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Posts na categoria "Código David"

O traidor do rio

13 de abril de 2014 6

Sou porto-alegrense do subúrbio, da Porto Alegre dura de concreto. Minha avenida de referência, quando guri, era a Assis Brasil, com sua capa de fumaça sobre os ombros dos edifícios, seu baixo comércio de miçangas de plástico, seus ônibus sempre atrasados e sempre apressados, seus trabalhadores de olheiras roxas e pele cinzenta.

Não havia amenidades silvestres na minha Porto Alegre. O rio era uma paisagem distante, uma massa d’água amarronzada que derramaram detrás do muro. Para mim e para meus amigos, não havia braço de Porto Alegre que se estendesse para além da Cidade Baixa. A Ponte de Pedra, que os escravos construíram para que Dom Pedro II conseguisse viajar da urbe pulsante para a bucólica Zona Sul, essa ponte de pedra Dom Pedro a atravessou, nós não. Nós, só em dia de jogo. Era a Borges, era a Padre Cacique, era o Beira-Rio, e fim. Porto Alegre acabava ali.

Por isso, o rio ainda me surpreende, como já me surpreenderam certas mulheres delicadas, mulheres que surgem quebradiças e que, no entanto, sabem ser suores, furores e tremores. O rio é assim. O rio Guaíba, que nem rio é.

Arrependo-me, porto-alegrense arraigado que sou, de não ter vivido mais o rio. Dias atrás, foi o que fiz. Passei um dia inteiro à beira do Guaíba, fui levado de barco rio adentro, vi ilhas intocadas pelo homem, ilhas de macacos e jaguatiricas, ilhas de mato virgem e cerrado, impossível de cruzar. Singrei por águas senão cristalinas, limpas de beber. Prossegui até a Lagoa dos Patos e me embasbaquei. Esteve sempre ali, ao meu lado, uma paisagem tão linda quanto as mais lindas de Santa Catarina. Fiquei pensando: quantos tesouros estavam junto a mim e os perdi por procurá-los em algum lugar distante?

Quando voltei para casa, sentia-me encantado e um pouco triste. Sentia-me traidor do rio. Traidor por omissão e também por desprezo. E ainda dentro do carro, ao avistar a última ponta visível de água, na Praia de Belas, prometi me redimir. Prometi que, de agora em diante, tudo será diferente. Serei mais interessado, mais atencioso, mais carinhoso com o rio da minha cidade. Que, mesmo negligenciado, sempre foi o meu rio.

Foto/Mauro Vieira

Foto/Mauro Vieira

 

Tudo flui

Heráclito dizia que um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Era uma frase que servia de ilustração à sentença basilar da sua filosofia, baseada no seguinte princípio:

“Tudo flui”.

Assim, o rio muda a todo instante, e o homem que nele se banha muda também. Eu, hoje, não sou o mesmo que fui ontem (cá entre nós, espero ser melhor, mas não estou muito certo disso).

Heráclito sabia das coisas, mas era um filósofo muito brabo. Detestava os seus concidadãos, lá de Éfeso. Afastou-se deles, tornou-se um ermitão. Escreveu toda a sua obra sem que houvesse por perto um único ser humano com quem partilhar o mate. Depois de concluído o livro, depositou-o em um templo, aos pés de mármore da estátua da deusa. Os habitantes de Éfeso correram para ler o que ele escrevera e beber de sua sabedoria.

Leram.

E não entenderam nada – devem ter se sentido mais ou menos como me senti ao ler Ulysses, de James Joyce.

A partir de então, passaram a chamá-lo de  “O Obscuro”. É como chamo James Joyce.

Heráclito não era fácil, mas essa frase, embora possa ter outras interpretações, é clara e verdadeira:

“Tudo flui”.

Por isso, o rio Guaíba de hoje não será jamais o da minha infância. Por isso, aquele rio Guaíba eu o perdi.

Os frutos da água doce

Havia quatro rios no Jardim do Éden: os irmãos Tigre e Eufrates, o Ganges e o Nilo. Com o que você pode ver como era grande o Paraíso, uma vez que o Ganges fica na Índia, o Tigre e o Eufrates no Iraque, e o Nilo no Egito, os quatro formando uma suave meia lua entre o Oriente Próximo e o Oriente Distante, mas sempre no Oriente.

Lá era o Paraíso, e não o litoral catarinense.

Heródoto dizia que o Egito é uma dádiva do Nilo. Poderia dizer também que a civilização é uma dádiva dos rios da Terra. O Ganges é o rio sagrado dos hindus, que se banham nele em busca das bênçãos de seu milheiro de deuses. Tempos atrás o Ganges estava poluído, tal a quantidade de cadáveres que os indianos jogavam em suas águas, para que lhes servissem de mortalha. E foi na outrora faixa fértil entre o Tigre e o Eufrates, a chamada Mesopotâmia (“Entre Rios”), que nasceu a agricultura, a irrigação, a roda, a família – a Civilização.

Os homens levantam suas cidades onde há água de beber: Londres é a cidade do Tâmisa; Paris, do Sena; o Danúbio azul corta Viena; o Reno é o mais belo rio da Alemanha; as águas do Tibre já ficaram tingidas de vermelho do sangue dos legionários que os bárbaros passaram a fio de espada; o misterioso Amazonas não é um rio, é quase mar; e o Guaíba descobriram que é um lago, não um rio. Não gosto disso. Um lago é plácido, um rio corre, e o Guaíba corre, corre sempre, para algum lugar. Para algum lugar.

Deu pra ti, anos 70

30 de março de 2014 8

codigodavid

Eu vi a prisão do Marcos Klassmann. Ele era barbudo e cabeludo como um urso, e seus captores carregavam-no por braços e pernas, e ele se debatia com fúria de fera.

Cena forte.

Agora me ocorre: será que foi assim mesmo? Será que foi exatamente como lembro? Faz tanto tempo, eu era um guri e a memória nos engana. A memória é um prédio erguido depois do fato ocorrido, e sua matéria-prima são sentimentos e ressentimentos, crenças e ilusões. Já vi mulheres que amei me transformando em um edifício torto na memória delas. Não sou tão ruim assim, queria gritar, e parar a construção. Não adiantava, os tijolos de desprezo já estavam sendo cimentados.

E eu, eu fiz de algumas mulheres rainhas, semideusas do amor e, mais tarde, quando o tempo me afastou delas e delas só restou a imagem, as reencontrei e percebi, com desalento, que aquele monumento ao ser humano só existia dentro de mim, que ali, na minha frente, havia só uma mulher… igual a todas as outras. Triste. Um homem precisa acreditar que a vida pode ser especial.

Então, não sei se foi bem da forma como contei que se deu a detenção do Marcos Klassmann pelos esbirros da repressão. O que tenho certeza foi do que pensamos sobre os alegados motivos para que o arrastassem de seu apartamento no IAPI: sua agressiva campanha a vereador de Porto Alegre. Imagine que o slogan do Marcos Klassmann era o seguinte:

“Vote contra o governo”.

Quer dizer: Marcos Klassmann estava sugerindo que as pessoas deviam ser contra o governo. Uma afronta. Todos sabiam, nos anos 70, que ninguém podia ser contra o governo, que ser contra o governo era ser contra o Estado, contra o país. Vote contra o governo, no raciocínio de quem estava no governo, equivalia a dizer: vote contra o Brasil. Traição, traição. Ame-o ou deixe-o.

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Vote contra o governo. Tão revolucionário na época, tão pueril hoje. A vida se sofisticou, desde então.

Em 79, uma pichação se espalhou por muros e paredes de Porto Alegre:

“Deu pra ti, anos 70″.

No ano seguinte, o Giba Assis Brasil lançou um filme com esse título, mas tenho quase certeza de que as pichações não eram marketing, não antecipavam o filme. Aquilo era de fato a expressão de quem tinha sofrido nos anos 70, como o Marcos Klassmann.

Nós, não. Nós não tínhamos sofrido. Éramos guris, e só o que queríamos era correr atrás da bola durante o dia e das meninas durante a noite. Quando o Marcos Klassmann foi arrancado de casa e levado para algum calabouço sombrio do regime, nenhum de nós ficou escandalizado. Assustados, sim; penalizados, certamente; escandalizados, não. Aquilo era normal. Para nós, funcionava assim mesmo. Nós só conhecíamos a ditadura.

******************

Para nós, não havia nada de estranho, por exemplo, na figura do “pistolão”. O pistolão era um protetor, um homem que gozava de algum poder ou de alguma influência e que, graças a isso, resolvia os eventuais problemas que você poderia enfrentar no trato com o Estado, que, afinal, era quase absoluto. O Estado mandava em tudo e em tudo se infiltrava. O Estado, durante a ditadura militar, era muitíssimo parecido com um Estado comunista, o regime que os militares queriam desesperadamente evitar. O pistolão era o agente oficioso do Estado. Oficioso, sim; jamais clandestino. As pessoas se orgulhavam de contar com a bênção de um pistolão forte. Eram apontadas com inveja na rua:

— O pistolão daquele lá é um general.

Essa era a vida. Ninguém nunca tinha nos dito que poderia ser de outra maneira. Mas os anos 70 passaram e com eles passou o nosso tempo de guris, e começamos a ver que o mundo não precisava ser como estava posto, que havia um tipo de vida diferente em lugares diferentes. Mesmo que as coisas tivessem sido sempre daquela forma, não queria dizer que deveriam continuar a ser daquela forma.

Faz 50 anos que aquele regime foi implantado e 25 que deixou de existir. Hoje, uma geração inteira, como aquela nossa, não sabe o que é viver sob uma ditadura. Não sabe que, numa ditadura, um homem pode ser tirado à força de sua casa e atirado numa prisão só porque disse ser contra o governo. E os que sabem que isso aconteceu, mas que ainda assim se dizem saudosos daquele regime, esses são vítimas dos tais truques da memória. O velho regime, para eles, é como a minha antiga rainha, a semideusa que um dia amei: só existe na memória. Porque, na realidade, uma ditadura é… igual a todas as outras.

