosidade, deparei com o jornal “Meia Hora de Notícias”. Que nome sugestivo de jornal. Está dito ali que você vai consumi-lo em meia hora, e pronto. Irresistível. Por dever de ofício até sabia existir, esse Meia Hora, mas, por preconceito intelectual, jamais havia lido e nem sequer feito considerações a respeito. É um desses tabletes populares. A manchete era:

“Taradão mostra o bimbinho pra miss Brasil e se dá mal”. E uma foto da miss Brasil 2010, Débora Lyra, de biquíni e faixa.

Comecei a folhear o jornal. Tudo muito divertido, inclusive certos anúncios como o do “Império da Doutora Sete Catacumbas”, uma feiticeira que apregoa fazer 42 tipos de bruxarias, desde “trazer seu amor preso, desejando somente você”, até torná-lo, cruz credo, impotente para as outras, além de vodus, magias, encantamentos, amarrações, frieza sexual, destruição e outros fins.

As cariocas são mesmo mulheres perigosas.

Na seção internacional, a matéria de abertura escorria sob a cartola “Era um canhão”. E o título: “Achou ‘prima’ feia e chamou a polícia”. Li o texto. Um inglês ligou para uma telentrega de garota de programa. Quando a moça chegou, ele a achou “muito feia”, revoltou-se e procurou as autoridades para reclamar de propaganda enganosa.

Dei uma risada baixa. Robinho esticou um olhar cansado para o jornal que eu tinha nas mãos. Mostrei-lhe a página.

– Viu essa, Robinho?

Ele respirou fundo e comentou:

– Á.

Imaginei que diria algo assim.

O governo do Rio importou dos Estados Unidos um moderníssimo robô antibombas para a Copa das Confederações. Trata-se de uma máquina operada por controle remoto. Se, por exemplo, uma mala suspeita é encontrada abandonada, o local onde ela está é evacuado e quem se aproxima é o robô, rodando em suas esteiras metálicas. Ele, então, faz uma radiografia da mala e envia as imagens por computador a uma central de segurança. Se for detectado algum explosivo no interior da mala, o robô aciona um jato d’água para evitar a detonação.

O aparelho custou R$ 700 mil.

Havia tempo que não via uma seleção mexicana tão frágil como essa que foi amassada tecnicamente pela Itália no Maracanã, domingo passado. Amanhã vou escrever mais sobre, mas hoje deixo uma previsão: o Brasil vai golear, na quarta-feira.

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 18/06/2013.

Adriano nunca deixará de ser um menino da Vila Cruzeiro

18 de junho de 2013 9

Adriano sempre foi, e provavelmente nunca deixará de ser, um menino da Vila Cruzeiro. Isso diz muito sobre ele. A Vila Cruzeiro é um complexo de favelas situado ao lado do Alemão. Naquela cena famosa feita de helicóptero dos bandidos fugindo da polícia, dezenas, centenas deles, sem camisa, com armas aos ombros, esgueirando-se de um mato para outro, naquela cena os bandidos fugiam da Cruzeiro e para se homiziar no Alemão.

A Cruzeiro foi pacificada, portanto. Mas nem tanto. Este ano mesmo, pouco antes da chamada Corrida da Paz, evento que comemora a pacificação da favela do qual participa até o secretário de segurança, pois pouco antes da largada os traficantes patrocinaram um tiroteio assustador. A Corrida da Paz foi realizada (com uma hora de atraso), mas os traficantes deram seu recado – eles ainda estão por lá.

Adriano também. Volta e meia é visto na favela. Houve tempo em que ele gastou R$ 70 mil para comprar duas motos a fim de se deslocar melhor pelas ruelas da Cruzeiro. Lá, quando garoto, Adriano jogava num time amador chamado “Ordem e Progresso”, com camisa listrada verticalmente em verde e amarelo. O campo do Ordem e Progresso ficava na porta da casa dele, era como o seu quintal.

Na época, o apelido de Adriano não era Imperador; era Pipoca. Porque vivia comendo a pipoca feita pela avó dele, Dona Wanda.

