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A História do Mundo: capítulo 28

27 de janeiro de 2012 15

Cem anos depois de Champollion decifrar os hieróglifos sem nunca ter pisado no solo do Egito, o inglês Howard Carter, munido de pá e picareta, escavando incansavelmente na areia macia e quente do deserto, fez uma das maiores descobertas da história da arqueologia. Encontrou a tumba de Tutancâmon, uma das poucas que haviam se mantido a salvo dos ladrões de sepulturas. Não que eles não a tivessem descoberto e violado. O mausoléu de Tutancâmon foi conspurcado por pelo menos dois arrombamentos, mas, por algum motivo, os ladrões não conseguiram acessar os tesouros nem o cadáver do faraó.

Alguém pode achar que o roubo de câmaras funerárias egípcias foi um fenômeno de uma época em que o país entrou em decadência, quando os valores tradicionais não eram mais respeitados. Nada disso. Os ladrões de sepultura agiram desde sempre. Há registro documentado de uma violação em 2.100 a.C., quando o rei Mérikaré escreveu a seu filho:

“Travaram-se combates nos cemitérios e os túmulos foram pilhados. Eu próprio o fiz”.

Alguns ladrões detalharam por escrito o seu modus operandi. O relato abaixo, redigido mais de mil anos antes de Cristo, é tanto espantoso quanto esclarecedor, e não deixa de pingar um acento de cinismo quando chama as vítimas falecidas de “veneráveis”:

“Pegamos os nossos utensílios de cobre e escavamos um corredor na pirâmide tumular do rei (…) descobrimos a câmara subterrânea e descemos com archotes (…) encontramos a sepultura da rainha. Abrimos os sarcófagos e os caixões nos quais repousavam e encontramos a venerável múmia do rei, armado de uma espada em forma de uma pequena foice. Numerosos amuletos e joias de ouro rodeavam-lhe o pescoço. A máscara de ouro recobria-o. A venerável múmia do rei estava inteiramente revestida de ouro. Os caixões estavam decorados com prata e ouro (…) e cobertos de todas as variedades de pedras preciosas. Arrancamos o ouro. Encontramos a rainha no mesmo estado e também arrancamos tudo. Deitamos fogo aos caixões”.

Havia tanta pilhagem que alguns faraós ordenaram a remoção das múmias dos seus antecessores para locais secretos, a fim de proteger-lhes o descanso, que deveria ser eterno. Ou seja: assim como os egípcios tinham adoração reverencial pelos mortos e consideravam a morte outra etapa da existência, não hesitavam em violá-los, se enfrentassem alguma crise e precisassem de recursos. O que mostra que, em qualquer época, as necessidades materiais da vida se impõem aos valores imateriais. Que a dor física é mais forte do que a dor da alma.

O homem é um ser físico. Parece óbvio; não é. Um antigo vice-presidente dos Estados Unidos chamaria isso de uma verdade inconveniente. Porque, de certa forma, é uma verdade que reduz a dimensão da espécie humana. O homem gosta de acreditar que se move prioritariamente por valores intangíveis. Gosta de acreditar que é um ser nobre, diferente do restante dos animais do planeta por ser animado por vida espiritual.

Certo.

Agora pense no seu dedo mínimo, tão pequeno e insignificante que é chamado de “minguinho”. Você nunca tece reflexões sobre o minguinho, não é? Claro que não. Você pensa todos os dias nos seus cabelos, que ajeita a mirar-se no espelho e lava com xampu restaurador e besunta com gel; você talvez se aflija com os sulcos que os anos vão lhe cavoucando nas comissuras dos lábios e dos olhos, e nessa minúscula região também aplica cremes franceses que custam 50 Euros; você faz abdominais para enrijecer a barriga; você protege bem os pés com calçados elegantes, até porque, você sabe, a primeira peça do vestuário masculino na qual as mulheres reparam são os sapatos. Pois bem. Você está atento a todas as partes do seu corpo. Mas você nunca pensa no minguinho, nunca olha para ele, nunca dedica 10 segundos do seu dia a ponderar acerca do minguinho.

Bem.

Neste momento raro em que, devido ao parágrafo acima, você está pensando no seu minguinho, suponha que ele esteja doendo. Doendo muito por conta de alguma doença de minguinhos. O que acontecerá? Você só vai pensar no minguinho. Você não conseguirá fazer mais nada direito por causa do minguinho. Os lábios em forma de coração daquela morena, as elevações da vida religiosa, os prazeres inefáveis do saber e da cultura, os euros e os dólares todos, nada disso tem importância. Só o que importa é o seu dedo minguinho, o dedo minguinho é o suserano do seu ser, o dedo minguinho é o centro do mundo.

É por isso que você precisa evitar certas temeridades físicas. Dirigir em alta velocidade, fazer ultrapassagens perigosas, praticar acrobacias inúteis, saltar de para-quedas se não for para invadir a Normandia ou porque o avião está caindo, limpar janelas de edifícios sem corda de segurança, chamar uma mulher de gorda, todas essas, e outras tantas, são ações estúpidas que podem causar mutilações. Quer dizer: que podem profanar o seu corpo, e com isso, profanar a sua mente e acabar com a sua vida.

O homem é um ser físico.

Por mesquinhas necessidades físicas, os egípcios violaram os túmulos de seus antepassados e de seus reis mais respeitáveis.

A carne é forte, o espírito é fraco.

Mas não sejamos injustos com o povo egípcio, até porque o conceito de “povo” é abstrato. Qualquer “povo” é tão genérico e tão amplo que se torna disforme.

O povo brasileiro é cordial? Pode um povo cordial admitir que alguém seja enfiado numa pilha de pneus encharcados de gasolina para ser supliciado até a morte com fogo, como já ocorreu nos morros do Rio de Janeiro, num tipo de execução batizado debochadamente de “micro-ondas”?

O povo americano é belicista? Mas um povo belicista seria capaz de criar e promover um dos maiores movimentos pacifistas da História, como o movimento hippie?

O que se pode dizer do povo, de quaisquer povos, isto é, do homem comum e não-individualizado de qualquer parte do mundo, é que todos são iguais: o “povo” é crédulo, emotivo, supersticioso e influenciável. Ou seja: tocado pelos tais valores imateriais. No caso dos egípcios e suas velhas crenças, prova-o uma célebre e compassiva passagem da história da arqueologia da qual falarei mais adiante. Por ora, vamos sublinhar que nem todos os egípcios eram profanadores de cadáveres. E talvez por isso o sepulcro de Tutancâmon tenha conseguido manter-se mais ou menos intocado através dos milênios. Quando Howard Carter o descobriu, lá estavam os tesouros com que o faraó havia sido enterrado. Foi uma das grandes façanhas da arqueologia mundial de todos os tempos. Muito do que sabemos sobre os egípcios e, por conseguinte, sobre nós mesmos, se deve a Howard Carter.

A respeito de sua façanha imortal, Carter escreveu um pequeno livro, “A Descoberta da Tumba de Tut-Ankh-Amon”, à disposição em bom português, traduzido e prefaciado brilhantemente pelo brilhante Eduardo Bueno, o “Peninha”. Vou reproduzir o primeiro parágrafo da introdução escrita pelo Peninha, para você se situar nessa trepidante história:

“Em 1903, Howard Carter vivia precariamente na cidade do Cairo, capital do Egito. Sem dinheiro, sem amigos e enfraquecido por uma grave doença estomacal contraída depois de anos percorrendo os recantos mais abrasivos e insalubres do Egito, sobrevivia vendendo aquarelas nas quais retratava cenas e monumentos egípcios. De temperamento irascível, por vezes explosivo, olhar ameaçador e um bigode imperioso sob o nariz acentuadamente adunco, com certeza mais parecia um personagem de Conrad ou Kipling – um drifter, um autoexilado – do que o egiptólogo erudito que era. Na verdade, quem o encontrasse perambulando por mercados repletos de gente e moscas não poderia imaginar que, vinte anos mais tarde, Carter se tornaria o arqueólogo mais famoso da História – cuja fama, até hoje, só pode ser comparada à de Henrich Schliemann, o descobridor de Troia, ou a de Jean François Champollion, que decifrou os hieróglifos egípcios.”

Depois de realizado, um feito se torna simples. Talvez você imagine que, para descobrir um túmulo egípcio, bastaria dirigir-se até um cemitério, ou olhar para cima e identificar uma pirâmide que se elevava ao céu, ir até lá e fazer uma rápida exploração. Só que não é assim que funciona. A partir de 1.500 a.C. os egípcios pararam de erguer pirâmides e passaram a escavar os rochedos do Vale dos Reis para dentro deles construir galerias e câmaras que serviriam de sepulturas para os seus faraós.

Por que houve essa mudança?

Exatamente por causa dos ladrões de sepulturas. A fim de manter as múmias e seus tesouros a salvo dos violadores, os administradores egípcios camuflaram os túmulos das formas mais engenhosas. Esconderam-nos sob as areias do deserto e atrás de paredes de pedra. Se um arrombador descobrisse a entrada, poderia perder-se em um labirinto, ou então esbarrar em uma câmara aparentemente inconclusa que trazia, por trás de suas ruínas, outra câmara.

A propósito disso é que vou contar aquela história compassiva de que falei parágrafos atrás.

Aí vai:

No começo dos anos 80 do século 19, um grupo de arqueólogos europeus vivia e trabalhava no Egito com objetivo de descobrir, preservar e estudar as antiguidades do tempo dos faraós. Os europeus eram movidos pela febre da nova ciência da egiptologia, nascida da aventura dos savants de Napoleão e da descoberta de Champollion. Uma das angústias dos cientistas era o combate ao tráfico de antiguidades, prática comum dos habitantes dos lugarejos próximos ao Vale dos Reis. Seguindo a pista de um desses ladrões de sepulturas, o arqueólogo alemão Emil Brugsch-Bey fez uma descoberta tão sensacional que parece inverossímil, uma história que bem poderia virar roteiro de um filme de Indiana Jones.

O ladrão de túmulos, depois de desmascarado pelos cientistas, foi levado à presença das temíveis autoridades muçulmanas do Egito. Como tentar ludibriar temíveis autoridades muçulmanas é temível, ele acabou concordando em mostrar o local de onde subtraía as antiguidades que vendia. O cientista que o acompanhou foi, exatamente, Emil Brugsch-Bey. Na madrugada de 5 de julho de 1881, Brugsch, seu auxiliar árabe e o ladrão de túmulos encaminharam-se para o deserto. Escalaram um monte com grande dificuldade e, depois de um percurso acidentado, o ladrão apontou para uma abertura na rocha muito bem disfarçada por pedras. Aquele lugar permanecera intocado por mãos humanas durante mais de três mil anos. O ladrão tirou uma corda que levava enrolada nos ombros e disse a Brugsch que ele devia descer com ela pela abertura. Brugsch fez como o indicado, não sem algum temor. O que ele encontraria no escuro lá embaixo? Poderia confiar no ladrão que ficava lá em cima?

O arqueólogo desceu 11 metros pela corda, chegou ao solo e acendeu uma tocha. Avançou alguns passos e, então, deparou com o inacreditável. Diante dele, dispostos em desordem, estavam ataúdes, múmias e objetos dos maiores soberanos do Egito Antigo. Ali jaziam os corpos de Amósis I, Tumés III e o próprio Ramsés II, o Grande, talvez o mais poderoso rei do Egito em todos os tempos. Ali estavam outras dezenas de múmias, 40 ao todo, e objetos que deviam acompanhar os faraós na sua viagem para o Além.

O esconderijo havia sido descoberto seis anos antes pelo ladrão de túmulos. Durante todo esse período, ele sua família enriqueceram vendendo com parcimônia as antiguidades tiradas do lugar. O segredo era partilhado por praticamente toda a comunidade em que vivia o ladrão. Todos se beneficiavam de alguma forma dos despojos dos faraós, num tardio arranjo de distribuição de renda entre os ricos mortos e os pobres vivos.

Brugsch emergiu do esconderijo encantado e preocupado: se deixasse as múmias no local, elas decerto seriam atacadas pelos ladrões, ansiosos por obter o derradeiro faturamento com as antiguidades. O que fazer? Tomou uma decisão rápida. Recrutou 300 operários e, em seis dias, levou as múmias, os sarcófagos e os objetos que os circundavam para um navio, a fim de transladar tudo para o Museu do Cairo. Ocorre que, nessa semana de trabalho, a notícia da mudança dos corpos dos faraós correu entre a população das aldeias do entorno. No dia em que o navio zarpou, deu-se o inusitado: camponeses e artesãos, homens, mulheres, crianças e velhos se perfilaram nas duas margens do Nilo e acompanharam o barco rio abaixo numa procissão de desesperados. Os homens atiravam para o alto com seus revólveres e espingardas, as mulheres gritavam e choravam, esfregavam a areia do deserto nos rostos pardos, atiravam os braços para o céu azul. Todos abanavam aos prantos para seus antigos reis, que iam embora para sempre. A cena era tão triste e, ao mesmo tempo, tão poderosa, que Emil Brugsch teve de virar o rosto para não se deixar comover.

O povo também é capaz de manifestações de cunho moral e desinteressado.

Nesse mesmo Vale dos Reis, Howard Carter encontrou a múmia de Tutancâmon e seus tesouros, que se mantiveram intactos por mais de 3.300 anos.

O que Tutancâmon fez de tão importante para merecer a posteridade?

Por que a descoberta de seu túmulo foi tão impactante?

Você saberá no próximo capítulo.

A História do Mundo: capítulo 27

26 de janeiro de 2012 11

Os antigos egípcios nunca chamaram as múmias de múmias. “Mumiyai” é palavra de origem persa incorporada ao árabe para designar uma mistura de pez e mirra, o chamado “betume da Judeia”. A partir dessa substância, reduzida a pó, produzia-se um famoso remédio da Idade Média. Os persas e árabes usavam múmia para tudo, desde a cicatrização de ferimentos ao tratamento de infecções, a urticária, a enxaqueca e até a paralisia. Era o que os gregos definiriam como panaceia.

A múmia era tão valiosa que, quando recebiam os reis ocidentais, os governantes árabes ofereciam-lhes pequenas porções do pó como presente diplomático. Tratava-se de produto raro, difícil de ser obtido. Mas, no século 12, um médico árabe concluiu que os cadáveres embalsamados dos egípcios haviam sido tratados com substâncias idênticas às que compunham a múmia persa. Como os egípcios passaram três mil anos embalsamando e enfaixando os seus cadáveres, eles (os cadáveres) existiam em abundância, não apenas no interior das pirâmides, mas bem conservados pelas areias quentes e secas do deserto, onde não existem fungos que se alimentem da matéria morta.

Aliás, eis uma curiosidade: durante séculos, o mundo se inquietou para descobrir o que os antigos egípcios faziam para conservar tão bem as suas múmias. Heródoto teceu uma alentada descrição do processo de mumificação, cientistas analisaram as substâncias que envolviam os cadáveres com os mais modernos aparelhos da tecnologia do século 20, muito se disse e se especulou: o que, afinal, faziam os egípcios?

E a resposta é:

Nada.

A areia e o clima quente e seco do deserto eram ótimos para conservar as múmias. Às vezes, a ação dos sacerdotes egípcios até atrapalhava a conservação, como no caso da múmia de Tutancâmon. Os sacerdotes a cobriram com unguentos gordurosos que, em tese, deviam ajudar a mantê-la intacta para a vida no Além. Mas, ao contrário, as partes do corpo do faraó que se mantiveram em contado com o unguento simplesmente se incineraram durante os três mil e trezentos anos em que o túmulo permaneceu intocado. Sobraram apenas o rosto e os pés, que estavam a salvo da pasta que, depois de 33 séculos, tornara-se enegrecida e dura.

Era essa substância que envolvia as ataduras da múmias. Ou seja: essa substância era a múmia árabe. Por isso, o tal médico da Idade Média propôs que os corpos ressecados fossem pulverizados e transformados em remédio. Assim, os cadáveres dos egípcios, que nada tinham a ver com o preparado persa, passaram a ser conhecidos no Ocidente como múmias, mesmo quando se mantinham intactos e não eram comidos por ninguém.

O pó de múmia virou mania na Europa e até meados do século 19 era comprado nas boticas. O sujeito chegava sem necessidade de receita médica, apontava para um pote na estante e pedia:

– Quero uma múmia.

E, mediante certa quantia, ia embora para casa levando sua própria múmia. Isso todos, inclusive os mais ilustres.

O rei Francisco I, apelidado de “O Narigudo” porque, bem, carregava no meio do rosto um grande e batatudo nariz, era também um homem de luzes. Foi ele quem começou a construção do Louvre e convidou Leonardo da Vinci para morar na França. Pois Francisco I nunca se afastava do seu pozinho de múmia. Ingeriu múmia, ou seja, egípcios mortos, até ele próprio morrer, em meados do século 16.

Outra consumidora fiel foi Catarina de Médici, ela também uma rainha ilustrada. Catarina era tão sofisticada que se pode dizer que a França deve a ela grande parcela da sua fama de país requintado. Foi Catarina quem levou da sua terra natal, Florença, para a terra do seu real marido, Paris, o costume de comer com talheres. Antes dela, os franceses comiam com as mãos nuas. Até as princesinhas francesas  mais delicadas e alvas e magrinhas e sensuais, como são as francesas em geral e a cantorinha Alizée em particular, metiam a mão no assado na hora do jantar.

Outra façanha de Catarina, essa ainda mais relevante para a Humanidade, foi a invenção da… calcinha! É que Catarina gostava muito de cavalgar, e cavalgar de verdade, não de andar de ladinho no cavalo, como faziam as moçoilas da época. O problema é que, quando ela ia montar, precisava abrir as pernas, ação que deixavam expostas as intimidades reais. A fim de não ficar divertindo os súditos com o espetáculo de suas partes pudendas, Catarina bolou uma calçola para ser vestida sob a saia. As francesas viram, se admiraram e adotaram a moda. Depois, Catarina engordou tanto que, contam os cronistas da época, chegou a matar um cavalo sob seu peso. Há quem diga que a porta de uma igreja de Paris teve de ser alargada para permitir a entrada da rainha roliça. O que não é de se espantar, porque naquele tempo ninguém contava calorias, ninguém corria na esteira, como um esquilo, ninguém tomava refrigerante ligth. Mas, enquanto era magra e ágil, Catarina disseminou esta delicada peça do vestuário feminino, que mais tarde seria diminuída, acrescentada de rendinhas e posta em volta das suaves ilhargas de Gisele Bündchen. Da próxima vez que você vir uma calcinha pequeninha e cheirosa, recheada com bom conteúdo, pense em Catarina, em como ela foi uma mulher admirável, no tanto que devemos a ela.