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UM MÊS DE TANTAS FLORES

Elvis morreu nos anos 70.

Elvis, the pelvis.

Mas Elvis não era mais dos anos 70, nos anos 70 ele estava gordo, suado e usando aquelas roupas estranhas, brilhantes, com golas imensas. Os anos 70 começaram com Beatles, seguiram sendo Rolling Stones, que os Stones são intermináveis, estremeceram com os punks dos Sex Pistols, mas foram mesmo, mesmo, da Discoteque. Pelo menos para quem era guri na Zona Norte profunda de Porto Alegre.

John Travolta! As minas queriam que você dançasse como o John Travolta. Mas eu, que não sou de danças, o que poderia fazer diante daqueles concorrentes com cintura de borracha?

Poesia. Não minha, dos outros.

Foi aí que aprendi uns poeminhas para impressionar na noite. Chegava um momento em que o som baixava e eu atacava:

“Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh, minha infância nunca teve flores!”

Augusto dos Anjos. Se você é duro para dançar, apele para o Augusto dos Anjos.

Código David: agora não existe mais homem

23 de março de 2014 4

codigodavid

Nas vascas da morte, Van Gogh clamava pelo amigo Paul Gauguin e, quando o fazia, referia-se a ele como “querido mestre”. Os dois moraram juntos em Arles. Passavam o dia pintando e discutindo, não raro brigando. Numa das brigas, Van Gogh sacou uma navalha e atacou Gauguin, que se esquivou a tempo. Van Gogh percebeu que se excedera e pediu desculpas em meio a lágrimas e soluços.

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Gauguin desculpou-o, mas, por cautela, mudou-se de cidade. Mais tarde, Van Gogh usaria aquela navalha em si mesmo. Gauguin era um idealista. Até os 35 anos, foi um pintor de fim de semana. Tinha uma bela mulher dinamarquesa e cinco filhos saudáveis, um bem remunerado emprego na bolsa de valores e respeito da sociedade. Mas sua paixão, realmente, era pintar. Então, largou tudo: mulher, filhos, emprego, prestígio, tudo, tudo para se tornar pintor em tempo integral. O que conseguiu com isso? Sofrimento, fome, doença e imortalidade. Valeu a pena? Bem, Gauguin não tinha a alma pequena.

Para desenvolver sua arte, Gauguin saiu mundo afora. Queria “viver como um selvagem”. Conseguiu. Pintou pelas esquinas mais sórdidas da Europa e pelos meandros da América Central. Acabou encantando-se pela paisagem feérica do Taiti. Tornou-se amigo dos maoris e amasiou-se com uma nativa. Pintava furiosamente, mas as misérias da existência faziam-no infeliz. Estava endividado, fraco e doente.

Um dia, tentou envenenar-se com arsênico, mas tomou uma dose excessiva e sobreviveu, não sem antes penar com dores excruciantes. Por fim, desentendeu-se com um militar branco, foi processado, condenado e preso. Morreu na cadeia, balbuciando:

— Agora não existe mais homem.

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Pintores. Já cevei projetos de escrever um livro sobre pintores. São seres humanos intensos. O título do livro seria essa frase derradeira de Gauguin, “agora não existe mais homem”. Pode ser interpretada de várias formas, o que é muito estimulante. Talvez começasse por Gauguin, recuasse um nada até os mestres impressionistas, muito mais até os renascentistas, avançasse de novo em direção aos cubistas e, entre idas e vindas, certamente passaria, e com orgulho, pelo meu amigo Ivan Pinheiro Machado. O Ivan é um hiperrealista. Observe a reprodução de um de seus quadros sobre Nova York, e se enleve. A partir de 7 de abril, você poderá vê-los a um metro de distância — o Ivan vai expor no Espaço Cultural Citi, em pleno bulício da Avenida Paulista. Essas coisas não são para qualquer um. O profundo conhecimento da arte não é para qualquer um. Se fosse, me aventuraria no projeto do livro sobre pintores. “Agora não existe mais homem”. Que frase poderosa. Que belo título.

As galinhas e o capitalismo

david2303_02A vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude. É claro que o fato de ela ser corcunda não é importante, decerto estou fazendo alguma coisa muito errada, isso de já na primeira frase, antes mesmo de citar o nome da pessoa, contar que ela é corcunda, e nem duvido que uma associação de defesa dos corcundas vá reclamar de mim, ou talvez queira me processar, mas, antes que alguém se enfureça, deixe-me explicar: eu era pequeno, quando dona Gertrude era vizinha da minha avó, e por essa razão o fato de ela ser corcunda me marcou muito, crianças são impressionáveis, não que aquela corcunda me atemorizasse ou enojasse, longe disso, a corcunda me fascinava, gostava que minha avó tivesse uma vizinha corcunda, sim, aquilo era interessantíssimo para mim, portanto, enfatizo com mais um golpe de dois pontos: respeito muito Dona Gertrude, sua descendência e todos os corcundas da cidade, mas, quando penso na antiga vizinha da minha avó, sempre me vem à cabeça: ela era corcunda e foi tão-somente por esse motivo que escrevi e torno a escrever, sem nenhuma maldade: a vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude.

Elas moravam em casas contíguas, os quintais apartados por uma cerca de madeira, e ambas criavam galinhas, o que é relevante para o que vou contar a seguir. Havia certo contencioso entre a minha avó e a Dona Gertrude. Por que, nem sequer suspeito. Essas coisas de vizinhos. Sei que era algo não dito, algo escamoteado. Publicamente, minha avó e Dona Gertrude pareciam cultivar relações amistosas, mas, em privado, elas se acicatavam. Uma rivalidade surda e quase sempre inofensiva, até que minha avó descobriu uma forma solerte e especialmente dolorosa de atacar Dona Gertrude: quando uma das galinhas dela, da Dona Gertrude, passava a cerca para o lado de cá, minha avó a capturava e, em um segundo, sem piedade, torcia-lhe o pescoço.

De um único golpe, executava a galinha desgarrada, que falecia sem um có. Ato contínuo, minha avó levava o corpo para a pia da cozinha e escaldava-o com água fervente, para lhe retirar as penas. Ainda hoje lembro do cheiro enjoativo de pena queimada. Aquela galinha sequestrada infalivelmente seria servida no domingo, com arroz. Uma delícia, mas tantas vezes repetida que me tornei infenso a pratos com galinha e demais aves pelo resto da vida.

Você pode dizer que minha avó era uma ladra de galinhas vulgar. Nada disso. Minha avó estava empenhada numa guerra de guerrilhas. Uma guerrilheira, era isso que ela era. Na verdade, ela fazia uma expropriação da galinha do inimigo para lhe abalar o moral. E dava certo. Lembro de quando minha avó e Dona Gertrude levavam as cadeiras para a calçada e ficavam sentadas em frente das respectivas casas. Dona Gertrude, de repente, lamentava:

— Minhas galinhas andam sumindo…

Minha avó retrucava:

— Tem que cuidar bem das suas galinhas…

E meu avô, que não sabia de nada, coçava a cabeça:

— Que conversa é essa?

— Nada, nada — despistava a minha avó. E passava-lhe o mate. Uma guerrilheira. Uma sagaz, ladina, invencível guerrilheira. Vendo hoje os black blocs acreditando que quebrar vitrine de banco pode derrotar o capitalismo, percebo o quanto eles teriam a aprender coma minha avó.

Código David: o melhor de todos os nomes de mulher

16 de março de 2014 5

Gosto de nomes de mulheres com vogais explosivas. Débora. Bárbara. Mulheres proparoxítonas. São nomes bons para personagens.

“Naquela noite, Débora espetou um olhar oblíquo e acastanhado no fundo dos meus olhos assustados, e ronronou:

— Hoje é o seu dia de sorte, garoto.

Ainda escrevo uma história assim.

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A Rainha do IAPI chamava-se Débora. Era um pouco mais velha do que nós, era linda, era soberana como toda rainha deve ser e nunca, jamais, em tempo algum nos deu a menor bola murcha, no que estava absolutamente certa — Débora, para qualquer um de nós, seria como o INSS: inadministrável.

Imagino que Débora, hoje, deva estar vivendo em Montecarlo, casada com algum empresário alemão riquíssimo. Ou com algum Prêmio Nobel de qualquer coisa. Não, não, Débora não aceitaria menos do que um Prêmio Nobel. Se hoje Débora for uma funcionária, se assinar livro-ponto, se for casada com um socialista, se receber salário, se não estiver pelo menos a palmo e meio dos píncaros da glória, por favor, não me contem. Não azedem o meu doce passado.

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Isso de nomes. Os romanos em geral tinham três: o prenome, o nome e o cognome. Marco Túlio Cícero. Durante a República havia só 18 prenomes, por isso eles usavam o cognome para se diferenciar. Podiam acoplar quantos cognomes quisessem, uns sobre os outros, inclusive repetindo-os.

Descobri, num livro, um cônsul romano do II século a.C. que se denominava Quinto Pompeu Senecio Róscio Murena Coelho Sexto Júlio Frontino Sílio Deciano Caio Júlio Êuricles Herculano Lúcio Vibúlio Pio Augustano Alpino Bélico Solers Júlio Aper Ducênio Próculo Rutiliano Rufino Sílio Valens Valério Níger Cláudio Fusco Saxa Amintiano Sósio Prisco, mas todo mundo o chamava de Zé.

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O nome original de Roma era Sete Montes. Em cerimônias religiosas herméticas, mas muito herméticas, os sacerdotes se referiam à cidade pelo seu palíndromo: Amor.

Uma vez um tribuno revelou esse segredo e foi crucificado. Os homens do WikiLeaks se dariam mal, se fossem romanos.

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Nomes de mulheres são mais bonitos do que os de homens. Admiro o Olívio Dutra, que teve a coragem de colocar no filho o nome do libertador dos escravos da Roma republicana: Espártaco. Nome forte e raro.