Dona Wanda é o esteio da família. Era ela quem levava Adriano de trem ou de ônibus para a escolinha do Flamengo. Só tinha dinheiro para a passagem de ida. A da volta arrecadava vendendo pastéis na Gávea. Adriano adorava os pastéis de Dona Wanda. Ronaldo Fenômeno um dia os experimentou e se viciou. Quando os dois grandes centroavantes iam para a Europa, Dona Wanda tinha de preparar uma batelada e congelar, para que eles se repimpassem do outro lado do Atlântico.

Dona Wanda ainda vive. O pai de Adriano, não. O pai de Adriano, Almir, também jogou no Ordem e Progresso. Era o ídolo do filho. Um dia, ele estava em um pagode perto de casa e estourou uma briga. Um policial deu um tiro para o chão, mas a bala ricocheteou e acabou atingindo Almir na cabeça. Ele ainda viveu alguns anos com a bala alojada no crânio. Em 2004, logo depois de Adriano se consagrar marcando um gol contra a Argentina, Almir morreu. Segundo Rosilda, a mãe do Imperador Pipoca, foi a partir deste fato que começaram seus problemas psicológicos do filho. Adriano entrou em depressão e pensou até em suicídio.

Adriano não se matou, mas talvez tenha compensado a tristeza da perda com festas cada vez mais... animadas. Em algumas houve a participação da conhecida travesti Patrícia Araújo. Em outras, a de um burro (o quadrúpede, não um humano com limitadas faculdades intelectuais). Houve também um funk na Vila Cruzeiro que era para ser discreto e terminou sendo descoberto por sua namorada na época, a loira Joana Machado. Furiosa e enciumada, Joana subiu à favela marchando e bufando e, para se vingar, riscou um carro importado pensando que fosse de Adriano. Era do goleiro Bruno, que, já demonstrando como lida com contrariedades, amarrou Joana em uma árvore. Coisas da Vila Cruzeiro.

Um gol de Zico

16 de junho de 2013 4

O primeiro gol em jogo oficial marcado no novo Maracanã só podia ser um gol de Zico.

Foi.

Quem chutou foi o italiano Pirlo, mas o gol foi típico de Zico. Balotelli sofreu falta na intermediária aos 26 minutos do primeiro tempo de Itália versus México, no grupo do Brasil da Copa das Confederações. Os italianos começaram a pedir, nas cadeiras coloridas do Maracanã:

­— Pirlo! Pirlo!

Pirlo estava concentrado, olhando ora para a bola branca, ora para o gol defendido por Corona, esse bom goleiro com nome de cerveja. Quando bateu na bola, o barbudo Pirlo bateu com o lado de dentro do pé direito. Ela alçou um voo veloz e macio, fazendo curva por cima da barreira, e entrou no ângulo. Um gol igual aos tantos que Zico marcou no antigo Maracanã.

A Itália não goleou. Poderia. A vitória de 2 a 1 não fez jus à superioridade desses velhos campeões do mundo. Felipão que fique alerta para a última partida do Brasil na fase de grupos. A Itália de 2013 não tem nada da equipe pragmática e sem brilho que vez em quando ganha uma Copa de surpresa. Não. A Itália que ontem amassou tecnicamente o México joga pelas pontas, mas quase não levanta a bola para a área. A bola corre na grama, vertical, insinuante.

Balotelli, em tese, é o único atacante. Só em tese. Emanuele Giaccherini e Mattia de Sciglio juntam-se a ele, quando o time ataca. E, no meio, Pirlo organiza e comanda, mesmo muito marcado, como foi o caso de ontem, no Maracanã.

Mas o grande perigo, realmente, é Mario Balotelli. Ontem ele praticamente desconsiderou seus marcadores mexicanos. Parecia estar jogando contra crianças. Chutou com veneno aos 4, aos 6, aos 8, aos 12. Passava pelos mexicanos à esquerda, à direita, pelo meio. Não fez meia dúzia de gols porque ninguém faz meia dúzia de gols em jogos entre seleções nacionais.