Pois Catarina também se medicava com pozinho de múmia.

Tudo isso expõe a desinformação do Ocidente acerca da veneranda civilização egípcia. Foi Napoleão Bonaparte quem conquistou o Egito para a Europa. E aí explode um paradoxo: o grande general francês, em terreno militar, foi derrotado pelos ingleses no Egito. Mas nos terrenos cultural, histórico e científico, a vitória de Napoleão é eterna, é monumental. Os soldados de Napoleão, irônica e despeitadamente, chamavam os sábios franceses de “asnos”. Mas os soldados voltaram para casa batidos e humilhados, enquanto os asnos voltaram como conquistadores.

Com sua aguçada visão histórica, Napoleão fez com que os sábios da expedição, os “savants” (ou “asnos”, para os soldados), perscrutassem aquela antiga civilização, registrassem tudo e levassem seus conhecimentos para o Velho Mundo, que era um mundo jovem, se comparado ao dos faraós.

Um livro em especial incendiou a imaginação europeia. Era “A Descrição do Egito”, de autoria Dominique Vivant Denon, artista que foi recomendado a Napoleão por ninguém menos do que Josefina. O grande alemão C.W. Ceram, autor do fundamental livro “Deuses, Túmulos e Sábios”, resume a história de Denon com graça e concisão incomparáveis:

“Sob Luis XV, ele fora intendente de uma coleção de pedrarias antigas, passando por valido de Pompadour. Em Petesburgo fora secretário de embaixada, muito estimado por Catarina. Homem do mundo, diletante em todas as artes, cheio de malícia, desdém e espírito, era, não obstante, estimado por todo o mundo. Como diplomata junto aos Confederados, fora hóspede frequente de Voltaire e pintara o famoso ‘Almoço de Ferney’. Com outro quadro, ‘A Adoração dos Pastores’, pintado à maneira de Rembrandt, conseguira entrar para a Academia. Finalmente em Florença, na atmosfera saturada de arte dos salões toscanos, recebera a notícia do advento da grande Revolução Francesa. Dirigira-se apressadamente a Paris. E o embaixador de há pouco, ‘gentilhomme ordinaire’, rico, independente, dum momento para outro encontrara o seu nome na lista dos emigrantes, vira seus haveres confiscados e suas propriedades sequestradas. Pobre, desprezado por muitos, vegetou em bairros pobres, alimentando-se com o produto de alguns desenhos, mandriando pelas praças; viu rolar na Praça de Grève as cabeças de muitos que tinham sido seus amigos. Até que encontrou um inesperado benfeitor na pessoa de Jacques Louis David, o grande pintor da Revolução. Denon viria a gravar os desenhos de trajes de David, os quais deveriam revolucionar a moda. Por esse meio obteve a benevolência dos ‘incorruptíveis’ e, pondo em jogo a sua habilidade diplomática, obteve de Robespierre a restituição de seus bens e que seu nome fosse riscado da lista dos emigrantes. Travou conhecimento com a bela Josefina Beauharnais, foi apresentado a Napoleão, agradou e acompanhou-o na expedição ao Egito”.

Denon desenhou tudo o que viu. O resultado foi uma obra portentosa dividida em 24 volumes caríssimos, mas, apesar disso, célebres e populares em toda a Europa. “A Descrição do Egito” tornou-se um clássico e abriu os olhos do Ocidente para aquele novo velho mundo de pirâmides, esfinges, múmias e colossos. Como escreveu um dia Mário Quintana, “os livros não mudam o mundo. O que muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.

Entusiasmados com o livro de Denon , muitos europeus visitaram o Egito no século 19. Alguns mudaram-se para lá. Houve quem roubasse antiguidades ou as destruísse no afã de levar relíquias para casa. Mas houve quem defendesse o passado. Foram europeus que reprimiram o tráfico de antiguidades e fundaram o Museu Egípcio do Cairo. O próprio Napoleão insistiu para que fossem tiradas cópias fieis da Pedra de Rosetta, e uma dessas cópias parou sob o sábio olhar de Chapollion, que só foi conhecer o Egito no fim da sua curta vida (morreu de enfarte, aos 42 anos). Os europeus fundaram uma nova ciência, a egiptologia. E foi um europeu, o inglês Howard Carter, o autor de uma das maiores descobertas da arqueologia: a tumba de Tutancâmon. Foi um feito espetacular, extraordinário, único, sobre o qual você saberá no próximo capítulo.

A História do Mundo - Capítulo 26

23 de janeiro de 2012 7

O Gênesis abre um curioso parêntese em meio à história de José, uma edícula que não tem a ver com a construção narrativa principal, deslocada, meio torta, mas realmente interessante. Esse desvio relata o destino de um dos irmãos de José, Judá. Como o parêntese é de fato curioso, vou abri-lo também. Ó:

(A tribo de Judá, óbvio, é a Judeia, de onde, mais óbvio ainda, vem a designação “judeu”. Logo, trata-se de um personagem importante. Esse Judá casou-se com uma cananeia chamada Sué, com quem teve três filhos, Her, Onã e Sela. O primogênito, Her, cresceu, tornou-se adulto e casou-se com uma moça local, uma certa Tamar. Mas Her era “mau aos olhos do Senhor”, de acordo com a Bíblia. O que ele fazia de tão maligno a Bíblia não especifica. Seja o que for, não devia ser pouca coisa, pois o Senhor puniu Her com nada menos do que a morte. Sua mulher Tamar, no entanto, ainda não tivera filhos. Pelo costume da época, o pai do marido morto, no caso, Judá, devia dar a nora, no caso, Tamar, em casamento ao segundo filho sobrevivente, no caso, Onã. Chama-se a esse costume “levirato”. Levir, em latim, é cunhado. Há um técnico de futebol brasileiro que se chama Levir Culpi; ou seja: Cunhado Culpi. Ou será que Culpi tem a ver com culpa? Cunhado culpado. Adequado à sequência da história.

Essa:

A ideia do levirato é não deixar o primogênito sem descendência. Por isso, o filho que a cunhada teria do cunhado seria considerado filho do marido falecido. A herança da família, portanto, passaria para o filho de Onã com Tamar e não para Onã. Afinal, o filho que ele deveria fazer não seria dele, mas do irmão primogênito. Como Onã espichava o olho para a fortuna da família, ele decidiu que não faria filho em Tamar. Optou por “espojar-se no solo”, de acordo com o Gênesis. Em bom latim, coitus interruptus. O que significa que a acepção atual para “onanismo” não é precisa. De qualquer forma, o Senhor, que está sempre atento e que na época adotava a política de tolerância zero, não gostou do estratagema de Onã e matou-o também. Essa sentença rigorosa geraria inúmeras aflições aos rapazes adolescentes dos séculos vindouros, em que a tradição religiosa apontaria a masturbação como um ato criminoso, passível de punições terríveis como a cegueira, o definhamento ou o crescimento de horríveis pelos nas mãos.

O fato é que Jeová matou também a Onã. Sobrou a Judá um único filho, o caçula Sela, e esse ele decidiu não arriscar casando-o com a viúva negra Tamar. Mandou a mulher de volta para a casa da família e manteve o filho solteiro e saudável. Nesse interregno, a mulher de Judá morreu. O que deu ideias a Tamar. Decidida a ter um filho do clã de Judá, ela disfarçou-se de prostituta e foi fazer ponto no caminho por onde passava o ex-sogro. Na época, uma mulher não se disfarçava de prostituta vestindo microssaia e botas até os joelhos, como Julia Roberts em “Uma Linda Mulher”. Bastava-lhe cobrir o rosto com um véu. Era um costume que protegia a mulher. Ela exercia seu ofício e preservava a identidade. Essa narrativa da Bíblia demonstra como a prostituição era encarada com naturalidade pela sociedade da Antiguidade, como a relação entre sexo e pecado é moderna, e não ancestral.

Tamar, portanto, cobriu o rosto com um véu e foi fazer o trottoir, até que Judá apareceu e se interessou. Negociaram o preço. Ela disse que se entregaria em troca de um cabrito, o que, suponho, devia ser um valor razoável. Judá topou e esfregou as mãos:

_ Vamos lá.

Aí Tamar olhou em volta e perguntou:

_ Cadê o cabrito?

Logicamente, Judá não andava por aí acompanhado de cabritos. Informou-lhe que seus cabritos estavam no rebanho, onde usualmente vivem os cabritos, e que lhe daria um depois que se espadanassem, repoltreassem e refestelassem. Tamar não gostou, pediu uma garantia e Judá deu-lhe seu anel, seu bastão e seu cordão. Trato feito, encaminharam-se para o tugúrio do amor. Tamar, é claro, já devia saber que estava em período fértil, pois ficou grávida de pronto. Depois de tudo consumado, ela voltou para casa tranquilamente. Mais tarde, Judá ainda a procurou para entregar-lhe o cabrito e pegar seus pertences de volta, mas não a encontrou. Esqueceu o caso, ela que ficasse com seus pertences dados em garantia. Passados três meses, algum vizinho fofoqueiro correu a avisar Judá que sua nora “havia se portado mal” e estava grávida. Ele ficou furioso.

_ Que ela seja queimada! _ gritou.

E foi aquela confusão. Pegaram Tamar e a arrastaram para fora de casa. Estavam prestes a queimá-la, quando ela avisou que contaria quem era o pai.

Pararam todos, expectantes.

_ É o dono desses objetos _ disse, mostrando o anel, o cordão e o bastão.

Judá os reconheceu, se enterneceu e assumiu Tamar. Seguindo a tendência da família, seis meses depois eles tiveram gêmeos. E viveram felizes para sempre.

Bonito, não?

Bonito, mas repare nas informações que a história fornece a respeito das mulheres da época: como já disse, não havia preconceito contra o ato sexual. Uma mulher, se quisesse viver da prostituição, ou mesmo se quisesse se regalar com sexo casual, poderia fazer isso sem problemas: ninguém lhe veria o rosto protegido com o véu profissional. Se você lembrar do caso de Bila, a mais jovem e formosa das concubinas de Jacó, com seu filho mais velho, Rúben, concluirá que havia tolerância até mesmo para com a mulher que traía o marido.

Certo.

Agora pense no que podia ter acontecido com Tamar, quando Judá descobriu que ela levava no ventre um filho ilegítimo: ela seria queimada. Isto é: não havia tolerância para com a mulher que ENGRAVIDAVA fora do matrimônio. Relembre do centro de todos os dramas dos patriarcas hebreus descritos até aqui: as disputas entre Isaac e Ismael pelos favores de Abraão, as disputas entre Esaú e Jacó pelos favores de Isaac, a morte de Onã. Qual é o ponto nevrálgico disso tudo? É a HERANÇA. Foi a herança que escravizou a mulher à fidelidade inflexível por todos esses séculos. A herança é a mãe da monogamia.)

Fechado o parêntese, voltemos ao infeliz José, vendido como escravo a Putifar, chefe da guarda do faraó. Em verdade, José era escravo, mas não era tão infeliz. Ao contrário, logo ganhou a confiança de seu amo, que lhe proporcionou educação superior e pôs em suas hábeis mãos a administração de todos os negócios da casa, no que José se saiu muito bem.

Além de competente, José era “belo de corpo e de rosto”, o que despertou a lascívia da mulher de Putifar. Uma dia ela chegou-se ao criado e propôs:

_ Dorme comigo!

É exatamente assim que a Bíblia conta que ela falou, “dorme comigo!”, sem tergiversações, sem volutas, direta e firme.

José, provando ser um homem controlado, recusou a oferta. Mas uma mulher, depois que chega a esse ponto, não recua. Porque, em geral, a mulher não aceita que o homem a rejeite. À rejeição fria e indiferente, a mulher prefere a traição fervente e pulsante. Aí está. Do século 20 para cá, as feministas têm reclamado, protestado e denunciado quando as mulheres são tratadas como “objeto”. Um erro crasso das feministas na interpretação da alma feminina. Para a mulher, em determinado período da vida, é indispensável sentir-se objeto: objeto de desejo. Uma das realizações da feminilidade é sentir-se objeto de desejo, da concupiscência dos homens.

É evidente que para uma mulher muito feia ou para uma mulher muito bela é fácil criticar esse sentimento, porque a mulher muito feia já aprendeu que jamais será objeto de desejo e a mulher muito bela sabe que jamais deixará de sê-lo. Logo, é compreensível a grita de “não queremos ser vistas como um objeto!”

Só que as mulheres querem, sim, ser objeto de desejo, e se comprazem com isso. Por essa razão, quando um homem as repudia sexualmente elas se sentem feridas de morte. No momento em que uma mulher se oferece e um homem responde “não, obrigado”, o que ocorre é uma inversão do processo natural da evolução, uma implosão da lógica biológica. Que é a seguinte: um homem, quantos filhos um homem pode ter? Milhares. Quantos descendentes ele pode ter? Milhões.

Neste sentindo, o homem mais bem-sucedido da história evolutiva da Humanidade, o campeão entre os campeões, o ser humano que atingiu de forma mais gloriosa os objetivos da espécie foi Gengis Khan. No início dos anos 10 do século 21 o Departamento de Bioquímica da Universidade de Oxford liderou uma equipe de cientistas ingleses, italianos, chineses, mongóis e uzbeques numa pesquisa que tinha por objetivo desenhar um mapa genético da região entre o Mar Cáspio e o Oceano Pacífico, por onde zanzaram e guerrearam os mongois. Depois de afanosas diligências, os pesquisadores fizeram uma descoberta surpreendente: existe a possibilidade de que 8% da população daquela área, o equivalente a 12 milhões de pessoas, sejam descendentes de Gengis Khan. Alguns apressados acreditam que 0,5% da população mundial sejam da linhagem do Khan. Isso é possível não apenas por Gengis Khan dispor de um número generoso de mulheres e concubinas regulares, mas porque, a cada conquista, todas as mulheres jovens capturadas passavam por suas mãos calosas e ávidas, antes de serem entregues em definitivo aos soldados. Gengis Khan deixou explícito quem era e o que fazia numa frase:

“A maior alegria de um homem é, depois de arrasar o inimigo, invadir sua casa, cavalgar em seus cavalos e possuir suas mulheres e filhas”.

Ecce Homo. Gengis Khan não tecia considerações. Ele queria ser o Senhor da Terra, e era. Nesta ânsia animal de conquista e dominação, ele espalhou seus genes pelo planeta como talvez nenhum outro antes ou depois dele. O que o torna um super-homem, pois esse é o impulso biológico do ser humano do gênero masculino: multiplicar sua descendência, deixar sua marca cromossômica sarapintada pela posteridade afora. Um homem pode fazer isso, dele podem vir milhões. Uma mulher, não. Uma mulher muito fértil pode ter bem duas dezenas de filhos, mas a que custo! É por isso que uma mulher tem de escolher com critério o seu parceiro reprodutivo. Ela não pode errar, ela não tem muitas chances.

E não é assim que funciona? É a mulher quem escolhe. O homem se acha “conquistador”, mas quem conquista é a mulher, e para isso basta-lhe um olhar de viés, um meio sorriso, o erguer de uma única sobrancelha. Ela emite um sinal, e o homem vem, arfante, língua de fora, baba escorrendo, jurando que irá submeter, mas submetendo-se. Então, para um homem a rejeição não faz diferença, evolutivamente falando: se ele não puder plantar sua semente aqui, tentará plantá-la ali adiante, ou lá, ou acolá. Para uma mulher, faz. Porque a mulher ESCOLHEU. Houve reflexão na sua escolha. Ela preza a qualidade. Além disso, ela sabe que o homem quer multiplicar sua descendência, que para o homem o que importa é a quantidade. Logo, o fato de ela ser rejeitada é um insulto biológico. Ele tem de querê-la porque, em tese, ele quer QUALQUER UMA.

Eis o drama de José. Ele rejeitou a mulher de Putifar. A rejeição é um insulto para qualquer mulher, e é um insulto muito mais grave para a mulher que se julga superior ao homem que a rejeitou, caso em questão. Furiosa, a mulher de Putifar foi ao marido para queixar-se de que José havia feito exatamente o contrário do que fez. Disse que José a atacou, que queria possuí-la. Putifar, indignado com a suposta deslealdade do servo e encantado com a suposta fidelidade da mulher, mandou José para o calabouço.

Mas José sabia mesmo agradar aos superiores. Com a mesma subserviência, mansidão e astúcia com que conquistara os favores do pai e de Putifar, tornou-se o queridinho do carcereiro, que logo fez dele o preso responsável pelos outros presos.

José tinha outros dons, além da adaptabilidade: inteligência e oportunismo. Interpretou os sonhos de alguns colegas de prisão, previu que um seria executado e outro libertado, e foi o que aconteceu. Se José trabalhava com informação privilegiada, se apenas deduziu o que ocorreria a partir da situação dos condenados, isso é secundário. O fato é que ele se consagrou como intérprete infalível de sonhos, e foi por essa condição que ganhou de novo a liberdade, depois de alguns anos de detenção: o faraó teve um sonho estranho, que muito o havia perturbado. O preso que fora solto (segundo o vaticínio de José) contou ao rei que nas masmorras de Putifar apodrecia um homem que conhecia a linguagem do sonhos. O faraó mandou chamá-lo e, pronto, em pouco tempo José conquistou também a confiança do monarca. A Bíblia conta que José tornou-se vizir do Egito. Foi investido deste cargo que ele acabou reencontrando os irmãos.

José agora era um homem maduro, tinha mais de 30 anos de idade. Uma severa carestia abalou Canaã e, por consequência, a família de Jacó, que mandou os filhos ao Egito em busca de víveres. Lá chegando, eles foram levados ao vizir. Depois de tantos anos, não o reconheceram. José jogou bastante com eles, usufruiu de uma pequena vingança, mas terminou revelando sua identidade, perdoando-os e, mais importante, mandou chamar Jacó para viver no Egito. Os hebreus, assim, instalaram-se no Egito. Lá estavam Israel (Jacó) e seus 12 filhos, os cabeças das 12 tribos que formariam a nação.

Pronto. Chegamos aonde queríamos. Os hebreus se radicaram no Egito. Era a época do domínio hicso, entre 1650 e 1500 a.C. Tudo iria acontecer a partir daí. Como? Você verá em seguida, no próximo capítulo de A História do Mundo.

A História do Mundo - capítulo 25

19 de janeiro de 2012 7

José era um chato.

