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Posts na categoria "Amores de Verão"

Amores de verão: o papagaio

25 de fevereiro de 2011 1

Conheci uma mulher com um papagaio. No início, achei que tudo bem, um papagaio é um bicho de estimação como qualquer outro, mais participativo que um peixe, certamente, e talvez menos que um cachorro. Mas não é bem assim. O papagaio era brabo. E, o pior, ciumento. Até tentei conquistá-lo. Fazia-lhe agrados, trazia-lhe bananas, que papagaio gosta de banana. Não adiantava. Ele abria as asas, furioso, e tentava me atacar. A bicada do papagaio era poderosa. Uma vez, fui lhe fazer tiuque-tiuque e ele cravou o bico no meu dedo. Tirou sangue. Camila, esse o nome da minha namorada, Camila sempre ficava ao lado dele.

- Também, tu provoca o Lourinho – dizia, alisando a cabeça verde do desgranido.

Eu odiava aquele papagaio.

Não havia descanso quando estávamos no apartamento dela. O desgranido não podia nos ver juntos, se enchia de ciúmes, dava rasantes na minha direção. E me insultava. Se Camila ia para a cozinha ou estava tomando banho, ele voava até perto de mim, pousava sobre um armário, me olhava de lado e tascava:

- Cooooorno!

Cheguei a cogitar se o papagaio sabia de algo que eu não sabia. Aquele papagaio estava acabando com o meu namoro.

Mas um dia…

Um dia fiquei sozinho com o papagaio. Camila foi chamada às pressas no trabalho, saiu correndo e, pela primeira vez, nos encontramos a sós no apartamento, eu e o desgranido. Uma emoção intensa se espalhou pelo meu peito. Que oportunidade! Eu era maior, mais forte e contava com a inteligência humana a meu favor. Ele, ao contrário, tinha poucas rotas de fuga, um espaço limitado para se locomover e fora desprovido da sua única arma defensiva: Camila.

Minha primeira medida foi restringir a área de atuação. Fechei todas as portas de comunicação do apartamento. Ficamos na sala, eu e ele. O desgranido me olhava do alto da estante. Notei sua apreensão _ pela primeira vez, via-se em desvantagem.

- Fala agora, desgranido! – desafiei-o. – Não vai falar? Não vai me provocar?

Ele calado, ofegante. Ri. Esfreguei as mãos.

- É o teu fim, desgranido! Ela é minha, entendeu? Só minha!

Gargalhei. Minha gargalhada reboou pelas paredes da sala e arrepiou as malditas penas do papagaio. Mas não sabia bem o que fazer. Se o atirasse para fora do apartamento, ele voltaria. Devia estrangulá-lo? Sim, sim, estrangulamento era uma boa idéia. Pensei no desgranido estrebuchando em minhas mãos, cheguei a sentir o estalo seco do seu pescoço torcido por meus dedos de aço, e isso me fez feliz. Olhei para ele. Tenho certeza que engoliu em seco, ao cruzar com meu olhar homicida. Tenho certeza! Isso também me deu prazer.

Não poderia agarrá-lo com as mãos nuas, ele me bicaria selvagemente. Uma luva! Precisava arranjar uma luva. Lembrei da luva com a qual Camila pega as panelas quentes, na cozinha. Boa! Corri até lá, tendo o cuidado de não deixar a porta aberta. Calcei a luva. Voltei, rápido. Mas, ao entrar na sala, ué? Cadê o desgranido? Sumiu. Comecei a vasculhar a sala. Atrás do sofá, atrás da estante, atrás da televisão. Nada, nada, nada. Onde ele se meteu? Eu suava. Tremia de emoção.

Resolvi sentar um pouco e pensar. Calma. Sim. Precisava de calma. Instalei-me na poltrona. Tentei ficar confortável. Respirei fundo. Deixei o olhar voar pela sala. Esquadrinhei o ambiente.

Então o vi. Sobre a mesinha de centro. Camuflado pelo verde da erva do chimarrão que eu e Camila havíamos tomado. Esperto, aquele papagaio. Não hesitei. Saltei sobre ele. Antes que pudesse dizer um có, o havia dominado. Olhei para meu rival imobilizado dentro da luva de pano. Ele sequer tentava bicá-la. Sabia que estava perdido.

- É hora de morrer – disse. Eu era o Blade Runner.

Preparei-me para a execução. Cingi seu pescoço verde. Ri de contentamento. Aí ele grasnou:

- Eu sei.

Parei. Olhei nos olhos dele. Olhos de quem sabia. Do que ele sabia? Vacilei. Será que não estava eliminando minha única fonte?

- O que tu sabe? – gritei. – O quê???

Ele me encarou, desafiador. Repetiu: – Eu sei. Ele sabia. Era evidente que ele sabia. Desgranido! Não podia matá-lo. Não podia silenciar o único que realmente tinha informação privilegiada naquela casa. Abri a mão lentamente. Pensei que ele ia voar para o alto da estante, mas não, ficou paradinho na minha mão, me encarando. Eu olhava para ele, ele para mim.  Eu para ele. Ele para mim.

Nesse momento, ouvi um barulho na porta. Camila entrou. Flagrou-nos naquela situação: eu sentado no chão da sala, com o papagaio na minha mão. Sorriu:

- Que maravilha! Tu finalmente conseguiu conquistar o Lourinho! Que amor!

Aproximou-se de nós. Ajoelhou-se ao meu lado. Pespegou-me um beijo na boca. Afagou o papagaio.

- Vou buscar uma champanha para comemorar essa nova amizade – anunciou, levantando- se e deslizando para a cozinha. Mal ela saiu da sala, o papagaio voou para o alto da estante. Pus-me de pé e fiquei olhando para ele. Lá de cima, ele me fitou com um ar debochado e, com voz debochada, gritou:

- Coooooooorno!

Eu realmente odeio aquele papagaio.

Amores de verão: Paty, a dentista

24 de fevereiro de 2011 1

Minha dentista se chama Patrícia. Paty. Imagino que seja com ipsilone, fica mais fino. Linda, Paty. Há tempo queria conversar com ela. Fazer uma tentativa. Por que não? Mas não conseguia. No consultório, eu estava sempre com a boca aberta, cheia de algodão. Ou com aquele maldito sugador pendurado. Também tem outra: no consultório, me sentia em terrível posição de inferioridade. Puxa, aquela mulher me esburaca a dentina, me torce os nervos, me raspa os tártaros. Aquela mulher, literalmente, me conhece por dentro. E o que sei dela? No máximo, que suas gengivas são rosadas e seus dentes reluzentes pastilhas brancas. No consultório não dava. Não mesmo.

Durante muito tempo, sonhei em encontrar Paty na noite. Nunca tive essa sorte. Aí, no fim de semana, fui para o Litoral. Arroio Teixeira. Não é um bom nome de praia. Arroio parece algo pequeno, meio sujo. E Teixeira, bom, Teixeira é nome de despachante. Ou de zelador de edifício. Seu Teixeira, a caixa de gordura entupiu outra vez. Mas a praia é boa e me hospedei na casa do meu amigo Gabriel, com a turma. Tudo bem, tudo legal.

Enfim, lá estava eu, em Arroio Teixeira. Manhã de sábado. Decidi sair sozinho pela praia, os amigos ainda dormiam, tinham bebido demais na noite anterior. Fui, distraidão, a água do mar me penteando os cabelinhos da canela. Então a vi. Minha dentista. De biquíni! Nossa, que biquíni pequeninho. Havia Patrícia por todos os lados, em volta daquele paninho mínimo. A chance pela qual esperava chegara. Mas o que dizer para ela? Tinha ser algo especial. Algo que a interessasse. Ela agora se estendia de costas na cadeirinha de plástico. Por que não pensei antes no que falar? Estava cada vez mais perto. O que será que pode chamar a atenção dela? Faltavam poucos metros. O que a interessaria, sem erro?

Ela virou a cabeça para o lado. Reconheceume. Sorriu. O sorriso me animou. É agora, pensava. É agora. Precisava decidir rápido. O que a interessaria? O quê?

- Oi – cumprimentei, ajoelhando-me ao seu lado. O que falar? O que falar? O que falar?

- Oi – ela respondeu. Um oi lindo. Muito bem pronunciado. Muito bem acentuado.

Comecei a suar. – Paty…

- Sim? – ela se apoiou nos cotovelos para me ouvir.

- Sabe, eu estava pensando, desde a última vez que nos encontramos…

- A última consulta?

- Isso. A última consulta.

- Que é que tem?

- Bom… – tomei a decisão ali, naquele instante. Uma idéia muito boa. Na verdade, uma idéia genial. – É que estava pensando nos prémolares.

- Hein? – consegui surpreendê-la. Gol do Brasil.

- Os pré-molares – um assunto perfeito. Era certo que ela se interessava por isso.

- Os teus pré-molares? Algum problema com eles?

- Não. Os pré-molares em geral. Filosoficamente falando. É que, sabe, Paty _ toquei no braço dela para gerar intimidade. _ Estou impressionado com o poder dos pré-molares, toda aquela capacidade que eles têm de morder. Isso tem me deixado muito inquieto. Nem durmo mais à noite.

Paty me olhou espantada. Senti que tinha capturado a atenção dela. Estava no caminho certo. Resolvi sofisticar.

- E tem mais – acrescentei.

- Mais? – um pouco receosa.

- Os caninos.

- Os caninos?

- Os caninos. Eles rasgam maravilhosamente. Li em algum lugar que, no tempo em que éramos homens das cavernas, nossos caninos eram bem mais desenvolvidos. Será verdade?

