Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "Código David"

Código David: MAMÃE! MAMÃE!

12 de maio de 2013 6

O Agnaldo Timóteo cantava:

"Mamãe, mamãe, mamãe! Eu me lembro o chinelo na mão, o avental todo sujo de ovo, se eu pudesse que queria outra vez, mamãe, começar tudo, tudo de novo".

A minha mãe, Dona Diva, usava avental e volta e meia me corrigia a chineladas, mas hoje as mães não são mais assim. No entanto, continuam sendo o que sempre foram, o que é representado pela máxima mãe cristã, Maria: virgens. Sim, todas as mães são virgens, são diáfanas. Já contei que, uma vez, um guri lá no IAPI disse que minha mãe não era virgem e dei um soco nele. Onde já se viu!

Nesse dia delas, em homenagem a todas as puras mães do planeta, vou contar histórias de três tipos maternais fundamentais:

1. MÃE JUDIA — A MÃE DO FREUD

Foi Freud quem colocou a mãe no lugar em que ela sempre mereceu estar: no centro do mundo.
Foi Freud quem nos ensinou a verdade: que a mãe é culpada de tudo.

Como Freud sabia dessas coisas? Obviamente, por causa da mãe dele, não por acaso uma mãe judia, que mães judias são famosas por seu desvelo com os rebentos. Dona Amália, era como se chamava essa mãe primordial. Era uma mulher bela e, segundo diversos testemunhos, imponente. Aos quatro anos de idade Sigmundinho, durante uma viagem de trem, viu Dona Amália "nudam", como ele dizia em alemão rascante. Ali nascia a psicanálise.

Mais tarde, aos dez anos, o pequeno Sig teve um sonho que o acompanhou por toda a vida, que ele descreveu desta forma: "Mostrava minha querida mãe com uma expressão facial singularmente calma e adormecida, sendo transportada para o quarto por duas ou três pessoas com bicos de pássaros, e deitada na cama".

Sig acordou gritando de horror. Depois, já crescido, interpretou os bicos de pássaro como equivalentes à expressão popular alemã para relações sexuais, "vögeln", que é "trepar", por alguma razão germânica derivada de "vogel", que é "pássaro".

Ali nascia o Complexo de Édipo. E as mães nunca mais seriam vistas da mesma forma, em todo o planeta Terra.

2. A MÃE DO ESCRITOR

O pai do Verissimo, obviamente ele também Verissimo, só que Erico, não Luis Fernando, pois o pai do Verissimo certa feita fez uma grande viagem com a mãe do Verissimo, Dona Mafalda. Na chegada do casal, um repórter abordou o escritor:
— O senhor percorreu meio mundo com a Mafalda. O que mais o impressionou?
E o pai do Verissimo:
— A Mafalda.

3. MÃE ITALIANA — A MÃE DE CÉSAR

Poucas mães foram tão faladas (e mal faladas) quanto Agripina, a Jovem. Sobre seus ombros macios pesou a responsabilidade de ter sido mãe de ninguém menos do que... Nero!
Mas o currículo de Agripina é ainda mais rico. Imagine que ela era irmã do sanguinário Calígula e foi casada com o imperador Cláudio. Ou seja: passou a vida cercada de césares, e tentando mandar neles. Quer dizer: tentando mandar no universo, o sonho das mães.

Agripina não acalentava escrúpulos para alcançar o poder. Manteve um caso incestuoso com Calígula durante os quatro anos de governo do irmão. Calígula foi assassinado pela Guarda Pretoriana, que empossou Cláudio. Na época, Cláudio tinha 50 anos de idade. Algum gaiato o convenceu a casar-se com uma ninfeta de 15, uma loirinha chamada Valéria Messalina, que, bem, você deve saber quem era Messalina...

Cláudio era coxo, donde surgiu a palavra "claudicante". Depois de casar-se com Messalina, tornou-se também corno. O maior corno do mundo de todos os tempos, já que Messalina foi a maior devassa do mundo de todos os tempos.
Foi Agripina quem deu um jeito de Cláudio ficar sabendo das serelepices de Messalina, e assim a fogosa imperatriz acabou sendo executada aos 22 anos de idade. Afastada a rival, Agripina seduziu Cláudio e casou-se com ele, o que mostra como ele escolhia mal suas mulheres. Depois, Agripina passou os dias enchendo o saco do marido, até que ele adotou como filho e sucessor o filho dela, nosso amigo Nero. Ao conseguir o que queria, Agripina consultou uma das mais famosas envenenadoras de Roma, uma senhora chamada Locusta. A seguir, serviu ao marido uma taça de cogumelos, sua comida preferida. Cláudio comeu e morreu depois de contorcer-se durante dois dias com dores atrozes.

Agripina, então, chegou aonde queria. Como Nero tinha só 17 anos, ela se tornou regente do Império Romano. Uma mãe comandando o planeta. Só que Nero tomou gosto pelo poder, e decidiu afastar a mãe da forma mais definitiva: matando-a. Agripina, sentindo que ia perder o posto e a cabeça, tentou seduzir também o filho. Alguns historiadores juram que ela conseguiu. Mas Nero logo se livrou também do jugo sexual e, após várias tentativas frustradas, eliminou-a — dizem que os esbirros de césar, a seu desígnio, abriram a barriga da sua mãe para que ele pudesse ver de onde viera. Deste horrendo matricídio se originaria a designação de "cesariana" para a cirurgia que corta as barrigas das mães para facilitar-lhes o parto. E, já que estamos falando de mães italianas, há que acrescentar: si non è vero è bem trovato.

Código David: Livros, livros à mancheia

05 de maio de 2013 2

Nos tempos de bonança financeira lá de casa, meu pai deu de presente para minha mãe uma coleção de livros dos Prêmios Nobel de Literatura. Coisa fina. Volumes em capa dura de couro branco, com os discursos dos homenageados pela Academia Sueca e textos introdutórios, traduzidos por intelectuais como Antônio Olinto e Paulo Mendes Campos, ilustrados por ninguém menos do que Pablo Picasso.

Quando estava lá com meus 11 ou 12 anos, dei de mão nesses livros. No começo, confesso, não compreendia totalmente tudo o que lia. Certa feita esbarrei num poema de Erik Axel Karlfeldt:

Eis que é chegado o tempo dos signos,

dos signos numerosos e rudes.

Eis que os botões enegrecem nas encostas

e trescalam um odor de podridão.

Eis que o velho seio da terra emurchece,

Exaurido, sem leite, informe, lastimável.

Eis que tombam gotas de sangue dos cornos da lua,

ó milagre, ó milagre!

Eis que ao sair para cortar trigo

o cegador o encontra transformado em cardos,

e a peste, a fome e a guerra

assolam o país de uma fronteira a outra.

Nossa!

O que significava exatamente isso? Gotas de sangue tombando dos cornos da lua... Eu não sabia, mas sentia o poder do verbo do poeta.

Houve outro livro, História de Roma, de Theodor Mommsen, que me despertou a vontade de saber mais sobre os antigos romanos, e assim corri à pequena Biblioteca Romano Reif, que ainda hoje existe, incrustada em frente ao campo do Alim Pedro, lá onde eu dava meus lançamentos de 50 metros no melhor estilo Roberto Rivellino, e onde uma vez o meu amigo Diana comeu grama, pagando uma aposta sobre um Gre-Nal dos anos 70, onde também o Edu Brittes venceu um combate singular contra o campeão dos nossos eternos inimigos, os Neguinhos da Frei Caneca, pois foi lá, na Biblioteca Romano Reif, que bebi informações sobre Roma Antiga e seus personagens fascinantes, o ardiloso César, o prudente Augusto, o cruel Calígula, o presunçoso Nero, o claudicante Cláudio, a devassa Messalina.

E houve ainda mais um livro, Fome, do norueguês Knut Hamsun, que, de fato, me fazia sentir fome. Lembro que uma tarde, em meio à leitura, fechei o volume com estrépito, corri à cozinha, abri de bico a bico um pão semolina de meio quilo, besuntei-o com patê de fígado de galinha e o comi inteirinho. Sim, o texto de Knut Hamsun me fazia sentir fome.

Aquela coleção de livros me deixava hipnotizado. Quanta coisa para aprender entre aquelas capas ilustradas pelo mestre Picasso.

Agora, tanto tempo depois, abro um livro e faço descobertas igualmente encantadoras. Por exemplo:

1. O baobá é uma árvore africana com troncos gigantescos, que podem chegar a 40 metros de largura, o que é quase metade de um campo de futebol. São tão grandes, que, quando secam, ficam ocos e podem armazenar até 6 mil litros d’água.

2. Já o abeto, que cresce imponente nos Estados Unidos, é a árvore mais antiga. Os cientistas calculam que o mais velho deles tenha 9.550 anos, mais ou menos a idade da Civilização. Na Califórnia existe um chamado Matusalém, que brotou no ano de 2832 a.C. Ou seja: é mais antigo que as pirâmides do Egito.

3. A amorphophallus, conhecida pelo desagradável apelido de “Flor de Cadáver”, é a planta mais fedorenta do mundo. Pode chegar a três metros de altura, cresce 20 centímetros por dia, pesa mais de 70 quilos, mas, depois de brotar, essa flor com uma única pétala vive só três dias. Cheira tão mal, que ninguém consegue ficar muito tempo perto dela. Uma vez, um fotógrafo que dividia o quarto comigo tirou as botas e me senti como se estivesse ao lado de uma amorphophallus.

4. Os dentes do hipopótamo podem medir 50 centímetros e pesar seis quilos, o que me leva a concluir que deve ser dolorida uma dentada de hipopótamo.

5. Um urso-polar é capaz de comer 60 quilos de alimento de uma só vez, e por isso ele é um animal muito gordo.

6. A pele do rinoceronte é uma capa de couro de cinco centímetros de espessura. Não adianta você dar flechada para tentar abater um rinoceronte.

7. As corcovas do camelo não contêm água, e sim gordura. Logo, não pense em abrir a corcova do camelo para beber, se você estiver perdido no Saara.

8. O coala precisa dormir 20 horas por dia. Eu já sabia que a Xuxa dorme 13 horas sem calcinha, para não deixar marcas.

9. A teia da aranha é tão resistente quanto um fio de aço da mesma espessura, e isso me deixou muito decepcionado com os fios de aço.

10. O lugar mais quente do mundo é no interior da Líbia, onde foi registrada a temperatura de 58°C em 1922. O mais frio é a estação de Vostok, na Antártica, em que fez -89,2°C em 1893. Depois nós achamos que o tempo de Porto Alegre é que é maluco.

Não é maravilhoso aprender tudo isso em um único livro? Sabe onde estava armazenado todo esse conhecimento? Num livro que li na cama, para meu filho de cinco anos de idade.

Lá atrás aprendi nos livros da minha mãe; hoje aprendo nos do meu filho. Sinto que estou vivo quando posso aprender.

Código David: Nesta data querida, a história de DONA ALICE

28 de abril de 2013 1

Hoje é o dia de falar de Alice. Dona Alice. A sogra do meu amigo, o... Digamos que ele se chame Luís Carlos.

É que 28 de abril é o lampeiro Dia da Sogra, data da qual jamais esqueço e que a cada ano comemoro com fervor, como se fosse um dia santo. Quanto a Dona Alice, asseguro que não se tratava de uma sogra comum. Não mesmo.

Dona Alice já não era mais uma jovenzinha, que nenhuma sogra o é. Mas se tratava de bela unidade de mulher. O tempo havia sido bondoso com ela. Mais até: ao arredondar docemente as formas, tornara-a mais atraente do que jamais fora – tornara-a abundante, sem ser excessiva.