Aliás, o general que finalmente derrotou Espártaco, Crasso, teve seu nome eternizado não por essa vitória, mas por uma derrota. Ele errou ao atacar os terríveis partos, teve suas legiões dizimadas, foi morto e, desde então, um erro grave é chamado de “erro crasso”. Benfeito.

Gosto do libertador Espártaco e gosto também de outro libertador, Emiliano Zapata. Quase pus no meu filho o nome de Emiliano. Se tiver outro, quem sabe?

Mas preferia dar nome a uma menina. Tão lindos os nomes de meninas, tão sonoros.

Bruna é morena; Yasmin é uma flor; Vanessa, uma borboleta; e Melissa, abelhinha. Bianca, simplesmente, é branca, Sofia é o nome da sabedoria, Beatriz faz feliz, enquanto Márcia faz a guerra e Laura, por fim, é a vitoriosa.

Catarina. Sempre quis chamar minha filha de Catarina, hoje não tenho mais tanta certeza. Catarina é casta. Catarinas foram grandes rainhas. Catarina de Médici era florentina e ensinou a sofisticação a Paris. Catarina, a Grande, era alemã, reinou sobre todas as Rússias e, de casta, nada tinha — precisava repoltrear-se, espadanar-se e refocilar-se no pecado carnal pelo menos seis vezes ao dia, ou seu corpo imperial não se saciava.

Virgínia, obviamente, é virgem, mas me parece cínico, nos dias de hoje. Valéria é cheia de saúde, mas era o nome de Valéria Messalina, que, além de saúde, tinha muita disposição, a ponto de se tornar sinônimo de luxúria.

Cleópatra é a glória do pai, mas estaria depositando muita responsabilidade nos ombrinhos da menina. Meu amigo Zé Pedro Goulart deu à filha o nome da cidade luz, Paris. Bonito. Bonito. E, agora, pensando no Zé Pedro e em sua bela filhinha, concluo que o nome da maior cidade da civilização talvez seja o mais perfeito nome de mulher: Roma, a cidade eterna, pode bem ser uma mulher, qualquer mulher, que, em segredo, chama-se Amor.

No dia da mulher, o homem superior

09 de março de 2014 6

Assisti a uma entrevista do autor da música “Lepo Lepo” afirmando que a intenção da sua obra é “dizer não ao capitalismo”. Não havia reparado na natureza contestatória da canção. Fui pesquisar e, de fato, na letra o protagonista conta não ter carro nem casa, reclama que seu salário está atrasado e avisa que vai falar a respeito da sua precária situação financeira com a amada. Por fim, deduz: se ela ficar com ele, é porque gosta do seu “lepo lepo”.

É o sonho de todo homem. Que as mulheres não fiquem com ele por causa de dinheiro ou status, mas apenas e tão-somente devido à excelência de seu lepo lepo. O lepo lepo dele é tão bom que elas não conseguem abandoná-lo, mesmo que esteja falido, mesmo que seja um pangaré.
Mas, infelizmente, não é assim que funciona. As mulheres, seguindo a lei da preservação da espécie, procuram o mais forte. O Homem Superior de Nietzsche. Aquele que vai lhes proporcionar a descendência com maiores condições de sobreviver. E quem é o mais forte no Século 21? Que tipo de homem despertará nela os formigamentos do instinto de reprodução? Depende do que a mulher sente. Não do que pensa, não do que crê; do que ela sente. Talvez ela não saiba por que, mas ela SENTE que as qualidades apresentadas pelo candidato em questão, no caso, você, são as melhores para sua prole futura. Então, gol do Brasil. Você será o escolhido.
Portanto, de nada adianta ter um invejável lepo lepo, se você é mesmo um pangaré. Você terá de ser superior, para aquela mulher. “Homens superiores, dominai as virtudes enganosas!”, gritava o Zaratustra de Nietzsche. “Dominai as considerações com os grãos de areia, o bulício das formigas, a ruim complacência, a ‘felicidade dos outros’! A ter de vos renderdes, preferi desesperar!”
E é verdade! A vida é capitalista. O instinto das mulheres, que é o que move a roda do mundo, é capitalista. Não acredite nessa balela feminista de igualdade. Isonomia, sim; igualdade, jamais. Não somos iguais. Não acredite no sonho dourado do Lepo Lepo. Você pode ser lepolepado, você pode ser uma vítima do prazer; ela, não. Seja superior, portanto. Nietzsche e as mulheres anseiam pelo Homem Superior.

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ELA NÃO GOSTA MAIS DELE

A propósito das mulheres, recebo o email de um amante desafortunado, um triste homem que escreveu uma linha, nada mais, uma única linha, e tão desesperada:

“Será que ela realmente não gosta mais de mim?”

Fiquei compadecido com a dúvida do leitor. Creio que se trata de uma pergunta retórica. Como poderei saber se ela realmente não gosta mais dele, se não o conheço, nem a ela? Suponho que fez a pergunta numa gana de desabafo, ou talvez esperando um consolo vago, querendo que eu dissesse: “Calma, ela gosta ainda”. Mas, desculpe leitor, não posso fazer isso. Reparo, pela maneira como você formulou a pergunta, que ela já disse ou demonstrou que não gosta mais de você. Não fosse assim, você não engastaria na frase aquele perturbador advérbio de modo: “realmente”.
Então, ela agora deve estar com outro, ou não deve mais pensar em você, tanto que não liga, não manda email, nem mensagem pelo celular, não é mesmo? E, se for assim, de nada adianta você lhe mandar as flores mais deslumbrantes nem lhe dizer as mais deslumbrantes palavras. Ela não se deslumbrará. Não adiantaria sequer se você fosse um Neruda e declarasse para ela um poema apaixonado:

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo”.

Não, nada disso adiantaria, nada disso adianta, porque ela não gosta mais de você. Ao seu verbo bem lapidado ela prefere a frase manca daquela formiga buliçosa que comete erros de português no Facebook. Por quê? Vá saber. Mistérios do instinto de preservação da espécie. Não, rapaz. Para ela, você não é mais o Homem Superior.

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SAFO, DE LESBOS

Safo, a grande poetisa da ilha de Lesbos, não era uma mulher bela. Os gregos diziam que era pequena demais, morena demais (os gregos gostavam de loiras). Mas, quando escrevia, Safo seduzia. E, como estamos falando de mulheres, dor e amor, não há como não citá-la, ela que foi a maior escritora da antiga e boa Grécia.
Sólon, o famoso legislador, ao ouvir um verso escrito por Safo, disse que precisava desesperadamente que alguém o ensinasse a recitá-lo. Perguntaram por que tanta ansiedade, e Sólon respondeu:
_ Quero aprender, e depois posso morrer.
Platão a chamava de “a décima musa”, Plutarco dizia que suas palavras “vinham misturadas com chamas” e, depois de sua morte, os habitantes de Mitilene cunharam uma moeda com sua efígie. Alceu, o poeta mais popular daquele animado sexto século antes de Cristo, apaixonou-se por ela. Enviou-lhe uma carta fremente:
“Oh, pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso, queria dizer-te algo, mas a vergonha me impede”.
Safo respondeu à altura:
“Se teus desejos fossem decentes e nobres e tua língua incapaz de proferir baixezas, não permitirias que a vergonha te nublasse os olhos, dirias claramente o que desejas”.
De qualquer forma, deu certo. Safo e Alceu encetaram um romance. Mais tarde, ela se casou com um homem rico, que providencialmente não tardou a morrer, deixando-lhe alentada herança. Rica, Safo abriu uma escola de poesia para moças em Lesbos e, ao apaixonar-se por uma das alunas, tornou a ilha célebre por toda a posteridade. Um trecho de um poema de Safo talvez fizesse o milagre que meu leitor abandonado espera:

“Basta que por um instante eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça.
Sim, basta isso para que minha língua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos.
O suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor
se apodera de todos os meus membros e, mais lívida
que a outonal folhagem, estorcendo-me nas dores da agonia,
desfaleço, perdida no êxtase do amor”.

Mande isso para ela, triste leitor, e ela voltará.

Queria escrever sobre o tomate

01 de março de 2014 5

O tomate. Hoje queria escrever sobre o tomate. Veio das Américas, como a adorada batata. Você sabe a história da batata, já contei e recontei como a batata atravessou impávida o oceano e atingiu a glória na Europa graças ao amor da índia Potato (batata!) por um gaiato marujo do navio de Francis Drake, o pirata conquistador que conquistou terras, metais preciosos e o coração de Elizabeth I, a Rainha Virgem, que só era virgem porque não se casou e porque, dizem certos historiadores, sofria de hímen complacente, terrível mal. Alguns médicos se ofereceram para romper a bisturi o hímen real, mas, num tempo sem anestesia, a soberana, inteligente e cautelosa, preferiu ficar com a fama de virgem eterna, o que rendeu inclusive a denominação de um estado norte-americano, a Virgínia.

Mas queria escrever sobre o tomate e me prendo a himens e batatas, o que, aliás, é natural devido à admiração planetária quase unânime por elas, e aí me refiro às batatas, não aos himens, que himens já renderam polêmica, mas hoje não mais, pelo menos não no Ocidente civilizado, enquanto a batata, ah, essa sim é apreciada por todos em suas várias formas de preparo, sobretudo as fritas, quem não gosta de batata frita e Beatles?

Verdade, a Mariana Kalil não gosta de Beatles, mas não ingressarei neste terreno pantanoso das preferências musicais, continuarei, firme e reto como o caminho da virtude, a falar do tomate, mesmo que a batata tenha desviado minha atenção com seus ardis. Por sinal, há uma crença bastante sólida de que tudo o que se faz com batata pode ser feito com aipim. Você sabe: aipim, mandioca e macaxeira, os três são, na prática, a mesma coisa, como pandorga, pipa e papagaio. Aipim e pandorga, no entanto, seriam “mais gaúchos”. Seriam? Acho que não. Pandorga vem do espanhol e significa “mulher barriguda”, imagino que barriguda de grávida, não de chope. Tem lógica: a pandorga (pipa, papagaio) lá no céu, infla como uma mulher barriguda. Já o aipim vem do tupi, e quer dizer “que brota do fundo”. Também tem lógica, uma vez que o aipim, como a batata, é um tubérculo. Será que é por isso, porque ambos são arrancados à carne da terra, que o que se pode fazer com uma pode-se fazer com outro? Talvez, mas, honestamente, tenho de admitir a vantagem da batata nos quesitos suavidade e sabor. Donde a unanimidade: todos amam batata frita, inclusive a Mariana Kalil, e nem todos são adeptos do aipim frito.