- Pode ser… – Paty já estava sentada na ponta da cadeira, alerta, certamente embasbacada com meus conhecimentos odontológicos. Sim, senhor, os dentistas acham que são os únicos a saber sobre dentes e bocas em geral.

- Mas não existe nada que me fascine mais do que os sisos – prossegui, entusiasmado. – Veja, Paty: durante milênios tivemos sisos, mas nos últimos anos os dentistas os têm arrancado das bocas, para que os outros dentes não acavalem. É verdade isso ou não é? Diga: é verdade?

- Verdade, verdade – os olhos de Paty se arregalaram. Admiração pura, certamente.

- Pois aí o que começou a acontecer? Tu sabes? Diga: tu sabes?

- N-não…

- As crianças estão nascendo sem siso! _ eu agora falava alto, empolgado com o sucesso do meu assunto. – Formidável! É a evolução das espécies! Darwin puro! É fantástico, Paty! – gritava. – Fantástico! Não acha fantástico, Paty?

Ela se levantou da cadeirinha. Levantei-me também. Limpei a areia dos joelhos.

- A-acho. Olha, vou ter que dar uma saída, não posso conversar agora.

- Mas, Paty, temos tanto a conversar. A periodontia, por exemplo. Adoro a periodontia, Paty – segurei no braço dela, tentando detê-la.

- Me larga!

- O mundo das gengivas, Paty! Quero falar sobre o mundo das gengivas!

- Sai! Sai!

Paty se livrou de mim num repelão. Foi-se, correndo, espalhando areia, fugindo como se eu fosse algum maníaco. O que terá acontecido? Minha conversa estava tão boa… Tentei tudo para agradá-la e ainda assim ela não reconheceu. Oh, Deus, não há como entender as mulheres, realmente.

Amores de verão: ela quer um filho

22 de fevereiro de 2011 2

Manoela queria ter um filho. Mais do que tudo na vida. Terminara com o namorado porque ele não aceitava nem sequer cogitar a ideia.

Fernando sabia disso, eles eram amigos havia muito tempo. Na verdade, Fernando sempre fora apaixonado por ela. Durante algum tempo, tentou conquistá-la. Não deu certo. Desistiu. Agora, estavam na praia, caminhando pela areia, Fernando deixando que as ondas lhe molhassem os pés. À noite, iam ao Planeta Atlântida – Fernando havia conseguido um camarote e a convidara. Foi quando pararam em frente ao quiosque que ele propôs:

- Nós poderíamos ter um filho juntos.

Manoela estacou:

- Tá maluco?

- Nunca falei tão sério na vida. Olha só: a gente se dá bem, estamos solteiros. Tenho vontade de ter um filho. Tu também. Temos condições de criá-lo, não precisamos casar pra isso. Por que não?

Manoela olhou para o mar. Refletiu.

- Mas eu queria ter um filho com um marido. Com o meu marido… – argumentou.

- Ora, Manoela, tu já está com 30 anos, sabe como é difícil encontrar alguém legal. Quanto tempo vai demorar pra encontrar esse marido? Vamos tentar!

Manoela ficou alguns segundos em silêncio. Olhou analiticamente para Fernando. Tinha lá seus atrativos. Além disso, gostava dele. Era uma boa pessoa. Seria um bom pai.

- Tá bom – disse, num suspiro. – Eu topo.

Fernando sentiu a felicidade lhe incendiar as orelhas. Traçaram os planos ali, de pé, na areia _ teriam de ser precisos, impessoais. Sexo com finalidade de procriação. Nada mais. Sem envolvimento emocional.

- Acho que estou no meu período fértil – disse Manoela, olhando para cima, calculando os dias do mês com os dedos. – Temos que tentar hoje mesmo.

- Certo, certo – Fernando compenetrado, obediente.

- Talvez seja melhor fazermos a coisa antes de irmos ao Planeta. Depois podemos ficar cansados demais.

- Antes! Claro! Boa idéia!

- Seria importante também bebermos algo. Pra aquecer, sabe?

- Lógico, o aquecimento é fundamental.

- Então vamos ali no quiosque.

Começaram tomando caipirinhas. Duas. Manoela bebeu rapidamente. Depois pediram cerveja. Outras duas. Manoela bebia rápido mesmo. Fernando se esforçava para acompanhar.

- Agora que já estamos altos podemos tentar – sentenciou Manoela.

Fernando saltou da cadeira. Entraram no carro. Seguiram para o Motel Chamonix. No caminho, Manoela se virou para Fernando:

- Quem sabe tu acaricia as minhas coxas. Pra esquentar.

Fernando tirou os olhos da estrada e os depositou sobre as coxas luzidias dela. Sentiu o coração lhe palpitar na garganta.

- Ai, meu Deus – balbuciou, levando a mão às pernas de Manoela. – Ai, meu Deus – e a mão foi se aproximando, trêmula. Havia anos que Fernando sonhava tocar naquelas pernas. – Ai, meu Deus! E tocou. A sensação da pele macia e fria entrou pelas terminações nervosas da palma da sua mão e se espalhou pelo braço, pelo corpo todo. Fernando ficou apalpando aquelas coxas, apertando, se emocionando, dizendo ai, meu Deus, ai, meu Deus.

Até que bateu com o carro.

Nada grave, acertou a traseira de um Chevette, ninguém se machucou. Só que o dono do Chevette não gostou. Saiu do carro. Começou a discussão. Fernando dizia que pagaria tudo, que o dono do Chevette não se preocupasse. Não adiantava. Tiveram de chamar a polícia. Manoela assistia a tudo sentada no cordão da calçada, irritada. De repente, ela se levantou:

- Fernando, te encontro no Planeta. Foi-se, deixando Fernando a murmurar mas… mas… mas…

Fernando chegou tarde ao Planeta. Levou pelo menos uma hora para encontrar Manoela. Quando encontrou, pediu, ansioso:

- Vamos agora? Vamos colocar nosso plano em ação?

- Agora, não – Manoela continuava irritada. – Agora estou cansada.

Marcaram de se encontrar na praia à tardinha, em frente à plataforma. Fernando chegou lá às cinco da tarde. Esperou. Esperou. Bebeu cerveja enquanto esperou. Ela só apareceu às sete e meia. Fernando estava meio zonzo de tanto álcool:

- Vamos? – ele gaguejou.

- Ah, Fê, daqui a pouco vai dar o Papas da Língua, no Planeta… Depois, tá?

Tá. Foram para o Planeta. Papas da Língua. Fernando bebendo, olhando para Manoela tão linda, tão linda. Queria tocá-la.

- Pra aquecer! – justificava.

Ela não deixava.

- Depois – explicava. – Aqui não.

No meio da noite, Fernando se afastou, amargurado com a rejeição, mareado de tanta cerveja. Foi aí que Soraya surgiu. Uma antiga namorada. Sorridente. De minissaia. Fernando não vacilou. Avançou sobre Soraya, pensando: “Manoela… Ah, Manoela… Vamos fazer um filho, Manoela…” Acabaram no Chamonix.

Pela manhã, Fernando acordou com a boca pastosa. Olhou para o lado. Não gritou porque lhe faltou a voz. Minha Nossa Senhora, não era Manoela! Levantou-se de um pulo. Acordou Soraya.

- Temos que ir embora! – sacudiu-a. Minha Nossa Senhora! Temos que ir!

- Que houve?

- Meu filho depende disso!

Saíram. Fernando foi para a praia. Passou o resto do dia procurando por Manoela, angustiado. Ia na casa em que ela estava parando, ia de bar em bar, vasculhou a faixa de areia entre Atlândida e Xangri-lá. Encontrou-a no começo da noite de domingo, no centrinho. Correu para ela:

- Manoela! Manoela! Até que enfim! Vamos agora! Por favor! Agora! Não podemos mais perder tempo! Manoela levou as mãos à cintura:

- O senhor lembra o que fez ontem à noite?

- Ontem?…

- Não quero que o pai do meu filho seja um tarado, um bêbado!

- Mas, Manoela, eu tinha bebido um pouco e…

- Sem-vergonha! Vou procurar outro amigo. Quem sabe o David topa fazer um filho comigo! Girou nos calcanhares macios e se foi, marchando, levando com ela a descendência do pobre Fernando.

Amores de verão: a morena de Atlântida

17 de fevereiro de 2011 1

Quando a morena aterrissava na praia, Aírton se transformava em uma alface com protetor solar. Não fazia mais nada, ficava só olhando, uma pedra de angústia enganchada no gogó.

- Vai lá! _ insistia Caio. – Ela está te dando bola!

- Será?

- Eu garanto!

Caio tinha autoridade para garantir. Tratava-se de um especialista em mulheres. Elas o adoravam. Não por possuir qualquer atributo físico especial, mas pela aragem sonhadora que o cercava. Caio parecia estar sempre distante, em alguma dimensão mais elevada. As mulheres não o compreendiam. O que as desafiava _ elas passavam a querer desvendar seus segredos. Não havia segredo algum, claro, mas o interesse delas era o que bastava para a conquista. E ele as conquistava. Por isso, Aírton retesava os tímpanos quando Caio dava conselhos. Mesmo assim, faltava- lhe coragem para abordar a morena. Sempre faltava coragem a Aírton.

Além do que, ela era mesmo linda como um pôr-do-sol. Homens e mulheres, não havia quem não reparasse na bela morena, a flanar sobre a areia. Natural que Aírton, um tímido congênito, hesitasse.

Era o terceiro dia que Aírton a via na praia. Ele e Caio tinham alugado uma casa para passar as férias em Atlântida. Caio estava com a namorada, como sempre, e Aírton, como sempre, sozinho.