Luís Carlos não era indiferente aos predicados de Dona Alice. Ao contrário, olhava para sua namorada, a Aninha, tão magrinha, tão diáfana, e a imaginava na glória do futuro, opulenta como a mãe.

– Vale o investimento – dizia aos amigos.

Não esperava, porém, o que ocorreu numa das tradicionais galinhadas de domingo: depois de algumas taças de bom tinto da Serra, quando haviam passado a fronteira do licor de ovos e até a do arroz de leite, Dona Alice lhe enviou olhares à sorrelfa. Alguém pode dizer que olhares à sorrelfa são subjetivos, mas aqueles, os de Dona Alice, não foram. Além disso, Luís Carlos orgulhava-se de saber bem identificar os olhares à sorrelfa e a malícia de uma mulher, quando se transformava em alvo deles. E, naquele dia, ele estava sendo alvo. Ah, estava. O sogrão já meio que dormitava atrás do bigode, Aninha andava ocupada com o cachorro no pátio e Dona Alice lhe pespegou um par de olhares que lhe amoleceu os ossos, lhe formigou a virilha e lhe latejou as têmporas. Não era possível. Dona Alice! Era sorte demais. Afinal, que homem não sonha em se repoltrear com mãe e filha, sendo ambas lindas como eram Dona Alice e Aninha?

Logo Aninha voltou do pátio, mas Luís Carlos permaneceu atento feito um perdigueiro. E, realmente, durante todo o dia, passando pelo jogo do Gauchão, pelo Faustão e pelo Domingo Maior, durante todo o dia Dona Alice lambeu-o com o olhar de promessas, feito uma gata no cio. Luís Carlos não dormiu naquela noite, pensando na sogra. Dona Alice. Ele não acreditava. Dona Alice!

No meio da semana havia um feriado: 1° de maio. Ele sabia que veria a sogra de novo. De fato, a viu. Quando chegou ao pátio, encontrou-a de biquíni, tomando sol à beira da piscina de plástico da família.

– O-oi – cumprimentou, olhando aquele corpo, que corpo!, dourando-se lentamente, reluzindo como uma lontra.

– Oi, Lu – era a primeira vez que ela o chamava de Lu. Que delícia!

O feriado inteiro foi Lu à esquerda, Lu à direita, Lu em cima, Lu embaixo, e a cada Lu um sorriso, a cada Lu um olhar à sorrelfa. Luís Carlos queria morrer. Ele sabia, sim, reconhecer olhares à sorrelfa e malícia de mulher.

O feriado terminou, a sexta chegou e depois dela, como sói acontecer, veio o sábado. Luís Carlos tinha sido convidado para jantar na casa dos sogros. Dona Alice o recebeu dentro de um vestido leve, que subia acima dos seus joelhos redondos. Joelhos de Scarlett Johansson. Em meio ao jantar (arroz de bacalhau que ela fez com suas próprias mãos, divino, tudo nela era divino!) os olhares continuaram. Luís Carlos já não aguentava mais. Até que ela o chamou da porta da cozinha:

– Lu, deixa o pessoal aí vendo Supercine e vem me ajudar com a louça.

Ele foi, o coração batendo feito o bumbo da banda do Colégio São João. Ao chegar, ela se debruçou na pia e miou:

– Vem. Vem, Lu, vem...

Ele compreendeu o código: pulou em cima da sogra com sofreguidão, agarrando-a pelas carnes fartas das ilhargas, fazendo biquinho para beijá-la e gemendo:

– Dona Alice! Dona Alice!

Ato contínuo, introduziu sua língua por entre os dentes fortes dela e sentindo-lhe o céu da boca e as gengivas róseas sentiu também o gosto do bacalhau recente e da saliva perfumada, e gemeu de novo:

– Ddddona Alice!

Ela parecia ceder, parecia entregar-se, mas, então se deu: emitindo um grito de horror, TARADO!, Dona Alice o empurrou com força com as duas mãos e, enquanto ele batia com as costas na borda da mesa, ela repetiu:

– TARADO!!!

Acudiram o sogro, Aninha e o cachorro. Viram Dona Alice amarfanhada e Luís Carlos descomposto, vermelho, arfante, a culpa chispando no olhar.

– Ele me agarrou – acusou Dona Alice. – Me agarrou!

– Lu! – uivou Aninha, já começando a chorar.

– Desgraçado! – xingou o sogro, já se armando com uma faca de cozinha, que, minutos antes, partira uma posta de bacalhau ao meio.

Foi o fim do namoro de Luís Carlos. O fim do futuro com Aninha e do sonho com Dona Alice. E até hoje meu amigo não sabe se, afinal, ele sabe ou não identificar olhares à sorrelfa e a malícia das mulheres.

A pior profissão

Lá nos Estados Unidos, que é uma terra de estatísticas e rankings, eles montaram um ranking das melhores e piores profissões do mundo. Listaram 200 profissões. Pois sabe qual é a pior? A última? A ducentésima?

A minha.

Repórter de jornal.

Sim, porque, na essência, eu sou um repórter de jornal, com muito orguuuulho, com muito amoooor.

Acima de repórter de jornal, a número 199, está a de lenhador. Aquele cara que fica dando machadadas num tronco, de camisa xadrez, aquele cara vive melhor que repórter de jornal.

Também acima estão o leiteiro (195), o leitor de água e luz (194) e o carteiro (193). Essas três profissões são parecidas: o sujeito passa o dia de casa em casa, podendo ser mal recebido, ter que enfrentar cães brabos, essas coisas desagradáveis. A propósito, lembro de um grande livro do Bukowski, “Cartas na Rua”, em que ele se vale do seu alterego para contar seu tempo como carteiro. Leia. É ótimo.

Mas, voltando às profissões, surpreendeu-me que o agente penitenciário está bem acima do repórter (189), o que atesta em favor dos presídios americanos, e também o lavador de pratos (187), o que é muito bom para os emigrantes brasileiros, bem como o faxineiro (153), e isso que eles não dispõem das leis protetivas que temos por aqui.

Lá em cima, em primeiro lugar, está o atuário, e confesso que não sei o que faz um atuário americano. Compreensível: sou um repórter de jornal, estou no fundo, no rés do chão, distante das alturas dos felizes atuários. Como sofremos, nós, repórteres de jornal.

Código David: O filme da minha vida

21 de abril de 2013 6

"Passou um filme na minha cabeça".

Volta e meia ouço essa frase.

E fico triste.

Ouvi-a dias atrás, quando a TV entrevistou um brasileiro que testemunhou o atentado da Maratona de Boston. Ele disse o seguinte, a respeito da sua experiência:

– No momento das explosões, passou um filme na minha cabeça.

Sempre assim. Acontece algo extremo e a primeira coisa que se dá com as pessoas é ver um filme na sua cabeça. Que tristeza. Porque eu, aqui, eu nunca assisti a um filme passado na minha cabeça.

Nunca.

Será que há algo errado comigo?

Já tive uma metralhadora apontada para o meu peito, já estive dentro de um teco-teco no meio de uma cumulus nimbus sobre a serra de Vacaria, já passei por algumas das chamadas situações-limite, como aquela vez em que um imenso afrodescendente se escorou no balcão do bar em que eu e o Sérgio Lüdtke tomávamos sopa de madrugada e berrou com sua voz de imenso afrodescendente:

– Tem dois viadinhos nesse bar!

Já aconteceu tudo isso, e jamais me passou um filme na cabeça.

Maldição.

Esse filme, quando essas pessoas dizem que é exibido em suas cabeças, obviamente é um filme sobre as vidas delas. Como queria ver um filme sobre a minha vida! Será que um dia verei? Tenho muita expectativa a respeito desse filme, se bem que não posso esperar demais, para não me frustrar. Lembro daquele filme do Godard, Je vous salue, Marie. A Igreja fazia protestos contra o filme e o governo Sarney, muito pudico, muito pio, o proibiu. Foi o que bastou para tornar o filme sensacional. Só se falava em Je vous salue, Marie, assim mesmo, em francês, pronunciava-se "je vu salu, Marri". Será que estava certo?

Seja como for, quando Jevusalu foi liberado, fui assisti-lo tomado de sofreguidão intelectual, ali no Cinema Um, na Independência.

Nossa! Que chatice! Que porre!

Já não gostava do Sarney, do seu bigode, dos seus marimbondos de fogo, da inflação de seu governo, mas, dali por diante, passei a detestá-lo, porque foi sua proibição que me fez ver o filme e perder duas horas da minha vida em que eu podia estar fazendo algo bem melhor, como lavar uma louça ou participar de uma reunião de condomínio.

Pelo menos saí do cinema com uma decisão tomada: não contratarei Godard para dirigir o filme da minha vida. Não quero dormir enquanto me vejo em ação.

O cara

É óbvio que, no filme da minha vida, eu sou o protagonista, o herói, o mocinho, o cara. Mas que tipo de herói eu queria ser? Não um cínico atormentado, como Humphrey Bogart em O Falcão Maltês, embora tenha simpatia por esse tipo de personagem.

Não.

É que gostaria de enfrentar a vida sem dramas de consciência. Como o James Bond de Sean Connery. Ele era cínico como Bogart, mas praticava a vida sem se atormentar com considerações de ordem moral. Bogart não acreditava na justiça do mundo, por isso vivia sofrendo. Connery também não acreditava, por isso aproveitava a vida.

Sim, eu seria o 007 de Sean Connery. Com licença para matar.

O QUE LER

A chave de vidro

Você achou que eu iria indicar O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett, já que falei em Bogart. Tudo bem, leia O Falcão Maltês, é um clássico, mas gostei mais de A Chave de Vidro. É um livro dos anos 30 do século passado, talvez você tenha dificuldades em encontrar nos sebos da cidade. Se tiver, procure na coleção pocket da L&PM, onde são oferecidos pelo menos três títulos do grande Dashiell Hammett.

Esse homem, Hammett, sabia do que escrevia. Ele próprio foi detetive da lendária Agência Pinkerton, nos Estados Unidos. E untava a vida com o rascante Bourbon americano. Consagrou-se com seus romances noir e como escritor de Hollywood. Quer dizer: Hammett poderia escrever o roteiro do filme da minha vida.

Roma

A cidade mais importante da história da Humanidade foi fundada num 21 de abril.

Não, a cidade mais importante da história da Humanidade não é Nova York, nem qualquer outra das jovens Américas, não é tampouco a mais antiga de todas, Jericó, nem a Londres de dois mil anos, ou a luminosa Paris, ou as orientais Tóquio e Pequim, e nem mesmo a cidade basilar das três grandes religiões monoteístas do mundo, Jerusalém.

Nada disso.

A cidade mais importante da história da Humanidade é Roma. Durante 2 mil anos, Roma foi a capital do mundo. Primeiro, comandou o Ocidente graças à força disciplinada de suas legiões. Depois, graças à influência da religião. Finalmente, no Renascimento, graças à genialidade de seus artistas. O corpo, o espírito e a mente. Muito do que somos devemos a Roma.

Código David: Amenidades coreanas

14 de abril de 2013 7


A Coreia está na moda com carradas de razão. Afinal, a Terceira e Derradeira Guerra Mundial pode começar por lá, graças ao pequeno ditador do norte da península.

Chamo-o de pequeno, mas não o subestimo. Nenhum ditador deve ser subestimado, por ridículo que seja, e todos são um pouco ridículos, lembre-se do bigodinho de Hitler, do biquinho de Mussolini, dos dentes podres de Mao.