Jogos entre seleções nacionais são duros. Tanto que o México, tão mais inferior à Itália, empatou ao 32. Barzagli se atrapalhou na saída de bola, foi pressionado pelo mezzo brasileiro, mezzo mexicano Giovani dos Santos e cometeu pênalti. Hernandez converteu.

Mas, no segundo tempo, a Itália jogou com a naturalidade de um Michelângelo esculpindo em mármore de Carrara. Aos 32 minutos, Balotelli, atropelou a zaga mexicana e fez 2 a 1. Logo em seguida foi substituído, e saiu de campo ovacionado pela massa:

— Uh! Balotelli!

Sim, Balotelli. O Brasil não tem um centroavante como ele. Poucos têm. Cuidado, Felipão. A Itália será um teste rigoroso. Como sempre foi.

Novo Maracanã é belo, confortável e moderno, mas falta algo

16 de junho de 2013 3

Desculpem, fiquei um pouco triste. Quando pisei no interior do novíssimo e lindíssimo Maracanã, fiquei triste. Porque estava dentro de outro estádio. Este Maracanã, este de agora, é, como já disse, belo. É amplo, é confortável e, obviamente, é moderno.

Mas falta algo.

Aquele Maracanã, o velho Maracanã, o Maracanã de Mario Filho e Nelson Rodrigues, o Maracanã das 200 mil pessoas cantando Touradas em Madrid, o Maracanã onde o Grêmio se consagrou como o primeiro time de fora do Rio a jogar, e a ganhar, 3 a 1 no Flamengo em 15 de novembro de 1950, o Maracanã do gol mil de Pelé e dos joões de Garrincha, o Maracanã em que o Inter assomou para o mundo batendo a Máquina do Flu em 1975 e em que o Grêmio ganhou o Brasil em 1997,o Maracanã do Canal 100 e da Seleção Brasileira, aquele Maracanã histórico não existe mais.

Zico, o rei do Maracanã, talvez tenha sentido o mesmo que senti ao olhar para essas arquibancadas sagradas do futebol. Zico ficou perplexo e balbuciou:

- Não sei o que pensar. Este parece o filho daquele Maracanã.

Zico, imagine, Zico se sentia tão à vontade jogando nesse estádio que, quando ia bater uma de suas faltas fatais, fazia pontaria se baseando numa das placas de publicidade da pista atlética. Que placa?, perguntavam os repórteres. Zico sorria e não revelava. Vai que um inimigo do Vasco tirasse a placa...

Pois, para Zico, este é o filho do verdadeiro Maracanã. De fato, o estádio parece menor por dentro, mas não é isso que inquieta. O que inquieta é que o novo Maracanã é... igual. As rugas do velho estádio, seus pequenos e grandes defeitos, lhe conferiam charme, eram a sua personalidade. É isso que está faltando. Charme. Personalidade. Que, quem sabe, venham com a idade.

O mundo muda, é preciso se conformar. Mas também, às vezes, pode-se ficar triste. Um pouco triste.

12 anos

14 de junho de 2013 9

Outro dia, o meu amigo Niba contemplou uma foto sua e comentou:

– Que estranho. Nesta foto parece que tenho cabelos brancos...

Riram todos que o ouviam: os cabelos do Niba, se não são brancos, são grisalhos; o que é a mesma coisa.

Mas eu o entendo. Às vezes vejo uma foto minha e me assusto: ei, esse não é aquele cara que vejo no espelho! O cara do espelho é muito mais jovem.

Por que as imagens são diferentes, a do espelho e a da foto? Suponho que, na foto, eu me distanciei de mim mesmo. É como se fosse outra pessoa observando a imagem. Quando me miro no espelho, não. Quando me miro no espelho, sou eu comigo mesmo, um momento íntimo, de autocontemplação.