No quarto dia, os três repoltreados na areia, Aírton ainda gania de paixão pela morena, observando- a de longe, quando ela se ergueu. Firmou- se nas duas pernas de ferro e seda. E veio caminhando na direção dele, fitando com firmeza seus olhos assustados. E veio e veio e veio. Aírton enrijeceu na cadeirinha de plástico. Sentiu que a garganta se lhe fechava. “Minha Nossa Senhora da Carupítia!”, sussurrou. E ela vinha. E vinha. E vinha. Caio cutucou a namorada:

- Olha lá, Pati!

Pati se apoiou nos cotovelos, cheia de expectativa. Toda a praia olhava. Aírton tinha vontade de chorar. O que será que ela vai fazer?, pensava. O que será que ela quer?

A morena agora estava a um passo dele. Agachou- se. Sorriu. Disse, a voz de flauta doce:

- Me empresta as raquetes de frescobol?

Catatônico, Aírton a princípio não compreendeu. Depois de alguns segundos, finalmente conseguiu raciocinar e tartamudeou:

- Ra-ra-ra-raquete? Claro! Pó pegar. Quer só as raquetes? A bolinha não?

- Não precisa – ela agradeceu. E se foi, saltitando como uma cabrita montesa adolescente.

Enquanto ela jogava frescobol com uma amiga, Aírton suava de apreensão. Caio e Pati exultavam.

- Viu? Viu? – vibrava Caio. – Eu te disse! Ela tá na tua!

Aquela foi uma noite feliz na vida de Aírton. Ficou repetindo, até adormecer: será? Será? Será? Depois, em sonho, sussurrava: será? Era muita felicidade. Aírton nunca tivera uma mulher como aquela. Caio, sim. Caio tivera às dezenas. Caio sabia das coisas. Era um bom amigo.

Na manhã seguinte, Aírton levantou cedo. Vestiu sua melhor sunga, uma de listrinhas. Colocou uns óculos espelhados que havia ganho no Natal. E foi para a praia assobiando, Caio e Pati atrás, rindo da felicidade do amigo. Aírton decidiu que ia falar com ela e até já anunciara essa deliberação em casa. Aconselhara-se com Caio, e o amigo havia dado algumas dicas. Perfeito.

Mas a morena demorou a aparecer. Não aparecia nunca. Nesse meio tempo, Aírton perdeu a confiança em algum lugar entre o Bali Hai e a plataforma. Já estava torcendo para que ela não viesse.

- Ela não está a fim. Aquilo foi só coincidência – dizia.

Caio e Pati o repreendiam:

- A guria está te olhando há quatro dias, cara!

- Eu sou mulher, e sei quando uma mulher está interessada em um homem.

- Aiaiaiaiai… Mas, tudo bem, acho que ela não vai vir mesmo…

Aírton terminou a frase, e a morena despontou detrás de um cômoro. Vinha ondulante, dentro de um saiotezinho, tão linda que chegava a doer. Aírton começou a tremer. E a rezar. Para dar mais resultado, na segunda pessoa do plural: “Dai-me forças! Por favor, dai-me forças!”.

Ela se acomodou na areia. Tirou o saiote, por pouco não causando um desmaio no pobre Aírton. Que decidiu fugir.

- Vou embora – anunciou, fazendo menção de se levantar. Pati e Caio o seguraram, ficaí, rapaz!

O medo transformara os ossos de Aírton em maionese. Sua boca estava seca, seus ouvidos zuniam.

- Vai lá! – insistia Caio. – Vai! Faz como nós combinamos!

- T-tá bom… – Aírton se pôs de pé, enfim. Olhou para a morena, que se bronzeava de bruços, a alça da parte de cima do biquíni desamarrada. – L-lá vou eu… – e se foi, caminhando como se estivesse indo para o cadafalso. Cada passo era uma dor. Ensaiara o que dizer, ia convidá-la para um churrasco na casa que ele e os amigos tinham alugado. Mas, no meio do trajeto, vacilou. Não seria ousadia excessiva? Talvez devesse ir mais devagar. Mas… dizer o quê?

Enquanto Aírton se aproximava, ela reamarrou o biquíni. Virou-se lentamente, ofuscada pelo sol. Piscou um pouco. Então, viu Aírton, parado de pé, ao lado dela, boquiaberto. A morena achou estranho. Era estranho.

- Oi – ela levou a mão à testa, fazendo uma viseira.

Aírton engoliu em seco. Mas, em um átimo de segundo, tomou a decisão: falaria de uma vez. Falaria tudo! Falou, rapidamente, num único fôlego:

- É que vamos fazer um churrasco lá em casa e te achei muito simpática e queria te convidar para o churrasco!

A morena sorriu. Sentou-se ereta na areia.

- Que bom! – exclamou.

O peito de Aírton pulsou de alegria. Que bom! Ela disse que bom! Bem que o Caio falou, o Caio sabe tudo!

- Só quero saber uma coisinha – objetou ela. Aírton arregalou os olhos. Coisinha?

- Que coisinha? Ela abriu ainda mais o sorriso.

- Aquele teu amigo – e apontou com o queixo na direção de Caio. Aírton olhou por sobre o ombro. – Ele vai? – perguntou a morena. E acrescentou, num suspiro: – Gostaria muito que ele fosse…

Naquele instante, Aírton passou a odiar Caio. Um ódio que só aumentou. Pelo resto da vida.

Amores de verão: os gemidos

16 de fevereiro de 2011 1

A solidão às vezes é um bálsamo, filosofou Leonardo, repoltreando- se no sofá da sala. Depois de algumas decepções rascantes com as mulheres, encontrava grande prazer em ficar sozinho. Acabara de entrar no epílogo de um Chandler e, a cada parágrafo, refrescava a garganta com dois goles gelados de cerveja. Era verão, e Porto Alegre estava silenciosa. Talvez por isso tenha conseguido ouvir aquele primeiro gemido, embora tivesse sido um nadinha, um suspiro: Ah…

Um suspiro de prazer. De mulher. Leonardo ficou atento. As três linhas seguintes, leu sem entender. Logo, o suspiro se transformou em um gemicar nítido. Leonardo estacou, o livro nas mãos, a cerveja chocando. Olhou pela janela. De lá, veio um ai. Aaaai. Depois um ganido alto. E outro. E mais outro.

Leonardo fechou o livro. Correu à janela. Olhou para fora. Os gemidos vinham de algum apartamento no andar superior. Ele morava no 8º, o edifício tinha 12 andares, mas a maioria dos moradores migrara para a Orla. Quantas mulheres restavam do 9º para cima? Leonardo calculou, enquanto os gemidos se tornavam mais fortes. Duas… três solteiras. A jornalista e a advogada no 9º, a secretária no 10º. Os gemidos viraram urros.

- Mais! -  gritava ela.

-  Assim! Assim! Leonardo sentiu-se excitado. Seria a jornalista? Devia ser. Longas pernas. Desinibida. E usava minissaias.

-  Ah! Oh! -  gritos, agora.

-  Ai, meu Deus! Ai, João Carlos! João Carlos!

Leonardo passou a admirar o João Carlos. E a invejá-lo. Estava tendo um excelente desempenho, pelo que podia ouvir.

No dia seguinte, a expectativa de Leonardo era grande. Será que ele encontraria a jornalista no elevador? Será que ela estaria com o João Carlos?

Não estava. Quando a porta do elevador se abriu, deparou com a secretária e a advogada, nada da jornalista ou do João Carlos, aquele garanhão. Cumprimentou as duas e ficou a avaliá- las com a esquina do olho. A advogada toda séria, com sua morenice confinada dentro de um tailleur. Alta, mais de 1m70cm, apresentava-se nos tribunais atrás de óculos de aros grossos e debaixo de um coque sóbrio. Aquela sisudez não combinava com latidos de prazer na madrugada. Além disso, a experiência de Leonardo com advogadas não era boa. Melhor descartar a advogada.

A secretária combinava um pouco mais. Pequeninha, empinada, cheia de ângulos agressivos, era daquelas baixinhas elétricas, Leonardo tivera algumas do gênero. Também o decepcionaram. Olhou de uma para outra, perscrutador. Teve a impressão de que a advogada devolvera o olhar. Devia ser só impressão… Pena que a jornalist a não aparecera. Uma jornalista de minissaia não o decepcionaria.

Leonardo passou o dia pensando ora nos gemidos, ora nas férias que tiraria dali a 48 horas. À noite, chegou em casa suado. Cozinhou um macarrão vulgar, porém rápido. Planejava sair para ver um filme, qualquer coisa que não fosse comédia romântica, quando eles recomeçaram. Os gemidos. Leonardo deslizou para a janela.

-  Walace! -  ela berrava. -  Walace!

Walace? E o João Carlos? Leonardo ficou perplexo com a troca de parceiro. Ela demonstrara tanto entusiasmo na noite anterior… Em todo caso, o Walace parecia estar se saindo bem.

-  Maravilha, Walace! Maravilha, Walace!

Leonardo, nervoso, limpou o suor da testa e murmurou: “Esse Walace…”. Não saiu mais de casa. Nem dormiu direito. A vizinha era, óbvio, um tufão sexual. Decidiu que precisava abordá-la. Se o Walace e o João Carlos tiveram sucesso, por que ele não teria? Imaginou seu nome reboando num grito de prazer pelo poço de luz.

De manhã, a porta do elevador se abriu, mas, atrás dela, sorria apenas a pequena e espevitada secretária. Ela o cumprimentou, bem disposta. Tudo bem? Tudo, respondeu ele. Mas não estava tudo bem. Leonardo queria a jornalista!