Conheci a Coreia. Do Sul. A Coreia do Psy, do Gangnan Style. Trata-se de um país moderno, mas muito conservador. Nada a ver com a frenética criatividade japonesa. Não, os coreanos não ousam, salvo na comida, medonhamente apimentada. Gosto de pimenta, mas a Coreia ultrapassa todas as fronteiras do bom senso culinário. Uma vez, provei uma massa com molho vermelho que era nada menos do que um pedaço do inferno. O troço desceu-me rascante garganta abaixo e explodiu-me no fundo do estômago como se fosse uma das bombas da Coreia do Norte, abalando todo o meu ser e me fazendo emitir um dolorido uh. Que tristeza.

Os coreanos não falam que são sul-coreanos; apenas, coreanos. São pessoas de hábitos estranhos. Um deles é fazer de todo dia 14 uma data especial, uma espécie de Dia dos Namorados Mensal. Tem o dia 14 de se beijar, o dia 14 de se abraçar, o dia 14 de tirar fotos juntos, o dia 14 de beber vinho.

O dia 14 mais importante é o de março, chamado White Day, porque é o Dia dos Namorados oficial. O segundo dia 14 mais importante é o deste domingo, o de abril, chamado Black Day, porque é quando os solteiros se consolam por sua solidão. Eles se reúnem nos restaurantes e comem noodles, que é um tipo de miojo. Foi um noodles desses que comi na Coreia e que, ainda hoje, quando lembro dele, faz meu estômago fazer blurp.

AS BARBEIRAS DA COREIA

Na Coreia do Norte não existe engarrafamento de trânsito, porque lá ninguém tem carro, com exceção de alguns altos funcionários do governo. As pessoas andam a pé ou de bicicleta.

Não as mulheres.

As mulheres não podem dirigir nem carro, nem bicicleta, nem nada que tenha rodas. A ditadura da Coreia alega que elas são muito barbeiras.

O DITADOR E O POETA

Li que os chilenos exumaram o corpo de Pablo Neruda a fim de constatar se ele foi de fato assassinado por envenenamento pela ditadura de Pinochet, como se suspeita. Se for verdade, eis aí mais uma prova de que os ditadores têm de ser levados a sério _ até os poetas imortais eles conseguem matar.

Neruda seria ótimo para esse dia 14 na Coreia, seria perfeito para consolar os solteiros, ele que disse que "a saudade é a solidão acompanhada".

Em homenagem ao apaixonado poeta chileno e aos tristes solteiros coreanos, e em repúdio acerbo aos ditadores do mundo de qualquer época e de qualquer lugar, reproduzo um belo poema de Neruda, "Canción del Amor", no original, na língua de Cervantes e Penélope Cruz:

Te amo, te amo, es mi canción
Y aqui comienza el desatino.
Te amo, te amo mi pulmón,
Te amo, te amo mi parrón,
Y si el amor es como el vino
Eres tú mi predileción
Desde las manos a los pies:
Eres la copa del después
Y la botella del destino.
Te amo al derecho y al revés
Y no tenho tono ni tino
Para cantarte mi canción,
Mi canción que no tiene fin.
Em mi violín que desentona
Te lo declara mi violín
Que te amo, te amo mi violona,
Mi mujercita oscura y clara,
Mi corazón, mi dentadura,
Mi claridad y mi cuchara,
Mi sal de la semana oscura,
Mi luna de ventana clara.

IMPRESSÃO: NASCER DO SOL

Não sou um conhecedor de artes plásticas, mas me interesso e gosto, como todo mundo gosta, ou deveria gostar, dos impressionistas. São os meus pintores preferidos. Pois a data oficial da, digamos, fundação do impressionismo, é 15 de abril de 1874. Trinta desses mestres apresentaram seus quadros numa exposição em Paris. Entre as telas estava "Impressão: Nascer do Sol", de Monet, que deu nome ao movimento.

Existe aquela tese, com a qual concordo, de que tudo que é inovador passa por três fases:

Primeiro é ridicularizado.

Em seguida é violentamente combatido.

E finalmente é aceito e absorvido.

Os impressionistas, naquele 15 de abril, foram ridicularizados. Leia um trecho de uma crítica do escritor Louis Leroy, que também era um pintor de paisagens:

"Ai, foi um dia muito cansativo aquele em que me aventurei a visitar a primeira exposição no Boulevard des Capucines. Tinha ido lá sem suspeitar de algo mau. Pensava que ia encontrar pintura, mais má do que boa, mas não contava de maneira nenhuma com tantas infrações contra a arte, os velhos mestres e a forma. Pois é, forma e mestres! Aqueles já não contam, meu amigo! Estava reservado a Monet dar-lhes o último golpe. Veja no catálogo: "Impressão: Nascer do Sol". Impressão, bem sabia, uma vez que estou impressionado deve tratar-se de uma impressão... Que liberdade! Que leveza no trabalho! Um papel de parede em seu estado original está mais talhado do que essa imagem do mar!"
A imprensa é assim: sempre atrás da arte e da sociedade.

Código David: John Travolta e considerações

07 de abril de 2013 2

Outro dia ocorreu algo até então inédito para mim: acordei triste. É que, talvez devido ao, digamos, período vulnerável que atravesso, tenho tido sonhos que não são sonhos; são lembranças. Algum psicanalista vai ter que me explicar isso.

Por exemplo:

Numa noite desta semana, vivi de novo, como se de novo acontecesse, a época em que era guri, quando eu e meus amigos resolvemos montar um time de futebol de salão, um jogo que já não existe mais.

Aliás, sobre o velho jogo de futebol de salão, preciso fazer uma consideração. Ei-la:

Consideração:

O futebol de salão era totalmente diferente do seu sucedâneo, o futsal, não apenas nas regras, mas na bola do jogo. Aquela era uma bola pesada e pequena, que quase não quicava, afeita aos que jogavam como homens, não essas bailarinas de hoje em dia.

A bola do futebol de salão era tão pesada, que podia ser temerária. Soube-o bem o goleiro Languiça. Uma vez, já contei isso faz tempo, o Languiça defendeu sentado e de pernas abertas uma bola chutada rente ao piso com muita violência. O problema é que, antes de lhe chegar às mãos, a bola explodiu em sua bolsa escrotal num som de tomate esmagado: PLOFT! Então, deu-se a cena de filme de terror: as partes pudendas do Languiça começaram a inchar de imediato, como se tivessem vida própria. Ele desabou, urrando de dor, enquanto aquela massa rósea lhe saía pela perna do calção preto, crescente e assustadora. Parecia a Bolha Assassina do filme. Achamos que o saco do Languiça ia estourar. Não estourou, para sorte de seus descendentes.

O Cometa

Agora voltando ao nosso time de futebol de salão. Os fundadores éramos eu, o Jorge Barnabé, o Amilton Cavalo, o Plisnou, o Sérgio Anão e o Diana. Bem. Para começar, precisávamos de fardamento. Como nossa verba era limitada, pegamos algumas camisetas brancas velhas, compramos um saquinho de anil no Febernatti e a minha mãe foi para o tanque vulgar a fim de tingi-las de azul-marinho. Com calção branco e meia branca, pronto: uma belezura de uniforme, parecido com o Cruzeiro quente. Chamamos nosso time de Cometa FC. Não sei por que escolhemos esse nome, não é um bom nome, mas decidimos em votação. As imperfeições da democracia...

De qualquer forma, o Cometa teve a sua carreira, até que, anos depois, decidimos jogar um campeonato na cancha de cimento e areia da Amovi, a associação dos moradores do IAPI. Era um campeonato importante, do qual iam participar os melhores times do bairro. E, na nossa chave, caíram os dois melhores entre os melhores: o América e o time do Jairo, não lembro o nome do time do Jairo, mas preciso fazer uma consideração sobre ele. Aí vai:

Outra consideração:

O Jairo era respeitado por ter o chute mais poderoso da região compreendida entre os altos da Plínio e a Assis Brasil profunda. Era um chute seco, reto, uma bala de bazuca. Ele batia de canhota, que nem O Melhor de Todos, Roberto Rivellino. Se o Jairo fosse para o Grêmio ou para o Inter, pegaria a 10 fácil, fácil. Foi o chute do Jairo que abalroou as partes delicadas do Languiça, que horror.

Pois o time do Jairo era um dos nossos adversários, além do temível América. Ocorre que aquele era o tempo dos Embalos de Sábado à Noite, o filme, acerca do qual tenho de tecer nova consideração.

Terceira consideração:

Todos nós queríamos ser John Travolta, naquele tempo. Ele dançava e enlouquecia as mulheres. Numa cena do filme, a menina, macia e sorridente, se aproxima da mesa em que ele está bebendo com os amigos, debruça-se e mia:

– Você é tão bom na cama quanto na pista?

Ele dá de ombros e vai dançar com ela. Depois de alguns movimentos, afasta-a dizendo:

– Espero que você não seja tão ruim na cama quanto na pista.

E vai rebolar sozinho, para gáudio dos frequentadores do que na época se chamava “discoteque”, que é um nome tão ruim quanto Cometa.

Esse filme, Embalos de Sábado à Noite, nos fazia crer que a vida ia acontecer num fim de semana e que as meninas uivariam para a Lua se dançássemos com os polegares para cima. Nessa, alguns se deram bem, como o meu amigo Plisnou, pequeno em tamanho mas grande em elasticidade. Eu, no entanto, bem que poderia ouvir:

– Você é tão ruim na cama quanto na pista?

Felizmente, não havia meninas tão espirituosas no Gondoleiros, onde passávamos as madrugadas de sábado e onde passamos, exatamente, a madrugada da véspera do campeonato na Amovi.

Sêneca sabia

Como diria Sêneca, nós “exaurimos o corpo e degradamos a alma, sem satisfazer a nenhum dos dois”. Voltamos para casa já de manhã, tomamos banho, vestimos a camiseta azul do Cometa e fomos, indormidos e amassados, para a Amovi. Lá nos esperavam o Jairo e sua canhota de ferro, lá nos esperavam os craques do América. Levamos duas goleadas de 10 a 0, o Sérgio Anão fez um gol contra, saímos da cancha de areia e cimento sofrendo de ressaca e humilhação.

Foi o fim do Cometa.

Foi essa história que me voltou num sonho e que até me fez acordar um pouco triste, mas, depois, no decorrer do dia, acabou me alegrando. Porque, ora, que bom que houve Embalos de Sábado à Noite e goleadas de domingo de manhã na minha vida.

  • Outro dia ocorreu algo até então inédito para mim: acordei triste. É que, talvez devido ao, digamos, período vulnerável que atravesso, tenho tido sonhos que não são sonhos; são lembranças. Algum psicanalista vai ter que me explicar isso.

    Por exemplo:

    Numa noite desta semana, vivi de novo, como se de novo acontecesse, a época em que era guri, quando eu e meus amigos resolvemos montar um time de futebol de salão, um jogo que já não existe mais.

    Aliás, sobre o velho jogo de futebol de salão, preciso fazer uma consideração. Ei-la:

    Consideração:

    O futebol de salão era totalmente diferente do seu sucedâneo, o futsal, não apenas nas regras, mas na bola do jogo. Aquela era uma bola pesada e pequena, que quase não quicava, afeita aos que jogavam como homens, não essas bailarinas de hoje em dia.