Você também chegará a essa conclusão ao ler a história dele. Eis aí uma característica da Bíblia que a torna um livro magnífico, um épico comparável à Ilíada e à Odisseia, uma trama romanesca tão poderosa quanto as traçadas por Dostoievski: os heróis bíblicos são humanos, demasiado humanos, frequentemente abalados por fraquezas, torturados por dilemas, cediços às tentações da carne, não raro gananciosos, traiçoeiros e violentos.

Israel, antes Jacó, o patriarca que deu nome a um povo, você viu, era um tipo inconfiável. Enganou o próprio irmão gêmeo, esse sim, um homem íntegro e despojado. A prova do que digo foi o reencontro dos dois. Jacó ingressou cheio de receio na terra em que vivia Esaú. Esaú, percebendo a chegada de estranhos, foi ao encontro deles ladeado por 400 homens. Jacó se assustou com aquele grande número e, para aplacar a eventual ira do irmão, enviou batedores com presentes _ animais do seu rebanho etc. Esaú, ao reconhecer o irmão, abriu os braços, não demonstrou o mais pálido ressentimento, acolheu-o e, para arrematar, não aceitou presente algum.

Era um homem de verdade.

Jacó estabeleceu-se na região de Canaã e lá prosseguiu em suas aventuras, deslocando-se constantemente de uma cidade a outra, como bom seminômade que era. Não chegou a reencontrar a mãe, Rebeca, que já havia encerrado seus dias neste Vale de Lágrimas. O pai viveu um pouco mais. Raquel, sua mulher preferida, morreu em trabalho de parto em meio a uma dessas viagens, nas cercanias de Belém. Enquanto agonizava, em desespero, Raquel pôs no menino o nome de Benoni, que significa “filho da minha dor”. Um nome lindo, mas também um fardo que seu dono carregaria pelo resto da vida. Jacó, decerto prevendo os gastos com psicanálise, mudou o nome do rapaz para Benjamin, que é “filho da minha mão direita”, uma manifestação de força que seria confirmada mais tarde pelo caráter guerreiro da tribo israelita que dele descenderia.

Benjamin não deve ter participado diretamente dos fatos que vou narrar a seguir. Era muito novo, então. O que se deu foi o seguinte: Jacó e sua família viviam uma época de fartura e boa sorte em Canaã. Veja como Josefo descreve a situação do clã:

“A prosperidade com que Deus favorecia a Jacó era tão grande que nenhum outro no país o igualava em riquezas. E as excelentes qualidades de seus filhos não somente o tornavam feliz, mas também considerado por todos. Eles não tinham menos espírito que sabedoria e coração, e nada lhes faltava do que os pudesse tornar estimados. Deus tomava também tal cuidado por esse fiel servidor e concedia-lhe tão liberalmente as suas graças que mesmo as coisas que pareciam ser-lhe adversas acabavam em seu proveito”.

Portanto, estava tudo certo, não é?

Não.

Lentamente, as sombras da tragédia tomavam corpo e logo cairiam sobre a família do patriarca hebreu. Em “Parerga e Paralipomena” Schopenhauer escreveu que “para o bem-estar do homem, para todo o modo de sua existência, a coisa principal é, manifestamente, o que se encontra ou acontece dentro dele mesmo. Com efeito, é nisso que reside o seu contentamento íntimo, ou descontentamento, que é antes o resultado do seu sentir, querer e pensar; enquanto tudo o que se situa na exterioridade tem apenas influência mediata. Por isso, os mesmos acontecimentos, ou situações exteriores, afetam de modo diverso cada pessoa e, em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente. Pois o homem lida imediatamente apenas com suas próprias representações, seus próprios sentimentos e movimentos da vontade”.

Esse trecho diz tudo, vou repetir:

“Em igual ambiente, cada um vive num mundo diferente”.

Grande Schopenhauer. Pois não é a riqueza, o poder e a glória, não é nem mesmo a saúde que faz a felicidade do homem. É o que ele traz dentro de si mesmo. Note que a família de Jacó vivia em reluzente fortuna material e espiritual, mas isso não era o suficiente. Pelo menos não era para 10 dos 12 filhos de Jacó. Eles invejavam José, o primeiro filho de Raquel, porque o pai o amava mais do que todos.

Bem, pelo menos é o que diz a Bíblia. José era belo, era cheio de talentos, era o “filho da velhice de Jacó”, e por isso era mais estimado do que os outros. Esse é o estratagema de qualquer um que se descobre objeto de desamor das outras pessoas. Como você justifica o ódio que os outros lhe dedicam? Com seus próprios méritos. Você jamais cogita de estar sendo odiado por seus defeitos ou devido aos seus erros. Não: você é odiado por suas qualidades. Os outros sentem inveja de você, tão bom você é. Isso é muito confortável, mas, na maioria dos casos, não passa de auto ilusão. No caso de José, 10 irmãos o detestavam. Tanto que planejaram matá-lo. Dez é um número muito elevado. Esse ódio unânime não podia ter brotado apenas por inveja, até porque os rapazes “não tinham menos espírito que sabedoria e coração”. Logo, José devia ter sua parcela de culpa. Há pistas a respeito na própria Bíblia, uma passagem rápida que conta o seguinte:

“José, ainda jovem, com a idade de 17 anos, apascentava o rebanho com seus irmãos; e ele contou a seu pai as más conversas dos irmãos”.

Arrá! Explode-nos na cara a verdadeira personalidade de José. Ele era um dedo-duro, um alcagueta, um X-9. Em resumo, um traidor. Os irmãos não o suportavam mais. Assim, um dia em que apascentavam os rebanhos do pai numa localidade afastada, resolveram assassiná-lo. Não o fizeram porque entrou em ação a maturidade do irmão mais velho, aquele Rúben que teve um caso com uma das concubinas do pai. Com um discurso emocionado, Rúben convenceu os outros nove a não manchar as mãos com o sangue do irmão. Propôs que o atirassem numa cisterna seca e lá o deixassem para morrer de fome. Seu plano era voltar mais tarde e salvá-lo. Os irmãos assim fizeram. Rúben voltou à noite, chamou José da boca do poço, mas… surpresa: José não estava mais lá. Ocorre que, quando Rúben se afastou, os irmãos venderam José a uma caravana de ismaelitas que levava resina, bálsamo e ládano para o Egito. Essas substâncias, resina, bálsamo e ládano, eram muito valiosas para os egípcios, que as usavam para embalsamar suas múmias. Os escravos também tinham seu valor, e assim José foi vendido a Putifar, o chefe da guarda do faraó.

E agora, finalmente, chegamos aonde eu queria. Voltamos ao Egito, e lá está também José. É uma encruzilhada importante do caminho. Sobre a qual falaremos no próximo capítulo.

A História do Mundo - Capítulo 24

17 de janeiro de 2012 6

Citius, altius, fortius. O mais rápido, o mais alto, o mais forte.

O lema dos Jogos Olímpicos que o Barão de Coubertin tomou emprestado de um frasista amigo seu, o Padre Didon, este lema que vige até hoje nos Jogos é, de resto, a razão de ser de quaisquer jogos esportivos. Um jogo pretende sempre apurar quem é O Melhor. Mas esse é um anseio irrealizável. Não existe nem nunca existiu nem jamais existirá O Melhor no que quer que seja.

A prova do que digo é fornecida, exatamente, pelo esporte. Você pega o futebol, por exemplo. O mais popular dos jogos esportivos. O futebol oferece uma série de exemplos clássicos de que é impossível apontar quem é O Melhor. O Maracanazzo de 50, quando Obdulio Varella e mais 10 uruguaios intimoratos silenciaram 200 mil pessoas no Maracanã; a derrota acachapante da Hungria de Puskas para a Alemanha em 54; a mesma Alemanha batendo o Carrossel Holandês de Cruyff 20 anos mais tarde; o fracasso do Brasil de Telê em 82; o estranho desfalecimento de Ronaldo que levou a Seleção Brasileira à falência na França em 98. Exemplos mundiais, notórios, do tamanho de uma Copa do Mundo. E todas as semanas explodem outros, menores, mas igualmente expressivos, de favoritos se desmanchando diante de inimigos pretensamente insignificantes.

Isso poderia significar a frustração absoluta do esporte, já que o principal objetivo da atividade não é atingido. Mas não é o que acontece. Ao contrário, até: o esporte acaba alcançando plenamente o seu objetivo através de dois caminhos opostos:

1. O esporte, mesmo que não apure quem é O Melhor, dá a ilusão de que apurou quem é O Melhor. Pelo menos momentaneamente, pelo menos ao fim de uma temporada. Essa ilusão é um consolo para as pessoas. Elas se enganam pensando que é possível haver alguém ou algo que seja O Melhor, e então a vida se torna mais simples, organizada e compreensível. Ali está O Melhor, depois dele vem o segundo melhor, a seguir o terceiro melhor e, lá adiante, em último lugar, chafurda o pior de todos. Isso é tão conveniente. Tudo está classificado, rotulado e arquivado. Não é preciso mais pensar no assunto. Dá a confortadora ideia de que a existência é previsível, e tudo o que o homem quer é que a vida seja previsível debaixo do sol.

2. Exatamente (e contraditoriamente) por não conseguir jamais apurar quem é O Melhor, por apresentar vez em quando uma surpresa chocante, o esporte fascina as pessoas. Porque elas percebem que ali está a representação da vida, as incongruências, incoerências e imprevistos da vida. Os dramas, as comédias, as tragédias, as alegrias e tristezas todas da existência são reproduzidas pelo esporte em escala inofensiva. No esporte, ninguém deve se machucar de verdade, o que deve ser reproduzido é o ferimento existencial. A vida não é reta e o esporte mostra isso a cada torneio, assim como o mundo mostra isso todos os dias.

São sentimentos conflitantes, mas que acabam se completando e se encaixando à perfeição: no esporte, as pessoas anseiam por apurar quem é O Melhor e acreditam que vão apurar quem é O Melhor. Mas, ao não conseguirem, ao serem surpreendidas, entendem que a vida é assim mesmo, que há circunstâncias imponderáveis em tudo e em todos, e isso termina sendo a grande lição do esporte. A beleza do jogo esportivo é precisamente essa incapacidade de atingir seus próprios objetivos.

O esporte é fascinante por isso: porque tenta demonstrar quem é o mais forte, mas acaba demonstrando que, mesmo que exista alguém muito forte, sempre haverá alguém ainda mais forte. O esperto sempre encontra alguém mais esperto, a mais bela sempre encontra outra ainda mais bela. A encantadora e embasbacante variedade da vida.

Pois bem. Jacó era esperto. Suplantou o irmão duas vezes, como o próprio Esaú se apercebeu disso aos prantos, quando já era tarde demais. Só que, como o esporte ensina, sempre existe alguém mais esperto do que o mais esperto. Agora, Jacó seria suplantado, e o suplantador seria seu tio, Labão.

Labão vivia na Mesopotâmia, de onde havia saído Abraão. Jacó instalou-se na casa do tio e se apaixonou por uma das filhas dele, uma beldade chamada Raquel. Pediu-a em casamento, cheio de esperanças amorosas. Labão, como bom mercador que era, viu no desejo de Jacó o que qualquer comerciante vê no desejo das outras pessoas: uma ótima oportunidade de negócio. Respondeu que ficaria contente em tê-lo como genro, mas impôs uma condição: Jacó teria de servi-lo de graça durante sete anos. Só depois é que Raquel estaria livre para casar e partir com Jacó para Canaã, onde viviam os velhos pais dele, Isaac e Rebeca. Ou seja: para ter Raquel, Jacó haveria de se reduzir à escravidão por sete anos. Que mulher vale tamanho sacrifício? Há um famoso poema de Charles Bukowski, “Como ser um grande escritor”, em que ele diz o seguinte:

“Como ser um grande escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres

belas mulheres

e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade

e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja

mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por

semana

e vença

se possível.

aprender a vencer é difícil -

qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms

e do Bach e também da sua

cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito

ou pagar qualquer conta

no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo

vale mais do que 50 pratas.

e se você tem a capacidade de amar

ame primeiro a si mesmo

mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma

derrota total

mesmo que a razão para essa derrota

pareça certa ou errada -

um gosto precoce de morte não é necessariamente

uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,

e como a aranha seja

paciente -

o tempo é a cruz de todos,

mais o

exílio

a derrota

a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever

e assim como os passos que sobem e descem

do lado de fora de sua janela

bata na máquina

bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque

e lembre dos velhos cães

que brigavam tão bem:

Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles ficaram loucos

em quartos apertados

assim como este em que agora você está

sem mulheres

sem comida

sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.

há tempo.

e se não há

está tudo certo

também.”

O Velho Buk. Reserva-nos sempre palavras sábias. Lembre que, para o Velho Buk, nenhum rabo valia mais do que 50 pratas. Em valores dos anos 70 do século 20, naturalmente. Alguém dirá que esse é um cinismo próprio dos tempos modernos. Nada disso. Esse é um cinismo próprio de um poeta etílico e despojado como o Velho Buk. Nos tempos modernos, como em quaisquer tempos, há homens capazes de cometer os maiores sacrifícios e as maiores insanidades por causa de uma mulher. Porque nós homens somos sonhadores. Nós, com nosso espírito selvagem, nômade e mal adaptado à Civilização, nós acreditamos que a vida é uma aventura, e não há aventura mais excitante do que conquistar uma linda mulher.

Raquel devia ser uma linda mulher, a mais linda que os olhos sonhadores de Jacó já haviam contemplado na poeira do Oriente Médio, pois ele aceitou a proposta de Labão.

“Assim, Jacó serviu por Raquel sete anos, que lhe pareceram dias, tão grande era o amor que lhe tinha”, relata o Gênesis, numa das passagens mais românticas do primeiro livro da Bíblia.

Passados os sete anos do acordo, Labão preparou uma grande festa para o casamento. Jacó, alegre com a liberdade e com a conquista da mulher amada, se fartou. Comeu e bebeu. Principalmente bebeu. Embriagado, encaminhou-se, trôpego, para a noite de núpcias e consumou o casamento. Ao acordar, espreguiçou-se, esfregou os olhos, emitiu um suspiro de realização, olhou para o lado… e tomou o maior susto. Qualquer homem que tenha vivido uma intensa vida de solteiro depois de meados do século 20 já passou pelo que Jacó passou naquela manhã. Aquela sensação de olhar para a mulher com quem se partilhou uma noite de loucuras e pensar:

_ Meu Deus, o que foi que eu fiz???

Ocorre que, ao lado de Jacó, não estava deitada a bela Raquel e sim sua irmã mais velha Lia, descrita por Flávio Josefo, com algum eufemismo, como uma mulher que “nada tinha em si mesma que pudesse despertar o amor”. Em outras palavras, tratava-se de uma baranga.

Jacó saltou da cama, deixou o jaburu para trás e foi queixar-se a Labão. Não era essa a irmã por quem ele tinha se esfalfado durante sete anos, provavelmente Jacó não trabalharia nem sete dias por Lia. Labão, astucioso, desculpou-se e disse que havia mandado Lia para o leito conjugal, em vez de Raquel, porque lá onde viviam o costume era casar a irmã mais velha antes da mais moça. Por que Labão não avisou a respeito deste costume ANTES do acordo com Jacó, isso ele e a Bíblia não disseram. Mas, continuou o sogro, Jacó não precisava se preocupar, ele teria também Raquel. Desde que, é claro, trabalhasse mais sete anos de graça. Que fazer? Jacó topou o arranjo. Trabalhou mais sete anos. Em compensação, ganhou não apenas as duas esposas, Raquel e Lia, mas também as duas criadas delas, Zilpa e Bila, admitidas na família como concubinas.

Enquanto servia o genro espertalhão, Jacó matava o tempo fazendo filhos em suas mulheres. O primeiro deles foi Rúben, filho de Lia. Esse Rúben terá papel importante na história que se segue, mas, antes de contar o que aconteceu, vai aí uma fofoca: ao crescer, Rúben teve um caso com a criada-concubina Bila. Jacó descobriu e ficou chateado. Como deviam ser intensas essas relações interfamiliares nos grandes clãs da Antiguidade…

Mas, voltando à história de Jacó: ele trabalhou mais sete anos de graça. Ao cabo desse tempo, empregou-se como guarda geral dos rebanhos de Labão. Ficou no posto por outros seis anos, acumulando posses e filhos. Foi um administrador competente, aumentou o patrimônio do sogro e o dele próprio. Depois de duas décadas, possuía um rebanho razoável, quatro mulheres, 11 filhos e uma filha. Esses 11 filhos, e mais um que viria mais tarde, seriam os fundadores das 12 tribos de Israel, o outro nome pelo qual Jacó tornou-se conhecido.

Quando enfim Jacó, ou Israel, como você preferir, decidiu voltar para Canaã, Labão não permitiu. Óbvio: não queria dividir suas propriedades com o genro. Jacó teve de recolher tudo o que possuía e fugir à sorrelfa. A história da fuga de Jacó é aventurosa e repleta de casos em que ele e Labão usaram de ardis para enganar um ao outro. Mas, no momento, é apenas um aspecto dessa história que nos interessa.

O que nos interessa são os terafins de Labão.

Os terafins eram ídolos domésticos, deuses com talhe humano, estatuetas que, além de servirem para adoração, davam a quem as possuía o direito à herança familiar. Josefo conta que, antes da fuga, Raquel “tomou os ídolos de seu pai (…) para aplacar a cólera de Labão, restituindo-os, caso ele os perseguisse”.

Essa informação tem um significado importante: significa que o monoteísmo não era regra entre os hebreus e que o politeísmo era aceito com naturalidade por eles.

Não se trata da única prova. O politeísmo praticado pelos hebreus pioneiros volta e meia surge ao longo da Bíblia e do relato de Josefo, fresteia em meio à narrativa, bota a cabeça para fora, furtivo, e desaparece rapidamente. São lascas da verdade que despontam aqui e ali.

Eis o fascínio dessas histórias velhas de milênios. Afaste a religião para aquele lado ali, porque a religião é matéria de fé e, em matéria de fé, não existe análise crítica; só existe crença. Portanto, repito: deixe a religião quieta num canto. Pegue as escrituras. Mesmo assim, mesmo que você agora não considere as escrituras sagradas, elas contam algo sobre quem as escreveu e o que pretendia. Contam algo sobre a História com agá maiúsculo.