Ocorre que, na verdade, não tenho essa idade cronológica que o tempo me impôs. Tenho 12 anos de idade. Acredite. Todas as coisas que sinto são as mesmas de quando tinha 12 anos. Percebo isso com clareza quando estou com meus amigos. Nossas brincadeiras, nossas conversas, nossas risadas e nossos interesses são de guris de 12 anos de idade. Ainda sonhamos sonhos de guris e, quando nos despedimos, no fim da noite, nos despedimos uns dos outros e também dos guris que somos. Voltamos a ser homens. Tristemente.

Quando brinco com meu filhinho de cinco anos, não sou o pai dele, sou um amigo um pouco mais velho. Por isso nossas brincadeiras funcionam. Por isso nos divertimos tanto.

Mas o momento em que identifico com mais solidez a minha verdadeira idade, quando sei que tenho mesmo 12 anos, é quando olho para uma mulher.

Qualquer mulher, em qualquer situação.

Quando tinha 12 anos, cristalizou-se esse fascínio que nutro pelas mulheres. Uma mulher tem o jeito de cruzar as pernas trançando a canela direita por trás da esquerda numa contorção improvável. Uma mulher, ao experimentar o perfume, fecha a mão e cheira o próprio punho. Uma mulher morde uma mecha do cabelo que lhe cai ao lado da nuca. Uma mulher, ao examinar o estado das unhas, estica o braço, dobra a mão em arco e leva no rosto o ar grave de quem executa uma atividade vital.

Esses pequenos gestos das mulheres me hipnotizam desde que tinha 12 anos.

E os grandes gestos também.

Só as mulheres são capazes de certas generosidades. Ainda hoje, às vezes uma mulher que mal conheço me abraça com carinho, me olha com ternura. É comovente. Não há nada de sexual naquilo, não raro essa mulher é muito mais velha do que eu. Entendo o que ela sente. É o instinto maternal que lhe brota. Porque ela sabe, ela vê, as mulheres são capazes de ver: ali, diante dela, com cabelos grisalhos nas frontes, não está um homem. Está um menino de 12 anos de idade.

* Texto publicado na página 2 da Zero Hora desta sexta-feira, 14/06/2013

Som de Sexta

14 de junho de 2013 2

A voz suave do Dalto me dá uma nostalgia...

Luxemburgo perdeu o rumo

13 de junho de 2013 21

Luxemburgo está perdido.
Quando um técnico apela para experimentações esdrúxulas é porque está sem convicções.
A tentativa de colocar Welliton no time e fazer um sistema espelhado com o São Paulo dentro da Arena foi prova do desespero do treinador.
O esquema com três atacantes já havia fracassado antes. Fracassou sempre. Fracassou de novo. Fracassará outra vez.
Conseguirá Luxemburgo retomar o curso?
Tem 15 dias para isso.
Não é muito.

Adriano é um baita negócio para o Inter

12 de junho de 2013 110

A possível contratação de Adriano é um grande lance do Inter.
Adriano poderia vir com um contrato de risco.
Pode dar errado?
Claro que pode, mas, se der, o prejuízo é mínimo.
Em compensação, se der certo, o Inter faz time para disputar o título.
Se Adriano jogar 50% do que pode o Inter terá em campo o melhor centroavante do Brasil.

O livro do Inter

11 de junho de 2013 60

O velho jornalista Cláudio Dienstmann concluiu aquele que talvez seja o mais completo livro já escrito sobre a história do Inter. Li alguns trechos. Trata-se do produto de paciente pesquisa feita durante 10 anos pelo Claudião, ele que foi repórter especial de Zero Hora e assessor do Inter. Os fatos relatados no livro foram colhidos em atas de reuniões do conselho, jornais, livros e cartas dos fundadores do clube. Há algumas belas novidades. Falta, apenas, um editor esperto que se interesse em publicar a obra. Abaixo, reproduzo, para seu deleite, três partes do trabalho do Claudião:

1. A Fundação

Três jovens comerciantes vindos de São Paulo, rejeitados por outros times de futebol de Porto Alegre, resolveram fundar o seu próprio clube. Henrique Poppe Leão, José Poppe e Luiz Madeira Poppe convidaram os amigos para uma reunião na noite de 4 de abril de 1909, um domingo. Foi no porão da casa dos pais de João Leopoldo Seferin, na Rua da Redenção 141 (depois Avenida João Pessoa, mais tarde número 211, hoje 1025, prédio residencial (...).