    A bola do futebol de salão era tão pesada, que podia ser temerária. Soube-o bem o goleiro Languiça. Uma vez, já contei isso faz tempo, o Languiça defendeu sentado e de pernas abertas uma bola chutada rente ao piso com muita violência. O problema é que, antes de lhe chegar às mãos, a bola explodiu em sua bolsa escrotal num som de tomate esmagado: PLOFT! Então, deu-se a cena de filme de terror: as partes pudendas do Languiça começaram a inchar de imediato, como se tivessem vida própria. Ele desabou, urrando de dor, enquanto aquela massa rósea lhe saía pela perna do calção preto, crescente e assustadora. Parecia a Bolha Assassina do filme. Achamos que o saco do Languiça ia estourar. Não estourou, para sorte de seus descendentes.

  • O Cometa

    Agora voltando ao nosso time de futebol de salão. Os fundadores éramos eu, o Jorge Barnabé, o Amilton Cavalo, o Plisnou, o Sérgio Anão e o Diana. Bem. Para começar, precisávamos de fardamento. Como nossa verba era limitada, pegamos algumas camisetas brancas velhas, compramos um saquinho de anil no Febernatti e a minha mãe foi para o tanque vulgar a fim de tingi-las de azul-marinho. Com calção branco e meia branca, pronto: uma belezura de uniforme, parecido com o Cruzeiro quente. Chamamos nosso time de Cometa FC. Não sei por que escolhemos esse nome, não é um bom nome, mas decidimos em votação. As imperfeições da democracia...

    De qualquer forma, o Cometa teve a sua carreira, até que, anos depois, decidimos jogar um campeonato na cancha de cimento e areia da Amovi, a associação dos moradores do IAPI. Era um campeonato importante, do qual iam participar os melhores times do bairro. E, na nossa chave, caíram os dois melhores entre os melhores: o América e o time do Jairo, não lembro o nome do time do Jairo, mas preciso fazer uma consideração sobre ele. Aí vai:

    Outra consideração:

    O Jairo era respeitado por ter o chute mais poderoso da região compreendida entre os altos da Plínio e a Assis Brasil profunda. Era um chute seco, reto, uma bala de bazuca. Ele batia de canhota, que nem O Melhor de Todos, Roberto Rivellino. Se o Jairo fosse para o Grêmio ou para o Inter, pegaria a 10 fácil, fácil. Foi o chute do Jairo que abalroou as partes delicadas do Languiça, que horror.

    Pois o time do Jairo era um dos nossos adversários, além do temível América. Ocorre que aquele era o tempo dos Embalos de Sábado à Noite, o filme, acerca do qual tenho de tecer nova consideração.

    Terceira consideração:

    Todos nós queríamos ser John Travolta, naquele tempo. Ele dançava e enlouquecia as mulheres. Numa cena do filme, a menina, macia e sorridente, se aproxima da mesa em que ele está bebendo com os amigos, debruça-se e mia:

    – Você é tão bom na cama quanto na pista?

    Ele dá de ombros e vai dançar com ela. Depois de alguns movimentos, afasta-a dizendo:

    – Espero que você não seja tão ruim na cama quanto na pista.

    E vai rebolar sozinho, para gáudio dos frequentadores do que na época se chamava “discoteque”, que é um nome tão ruim quanto Cometa.

    Esse filme, Embalos de Sábado à Noite, nos fazia crer que a vida ia acontecer num fim de semana e que as meninas uivariam para a Lua se dançássemos com os polegares para cima. Nessa, alguns se deram bem, como o meu amigo Plisnou, pequeno em tamanho mas grande em elasticidade. Eu, no entanto, bem que poderia ouvir:

    – Você é tão ruim na cama quanto na pista?

    Felizmente, não havia meninas tão espirituosas no Gondoleiros, onde passávamos as madrugadas de sábado e onde passamos, exatamente, a madrugada da véspera do campeonato na Amovi.

  • Sêneca sabia

    Como diria Sêneca, nós “exaurimos o corpo e degradamos a alma, sem satisfazer a nenhum dos dois”. Voltamos para casa já de manhã, tomamos banho, vestimos a camiseta azul do Cometa e fomos, indormidos e amassados, para a Amovi. Lá nos esperavam o Jairo e sua canhota de ferro, lá nos esperavam os craques do América. Levamos duas goleadas de 10 a 0, o Sérgio Anão fez um gol contra, saímos da cancha de areia e cimento sofrendo de ressaca e humilhação.

    Foi o fim do Cometa.

    Foi essa história que me voltou num sonho e que até me fez acordar um pouco triste, mas, depois, no decorrer do dia, acabou me alegrando. Porque, ora, que bom que houve Embalos de Sábado à Noite e goleadas de domingo de manhã na minha vida.

Código David: Um câncer pode operar mudanças

31 de março de 2013 81

O lado bom do câncer

Talvez você não saiba, mas tirei um rim. Quer dizer: eu, não; tiraram para mim. Disseram que meu rim estava apodrecido por um câncer e que precisava ser removido. Concordei, e eles o fizeram com presteza. Agora ando pelo mundo com um único rim.

O que posso dizer disso tudo é que gostava do tempo em que tinha dois rins. Não que a vida seja muito diferente com um só, mas, puxa, a Natureza sábia nos deu dois por algum motivo. Tenho que cuidar com desvelo do que me sobrou. Sei o quanto vale um rim.

O que se diz nessa hora

As pessoas me untaram com inúmeras palavras de conforto, nesse período de recuperação. Ajudaram bastante, continuam ajudando. Mas às vezes me deixaram intrigado. Vou citar algumas curiosas frases de consolo que você ouve nesse momento delicado

1. “Você vai se tornar uma pessoa melhor graças a essa experiência.”

Francamente, não quero me tornar uma pessoa melhor. Desconfio até que esteja me tornando uma pessoa pior. Sim, um homem com um rim só não se importa de ser malvado de vez em quando. Tenha cuidado com quem só tem um rim.

2. “Você vai aprender muito com isso tudo”.

Nem doutorado em Harvard custa tanto. O preço dessa lição é alto demais para mim. Prefiro a felicidade da ignorância.

3. “Nesses momentos, a nossa fé em Deus aumenta”.

Perguntei por que aumentaria. Resposta: Deus ajuda na recuperação. Certo, Ele ajuda. Mas por que, então, Ele me incrustou um câncer no rim? Não fiz nada para merecer isso. Não sou grupo de risco, não fumo, faço esporte, me alimento bem, vou almoçar com minha mãe todas as semanas. Por que o câncer??? Deus deveria ter ajudado ANTES, impedindo o câncer. Não vou recusar Sua ajuda, claro, estou precisando, mas sinto-me um pouco ressentido por ter pego um maldito câncer e, agora, por contar com apenas um rim nas minhas entranhas. Mas ressalto: quando digo isso não é nada pessoal, espero que o Senhor não deixe de me ajudar por causa dessa pequena crítica.

Feliz, mas crespo

Em todo caso, é preciso pensar positivo. Deve haver algum lado positivo em se pegar um câncer. O Gianecchini pegou um e nunca o vi tão faceiro. Escreveu um livro, aparece em tudo que é comercial, dá palestra. Era um comum, antes do câncer; agora virou personalidade. Como é que pode um cara ficar tão feliz com um câncer?

Mas ele voltou crespo, depois que se curou. Terá valido a pena?

Um câncer opera mudanças... Vá que eu volte de cabelo liso e com a cara do Gianecchini. É preciso pensar positivo.

Meu funeral

Outra coisa boa é que o câncer lhe rende homenagens póstumas. As pessoas pensam: coitado, vai morrer. E aí passam a olhá-lo pelo seu lado positivo, como se o seu passamento já tivesse ocorrido. É como se você tivesse a alegria de assistir ao seu próprio funeral. Espero que, depois, quando eu ficar bom e com a cara do Gianecchini, as pessoas continuem boazinhas comigo.

Medo de agulha

Um dia depois de sair do hospital, fui fazer uns exames de sangue complementares. A moça do laboratório me perguntou:

– Você tem medo de fazer exame de sangue?

Respondi:

– Nos últimos cinco dias rodearam o meu umbigo com fincadas de injeções, picaram as veias dos meus braços bem umas 40 vezes, enfiaram um canudo no canal do meu pênis e um dedo no meu ânus, meteram-me um dreno no flanco, abriram-me um buraco na barriga, lá de dentro tiraram meu rim e me costuraram. Não tenho medo de fazer exame de sangue.

Isso é pensar positivo, não é?

Poesia numa hora dessas

João Cabral de Melo Neto sobre o câncer:

“O câncer é aquele ônibus

Que ninguém quer mas com que se conta;

Não se corre atrás dele,

Mas quando ele passa se toma”.

Código David: O que o homem gosta na mulher

10 de março de 2013 6

Resolvi escrever sobre as mulheres durante toda a Semana da Mulher. Mas não por causa delas e, sim, por nossa causa, nós, homens. Porque o centro da nossa vida é a mulher, e o centro da vida delas não, não é o homem – é outra coisa sobre a qual um dia vou escrever.

Assim, não sendo o centro de nada, nós homens estamos na periferia de tudo, somos coadjuvantes. Precisamos, pois, ser acarinhados e homenageados como compensação por tamanha insignificância, e a Semana da Mulher cumpre esse papel ao festejar o caule da nossa existência, aquilo de que mais gostamos e que mais nos atormenta, a razão das nossas alegrias e aflições, a costela que nos foi arrancada e da qual sentimos falta a cada respiração.

A mulher.

1 Beleza e espírito

Tenho que dizer, a despeito dos narizes torcidos das feministas, que nós homens preferimos as mulheres belas. Sim, a beleza nos comove, somos todos olhos nos primeiros contatos.

Nos primeiros.

Depois, muda, vai mudando. Porque a mulher precisa ter espírito, também. Senão, o que sustenta a conversa e o feitiço entre a taça de champanhe de abertura e o cálice de conhaque de encerramento de um longo e dispendioso jantar em um restaurante francês?

Espírito. Sim, senhor.

E que gênero de mulheres têm beleza e espírito?

Direi logo ali.

2 Lindas e mudas

Não procure mulheres de beleza e espírito entre as modelos. As modelos são lindas, óbvio, ou não seriam modelos “de beleza”. A profissão de uma modelo é ser bonita. Mas uma modelo, o que uma modelo faz? Ela caminha pela passarela colocando um pé diante do outro, faz cara de braba, para, estica o pescoço, gira e vai embora. No fim do desfile, ela aparece sorrindo e batendo palmas atrás do costureiro, hoje promovido a estilista.

E só.

Uma modelo é muda. Não está acostumada às palavras. Logo, não está acostumada a raciocinar. Quando ouço a Gisele Bündchen falando, estremeço. Sinto que há alguma coisa errada ali. A voz dela não passa confiança, sei que ela não está pensando no que fala, que é tudo ensaiado. Muito esquisito. Não, não procure mulheres de espírito entre as modelos.

3 Lindas, mas às vezes brabas

As atrizes, sim. As atrizes têm de ler e compreender textos. Ou seja: elas precisam pensar. Então, você pode encontrar mulheres belas e de espírito entre as atrizes.

Pegue uma Ava Gardner, aquela que o escritor Jean Cocteau definiu como “o mais belo animal do mundo”. Ava Gardner hipnotizava os homens com sua beleza, sim, mas os escravizava com seu espírito. Foi casada umas quatro ou cinco vezes, uma delas com Frank Sinatra. O bilionário maluquete Howard Hughes era apaixonado por ela. Ela, não. Ava gostava de Hughes, mas não a ponto de entregar-lhe a alma. Desesperado de ciúmes, o ricaço contratava detetives para vigiá-la. Uma noite, Ava se preparava para sair com outro homem e bateram-lhe à porta. Eram os capangas de Hughes, que lhe informaram que o patrão a esperava. Ava respondeu que ele podia ficar esperando o quanto quisesse, porque ela sairia com outro.