Esse mesmo relato do roubo dos terafins de Labão, além de apontar para o politeísmo dos hebreus primitivos, apresenta um erro histórico que fornece mais pistas sobre a verdade. O erro desponta quando a Bíblia conta que Labão alcançou Jacó e o acusou do roubo dos terafins. Jacó não sabia que Raquel os havia pego, ficou indignado e desafiou Labão a revistar suas tendas. Labão investiu sobre as tendas das criadas-concubinas de Jacó, uma depois da outra, e nada encontrou. A seguir, invadiu a tenda de Lia, a filha feia, e também não achou terafim algum. A última a ser investigada foi a bela Raquel, que não era apenas bela; era esperta. Raquel escondeu os ídolos debaixo da sela de seu camelo, sentou-se em cima e miou para papai:

_ Desculpe, meu pai, por não poder levantar-me em sua presença, pois estou agora com a indisposição que costuma vir às mulheres.

Essa é uma espetacular arma feminina contra a qual os homens não têm defesa. O que um homem pode responder quando uma mulher alega estar com um problema derivado da menstruação? Só pode dizer “claro, claro” e se afastar em direção à sua ignorância. Porque a menstruação é o grande mistério das mulheres, é algo que faz delas seres completamente diferentes e, muitas vezes, insondáveis. Mais: a menstruação é a origem de certa superioridade das mulheres em relação aos homens. Porque, graças à menstruação, as mulheres compreendem o mundo como o mundo é, graças à menstruação as mulheres se transformam em seres práticos, terrenos, conectados à fria realidade da vida, enquanto nós homens somos sonhadores e românticos e, como todos os sonhadores e românticos, dramaticamente suscetíveis a cair no ridículo.

Por que a menstruação é capaz de fazer essa mágica? Porque não é mágica. Tudo acontece no ritmo inexorável da Natureza.

Imagine uma mulher muito jovem, que menstrua pela primeira vez. Mesmo que ela tenha sido advertida do evento pela mãe, a menina irá se espantar, ou se admirar com o que está acontecendo com seu corpo. Ela está SANGRANDO, está sentindo coisas estranhas, tudo aquilo é novo. Por que aquilo acontece? Que significado tem? Ainda que a menina não teça uma reflexão concreta sobre o assunto, ela está sentindo as mudanças, está percebendo as diferenças, o que vai provocar mudanças também em seu espírito. Em pouco tempo, a mulher compreenderá, racionalmente ou não, que ela experimenta o ciclo da vida. A menstruação é a própria Natureza representada, porque tudo, na Natureza, nasce, se desenvolve, atinge o ápice, decai e morre. Este ciclo é experimentado pelas mulheres todos os meses. Portanto, a mulher conhece a Natureza na intimidade, pois ela sabe que a Natureza está dentro dela, ela sabe que também faz parte da Natureza e que tudo, ela e a Natureza, são uma coisa só.

Nós homens precisamos criar sistemas filosóficos para compreender o mundo. As mulheres só precisam menstruar.

Então, quando uma mulher como a linda Raquel diz a um homem, como ela disse a seu pai Labão, que não pode fazer isso ou aquilo por estar menstruada, o homem apenas abaixa a cabeça, submisso à sua inferioridade natural, e se vai, frustrado. Foi o que Labão fez, e assim Raquel salvou Jacó e todo o povo de Israel por todas as gerações vindouras, inclusive Freud, Einstein e Natalie Portman.

Mas eu dizia lá atrás que a Bíblia incorrera em um erro histórico ao narrar esse caso. É que Raquel escondeu os ídolos “sob a sela do camelo”, e, segundo os historiadores mais respeitáveis, o camelo não foi domesticado antes de 1.000 anos a.C. Os egípcios, que tinham palavras para tudo, nem sequer tinham uma palavra para camelo. É provável que só o tenham domesticado depois de serem conquistados pelos assírios em 653 a.C.

Isso significa que os autores da Bíblia mentiram?

Não.

Isso significa que os autores da Bíblia escreveram essas histórias muito depois do período em que elas aconteceram, ou que poderiam ter acontecido. Uma diferença de séculos em geral causa imprecisões narrativas. E aí chegamos a outra imprecisão importante que foi inclusive apontada por Thomas Mann quando ele contou a história de José. É que, de acordo com a Bíblia e Flávio Josefo, José era bisneto de Abraão. Só que, na verdade, havia 20 gerações entre um e outro. Embora não haja prova concreta da existência de José, os historiadores concluíram, através de uma série de indícios, que ele deve ter migrado para o Egito no tempo dos hicsos, três ou quatro séculos depois de Abraão ter arrastado as sandálias de couro pelas areias do Oriente Médio.

Esse é um dado importante, porque aproxima os hebreus de um tempo especial para os egípcios, um tempo que faz toda a diferença na história que estamos contando. Mas, antes disso, é preciso falar sobre a interessante história de José, aquela que maravilhou Goethe e Thomas Mann. Sobre ela será o próximo capítulo.

A História do Mundo - Capítulo 23

11 de janeiro de 2012 11

Por volta da primeira metade do século 19, Goethe proferiu, que Goethe não dizia, proferia, pois por volta da primeira metade do século 19 Goethe proferiu a seguinte frase acerca da história bíblica de José, o filho de Jacó, um dos patriarcas hebreus:

“Essa é uma narrativa natural das mais encantadoras, e seu único defeito é ser demasiado breve, de sorte que nos sentimos inclinados a escrevê-la pormenorizadamente”.

Por volta da primeira metade do século seguinte, Thomas Mann tomou a si a tarefa proposta por seu ilustríssimo conterrâneo. Estudou a Bíblia com profundidade arqueológica, muniu-se de recursos financeiros, arrumou as malas e viajou para o Oriente Médio. Lá, varou fontes originais a respeito da época de José, uma época que se perde a bem mais de um milheiro de anos antes de Cristo. Investigou documentos guardados em museus e vetustos arquivos do Egito e da Palestina, entrevistou-se com sábios e pesquisadores, e voltou à Alemanha preparado para empreender o trabalho gigantesco. Nos anos 30, lançou quatro romances alentados baseados na história de José. Na abertura do primeiro, “José e seus irmãos”, Thomas Mann situa o leitor geográfica e historicamente numa única, longa e elegante frase que reproduzo a seguir, para seu deleite:

“O jovem José, filho de Jacó e da formosa Raquel, que tão cedo partiu; José que viveu quando em Babel reinava Curigalzu, o cassita, Senhor das Quatro Regiões, Rei da Suméria e da Acádia, extremamente suave ao coração de Bel-Marduk, soberano a um tempo severo e pomposo, cuja barba tinha cachos dispostos em ordem tão perfeita que se assemelhavam a uma divisão de escudeiros bem equipados, enquanto em Tebas, na terra que José costumava chamar “Mizraim” e também “Kemt, o Preto”, Sua Santidade o bom Deus, cognominado “Amon está satisfeito”, terceiro deste nome, o próprio filho do sol, brilhava no horizonte de seu palácio e ofuscava os olhos embevecidos de seus vassalos nascidos no pó; quando Assur crescia pelo poder de seus deuses e pela grande estrada perto do mar, a qual se estendia desde Gaza até os passos das montanhas de cedro, iam e vinham as caravanas régias, trazendo as dádivas de lápis-lazuli e de ouro em barra, entre a corte do País dos Rios e a corte do Faraó; quando nas cidades dos amoritas, em Beth-San, Ajalon, Ta’anach, Urusalim cultuavam Astarté, enquanto em Siquém e Beth-Lahana ressoava o lamento de sete dias pelo filho verdadeiro, o desmembrado, e em Gebal, a Cidade do Livro, El era adorado, El que não necessitava nem de templo nem de rito; então, José, vivendo naquela região da terra de Canaã que no Egito é chamada Retenu Superior, nas tendas de seu pai em Hebron, sombreadas por terebintos e carvalhos sempre verdes, José que era um homem famoso pelo encanto que herdara de sua mãe, a qual tinha sido formosa e linda como a lua quando está cheia e como a estrela de Ishtar quando bóia suavemente no claro céu; mas também provido, pelo lado paterno, de dons do espírito e talvez, em certo sentido, sobrepujando o próprio pai; José, afinal e para concluir (pela quinta ou sexta vez eu digo o nome dele, e com prazer, porque há mistério nos nomes e estou em afirmar que o conhecimento do dele outorga poderes para evocar essa personalidade noutras eras tão viva e conversável, ainda que ora afundada na voragem do tempo); José, pela sua parte, considerava uma certa cidade chamada Uru, na Babilônia Meridional, que ele na sua língua chamava Ur Kachdim, Ur dos Caldeus, como o princípio de todas as coisas, isto é, de todas as coisas que lhe diziam respeito”.

Não é uma beleza de construção? Leia e releia para sorvê-la com mais gosto. É obra de um Prêmio Nobel de Literatura.

Segundo a Bíblia e a “História dos Hebreus”, de Flávio Josefo, esse José que tanto motivava Thomas Mann e Goethe era bisneto de Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas do planeta. Teria sido assim que aconteceu: Abraão saiu da Ur dos Caldeus, citada acima por Mann, acompanhado da sua mulher Sarai, depois convertida em Sara, e seu sobrinho Lot. Viviam como seminômades, vagueavam pelo deserto, estabeleciam-se por algum tempo numa cidade, comerciavam, abasteciam-se de mantimentos, recompunham-se e depois partiam com seus rebanhos para as cercanias de outra cidade. Em meio a tais andanças, Lot firmou residência em Sodoma, lugar bastante animado e com noite forte, de onde fugiu antes de a região ser destruída pelos anjos do Senhor com uma cerrada chuva de fogo e enxofre. Na fuga, porém, Lot teve o desprazer de ver sua própria mulher transformada em estátua de sal, tudo porque ela, como toda mulher, não aguentou a pressão da curiosidade e olhou para trás a fim de ver o que acontecia com Sodoma e Gomorra, descumprindo assim orientações expressas de ninguém menos do que Jeová, o Deus dos Exércitos, entidade que não admitia desobediência.

Lot teve filhos com suas próprias filhas, enquanto Sara não conseguia conceber. Abraão, então, fez um filho na escrava egípcia Agar: Ismael, o pai de todos os ismaelitas, que são os povos árabes. Só que perto dos cem anos de idade, Sara engravidou, demonstrando todo o poder d’O Senhor e a potência de Abraão. Esse filho foi Isaac, o homem de que descendem os hebreus.

Isaac haveria de ser, em tese, o pai de Jacó e o avô de José. Mas não foi bem assim que aconteceu, o que veremos mais tarde. Por ora, vamos nos ater à interessantíssima história de Isaac. Ei-la:

Aos 127 anos de idade, Sara, a mãe de Isaac, morreu. Abraão, apesar de ser mais que centenário, continuava bem vivo e ativo, tanto que arranjou outra mulher, Quetura, com quem teve seis filhos. Os descendentes desses filhos espalharam-se pelo mundo. Alguns foram habitar as cavernas situadas à margem do Mar Vermelho, uma localidade chamada Troglodítica. Não eram muito refinados, aqueles trogloditas, e essa fama eles carregaram através dos séculos, transformando o seu gentílico em adjetivo.

Isaac só foi se casar com 40 anos de idade com uma moça chamada Rebeca, descrita assim no Gênesis: “A jovem era extremamente bela, virgem, e homem algum a havia possuído”. Sempre achei intrigante essa redundância bíblica: ela era “virgem, e homem algum a havia possuído”.


Enfim.

Logo depois do casamento, Abraão morreu, “numa ditosa velhice, em idade avançada e cheio de dias”. Milhares deles: tinha, segundo Josefo e a Bíblia, 175 anos bem vividos.

Rebeca levou 20 anos para engravidar, e sua gravidez, de acordo com Josefo, era “esquisita”. Na falta de exames de ultrassom, Isaac consultou O Senhor para saber o que se passava com a mulher. A resposta foi surpreendente: Rebeca estava grávida de gêmeos e os dois meninos, mesmo estando no lugar mais acalentador e protegido do mundo, que é o ventre materno, brigavam sem parar. O Senhor disse mais: disse que deles descenderiam dois povos, e que o segundo suplantaria o primeiro.

O primeiro, tendo nascido vermelho e peludo, recebeu o nome de Esaú, que significa, exatamente, “peludo”. O segundo, que nasceu segurando no calcanhar do primogênito, recebeu o nome de Jacó, que significa “suplantado”. A mãe gostava mais do segundo filho, o pai gostava mais do primeiro. Essa divisão de preferências foi decisiva para o destino de ambos, como sói acontecer em todas as famílias em que há divisão de preferências.

Os autores da Bíblia também demonstraram claramente sua preferência por Jacó. Não por acaso: ele foi um dos patriarcas dos hebreus, enquanto Esaú, que também era chamado de Edom (por uma razão que já explico), foi patriarca dos edomitas. Eu, que não tenho nada a ver com isso, prefiro Esaú, e vou mostrar por que.

A passagem do Gênesis que trata sobre a juventude dos irmãos diz assim:

“Os meninos cresceram. Esaú tornou-se um hábil caçador, um homem do campo, enquanto Jacó era um homem pacífico, que morava na tenda”.

Repare que temos diante de nós, mais uma vez, a ancestral luta entre o nomadismo e o sedentarismo. Esaú era um “hábil caçador” e Jacó “morava na tenda”. Esaú representava o nômade e Jacó o sedentário. Esaú era a barbárie e Jacó a Civilização. Não é à toa que a mulher, Rebeca, preferia Jacó e o homem, Isaac, preferia Esaú.

O homem selvagem e o homem civilizado, que já lutavam no ventre da mãe, continuaram em luta, cada qual com suas armas. Vou contar a história como contou o Gênesis, com breves comentários:

“Um dia em que Jacó preparava um guisado, voltando Esaú fatigado do campo, disse-lhe:

— Deixa-me comer um pouco dessa coisa vermelha, porque estou muito cansado.”

Primeiro comentário: é por isso que apelidaram Esaú de Edom, porque edom significa “ruivo”, ou “vermelho”.

“Jacó respondeu-lhe:

Vende-me primeiro o teu direito de primogenitura”.

Segundo comentário: a primogenitura era importantíssima naquela época e naquela cultura, pois o primogênito tornava-se o chefe da família, depois da morte do pai, e, assim controlava a herança do clã.

“Esaú respondeu:

— Morro de fome. Que me importa o meu direito de primogenitura?

Terceiro comentário: veja aí uma prova do caráter franco, aberto e despojado de Esaú. Só um homem desapegado de valores materiais responderia assim.

“Jacó rebateu:

— Jura-mo, pois, agora mesmo.

Esaú jurou e vendeu o seu direito de primogenitura a Jacó. Este deu-lhe pão e um prato de lentilhas. Esaú comeu, bebeu e depois se levantou e partiu”.

Quarto e último comentário: note, agora, o caráter solerte e enviesado de Jacó. Ele chantageou o irmão, foi isso o que ele fez. Aproveitou-se do ensejo da fome do outro para lhe exigir algo que, naquele momento, não valia nada, mas que teria suma importância mais adiante. Jacó premeditou e iludiu como só uma mulher sabe fazer.

O que temos nessa história, frente a frente, são a Civilização e a selvageria, sim, e também o homem e a mulher, a franqueza e o ardil, a imprevidência e a astúcia.

Mas o episódio mais emblemático dessa disputa foi o que se deu no fim da vida de Isaac. A clássica história da bênção paterna. A bênção era simbólica, mas acarretava resultados práticos. Significava uma espécie de confirmação dos direitos de primogenitura.

Velho e cego, sentindo-se às portas da morte, Isaac decidiu abençoar Esaú. Ou seja: empossaria o filho como chefe do clã. Chamou Esaú e pediu-lhe:

— Toma as tuas armas, tua aljava e teu arco, vai ao campo e mata-me uma caça. Prepara-me depois um prato suculento, como sabes que gosto, e traze-mo para que o coma e minha alma te abençoe antes que eu morra.


Esaú partiu para a caçada, faceiro
, sem saber que sua mãe Rebeca ouvira tudo e acalentava outros planos. Rebeca foi procurar Jacó, contou-lhe sobre a conversa entre Isaac e Esaú e, a seguir, informou o que tinha em mente:

— Faça o que eu digo: vá ao rebanho e traga dois belos cabritos. Prepararei com eles um prato suculento para o teu pai, como ele gosta. Tu vai levar o prato a ele, ele comerá e vai te abençoar em lugar de Esaú.

— Mas, mãe — argumentou Jacó. — Meu irmão é peludo, enquanto eu tenho pele lisa. Se meu pai me tocar, passarei por um embusteiro e atrairei sobre mim uma maldição em vez de uma bênção.

Mas a mãe havia pensado em tudo. Orientou Jacó para cobrir os braços e as pernas com as peles dos cabritos esfolados. O pai tocaria nele e pensaria que se tratava do cabeludo Esaú. Jacó obedeceu, Isaac meio que desconfiou, mas foi logrado e abençoou o filho errado com pompa bíblica:

— Deus te dê o orvalho do céu e a gordura da terra, uma abundância de trigo e de vinho! Sirvam-te os povos e prostrem-se as nações diante de ti! Seja o senhor dos teus irmãos, e curvem-se diante de ti os filhos de tua mãe! Maldito seja quem te amaldiçoar e bendito seja quem te abençoar!

O trecho da Bíblia que relata a reação de Esaú ao descobrir o engodo é triste e emocionante. Uma das narrativas mais tocantes do Velho Testamento:

“Apenas Isaac acabara de abençoar Jacó, e este saíra de junto de seu pai, chegou Esaú da caça. Preparou também ele um prato suculento e trouxe-o ao seu pai, dizendo:

— Levanta-te, meu pai, e come da caça do teu filho, a fim de que tua alma me abençoe.

— Quem és tu? — perguntou-lhe Isaac.


— Eu sou o teu filho primogênito, Esaú.

Então, Isaac, tomado de emoção violenta, exclamou:

— Quem é, pois, aquele que foi à caça e me trouxe o prato que eu comi antes que tu voltasses? Eu o abençoei e ele será bendito.

Ouvindo essas palavras de seu pai, Esaú soltou um grito cheio de amargura e disse-lhe:

— Abençoa-me também a mim, meu pai!

— Teu irmão — respondeu-lhe Isaac — veio, fraudulentamente, tomar a tua bênção!

Esaú disse então:

— Será porque ele se chama Jacó que me suplantou já duas vezes? Tirou-me meu direito de primogenitura, e eis que agora rouba a minha bênção! — E ajuntou: — Não reservaste, porventura, uma bênção também para mim?

Isaac respondeu-lhe:

— Eu o constituí, e dei-lhe todos os seus irmãos por servos, e o estabeleci na posse do trigo e do vinho. Que posso ainda fazer por ti, meu filho?