Suponho que a defesa encanzinada do aipim seja uma manifestação de ufanismo, já que o aipim, parece, é autóctone, nasceu no Brasil, mais precisamente na Amazônia, e daí migrou América acima. Certo. Trata-se de um nacionalismo. Mas vá pedir aipim em um bistrô francês. Ninguém saberá do que se trata. Já a batata… Não, não, é preciso reconhecer: a batata nos venceu. Aos vencedores, as batatas.

Mas queria falar do tomate, o Pomo d’Oro, como bem definiram os italianos. Pomo. Uma fruta, decerto. Na Coreia do Sul é assim que o comem: como a fruta que representa todas as frutas, a maçã. Quando estive na Coreia na Copa de 2002, o pessoal da Rádio Gaúcha convenceu a dona de um pequeno restaurante de Ulsan a preparar uma salada como no Brasil, com alface, cebola e tomate cortado em finas rodelas. Ela fez, mas achava tão estranho que chamava a vizinhança para ver os brasileiros comendo.

Mas eles estão certos, tomate é uma fruta, Eu, quando guri, chegava esfaimado do jogo de futebol e metia a cabeça na geladeira à procura do tomate perfeito. Não podia ser verde demais, nem maduro demais. Tinha de ser inquestionavelmente vermelho, porém macio e rijo como uma mulher de 22 anos de idade. Ah, a mulher de 22 anos de idade está no auge. Se você tem uma mulher de 22 anos de idade precisa saber que ela, como o tomate, é uma fruta de ouro e tem de ser apreciada com sabedoria. Os italianos souberam fazer isso, e agora não me refiro às mulheres de 22 anos de idade, já que meu assunto é o tomate, e é dele que queria falar.

Sim, os italianos tornaram nobre o tomate, algo que de maneira alguma me surpreende: os italianos moldaram o mundo. Primeiro, durante um milheiro de anos, com a força, graças ao poder físico das suas legiões. Depois com a fé, graças ao poder espiritual do catolicismo. E, ao raiar do Renascimento, com a beleza, graças ao poder sensual das artes. Homens com essa sensibilidade, com essa inventividade, com esse gênio, só homens assim seriam capazes da grande criação:

O Molho de Tomate.

E então cheguei aonde queria chegar desde o começo: ao molho de tomate. Porque um molho de tomate preparado com critério, tendo por base um refogado de cebola e alho, sendo nessa alquimia acrescido o sabor de pequenos cubos de carne vermelha adrede picados, bem temperado com um uma pitada de pimenta do reino e um quase nada de sal, esse molho, quando deitado sobre um prato fumegante de macarrão, depois de polvilhado por queijo parmesão uruguaio ralado na hora, esse molho, se você é o autor desse molho, como fui, modestamente, outro dia, ah, esse molho seduz mulheres de 22 anos de idade, encanta homens, enfeitiça crianças, faz o sucesso de uma noite com amigos do peito, pode consagrá-lo socialmente. Eu sei, porque o cometi, o molho de tomate inefável. Por isso, tinha falar do tomate. E o fiz. Loas ao tomate. Ele pode nos fazer grandes.

Aconteceu no verão

22 de fevereiro de 2014 5

Sua mesa era pequena, mesa para dois, colada à parede do bar. Ela bebia um copo de cerveja e, às vezes, num gesto casual, espetava com um palito azeitonas pretas ou cubos de queijo amontoados num pires.
Era terça-feira. Noite de tango no Odeon.
O bandoneonista, o velho Rafael, pequeno e encurvado debaixo de seus cabelos totalmente brancos, parecia remoçado, parecia um adolescente, agora que se deleitava ao tocar seu instrumento e ao ouvir os aplausos dos poucos clientes do bar. E Dionara, a pianista, Dionara se transformava em uma diva do Prata quando os dedos corriam sobre as teclas brancas e pretas.
Ela, a moça da mesa ao lado, ouvia a música sozinha e calada, e bebia sem pressa a sua cerveja. Tinha um rosto bonito, os cabelos presos num coque amarrado na nuca e vestia-se como se estivesse em casa: uma camiseta larga sobre as calças jeans. Depois de alguns minutos, colheu o copo da mesa, levantou-se e caminhou até a porta. Parou na calçada. Encostou-se à parede do bar. Apoiou o copo numa espécie de guarda da porta e acendeu um cigarro. Ficou olhando os músicos, ouvindo o tango, fumando. O vento lhe desalinhava os cabelos, e ela vez ou outra enchia os pulmões com o ar da noite. Em meio a um tango mais triste, entre tantos tangos tristes, ela entreabriu os lábios e seu rosto enrubesceu de leve. Então, vi. Seus olhos ficaram rasos d’água. Não chegou a chorar. Quase. Mas não chegou a chorar. Terminado o tango, ela voltou à mesa colada à parede, pediu a conta, pagou e saiu em silêncio, carregando, devagar, o peso da sua nostalgia.

NA PISCINA
Meu filho Bernardo, de seis anos, foi convidado para refrescar-se do calor sul brasileiro na piscina da casa de uma amiguinha da mesma idade. Lá estavam ele, a amiga e outra menininha encostados na borda da piscina, quando uma delas desafiou:
_ Vamos ver quem chega mais rápido à outra borda?
O B desdenhou:
_ Não, não… Estou muito velho pra essas coisas…

NO MUNDO DO FACEBOOK

Nos calores dos albores de fevereiro, entrei no Facebook. Meu fake cedeu-me generosamente a senha da minha própria página e passei alguns dias fresteando por esse novo e estranho mundo.
Juro que nunca cevei preconceitos contra o Facebook, meu problema é falta de tempo. E, olha, reconheço e festejo sua utilidade. As pessoas têm necessidade de se expressar, e nem todo mundo escreve em jornal e fala na rádio e na TV. Trata-se de uma ferramenta tão poderosa que muitos dos meus colegas jornalistas confundem redes sociais com imprensa. São coisas diferentes. As redes sociais inevitavelmente têm de ser horizontais e a imprensa inevitavelmente tem de ser vertical e… mas isso é conversa técnica. Não interessa.
O que interessa é o mundo palpitante do Facebook. Que nem sempre é palpitante. Ora é, como diria o Eça, uma maçada, não muito diferente do real, vivido no dia a dia, no olho no olho. Mas em um aspecto é um mundo especial: é nele que as pessoas dizem como gostariam de ser e como querem que os outros as vejam. Cada post, cada foto tem um recado subjacente, uma informação sobre aquele ser humano. Valeria um estudo antropológico e psicológico mais profundo. Que eu não teria competência para fazer.
Resta-me o desfrute. Que não é pouca coisa. Neste lufa-lufa, como diria o José de Alencar, descobri ninguém menos do que ela…
…A Rainha do Facebook. Chama-se Isadora Neumann, trabalha na Zero Hora e, nunca pensei que diria isso de uma pessoa, posta como poucos postam. Isa lança pela vida digital diamantes diários. Zuckerberg deveria pagá-la por isso. Aprenda:

“No bar.
_ Bruna, por que na tua comanda está escrito “Carol”?
Bruna:
_ Porque tô entediada.”

“Acabei de usar ponto e vírgula. Pronto. Virei uma pessoa séria”.

“Ontem eu descobri que “saudade” não existe só em português, e agora eu não acredito em mais nada que me dizem”.

“Problemas da era digital.
Bruna Scirea está P da cara porque não consegue enviar e-mails para FêCris que está sentada na sua frente”.

“Por um mundo com brigadeiro de cerveja”.

“E eu sempre achei que couve era alface”.

“Não vou revelar onde estou, mas respeito muito um estabelecimento onde a senha do wi-fi é DEPUTAMADRE”.

“Só agora me dei conta: não existe onço, só onça”.

Viu? O mundo digital pode ser mais colorido.

Das entranhas da terra

16 de fevereiro de 2014 5

O Marcelo Rech contou que, certa vez, durante a recuperação de uma cirurgia, leu o alentado livro do Antony Beevor sobre a Batalha de Stalingrado. Fez isso como medida terapêutica, para aliviar-se da dor, e funcionou. Marcelo sentiu-se reconfortado porque, afinal, ninguém poderia sofrer mais do que os que verteram sangue, suor e lágrimas na Batalha de Stalingrado.

Trata-se de um episódio célebre e dramático da II Guerra Mundial. Já havia lido alguma coisa e visto filmes a respeito. Um deles, ótimo, em que Jude Law e Ed Harris interpretam dois franco-atiradores inimigos perseguindo-se pelas ruínas da cidade. Ocorreu mesmo esse duelo. Havia muitos franco-atiradores famosíssimos naquela guerra e esses dois, em especial, carregavam, junto com seus rifles, a fama de infalíveis. O russo, no caso Law, venceu. Seu fuzil com mira telescópica está exposto num museu da Rússia.

Stalingrado agora se chama Volgogrado, porque ela se deita às margens do grande Rio Volga. É a cidade em que nasceu Yelena Isinbayeva. Já contei que estive a palmo e meio de distância dos olhos lilases de Yelena Isinbayeva? Que respirei seu hálito de maçã verde? Uma experiência antropológica.

Volgogrado também é a cidade em que as terríveis mulheres-bomba denominadas “viúvas negras” andaram se explodindo, matando várias pessoas, semanas atrás. Eu mesmo já fui explodido por uma mulher-bomba, mas isso é outra história, nada tem a ver com Volgogrado ou, o que mais interessa, Stalingrado.