– Ele não vai gostar nada disso – observou um dos brutamontes.

Ava deu de ombros e saiu. Voltou tarde da noite, recolheu-se, adormeceu e, alta madrugada, acordou com a sensação de que havia alguém no seu quarto. Havia mesmo. Era Hughes, possesso. Começaram a discutir. Ele desferiu um soco no olho dela, que inchou instantaneamente. Ava, mesmo caolha, armou-se de um sino de bronze e desceu-o na cara do bilionário, que saiu cambaleando, sangrando e cuspindo dentes no tapete. Foi direto para o hospital.

Mais tarde, eles fizeram as pazes. Ava perdoou, mas Hughes teve de colocar pivô.

Belas frases de belas

Vou citar algumas frases de lindas atrizes, para você constatar o que elas tinham além da beleza. Primeiro, da nossa fera Ava Gardner, e a primeira frase que destaco foi comprovada por Hughes:

AVA GARDNER

Quando eu perco a calma, queridos, vocês não encontram em lugar nenhum.

No fundo, eu sou muito superficial.

Quero viver até os 150 anos, mas no dia em que eu morrer, desejo que seja com um cigarro em uma mão e um copo de uísque na outra.

O que eu realmente gostaria de dizer sobre o estrelato é que ele me deu tudo o que eu nunca quis.



MAE WEST

A atriz frasista campeã é Mae West, sem dúvida. Beba de algumas:

Ama teu próximo. Mas, se ele for alto, moreno e bonitão, será bem mais fácil.

A melhor forma de se comportar é comportar-se mal.

A virtude tem suas vantagens,

mas não dá bilheteria.

SHARON STONE

A nossa loira Sharon Stone foi quem disse exata e precisamente o que eu disse nesse texto. A frase imortal de Sharon, tão imortal quanto sua cruzada de pernas, é a seguinte, em palavras publicáveis em um jornal de família como esse:

A união da inteligência com a (nome chulo do órgão sexual feminino) é invencível.

E é.

Outra boa da Sharon:

O humor é uma forma de ser valente.

E é.

Código David: O que realmente une os seres humanos

03 de março de 2013 9

Os Beatles e a batata frita unificam a humanidade. Porque todo mundo gosta de Beatles e de batata frita, todo mundo!, o que os torna, uns e outra, casos únicos. Alguém pode lembrar do sexo. Verdade, o sexo é muito popular, ou não seríamos sete bilhões de bípedes respirantes sobre a superfície do planeta, uma vez que há infartos, dengues, vírus insidiosos, bactérias nefandas, infecções generalizadas, acidentes de carro, de moto, de navio e de avião, afogamentos, pianos que caem do oitavo andar e, principalmente, outras pessoas conspirando contra a nossa vida. Há tudo isso, e continuamos nos reproduzindo. Por quê? Por causa da boa imagem de que desfruta o sexo. No entanto, afirmo: algumas pessoas NÃO GOSTAM de sexo. Ou não se importam com. Mas todas, todas as pessoas gostam de Beatles e batata frita, até os esquimós, os pigmeus e os norte-coreanos, se por ventura ouvirem os Beatles e trincharem uma batatinha frita.

Pois nesse março que se inicia o primeiro álbum dos Beatles, “Please Please Me”, completará meio século. São 50 anos redondos, mas o meu filho de cinco, quando coloco algo dos Beatles na radio eletrola, ele cessa tudo o que está fazendo, estica o pescoço, ouve em silêncio e depois comenta:

– Música bonita, papai. Bota de novo?

Dom Quixote e 50 tons

Há quem diga que a chamada “Grande Arte” não existe. Que é impossível fazer essa classificação. Uma das provas seriam os romances noir, aquelas obras imortais de Raymond Chandler, David Goodis, Ed McBain, Michael Connelly e Ross MacDonald, esses mestres, entre outros. Pois os romances noir, logo que surgiram, eram considerados subliteratura. Só que hoje foram promovidos à Grande Literatura, com G e L maiúsculos. Assim, a classificação de algo como Grande Arte ou subarte, ou seja o que for, seria impossível. Depende de gosto, do momento, da interpretação do crítico.

Não concordo.

Tenho um critério para definir o que se enquadra em Grande Arte: é o que fica. Quer dizer: independe do contexto. Você pode se emocionar com a leitura de Dom Quixote agora, num domingo ameno de março de 2013, e esse foi o primeiro romance escrito no Ocidente, há mais de quatro séculos. Mas duvido que os 50 Tons de Cinza arrepiem os cabelinhos das nucas das meninas de 2023, duvido mesmo.

Não se mede o que é Grande Arte pelo sucesso, mas por sua universalidade e atemporalidade.

Meu filho adora os Beatles e os filhos dele também vão adorar. Porém, na época, no começo, os contemporâneos tinham dificuldades em ver a grandeza do que testemunhavam. A revista Newsweek escreveu o seguinte sobre John, Paul, Ringo e George em 1964:

“Visualmente, são um pesadelo. Ternos eduardianos apertados e cabelos em forma de tigela. Musicalmente, um desastre: guitarras e bateria detonando uma batida impiedosa, que afugenta ritmo, melodia e harmonia. As letras (pontuadas por gritos de ‘yeah, yeah, yeah’) são uma catástrofe, um amontoado de sentimentos baseados em cartões do dia dos namorados”.

Não é uma preciosidade de crítica bem fundamentada? Estaria pronto a concordar com o jornalista, se não estivesse a uma distância de cinco décadas, olhando tudo do alto e de longe.

Já o New York Daily News meteu-se a fazer uma previsão:

“Bombardeada com problemas ao redor do mundo, a população voltou seus olhos para quatro jovens britânicos com cabelos ridículos. Em um mês, a América os terá esquecido e vai ter que se preocupar novamente com Fidel Castro e Nikita Krushev”.

É difícil enxergar a Grande Arte enquanto ela está acontecendo.

O QUE LER: Beatles - A Biografia

Gostar dos Beatles todos mundo gosta, mas se você AMA os Beatles, leia “Beatles - A Biografia”, de Bob Spitz. O cara escreveu o que se chama de cartapácio sobre os rapazes de Liverpool: quase um milheiro de páginas.

Bob Spitz é um jornalista americano. Pesquisou a história dos Beatles por dois anos e meio e levou outros cinco anos e meio para escrevê-la. Se você for bom em matemática, já calculou que o livro levou oito anos para ficar pronto. Entre as mais de 500 obras sobre o Fab Four, certamente é a mais completa. E bem escrita. Vale o esforço.

Como alcançar o crime zero

Quando os Beatles se apresentaram no programa de Ed Sulivan, em fevereiro de 1964, nenhum único crime foi registrado nos Estados Unidos.

Nenhum!

Pelo menos é o que os americanos divulgaram, na época. Será verdade? Será que todos os criminosos do Grande Irmão do Norte estavam hipnotizados pelos Beatles durante aquele naco de tempo? Acredito. Porque, afinal, todo mundo gosta dos Beatles, inclusive os fora-da-lei.

Imagino que os americanos estivessem comendo batata frita durante o programa do Ed Sulivan, eles adoram french fries. Que momento da Humanidade. As duas preferências universais do homem sendo exercidas ao mesmo tempo. Foram felizes os americanos daqueles dias. Vou agora mesmo pegar umas fritas e ouvir Beatles.

O QUE OUVIR: Rua Ramalhete

Não serei óbvio de indicar um disco dos Beatles, mas vou sugerir que você ouça uma música que os cita: “Rua Ramalhete”, do Tavito, cujo refrão pergunta: “Será que algum dia eles vêm aqui cantar as canções que a gente quer ouvir?” Eles são os Beatles, claro, que embalavam “os bailes no Clube da Esquina”, como diz a canção.

O curioso é que não havia bailes no Clube da Esquina, já que o Clube da Esquina não era clube coisa nenhuma. Era uma reunião de compositores e músicos mineiros, entre eles Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges e Fernando Brant. As mães deles perguntavam por onde os meninos andavam e a resposta era sempre a mesma: “Estão lá na esquina, cantando e tocando violão”. Virou Clube da Esquina, disco e movimento musical. Bons tempos da MPB.

Código David: “O Oscar dos Oscars””

24 de fevereiro de 2013 40

Talvez eu ache O Poderoso Chefão o melhor filme de todos os tempos. Talvez, não tenho certeza. Mas, se houvesse um Oscar dos Oscars, e eu fosse da Academia, votaria n’O Poderoso Chefão. Foi a conclusão a que cheguei depois de muito ponderar acerca dos melhores filmes de todos os tempos, agora, na véspera do Oscar, que será exibido neste domingo.

Passei a semana tentando escolher os melhores filmes que já vi. Mas como fazê-lo? Mulher, você tem uma mulher da sua vida. Ou pode ter. Ou deve, sei lá. Time, decerto que tem um só, e para sempre. Comida, há quem eleja uma única como preferida e, diante dela, rejeite todas as outras, mesmo que seja o feijão da mãe, não existe o que se compare ao feijão da mãe. Agora, filme? Complicado. Comecei tentando elaborar uma lista dos 10 primeiros. Não deu. Listei 20. Depois 30. Resolvi fechar em 50 redondos. Mas acabei ficando com 55. Você pode me ajudar a tirar cinco dessa lista?

1. O Poderoso Chefão

2. Era Uma Vez na América

3. Trainspotting

4. Perdidos na Noite

5. Os Bons Companheiros

6. O Banheiro do Papa

7. Um Estranho no Ninho

8. Platoon

9. Cidade de Deus

10. A Marca da Pantera

11. Pulp Fiction

12. Cinema Paradiso

13. O Exterminador do Futuro

14. Blade Runner

15. E.T.

16. Laranja Mecânica

17. Testemunha de Acusação

18. Veludo Azul

19. Golpe de Mestre

20. Fargo

21. O Silêncio dos Inocentes

22. Janela Indiscreta

23. Cleópatra

24. 300

25. Quo Vadis?

26. O Último Imperador

27. Pequeno Grande Homem

28. Spartacus

29. O Nome da Rosa

30. A Queda

31. O Exorcista

32. O Iluminado

33. O Bebê de Rosemary

34. O Sexto Sentido

35. Drácula de Bram Stoker

36. Frankenstein

37. Forrest Gump

38. Manhattan

39. As Vinhas da Ira

40. O Clube da Lua

41. Tubarão

42. Rain Man

43. O Jovem Frankenstein

44. Feitiço do Tempo

45. A Primeira Noite

de Um Homem

46. A Vida de Brian

47. Um Peixe Chamado Wanda

48. O Pecado Mora ao Lado

49. Se Meu Apartamento Falasse

50. Doutor Jivago

51. E o Vento Levou

52. A Bela da Tarde

53. Beleza Americana

54. Cidadão Kane

55. Um Conto Chinês

Duas deusas de gelo

Catherine Deneuve e Grace Kelly eram perfeitas. Mas eram belezas geladas, inatingíveis, estilo Greta Garbo com o seu “I want to be alone”. Emocionam-me mais as mulheres de beleza felina, como Nastassja Kinski em A Marca da Pantera, ou mesmo uma leoa de beleza agressiva como Angelina Jolie, ou os olhos lilases de Elizabeth Taylor, que, todo mundo sabe, é a verdadeira face de Cleópatra, sempre foi e sempre será, desde o ano 69 a.C., quando Cleópatra VII nasceu para a glória feminina eterna, ela que era linda, ao contrário do que querem afirmar alguns malditos detratores modernos, e que, não, não!, não era nariguda. A fama do nariz da mulher que seduziu César e Antônio originou-se 17 séculos depois da sua morte de picada de áspide, quando Pascal escreveu: “O mundo seria diferente, se o nariz de Cleópatra fosse menor”. E seria.

