Jô, o que a movia naquela manhã era uma espécie de fúria existencial. Caminhava pela casa feito uma felina, agindo mais por instinto do que por premeditação. Intuía o que fazer, sentia antes de pensar. Queria chegar ao fim. Queria descobrir toda a extensão do seu poder e até que limite este poder seria capaz de levar um homem. Queria descobrir, também, até que limite ela própria seria capaz de avançar. Aprendera, em suas aventuras recentes, que uma bela mulher é um ser repleto de possibilidades. Mas também aprendera que isso não basta. Uma mulher, além de bela, precisa ter opinião, e uma linda mulher munida de opinião pode ser muito perigosa. O quanto ela podia ser perigosa? Quanto podia afetar os outros e a si mesma? Estas questões ela pretendia desvendar naquela manhã.
E a desvendaria.
Ondulando sozinha pela casa, Jô era uma predadora prestes a saltar sobre sua vítima, uma leoa rastejando pelo capim alto em direção aos gnus que bebiam água no leito do rio. Estava vestida com uma camiseta regata que mal lhe cobria as nádegas, e nada mais. Nem calcinhas, nem calçados, nada. Foi assim, seminua, que recebeu o seu gnu. Abriu a porta ao toque da campainha e detrás dela surgiu um Lucas imponente e belo como um Apolo, sim, mas olhando-a com olhos assustados, como se tivesse que temê-la.
E tinha.
Jô mandou que entrasse sem dizer palavra, com um gesto de cabeça. Notou que Lucas engoliu em seco ao ver como ela estava vestida.
- Jô - balbuciou ele.
- Senta ali - ordenou ela, apontando para uma poltrona na sala.
Lucas calou e obedeceu.
Jô sentou-se numa poltrona colocada exatamente em frente.
- Agora - começou ela. - Você vai fazer o que eu mandar, sem falar nada, entendeu? Não quero ouvir o som da sua voz.
- Jô, eu...
- Não quero ouvir o som da sua voz!
Ela falou num tom que não permitia contestações. Era uma sargenta de coxas nuas. Lucas abriu a boca, um soldado raso, e assentiu com a cabeça.
- Lucas, meu cunhadinho... - a voz dela tornou-se macia. - Você vai me obedecer - enquanto falava, Jô abria as pernas lentamente. - Vai fazer tudo o que eu mandar. - Abriu mais um pouco... Lucas, aboletado na poltrona em frente, baixou os olhos para o entrepernas de Jô e remexeu-se como se estivesse sentado num espinheiro.
- Você vai fazer o seguinte, cunhadinho - Jô sussurrava, sentindo o prazer do pecado lhe pulsar no peito. - Você vai cair de quatro no tapete e vai se arrastar até aqui - abriu bem as pernas, abriu-as de maneira que ficasse exposta como jamais ficara em sua vida. Lucas olhava para ela e respirava com dificuldade. Não era a Jô que ele conhecia que estava ali. Não era a sua cunhada com quem brincava feito criança. Era outro ser. Era uma fêmea. Hesitou. Remexeu-se mais uma vez na poltrona. Fez menção de se erguer. Gaguejou:
- J... Jô...
- Cala essa boca e vem - mandou Jô, completamente aberta, ela própria arfante, sentindo-se uma vagabunda, sentindo-se um bicho.
- Vem! - ordenou de novo.
E ele se pôs de pé.
- De quatro! - mandou Jô. - Eu disse de quatro!
E Lucas, percebendo que não podia fazer nada, senão obedecer, dobrou os joelhos e os fincou no chão e levou as mãos à frente e ficou de quatro.
Jô sorriu.
- Agora vem, meu cachorro!
E ele foi. Percorreu os metros que havia entre as duas poltronas de quatro, como se fosse mesmo um cachorro, e Jô repetia:
- Cachorro! Cachorro!
E escancarou o sorriso e escancarou-se toda ainda mais do que já estava escancarada e, quando ele a alcançou, ela tomou nas mãos um tufo dos cabelos de sua nuca e guiou-lhe a cabeça para o meio das pernas dela, para o seu centro. Não permitiu que ele tirasse as mãos ou os joelhos do chão. Assim, de quatro, obrigou-o a satisfazê-la.
E ele a satisfez.
Jô compreendeu que o gozo intenso que a percorreu, um gozo de ondas e convulsões, foi devido mais ao estado de excitação dela do que à habilidade dele, mas, ainda assim, reconheceu que Lucas se empenhou na tarefa. Quando ela enfim se sentiu saciada, recuou na poltrona, recolheu as pernas e falou:
- Certo, Lucas. Pode se levantar agora.
Lucas se ergueu. Estava ofegante, vermelho, desgrenhado. Jô sorriu. Achou graça um homem ficar naquele estado.
- Jô, você é... - ele começou, mas ela o interrompeu com um levantar de mão.
- Para! - mandou. Era ela quem mandava. Ele parou.
Jô pulou da poltrona. De pé, puxou pudicamente a camiseta para baixo.
- Vai embora - disse, sem nem olhá-lo na cara.
Lucas passou a mão pelos cabelos, tentou se aproximar. Repetiu, pela enésima vez naquela manhã:
- Jô, eu...
- Vai embora! - ela quase gritou. - Vai! - repetiu, e apontou para a porta.
Outra vez vacilante, Lucas moveu-se em direção à saída. Ainda tentou um gesto de aproximação, virou-se para ela, mas ela continuava inflexível, tesa, uma estátua de determinação. Percebeu que não ia demovê-la de nada, que era ela quem estava no comando. E mais uma vez obedeceu.
Em silêncio, cabisbaixo, quase humilhado, Lucas se retirou. Deslizou para fora, fechou a porta suavemente e desapareceu. Jô continuou por alguns segundos parada de pé no meio da sala, sem pensar, apenas tentando entender o que sentia.
O que sentia não era bom.
Não sabia exatamente o que era, mas sabia que não era bom. Dentro dela crescia um certo desprezo pelas pessoas, pela obviedade do mundo, pela dessacralização da vida, por ela própria.
Sentou-se na ponta do sofá, sentindo os olhos marejarem. Atirou-se ao comprido e permitiu que o pranto lhe subisse pelo peito. O que havia acontecido, o que estava acontecendo com ela naquele momento? Será que fora longe demais? No que havia se transformado? O que seria de sua vida?
De alguma forma, isso tudo ela ainda teria que descobrir.
Postado por David







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