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Posts na categoria "A nova vida praiana"

A costela do Fernando Carvalho

13 de fevereiro de 2011 8

O Fernando Carvalho prepara uma costela campeã do mundo. Por Deus. Repare: não sou um entusiasta de costelas. A maioria dos meus amigos se revolta quando digo isso.

“Não espalha, David. É até vergonhoso…”.

Não me importo com o que possam pensar de mim. Podem duvidar da minha masculinidade, dizer que não sou gaúcho e talicoisa. A verdade é que prefiro a picanha, com suas fibras perfeitas e sua carne tenra. Só que a costela que o Fernando Carvalho prepara é diferente. Ele faz uma incisão num extremo da peça e retira a capa de gordura. Depois, deposita amorosamente a tira de carne no fogo e vai dourando-a com critério, sem pressa, como um time que está vencendo toca a bola para passar o tempo.

Essa costela campeã do mundo eu a provei num churrasco que o Fernando Carvalho me ofereceu em sua casa num dos condomínios aqui do litoral. Trata-se de uma bela casa, com uma bela churrasqueira. Mais: com DUAS belas churrasqueiras. Essa noite, o Fernando me recebeu na churrasqueira interna, de avental pendurado no pescoço e espeto na mão, como um espadachim. Sentei-me ao balcão de mármore e ele colocou na minha frente uma garrafa de cerveja uruguaia com o casco branco de tão gelada.

– Uuuh… – exclamei em saudação. Sempre faço uuuh quando vejo uma cerveja branca de tão gelada.

– Com esse churrasco, são dois – contabilizou ele.

São dois que estou lhe devendo. Um por cortesia de amigo; outro devido a uma aposta perdida. Uma noite, lembramos do campeonato de 75, quando o Inter foi heptacampeão. Disse-lhe que recordava pormenores do Gre-Nal decisivo. Descrevi: aos sete minutos do segundo tempo da prorrogação, o Valdomiro pegou a bola pela direita e atirou para frente, na sua jogada típica. Passou pelo Jorge Tabajara como se alguém tivesse aparafusado o Jorge Tabajara na grama. Foi-se para a linha de fundo. De lá, cruzou para trás. A bola, violenta, venenosa, bateu no pé do Ancheta e foi em direção ao gol. Chocou-se com o peito do Picasso e voltou para o meio da área, na marca do pênalti. Lá estava o Flávio Minuano, o Flávio Bicudo. Só que de costas para o gol. Mas ele fincou a chuteira esquerda na grama, girou o corpo e chutou com a direita. Gol. O gol do título. Terminado o jogo, o Tabajara quicou a bola na grama e balbuciou, sorrindo:

– Um a zero…

Foi o fim do Tabajara no Grêmio.

Pois disse que aquele Gre-Nal era o decisivo do campeonato. O Fernando disse que era o Gre-Nal decisivo do turno. Apostamos. Perdi.

No churrasco à beira da churrasqueira da casa dele na praia, voltamos a falar do Gre-Nal de 75. E lembramos que, além do Tabajara, houve outros jogadores para os quais o Gre-Nal foi o seu fim.

– O Breno – lembrei, enquanto me servia de mais cerveja.

O Breno levou um gol de falta do Valdomiro lá de longe, quase do meio do campo. Fazia uma cerração braba, o Breno não enxergou a bola direito, e o Inter ganhou. Foi o fim do Breno.

Antes de a costela ficar pronta, o Fernando serviu uma linguiça fininha, comprada aqui mesmo na Orla. Uma delícia.

– O Claudio Radar – citou ele.

O Radar foi vítima de uma jogada que o Inter tinha: Vacaria, Carpegiani e Lula triangulavam pela esquerda. O Radar ficou no meio deles a tarde inteira, gritando:

– Ajudem! Ajudem!

Ninguém ajudou. O Beto Fuscão estava cuidando do Escurinho, o Beto Bacamarte estava cuidando do Flávio, o Cacau estava cuidando do Falcão. O Inter passou o jogo trocando bola por ali e venceu por 2 a 1. No final, o então governandor Guazzelli comentou, das cadeiras do Olímpico:

– Precisamos de um novo lateral-direito.

Foi o fim do Claudio Radar.

Bebemos mais um pouco de cerveja uruguaia, e a costela ficou pronta. Desmanchava-se sob a língua.

– Nem parece costela! – elogiei. – É um patê!

– Lembra do Benitez? – observou o Fer-nando.

Naquele Gre-Nal em que o Inter entrou todo de vermelho, o Iúra havia aplicado uma voadora no Falcão. Na jogada seguinte, a bola quicou na frente dele, e o Caçapava, louco para revidar, veio que veio rosnando, mas veio e veio e veio brabo que nem um bicho. O Iúra, apavorado com aquele baita negão correndo de dentes rilhados em sua direção, deu um balão, livrou-se da bola. Pois o vento carregou-a direitinho para debaixo do travessão, dentro do gol do Inter. O Grêmio venceu por 4 a 0, o Inter levou 25 anos para se vestir todo de vermelho de novo e foi o fim do Benitez. Pelo menos naquele ano.

E ficamos a nos lembrar de Gre-Nais que foram o fim para um ou para outro e de jogos que foram o começo de tudo e de heróis e vilões de chuteira e foi-se a costela campeã do mundo e foram-se as cervejas uruguaias branquinhas de tão geladas e foi-se a noite. Antes de nos despedirmos, o Fernando Carvalho deu-se ao trabalho de contar quantas cervejas consumimos naquele churrasco em seu condomínio: 10!