Eram esperados 22 fundadores para criar o Inter – suficientes para formar dois times e fazer jogos internos. Apareceram 40. Alguns estavam apenas passando, e resolveram entrar atraídos pelo movimento. Seferin e os Poppe tiveram que sair pela vizinhança pedindo cadeiras emprestadas.

2. O Nome

O nome foi copiado do Internacional que já existia em São Paulo (o time dos Poppe), e as cores escolhidas foram o vermelho e o branco, do bloco carnavalesco Os Venezianos, superando em presenças o verde Esmeralda –, cujos componentes, liderados por Pantaleão Gonçalves de Oliveira, saíram indignados e sem assinar a ata (o que não impediu a escolha de Pantaleão para a vice-presidência).

3. O Primeiro Campo

No dia 22 de agosto de 1909, o presidente honorário do Inter, capitão Graciliano de Faria Ortiz, secretário da Limpeza Pública de Porto Alegre e sub-prefeito da Azenha, cedeu ao clube o empréstimo do seu primeiro campo, na Ilhota, na junção dos arroios Dilúvio e Cascatinha – e o secretário do clube, Antenor Lemos, em ofício que o capitão fez questão de guardar, pediu na maior cara de pau que ele aumentasse essa generosidade e mandasse também capinar o local. Ali – hoje a Praça Sport Club Internacional, entre o Colégio Protásio Alves e o Hospital Porto Alegre – o clube realizou apenas jogos internos (treinos), entre primeiro e segundo quadros. Com qualquer chuva o campo alagava.

Questão de espaço

O livro do Claudião passa rapidamente por um detalhe que é desconhecido pela maioria dos que se interessam pela história dos clubes da Capital, mas que é fundamental: naquele tempo, os clubes eram fundados para que seus sócios jogassem futebol ENTRE ELES. Os jogos contra adversários externos eram raríssimos.

Havia só dois clubes de futebol na cidade, o Grêmio e o Fussball, fundados no mesmo dia, por influência de uma excursão do Rio Grande a Porto Alegre uma semana antes. Os dois, Grêmio e Fussball, enfrentavam-se apenas uma vez por ano. No resto da temporada, apenas faziam partidas entre equipes do mesmo clube. É por isso que os Poppe não foram aceitos pelo Grêmio e pelo Fussball: porque, se eles entrassem, alguém ficaria sem jogar. Quer dizer: não houve demérito na recusa dos Poppe pelos clubes mais antigos. Foi só questão de espaço.

Não tenho nenhuma dúvida de que:

1. Guilherme Biteco tem de ser titular no Grêmio. Ele dá movimentação e agressividade ao meio-campo. Biteco tem de entrar. Quem vai sair é o menor problema.

2.Vender Fred, Fabrício e Moledo para ficar com Damião não é um bom negócio: é ótimo. Defensores e meias de contenção você encontra pendurados aos cachos nos estádios. Centroavante goleador é um diamante raro.

3. Hernanes tem de ser um dos armadores da Seleção. Um tripé com Fernando, Paulinho e Hernanes, mais Oscar na frente deles, será a espinha dorsal do time. Será a base, talvez, para ser campeão.

* Texto publicado na Zero Hora desta terça-feira, 11/06/2013.

Grêmio e Inter - só normais

09 de junho de 2013 51

Grêmio, Inter, Cruzeiro e Atlético-MG têm a mesma grandeza.
Logo, qualquer resultado em disputas entre esses times é aceitável.
Perder, como o Grêmio perdeu para o Atlético, é normal. Empatar, como o Inter empatou com o Cruzeiro, é normal.
O problema é que um time, para ser campeão, tem de ser mais do que normal. Tem de ser especial.
Grêmio e Inter não têm times especiais. Terão de mudar muito para lutar pelo título.