Esaú disse ao seu pai:

— Então só tens uma bênção, meu pai? Abençoa-me também a mim, meu pai!


E pôs-se a chorar.

Isaac tomou a palavra:

— Eis que a tua habitação será desprovida da gordura da terra e do orvalho que desce dos céus. Viverás da tua espada, servindo o teu irmão, mas, se te libertares, quebrarás o teu jugo de cima do teu pescoço.”


Com essa bênção alternativa, Isaac deu permissão a Esaú para vingar-se de Jacó.
Mas Rebeca entrou em ação novamente: avisou a Jacó do perigo que ele corria e mandou que fugisse para a casa do irmão dela, Labão. Jacó escafedeu-se para a casa desse tio, onde novas e estrepitosas aventuras o esperavam.

Vamos falar delas no próximo capítulo.

A História do Mundo - Capítulo 22: "Estabelecer-se", central para nossa civilização

03 de janeiro de 2012 11

Agora estamos chegando às cercanias de onde queria chegar desde o princípio. Estamos nos aproximando do ponto nevrálgico para a Civilização Ocidental. Do momento em quem as coisas se transformaram no que hoje são.

Vamos lá.

No chamado “Reino Médio”, que se iniciou em cerca de 2.100 anos antes de Cristo, ponteou a Décima-Segunda Dinastia, fundada pelo faraó Amenemhat I, o tal que deu aquelas sábias instruções ao seu filho Sesóstris I.

Amenemhat teve de batalhar para alcançar o bom sucesso. Ele não tinha sangue nobre, era apenas filho de sacerdote. Conseguiu alçar-se ao poder usando de muita astúcia, estabelecendo alianças com os governadores das províncias, os “nomarcas”, e, talvez a mais eficaz de todas as providências, desposando uma princesa. Tudo indica que morreu assassinado. Pelo menos foi o que ficou registrado em um dos mais famosos contos do Antigo Egito, “As Aventuras de Sinuhe”.

Esse Sinuhe, protagonista da história, viu-se injustamente acusado do assassínio do faraó e fugiu pelo Oriente Médio afora. Depois de muitas peripécias, retornou ao lar e foi perdoado pelo novo faraó, Sesóstris, que o tratou com benevolência reconfortante. Só de ler o trecho a seguir suspiro de alívio, como se estivesse deitando a cabeça no travesseiro depois de um dia de trabalho duro:

“Fui colocado na casa do filho do rei, onde tudo era nobre e havia banho. Os anos foram tirados de meu corpo. Fui barbeado, meu cabelo foi penteado. A carga de sujeira foi lançada ao deserto, e a roupa suja dada aos carregadores de areia. E fui vestido do mais fino linho e ungido com os melhores óleos”.

Nesta Décima-Segunda Dinastia, o poder continuava nas mãos dos faraós, mas os estrangeiros faziam a cada ano maior pressão nas fronteiras. Um dos reis, Sesóstris III, deixou a seguinte inscrição em um templo:

“Estabeleci minha fronteira além da dos meus pais e aumentei aquilo que herdei. Sou um rei que fala e age. Valor significa agredir, ceder é vileza. Vil é aquele que se deixa invadir na própria fronteira, visto que basta abrir a boca para que os núbios obedeçam. Se alguém mostra coragem, os núbios fogem repentinamente; mas se recua eles atacam. Não é gente corajosa, é vil de coração. Minha majestade os viu, é a verdade”.

Não se tratava exatamente de “a verdade”. Os núbios eram os guerreiros mais valentes do exército egípcio, não havia isso de eles fugirem repentinamente se alguém mostrasse coragem. Tanto que, pouco mais de um século depois de Sesóstris III, na Décima-Quarta Dinastia, um núbio tornou-se faraó. O homem era chamado de Nehesi, que, em egípcio, significa, justamente, “núbio”. Foi o primeiro faraó negro.Houve outros.

Os egípcios experimentaram essas influências forasteiras com má vontade. Assim como, mais tarde, os gregos chamaram os estrangeiros de “bárbaros”, os egípcios chamavam a si mesmos de “Os Homens”. Quer dizer: eles eram os únicos homens. Os outros eram os outros. Um texto da Décima Dinastia diz o seguinte:

“Observa o miserável asiático (…) ele não vive num lugar fixo, suas pernas são feitas para andar no deserto. Sempre lutou, mas nunca conquistou nada (…) não pode vencer nem pode ser vencido; pode roubar uma pessoa numa estrada solitária, mas jamais combater contra uma cidade”.

Note como tudo gira em torno da dicotomia nomadismo e sedentarismo, nessa etapa da história do mundo. As pernas do “miserável asiático” são “feitas para andar no deserto”. Ou seja, ele é nômade. E ele “sempre lutou, nunca conquistou nada”. Porque o homem só constrói algo quando se estabelece. Milênios depois, a sabedoria popular ensinaria: “Pedra que muito rola não cria limo”.

O problema é que a pressão nas fronteiras nunca cessava completamente. Porque assim funcionava o mundo, nos albores da Civilização: uma comunidade se fixava às margens de um rio, se desenvolvia na placidez do sedentarismo, se organizava e prosperava. Em algum tempo, essa prosperidade atraía a cobiça de bandos nômades, que se acercavam das cidades, e tentavam forçar a entrada e a rapinagem.

Dois mil anos antes de Cristo, os sedentários, guardiões da Civilização, tinham de criar sistemas de defesa da sua sociedade. Em geral eram eficientes, porque os nômades não passavam de punhados de bandoleiros, que “não podiam vencer nem ser vencidos”. Mas às vezes surgia um grupo maior, mais poderoso e mais orgânico, e aí a comunidade corria grande perigo. Tal perigo só era debelado se havia um poder central forte, que dirigisse os recursos do país para um só objetivo: o de defesa contra o invasor. O poder central forte, no caso do Egito, era o faraó. Ocorre que o sexto faraó da Décima-Segunda Dinastia, Amenemhat III, foi o último rei a ter o controle absoluto sobre o país. Amenemhat III foi aquele que construiu um palácio com mais de três mil aposentos e que governou por mais de 40 anos. Depois dele, seus filhos demonstraram-se governantes débeis, os governadores das províncias aumentaram sua influência e, assim, o Egito ficou à mercê da rapacidade estrangeira. Entraram em cena, então, os já referidos hicsos, os “reis pastores”, guerreiros nômades que, usando o cavalo como uma inédita arma de guerra, derramaram-se pelo Egito a partir do Delta, devastaram, saquearam, assassinaram e estabeleceram-se. Reinaram durante 220 anos.

Bem.

Agora, preste atenção nessa última informação a respeito dos hicsos: eles “devastaram, saquearam, assassinaram e estabeleceram-se”. Repito o que é importante:

“Estabeleceram-se”.

Mas vou tratar disso mais adiante. Neste momento, abro espaço para uma breve tergiversação.

É que há algo curioso a respeito dos egípcios e sua relação com os cavalos: eles nunca os montaram. Adotaram os cavalos introduzidos pelos hicsos, atrelaram-nos a carruagens e carros de guerra, usaram-nos, por fim, para reconquistar a independência, mas jamais cavalgaram. Quer dizer: não existiu uma cavalaria egípcia.

Por quê?

Por causa do Nilo.

Os egípcios preferiam deslocar-se através do Nilo em seus barcos leves e rápidos. Você também preferiria, se seu país fosse construído ao longo do Nilo, como uma comprida e estreita franja do rio. Pelo seguinte: imagine agora que se realizou o sonho dourado dos ecologistas e todos os carros movidos a motor jazem extintos como pássaros dodôs.

Certo.

Pegue uma cidade de tamanho médio, como Porto Alegre ou Curitiba, que têm por volta de milhão e meio de habitantes.

Certo.

Se essas pessoas se deslocarem pela cidade de bicicleta e a pé, precisarão do cavalo ou de carroças, charretes e carruagens movidas à tração animal para subir ladeiras e percorrer longas distâncias. Haveria, pois, a necessidade de pelo menos um milhão de cavalos.

Certo.

Esses bichos, como todos os bichos, comem e bebem. Logo, sentem a necessidade de expelir suas excrescências.

Certo.

Cavalos e bois, em geral, não têm o hábito de ir ao banheiro e puxar a descarga. São muito indisciplinados, fisiologicamente falando.

Certo.

Então pense em um milhão de cavalos fazendo cocô e xixi pelas ruas da cidade, todos os dias, todas as horas. Pense na cidade empesteada por fezes e urina. Pense no cheiro do ar, no aspecto das ruas, no trabalho dos garis para remover essa imundície a cada dia.

Para você ver como o seu carro não é tão malvado assim. Um barco a remo, muito menos. Portanto, se você fosse um antigo egípcio preferiria deslocar-se em barcos muito mais práticos, limpos, velozes e prudentemente inanimados.

Concluída a nossa breve tergiversação, voltemos aos hicsos.

Os hicsos, depois de serem banidos do Egito, desapareceram da História.

Como foram derrotados, se eram guerreiros tão ferozes? Aí está: os hicsos, como tantos antes deles e muitos mais depois deles, fizeram exatamente o que está escrito no final daquele parágrafo que destaquei. Vou repetir a frase, para frisar o que é importante: os hicsos “devastaram, saquearam, assassinaram e estabeleceram-se”.

Estabeleceram-se.

O que significa isso? Que eles fincaram raízes, incorporaram-se à comunidade, formaram, eles próprios, uma comunidade. Significa que eles, por fim, tornaram-se sedentários. Que eles se civilizaram. Civilizado, o homem se requinta. Ele passa a se alimentar com mais sofisticação, ele tem mais momentos de lazer, ele produz arte e inala cultura. Ele se transforma em um ser humano mais feminino, porque a Civilização é feminina, o sedentarismo é feminino e o nomadismo e a selvageria são masculinos.

Alguma feminista feroz pode achar que isso é um elogio à condição masculina. Que a selvageria intrínseca ao espírito do homem é algo que o torna aventuroso e romântico. Ele até pode ser, sim, aventuroso e romântico, mas também é muito mais violento. A prova está atrás das grades. Em 2011, a população carcerária do Brasil alcançou o número de 500 mil pessoas. Destas, 27 mil são mulheres.

Bem. No momento em que o homem se civiliza e, civilizado, se afemina, ele também se converte em alvo fácil para eventuais inimigos mais selvagens e, logicamente, mais masculinos. Foi o que se deu com os hicsos. Amolecidos por dois séculos de civilização, eles foram derrotados pelos egípcios e expulsos do país. Desfeita sua tradição guerreira, misturaram-se a outros povos e evaporaram para sempre.

A história que relata o início da guerra de libertação egípcia é interessantíssima. Os hicsos, como se sabe, haviam se instalado no Delta, no Baixo Egito, e de lá não saíram. Por volta do ano 1650 a.C., quem reinava em Tebas, a capital do Egito dos hicsos, era Sekenenre. Em Avari, a capital do Egito dos egípcios, o rei era Apópi. Um dia, Apópi enviou um embaixador a Sekenenre com a seguinte mensagem:

“É o rei Apópi quem me manda a propósito dos hipopótamos que existem ao redor de tua cidade, dizendo: O seu alvoroço está sempre nos meus ouvidos e não me deixa dormir nem de noite nem de dia”.

Apópi estava reclamando do barulho que faziam os hipopótamos de Tebas. Detalhe: Apópi vivia em Avari, que distava 600 quilômetros de Tebas. Era como se o governador do Rio de Janeiro se queixasse do ruído que fazem os carros na Marginal do Tietê, em São Paulo.

Sekenenre não soube o que responder ao seu colega do Alto Egito. Consultou seus conselheiros e eles tampouco souberam como reagir. Não interessava. Apópi queria, mesmo, era provocar. Sekenenre aceitou a provocação, partiu para a guerra e perdeu. Sua múmia apresenta o crânio rachado por golpes de clava. O rei morreu em combate, portanto.

Os hicsos escafederam-se pelo deserto, voltaram à Palestina, de onde tinham vindo e, lá, há quem acredite que fundaram uma das cidades-chave da cultura planetária: Jerusalém.

É que a história dos hicsos está muito vinculada à história dos hebreus. Alguns historiadores acreditam, inclusive, que eram o mesmo povo. Talvez fossem. Até porque os hebreus, como quaisquer povos de qualquer época de qualquer lugar, não eram uma raça homogênea. Os hebreus, mesmo sendo tão unidos por sua religião, se misturavam e continuam se misturando. E é aí que desponta a história de um dos patriarcas de Israel. Que vou contar no próximo capítulo de A História do Mundo.

A História do Mundo: Loira, linda e perigosa

13 de outubro de 2011 1

Capítulo 21

Nitócris era loira, linda e perigosa. Era também rainha do Egito, a primeira mulher faraó, provavelmente a primeira mulher governante da história do mundo, uma mulher, quem diria?, comandando uma das grandes civilizações da Humanidade mais de 41 séculos antes dos adventos de Dilma Rousseff, Angela Merkell e Megan Fox. Tudo isso é impressionante. Mas é secundário. O importante é que tudo isso fazia de Nitócris uma fêmea ainda mais perigosa, o que se tornou fatal para alguns de seus conterrâneos, como veremos a seguir.

Antes de mais nada, há algo a se destacar no caso da rainha: o fato de ela ser loira “de pele rosada”, segundo o abalizado historiador egípcio Maneton, homem que fez a mais confiável lista de faraós que se tem notícia. Essa condição, a loirice, a distinguia. Porque os antigos egípcios em geral eram de tez morena. Não negros, como chegaram a suspeitar alguns historiadores;  morenos da cor da fruta do jambeiro. Negros eram seus vizinhos núbios, que foram derrotados pelos egípcios durante o reinado do faraó Pepi I, sogro de Nitócris e, como ela, um dos sete reis da Sexta Dinastia.

Batidos, os núbios viram-se incorporados ao exército de Pepi. Tratou-se de grande aquisição. Os vencidos acabaram se transformando na base do exército vencedor. Eram eles os chamados “arqueiros núbios”, famosos na Antiguidade por sua pontaria certeira e sua ferocidade em combate. A Núbia mais tarde seria chamada de Kush e, muito mais tarde, de Sudão.

Os negros, portanto, vinham da Núbia, encravada ao Sul, ou da Somália e da Etiópia, situadas mais a leste, no Chifre da África, região que, no século 21, vê-se assolada pela fome e pela intolerância religiosa. Na Quinta Dinastia, antes de Nitócris, o faraó Sahure fez façanhosas incursões comerciais à Somália, país que os egípcios chamavam de Punt.

Vale a pena descrever a viagem, de tão afanosa que era. As mercadorias egípcias partiam pelo  Nilo de Mênfis, a capital, até Koptos, na margem leste do rio, perto de Luxor. Lá eram descarregadas e conduzidas a pé, nas costas de mulas silenciosas ou de robustos operários bufantes, numa marcha de cinco dias até o Mar Vermelho. Chegando ao porto, os trabalhadores montavam navios com madeira vinda do Líbano, já que no Egito não havia árvores boas para se construir embarcações de porte. Em seguida, os barcos eram carregados e seguiam para Punt. As mercadorias egípcias eram trocadas por outras, em geral produtos de origem vegetal, como a mirra, usada como ingrediente na mumificação, e o negro ébano, empregado na confecção de móveis de luxo; ou de origem animal, como o marfim, extraído de infelizes elefantes, e peles arrancadas de animais menores, mas igualmente infelizes. E lá voltavam os egípcios pelo mesmo caminho, desmontavam os navios, estocavam a madeira, caminhavam outros cinco dias, desciam o Nilo e, por fim, vendiam os produtos importados em Mênfis. O processo estendia-se por meses a fio. Tudo por dinheiro.

Quer dizer: os egípcios se relacionavam com os povos de raça negra das vizinhanças, mesclavam-se com eles e, muitos séculos depois, seriam até dominados por eles, mas os egípcios não eram negros; eram morenos. E essa rainha, loira como uma Scarlett Johansson.

Nitócris só assumiu a coroa porque seu irmão e marido, o faraó Merenré II, havia sido assassinado durante uma revolta popular. Empossada, a beldade tratou de pacificar a nação. Ao mesmo tempo, ordenou a construção de um suntuoso salão subterrâneo em seu palácio. Marcou um não menos suntuoso jantar para a cerimônia de inauguração das dependências, para a qual convidou diversos próceres do país. Compareceram todos, instalaram-se comodamente e, em meio às libações, olharam de um para outro e perceberam que ali reuniam-se justamente os que haviam tramado o assassínio do antigo faraó. Quando começaram a suspeitar que a coincidência podia não ser coincidência, e sim uma cilada, procuraram pela rainha, mas cadê a rainha? Nitócris havia desaparecido. Estava em outro cômodo, onde existia uma válvula secreta. Com suas mãozinhas delicadas de loira, ela abriu a válvula e as águas do Nilo correram por um canal que desaguava no salão dos convidados. Lentamente, os assassinos do irmão amante da rainha viram com olhos esbugalhados de horror a água preenchendo o espaço do salão hermeticamente fechado. Esmurravam a porta, arranhavam as paredes. Não adiantava. Não adiantou. Foram cobertos pelas águas e morreram afogados. Consumada a vingança, a loira transferiu-se para outra sala, esta repleta de brasas, onde se suicidou para escapar à reação do populacho ignaro.

Ou seja: nada a movia, nem o poder, nem o dinheiro, nem a fama, nem a glória, nem a admiração dos seus coetâneos ou dos pósteros, nem mesmo o prazer sensual ou a realização da maternidade, nada a movia, senão a vingança. Nitócris era uma mulher desinteressada, e essa é a grande lição da sua história de idade milenar: existem pessoas despojadas de ganhos materiais no mundo, mesmo que suas motivações morais sejam equivocadas, como o feio sentimento da vingança que incendiava o peito arfante da loira rainha do Egito. Sim, senhor, existem pessoas desinteressadas. Mas não são muitas.

Com a bela Nitócris terminou o chamado Antigo Império, um período pelo qual os egípcios dos séculos vindouros suspirariam e chamariam com nostalgia de “tempos dourados”. É assim que é: os tempos dourados, quaisquer tempos dourados, estão sempre em algum lugar do passado. Você pode estar vivendo tempos dourados agora mesmo, e não saberá reconhecê-los. Você se queixa da vida, você lembra com saudade do passado. Depois de alguns anos, quando o seu presente de agora se tornar passado, tudo ficará coberto por uma pátina gloriosa e inocente. Então, os tempos de hoje serão “tempos dourados”. Como você perde tempo não sabendo apreciar o seu tempo.