Também me encantaria uma Marylin, porque sabia exercer sua sensualidade ingênua, e uma nada ingênua Claudia Cardinale, que em Era Uma Vez no Oeste, aparece deitada de bruços na cama ao lado do vilão Henry Fonda. Suas ilhargas estão apenas cobertas pelo lençol macio e Fonda observa com gula a sua morenice. A seguir, pergunta, malicioso:

– Você faria tudo para sobreviver, não?

E ela, num meio sorriso:

– Tudo...

Belos momentos do cinema.

Veja e chore

Depois de ler este pequeno texto, você me faça um favor: vá ao YouTube e procure as cenas que descreverei. São as melhores cenas de dança do cinema, na opinião do degas aqui. Dança com mulheres, que nunca achei graça em Gene Kelly sapateando. Vamos lá:

Uma Thurman com John Travolta em Pulp Ficcion (foi quando Tarantino recuperou Travolta para o mundo).

Salma Hayek em cima da mesa em Drinque no Inferno (é de alucinar mosteiros).

Natalie Portman em Closer (não é bem uma dança, mas é quase e, bem, também alucina mosteiros).

Finalmente, uma dança em que o homem é protagonista, uma dança emocionante, que leva às lágrimas até os corações de pedra das mulheres que se sabem donas do mundo: Al Pacino interpretando um cego em Perfume de Mulher. Ele baila o mais lindo dos tangos, Por Una Cabeza, com uma inglesa deslumbrante, Gabrielle Anwar, que depois participou do seriado The Tudors. Corra para assistir. E chore.

Dois gigantes na banheira

Jack Nicholson e Marlon Brando eram os melhores amigos. Viviam em mansões vizinhas, em Beverly Hills. Faziam festas juntos, às vezes dentro da mesma banheira, que, suponho e espero, devia ser do tamanho de uma piscina. Partilhavam experiências profissionais, opiniões libertárias, diversões picantes e mulheres belas. Antes de morrer, Brando estabeleceu que Nicholson deveria dirigir sua cerimônia de cremação. Nicholson o fez e, depois, comprou a casa do amigo, para tê-lo sempre na lembrança.

Queria participar de uma festa com esses dois, os dois maiores atores do cinema. Aliás, poderia ter incluído na minha lista Duelo de Gigantes, o único filme em que eles contracenaram. Ótimo western, Duelo de Gigantes. Por sinal, poderia ter colocado também Três Homens em Conflito e Era uma Vez no Oeste, outros dois westerns históricos, ambos de um dos meus diretores preferidos, Sérgio Leone, uma das maiores inspirações do Tarantino, sobretudo neste último filme dele, Django, que é mais um que poderia estar na lista, acompanhado, é claro, de Cães de Aluguel, grande filme, com grandes atores, o que me faz lembrar de que esqueci de “sir” Laurence Olivier, um ator que bem poderia ombrear com Jack e Marlon, e aí lembro de Maratona da Morte, baita filme com sir Laurence, que tinha outro baita ator, Dustin Hoffman, que foi protagonista de Todos os Homens do Presidente, que também poderia ser listado e que tinha também Robert Redford, que fez... aaaah! Vou parar antes de chegar a 100.

Código David: Mantenha a calma e SIGA EM FRENTE!

10 de fevereiro de 2013 5

Seleção Brasileira foi treinar num lugar fora da cidade, ao Norte de Londres, bem ao Norte, virando à direita, fundos. Longe, talvez inóspito, mas fazer o quê?... Enfiei-me numa touca de lã, armei-me de um denso capuccino comprado num bar próximo e seja o que Tutátis quiser. Em um minuto, lá estava o degas aqui, olhando aqueles caras jogar bola.

Tudo bem, tudo certo, mas, encerrado o treino, eu e outros repórteres tínhamos de tomar um trem para voltar à civilização. A estação mais próxima ficava a cerca de um quilômetro, precisávamos percorrer a distância por um caminho de chão batido que cortava um campo. Foi justamente em meio a esse trajeto que começou a nevar. Não eram flocos gordos, nada disso, mas mesmo aqueles pequeninhos, não maiores do que uma tecla de computador, eles todos juntos nos faziam sentir muito, muito, mas muito frio.

Empreendemos algo parecido com a chamada "desabalada corrida", só que com mochilas com computadores às costas. Dureza. Enquanto corria e bufava, pensei que fevereiro não é um mês para se estar em Londres. Fevereiro é mês de Carnaval no Rio, e, em Londres, o Carnaval se dá em agosto, aqueles desfiles de máscaras em Notting Hill. Fevereiro, em Londres, é para chá quente, pints mornas e conhaque nas reuniões dos clubes de Pall Mall, aquelas sociedades exclusivíssimas que os ingleses criaram para fugir de suas próprias esposas.

Mas depois, no trem, fui mudando de ideia. Conversávamos e ríamos e fomos concordando que, mesmo em dias sombrios, Londres tem vasto charme. Trata-se de uma cidade que muda o tempo todo. Veja as mulheres. As inglesas eram conhecidas no mundo inteiro pela falta de graça. Agora, não. Agora, ainda que estejam debaixo de frio enregelante, elas circulam pelo Green Park valentemente dentro de minissaias e sobre saltos altos. Verdade que sob as minissaias há meias colantes e que os saltos não são tão altos assim, mas as inglesas, hoje, são mulheres vaidosas. Pintam-se com critério, usam cabelos longos, são perfumadas, comportam-se como latinas, não como as secas inglesas de outrora.

Portanto, Londres bem merece uma homenagem, inclusive em dias dinzentos. E a faço agora, mas não para lembrar planejamentos que deram certo, e sim o contrário. Cito fatos que poderiam ser corridas inesperadas sob a neve em distritos longínquos. Cito golpes de sorte que funcionaram apenas por... sorte. Ei-los:

1. Keep calm and carry

Você já leu essa frase em camisetas e na internet, óbvio. Sobretudo a primeira parte: "Keep calm and..." Vale tudo para completar o que falta, até "call Batman", mas a frase original fecha com o carry on. Mantenha a calma e siga em frente. Foi criada por Churchill para ser impressa em cartazes de propaganda na Segunda Guerra. A ideia era inspirar coragem ao povo inglês ameaçado da invasão alemã. Como a invasão não ocorreu, os cartazes foram destruídos. Depois da Guerra, sete acabaram sendo encontrados e se tornaram cult. Churchill
era mesmo um belo
de um frasista.

2. David Beckham

Eis um bom jogador de futebol que não passa disso: de um bom jogador de futebol, do nível de tantos outros que há por aí. Mas trata-se de um ídolo incomparável, devido ao carisma e, bem, à beleza. Sim, tenho de admitir que o David Beckham é um cara bonito (característica dos Davids). Já o vi algumas vezes em entrevistas, depois jogos internacionai e, uma noite, eu e o Tulio Milman jantávamos num restaurante de Pequim, durante a Olimpíada de 2008, e, de repente, entraram o David Beckham e dois amigos.

Eles sentaram-se a uma mesa, fizeram pedidos e um burburinho de excitação se espalhou pelo ambiente. Mas ninguém o incomodou. Beckham jantou tranquilamente com os amigos, bebeu seu vinho e só quando estava no café é que uma fã se aproximou para tirar foto. Ele acedeu, e foi como se desse uma senha. Outras dezenas de fãs ergueram-se de seus lugares e formaram fila para serem fotografados com ele. O Tulio propôs que tirássemos uma foto com o Beckham também, mas não topei.

Achar bonito, tudo bem. Mas de longe.

3. O beatle de menos

Pete Best chegou a ser um pouco beatle, mas foi demitido da banda a um palmo do sucesso. Em seu lugar entrou Ringo Star, mais baterista, mais narigudo e mais carismático. Ringo era um vagabundo, e aprendeu a tocar bateria quando estava doente, internado em um hospital. Best virou um inglês comum, desses que a gente encontra no metrô, e os Beatles... bem, você sabe. Por conta disso, Best já tentou o suicídio algumas vezes. Agora está mais conformado e até faz alguns shows por aí. Em contrapartida, Ringo é um feliz beatle sobrevivente e Paul McCartney fez, em Porto Alegre, o melhor show que já assisti na minha vida. Seria igual, se o baterista fosse Best? Não sei.

4.  O Stone demais

Brian Jones, dizem, era o verdadeiro Stone rebelde dos Rolling Stones. Os outros, inclusive Keith Richardos, eram bandeirantes, perto dele. Mas parece, também, que era um chato, tanto que há suspeitas de que tenha sido assassinado dentro da sua própria piscina. Hoje os Stones estão aí,enrugados mas bem-sucedidos. Seria igual, se Jones tivesse sobrevivido? Isso sei que não.

5.  O gago

O narrador Marco Antônio Pereira é fã da banda The Who. Chegou aqui, foi a Piccadilly Circus e comprou livros, camisetas e canecas do Who. Essa banda, você sabe, consagrou-se com o clássico "My Generation", tanto que mereceu bom espaço na cerimônia de abertura da Olimpíada. Mas dizem que tudo aconteceu por acaso. Quando foi gravar a música, o vocalista, Roger Daltrey, estava tão nervoso que gaguejava:

– M-m-m-my generation...

Pois foi a gaguejada que fez a diferença. The Who não seria The Who se não fosse aquela gaguejada. Eu já gaguejei tantas vezes e nunca ganhei dinheiro com isso. Injustiça.

Código David: Ela me conquistou

03 de fevereiro de 2013 4

Vivo aprendendo com meu filho. Porque uma criança está limpa para o mundo, está receptiva a tudo o que vier de fora. O mundo é que a molda. Então, olhando para ele, vejo como o mundo poderia ser diferente.

Por exemplo: o nosso mundo adulto tem o hábito de classificar coisas e pessoas. Isso é melhor do que aquilo, esse é o primeiro, aquele é o segundo, lá está o último. Bem. Tempos atrás, perguntei para o meu guri qual era o carrinho de brinquedo de que ele mais gostava. Ele respondeu, casualmente:

– Todos.

– Todos? Não pode ser. Tem que haver um especial. Qual é?

– Gosto de todos – repetiu. E seguiu brincando: – Vrrrrummmm...

Insisti:

– Mas tem que ter um. Tem que ter. É esse? Aquele?

E continuei amolando o menino, esse?, aquele outro?, até que ele, para me satisfazer e continuar brincando em paz, pegou um carrinho aleatoriamente e mostrou:

– Tá. É esse. Vrrrruuummmm...

Só aí decidi deixar de ser chato e entendi: por que não gostar de todos? Por que precisamos classificar e rotular tudo? Óbvio, assim acalmamos o cérebro e a alma. Já decidi que o meu prato preferido é bacalhau a Gomes de Sá, pronto, não preciso mais pensar nisso.

Fiel a esse mau hábito, volta e meia classifico minhas preferências. Melhor compositor? Chico. Melhor intérprete: o Rei. Melhor texto? Capote. Melhor bebida? Chope. Melhor cidade? Paris.