À noite, decidiu que não sairia. Ficaria esperando pelos sons que desabariam dos andares superiores. Esperou, esperou, já havia se deitado, até que, por volta das 2h, recomeçaram os ais e os uhs e os ahns. Leonardo saltou da cama. Correu para a janela, pôs-se a escutar. A voz rouca gemia com plenitude:

-  Geraldo! Geraldo!

O terceiro em três dias. A mulher era uma messalina! Leonardo enlouquecia no seu apartamento. Tinha que abordar a jornalista. Por Deus! Já planejara o que lhe diria: a convidaria para passar alguns dias com ele, numa casa que alugara em Santa Catarina. Ela não resistiria. Afinal, nenhuma mulher haveria de querer passar o verão na canícula de Porto Alegre.

Só que, de manhã, no elevador, quem ele encontrou foi a advogada. Ela sorria, mas Leonardo quase a destratou. Queria a jornalista!

-  Oi -  a morena puxou conversa. Leonardo não quis nem saber. Encarou- a, aflito, e perguntou:

-  Tu sabes qual é o apartamento da jornalista?

Ela abriu a boca, espantada.

-  A Patrícia? -  disse, decepcionada.

-  É o 911.

Novecentos e onze. Leonardo decidiu não perder mais tempo. Não desceu do elevador. Apertou o botão do 9º. Bateu à porta do 911 com convicção. Patrícia abriu, linda, num chambre curto. Leonardo não vacilou. Sabia o que dizer.

-  Quero te fazer um convite -  ofegou. A seguir, falou sobre a casa em Santa Catarina. -  Sei que é loucura, mas quero que tu vás comigo. Podes ir comigo? Ao menos durante o fim de semana?

Ela olhou para ele com olhos redondos de inocência e, depois, para sua retumbante surpresa, respondeu, seca:

-  Posso.

Em vez de um fim de semana, passaram 15 dias em Santa Catarina. Duas semanas de glória. Ela fora meio tímida, a princípio, mas Leonardo a incentivara, pedia que gritasse seu nome, e ela, obediente:

-  Leonardo! Leonardo!

Ao voltarem para Porto Alegre, sabiam que não mais se separariam, que estavam juntos para ficar. Patrícia fez uma jantinha para eles. Uma delícia. Assistiam a um filme no vídeo, agarradinhos no sofá. Então, os gritos começaram. Uma mulher, aquela mulher de duas semanas atrás, rugindo de prazer:

-  Feliciano! Feliciano!

Leonardo saltou do sofá. Olhou para Patrícia, furioso.

-  Quem é essa?

Patrícia riu.

- Ah, é a louca da Joana, a advogada.

- A advogada! – rugiu Leonardo. – A advogada! – e olhando para Patrícia, agora assustada, num canto do sofá.

- Por que tu me enganaste? Por quê?

Saiu pela porta para nunca mais voltar. Para Leonardo, as mulheres eram só decepção.

A súplica de Loraine

09 de fevereiro de 2011 4

O absinto tem estranhos poderes sobre as mulheres. Foi depois de duas doses de absinto que Cristina fez a confidência. Estavam apenas ela e Loraine na casa da praia, os maridos tinham ido pescar na plataforma de Atlântida. As duas e seus drinques na varanda. Cristina olhou para a amiga. Nunca contara aquilo para ninguém, e agora precisava contar. Loraine parecia a pessoa ideal para ouvir a confissão _ era sua melhor amiga e até havia sido freira. Largara o hábito para se casar. Era uma mulher muito religiosa, muito direita, muito conservadora. Talvez por isso mesmo fosse adequada _ Cristina queria ser julgada por suas ações. Queria até ser punida. O desabafo seria como que um ato de contrição.

- Tenho algo pra te falar – disse, enfim, num suspiro, mexendo o verde leitoso do copo.

Loraine a encarou com seus olhos de corça, olhos da santa que era, da católica convicta, de ir três vezes por semana à missa, de ter um pequeno altar para o Padre Réus em casa, de ter intimidades com apenas um homem em toda a vida, um homem com pijama de marido, com coxas pegadas de marido, com nome de marido _ Praxedes. Poderia haver marido mais perfeito para mulher tão perfeita? Praxedes, o marido ortodoxo; Loraine, a mulher sem pecado. Cristina, ao contrário, tinha tanta mácula em seu passado…

- É sobre o meu passado – continuou.

- Que foi meu anjo? – Meu anjo. Loraine sempre a chamava assim. Mas ela, Loraine, é que era um anjo. Sempre reta, incorruptível. Será que ela fazia sexo? Sexo realmente? Não… O sexo com Loraine devia ser algo suave, sem felação ou posições esdrúxulas, sem mordidas e arranhões, sem o uso inadequado de legumes, mesas e cordames, sem luzes acesas. Sexo limpo. Sexo dos nossos pais. Sexo civilizado. Sim, Loraine era a pessoa ideal para julgá-la. Ia falar. Ia! Falou:

- Eu fui dançarina de boate.

Loraine silenciou. Inclinou um pouco a cabeça, do jeito que os cachorros fazem quando ficam surpresos.

- Dançarina?

- Na Farrapos.

- Avenida Farrapos?

- É. Eu fazia shows…

- Ah…

- Loraine sorria, cândida como um animalzinho, parecia não ter compreendido. Cristina resolveu ser mais específica.

-  …de strip.

Loraine arregalou os olhos. A informação começava a ser absorvida. Balbuciou:

- …tease?

- Tease.

Loraine mudou de cor. Primeiro ficou amarela, depois embranqueceu. Levou a mão à boca:

- Nossa Senhora da Carupítia!

A reação escandalizada da amiga incentivou Cristina. Agora ela queria falar tudo. Tudo!

- Eu fazia programas, Lô.

- Programas!

- Programas. Fazia sexo por dinheiro. Foi um momento ruim da minha vida, eu tinha chegado do Interior, não encontrava emprego. Aí uma amiga minha me levou lá. Depois de um ano e meio parei.

- Um ano e meio?

- Loraine parecia calcular. – Dezoito meses… Tanto tempo…

Cristina jamais achou que fosse tanto tempo. Surpreendeu-se um pouco com a conclusão de Loraine. Mas depois concordou, era isso mesmo, um ano e meio de pecado era demais. Loraine tinha toda a razão em condená-la.

- Quantos… – Loraine hesitava – … homens… por dia tu… conhecias?

Conhecia. O termo bíblico para relação sexual. Uma santa, realmente. Que vergonha. Mas Cristina estava decidida. Ia se abrir. Ia contar tudo. Ia se entregar à punição de Loraine como se fosse a sentença do próprio Senhor.

- Às vezes um homem. Às vezes mais. Cheguei a fazer sexo com sete homens numa noite.

- Virgem Santíssima! – Loraine agora enrubescera. O opróbrio da amiga a enchia de vergonha, Cristina podia notar. – Sete ao mesmo tempo?

- Não! – Cristina quase gritou. – Um por vez. Mas uma noite fiz com três homens ao mesmo tempo…

- Três! – O queixo santo de Loraine desabou. Seus olhos saltaram das órbitas. – E o que eles fizeram contigo?

Cristina nunca sentira tanta vergonha, nem na sua estréia na vida de cortesã. Com toda a certeza, Loraine a insultaria, a rebaixaria ao seu nível real, que era o rés do chão, talvez até deixasse de falar com ela por algum tempo. Cristina só não queria perder sua amizade para sempre. Mesmo assim, confessou:

- Tudo. Eles fizeram tudo comigo – as lágrimas começaram a brotar -  eu fiz tudo de podre, Loraine. Todas as coisas sórdidas e porcas e aviltantes que uma pessoa como tu jamais imaginaria. Desculpa, Loraine! – Agora o pranto lhe caía em catadupas. – Desculpa!

Mas Loraine dava a impressão de estar insensível ao seu pedido de desculpas, indiferente a sua dor. Olhava para cima, para o vazio, como que alheia. Cristina continuava implorando por desculpas, quando Loraine segurou-a pelos ombros e olhou dentro de seus olhos.

- Amiga – falou com uma voz rouca, os olhos faiscantes. Cristina parou de soluçar. Fungava. – Amiga – repetiu Loraine. – Me escuta: tu tens que me levar lá. Cristina estacou.

- Hein?

- Me leva lá!

Cristina não entendeu, a princípio. Em seguida, julgou ter compreendido…

- Mas, Lô, eles não têm culpa de nada. Não adianta ir lá, xingá-los, eu é que fui culpada, eu é que…

- Não! – Loraine a interrompeu. – Eu quero fazer isso também, Cris. Entende? Eu também quero. Eu quero, Cris! Eu quero ser uma vadia! Quero ser uma vaca! Uma vagabunda, Cris! Eu quero ser vagabunda! Pelo menos por um dia! Uma noite! Fazendo tudo! Deixando que eles façam tudo comigo, Cris! Me ajuda, Cris – Loraine a sacudia, no calor da emoção. – Me ajuda a ser uma vagabunda!

Cris levantou de um salto. Recuou até bater com as costas na coluna que sustentava a varanda. Levou a mão à boca.

- Não! – seu grito saiu abafado. – Não! Nããão!

Cristina enfim tivera a sua punição.


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Amores de verão: Janete

08 de fevereiro de 2011 4

Elias olhou para a cinturinha de Janete e pensou, admirado: é o talo da maçã! Pela primeira vez, a via de biquíni. O firme redondo das nádegas, as pernas longas e sólidas… Janete, quem diria?

No cimento de Porto Alegre, à paisana, boiando dentro de suas calças largas, Janete tinha a sensualidade de uma máquina de lavar roupa. Usava óculos de aros grossos, o cabelo sempre preso, só falava em trabalho. Mas afundando os pequenos pés brancos na areia quente de Atlântida, com o corpo enfim desvelado, Janete mostrava o que ninguém poderia suspeitar. O talo da maçã!