Mas, falando em tempo, urge citar um importante faraó dessa Sexta Dinastia, o antecessor de Nitócris, Pepi II, irmão do primeiro Merenré. É que Pepi II foi o tal faraó campeão de permanência no poder, sobre o qual falei capítulos atrás: reinou dos seis anos de idade até os cem. Ao que se sabe, até os albores do século 21 nenhum governante conseguiu manter-se no mando por 94 anos.

Claro que, enquanto era criança, Pepi II reinava, mas não mandava. Seu tio Zau governou como vizir, e parece que o fez com parcimônia e sabedoria. Tanto que, ao atingir a maioridade, Pepi II tomou o poder sem maiores problemas. Não houve rebeliões nem tentativas de golpe. Pepi II depositava muita confiança em um certo general Harkhuf, príncipe de Elefantina. Enviava-o seguidamente às regiões vizinhas em expedições guerreiras ou comerciais. Numa dessas, Harkhuf trouxe de presente para o rei um dançarino anão. Mandou avisá-lo a respeito do mimo por um mensageiro, que retornou com uma correspondência ansiosa do monarca: “Em tua carta tu afirmaste que trouxeste da Terra dos Bem-Aventurados presentes lindos, bem como um anão das danças do deus, parecido com o anão que o tesoureiro Baurdel trouxe de Punt no templo de Isesi (…) Vem logo e traze contigo o anão (…) Quando descer do navio coloca ao seu lado pessoas valentes, presta atenção para que o anão não caia n’água. Enquanto dorme, coloca ao seu lado alguém que o vigie, inspeciona dez vezes por noite. A Minha Majestade deseja ver o anão mais que todos os presentes do Sinai e do Punt. Se chegares à Corte com o anão são e salvo, a Minha Majestade te concederá honrarias maiores do que aquelas que Isesi deu a Burdel”. Gostava dum anão, o Pepi II.

Enfim. O fato é que, depois da Sexta Dinastia, o poder dos faraós enfraqueceu, os nomarcas se tornaram senhores feudais quase independentes e o Egito ingressou em um período de trevas que duraria 200 anos.

Nesses dois séculos reinaram quatro dinastias de faraós obscuros, incompetentes e até loucos, como um chamado Akhtoes, que atirou-se no Nilo e foi devorado pelos crocodilos. O Papiro de Ipuur, que se encontra no Museu de Leiden, na Holanda, descreve esse tempo:

“O país está cheio de saqueadores
Vai-se arar protegido com escudo
(…)
Os mendigos se tornaram donos de tesouros
(…)
O ladrão é senhor das riquezas
(…)
O rio está cheio de sangue
Qualquer asiático é pessoa ilustre
Ao passo que os egípcios se comportam como os nômades
Os velhos dizem: oxalá estivéssemos mortos!
As crianças: oxalá nunca tivéssemos nascido!
Come-se grama e bebe-se água”.

Por esse poema de lamentações você pode constatar que época difícil os egípcios atravessaram e também que eles não gostavam de asiáticos e adoravam cerveja. Imagina, beber água! Você pode constatar também que a Civilização ainda lutava contra os instintos naturais do homem: “Os egípcios comportavam-se como nômades”. Isto é: como os incivilizados de outrora. O Egito, mesmo em crise, era o avalista da Civilização.

A História do Mundo: Capítulo 20

06 de outubro de 2011 5

Quantos presidentes o Brasil já teve desde a proclamação da República, em 1889, até a eleição de Dilma Rousseff, em 2010?

Parece fácil de responder. Basta contar: um, Deodoro; dois, Floriano Peixoto; três, Prudente de Morais; quatro, Campos Sales… Mas não é bem assim. Vibra e pulsa uma polêmica a respeito dessa questão, porque houve vices que assumiram a presidência, houve presidentes interinos, houve brechas em que um presidente ficou no cargo por pouquíssimo tempo, houve juntas governativas. Então, se é certo que Dilma Rousseff é a primeira mulher eleita presidente (ou presidentA, como ela gosta), não é certo se ela é a 37ª ou 32ª pessoa a ocupar o posto. Isso numa história de 120 anos. Imagine, agora, listar os faraós que governaram o Egito por 3.200 anos…

Trata-se de tarefa árdua, sobretudo porque naquele tempo não existia o Google. No entanto, o regime dos faraós foi tão bem-sucedido que, durante todo esse tempo, apenas 30 famílias governaram o país em sucessão. Trinta dinastias. Um fenômeno de estabilidade. É certo que, antes da unificação, o Egito experimentou pelo menos outros dois mil anos de história, mas o tempo dos faraós é que foi a glória da nação. Foi nesse período que o Egito se tornou imortal. E, ainda mais importante, foi nessa época que o Egito influenciou para sempre a Civilização Ocidental.

A unificação do Egito, e o consequente estabelecimento da Primeira Dinastia, se deu em cerca de 3.200 anos antes da Era Cristã. O autor da façanha foi Menés, o primeiro faraó. É evidente que Menés dispôs de muita habilidade ao unir o Alto e o Baixo Egito, mas é evidente, também, que ele só alcançou sucesso porque havia uma demanda por isso. O Estado centralizado tornava-se necessário no Egito porque, sozinhas, as pessoas não conseguiriam vencer as enormes dificuldades impostas pela Natureza. Era preciso abrir canais de irrigação, construir silos, definir canais fluviais de transporte, montar barcos e portos para recebê-los. Quer dizer: o esforço conjunto fazia-se indispensável. E, se o esforço conjunto é indispensável, indispensável também é a figura de um líder que aponte o caminho a seguir. Esse líder foi o faraó. Menés, o primeiro de todos.

O governo centralizado e forte era tão importante no Egito que o faraó foi promovido de rei a deus. Essas coisas não acontecem por acaso. As instituições só funcionam quando as pessoas precisam delas. Pense em tudo que é convenção na sociedade, tudo que é subjetivo e que depende visceralmente de justificativa moral para existir: o casamento, a monogamia, a ética do trabalho, a etiqueta, as maneiras de se vestir etc. Tudo isso, que em última análise é limitador da vontade humana, tudo isso só existe por necessidade da sociedade. Assim a divinização do faraó. O Egito não existiria sem um poder central forte. Esse sentimento tornou-se tão arraigado no espírito do povo que varou os séculos. Sobreviveu até à própria independência do país. No século 19, Napoleão escreveu do seu exílio em Santa Helena:

“Quando Alexandre atravessou o deserto até o oásis de Amon, em 14 dias de marcha, e quando ali se proclamou filho de Zeus-Amon, agiu com profundo conhecimento da mentalidade daquele povo (…) E, desta forma, contribuiu para consolidar a conquista mais do que se tivesse construído 20 fortalezas e chamado cem mil macedônios (…) O que admiro em Alexandre não são tanto as suas campanhas, mas os seus métodos políticos (…) Foi um ato solenemente político sua ida ao Templo de Amon, pois deste modo ele conquistou o Egito. Se eu tivesse ficado no Oriente, provavelmente teria fundado um império como o de Alexandre, dirigindo-me em peregrinação a Meca”.

Napoleão, um gênio político-militar, admirava Alexandre, outro gênio político-militar, por sua sagacidade. E a prova dessa sagacidade, no entender de Napoleão, foi a percepção de Alexandre do quanto o povo egípcio tinha entranhada na alma a convicção de que seu governante era divino.

Menés, portanto, fundou a tradição dos reis-deuses do Egito e a Primeira Dinastia. Nessa Primeira Dinastia houve inclusive um faraó chamado Aha, mas não acredito que tenha sido ele o inspirador de uma banda de rock norueguesa que se formou cinco mil anos depois. Foi só na Terceira Dinastia que o faraó Djoser, ou Geser, ordenou a construção da famosa Pirâmide de Sakkara, a precursora das pirâmides que simbolizam o país.

Trata-se de uma pirâmide em degraus. A base retangular, e não quadrada como a das pirâmides clássicas, é maior do que a segunda camada. A segunda camada é maior do que a terceira, e assim por diante, até a sexta. A Pirâmide de Sakkara foi obra de Imhotep, o primeiro grande arquiteto da Humanidade. Imhotep era médico, arquiteto, administrador e primeiro ministro. Uma espécie de Leonardo da Antiguidade.

A pirâmide de Imhotep, ou do faraó Djoser, foi o ponto de partida para que se chegasse à simplicidade irretocável da pirâmide clássica. Em seguida, na Quarta Dinastia, o faraó Snefru avançou três passos rumo à perfeição, cada passo uma pirâmide. Snefru tornou-se conhecido pela posteridade como “O Construtor de Pirâmides”. Não por acaso. Ergueu uma, não gostou: era uma pirâmide em degraus, como a de Sakkara. Mandou erguer outra, não gostou: foi uma denominada “romboidal”, que é quase a forma da pirâmide clássica, mas com a base quadrangular. Por fim, ergueu a terceira, a chamada Pirâmide Vermelha, muito parecida com as pirâmides que o mundo conhece. Dessa o homem gostou. Os arquitetos egípcios estavam chegando lá.

As pirâmides que simbolizam o Antigo Egito foram construídas ainda na Quarta Dinastia pelos três famosíssimos faraós que bem poderiam formar um trio de meio-campo: Quéops, Quéfren e Miquerinos.

O pai de todos foi Quéops, que, embora fosse pai de todos, era filho de Snefru. Foi ele o construtor da Grande Pirâmide, a única das Sete Maravilhas do Mundo Antigo que ainda está de pé. A estupidez e a concupiscência humanas, porém, por pouco não a puseram abaixo (quando se juntam, a estupidez e a concupiscência são quase invencíveis). No século 9, o califa Abdullah El Mamun, que governou o país por 50 anos, queria desmontar a Grande Pirâmide a fim de se apoderar dos tesouros que, supunha ele, estavam escondidos entre suas paredes. Só desistiu do projeto porque seus engenheiros disseram que o trabalho sairia mais caro do que a soma de todos os impostos arrecadados pelo Egito durante anos. Contentou-se em abrir uma passagem na parede norte, ainda utilizada por quem visita o monumento.

Muitos se impressionam ao saber que a Pirâmide de Quéops é o monumento mais pesado do mundo. Não sei por que tanto espanto. Afinal, quem é que vai querer levantar a Pirâmide de Quéops? Mais impressionante é a precisão geométrica com que foi construída. Sua base é um quadrado praticamente perfeito, com lados de 230 metros, variando menos de 20 centímetros de um para outro. As paredes laterais se inclinam num ângulo de 41º até se encontrarem a 157 metros do chão. Os gigantescos blocos de calcário foram cortados com tanta destreza que, depois de encaixados, era impossível enfiar uma faca entre eles. Como conseguiram essa proeza 25 séculos antes de Cristo?

Quéops é o nome que os gregos deram ao faraó. Em egípcio diz-se Khufu. Era um rei misterioso, pouco se sabe a seu respeito, não existe nem sequer a certeza de que tenha sido sepultado na Grande Pirâmide. Não restou nenhum retrato dele, nenhuma estátua, exceto uma estatueta de marfim de 12 centímetros de altura, que está exposta no Museu Egípcio do Cairo.

Segundo Heródoto, Quéops foi um rei cruel e tirânico. Obcecado pela sua pirâmide monumental, exauriu os cofres do país na construção. Mas você sabe como é obra: sempre sai mais do que o previsto. Se o arquiteto diz que vai custar 60, pode se preparar para gastar 120. Neste caso, normalmente as pessoas apelam para empréstimos bancários. Como naquele tempo não havia bancos, quando o dinheiro acabou Quéops lançou mão de um recurso pouco ortodoxo: mandou a própria filha para um lupanar. O que ela arrecadasse alugando o corpo macio e sinuoso seria revertido para a construção. O homem queria MESMO terminar aquela pirâmide.

A princesa obedeceu às ordens de papai, com uma condição: além do pagamento por seus serviços, cada amante teria de lhe trazer uma pedra. Com essas pedras, ela levantou a pirâmide que está plantada em frente à do pai-cafetão. Se você for um dia a Gizé, poste-se entre as duas pirâmides e pense em como foram erguidas. Em seguida, jogue suas mãos para o céu e faça uma saudação a essa admirável mulher da Antiguidade, pois ela certamente foi uma filha obediente, uma princesa formosa e uma competente profissional do prazer.

Depois de meio século de desmandos, Quéops virou múmia e foi sucedido por seu irmão, Dedefre, um faraó obscuro, que mal teve seu nome registrado pela História. O rei seguinte foi o filho de Quéops, Khafre (Quéfren, para os gregos), que governou por 56 anos e construiu a segunda maior pirâmide e a Esfinge. Quéfren foi tão despótico quanto o pai. Os egípcios detestavam tanto esses dois faraós que chamavam seus túmulos de “As Pirâmides de Filítis”, um pastor que costumava passar com seus rebanhos pelo local – uma pequena vingança do povo oprimido, mostrando que desde os séculos mais remotos só restam aos povos oprimidos pequenas vinganças.

Miquerinos, filho de Quéfren e neto de Quéops, não puxou ao pai ou ao avô. Foi um bom faraó, que ajudava o povo até com seus recursos pessoais. Como não queria gastar muito do tesouro público, mandou erigir um túmulo mais modesto do que os dos seus antepassados. Sua pirâmide eleva-se à metade da altura da de Quéops.

Heródoto conta uma história curiosa sobre Miquerinos: um dia, um oráculo profetizou que ele só teria mais seis anos de vida. O faraó ficou muito triste, mas resolveu reagir. Ordenou que fossem construídas inúmeras candeias. Assim, quando a noite chegava, ele mandava acendê-las em todo o palácio. Então, bebia e comia à grande, amava belas mulheres, divertia-se com os amigos. Fazia de tudo para confundir o oráculo e transformar seis anos em doze. Não funcionou, Miquerinos morreu mesmo. Mas pelo menos aproveitou bem o tempo que lhe restava. Os monumentos que imortalizaram os faraós e seu tempo, portanto, estavam concluídos, mas a aventura dos antigos egípcios continuaria, repleta de lances espetaculares, por ainda outros 2.500 anos.

Os quais vamos ver nos próximos capítulos.

A História do Mundo - Capítulo 19

15 de julho de 2011 7

Olhe para você.

Veja no que você se transformou.

Você passa a noite ressonando em cima de um colchão macio como as canelas da Fernanda Lima e debaixo de cobertores quentes como o olhar da Megan Fox. Seu quarto provavelmente é climatizado. Você não saberia mais viver sem Split e controle remoto. Seu travesseiro é perfeito para a curva do seu pescoço, você tem dificuldades de dormir quando está sem ele. Ao levantar-se, você calça suas confortáveis chinelas de feltro, desliza para o banheiro da sua suíte, escova os dentes com um creme sabor tutti frutti e faz gargarejos com um antisséptico bucal sabor menta. Você senta à mesa do café da manhã e à sua frente já está deitada no pires de porcelana uma fatia de mamão-papaia limpa de sementes. Ao lado, aguardam um copo de suco de laranja, uma xícara de café fumegante e uma fatia de pão preparado com sete grãos, suavemente besuntada com geleia de amoras.

Assim você começa o seu dia. Depois, você sai por aí dentro de suas calças jeans e sua camisa polo, entra no seu carro com direção hidráulica e atende ao celular. Ao desligar, pensa nos seus compromissos e suspira:

- Que dureza, que dia a dia corrido, o meu. Essa vida é mesmo uma selva!

Uma selva?! Vida dura?! Você é um efeminado, isso sim! Você perdeu o contato com o cerne da vida! Com o barro da existência. Você é o produto acabado, aliás mal-acabado, dessa distorção da ordem natural das coisas que se chama Civilização. Porque as coisas não tinham de ser assim. Não eram assim. Na maior parte do tempo da existência do homem na Terra, tudo era visceral, tudo era simples. Você não sentiria falta de seu travesseiro fofo, porque estaria acostumado a apoiar a cabeça numa pedra dura. Você também não sentiria falta do celular, porque, juro por Deus, houve um tempo em que as pessoas conseguiam viver sem celular.Você seria um nômade. Não teria casa, não plantaria, nem colheria. Não moraria em nenhum país, estado ou cidade porque não existiriam países, estados e cidades. Não existiriam leis. A propriedade estaria limitada a alguns poucos bens que você pudesse carregar. Você poderia pegar o que quisesse da natureza, sem ter de pedir permissão a quem quer que fosse, porque nada seria de ninguém e ninguém seria de ninguém.

Haveria algumas desvantagens, é claro: você provavelmente morreria jovem, já que a medicina não seria muito desenvolvida, não existiria penicilina, nem planos de saúde, nem check-up, nem, oh, Cristo!, Engov. Em compensação, você poderia fazer sexo com quem bem entendesse, quando bem entendesse e onde bem entendesse, você não trabalharia, não teria chefe nem horário para acordar ou dormir, você não ficaria preso em engarrafamentos e não teria de vestir terno e gravata nos casamentos porque, e isso é especial, NÃO HAVERIA CASAMENTO!

Já pensou? Não haveria casamento, nem noivado, nem namoro, nada disso, por que ninguém entenderia o conceito de, cruz credo, monogamia.  As pessoas viveriam em regime de regime algum, em liberdade total, sem família, sem posses, sem leis. Os filhos seriam de todo o clã, bem como a comida e os poucos utensílios. Pense em todas as coisas dispensáveis da vida, como a política e a economia. Nada disso existiria. A vida seria só viver, como deve ser.

Foi assim um dia, por muitos dias.

Por que mudou?

O que fez de você o que você é hoje?

Aí está: foi um movimento, um único movimento em direção ao conforto. Alguém resolveu parar. Cansou de deslocar-se de um lugar para outro, encontrou um terreno perto de um rio, com clima ameno e algum bosque nas imediações. Ali ele não precisava nem plantar. Só precisava colher algumas frutas e raízes e cuidar de seus animais. Mas, para ficar ali, ele precisaria levantar uma casa. No começo, certamente apenas um teto. Mas essa foi a diferença. No momento em que o engenho humano foi empregado para construir o conforto inaugural, no momento em que o homem pela primeira vez modificou a natureza em seu benefício, foi como uma faísca iniciando um incêndio. Porque, depois do teto, o homem deduziu que poderia erguer paredes para proteger-se do vento. Em seguida, compreendeu que, se abrisse janelas nas paredes, teria um ambiente arejado e iluminado. Para construí-las, precisaria de ferramentas. E tudo começou. Uma facilidade levou a outra necessidade, que levou a uma invenção, que fez o homem compreender que poderia inventar mais para criar outras facilidades que satisfariam outras necessidades. Assim por diante. E agora você bebe refrigerantes diet e aquece o quiche no forno de micro-ondas, você se irrita porque sua TV não tem HD e porque seu celular não tem 3G. Você se amolentou nas amenidades da Civilização.