Até que Londres me conquistou.

E Londres foi devagar e insinuante neste processo. Tive algumas experiências com ela, mas, quando passamos mais tempo um com o outro, durante a Olimpíada, percebi como ela era especial, como combinávamos e como eu tinha de me entregar. Agora, que estou voltando para a Velha Álbion a fim de cobrir o jogo da Seleção, confesso: é você, garota. Na verdade, sempre foi você.

Pequeno, muito pequeno

Londres pode ser dos Beatles ou dos Stones, de Churchill ou da Rainha Vitoria, de Jack o Estripador ou de Agatha Christie. Escolha. Eu fico com o rei Henrique VIII e suas seis mulheres. Gosto muito da história desse rei, porque ele foi um homem que usufruiu plenamente do seu tempo sobre a superfície da Terra. Quando jovem, Henrique VIII era considerado o príncipe mais belo da Europa. Um dia, porém, machucou a perna e nunca mais se recuperou. Não podia mais fazer exercícios físicos. Como naquele tempo não havia refrigerante light, adoçante ou pão integral, o rei começou a engordar. No fim da vida, era um gordo mórbido que, para arrematar, emanava um cheiro putrefato do ferimento na perna.

Seu primeiro casamento foi com a viúva do seu irmão, a espanhola santarrona Catarina de Aragão. Mas ele logo se cansou dela, apaixonou-se pela belíssima Ana Bolena e resolveu se divorciar. Como a igreja católica não permitia o divórcio, Henrique rompeu com o papa e fez uma igreja para ele próprio, a Anglicana. Só que Ana Bolena também o aborreceu, e ele solucionou a questão mandando decapitá-la. A terceira mulher de Henrique, a quem ele amava com devoção, morreu de doença. A quarta traiu-o com ordem e método, pelo que Henrique também deu um jeito de separar-se dela e, em seguida, separá-la da própria cabeça. A quinta foi indicada a ele por um ministro, mas naquele tempo não havia Facebook e Henrique só descobriu que ela era muito feia no dia do casamento. Arrependido, divorciou-se dela e mandou executar o ministro com toques sutis de crueldade. A sexta era uma mulher mais sensata: não traiu o rei, nem o incomodou e parece que era bem bonitinha. Ele ficou com ela até morrer.

De todas essas rainhas, a que mais gosto é Ana Bolena. Quando soube que iria ser executada, ela exigiu que o carrasco viesse da França, porque o instrumento de trabalho dele era a espada, não o machado. Você pode achar que não existe diferença, certamente porque você não conhece muito de decapitações. O problema é que, com o machado, o condenado tem de deitar a cabeça no cepo. Às vezes, o verdugo errava o golpe, batia nos ombros ou na cabeça do réu, que sofria miseravelmente. Mas, com a espada, o carrasco dava o golpe lateralmente, podia enquadrar melhor o corpo, e, além disso, a lâmina da espada é maior do que a do machado. Então, se você for condenado à morte por decapitação, lembre-se de escolher a espada, como Ana Bolena. Pois bem, quando o verdugo francês chegou, ela levantou o cabelo, mostrou o pescoço e perguntou:

– É pequeno, muito pequeno, não é verdade?

Até na morte Ana Bolena foi uma mulher perturbadora.
Soneto de separação

Um dos mais belos poemas de Vinicius é o Soneto de Separação. Ele o escreveu em 1938, dentro do navio que o levava para Londres, olhando as ondas escuras do Atlântico e pensando na mulher amada que ficava no lado de baixo do Equador. Neste dia em que também vou para Londres, lembrei dessa bela obra de Vinicius, até porque em outubro completam-se 100 anos do nascimento do poetinha. Leia e se emocione, meu velho:

De repente, do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente, da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

O diário de Vic: 21 de outubro de 2012

Hoje começou o horário de verão, pra minha infelicidade.

E, pra completar, o meu hamster morreu.

Morreu afogado.

A gente deixava ele fora da gaiola.

Tapamos tudo que é buraco pra ele não fugir pra rua.

Tinha um balde na cozinha e ele pulou ali pra dentro.

Era de noite quando ele fez isso. Nós não vimos nada, pois estávamos dormindo.

De manhã, quando a mãe se acordou, viu o hamster dentro do balde.

Tinha que ver o fiasco que ela fez. Ela deu um grito e começou a chorar.

Até achei que tinha acontecido coisa pior.

Não sei como ele conseguiu entrar no balde. As paredes do balde são lisas e ele tinha as unhas muito compridas.

Se ele tentasse subir, ia acabar resvalando.

Pra mim é alguma coisa que tem na casa.

Sinal de morte de bicho dentro de casa não é boa coisa.

Agora deixa. Vou comprar outro.

Código David: Um Gênio de Verdade

27 de janeiro de 2013 0

Dizer que Mozart era gênio é uma obviedade estrepitosa, embora as pessoas sejam demasiado pródigas em besuntar uns e outros com esse adjetivo. Um gênio, vou dizer o que é um gênio. É o seguinte: Mozart, aos quatraninhos de idade, via a sua irmã mais velha tomar lições de piano. Vendo-a, aprendeu a tocar esse que é talvez o mais sofisticado de todos os instrumentos musicais. Ou seja: não apenas dominou o piano aos quatro anos, como fez isso SOZINHO, antes de aprender a ler. Outra: aos cinco, o pequeno Mozart fez suas primeiras composições; aos seis, estava se apresentando pela Europa, encantando reis e rainhas. Gênio. Eis um gênio.

Uma das rainhas que se embeveceu com o menino Mozart foi Maria Tereza, da Áustria. Durante o recital que fez para ela e para a família real, ele escorregou e esparramou-se no chão. A filha da rainha, Antônia, que depois seria chamada de Maria Antonieta, casaria com Luis XVI e teria a cabeça separada do corpo pela guilhotina da Revolução Francesa, essa Antônia, que tinha sete anos de idade, juntou do chão o menino prodígio. Mozart, encantado com a doçura e a beleza loira da princesa, suspirou:

– És muito gentil. Quero casar contigo!

Sorrindo ante o arroubo da criança, a imperatriz pespegou-lhe um beijo no rosto e disse:

– Serás o rei dos músicos, meu querido. Poderá casar mais tarde, se quiser.

Então, Mozart pulou no colo de Maria Tereza e se derramou:

– Quero casar contigo também!

Mozart seguiu assim, arrebatado e sensível, pelo resto da vida. Existia para a música. Era dotado de ouvido absoluto, e por essa razão odiava todo som desarmônico. O trompete, por exemplo, ele não suportava. Um dia, seu pai forçou-o a ouvir um trompetista e o menino desmaiou de horror. Seu nascimento aconteceu num 27 de janeiro como o deste domingo; sua morte, 35 anos depois, por doença, provavelmente infecção intestinal. Mozart estava pobre e sozinho. Como chovia baldes, ninguém acompanhou o féretro. Foi enterrado numa cova de indigente que ninguém conseguiu encontrar depois. Triste, mas posso dizer que houve duas compensações para tanta tristeza: Mozart não estava vivo para ver Maria Antonieta ser decapitada dois anos depois e partiu deste mundo com a certeza de que seria lembrado pelos pósteros mesmo agora, 200 anos depois.

#
O diário de Victoria

Victoria mora em Pelotas. Ela tem entre 15 e 16 anos de idade e é uma leitora assídua desta página.

Victoria mantém um diário eletrônico para o qual narra suas aventuras de adolescente. Ou pré-adolescente, como queiram. Ela me enviou alguns textos desse diário. Achei-os interessantíssimos e pedi autorização a ela para partilhá-los com os leitores. Autorização concedida, começo agora a publicação. Vamos ver até onde iremos, nós e Victoria:

#
1º de Maio de 2012

Um guri me pediu em namoro essa semana...

Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso... porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

“Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio...”

Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti... afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

O Zanella teve na casa do Matheus... a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

Mas só que não vi ele.

#
7 de Maio de 2012

Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

Faz tempo que não falo com a Amanda.

Tenho que falar com ela.

Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

Que novidade! Nem me surpreende.

O QUE LER

A vida de Mozart

Stendhal passou a vida inteira tentando alcançar sucesso literário. Não conseguiu. Tornou-se famoso só meio século após a sua morte, o que foi terrível para ele, mas não deixa de ser um consolo para mim – sempre posso dizer que o reconhecimento virá daqui a cem anos.

Stendhal foi autor de romances e biografias, entre elas uma de Mozart, um livro pequeno, que pode ser lido de um único gole. Foi editado em formato de bolso pela L&PM, 80 páginas. Leia e saiba mais sobre dois grandes homens que morreram tristes, mas que fizeram os pósteros felizes.

Abra agora o YouTube e escreva ali no espaço de busca: “Concerto para piano número 23, andante, Mozart”. Ouça em alto volume e altíssima concentração. E tenha uma experiência transcendental.

O QUE OUVIR

Abra agora o YouTube e escreva ali no espaço de busca:“Concerto para piano número 23,andante,Mozart”.Ouça em alto volume e altíssima concentração. E tenha uma experiência transcendental.

  • O diário de Victoria

    Victoria mora em Pelotas. Ela tem entre 15 e 16 anos de idade e é uma leitora assídua desta página.

    Victoria mantém um diário eletrônico para o qual narra suas aventuras de adolescente. Ou pré-adolescente, como queiram. Ela me enviou alguns textos desse diário. Achei-os interessantíssimos e pedi autorização a ela para partilhá-los com os leitores. Autorização concedida, começo agora a publicação. Vamos ver até onde iremos, nós e Victoria:

  • <!-- Um guri me pediu em namoro essa semana...

    Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

    Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

    Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso... porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

    “Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio...”

    Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

    Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

    Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti... afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

    Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

    Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

    Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

    O Zanella teve na casa do Matheus... a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

    Mas só que não vi ele.

    -->

  • 1º de Maio de 2012

    Um guri me pediu em namoro essa semana...

    Ele se chama Rodrigo. Eu não vou namorar com ele.

    Ele é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito feio, mas como vou dizer isso pra ele?

    Sério, eu tenho muuuuuuuuuuuuuuita vontade de dizer isso... porém, tenho que avaliar o fato de que ele é uma pessoa e tem sentimentos, então não posso, simplesmente, soltar:

    “Não, não quero, porque tu é um demônio, um raio...”

    Imagina eu falar isso pro guri?! Não dá, né? Bem que eu tenho vontade, porque já estou que não aguento mais ele.

    Nem entro mais no msn. Toda vez que entro ele vem falar comigo e fica me cercando.

    Disse pra ele que gostava de outro guri (Zanella) e que não queria dar esperança nenhuma pra ele. Não menti... afinal isso é verdade. Se ele fosse bonito teria dito isso também.

    Ele me perguntou se eu queria namorar com ele e eu disse que ia pensar. Tenho que pensar muito bem como vou dizer “não” pra ele sem machucar nem nada. Dias desses quase disse sem querer que achava ele feio e ele já ficou chateado.

    Tive que mentir. Dizer que não era aquilo que queria dizer e tudo mais.

    Aí ele acreditou. Acho que acreditou.

    O Zanella teve na casa do Matheus... a Amanda me contou que foi pra falar de coisas de quartel.

    Mas só que não vi ele.

  • <!-- Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

    Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

    Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

    Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

    Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

    Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

    Faz tempo que não falo com a Amanda.

    Tenho que falar com ela.

    Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

    Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

    Que novidade! Nem me surpreende.

    -->

  • 7 de Maio de 2012

    Bah, não me aguentei. Falei pro guri que achava ele feio e que não queria namorar com ele.