Elias não se conteve. Deixou a palavra explodir nos molares:

- Gostosa!

-  Que é isso, Elias?!?

Ele, que era um mulherengo convicto, um pândego incansável, não se comoveu com o embaraço dela.

-  Como tu é boa!

-  Elias! Pára com isso já e já!

Não adiantou. A partir daquele dia, Elias foi tomando cada vez maiores liberdades com Janete. Os outros amigos, todos colegas de trabalho, achavam muito engraçado. Quando haviam combinado de alugar a casa em Atlântida sequer desconfiavam que Janete, recatada feito uma irmã carmelita, quereria ir junto. Mas ela quis. Foi. E agora isso. O verão prometia ser divertidíssimo.

Elias estava adorando. Passava os dias lhe dizendo… coisas.

-  Sabe o que vou fazer contigo? -  e relacionava as safadezas mais melequentas que os tímpanos imaculados de Janete já tinham ouvido.

Ela apenas protestava:

-  Pára, Elias!

Os outros riam.

Os ataques de Elias se tornavam mais insinuantes sempre que ela vestia o biquíni. Não se limitava mais a falar. Apertava-lhe os braços, beijava- lhe as omoplatas, rosnava em sua nuca. Janete se esquivava e protestava, sem graça.

-  Pára…

Todos riam dos apuros de Janete. Ninguém mais do que o gozador do Elias:

-  Essa mina é muito engraçada!

Acuada, Janete desistiu dos biquínis. Agora vestia apenas shorts sisudos e saias que lhe roçavam as rótulas. Desistiu de ir à praia, temendo açular a lubricidade de Elias. Preferia ficar jogando canastra com alguma amiga.

Até que, um dia, os amigos saíram aos pulos com suas raquetes de frescobol, Janete pensava estar sozinha em casa, mas não estava. Elias também ficara. Ela abriu a porta do quarto, distraída, cantarolando baba, beibe, beibe, baba, e, ao botar o pé no corredor, quase abalroou Elias.

-  Oh! -  Janete se assustou. Deu dois passos para trás. Entrou outra vez no quarto, de costas. Elias a seguiu. Fechou a porta com o calcanhar, sorrindo, malicioso. Olhou-a dos pés macios aos cabelos encaracolados. Sentiu a saliva se lhe acumulando nos carrinhos.

-  É hoje, Janete -  disse, voz roufenha, os caninos à mostra.

Ela não respondeu. Ele repetiu:

-  É hoje!

E se aproximou dela, esperando que recuasse, apavorada, para o fundo do quarto. Mas Janete não recuou. Continuou paradinha, de pé. Talvez por estar em pânico, calculou ele.

Elias levou as mãos até as ilhargas de Janete. Ela usava um vestido leve, que lhe caía aos tornozelos. Elias agarrou o vestido com as duas mãos, uma em cada perna. Começou a puxá-lo. Janete se manteve impávida, calma, olhando para Elias como se estivessem conversando sobre a cotação do dólar.

O vestido foi subindo. As canelas lisas de Janete apareceram. Elias pensou: é agora que ela vai gritar.

Não.

Janete ainda estava tranqüila. Os joelhos redondos vieram a seguir. Elias, sem parar de recolher o vestido, achou que provavelmente ela lhe esbofetearia.

Nada disso. Janete sequer se mexia. Apenas respirava e observava.

A primeira curva das coxas de Janete surgiu, brilhante. O coração de Elias batia com força. O que estava acontecendo? Por que ela não protestava? A saia subia ainda mais. Outro palmo de coxa. Janete imóvel. Elias sentiu o suor frio lhe brotando das frontes. O vestido subindo, subindo, ali estava o amarelo da calcinha, a calcinha minúscula, um paninho de nada. Elias arregalou os olhos. O que era aquilo? Cadê o pavor de Janete? Cadê o medo? Olhou para os olhos dela _ reluziam, um meio sorriso lhe cintilava no rosto.

Elias largou o vestido. Recuou. Bateu com as costas na porta.

-  Janete!

Ela avançou. Colou nele. Elias sentia seu hálito de baunilha.

-  Tu disseste que era hoje! – ronronou ela.

-  Janete!

-  Tu disseste que ia fazer coisas comigo!

Esfregava-se nele, agora. Apavorado, Elias conseguiu driblar o ataque de suas mãos sequiosas. Atirou- se para o lado, escorregou, quase caiu.

-  Tu disseste que ia sugar meus mamilos róseos! Suga! _ e num golpe Janete rasgou a blusa. Rasgou! Os seios, blop, blop, saltaram para o ar exterior, enfim livres.

Desta vez, Elias caiu, com o susto. Começou a se arrastar de costas, fugindo daqueles mamilos realmente róseos, intumescidos, belicosos.

-  Janete! -  berrava Elias. -  Que é isso, Janete!

-  Tu disseste que ia passar a língua por cada centímetro do meu corpo em fogo! -  continuou ela, avançando sempre. -  Agora passa! -  e pulou fora do vestido, e num átimo já estava sem calcinha. Janete ali, nua, e Elias com a garganta fechada, com vontade de chorar, prensado contra a parede.

-  É HOJE! urrou ela.

Elias finalmente se equilibrou, levantou-se de um salto e, ágil, alcançou a porta, abriu e saiu correndo, gritando:

-  Não, Janete! Nããão!

Janete ainda correu atrás de Elias por alguns metros, nua, os seios balouçantes, mas ele tomara grande distância, não havia como pegá-lo. Depois daquele dia, os biquínis de Janete diminuíram consideravelmente. Até um de crochê ela usava. Elias passou a fugir dela, mas ela o perseguia, abordava-o, dizia… coisas para ele. Grudava os lábios carnudos em sua orelha e murmurava:

-  Sabe o que é que eu vou fazer contigo? Elias reclamava:

-  Pára, Janete! Os outros riam, contentes.

O verão estava sendo realmente divertidíssimo.


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Amores de verão - A filha do vizinho

07 de fevereiro de 2011 4

As rótulas do Pires viraram patê quando ele viu a filha do vizinho. O que tinha acontecido com a menina de um verão para outro? No ano passado, uma criança. Um nenê. Agora, isso tudo. Jesus!

Gabriele, esse o nominho dela, até o nome perturbava, Gabriele tinha apenas 16 anos. Em menos de 12 meses, havia desabrochado. De pirralha magricela, transformara-se em mulher voluptuosa, cheia de curvas de seda. E, acredite, por tudo o que é sagrado debaixo do faltoso sol gaúcho: estava dando bola para o Pires.

Pires mal conseguia acreditar. Pô, aquela menina poderia ser miss qualquer coisa, rainha de todos os mares, poderia escolher o homem que quisesse, do Hermenegildo ao Acre. E queria a ele. Queria, sim, os sinais eram evidentes. Devia ser alguma fantasia antiga, de criança.

Pires estava empolgadíssimo. Nunca tivera muita sorte com as mulheres. Aquela seria, certamente, a maior aventura da sua vida. Mas precisava se cuidar. Na casa, com ele, havia a sua mulher, o seu cunhado, a mulher do cunhado e um sobrinho. Gente demais. Vigilância demais. Um perigo.

As semanas do verão foram se escoando e ele não encontrava oportunidade de ficar a sós com a bela Gabriele por mais de 10 minutos. Até que chegou o Carnaval, esse último Carnaval, desse mesmo fevereiro que já se vai. Gabriele saía para as festas em trajes sumários, em transparências perigosas para os hipertensos. Provocava Pires:

- Não vais pular esta noite? Pires pensava na mulher, no cunhado, na cunhada, no sobrinho. Suspirava:

- Hoje não…

Foi assim sábado, domingo, segunda. Vais? Hoje não… Na terça, ele estourou. Decidiu resolver a questão. De hoje não passa, jurou para si mesmo. Hoje é a noite!

Traçou um plano. Assaria um churrasco. Só que demoraria a servir a carne, a salada, o pão com alho. Antes, faria com que a mulher e os outros bebessem muita caipirinha, muita cerveja, os embriagaria. Lá pela meia-noite, quando a comida estivesse pronta, eles já estariam zonzos de sono. Dormiriam pesadamente. E Pires ficaria livre para ir ao Carnaval. Livre para se encontrar com a ninfeta Gabriele!

Um plano perfeito.

Colocou-o em ação.

Propôs o churrasco. Aceitaram. Preparou a primeira caipirinha. Enorme. De cachaça.

- Já? – estranhou a mulher.

- É Carnaval! – festejou o Pires, atirando os braços para o alto.

Mais caipirinha. E mais. E ainda mais. Em seguida, cerveja. Cerveja, cerveja, cerveja. E caipirinha. E cerveja. Quando a carne foi para o fogo, todos já se sentiam engolesmados. Todos. Inclusive o Pires, que bebia tanto quanto os demais.

Lá pelas 23h, Pires viu Gabriele saindo da casa do vizinho, fantasiada de noivinha. Correu para frente da casa. Ela sorriu.

- Vais pular hoje? – perguntou, com sua vozinha de chocolate branco, Pires estufou o peito.

- Vou! – bradou, exultante. E repetiu: – Vou!

- Então te espero lá – disse ela, e se foi, ondulando.

Pires voltou ao churrasco. Cerveja, cerveja, cerveja. Caipirinha. Cerveja. Ao cabo de toda a libação, a picanha queimou, o salsichão queimou, a salada salgou em demasia. Acabaram comendo algum pão, nada mais.

Pouco depois da meia-noite, conforme o planejado, a mulher, o cunhado, a cunhada e o sobrinho se recolheram, enjoados, tontos, vesgos de álcool e sono.

