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O Código David: Por que deixei de acreditar no Coelhinho

08 de abril de 2012 5

A biologia foi responsável pela minha primeira desilusão de, digamos, ordem míticoreligiosa.
Aconteceu ainda nas sombras do primeiro grau, quando a professora de Ciências revelou que coelhos são mamíferos, e não ovíparos.
Ou seja: não botam ovos, nem os de gema e clara, nem os de chocolate.
Não podia, portanto, existir Coelhinho da Páscoa.
Não que acreditasse no Coelhinho.
Não se trata disso.
Falo aqui em verossimilhança.
Tomo como exemplo o meu filho de quatro anos.
Fim de semana passado, levei- o a Gramado para ver as festas da Páscoa.
Ele não se interessou muito por coelhos & ovos, preferiu um balão de Homem- Aranha.
Comprei para ele e voltamos ao hotel.
Bem.
Em certo momento, uma aranha do tamanho de um punho de homem apareceu na parede do quarto.
Tomei bravamente de um calçado e, plaf!, esmigalhei- a de um só golpe.
Depois, brinquei com meu filho dizendo que o Homem- Aranha estava furioso conosco devido ao assassinato da aranha.
Seu rosto se iluminou.
Percebi que gostou da ideia de o Homem- Aranha defender a própria espécie.
Começou, então, a construir variações em torno do tema.
Como o Homem- Aranha ia nos atacar durante a noite, como ele chamaria suas outras amigas aranhas para ajudá- lo.
Mais tarde, na hora do jantar, ele não queria comer algo, acho que alface.
Observei que o Homem- Aranha, um herói cioso da alimentação saudável, não ficaria satisfeito quando soubesse que ele estava rejeitando uma saborosa alface.
Ao que o guri balançou os ombros: – Ele é só um balão.
Ou seja: não é que meu filho acreditasse no Homem- Aranha, mas a história era verossímil.
Logo, tratava- se de uma boa história.
Assim, o caso pascoalino.
Um coelho adquirir superpoderes e sair pelo mundo a pôr ovos de chocolate, isso é verossímil.
Mas, se coelhos não podem pôr ovos, o fio da história se rompe.
Na minha infância, tentei imaginar uma Galinha da Páscoa, mas as galinhas, definitivamente, são seres subalternos.
Galinhas não são formosas, não voam, não têm garras ou dentes afiados.
Galinhas não são nem fofas como os coelhos.
Galinhas são seres desprezíveis, que apenas se tornam interessantes quando lhes torcemos os pescoços até a morte e depois as depenamos com água fervente, as estripamos até que fiquem secas por dentro, as esquartejamos com critério e as fervemos na panela para transformá- las em canja restauradora.
Ou então quando elas botam ovos.
Sim, galinhas botam ovos e só essa qualidade as poderia relacionar com a Páscoa.
Mas, como está provado, a Galinha da Páscoa não teria o menor apelo à imaginação infantil.
Por isso, já no primeiro grau me desiludi com a Páscoa.
Outras desilusões viriam na minha vida.
A vida é mesmo uma fieira de desilusões.

* A página "Código David" estreou na Zero Hora neste domingo, 08/04.