Porque li o livro de Antony Beevor, talvez também para refrigerar-me a alma. É mesmo assustador. Os bombardeios da Lutfwaffe destruíram a cidade, só restaram escórias. Os defensores, porém, conseguiram resistir, mas Stálin só alcançou essa façanha enviando levas de homens para o sacrifício, como ondas humanas. E então, depois de meses, numa contraofensiva histórica, os russos cercaram completamente o Sexto Exército Alemão. Milhares de soldados alemães viram-se em situação crítica e fatal, atacados por piolhos, ratazanas e por todo tipo de doenças, morrendo de fome, de frio e de exaustão, alguns enlouquecendo a ponto de tentar o suicídio.

Para aumentar ainda mais a pressão, os russos adotaram uma estratégia curiosa: à noite, colocavam no gramofone uma melodia que julgavam sinistra, o bravo tango argentino, que se evolava de alto-falantes próximos às trincheiras alemãs. Deu certo. Os alemães foram se deprimindo e alguns choravam de saudade da mulher e dos filhos que não veriam jamais.

No Natal, os soldados alemães tentaram se reanimar cantando eles mesmos uma música. Ironicamente “Noite feliz, noite de… paz”.

Mas o que mais me comoveu, mais do que as mortes, as mutilações, as glórias e os dramas, foi a história de um médico e sacerdote alemão que pediu para que os soldados cavassem um espaço maior em sua casamata, e lá instalou um piano. E assim, durante grande parte dos dias de sangrento combate ou mesmo nas noites de feroz bombardeio, enquanto os homens urravam de desespero, clamavam por suas mães, como garotos desamparados, ou ficavam mutilados para sempre, enquanto cenas de dor infinita se passavam na superfície gelada, enquanto isso, o som doce e melancólico do piano brotava de dentro da terra. Como deve ter sido bela e estranha aquela música que vinha do nada e envolvia homens que matavam e morriam. Como é consolador saber que, mesmo vivendo no inferno, o homem ainda consegue exercer a sua Humanidade.

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O poema de Drummond

A Batalha de Stalingrado ocorreu entre 1942 e 1943. Stálin, a quem a cidade homenageava com seu nome, ainda era o herói do comunismo internacional. E, bem, ele estava lutando contra o nazismo, podia-se dizer que, pelo menos daquela vez, Stálin lutou pela liberdade. Ou, melhor, do lado dos que lutavam pela liberdade.

Os comunistas de todo o mundo exultavam com a resistência dramática e feroz de Stalingrado, que acompanhavam sequiosos pelos jornais. Entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade, que teceu um poema em homenagem à
grande batalha. Ei-lo, devidamente editado:

 “Stalingrado…

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,

e o hálito selvagem da liberdade

dilata os seus peitos, Stalingrado,

seus peitos que estalam e caem,

enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.

Os telegramas de Moscou repetem Homero.

Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo

que nós, na escuridão, ignorávamos.

Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,

na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,

no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,

na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.

Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.

Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.

Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.

Saber que vigias, Stalingrado,

sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes

dá um enorme alento à alma desesperada

e ao coração que duvida.

(…)

As cidades podem vencer, Stalingrado!

Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.

Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.

Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,

a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem”.

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Cachorros-bomba

Há homens-bomba, mulheres-bomba e os russos intentaram os cachorros-bomba. Eles pegavam cães de várias raças e só os alimentavam colocando comida debaixo de grandes veículos. Então, quando os alemães vinham com seus panzers, os russos amarravam explosivos em volta do corpo desses cachorros e, em suas costas, espetavam uma vareta que acionava a bomba. No momento em que os tanques apareciam, eles soltavam os bichos. Que iam correndo para debaixo dos panzers, achando que lá encontrariam comida. Assim que se metiam entre as esteiras, a vareta batia no chão do tanque e, pronto, lá se ia panzer, cachorro, alemão, tudo. Muito engenhoso. Mas, claro, naquele tempo não havia protetores de animais.

Você sabe o que sua mulher fez?

08 de fevereiro de 2014 2
Entre as minhas ignorâncias várias estava a de não saber da existência dos beliebers. Descobri isso indo para os Estados Unidos, mas esse… movimento?… é movimento? Seja. Esse movimento existe no Brasil também. Existe em grande parte do mundo, vasto e estranho mundo.
Beliebers. Uma contração em inglês de “eu acredito em Justin Bieber”. Como quem acredita em Jesus, por exemplo. Isso significa que Justin Bieber tem seguidores. Ou apóstolos. Algo assim.
Nunca pensei que tal fenômeno fosse possível. Justin Bieber sendo um guru, um farol de sabedoria, um pastor a guiar seu rebanho que o segue balindo, fiel, amoroso, agradecido.
Entendo a devoção das pessoas por músicos. A música toca direto nos sentimentos, e é difícil quem não se deixe enlevar por uma melodia que desperte nostalgia, tristeza, excitação ou euforia. Mesmo os mais inteligentes se comovem com a música e passam a amar os músicos sem que eles precisem falar, só cantar ou tocar. Nietzsche era uma espécie de devoto de Wagner. Conheceu-o, tornou-se meio que um discípulo dele, mas, depois da convivência mais próxima e da decepção, acabaram rompendo, e Nietz passou o resto da vida falando e escrevendo mal do seu antigo ídolo.
Peninha, o Eduardo Bueno, ama Bob Dylan. Mas AMA, de suspirar com o olhar perdido no vento. O Peninha é um homem de paixões, vide seu afeto explosivo pelo Grêmio.
E há mulheres maduras que se rasgam pelo Rei, ou pelo Chico, ou por Beatles e Rolling Stones.
Certo.
Mas Justin Bieber?
Como a mulher leviana, Justin Bieber não parece merecedor de amores imortais. No entanto, há quem o ame, que faça sacrifícios por ele e que, oh, tempora!, oh, mores!, mate-se por ele. Sério: pessoas se suicidaram por causa de dissabores vividos por Bieber, como sua recente prisão por excesso de velocidade.
Agora reflita sobre essa informação, perplexo leitor: alguns jovens se suicidaram, ou tentaram o suicídio, motivados por vicissitudes enfrentadas por Justin Bieber. Nos Estados Unidos existe até um serviço assistencial que tenta convencer as pessoas a não se matarem por causa de Justin Bieber. O que deve ser tarefa muitíssimo pedregosa. Afinal, quem tenta se matar por causa do Justin Bieber deve ser alguém de convicção sólida. Não consigo nem imaginar o que eu argumentaria para convencer essa pessoa a não se matar por causa do Justin Bieber. É provável até que acontecesse o contrário: ela me provaria que estava certa e eu cederia:
_ Tá bem. Morra por causa do Justin Bieber.
É lógico que você chegou à mesma conclusão que eu: o mundo se divide em pessoas que tentam o suicídio por causa de Justin Bieber e pessoas que não tentam o suicídio por causa de Justin Bieber. Isso é óbvio.
Digamos que você esteja no segundo grupo. E que daqui há 10 ou 20 anos você conheça um belieber sobrevivente. Ou seja: alguém que tentou se matar por Justin Bieber e não conseguiu, ou foi convencido a não fazê-lo. Esse belieber suicida vivo pode se tornar seu vizinho, ou seu chefe, ou seu sogro, ou sua namorada. Pode influenciar sua vida, pode modificá-la, pode ser decisivo para você, e talvez você nunca descubra que aquela pessoa é um belieber suicida vivo. Você já pensou nisso? Já pensou no tanto que não sabe sobre a pessoa que está ao seu lado? Já pensou que existem informações fulcrais sobre, digamos, o seu cônjuge, que ele jamais deixaria que vazassem, sobretudo para você?
Olhe para a mulher que está agora ao seu lado, ronronando. Você sabe tudo o que é importante sobre ela? Tem certeza? Como ela se comportaria num momento de crise? Pense bem.
É por isso que tanta gente se surpreende ao fim de um relacionamento. Antes é tudo tão belo, tão… lógico. Mas, de repente, aquela mulher que era toda paixão se transforma numa estranha, em alguém que você não reconhece, às vezes fria e indiferente, às vezes perigosamente hostil. Aí vem um amigo e finalmente revela:
_ Não queria te dizer antes, mas ela é uma ex-belieber.
Eis! Eis! Por que ninguém contou isso antes? É assim, quem mais tem interesse é sempre o último a saber.
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A CÍTARA
A música acalma os loucos e as feras. Mesmo. Meu xará de 30 séculos atrás, o rei David, antes de ser rei, quando menino, 17 anos de idade, ele servia ao primeiro rei de Israel, Saul. Este Saul, no começo ele era um monarca justo, mas aos poucos foi ficando neurótico, como sói acontecer com monarcas. Era tomado por acessos de fúria que só se aplacavam quando ouvia a suave melodia da cítara. Bem. David era exímio tocador de cítara, e foi convocado para acalmar o rei. E conseguia, até que se meteu a matar filisteus. Então, as mulheres, nas ruas da cidade, cantavam: “Saul matou mil, mas David matou dez mil!” Assim como a música da cítara acalmava o rei, a musiquinha das ruas o irritava. Por duas vezes, Saul atirou uma lança contra David, quando David tocava para ele. David esquivou-se das lanças, acabou fugindo, rebelando-se e tornando-se ele próprio rei.
Esse foi o caso louco.
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O VIOLINO
Agora as feras.
Na cidade em que morava Schopenhauer quando menino havia um armazém que, à noite, era guardado por cães ferocíssimos. Um dia, um violinista bêbado fez uma aposta em um bar e, para pagá-la, pulou o muro do armazém e o invadiu, trocando pernas. Em um segundo, viu-se cercado pelos monstros, que rosnavam com os dentes afiados à mostra, prontos para dilacerá-lo até que virasse guisado. O que fez o violinista bêbado? Teve presença de espírito para sacar de seu instrumento e tocar. Tocou, tocou, tocou, até que os cachorros se aninharam a seus pés, mansinhos como hamsters.
Sabia tocar pra cachorro, aquele rapaz.