- Vou limpar as coisas – anunciou Pires, a voz mole. – Deixem tudo comigo!

Deixaram. Quem queria saber de algo além da cama restauradora?

Vitória! Pires ria sozinho. Ria, ria, ria! “Agora, ao Carnaval!”, pensou. “À ninfeta!”

No meio da euforia, porém, a cautela se lhe relampejou no cérebro embotado de cerveja e caipirinha. E se alguém, algum vizinho, o reconhecesse? Éééé… Logo, toda a praia saberia, sua mulher descobriria que ele foi pular o Carnaval, sua mulher era braba, furiosa, não o perdoaria, ele estaria perdido. Perdido! Não, não, teria de tomar precauções. Mas o quê? Como? Se ao menos tivesse uma fantasia… Nesse momento, Pires divisou sobre o sofá a máscara do Batman que pertencia ao seu sobrinho. Uma máscara de papelão, com furinhos no lugar dos olhos, das que se prendem atrás da cabeça por um elástico. Pires sorriu.

- Perfeito! – gritou, e a seguir se arrependeu, lembrando que os parentes dormiam. Tapou a boca com as mãos. Olhou para os lados, desconfiado. Mas ninguém sequer se mexeu nos quartos. Estavam muito bêbados.

Pires colocou a máscara. Deu de mão numa remanescente garrafa de vodca. E saiu: de sandália de couro, bermudão, camisa de física, garrafa de vodca e máscara do Batman. Na rua, tudo era difuso. Chovia. Pires não tinha bem certeza para onde devia seguir. Viu uma luz lá adiante. Várias luzes. Alguma folia. Parecia folia. Àquela altura da noite e do seu estado, nada era certo, nada era reto ou liso. Pires avançou pelo mundo brumoso, bebericando no gargalo da garrafa de vodca. E foi e foi e foi.

Isso aconteceu na terça-feira de Carnaval. A Terça-Feira Gorda. A última lembrança que Pires tem daquela noite são os seus pés, calçados com a sandália de couro, afundando na lama a cada passo, pof, pof, blof. Alguma poça de lama, de algum lugar.

Pires acordou perto do meio-dia da Quarta- Feira de Cinzas. Acordou, não; foi acordado. Por sua mulher, seu cunhado, a mulher do cunhado e o sobrinho. Eles olhavam embasbacados para Pires que jazia deitado no sofá, os pés, as sandálias, as canelas e os joelhos cobertos de barro, a garrafa de vodca ainda sob o braço, com apenas dois dedos de bebida no fundo, confete por todo o corpo, uma serpentina solitária em volta do pescoço, a máscara de Batman meio torta, presa pelo nariz.

Pires ainda não sabe o que aconteceu aquela noite. Sabe o que aconteceu depois. Não foi bom. Sua mulher, realmente, é muito braba. Pires, realmente, nunca teve muita sorte com as mulheres.

Amores de verão - A maldição da virgem

05 de fevereiro de 2011 37

É malévola a maldição da virgem. Rosinha. Aos 21 anos, no auge da formosura, fresca como se estivesse eternamente saindo do banho matinal, ela continuava intocada por homem. Chegara a se casar, mas, na noite da lua-de-mel, o marido, Luís Fernando, falhou pateticamente. Luís Fernando jamais se recuperou do trauma. O casamento foi anulado, e ele se transformou em pastor de igreja evangélica.

Agora, três anos passados, Rosinha decidiu: “Neste verão, eu perco a virgindade”. Informou a resolução à amiga Yasmin. Contava tudo a ela, a quem conhecia desde os albores da escolinha maternal. Planejaram com método e parcimônia o ingresso de Rosinha no mundo dos prazeres carnais. Alugaram uma casa em Atlântida, onde, acreditavam, podiam ser colhidos os melhores espécimes do sexo masculino. Durante 20 dias, Rosinha se dourou ao sol, exercitou-se, comeu com frugalidade. Após esse período, examinou- se no espelho. Aprovou o que viu. Considerou- se apetitosa. Murmurou para si mesma:

- Apetitosa…

Faltava escolher o parceiro. Quem seria o primeiro homem de Rosinha? Ela e Yasmin debateram a questão com ardor. Que não fosse um brutamontes lutador de jiu-jítsu. Nem um intelectualóide presunçoso. Deveria ser experiente, inteligente e, sobretudo, bem-humorado.

Era o perfil de Raul. Desde que o conheceu, Rosinha sentiu-se atraída por ele. Na verdade, sempre soubera que Raul seria seu homem, mas, até então, só o admirava a distância. Raul. O único por quem se interessara desde o fracassado Luís Fernando. Raul. O eleito.

Rosinha e Yasmin aproximaram-se dele. Fácil. Bastaram dois meios sorrisos e em minutos já estavam sob o mesmo guarda-sol. Os três passaram a semana indo à praia juntos. Raul, empolgado com a atenção que lhe dispensavam, não cabia em si de tanta excitação. Estava no ponto.

Rosinha decidiu que sábado seria sua última noite de virgem. Combinaram de se encontrar no Tortuga, às 22h. Na sexta, quase não dormiu. Sacudiu a amiga Yasmin assim que o sol nasceu.

- Acorda, menina! Hoje é o dia!

Yasmin levantou-se, estremunhada, e acompanhou Rosinha até a praia. O dia inteiro só falaram em Raul, Raul. Quando a noite chegou, Rosinha iniciou os preparativos. Cremes. Óleos. Salão de beleza. Não terminava de se enfeitar.

- Ai, amiga – disse afinal – que tal tu ir agora lá no Tortuga e distrair o Raul pra mim? Acho que vou demorar.

Tudo bem. Yasmin foi. Rosinha continuou se pondo bonita para estrear no amor. A escolha da roupa adequada foi a mais difícil. Optou por uma calcinha mínima, de rendinhas (ouvira dizer que os homens adoram rendinhas). Saltos altos, para valorizar as pernas. O vestido, um preto básico de alças delgadas. Sutiã, não. Nada de sutiã!

Passava da meia-noite quando Rosinha chegou ao Tortuga. Bar cheio. Sem mesa vaga. Rosinha zanzou pelo ambiente. Procurou. Procurou. Onde estavam? Sentia-se inquieta. Então encontrou a amiga Fernandinha. Correu para ela, aflita:

- Viste a Yasmin, Fê?

- Ah, ela estava aqui até agorinha com o Raul. Saíram juntos. Acho que ela se deu bem…

Naquele instante, a alma de Rosinha murchou e embolou-se toda no meio do peito. Era o começo da pior noite da sua vida.

O domingo amanheceu nublado. Os primeiros pingos da chuva desabaram sobre os ombros de Rosinha quando ela abriu a porta da casa de Atlântida. Yasmin esperava-a acordada, ulcerada pelo remorso. Queria explicar que tinha ficado bêbada, que fora um acidente, que, de repente, abrira os olhos e se vira na cama com Raul, mas Rosinha não lhe deixou falar. Apontou um dedo trêmulo na sua direção. Mirou-a com os olhos injetados de sangue e ódio. Rosnou, a voz rouca de horror:

- Tu vais ficar gorda!

Yasmin arregalou os olhos. Tentou falar. Rosinha, mais uma vez, não permitiu,

- Gorda! – repetiu, num grito maligno. – Gorda! Cada dia mais gorda! Para sempre GORDA!!!

Lançada a maldição, Rosinha girou nos calcanhares e saiu, batendo a porta.

Nos dias seguintes, Yasmin tentou falar com Rosinha. Em vão. Rosinha não atendia aos seus telefonemas. Yasmin ficou abalada com a perda da amizade antiga. Além disso, a praga da virgem não lhe saía da cabeça. Sonhava com aquela voz do Mal repetindo: goooorda, gooooorda… Passou a fiscalizar o surgimento de eventuais adiposidades. Transformou-se numa escaladora de balanças. O pior é que, de fato, parecia engordar. Nunca fora magricela, ao contrário, era a típica “fofinha”, só que depois da maldição seu peso dava a impressão de aumentar a cada hora.

Yasmin tornou-se obcecada pelo controle do peso. Passava o dia falando em calorias. Matriculou- se em academias de ginástica. Corria, nadava, lutava capoeira. Não adiantava. Estava engordando, sim. Não era impressão. Não era só o produto do medo. O espelho mostrava. A balança provava. Começava a se transformar numa… numa… numa gorda!

Quanto mais desesperada ficava, mais Yasmin se via seduzida por doces, massas e molhos. Sonhava com quindões, ansiava por cocadas. Não resistia. Comia. Depois de comer, se arrependia. Chorava. Fazia ainda mais exercícios. Sem resultado _ Yasmin sentia a gordura se acumulando em volta da cintura, nos culotes, sobre o umbigo, glub, glub, glub.

Goooooorda…

É malévola a maldição da virgem.

Yasmin decidiu tomar uma atitude radical. Falaria com Raul. Isso. Vinha evitando-o desde aquela noite. Por medo _ de Rosinha, claro, e também do sentimento que nutria por Raul. Sim, porque era forçoso reconhecer: a noite com Raul a marcara profundamente. Agora, falaria com ele. Explicaria o seu problema. Pediria que Raul revogasse a maldição da única forma possível: que ele tirasse a virgindade de Rosinha!

Procurou-o, angustiada. Raul ficou encantado ao vê-la. Sem delongas, Yasmin contou-lhe tudo.

- Tu precisas me ajudar – suplicou. – Não agüento mais ser gorda! Raul, porém, sorriu cheio de benevolência. Tomou a mão dela entre as suas. E ciciou, leite condensado na voz:

- Tu estás linda assim. É como gosto de ti.