Código David:Como julgar um caráter

09 de junho de 2013 22

Agora vou revelar algo que vai fazer com que eu caia no seu conceito. É o seguinte:

Gosto de Nuvem de Lágrimas.

Refiro-me à música de Chitãozinho & Xororó.

Ah, jeito triste de ter você

Longe dos olhos e dentro

do meu coração

Me ensina a te esquecer

Ou venha logo e me tire

desta solidão!

Gosto. Sei a letra todinha. Nunca contei isso antes porque desde a adolescência compreendi a verdade terrível: as pessoas julgam os outros pelo gosto musical. E talvez até as pessoas estejam certas. Dois dos maiores filósofos da História, Schopenhauer e Nietzsche, diziam que a música é a mais elevada de todas as artes e que é a mais nobre forma de expressão do ser humano. Claro, quando diziam isso pensavam em Mozart, Beethoven, Bach e, no caso especial de Nietzsche, Richard Wagner e Brahms, de quem, aliás, Wagner tinha ciúme. Não sei o que Schopenhauer e Nietzsche pensariam de Chitãozinho & Xororó e de um cara que gosta de Nuvem de Lágrimas. Isso me preocupa.

Em minha defesa, diria para Nietzsche e Schopenhauer que aprecio Mozart, Beethoven, Brahms e Bach, embora nem tanto Wagner (perdão, Nietz), e que estou desenvolvendo um método de avaliar o caráter do próximo pelo toque do seu celular, o que não deixa de ser um critério musical. Mesmo assim, sei que você deve estar decepcionado comigo por causa da Nuvem de Lágrimas. Paciência. Tinha que fazer essa confissão um dia. Fiz. Pronto. Saí do armário.

Que alívio.

Conto isso, pejado, por causa da Legião Urbana. Nos últimos meses, foram lançados dois filmes com temática da Legião Urbana, Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo. Bem. Fui convidado para assistir a eles várias vezes, a todo momento alguém me pergunta o que achei dos filmes e volta e meia colegas da área de Cultura pedem-me depoimentos a respeito. Por que isso? Tenho cara de quem gosta de Legião Urbana? Acontece que não gosto. Até reconheço a qualidade das letras, mas me irrita aquela gritaria de Jerry Adriani do Renato Russo e, o pior dos defeitos, eles parecem afetados. Uma gravidade falsa, entende? Os dramas de um adolescente mal resolvido e bibibi. Por favor! Prefiro a brejeirice do Leoni cantando que calcula tudo para impressionar a amada, a luz do final da tarde batendo em seu rosto, a ginga manemolente, o olhar de viés, mas nada funciona. “As coisas são mais fáceis na televisão”, reclama ele, e emenda: “Ainda encontro a fórmula do amor!”.

Sim, prefiro quem não se leva tão a sério. Ou quem se entrega genuinamente ao ridículo do amor, e Fernando Pessoa já disse que todas as cartas de amor são ridículas, logo, as canções de amor também haverão de ser. Chitãozinho e Xororó e seus cabelos com mullet são ridículos, quem gosta de Nuvem de Lágrimas, também, certo, mas pelo menos somos autênticos.

Serei um sertanejo?

Disse que gosto de Nuvem de Lágrimas e de imediato me preocupei. Será que isso significa que sou admirador de Chitãozinho & Xororó e música sertaneja? Fazendo agora um exame de consciência, reconheço que gosto daquela As Luzes da Cidade Acesa, ainda que me inquiete com o que parece erro de concordância.

São apenas duas músicas... Sou um sertanejo? Não, não quero pensar em mim mesmo como um sertanejo. Vai abalar minha autoestima.

É diferente, por exemplo, do Roberto Carlos. O Roberto Carlos tem 50 anos de carreira. A cada dezembro, lançou um disco. São mais de 600 músicas. Destas, só umas 50 realmente boas. Em outras palavras: mais de 90% da produção do Roberto Carlos é ruim.