Foi o nosso fim.

A vida que todos deviam levar

12 de fevereiro de 2011 0

Tivemos um único dia de folga na Copa do Mundo de 2006. Um sábado. Os jogadores do Brasil saíram da concentração sob dispensa e não havia jogo para cobrir. Podíamos, enfim, fazer um pouco de turismo. Estávamos sediados em uma cidade de nome apetitoso: Bergish Gladbach (pronuncia-se Bergish Gladbach). Na verdade, nosso hotel ficava numa espécie de distrito de Bergish Gladbach, chamado Binsberg (pronuncia-se Binsberg).

Nosso hotel era um castelo que no passado serviu como mosteiro. Havia histórias sobre as monjas que viveram ali. Histórias sinistras. O Roberto Alves, colega de Santa Catarina, jura que viu o espectro de uma delas vagando pelos corredores escuros do palácio, na última curva de certa madrugada. Eu mesmo, em determinada noite, saí do quarto para abastecer-me de água e deparei com um vulto alto, esquálido, espigado, murmurando maldições horrendas num canto escuro que julguei ser o antigo claustro de alguma freira que já passou para outro plano da existência. Arrepiei-me de horror, ia despencar na tal desabalada carreira, mas aí reconheci o vulto: era o Maurício Saraiva reclamando que a internet não funcionava.

Mas enfim. O nosso dia de folga. Reunimo-nos em frente ao castelo para decidir o que fazer. Todos quiseram ir a Colônia, a metrópole próxima. Havia lá grandes atrações, como a igreja mais alta do mundo, 157 metros de piedade, e, em contraposição, o bordel mais alto do mundo, 11 andares de pecado. Tenho certeza de que todos foram à igreja e não ao bordel. Já eu preferi não ir em nenhum dos dois. Fiquei. Queria conhecer Binsberg.

– Conhecer Binsberg??? – desdenharam meus amigos.

– Iá! – rebati, em bom alemão. – Quero ficar por aqui.

E assim foi. Eles saíram em alegre bando e eu me quedei sozinho em Binsberg.

Passei um dos melhores sábados da minha vida.

A manhã estava ensolarada e fresca. Saí caminhando, observando as casinhas bucólicas, as ruas limpas e as casas bem cuidadas. Em uma das praças os alemães plantaram um monumento em homenagem a um velho prefeito de sobrenome Wagener. Wagener??? Meu sobrenome do meio é Wagener! Abordei os simpáticos nativos transeuntes, indaguei daqui e dali, e descobri que meu sobrenome é comum naquela região. Logo, sou descendente do velho e bom prefeito Wagener! Que alegria.

Não muito longe da praça, descobri um restaurante pequeno dotado de uma varanda florida. Arrisquei-me e entrei. Quando o garçom apareceu, examinei seu rosto. Parecia um homem de autoridade. Olhei para ele e informei:

– Vou no menu confiança!

Não me arrependi. Foi, disparado, a melhor refeição daquele viagem. Saí do restaurante suspirando de prazer.

Logo ali adiante, vi que havia uma movimentação. Fui para lá como quem segue a luz. Siga a luz! Era um passeio, um calçadão onde eles haviam disposto quiosques que vendiam comida e chope. Ao lado, estava instalada uma pequena feira onde se podia encontrar frutas, legumes, peixes e doces. Os alemães andavam pelo lugar com cestas de vime penduradas no braço. Escolhiam uma compota de pêssegos em calda, provavam um naco de salamito, encontravam-se, cumprimentavam-se e riam. Alguns estavam sentados em mesinhas na calçada. Bebiam canecas de chope cremoso do tamanho de leiteiras, trinchavam salsichas bock temperadas com mostarda marrom e riam. Outros examinavam pilhas de CDs vendidos num balaio no meio da rua, sobraçavam livros que tinham comprado em uma barraquinha ao lado, comentavam sobre as notícias do dia e riam.

Riam, riam, riam também as crianças que brincavam no entorno, livres, arteiras como devem ser as crianças saudáveis, riam as mães despreocupadas com a arte de seus filhos, riam os velhos e os adultos. Todos riam.

Pensei que aquela vida que levam os alemães de Binsberg, uma vida colorida porém pacata, divertida porém segura, aquela vida é a vida que todos deviam levar.

Agora, na minha segunda temporada praiana em 2011, compreendi por que há tantos condomínios fechados no litoral, contei 30 entre Capão e Xangri-lá. Porque as pessoas querem viver como se vive hoje em Binsberg, como se vivia ontem no Brasil. Querem, pelo menos nos dias quentes do verão, viver a vida que todos deviam levar.

A nova vida praiana

11 de fevereiro de 2011 4

A partir de hoje,  nas edições impressas de ZH, vou contar aos leitores como é a vida em um condomínio fechado na orla. Será uma vida de luxo e ostentação? Será um lugar repleto de beldades? Já me disseram que é como a vida no Interior. Ou como era a vida que vivi na infância, em meio às entranhas do subúrbio porto-alegrense.

Será?

Descobrirei.

Passarei 30 dias em um condomínio. Contarei minhas experiências aos leitores nos finais de semana, uma página nas sextas, uma nos sábados, uma nos domingos. Serão dias à piscina e sob o sol inclemente, dias de caipirinha e pastel de camarão, dias de churrasco com os amigos e futebol com o Pocolino. Dias de trabalho árduo, portanto. Tudo pelo jornalismo. Os sacrifícios que faço pelos leitores de Zero Hora… Imodestamente, creio ser capaz de tocar tal empreitada.