Então, Yasmin compreendeu – ele era um apreciador de gordinhas! Por isso preferira a ela, fofa, à magricela da Rosinha. Estremeceu de prazer. Corou quando Raul lhe acariciou o rosto. E entreabriu a boca para receber o beijo que ele lhe ofertava. Hoje, Yasmin e Raul estão casados.

Ela continua gordinha. Ele continua feliz. Rosinha? Bem, Rosinha continua virgem. Se bem que agora é verão…


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Amores de verão - Ombro

04 de fevereiro de 2011 2

Depois de muito ponderar, Atílio decidiu:

Vou lamber esse ombro.

Considerou que era uma decisão madura, refletida e, por que não dizer?, sensata. Havia meses que desejava lambê-lo. Ao ombro. E também ao restante de sua proprietária, claro. Agora ambos, ombro e proprietária, estavam centímetros à sua frente. Atílio, a dona do ombro e todos os outros funcionários do escritório tinham sido reunidos pelo chefe, que fazia um comunicado qualquer. O chefe falava no meio da sala, os funcionários ouviam de pé.

Quer dizer: ouviam é força de expressão. Atílio não ouvia nada. Sua atenção, sua alma, seus sentidos tinham sido monopolizados pelo ombro dourado e nu que se oferecia a meio palmo de seu queixo. Atílio analisou-o acuradamente. Seguiu com o olhar a curva suave que descia rumo ao braço. Despencou quase até o cotovelo. Subiu de volta. Deslizou pela depressão formada pela omoplata. Escalou o pescoço delgado e elegante. Retornou outra vez para o centro do ombro adorado. Inalou seu perfume. Oooh. Ela era divina.

Atílio apoiou o peso do corpo em um só pé. Diminuiu ainda mais a distância entre ele e o ombro. Tão lindo, macio e brilhante, tão apetitoso… Atílio sentia-se emocionado. Tamanha perfeição não podia ficar relegada. Um ombro assim perfeito fora criado para dar prazer. Sim, devia lambê-lo. Sim! É o que iria fazer.

Mas, pensando bem, lambê-lo seria a melhor opção? Por que não morder de uma vez? Lógico! Com uma boa mordida, o mordedor capta sensações através não apenas dos dentes, mas também da língua e dos lábios. Serviço completo. Morder, esta é a solução. Morder! NHAM!

Atílio chegou a abrir a boca, chegou a sentir a textura da carne tenra nos molares. Até lembrar de um único senão: uma mordida talvez fosse agressiva demais.

É.

A dona do ombro pode se assustar, gritar, passar para o desforço físico, o que provavelmente não seria bem compreendido pelo pessoal do escritório. Seria um escândalo. Os colegas o chamariam de tarado, o chefe ficaria furioso, ela o acusaria de assédio sexual, e sua mulher, que agora estava na praia com seu filho Cuquinha, descobriria tudo em menos de 12 horas e se separaria dele. Sua vida acabaria ali, com uma simples mordiscada.

Não, melhor descartar a mordida. Atílio congratulou a si mesmo pelo seu bom senso. Como uma idéia de tal forma espaventosa pôde germinar em seu cérebro sempre sensato? Só podia ser o verão. O verão fazia isso com ele. O maldito verão com suas minissaias, suas miniblusas, seus ombros expostos.

Aiaiai.

Quem sabe um beijo? Iiiisso, um beijo doce e cândido. Um beijo é um carinho. Impossível recriminar um beijo. Já estava vendo a dona do ombro a suspirar. Ela exclamaria assim:

- Ó!

Atílio aprontou o biquinho. Curvou a nuca. Ia beijar. Mas cogitou: peraí, um beijo em uma superfície lisa como um ombro é tão-somente um roçar de lábios no tecido. Pouco prazer para tanto risco. Além disso, será que um beijo é de fato totalmente seguro? Afinal, há que se computar o fator surpresa. Poucas mulheres estão acostumadas a receber beijos no ombro durante reuniões de trabalho. O inusitado da ação talvez a assuste. Então, que seja uma lambida mesmo, um saudável intermediário que não será agressivo como uma mordida, nem insosso como um beijinho.

Lamber! Schlep!

Atílio sorriu, antegozando o prazer. Começou a salivar. Tirou a linguona para fora. Respirou fundo. E…

…e ela se virou. Virou-se de frente para ele, para seu imenso espanto. Sorria. Parecia feliz. Aproximou-se dele. Cada vez mais, cada vez mais. E… o beijou! Beijou-o nas faces. Uma, duas, três vezes. Sorria, ainda. Falou, enfim:

- Parabéns, Atílio!

Hein? Parabéns? Ele arregalou os olhos. Estava pasmado. Olhou no entorno. Todos sorriam, observando-o. O chefe sorria também.

- Uma bela promoção – a frase saiu do rosto sorridente de um dos colegas.

Promoção? Que promoção? O chefe! O motivo da reunião! Ele, Atílio, tinha sido promovido! Todos o cumprimentavam. Parabéns, parabéns. Atílio sentiu-se despertando. Sorria, agora. Agradeceu a todos. Agradeceu ao chefe. Voltou a olhar para ela. Que continuava sorrindo. Um sorriso diferente de todos os que lhe oferecera até então. Um sorriso em que dançava uma luz maliciosa, uma luz que, Atílio queria crer, era de promessas.

- Parabéns – repetia ela, sem parar. -  Parabéns. Devia ser mesmo uma belíssima promoção.

- Que é isso… – dizia ele, satisfeito. Sorriu para ela, para a luz em seus olhos. Deixou seu olhar passear mais uma vez por aquele ombro dourado e nu. E agradeceu a Deus por ser verão.

Amores de verão - O defloramento de Rosinha

03 de fevereiro de 2011 1

Aquele era o dia em que Rosinha deveria perder a sua virgindade. Tinha 18 anos e, até então, permanecera intocada por homem. Impossível não perceber sua pureza matinal logo ao primeiro olhar. Rosinha era suave como uma lembrança distante. Bastava encará-la para fazê-la corar. E era linda. A simples visão de seus cabelos anelados servia como um bálsamo para homens e mulheres.

Pois agora Rosinha ia se casar com um cafajeste.

Não havia outra palavra para definir o Luís Fernando. Tratava-se de um colecionador de mulheres. Ou, antes: de jornadas sexuais. Jamais se apaixonara. Sequer se envolvera. A todas maltratava, depois da conquista. Até que apareceu Rosinha.

O caso foi rápido. Namoraram durante três meses, um namoro de sofá na sala dos pais dela. Ao cabo desse período, Luís Fernando anunciou o casamento. Os amigos ficaram espantados. Não conheciam a noiva, mas imaginavam que devia ser mesmo especial, para amolecer um coração de granito. Ou havia algo malcontado naquela história.

Não se falava de outro assunto na casa que os amigos haviam alugado em Floripa. Todos os anos eles iam para essa mesma casa na Praia Brava e lá passavam 15 dias ensolarados. Pela primeira vez, Luís Fernando não viera. Porque estaria, inacreditável!, em lua-de-mel. O casamento fora breve, realizado no cartório, em Porto Alegre, sem cerimônia, presentes apenas os pais dos noivos. Isso agastou um pouco os três amigos que estavam em Floripa _ um casamento desses exigia, mais do que uma festa, um kerb.

Era do que se queixavam naquele fim de tarde quente na Ilha. Mas mal começaram o churrasco, quando, surpresa!, Luís Fernando cruzou a porta dos fundos.

- Não! – gritou o Eduardo.

- Que que tu está fazendo aqui??? – assustou-se o Régis.

- Vim passar a minha lua-de-mel com vocês! – bradou Luís Fernando.

- Ficou maluco! – o Dinho deu uma palmada na testa.

- Explico, explico – apressou-se o Luís Fernando, risonho. – É que eu e a Rosinha queríamos passar nossa lua-de-mel aqui em Floripa. Viemos na aventura. E não conseguimos encontrar casa para alugar! Será que dá para ficarmos aqui esta noite? Amanhã procuramos um lugar.

- Nem precisa perguntar – disse o Eduardo. – Vocês pegam o meu
quarto, que é o melhor, e eu durmo com o Régis. Cadê a noiva?

- Deixei no carro, esperando. Vocês vão ver que quitute que arrumei. E ainda é virgem! Acreditem! Vai ser hoje!!! – e o Luís Fernando correu para a parte da frente da casa, esfregando as mãos, enquanto os outros balançavam a cabeça, sorrindo: esse cara não muda mesmo…

Um minuto depois, ele voltou, puxando Rosinha pela mão. Vinha como que arrastada, avançando com passinhos curtos, envergonhada. Foi ela pisar na varanda, onde os amigos conversavam, e o ambiente se iluminou. A presença etérea de Rosinha fez com que todos ficassem embevecidos. Naquele instante, tiveram a compreensão fugaz, mas sólida, de que o mundo pode ser maravilhoso. Não que cobiçassem Rosinha, não. O que sentiam era puro êxtase diante da doçura da moça. Os três amigos sorriam, encantados, como se estivessem junto de uma criança. Ali estava a própria flor da paz. Que havia se casado com o canalha do Luís Fernando!

Vez por outra, um dos amigos lançava um olhar ressentido para ele. Como alguém podia atacar de forma tão solerte aquele anjinho singelo? Certamente, estava se aproveitando dela. Casara-se só para deflorá-la, o ordinário! Luís Fernando não percebia a revolta dos amigos. Fitava-os com um brilho lascivo a lhe dançar nas pupilas. Infame! A noite inteira foi assim, Luís Fernando sorrindo feito um fauno loiro e Rosinha enlevando os três amigos com seu feitiço meigo. A certa altura, ela saiu para tomar banho e Luís Fernando correu a dar tapinhas nos ombros dos outros, salivando:

- É hoje! É hoje! Vou devorar essa guloseima! É hoje! Ninguém comentou nada. Sentiam os corações confrangidos. Por volta da meia-noite, Luís Fernando se levantou da cadeira onde engolia
litros de cerveja e anunciou:

- É chegada a hora!