Diversão, sim

01 de fevereiro de 2014 2

As pessoas buscam diversão para esquecer da vida. Está na origem da palavra _ divertir é desviar. Você desvia sua atenção e seus pensamentos da realidade pedregosa e se concentra num jogo, numa brincadeira, num conto, em algo que se parece com a vida, mas não é.

Daí, manobra diversionista, arte na qual as mulheres são peritas. Elas dão a impressão de querer uma coisa, quando na verdade querem outra. E nós homens, sempre tão diretos, sempre tão inocentes, nós, frente a todo aquele arsenal de ardis, nós somos iludidos, nós sofremos. Pobres de nós.
Para esquecer todas essas vicissitudes, só mesmo com muita diversão. Diversão, sim, é solução pra mim.

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A 87ª DP

Well, como diria o Paulo Francis. Provavelmente em nenhuma outra cidade do mundo você poderá esquecer-se dos pântanos da existência como em Nova York. Cada metro da Big Apple foi feito para as delícias da vida mundana. Você caminha e se diverte. Nova York é uma cidade leve. Ou, pelo menos, tornou-se uma cidade leve, bem diferente daquela de antes dos anos 80, antes da tolerância zero de Rudolph Giuliani, a cidade soturna dos Embalos de Sábado à Noite de John Travolta e de todos os Desejo de Matar de Charles Bronson.

Aquela antiga NYC era a cidade retratada por Ed McBain nos romances da 87ª Delegacia, onde rebrilhava o detetive Steve Carella. Sou um leitor de Ed McBain, li todos os seus livros publicados no Brasil, inclusive os assinados com seu outro nome, Evan Hunter. O Carlos Gerbase, que também é fã do McBain, conta que uma vez foi procurar livros dele nos sebos de Porto Alegre e, onde chegava, lhe diziam:

_ O David já levou todos.

Lamento, Gerbas. Seja mais rápido da próxima vez.
McBain nunca disse que a cidade da 87ª DP era NYC. Ele só diz “nesta cidade”. Mas depreende-se. Nova York é um personagem dos romances, junto com Carella, só que é uma Nova York sombria, encardida, perigosa, selvagem. A Nova York de hoje, só não diria que se trata de uma cidade suave porque nenhuma metrópole deste tamanho é suave. Como todas as megalópoles, Nova York tem seus perigos, suas mazelas e seus engodos. Mas é uma cidade alegre, sem dúvida. Uma cidade que se diverte.

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Álcool e virgens

Diversão.

Esquecimento.

Não é por outra razão que todas as civilizações humanas consumiram drogas e álcool. Para se divertir. Para esquecer.

Nos países muçulmanos, ninguém bebe. O álcool é proibido, e seus consumidores duramente punidos. Mas o que oferece o sétimo céu do Islã? Setenta e duas huris, mulheres virgens e carinhosas, e vinho à vontade, sem o desconforto da ressaca.

Alguns homens-bomba se explodem para poder beber. Para poder esquecer.

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Bar no gelo

O bar é um lugar de esquecimento. Nos Estados Unidos, o lugar para beber e esquecer é o bar. Na rua, ninguém pode beber. Então, há todos os tipos de bares por aqui, para todos os tipos de preferências.
Algumas incompreensíveis.

Por exemplo, o Ice Bar, muito frequentado. É um bar em que o sujeito fica cercado de gelo. A temperatura interna é de cinco graus abaixo de zero, você precisa vestir um macacão térmico para ir lá esquecer-se da vida. Não consigo entender como alguém pode gostar disso. Além do mais, a temperatura em Nova York, por esses dias, era de 10 abaixo de zero.

Por que alguém sai da rua e vai para um bar desses? Para se aquecer?

Em compensação, em Boston fui a um bar interessantíssimo. Liberty. Fica num hotel. Mas não é um bar comum de hotel, não: toda a parte central do hotel é o bar. Imagine o Museu Guggenheim ou o Iberê Camargo, ou um shopping circular. O centro desses prédios é como um jardim de inverno, não é? Pois o Liberty é assim. Os quartos do hotel se situam do centro para trás, em direção à rua. No centro, há o bar. Um bar gigantesco, de cinco andares, o som rolando, as pessoas bebendo nos sofás, nas mesinhas ou de pé mesmo.

Fazia um frio de 13 abaixo de zero, quando fui a esse bar. Mas, acredite, as meninas chegavam fardadas de minissaia e blusinhas sumárias. Deixavam os casacões na chapelaria e enfrentavam o frio com denodo de partisans russos enfrentando o exército alemão na Operação Barbarossa. Por quê? Porque tornar-se inesquecíveis. E aí, com uma mulher dessas, para que esquecer-se da vida? A vida bem pode ser preenchida por uma mulher inesquecível.

O americano bárbaro

25 de janeiro de 2014 2

Vi um cara botando catchup no feijão, outro dia. O feijão dele não era como o nosso feijão, o feijão de verdade, cremoso, saboroso, que se come com arroz. Era um prato só com os grãos, seco e impessoal, grande e vermelho. De qualquer forma, o americano, um tipo de uns dois metros de altura e rosto muito vermelho, pois esse americano colocou catchup por cima do feijão e comeu sem cerimônia. Fiquei chocado. Catchup no feijão. Francamente.

Os americanos cobrem tudo com catchup. Entendo, porque a comida deles é estranha. Urge dar uma disfarçada. Mas colocar catchup no feijão?!? Tudo tem seus limites.

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EU E PEGGY

Quando cheguei, tive de dormir em Miami. As tempestades de neve causaram o cancelamento de três mil voos, e do meu também. Então, lá estava eu puxando a minha mala pelo aeroporto de Miami. Mas quem diz que havia quarto hotel para passar a noite? Se os voos são cancelados por causa de questões climáticas, as empresas aéreas não te dão nada, nem hotel, nem sanduíche de salamito, nada. Estava abandonado na noite selvagem da América do Norte.

Bem. Fui até o hotel que fica dentro do aeroporto. As poltronas da recepção estavam todas ocupadas por uns negões grandes que dormiam encostados à bagagem. Imaginei que fossem cubanos. Perguntei se havia vaga e o atendente riu de mim:

_ De jeito nenhum, mai bróder. Sold-out!

Perguntei onde podia conseguir outro hotel e ele:

_ Por aí…

Não me deu a menor bola, aquele atendente de hotel.

Peguei um táxi e fui para um motel daqueles de filme, manja? Aquela placa de neon pendurada. Os quartos distribuídos horizontalmente, pegados um no outro. Me sentia um fugitivo. Um ladrão de banco. Fiz questão de abrir a cortininha e espreitar a rua, para ver se os tiras não estavam me cercando.

Depois, fui a um bar ali perto e a garçonete se chamava Peggy Sue. Não acreditei. Uma garçonete Peggy Sue. Sempre quis ser atendido por uma garçonete chamada Peggy Sue. Pedi um drinque e por pouco não dei um tapa na bunda dela. Os americanos não fazem sempre isso? Cheguei a erguer a mão para, na América, fazer como os americanos, fazer como faria Jack Nicholson. Sim, o velho Jack faria isso! Mas recuei. Vá que eles não entendam minhas boas intenções de agir como um deles, vá que não entendam que um tapa naquela bunda seria uma homenagem ao Grande Irmão do Norte…

Deixei uma boa gorjeta para Peggy Sue.

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O barganhador

Vi na TV um programa que me deixou admirado. É sobre um sujeito que compra carros usados. O ponto alto do show é quando ele regateia com o dono do carro. O dono pede 15 mil dólares, ele desdenha, faz muxoxo e oferece seis mil. Acabam fechando por oito, e ele comemora. Quer dizer: um programa sobre barganha. Não é à toa que os americanos conquistaram o mundo pelo comércio.

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Viagra

A propaganda o Viagra é muito poética. Uma grande e potente caminhonete está rodando a caminho de casa. Mas a estrada está embarrada e cheia de neve. A caminhonete atola. Só que logo o socorro chega: a caminhonete é atrelada a dois possantes cavalos e eles a puxam até o conforto do lar. Sutil. Os americanos sabem ser sutis, quando querem.

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Frio siberiano

A previsão é de que uma onda de frio rolará do Norte para cá e que, na segunda-feira, a temperatura caia para 20 graus abaixo de zero. Agora está só uns 10 graus abaixo de zero. Quando leio na zerohora.com que em Porto Alegre está fazendo 40 graus, penso:

_ Ah, os trópicos, os trópicos…

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Noite dessas, vi um acidente num cruzamento de Boston. Um carro deslizou na neve e acertou o outro na lateral. Os motoristas ainda não tinham descido para se xingar, e uma viatura da polícia apareceu, cheia de luzes piscantes. Não levou um minuto, por Deus. De onde saiu aquele carro de polícia? Do esgoto? Estava escondido atrás de alguma árvore?

Câmeras.

Eles têm câmeras em toda parte, por aqui.

O pé

18 de janeiro de 2014 4

Vi que ele olhava para os pés dela. Para um pé, na verdade.

O direito.

Olhei-o também. Bom pé. Pé magro, de aparência macia, com dedos em harmoniosa escadinha subindo do mingo frágil ao dedão encorpado mas jamais rombudo.

Isso de pé. Não sou dos fanáticos por pé. Aprecio belos pés, claro, mas os desgraciosos não são eliminatórios para mim. Dizem que a Naomi Campbell tem pés horríveis, e isso não me impede de admirar o trabalho dela. E a Xuxa, há quem garanta que ela só usa botas por vergonha dos pés. Será? Tenho pensado nisso, volta e meia.

De qualquer forma, eu e ele olhávamos agora para o pé direito dela. Estávamos à espera de mesas num restaurantezinho da orla catarinense, eu num canto, eles noutro. Eles formavam um casal de namorados, supus. Ele mais velho, ela na glória de seus vinte e poucos anos. Ela estava numa cadeira mais alta, ele ao lado, num banquinho humilde. Ela havia cruzado as pernas, a direita por cima da esquerda, e por isso seu pé direito balançava com indolência no ar.
Ele, não o namorado, o pé, ele estava calçado com uma sandália baixa, amarrada ao tornozelo. Subia e descia, subia e descia devagar, até que ele, o namorado, não pé, até que ele o colheu.