Mas a Civilização só ergueu amenidades em torno do homem porque, antes, em torno do homem havia dificuldades. A Civilização surgiu onde a vida era precária, mas nem tanto. Não por acaso, brotou às margens de alguns rios. Não quaisquer rios, mas rios com uma geografia particular.

Por que a Civilização não surgiu ao longo do caudaloso Amazonas? Ou do bucólico Reno? Por que surgiu entre o Tigre e o Eufrates e ao comprido do Nilo?

Resposta: porque ao longo do caudaloso Amazonas e do bucólico Reno a Civilização era dispensável. Os homens tinham caça e coleta em abundância por espaços aparentemente infinitos. É do que precisam os nômades.

Peguemos um exemplo de nômades clássicos: os índios brasileiros. A forma de vida deles é bastante simples. Um grupo de índios se estabelece em um local em que haja água e caça em abundância. Ali eles pescam, caçam e colhem. Não erguem edifícios, não rasgam estradas, não plantam, nem aram a terra. Apenas tiram da Natureza o que a Natureza proporciona. Se você é ecologicamente correto, deve estar suspirando de nostalgia e ouvindo os passarinhos cantando, só de pensar nos primeiros donos da Terra Brasilis. Ilusão sua. Os índios não eram nada ecológicos. Durante sua estada no local, exauriam todos os recursos sem dó nem pejo. Depois que o lugar estava infestado de lixo e quase sem animais para caçar, eles se mudavam com suas tangas e tacapes para devastar outro terreno. Por maldade? Por má intenção? Não. Porque simplesmente era assim. Toda essa história de consciência ecológica é algo muito recente, que, como tudo na vida, surgiu de novas necessidades humanas.

Necessidades.

Nas margens do Nilo e entre o Tigre e o Eufrates havia mais necessidades e menos fartura. Não havia tanto espaço, nem Natureza tão exuberante. A área tornada fértil pelas cheias do Nilo se estendia, em média, por 15 quilômetros. A leste e a oeste espalhavam-se, ameaçadoras, as areias do deserto. Na região do Tigre e do Eufrates, mais ou menos a mesma situação: uma faixa de vida rodeada pela aridez, pelo calor sufocante e pelos animais peçonhentos.

A vida nômade, portanto, era quase inviável. A região não era dotada de recursos suficientes para esse confortável meio de sobrevivência. Os povos que ali se estabeleceram compreenderam que não poderiam ficar se mudando a todo momento. Não poderiam mais ser nômades.

A Civilização era necessária.

A História do Mundo - Capítulo 18

31 de maio de 2011 24

A TERRÍVEL ORDEM DE DEUS

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que aquele deus não era exatamente o deus dos cristãos. Aquele deus, o “Inefável”, era definido pelas consoantes hebraicas YHVH. Um deus tão temido que Seu nome não poderia ser pronunciado. Mesmo assim, pronunciaram. Provido de consoantes, YHVH tornou-se Javeh, aportuguesado para Javé e suavizado para Jeová. Um ex-centromédio do Grêmio que protegia muito bem a zaga, Jeovânio, prestava, com seu nome, homenagem a Jeová.
Jeová, como você já sabe de sobejo, era o deus do Velho Testamento, denominação que só existe para os cristãos. Para os judeus, chamar o Velho Testamento de Velho Testamento seria admitir que existe um Novo Testamento. Para eles não existe. Para eles, a Bíblia é formada apenas pelos 46 livros que, na essência, ficaram prontos 200 anos antes de Jesus nascer. Para os cristãos são entre 70 e 73 livros, dependendo da vertente.

Na Bíblia hebraica, o Tanah, o deus é muito diferente daquele descrito por Jesus. Ele é um deus ciumento, colérico e belicoso. O Deus dos Exércitos. Um Deus que escolheu um povo em detrimento dos outros, escolha que, não raro, converteu-se em um fardo para esse povo. Porque Jeová era dado a impingir punições duras, como as que desabaram sobre Sodoma e Gomorra, além de vinganças e provações. A mais cruel de todas, certamente, aquela imposta a Abraão: o filicídio.
A mulher de Abraão, Sara, era estéril. Para não deixar o marido sem descendência, ela foi sensata como deveria ser toda mulher: escolheu, com seus próprios olhos, uma escrava para que se refestelasse com Abraão e, por consequência, reproduzisse. Deu certo. Reproduziram. Foi gerado um menino a quem Abraão deu o nome de Ismael, “Deus ouviu” em hebraico, porque Deus ouvira suas preces e lhe dera um filho.

Porém, quando Sara já tinha 90 anos, e Abraão 100, um anjo apareceu e anunciou que ela ficaria grávida. Ela deu risada. Ficou grávida. Teve o filho, e Abraão chamou-o de Isaac, que significa “ele riu”. No caso, ela riu.

Por essa altura, Ismael tinha 13 anos de idade. Sara, temendo que o menino mais velho se tornasse o principal herdeiro da família, convenceu Abraão a mandá-lo embora, junto com a mãe. Sara deve ter incomodado muito Abraão, você sabe como as mulheres incomodam quando querem uma coisa. Não suportando mais a insistência da mulher, ele expulsou a escrava e o menino para o deserto em condições precárias, munidos com nada mais do que um odre d’água e um pouco de pão. Fosse por Abraão, eles morreriam de sede, mas Jeová providenciou uma fonte d’água, os dois se salvaram e Ismael transformou-se no patriarca de todos os povos árabes, que hoje, ameaçadores, cercam os seus meio-irmãos hebreus por todos os lados.

A ciência, se não chega a confirmar essa história, fornece-lhe um aval. Agora, no século 21, uma pesquisa realizada em conjunto por cientistas de cinco países, entre eles Estados Unidos e Israel, mostrou que palestinos, sírios, libaneses e judeus têm forte parentesco genético entre si. O estudo comparou o DNA de 1.300 homens árabes e judeus de 30 países. Os exames mostraram esses povos possuem um ancestral comum, possivelmente os semitas ocidentais, que teriam habitado o Oriente Médio há pelo menos 4 mil anos. Esse ancestral bem pode ter se chamado Abraão, um nome comum na época.

Mas, voltando ao drama do patriarca: Abraão ficou tão-somente com Isaac como filho. E foi esse filho que Jeová exigiu em sacrifício. Falou, com sua voz de Cid Moreira:

“Abraão! Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicarei!”

Abraão obedeceu sem discutir. No dia seguinte, tomou um jumento, dois servos e o filho e foi para o local indicado. Depois de três dias, encontrou o lugar. Amarrou o filho a uma pedra, como se fosse um cordeiro. Empunhou uma faca de bom corte. Ergueu a mão. Estava prestes a degolar o menino, quando Jeová gritou lá de cima com alguma aflição na voz de tenor:

“Abraão! Abraão! Não estendas tua mão contra o menino e não lhe faças nada! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu único filho!”

Era um teste!

Agora pense no que representa essa história. Eu, se fosse Abraão, recusaria com veemência o pedido do Senhor. Diria:

“Que tipo de divindade é você, que pede o assassinato de uma criança?”

E se Ele insistisse, eu repetiria:

“Não! Pode arranjar outro patriarca!”

Mas, se eu fosse adiante, amarrasse o menino e só tivesse minha mão assassina detida no último instante, aí sim me enfureceria. Xingaria-O:

“O Senhor não sabe de tudo? Não é onisciente, onipotente e onipresente? Não vê tudo, inclusive dentro dos corações dos homens? Então, que espécie de cilada é essa? Foi só para me torturar? Foi só por sacanagem? Pode arranjar outro patriarca!”

Eu não seria um bom protagonista para essa história, portanto. Porque o autor da história, o que ele pretendia com ela era exaltar a fé de Abraão, para que essa fé servisse de exemplo e guia a todo um povo, como serviu.

A fé, era isso que o autor queria propalar. A fé, que é base de todas as religiões. A fé, que, Mencken já definiu, é a crença ilógica na ocorrência do improvável. Foi essa fé que manteve unido o povo hebreu por quase 40 séculos. A fé, que existe dentro de cada homem, nada mais é do que a necessidade de acreditar em algo além do homem, em uma razão excelsa para existir. O autor da Bíblia precisava instilar uma fé inamovível, extrema, inabalável, completa, caso contrário não conseguiria manter unido o seu povo. E, o mais importante, não conseguiria dar seguimento ao projeto da Civilização.

Isso é fundamental. Isso é decisivo. A Civilização é antinatural. A Civilização é uma violência. Tudo, no homem, chama o homem para a vida que ele levava antes da Civilização. O homem quer comer e beber o que bem entender, quando bem entender, da forma que bem entender; o homem quer tomar para si o que deseja; e, sobretudo, o homem quer fazer sexo sem restrições. Mas ele não pode! Por que não pode? Porque a Civilização impede. Mas a Civilização não existiu desde sempre na história do mundo. A Civilização é uma novidade de 12 mil anos. Como a Civilização conseguiu reprimir esses desejos humanos?

Para que a Civilização vencesse, como venceu, seria preciso um apelo muito poderoso, algo sublime, intangível, maior do que a própria natureza:

Deus.

A Lei, hoje, é um acordo entre os homens de uma comunidade. Se você desrespeita a Lei, sofre a repressão dos homens. Logo, você a respeita por medo da repressão. Mas, se você tem a certeza de que não será alcançado pela repressão, o que o impede de tomar à força uma mulher que deseja e possuí-la? O que o impede de ocupar aquela casa que você cobiça? Você diria que isso não é certo. Por que não é certo? Quem disse que não é? Além disso, o certo e o errado são subjetivos. O que é certo aqui pode ser errado ali adiante. Retomo, pois, a pergunta: como a Civilização conseguiu coibir o egoísmo, a ganância e o desejo humano?

Graças a Deus.

Os patriarcas da Humanidade, os homens que fizeram as primeiras leis, precisavam de um respaldo inquestionável. Esse respaldo era Deus. Deus não gosta que os homens matem, roubem ou cobicem a mulher do próximo. Deus deu a Lei aos homens. Mas os homens só cumprirão a Lei se acreditarem em Deus. Se tiverem fé. Uma fé inquebrantável. Uma fé que não admite discussões. A ponto de um homem assassinar o próprio filho, seu único e amado filho, se Deus assim ordenar. Abraão, portanto, é um exemplo: ninguém poderia passar por maior provação do que ele. E ele manteve sua fé. Jamais duvidou. Jamais pensou em fazer ponderações diante de uma ordem do Todo-Poderoso. É o que a Civilização exige todos os dias do homem. O homem tem de renunciar aos seus instintos porque a Civilização determina. Eis o resumo do drama do homem sobre a Terra: o homem passa todos os dias da sua existência lutando contra si mesmo. De um lado, Deus e a Civilização. Do outro, a natureza humana. Que luta desigual. Que tragédia para a natureza humana.

A História do Mundo - Capítulo 17

30 de maio de 2011 6

SODOMA & GOMORRA. E AS FILHAS DE LOT

Os arqueólogos suspeitam que Sodoma, Gomorra e mais outras três cidades, Zoar, Admá e Zebolim, ficavam encravadas em um lugar aprazível chamado Vale dos Campos, que hoje dorme sob as águas densas do Mar Morto. Se for verdade, as cidades logo brotarão do fundo do mar, que na verdade não é um mar, é um lago. É que o Mar Morto já perdeu um terço da sua área, devido ao uso que Israel e Jordânia fazem das águas do seu principal afluente, o Rio Jordão.

Há 3.800 anos, Sodoma e Gomorra faziam e aconteciam na superfície. Segundo a Bíblia, o pecado dos habitantes das cidades era “muito grande”. O que faziam? Presumivelmente, os sodomitas sodomizavam-se e os gomorritas gomorrizavam-se, o que deve ser horrível. Deus, então, teria falado com Abraão a respeito e anunciado suas intenções de destruir as cidades pecadoras com fogo e enxofre, o que é mais horrível ainda. Abraão decidiu interceder pelos sodomitas e gomorritas. Seguiu-se, então, uma espetacular negociação entre Abraão e o Senhor. Abraão argumentou, apelando para os bons sentimentos do Todo-Poderoso:

“Fareis o justo perecer com o ímpio? Talvez haja 50 justos na cidade: fá-los-eis perecer? Não perdoaríeis antes a cidade em atenção aos 50 justos que nela se poderiam encontrar? Não, Vós não poderíeis agir assim, matando o justo com o ímpio, e tratando o justo como o ímpio! Longe de Vós tal pensamento. Não exerceria o Juiz de toda a Terra a justiça?”

Ouvindo aquilo, o Senhor ponderou sobre os argumentos de Abraão e cedeu:

“Se eu encontrar em Sodoma 50 justos, perdoarei toda a cidade em atenção a eles”.

Um a zero para Abraão. Mas ele devia suspeitar que a probabilidade de encontrar 50 justos em Sodoma era pequena, porque, ardiloso, prosseguiu:

“Não leveis a mal se ainda ouso falar ao meu Senhor, embora seja eu pó e cinza. Se por ventura faltar cinco aos 50 justos, fareis perecer toda a cidade por causa desses cinco?”

E o Senhor:

“Não a destruirei se nela encontrar 45 justos!”

Abraão não se deu por satisfeito. Continuou:

“”Mas talvez só haja aí 40…”

“Não destruirei a cidade por causa desses 40″, respondeu o Senhor.

E Abraão, cheio de humilde malandragem:

“Rogo-Vos, Senhor, que não Vos irriteis se eu insisto ainda… Talvez só se encontrem 30…”

O Senhor, do alto de Sua proverbial paciência, respondeu:

“Se eu encontrar 30, não o farei!”

Mas Abraão, testando ainda mais os limites do Todo-Poderoso, foi em frente:

“Desculpai, se ouso ainda falar ao meu Senhor: pode ser que só se encontrem 20…”

E o Senhor, decerto depois de um suspiro celestial:

“Em atenção aos 20, não a destruirei!”

Abraão, arrojado, seguiu com seu plano:

“Que o Senhor não se irrite se falo ainda uma última vez! Que será, se lá forem achados dez?”

E Deus, provando que tem uma tolerância bem maior do que a minha, por exemplo, concordou:

“Não a destruirei por casa desses dez!”

E se retirou, antes que Abraão voltasse a incomodar.

Você pode tirar muitas interpretações do diálogo. Eu, aqui, vejo a vocação para a negociação que têm os povos árabes e judeus, dos quais Abraão é o pai.

De qualquer forma, Deus investigou e não encontrou justo algum em Sodoma e Gomorra.

As cidades seriam destruídas.

Para isso, Ele enviou dois anjos a Sodoma. Os anjos bateram à porta de Lot, o sobrinho de Abraão, que os recebeu muito bem, ofereceu-lhes um banquete, camas confortáveis e tudo o mais que a gente deve proporcionar a anjos quando eles aparecem na nossa casa, sobretudo se são anjos brabos, como aqueles. Depois de comer e beber, os anjos estavam prestes a se recolher. Precisavam descansar. Afinal, teriam muito o que fazer no dia seguinte. Destruir cidades inteiras a fogo e enxofre é trabalho duro.

Bem. Eles ainda não haviam se deitado, quando todos na casa se sobressaltaram com fortes batidas na porta. Eram os sodomitas, que gritavam:

– Lot! Onde estão os homens que entraram essa noite em tua casa? Conduze-os a nós para que os conheçamos…

Você sabe qual é a acepção do verbo “conhecer” na Bíblia. Quer dizer: os sodomitas queriam sodomizar os anjos. Lot se apavorou. Foi até o limiar da porta, fechou-a atrás de si e pediu que eles não fizessem aquilo.

– Tenho duas filhas que ainda são virgens – disse Lot. Eu vo-las trarei, e fazei delas o que quiserdes. Mas não façais nada a esses homens, porque se acolheram à sombra do meu teto.

Lot ofereceu as próprias filhas aos sodomitas!

Mas os sodomitas não aceitaram a proposta. Queriam porque queriam os anjos. O que nos força a uma dedução a respeito das filhas de Lot. Mantidas virgens em plena Sodoma e recusadas pelos sodomitas, que, a elas, preferiram dois homens, embora fossem belos como anjos, bom, isso só pode significar que as filhas de Lot eram no mínimo feinhas.

Assim, os habitantes de Sodoma pedalaram a porta da casa de Lot e estavam prestes a fazer sexo com os anjos, o que deve ser um pecado grave. Só que os anjos têm seus recursos e artimanhas. Antes que os sodomitas pusessem as mãos ávidas neles, o Senhor intercedeu e cegou-os a todos de um golpe.

Ao amanhecer, portanto, as cidades seriam destruídas inapelavelmente. Os anjos mandaram que Lot, sua mulher e as filhas fugissem para a montanha, não se detivessem em parte alguma e não olhassem para trás. Ao que, Lot argumentou:

“Oh, não, Senhor! Já que vosso servo encontrou graça diante de vós, e usaste comigo de grande bondade, conservando-me a vida, vede: eu não posso salvar-me na montanha, porque o flagelo me atingiria antes e eu morreria. Eis uma cidade bem perto onde posso abrigar-me. É uma cidade pequena e eu poderei refugiar-me nela. Permiti que eu o faça, e terei a vida salva”.

E o Senhor, compreensivo, retrucou:

“Concedo-te ainda esta graça. Não destruirei a cidade a favor da qual me pedes. Apressa-te e refugia-te, porque nada posso fazer antes que lá tenhas chegado”.

A cidade recebeu o nome de Segor, que significa “pequena”.

E aí esbarramos em outra história ilustrativa da Bíblia: Lot não quis ir para as montanhas, antes pediu para se mudar para uma cidade, ainda que pequena. Ou seja: rejeitava o nomadismo por completo. No velho estilo de vida, não sobreviveria. Precisava, desesperadamente, de uma cidade, qualquer que fosse, mas uma cidade.

No caminho para Segor, em meio ao deserto, ocorreu aquele incidente famoso: a mulher de Lot, cujo nome a Bíblia não cita, não resistiu à curiosidade e olhou para trás, desobedecendo o Senhor. Como o Senhor não admite desobediência, transformou-a em uma estátua de sal. Os cientistas acreditam que Sodoma e Gomorra tenham sido vitimadas pela erupção de um vulcão. O Mar Morto situa-se a 400 metros abaixo do nível do mar, o mais baixo local habitado em todo o planeta. Numa de suas margens, eleva-se um paredão de sal e calcário, com formas estranhas, algumas delas parecendo humanas. Uma dessas é apontada pelos moradores do lugar como a estátua da mulher de Lot.