Rosinha corou. Os amigos prenderam a respiração. Luís Fernando
emitiu uma breve e áspera gargalhada. Os amigos estremeceram.

Luís Fernando tomou Rosinha pela mão e, sorrindo sempre, conduziu-a até o quarto. Ela o seguiu, passiva como um animalzinho que parte para o sacrifício, jogando por cima do ombro um sorriso triste para os rapazes. Ciciando:

- Tiau, guris…

Ninguém falou. Eduardo rasgou uma carteira de cigarros. Enfiou dois na boca. Dinho fazia abdominais, séries intermináveis de abdominais. Régis emborcou uma garrafa de cerveja. E outra. E mais outra.

De repente, um ruído veio do quarto. Todos pararam, os ouvidos
atentos. Era um gemido. Dela? Dele? Novo gemido. Dela. Sem dúvida. Maldição, Rosinha gemia na alcova! Outro gemido. Mais forte. Mais… dolorido. A inocência estava sendo sacrificada no quarto em frente.

Ninguém se falava. Ninguém sequer se olhava. De repente, eles estacaram. Um ruído mais forte veio do quarto. Uma batida. E, em seguida, um uivo. Um uivo! Oh, Deus!

Eduardo soltou um grito primevo, animalesco, e saiu correndo em direção ao mar. Dinho tapou os ouvidos e também fugiu, avisando que iria fazer tracking. Régis abriu outra cerveja e trancou-se no banheiro.

Nenhum deles dormiu, naquela noite. Por volta das 6h, se reencontraram na varanda. Eduardo chegou descabelado, coberto de areia; Dinho todo esfolado, pontilhado de carrapichos; Régis carregando a maior dor de cabeça da orla.

Continuaram sem nada falar, mas, de alguma forma, um sabia o que o outro sentia. Então, Luís Fernando apareceu. Veio devagar, caminhando com dificuldade, como quem teve uma noite atribulada. Parou à entrada da varanda, olhando para os amigos. Que, aos poucos, o encararam. Luís Fernando abriu a boca. Suspirou. Falou baixinho:

- Não consegui.

Os outros se aprumaram. Hein?

Ele repetiu, com lágrimas nos olhos:

- Não consegui. Falhei. Pela primeira vez, falhei.

Abaixou a cabeça. Os outros trocaram olhares. Cercaram Luís Fernando. E choraram. Os quatro choraram abraçados, lágrimas de alegria e de tristeza. Choraram como nunca haviam chorado na vida.

Amores de verão: o pecado em Torres

02 de fevereiro de 2011 0

- Tu tem que experimentar outro homem!

- Pára, Cláudia. Eu sou feliz com o Nélio. Ele é o melhor de todos os homens na cama.

- Como tu sabe? Tu só teve o Cornélio!

- Nélio. Cornélio ele não gosta.

- Seja. Há quantos anos vocês estão juntos? Quinze? Vinte?

- A vida toda – Sílvia sorriu. – O Nélio foi meu único namorado. Jamais beijei outro homem – tinha orgulho dessa casta exclusividade. Repetiu, queixo cravado no azul do céu: – Jamais!

- Então! – Cláudia não desistia. – Tu é bonita, Sílvia. Jovem, ainda. Mas já fez 30. Olha: mulher tem prazo de validade. Amanhã, depois, tu já não está mais tão viçosa e o Nélio arruma uma de 19. Aí, o que tu vai fazer?

- Ai, Cláudia. Minha vida sexual com o Nélio é ótima. Nenhum homem é melhor do que ele.

- Como tu sabe??? Ele pode ser o pior de todos! Tu nunca comparou!

- Ai, Cláudia…

Cláudia insistia nesse assunto há semanas. Eram colegas de magistério e dividiam a casa em Torres desde o Ano-Novo. Os maridos chegavam na sexta-feira, passavam o fim de semana e no domingo voltavam a Porto Alegre para trabalhar.

Cláudia estava no quarto casamento, mas Sílvia nunca se interessara por outro que não fosse Cornélio. Namoravam desde a adolescência e estavam casados havia 10 anos. Raramente brigavam. Cornélio era dedicado a ela como se estivessem eternamente no primeiro mês de namoro. Ela retribuía. Fazia-lhe surpresinhas culinárias, massagens depois do trabalho. Um casal quase perfeito.

Mas a insistência de Cláudia começava a surtir efeito. Sílvia pensava… coisas. Será que um outro homem seria tão diferente?

_ Tu só vai saber se provar – argumentava Cláudia, estendendo a canga na areia. – Hoje à noite nós vamos num barzinho e então vamos dar um jeito nisso.

_ Ai, Cláudia…

Cláudia escolheu até o vestido que Sílvia usaria. Um vestidinho diáfano, amarelo, que ressaltava a tez morena da amiga.

_ Tu estás um arraso! – elogiou. – Nenhum homem vai resistir.

- Ai, Cláudia…

O bar silenciou quando elas entraram, uma loira, outra morena, as pernas compridas e brilhantes. Mal haviam se encostado ao balcão e o garçom estava ao lado, salivando.

- Pois não?

- Scotch para as duas – pediu Cláudia, enquanto Sílvia tapava a boca com a mão.

- Uísque! Que louca! – Sílvia não era de beber.

Todos os olhares do bar tinham se derramado sobre as duas. Os dos homens com cobiça; os das mulheres caçando celulites. De repente, Cláudia apertou seu braço.

- Olhali!

- Quê?… – Sílvia olhou. Entravam dois homens, cerca de 40 anos, ambos.

- Olha o crespinho – indicou Cláudia. – Já está te secando! Estão vindo pra cá! Quando ele
chegar, dá uma letra.

- Ai, Cláudia! Eu não sei fazer isso!

- Claro que sabe, menina! É só dizer algo pessoal. Qualquer coisa. Pergunta as horas! Isso basta. Mas de um jeito meio malicioso. Assim: “Tens… horas?…”.

- Ai, Cláudia…

Trinta segundos depois, o homem estava a um metro de Sílvia. Olhava-a, mas não agia. Sentia o medo que os homens sentem diante das belas mulheres. Cláudia cutucava.

- Pergunta! – sussurrava. – Pergunta!

Até que Sílvia se decidiu. Virou-se devagar, sorriu e, como a outra ensinara, ciciou:

- Tens… horas?

No começo da madrugada, Sílvia, embriagada e gargalhante, descobriu-se no apartamento do seu novo amigo. Foi tudo muito rápido e muito fácil. Ele tomou a iniciativa. Apalpou-a, acariciou-a, despiu-a. Sílvia se entregou com sofreguidão, sentindo as delícias do pecado, a vertigem da traição. Depois de tudo consumado, adormeceu. Acordou aos primeiros raios de sol, e então o álcool e a culpa passaram a latejar em sua cabeça. Sílvia fugiu do apartamento antes que ele acordasse. Chegou em casa angustiada, correndo, temendo que alguém a visse. Sentia-se como se todos soubessem do seu erro monstruoso. Cláudia acordou à sua entrada.

- Como foi? – correu para perguntar.

- Não aconteceu nada! – gritou Sílvia, enfiando-se no banheiro. – Nada!

Ao sair do banho, Sílvia saltou sobre o telefone.

Ligou para o marido, aflita.

- Te amo! – bradou, ao primeiro alô. – Te amo! Vem pra cá hoje! Estou com saudade!

- Não posso, amor. Tu sabe: só sexta…

Sílvia desligou desconsolada, ainda murmurando te amo, te amo… Passadas duas horas, terminou contando tudo para Cláudia.

- Sou uma vagabunda! – dizia, enquanto Cláudia ria. – Uma vagabunda! E nem foi tão bom assim. O Nélio é melhor.

Aquela palavra, “vagabunda!”, ficou ecoando no seu cérebro durante todo o dia. Era uma perdida, pensava. Fora maculada para sempre. As cenas do pecado voltavam diante de
seus olhos. O desconhecido deitado nu sobre ela, o contato com a pele quente de um homem cujo nome sequer lembrava. Vagabunda! Vagabunda!

À noite, Cláudia decidiu intervir. Tomou-a pelos ombros.

- Chega de se lamuriar! Vamos a um restaurante comer algo e nos divertir um pouco!

Sílvia primeiro pensou em resistir, mas em seguida suspirou:

- Ai, Cláudia…

Foram. Pediram torféis cremosos por fora e crocantes por dentro.

- Isso é afrodisíaco – brincou Cláudia.

- Pára!

Na mesa ao lado, um homem solitário, por volta dos 45 anos, moreno e sorridente, passou o
jantar olhando para Sílvia.

- Ele não pára de te encarar – repetia Cláudia, de cinco em cinco minutos.

Aquilo perturbava Sílvia. Será que o homem sentira, de alguma forma, que ela… era uma…
vagabunda? A palavra ainda reboava em sua mente. Vagabunda… vagabunda… Estava perdida. Sim, perdida. Era uma pecadora sem salvação. Cláudia falava algo, mas ela já não ouvia. Seu coração batia apressado, pulsava na garganta, seu peito arfava. Ela se virou. Olhou para o homem. Continuava a encará-la. Ela entreabriu a boca. Pensou em insultá-lo. Ele sorriu. Ela suspirou. Sorriu também. E, afinal, perguntou:

- Tens… horas?