Dito assim, parece que o Roberto Carlos é péssimo, já que nove entre 10 de suas composições não são boas. Mas ele não é péssimo; ele é ótimo. Ele é o Rei. Por quê? Porque 50 músicas boas é muita música boa para uma única pessoa. Logo, ele merece a coroa e, sim, posso dizer que gosto de Roberto Carlos.

Já os Beatles, quantas músicas escreveram? Contei 204, desde I Saw her Standing There, feita para uma namoradinha de Paul que, segundo ele, “tinha só 17 anos e nunca havia vencido um concurso de beleza”, até a imortal The Long and Winding Road, quando Paul e John já brigavam e o sonho estava prestes a acabar. Menos de uma década de carreira, portanto. Pois destas 204, quantas são ruins? Suponho que umas quatro, embora não as conheça. Portanto, eu realmente gosto dos Beatles. Isso é garantido. Ufa.

E o Raul Seixas? Juro que gosto do Raulzito, mas admito que ele só tem umas 12 músicas boas. Quanto ao Paulinho da Viola, 50% das músicas dele são ótimas e os outros 50% nem tanto, mas sou um Paulinhoviolista convicto. Ou será que não sou, por causa daqueles 50% nem tanto?

Maldição. Que crise de identidade.

Ensinamentos de um PET Scan

08 de junho de 2013 4

Você está com problemas de autoestima? Vá fazer um PET Scan. Você se sentirá muito importante fazendo um exame de PET Scan. Toda a ciência desenvolvida em 10 mil anos de civilização, os requintes da inteligência humana, a mais sofisticada tecnologia, tudo isso estará a seu serviço, quando você for submetido a um exame de PET Scan.

É medicina nuclear, entende? Átomos e elétrons, aquela coisa toda. No caso específico do PET Scan, pósitrons, que, em inglês, a sigla PET significa Tomografia por Emissão de Pósitrons.

Sabe o que é um pósitron? É a antipartícula do elétron. Mais não direi.

O que importa é que Albert Einstein, Julius Oppenheimer, caras que falavam em alemão, os mais luminosos gênios da Humanidade trabalharam por você. Você, no momento em que passa por um PET Scan, é uma pessoa especial. Não tem como se sentir pequeno na vida. E o melhor: não dói.

Você é muito bem tratado, quando vai fazer um PET Scan. Porque, obviamente, você é um paciente VIP. Você chega a uma ala muito limpa e moderna do hospital e eles lhe dão uma roupa larga para vestir. Em seguida, levam-no para uma salinha onde há uma poltrona confortável, dessas que reclinam. Uma enfermeira gentil pega a sua mão, pica com extrema doçura a veia azul que lhe corre pelo dorso como um Nilo, e ali injeta um líquido radioativo.

Note que evento único: eles estão injetando uma substância radioativa em você. Quando fizeram isso em mim, fiquei pensando: e se adquirir superpoderes? Não foi uma aranha radioativa que mordeu Peter Parker e o transformou em Homem-Aranha?

Imaginei-me superalgumacoisa quando estava naquela salinha. Você tem que ficar bem descansado e quentinho naquela poltrona. Eles colocam um cobertor sobre seu corpo relaxado e dizem que, se quiser, pode dormir. Você ficará uma hora naquela salinha, no escuro, porque não pode haver nem estímulo visual. Muito reconfortante. Depois, você vai para o aparelho de tomografia. Seu papel é deitar-se e ficar imóvel. Só. Como já disse em outra oportunidade, sou muito bom em não fazer nada. Assim, minhas tomografias são sempre um sucesso. Meu PET Scan também foi. Lindo, aquele meu PET Scan.

Verdade que existe uma desvantagem nisso tudo: se o médico lhe pede para fazer um PET Scan, é sinal de que você pode estar com câncer. Ou com metástase. E sabe como é que o PET Scan identifica os malditos tumores?