Com delicadeza, o namorado interrompeu o vôo suave do pé direito da namorada. Tomou-o com as duas mãos, pela sola da sandália e pela base da canela. A namorada, do alto, olhou sem muito interesse. O namorado, então, levou aquele pé aos lábios, como se fosse um cálice de vinho consagrado, e o beijou. Beijou-o profundamente, com os olhos fechados de devoção, aspirando-lhe o perfume, e depois o depositou de volta ao ponto de repouso. O namorado ficou ainda fitando o pé adorado, satisfeito, e ela, a namorada, encheu os pulmões de ar e sorriu, iluminada, sentindo-se uma deusa, sentindo-se uma rainha, e eu, do meu canto, pensei que, das coisas que um homem pode fazer na vida, raras são tão belas, tão poderosas, tão grandiosas do que fazer uma mulher sentir-se uma deusa, uma rainha, porque, naquele momento, ela estará se sentindo, inteira, o que de melhor ela é: uma mulher.
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O papagaio

Dia desses, me aborrecia numa sala de espera e, na TV pendurada na parede a minha frente, passava o programa matinal da Globo. Vi a apresentadora, a Ana Maria Braga, conversando com um papagaio de plástico. Era uma conversa fluente. O papagaio fazia ponderações, a humana contra-argumentava, tudo muito tranquilo, muito racional. Admirei profundamente a Ana Maria Braga naquele instante. Eu não conseguiria ser tão natural ao interagir com um papagaio de plástico. No Pretinho Básico, quando falo com algum dos personagens, fico meio sem jeito. Mas a Ana Maria Braga, não. A Ana Maria Braga levava o papagaio a sério. Percebi que ela se importava com as opiniões do papagaio e que ele, de alguma forma, era essencial para o desenvolvimento do programa.

Minha admiração, então, elevou-se da competência profissional da Ana Maria Braga para a criatividade da raça humana em geral. Imaginei os homens e mulheres que bolaram esse programa reunidos, anos atrás, e um deles propondo:

_ Que tal nós colocarmos no ar uma mulher conversando com um papagaio de plástico de manhã cedo, todos os dias?

E os outros socariam as próprias mãos, exclamando:

_ Boa ideia!

E o programa iria ao ar e faria o grande sucesso que faz.

Não é genial? Que percepção do gosto popular! Que sensibilidade!

Um papagaio de plástico. Jamais pensaria nisso. Lembro do ratinho Topo Giggio, que contracenava com o Agildo Ribeiro e cantava meu limão, meu limoeiro, meu pé de jacarandá. Não era como o papagaio da Ana Maria. Não, aquele era um programa para crianças. E o papagaio da Ana Maria não é um personagem com aventuras próprias, como o Topo Giggio. Mesmo assim, deu certo. O Big Brother dá certo aqui como em nenhum outro lugar, os Sarneys dão certo aqui há 50 anos, por aqui os funkeiros ficam ricos, por que não um papagaio de plástico conversando com uma senhora? O Brasil, de fato, é um país generoso.

Toda nudez será redimida

28 de dezembro de 2013 4

 

Houve um toplessaço no Rio, semana passada. As mulheres desabotoaram as blusas e ganharam as ruas literalmente de peito aberto, gritando que elas também têm o direito de sair por aí sem camisa.

Concordo.

Sou a favor de mulheres de torso nu. Se elas quiserem andar com-ple-ta-men-te nuas, também não veria problema algum, desde que se resguardassem de resfriados. O vento encanado, por exemplo, é um perigo, quem já teve avó sabe. Eu mesmo andaria pelado, se não me ressentisse da falta de bolsos, bolso é coisa muito útil.

O que é que tem em alguém andar nu? Na praia, para onde você vai agora nas férias, na praia as mulheres tapam o cóccix, e quase nada mais. Se aquele cóccix está tapado, ninguém se escandaliza. Mas a mesma mulher, quando na cidade, pode expor o cóccix livremente, uma vez que cubra as nádegas. Qual é o critério? Só pode um de cada vez?

Aqueles caras que publicam fotos deles mesmos sem camisa nas redes sociais. É ridículo, é patético, mas ninguém reclama. Agora vá uma menina fazer o mesmo. O Facebook é capaz de cancelar a conta dela. O Facebook é muito moralista.

Aí está: a moral. A moral é relativa. A Fernanda Lima, que apresenta exatamente um programa sobre sexo na TV, pois a Fernanda Lima apareceu gloriosa na transmissão do sorteio dos grupos da Copa do Mundo. Estava dentro de um vestido justo como o caminho do bem, com um decote profundo como a filosofia de Kant, estava sinuosa e dourada como a serpente que se enrolava na macieira do Paraíso. Linda, linda, Fernandinha.

Ocorre que, no distante Irã, o decote da Fernanda Lima provocou tal excitação que o governo o censurou. Gravou o evento e o apresentou com o colo da Fernanda Lima devida e pudicamente coberto.

Aquele era um colo perigoso. No Irã, as mulheres estão lutando para sair à rua sem ter que cobrir os cabelos. Imagina se vissem como se vestem as ocidentais. Imagina se soubessem que, por aqui, a luta das mulheres é para sair à rua sem ter que cobrir os seios.

O vale do entresseios da Fernanda Lima abalou o governo do Irã e fez estremecer os aiatolás. Era um vale do sacrilégio. Um vale do pecado.

Sim, senhor, um pedaço de corpo de mulher, se bem usado, pode acender uma revolução.

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DEZ LIVROS PARA O VERÃO

Leitores pedem indicações de livros para as férias.

Certo.

Vou listar 10 infalíveis. E, quando digo infalíveis, quero dizer infalíveis. Se você ler qualquer um desses livros, terá uma experiência elevada no verão que chega com suas mulheres de cóccix cobertos e nádegas expostas e, quiçá, seios expostos também.

Não cultivo preconceitos ideológicos. Admiro a civilização norte-americana e seus autores vigorosos. Portanto, vou sugerir nove livros de escritores do Grande Irmão do Norte e um do México. Faço tal deferência ao México não por acaso, senão porque seu ex-presidente, o bigodudo Porfírio Diaz, um dia suspirou:

_ Pobre México: tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos.

Quer dizer: minha indicação é um desagravo ao México tão oprimido. Ao mesmo tempo, quando cito essa frase célebre, faço também uma concessão aos esquerdistas que odeiam os ianques. Assim, com todos contentes, apresento minha lista:

1. Ragtime, de E. L. Doctorow.
Esse livro… sinta o ritmo desse livro. Você vai dançar com Doctorow. Você vai dançar o ragtime.

2. As Vinhas da Ira, de John Steinbeck.
Um dos mais belos e comoventes finais de romance da história. Um livro poderoso, convertido em um lindo filme estrelado pelo grande Henry Fonda.

3. O Longo Adeus, de Raymond Chandler.
Um clássico do romance noir, com Phillip Marlowe, o maior dos detetives cínicos de todos os tempos. Eu queria ser Phillip Marlowe.

4. Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams.
É uma peça de teatro. Um texto seco e forte. Marlon Brando interpretou o protagonista da peça no cinema, e fez história, como sempre fazia Marlon Brando.

5. Moby Dick, de Herman Melville.
Essa é das mais rutilantes pedras preciosas da literatura ocidental. Também virou filme, com Gregory Peck.

6. Factótum, de Charles Bukowski.
Dos mais divertidos livros do Velho Buk. Quando o li, parecia estar lendo sobre um trecho da minha vida.

7. Bonequinha de Luxo, de Truman Capote.
Aprendi muito com este pequeno romance. Capote é autor da frase que, para mim, resume o ato de escrever bem: “Eu quero construir uma frase maleável e resistente como uma rede de pescar”.

8. Espere a Primavera, Bandini, de John Fante.
Fante era o ídolo de Bukowski. Certa feita, bêbado, como soía acontecer, o Velho Buk gritava: “Eu sou Arturo Bandini! Eu sou Arturo Bandini!”
Eu também sou. Sou Phillip Marlowe e Arturo Bandini.

9. Fique Quieta, Por Favor, de Raymond Carver.
Uma vez, o cônsul do Japão me disse que eu escrevia parecido com Carver. Fiquei todo bobo, porque todos queriam ser Raymond Carver. Ou Arturo Bandini. Ou Phillip Marlowe.

10. Festa no Covil, de Juan Pablo Villalobos.
Eis o mexicano da turma. Festa no Covil é uma novela pequena, de 80 páginas, que você lê de uma única vez. É uma história bela e cruel que vai fazer com que você esqueça até os melhores cóccix da orla.

Sobre as mulheres

21 de dezembro de 2013 3

Estou escrevendo um livro para o meu filho. Não sobre ele; para ele. Coisas que um pai deve dizer ao filho. Porque, bem, vá que eu não viva o suficiente para dizer-lhe tudo o que gostaria. Não pretendo passar para outro plano da existência agora, mas tenho visto os olhos de fogo do Ceifador amiúde, nunca se sabe.

Um dos capítulos do livro será “Sobre as mulheres”. Mas não vá pensar, meu filho, que arrosto ser um conhecedor da alma feminina, essas coisas de Chico Buarque. Nada disso. Mas sei o que um homem pode sentir quando se relaciona com as mulheres, isso sei bem, porque as mulheres sempre foram o núcleo da minha vida, o perfume dos meus dias e quase todas as aflições da minha alma.

Bem. O que posso dizer de mais importante sobre as mulheres é que elas são diferentes de nós. A maioria dos homens intui essa verdade e se assusta com ela. Pegue um sujeito que, ao avistar uma mulher desejável na rua, agride-a verbalmente chamando-a de gostosa ou qualquer outro adjetivo do gênero, e às vezes agride-a até fisicamente, tocando-a. Esse sujeito, ao sentir desejo por aquela mulher e ter a compreensão instantânea que nunca a possuirá, esse sujeito na verdade TEME aquela mulher. Ele sente medo do que o seu próprio desejo pode fazer com ele. Ele sente medo do poder que aquela mulher exerceu sobre ele. Ele sente medo daquele ser humano que é diferente dele.