Como nada na Bíblia está lá por acaso, eu aqui interpreto essa lenda como uma reprimenda à irresistível curiosidade que é característica do gênero feminino. Cuidado, garotas: certas descobertas podem transformá-las em estátuas de sal.

Enfim.

Curiosamente, na continuação desse capítulo do Gênesis, Lot sai de Segor por temer algum perigo não explicitado pelo autor, e vai se refugiar em uma caverna na montanha. Aí, no escuro da caverna, dá-se um incidente extraordinário que é tratado com inexplicável naturalidade pela Bíblia. Como não havia homem pelas imediações, as filhas de Lot traçaram um plano: embriagaram o pai e, de acordo com o autor, “dormiram” com ele, primeiro a mais velha, depois a mais nova, uma noite depois da outra. Cada uma gerou um filho: Moab, o pai dos moabitas, e Bem-Ami, pai dos amonitas. Um terrível caso de incesto, mas nem a Bíblia nem o Senhor tecem considerações a respeito.

E nós, o que entendemos que o autor quis dizer com essa história? Óbvio: que as mulheres fazem qualquer coisa para ter um filho. Mas existe outra conclusão subjacente. Note: Lot não queria ir para as montanhas, queria ir para a cidade. Sua opção foi pela Civilização. Quando teve que fugir da Civilização e se refugiar na caverna, o que aconteceu? Ele e sua família voltaram aos tempos selvagens do nomadismo. Um tempo em que até o incesto era praticado e aceito.

As aventuras dos patriarcas continuam palpitantes pelas páginas do Gênesis, repletas de mensagens para o gênero humano, até que ocorre um dos incidentes mais espantosos da Bíblia: Deus manda Abraão matar o próprio filho.

A História do Mundo - Capítulo 16

29 de maio de 2011 2

SEXO E SANGUE, SEXO E SANGUE

Sexo e sangue.

As pessoas gostam de histórias com sexo e sangue.

Sexo e sangue sobejam na que contarei a seguir.

Está tudo na Bíblia. Há quem diga que isso pode desacreditar a história. Claro que não. Historicamente, a Bíblia deve ser encarada como a leitura dos hieróglifos pintados nas paredes dos túmulos egípcios ou como as inscrições nas estelas macedônicas: ali há muito de lenda, mas também há muito de verdade. Até porque a lenda conta algo a respeito de quem a concebeu. O que o autor pretendia ao contar aquilo como um acontecimento real? Que reação esperava do seu público? A natureza da mentira diz muito a respeito do mentiroso. O enredo do romance revela muito da alma do romancista.

A Bíblia relata a história do povo judeu. Começa com o Gênesis, o engenhoso mito da criação do mundo e do primeiro casal humano, segue pelo dilúvio, que, você já sabe, provavelmente foi uma grande enchente do Rio Eufrates. Tudo aquilo de que já falamos. O Gênesis é um livro genial, um texto poderoso repleto de significados enviesados, de mensagens recônditas, de interpretações psicológicas, antropológicas e filosóficas. Por exemplo: o Gênesis deixa bem posto, no capítulo do assassínio de Abel por Caim, que a Civilização é a desgraça do homem. O ideal de Deus e da Natureza seria a vida nômade e sem regras de Adão e Eva, que viviam pelados, pintados de verde, num eterno domingo.

Mas o homem desistiu daquela vida de liberdade e optou pelas amarras da Civilização. Deus não aprovou. A prova está em outro trecho do Gênesis pulsante de significados. É um capítulo intitulado “Corrupção da humanidade”:

“Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a Terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram esposas entre elas. O Senhor então disse: ‘Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será só de 120 anos’. Naquele tempo, viviam gigantes na Terra, como também daí por diante, quando os filhos de Deus se uniam às filhas dos homens e elas geravam filhos. Estes são os heróis, tão afamados nos tempos antigos”.

Era a Bíblia introduzindo no espírito humano a noção de que sexo é pecado. Em resumo, com a Civilização o sexo tornou-se pecado. Porque o cimento da Civilização é a PROPRIEDADE, que é transmitida por HERANÇA, que é garantida pela FAMÍLIA, que só se mantém se existe a FIDELIDADE CONJUGAL. Tome esses quatro termos que escrevi em maiúsculas, some-os e você compreenderá o que é a Civilização.

O sexo livre, portanto, tornava-se pecado. Tratava-se de uma ideia nova no mundo. Durante milênios, homens e mulheres fizeram sexo sem culpa. Agora, os hebreus condenavam as ânsias da carne. Quando isso se deu? A tradição bíblica afirma que o redator do Pentateuco foi Moisés, o que situaria a obra em cerca de 1.200 anos antes de Cristo, mas sabe-se que os autores foram vários e mais recentes. É provável que esse pensamento só tenha se desenvolvido na época dos profetas, que eram uns tipos sisudos e moralistas. Isso joga a noção de pecado da carne lá para o século sétimo antes de Cristo.

Mas o que importa são as intenções dos autores da Bíblia. O que eles pretendiam passar ao leitor com toda essa conversa de os filhos de Deus cobiçando as filhas dos homens, o homem abandonado por Deus por ser ele, homem, todo carne. São parábolas. Histórias ilustrativas.

Agora, é evidente, também, que nem tudo na Bíblia é ficção. O primeiro personagem histórico do Pentateuco, o primeiro que a Ciência admite que possa ter existido, foi Abraão, o patriarca das três grandes religiões monoteístas, o Judaísmo, o Islamismo e o Cristianismo.

Abraão era da cidade de Ur, da Caldeia. Saiu de lá para tornar-se um seminômade. Vagava com sua família e seus animais pelo palco sempre agitado do Oriente Médio, vez em quando parava em uma cidade, comerciava e seguia em frente.

A vantagem dos nômades é que eles podem escapar rapidamente das intempéries. Uma enchente não leva tudo o que eles têm, porque eles nada têm. Ou quase nada. O que têm, carregam nos próprios braços ou nos lombos das mulas. Era o que faziam Abraão e os seus. Um dia, sobreveio uma seca e, por consequência, grande fome na região de Canaã. Abraão reuniu seu pequeno clã e partiu para o Egito. Antes de entrar no país, chamou sua mulher Sara, que então chamava-se Sarai, nome que acho muito mais gracioso, e disse-lhe:

“Escuta: sei que és uma mulher formosa. Quando os egípcios te virem, dirão: ‘É sua mulher’, e me matarão, conservando-te a ti em vida. Dize, pois, que és minha irmã, para que eu seja poupado por causa de ti, e me conservem a vida em atenção a ti”.

Abraão conhecia o mundo em que vivia. Chegando ao Egito, o faraó em pessoa encantou-se com Sarai e a incorporou ao seu harém. Com todo o respeito aos fiéis das três grandes religiões monoteístas, que são milhões, preciso comentar que Sarai devia ser uma mulher monumental, uma Megan Fox da pré-história. Porque, de acordo com a Bíblia, veja só o que aconteceu:

“Por causa dela, Abraão foi bem tratado pelo faraó, e recebeu ovelhas, bois, jumentos, servos e servas, jumentas e camelos”.

O faraó deve ter ficado muito contente com a mulher que lhe trouxe Abraão. Mas, nesse ponto, emerge uma imprecisão histórica da Bíblica: o camelo ainda não havia sido domesticado no tempo de Abraão. Isso só se deu cerca de 700 anos depois.

Em todo caso, o que nos interessa é que o faraó se repoltreou com Sarai. Do que o Senhor não gostou nem um pouco. Furioso, “feriu com grandes pragas o faraó e sua casa”. Ao que o faraó chamou Abraão e o recriminou:

– Por que me disseste que era tua irmã? Que me levaste a fazer?

Então, devolveu Sarai a Abraão e os mandou embora com tudo o que tinham.

O relato bíblico dá a impressão de que Abraão valeu-se da beleza de Sarai para amealhar patrimônio, mas isso também não é relevante. O relevante, aqui, é o fato de Abraão ter passado pelo Egito, demonstrando como os povos da região começavam a se interessar pelo grande país espreguiçado às margens do Nilo.

Abraão continuou a viver suas aventuras pelo Oriente Médio, na companhia de sua mulher Sarai e de seu sobrinho Lot. Em certo momento, Lot acomodou-se, com sua mulher e filhas, na cidade de Sodoma, vizinha de Gomorra.

Tenho certeza de que agora você se interessou mais pela história. Só porque leu esses nomes mágicos: Sodoma e Gomorra. De fato, essas duas cidades passaram para a posteridade como exemplos de pecado e de depravação. Sexo, as pessoas estão sempre pensando em sexo. Em homenagem à Sodoma e Gomorra, vamos então abrir um capítulo especial, intitulado… leia o título no próximo capítulo.

A História do Mundo - Capítulo 15

28 de maio de 2011 0

OS VAGABUNDOS DAS AREIAS

Quando o nômade Abraão pisava na areia do Oriente Próximo com suas sandálias de couro, por volta de 1850 a.C., o Egito já era velho de mais de dois mil anos e o Reino Médio já contava um século e meio de história.

Até então, o Egito havia se mantido infenso a qualquer influência estrangeira. Autossuficientes e sofisticados, os egípcios chamavam os povos asiáticos de “os vagabundos das areias”. Apesar de o país estar cercado pelas areias dos desertos, não era sobre elas que os egípcios viviam e sim sobre a terra fertilizada pelo Nilo, que chamavam de “Terra Preta”, a terra da vida. O deserto que se estendia, ameaçador, rumo ao infinito era chamado de “Terra Vermelha”, a terra da morte. Não por acaso, foi na Terra Vermelha que eles plantaram as pirâmides. Ou seja: os seus túmulos.

A geografia, portanto, ajudava os egípcios a se isolarem. Porque, para acessá-los, outros povos tinham de atravessar o deserto de um lado ou o mar de outro. Também a política os mantinha intocados. O Egito era um país, ao contrário da maioria dos Estados de então, que eram cidades-estado.

O auge desse estado centralizado e progressista deu-se no reinado do faraó Amenemhat III, entre 1860 e 1814 a.C. Esse faraó foi um grande construtor. Fez barragens e canais que facilitaram a vida dos agricultores. Levantou uma pirâmide famosa, a chamada Pirâmide Negra, mas, por algum motivo, não quis ser sepultado nela e a deixou para servir de túmulo às suas rainhas. Ergueu também um palácio magnífico, um prédio suntuoso com mais de três mil salas. Para você ter ideia do que significa isso, lembre-se que o Palácio de Versalhes tem “apenas” 700 quartos. Os Luíses da França não amarravam a sandália canhota dos faraós.

Porém, ah porém, depois do auge inevitavelmente vem a decadência. Os sucessores de Amenenhat III envolveram-se em disputas com os governadores da província, o estado se enfraqueceu e alguns estrangeiros passaram a se infiltrar na região do Delta. Era o começo da mudança. Duas raças semíticas, em especial, transformariam o Egito para sempre. Uma delas foi a dos descendentes de Abraão, a outra foi a dos misteriosos guerreiros hicsos.

Esses hicsos vieram da Palestina. Eram conhecidos como os “Reis Pastores”. Na verdade, não passavam de bárbaros. Nômades famintos e sujos, vestidos com peles, incultos e sanguinários. Como conseguiram derrotar uma civilização muito mais avançada? Por terem algo que os egípcios não tinham:

O cavalo.

Usando cavalos e carros de guerra, os hicsos saquearam cidades, violentaram mulheres, assassinaram homens, queimaram casas, derrubaram monumentos e se fartaram à grande. Mas não foram embora; estabeleceram-se. E então a roda da vida pôs-se a girar. Porque o homem, uma vez preso à terra, busca a comodidade. Ele quer um teto para morar, quer uma mulher que lhe dê filhos, ele quer a comida farta e a bebida capitosa, ele quer se divertir em paz. Ele se civiliza. Então, engorda e amolece. E é conquistado por outros bárbaros inquietos que vêm de fora.

No caso dos hicsos, não foram bárbaros estrangeiros que os derrotaram, mas os próprios egípcios, que incorporaram o cavalo e o carro de guerra aos seus exércitos e, depois de 200 anos, um nada para um egípcio, expulsaram os invasores e retomaram o controle do país.

Começaria aí uma nova era de prosperidade. Mas antes de falar nela é preciso contar algo sobre outro povo que havia se infiltrado no outrora hermético Egito: os hebreus de Abraão. Eles merecem um capítulo à parte. O próximo de A História do Mundo.

A História do Mundo - Capítulo 14

27 de maio de 2011 0

EM SE PLANTANDO…

Antes de Cabral chegar a Porto Seguro, um índio brasileiro não precisava de muito para viver bem.

Roupas?

Nenhuma. Fazia calor durante o dia e as noites eram amenas. Índios e índias viviam como haviam sido postos na terra: alegremente nus.

Precauções contra intempéries?

Desnecessário. No Brasil a terra não treme, a neve não cai e os furacões não sopram.

Produzir a própria comida?

Para quê? Como disse Pero Vaz de Caminha, a terra tudo dava. Bastava esticar o braço e arrancar o fruto da árvore, atirar a lança e espetar o peixe no rio cristalino, agachar-se e arrancar do solo a raiz da tuberosa.

A existência era fácil na América do Sul. Por que, então, alguém se daria ao trabalho de construir casas de pedra dura, abrir estradas largas e arar a terra? Por que alguém poria em movimento a roda da Civilização?

Os índios brasileiros não precisavam da Civilização.

A Civilização só existe se há necessidade dela. Quanto maiores as dificuldades, mais civilizado torna-se o homem. Pegue o Japão. O Japão nada mais é do que um conjunto de ilhas onde a terra não só é árida como sofre um terremoto por dia. Não é exagero: o Japão é um arquipélago com mais de seis mil ilhas, 426 destas habitadas. Todos os dias, uma dessas ilhas treme. Terremotos pequenos, para os quais os japoneses não dão a menor importância. Durante a Copa de 2002, experimentei um terremotinho no Japão. Mal dava para perceber, mas, para um ocidental, foi emocionante.

Os japoneses sabem que algum dia ocorrerá o Grande Terremoto Tokai. Esse terremoto com nome próprio acontece mais ou menos a cada bloco de 150 anos. Os cientistas japoneses dizem que o próximo até está atrasado. O Tokai se dará na província de Shizuoka, partirá o Monte Fuji ao meio e arrasará Tóquio. As autoridades acreditam que, se previrem o Grande Terremoto com 24 horas de antecedência, conseguirão evacuar a capital. Fazer a evacuação de 13 milhões de pessoas em um único dia parece improvável. Mas não para os japoneses. Organizados, metódicos, racionais e cumpridores da ordem, os japoneses alcançaram o ápice da Civilização. Em nenhum outro lugar do mundo as pessoas são tão educadas e respeitadoras.

Por quê?

Porque precisam.

Exatamente devido às dificuldades geográficas: à aridez da terra, aos terremotos, aos tsunamis, aos tufões. A vicissitudes do Japão fizeram-no o país mais civilizado do planeta.

Assim foi com o Egito.

O Egito se situa no nordeste da África, ao longo dos três mil quilômetros de comprimento do Nilo. Para os lados, as cheias do rio se estendiam por 15 quilômetros. Essa a área agriculturável. Mas, para plantar nesse terreno, o camponês devia canalizar o rio e puxar canais de irrigação, devia erguer um local seguro para esperar as cheias e estocar a colheita, devia construir poços e ferramentas. Tudo isso é complicado. Um homem sozinho, ou ele e sua família, não consegue dar conta de todo esse trabalho. É preciso tecnologia e colaboração de outras pessoas. É preciso organização. Desta forma, nasceu o Estado egípcio.

O Estado dava aos camponeses a tecnologia que lhes permitia plantar e colher. Os camponeses, em troca, pagavam impostos. No princípio, cerca de 4 mil anos a.C., o Estado era organizado em pequenas províncias chamadas de nomos. Eram 22 nomos espalhados do Alto ao Baixo Egito, uma organização muito parecida com as capitanias hereditárias brasileiras. Os coordenadores do Estado, que em geral eram os grandes proprietários, eram chamados de “nomarcas”. Seriam os governadores das províncias ou os pequenos reis da Idade Média europeia. Mas havia necessidade de unificação. Para dar mais implementos aos trabalhadores da terra e para defendê-los das invasões dos povos nômades. Por óbvias questões geográficas, dois arremedos de países foram fundados, o Alto e o Baixo Egito. Até que surgiu Menés, o unificador. Ele uniu os dois reinos e, como símbolo desta façanha, adornou a cabeça com uma coroa dupla, e pôs nas mãos dois cetros. Em seu tempo, cerca de 3.200 a.C., já havia 42 nomos. Começou aí o Reino Antigo do Egito, que durou mil anos. Nesses 10 séculos foram erguidas as pirâmides.

O Egito permaneceu bastante estável nesse período, graças a sua situação geográfica. De um lado havia o Mar Vermelho; do outro, o Deserto do Saara. O país manteve-se isolado da influência estrangeira e, por isso, pouco mudou. Um dos faraós dessa época, Pepi II, governou por 94 anos, de 2.738 a 2.644 a.C., o mais longo reinado da História. Depois dele houve alguma instabilidade. Faraós eram elevados ao trono e, em seguida, derrubados. Até que subiu ao poder Amenemhet I, que, com mão forte, restaurou a ordem, mudou a capital de Mênfis para Tebas e fez o país prosperar. Tratava-se de um sábio no comando dos homens. Prova-o um rolo de papiro em que estão inscritos os conselhos que ele deixou para seu filho e sucessor:

“Ouve com atenção o que te digo,

Para que venhas a ser rei da Terra,

Para que possas prosperar:

Endurece com todos os subordinados -

O povo só dá atenção a quem o aterroriza;

Não te aproximes de ninguém mal guardado,

Não te abras com um irmão,

Não reconheças um amigo,

Quando no sono, guarda para ti mesmo o teu coração,

Porque um homem não tem amigos no dia da desgraça.”

Agora repita essa frase até decorá-la:

“Um homem não tem amigos no dia da desgraça.”

Imprima-a na alma. É uma sabedoria de 40 séculos. Uma sabedoria eterna.

Vou deixar que você reflita um pouco sobre este ensinamento, vou fazer uma pausa. Porque o próximo capítulo será empolgante. Falaremos sobre o Reino Médio e voltarão à cena os sempre eloquentes heróis bíblicos.

Aguarde!