Eis uma informação importante para toda a sua vida, inclusive se você não tiver câncer: eles injetam nas suas veias uma substância que imita a glicose. Quando aparece um ponto do seu corpo com altos índices de consumo dessa falsa glicose, soam os alarmes: é ali que está acantonado o inimigo.

Glicose, essa é a chave de tudo. Ou seja: açúcar. O câncer se alimenta de açúcar. O câncer precisa de açúcar como um nenê precisa de leite. As células malignas do câncer consomem 10 vezes mais açúcar do que as células amigas. Portanto, se você quer que um tumor morra de fome, NÃO COMA AÇÚCAR em suas diversas formas, como o delicioso pão branco e os refrescantes sucos de frutas. Você vai ter que mudar a sua vida, mas continuará tendo uma vida para mudar. Sim, senhor, um PET Scan, além de jogar a sua autoestima nas alturas, tem muito a lhe ensinar.

* Publicado no Caderno Vida deste sábado, 08/06/2013

Nietzsche e o cavalo de Turim

07 de junho de 2013 23

Uma manhã de inverno, ao sair de casa, em Turim, Nietzsche viu um camponês espancando seu cavalo numa piazza da cidade. Compadecido, o filósofo atirou-se sobre o homem, arrancou-lhe o chicote das mãos e o expulsou aos gritos. Em seguida, dependurou-se no pescoço do cavalo e pôs-se num choro convulso. Transeuntes acudiram-no quando desmaiou de emoção. Levado de volta para seu quarto, Nietzsche acordou depois de alguns minutos e começou a balbuciar frases sem sentido. Havia enlouquecido. Viveu ainda mais 10 anos e não recuperou a razão.

Esse episódio do cavalo de Turim é bastante famoso, foi até feito um filme a respeito. As pessoas se espantavam: que força comportou aquela cena, capaz de dissolver a sanidade de um dos maiores filósofos de todos os tempos.
A verdade é que Nietzsche já vinha apresentando sinais de demência. Na véspera do dia do colapso, a senhoria do seu apartamento em Turim ouviu ruídos estranhos vindos do quarto em que ele habitava. Foi investigar e, abelhuda como toda senhoria, resolveu espiar pelo buraco da fechadura. Espantadíssima, viu Nietzsche dançando nu.

Antes disso, o filósofo lançou um de seus últimos livros, Ecce Homo, com capítulos encimados por títulos como: "Por que sou tão sábio", "Por que sou tão inteligente" e "Por que escrevo tão bons livros".
Era a loucura que lhe galopava cérebro adentro.

Mesmo assim, mesmo estando ele a enlouquecer progressivamente, não se pode subestimar o poder da cena do espancamento do cavalo de Turim. Houve algo ali que foi tão comovente, que tocou com tal profundidade a alma de Nietzsche, a ponto de abrir em sua mente as comportas para a torrente da loucura. É assombroso, porque se trata de Nietzsche, o filósofo inclemente do Além-do-Homem, que escreveu em Assim Falou Zaratustra:

"Onde se fizeram mais loucuras na Terra do que entre os compassivos, e que foi que mais causou prejuízos à Terra do que a loucura dos compassivos? Pobres dos que amam sem estar acima da sua piedade! (...) Livrai-vos, pois, da sua piedade!".

Nietzsche pregava aos homens que se livrassem da sua piedade e ele próprio enlouqueceu de piedade.
Por causa de um cavalo, não de um homem.

Agora, revendo os relatos das torturas sofridas pelas vítimas do regime militar, gente que foi seviciada com selvageria, que apanhou até morrer, lendo esses relatos levantados pela Comissão da Verdade, fico pensando nos homens que assistiam a essas sessões de barbárie. Como conseguiam? Como não se deixavam tocar ao testemunhar moças e rapazes sofrendo nas mãos de carrascos? Não tinham compaixão, não tinham piedade, não tinham, portanto, humanidade. O enlouqueceriam de horror, como um dia o filósofo enlouqueceu.

* Texto publicado na Zero Hora desta sexta-feira, 7/6/2013.