Você não deve temer essa diferença, meu filho. Deve apreciá-la, porque essa é uma das delícias da existência, MAS… Mas é preciso tomar cuidado com certo tipo de mulheres. A mulher que conhece o seu poder e que sabe usá-lo, se essa mulher for ungida pelo pai e for autocentrada em demasia, essa mulher é perigosa como uma fera selvagem. Você até pode desfrutar dela, meu filho, mas o faça com o peito de aço e a mente alerta. Mulheres assim tendem a se transformar em devoradoras de homens.

O certo é que existem mulheres más. Logo mais vou discorrer sobre algumas delas. Ilse Koch, a Cadela de Buchenwald; Elizabeth Báthory, a Condessa Sanguinária; Teodora, a Imperatriz de Bizâncio; Dalila, a terrível Dalila.

Sim, meu filho, existem mulheres más. Claro, os homens também podem ser maus, mesquinhos e cruéis. A diferença é que as mulheres são calculistas. Essa história de que as mulheres amam, de que elas são puro sentimento, não acredite nessa balela. É marketing das mulheres. Na verdade, elas são cerebrais, sobretudo com o que tem a ver com seus próprios sentimentos. Uma mulher toma decisões acerca do que sente, um homem não consegue fazer isso. Ela tem um autocontrole que você jamais terá.

Elas são diferentes.

Mas as mulheres, da mesma forma, são capazes de uma entrega, de um desprendimento, de uma generosidade, de um amor tão intenso que nós homens nunca compreenderemos nem sequer de onde vem. Nós homens somos covardes. Nós fugimos da dor. As mulheres, algumas mulheres, o limiar de sofrimento delas está muito além do nosso alcance.

Vou lhe dar um exemplo: a sua mãe, a Marcinha. Neste ano em que, como contei lá em cima, vi o Ceifador de perto ao descobrir que tinha um câncer, em que tantas coisas estranhas me aconteceram, neste ano pontilhado de infortúnios, que foi o mais difícil da minha vida, neste ano, admito, só vi dezembro chegar graças a sua mãe. Eu não merecia, Deus sabe que não, mas ela se manteve firme ao meu lado e leve e sorridente e amorosa. Meus amigos dizem que ela é uma rocha. E é. Uma rocha. As mulheres têm essa qualidade. As mulheres têm essa solidez. Sorte dos homens que estão perto delas. Sorte nossa, pequenos homens. Tenha isso em mente, meu filho: só as mulheres podem ser rochas.
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MULHERES MÁS

Ilse Koch, a Cadela de Buchenwald
Era mulher do comandante do campo de concentração de Buchenwald na II Guerra Mundial. Adorava ver os presos sendo chicoteados. Quando aparecia algum que tivesse tatuagens, mandava arrancar-lhe a pele e com ela fazia abajures.

Elizabeth Báthory, a Condessa Sanguinária
Seu tio foi oficial de Vlad Dracul, ninguém menos do que o Conde Drácula. Era belíssima. Seu prazer era torturar servas adolescentes. Uma vez mandou costurar a boca de uma menina que falava demais. Comprazia-se sangrando ou queimando meninas até a morte. Cerca de 650 garotas húngaras foram assassinadas por ela.

Teodora, a Imperatriz de Bizâncio.
Ex-prostituta, seduziu o imperador Justiniano e casou-se com ele. Inventou um método de tortura muito engenhoso: a vítima ficava amarrada a uma cadeira e uma tira de couro era-lhe atada à cabeça. A tira era molhada, secava e depois molhada novamente. Este processo fazia com que o couro encolhesse. Em pouco tempo, os olhos do infeliz saltavam para fora das órbitas.

Dalila
Essa, francamente, é uma das piores. Sansão, juiz dos hebreus e o homem mais forte do mundo, amava-a com ardor. Os filisteus, inimigos figadais dos hebreus, contrataram-na para descobrir o segredo da força dele. E Dalila, com ardis de mulher, iludiu Sansão, descobriu que a força lhe vinha dos longos cabelos, cortou-os e o entregou aos inimigos. Os olhos de Sansão foram vazados e ele terminou seus dias escravizado. Aline, da novela das nove, obviamente repete Dalila. A maldita Dalila.

Viver a vida perfeita

14 de dezembro de 2013 6

Uma vez eu estava em Binsberg, cidadezinha que fica perto de Bergisch Gladbach, que fica perto de Colônia. Alemanha.
Binsberg. Terá uns cinco mil habitantes, se tanto. Um lindo lugarejo. Bucólico, obviamente. Flores e passarinhos e casinhas com cerca branca, toda aquela coisa. Estive lá durante a Copa de 2006.

Aconteceu que, num sábado, nós conseguimos uma folga. Todos os colegas da equipe decidiram ir para Colônia, a fim de sorver as delícias da cidade grande. Eu não. Eu quis ficar em Binsberg.

Fazia um belo sábado, digno da glória dos sábados, com uma luz que encharcava a manhã e uma temperatura suave como a carícia da mulher amada. Saí caminhando do castelo em que estávamos hospedados. Sim, estávamos em um castelo. Na verdade, um antigo mosteiro que parecia um castelo, uma construção majestosa e algo ameaçadora encarapitada no alto de um monte. Podia ser locação de filme de terror. Meu quarto era a célula de um velho claustro. Às vezes imaginava a freira que ali viveu. Suas noites solitárias, sua devoção encanzinada. Olhava para o pé da cama e pensava que ela devia ter feito suas orações ajoelhada bem naquele lugar, as mãos postas, os olhos cerrados, a mente e o coração concentrados no Altíssimo. Teria agonizado no quarto em que eu dormia, a bondosa irmã? Naquela mesma cama em que me deitava? Seu espírito silencioso ainda vagava por lá de madrugada dentro do seu hábito negro?

Mas tergiverso. Contava que saí caminhando do castelo em que estávamos hospedados e caminhando fui até o centro de Binsberg.
Então, entrei o paraíso.

A rua principal de Binsberg é um calçadão. Lá, numa praça central, havia uma feira com quiosques que vendiam todos os tipos de iguarias, de frutas e legumes frescos a salsichas, que alemão adora salsicha, existem 1,5 mil tipos de salsichas na Alemanha, e também sorvetes deliciosos e doces e, é claro, chope.

Pedi uma caneca de chope, aboletei-me numa cadeira de palha, finquei os cotovelos numa das mesinhas espalhadas pelo local e fiquei observando os alemães. Eles iam à feira com cestas de vime penduradas nos braços, homens e mulheres sorridentes, com seus filhos, dois, três filhos por casal, filhos esses que eles deixavam soltos, a correr pela praça. Eles conversavam com os feirantes, faziam compras, depois se sentavam e ficavam bebendo seus chopes cremosos e comendo queijo e salame e outros acepipes, e riam com os amigos todos que tinham vindo dos quatro cantos da cidadezinha.

Pus-me a pensar sobre a vida tranquila e, aparentemente, perfeita que viviam aqueles alemães. Sua pequena cidade era bonita, arejada e limpa. Era minúscula, decerto que era, mas dotada de bons restaurantes, dois ou três cinemas, um teatro e bares com mesinhas na rua.
Aqueles alemães, eles trabalhavam pouco, mas seus salários não eram poucos, eles viajavam pela Europa nas férias e passavam finais de semana aprazíveis nos recantos da velha Alemanha. Deviam ser muito felizes.

Foi aí que estaquei.

Seriam mesmo muito felizes? Ou será que aquele sujeito alto que mordiscava, sei lá, um torresmo talvez, tinha jeito de torresmo, pois será que aquele comedor de torresmo não estava insatisfeito no casamento e desejava secretamente aquela sílfide casada com seu amigo que lhe contava uma anedota alemã? E a sílfide, quem sabe ela queria ter sido bailarina em vez de ter parido os três filhos ruidosos que corriam em volta da mesa. E aquele outro sujeito vermelho que comprava pepinos em conserva, talvez ele quisesse ser cantor ou compositor ou ator ou jogador de futebol, e a vida sempre igual de Binsberg o deixasse frustrado como um canário na gaiola. E aquela outra menina tão graciosa com seu filho pequeno, ela poderia se sentir uma fracassada na vida, apesar de pisar no solo do planeta com tanta confiança, ela poderia, no recôndito do quarto, escrever poemetos e sonhar com a glória que jamais virá.

Não, não, não, a vida ideal não é garantia de felicidade. Ou pelo menos não é garantia de ausência de sofrimento. As pessoas sofrem, neste Vale de Lágrimas, como diria Jesus. Mas o sofrimento, para alguns, pode ser sublime. Dante. Se Dante tivesse casado com Beatriz, se ela não o tivesse preterido por um florentino mais garboso e menos talentoso, se Dante fosse bem sucedido no amor ele não teria erigido sua obra imortal e fundado a língua italiana moderna.

Michelangelo. Era outro que sofria. Michelangelo tinha problemas por ser homossexual. E quem disse isso não foi nenhum autor de biografias não autorizadas do século 16. Foi Freud. Freud passava horas analisando a estátua do Moisés, naquela igrejinha perto do Coliseu, e, analisando-a, concluiu que Michelangelo tinha sérios problemas. Escreveu um livro sobre isso. Assinou-o sob pseudônimo e só assumiu sua autoria no fim da vida. Michelangelo sofria, pois, e Van Gogh mais ainda e também o surdo Beethoven e o mal-ajustado Mozart e Dostoievski idem e ibidem.

Esses homens construíram com seu sofrimento, com sua dor, com seu sangue, com suas próprias entranhas eles construíram obras-primas que tornaram mais elevado o ser humano. E você? O que você está fazendo com a sua dor? Não a desperdice indo à praia. Sofra direito. Seja grande.