    Tá, tudo bem, era pra ter falado com mais jeito. Eu sou meio direta às vezes.

    Pelo menos ele agradeceu por eu ter falado a verdade.

    Ai, mas eu já estava que não aguentava mais.

    Ai, graças a Deus! Pelo menos agora ele parou um pouco de falar comigo!

    Agora vou poder entrar no meu msn de volta.

    Faz tempo que não falo com a Amanda.

    Tenho que falar com ela.

    Se der tempo, porque ultimamente ando bem ocupada.

    Amanhã tenho curso, aliás já ando sem vontade de ir.

    Que novidade! Nem me surpreende.

Código David: Medo de filme de terror

20 de janeiro de 2013 4



Tenho medo de filme de terror. Como pode um homem adulto, pretensamente racional e até cético, sentir medo de filme de terror? Pois sinto. É mais forte do que eu. Assisto a certos filmes de terror e, depois, à noite, na cama, suspeito de espíritos malignos escondidos atrás da cortina.
Pela manhã, quando as trevas se dissipam e a luz do dia me traz de volta à limpa e reconfortante racionalidade, sei muito bem que espíritos malignos não existem, a não ser os que habitam o corpo de gente bem viva. Então, como se explica o medo que senti por causa de meros filminhos?
Aí é que está. Inocularam a superstição em mim. Racionalmente, não sou supersticioso, não acredito em coisas invisíveis, salvo quatrilhões de micróbios e o oxigênio. Mas, se porventura os níveis de racionalidade baixam devido a alguma distração da mente, crenças ancestrais começam a ganhar vulto. Aqueles troços que me diziam nas franjas da primeira infância ou que eu lia pouco depois disso. Você larga o Antigo Testamento nas mãos de um guri e ele esbarra na Quinta Visão de Amós:
“O Senhor de pé, junto do altar, Ele me disse: ‘Fere o capitel, para que estremeçam os umbrais. Quebra-os por cima das cabeças de todos; matarei à espada o que restar, sem que ninguém possa fugir ou escapar. Mesmo que desçam à Morada dos Mortos, minha mão os arrancará de lá; ainda que subam aos Céus, eu os farei descer dali; se se esconderem no cimo do Carmelo, eu os irei buscar e os tirarei de lá; se se ocultarem de meus olhos no fundo do mar, lá ordenarei ao dragão que os morda; se forem levados cativos pelos inimigos, ordenarei à espada que os mate. Terei meus olhos fixos neles. Para o seu mal, não para o seu bem’”.
Uah!, que texto poderoso. É o próprio Javé, o Impronunciável, “Aquele que É”, quem fala por meio da boca do profeta. “Mesmo que desçam à Morada dos Mortos, minha mão os arrancará de lá”. Como não se impressionar com uma frase desse quilate?
Mais tarde você compreende que o Antigo Testamento é repleto de imagens duras de um tempo duro, que o Novo Testamento é mais suave, é o Testamento do Deus do Amor, não mais do Deus dos Exércitos.
Certo.
Mas e a história do exorcismo feito por Jesus?
Ele vinha caminhando pela Galileia quando deparou com um homem possuído. Ao vê-lo, o homem se prostrou de joelhos na terra. Jesus perguntou quem habitava aquele corpo e os demônios responderam:
_ Legião, porque somos muitos.
Então, as entidades pediram clemência a Jesus. E ele permitiu que se mudassem para uma vara de porcos que por ali passava. Os diabos obedeceram, e os porcos, agora endemoninhados, se atiraram, dois mil deles, do alto de um precipício.
Que história! E que frase: “Legião, porque somos muitos”.
Some-se a isso todas pequenas, grandes e médias recomendações sobrenaturais que nos fazem para que o imponderável da existência seja menos imponderável, todas as fórmulas e amuletos que devem nos proteger contra o infortúnio futuro, todas as contramedidas que precisamos tomar para afastar feitiços, olhos gordos ou maldições, junte isso tudo e o que você terá? Terá possibilidades. Nada concretas, é verdade, mas ainda assim possibilidades. E se tomar banho de sal grosso ajudar mesmo, por que não tomá-lo? E se cortar às unhas à noite deixar o vivente desprotegido contra as forças intangíveis do Mal, por que não cortar durante o dia, ainda que você não tema as forças intangíveis do Mal?
Por isso, decidi escrever hoje em homenagem ao orixá Oxalá, do qual nada sei, eu que sou um profundo ignorante em religiões africanas. O que sei é que, por algum motivo, 20 de janeiro é o dia de Oxalá, e um leitor, decerto sabedor dos mistérios da religião, pediu-me que escrevesse a respeito, garantindo que, se o fizesse, haveria chance de 2013 ser um tempo de paz. Pois bem. Aí está. Não será por omissão minha que este ano não será benfazejo para todos nós, caros e crédulos leitores.

Os maiores de todos os tempos

Em defesa da minha valentia tenho de ressaltar, gizar e sublinhar que foram três os filmes de terror que me puseram medo, não por acaso os três maiores filmes de terror de todos os tempos. Que são os seguintes:

1 - O Exorcista

É o número 1, de fato. Fui assisti-lo sozinho, num cinema da Praça da Alfândega, no tempo em que havia cinemas na Praça da Alfândega. Era uma sessão noturna. Das dez. Ou seja: saí para a rua à meia-noite. O vento sacudia as copas das árvores e as sombras das folhas criavam formas escuras nas calçadas e nas paredes. Olhei em volta e senti algo estranho. Era como se alguém estivesse me observando. Fiz glup e tomei a atitude mais sensata no momento: corri para a segurança da parada de ônibus.


2 - O Iluminado

Algumas cenas desse filme calaram-me fundo na alma: o menininho com a faca recitando “murder” ao contrário (red rum, red rum), a cara homicida de Jack Nicholson arrombando a porta para matar a mulher e anunciando:
– I’m home!
E uma que não foi exatamente assustadora, mas que se tornou um lema para mim: “Muito trabalho e pouca diversão, fazem de Jack um bobão”.
Mesmo no terror há espaço para a filosofia.


3 - O Bebê de Rosemary

O apartamento de Rosemary ficava no Edifício Dakota, aquele em que morava John Lennon quando foi assassinado. Bem, o assassinato foi cometido em 1980, e o filme é do fim dos anos 60, mas foi o que bastou para tornar essa história sombria ainda mais sombria duas décadas depois de seu lançamento. O Bebê de Rosemary, na verdade, é o primeiro filme de terror sutil, que se infiltra aos poucos nos nervos do espectador. Uma obra-prima. Vale o medo que produz.

O QUE LER

Esse livro é um pequeno romance, ou talvez seja um conto grande, sei lá, de Henry James, um americano que se naturalizou britânico no século 19. O grande trunfo do livro é o estilo de James. Ele mantém a história o tempo todo sobre o fio da navalha, num clima de tensão e mistério que, mais do que envolver, aprisiona o leitor.
O enredo é aparentemente simples: uma babá é contratada para cuidar de duas crianças no interior da Inglaterra. Então, ela desconfia de que há algo errado com as crianças, há algo nefasto que as cerca. O que será? Leia A Volta do Parafuso e descubra. Ou não.

Código David: Sal, Sol, Sul

13 de janeiro de 2013 5

O verão pode ser um tempo de aflições. Eu, que sou um romântico, já vivi dias angustiantes nessa estação de sol e sal, azul e amarelo, cerveja gelada e biquínis sumários. Sim, isso tudo simboliza a alegria e a vida estuante, sim, sim, mas, às vezes, todas essas possibilidades podem gerar... dor.

Explico.

A maior dor de um tempo de festa acontece quando você não está na festa. Você está aqui e a festa está em outro lugar. Por mais que você vá atrás da festa, ela está sempre em outra parte, fugindo de você, como o fim de um corredor de pesadelo.

Lembro dos tempos da propaganda da Imcosul. A Imcosul era uma rede de lojas do varejo. Por que levava o eme antes do ce, isso não sei, embora me perturbasse gramaticalmente. Devia ser alguma sigla. Ocorre que, no verão, a Imcosul veiculava comerciais na TV mostrando as pessoas douradas que viviam à beira da praia entre dezembro e março. Elas riam e corriam, comiam e bebiam, namoravam e paqueravam, elas, enfim, usufruíam do bom da vida, sempre sob o jingle: sol, sal, sul, Imcosul.

Sal, sol, sul, Imcosul! Era o lema de uma existência colorida e leve, como deve ser a existência. Oh, eu via aqueles anúncios e pensava que as pessoas na Orla, essas sim, eram felizes. Mas eu não podia ir para a Orla, por óbvios impedimentos orçamentários. Então, ficava por aqui, sobre o asfalto e sob a canícula, suspirando, achando que nada podia ser pior.

Até que piorou.

Por causa da Alice.

Namorei a Alice mais ou menos entre os 12 e os 16 anos. Era uma morena tipo Juliana Paes, só que mais bonita. Ah, eu era louco pela Alice, mas havia um problema: o pai dela tinha uma maldita casa na maldita praia de Imbituba. Imbituba, cara! Um lugar distante, muito mais distante naquela época. Inóspito, eu diria. Mas, assim que terminavam as aulas, a Alice se despedia de mim com aquele seu sorriso cheio de luzes e promessas e seguia no Fusca do pai dela para o longínquo litoral catarinense. Só voltaria quando as aulas recomeçassem. Quase três meses depois, portanto. E eu em Porto Alegre, vendo o comercial da Imcosul na TV: sal, sol, sul.

Ah, claro, lembre-se ainda que naquela época não havia internet, nem celular. E eu nem tinha telefone em casa! Comunicação, só por carta, mas quem diz que as cartas chegavam a Imbituba, aquele local remoto?

Passava dois meses no escuro, pensando no que Alice estaria fazendo dentro do seu minúsculo biquíni, às franjas do mar de Imbituba. Quando o outono chegava, Alice voltava, reluzindo feito uma lontra, a morenice exuberante contrastando com a minha palidez. Eu engolia em seco e perguntava que tal tinha sido Imbituba. Ela sorvia o ar da Zona Norte porto-alegrense, fitava o vazio, sorria um sorriso misterioso e miava:

– Ai, foi tãããão booom...

Mas que Crispittking@$$@!”!@¨%&*wolfrembaer!!!


  • As gurias da facul

    Quando os tempos da adolescência sem grana se foram, chegaram os tempos da faculdade sem grana. Mas ao menos eu já trabalhava e podia me deslocar para as fímbrias do Atlântico com meus parcos recursos. Já não me angustiava por Alice, e sim por certa colega de aula. Um dia ela me disse:

    – Eu e as gurias vamos pra Tramandaí nesse fim de semana...

    Fiquei todo alvoroçado. Era a minha chance! Se ela me informou que ia a praia, talvez quisesse que eu também fosse à praia. Pois eu iria. Ah, iria! Convenci os amigos de que aquele seria um fim de semana perfeito na Orla. Fomos. Sábado de manhã, partimos para Tramandaí. Chegamos ao meio-dia e tocamos para a areia. Eu, atento feito um perdigueiro, perscrutava o movimento para ver se achava as gurias da facul. Nada. Mas não desisti. Segui vigilante, caminhando de um lado para outro, procurando sob o sol abrasador. Nada das gurias da facul. À noite, com a pele toda ardida, sublimei o sofrimento para ver se achava as gurias da facul. Nada. Nada! De madrugada, abatido, queimado, embriagado, estava sentado no meio-fio da Emancipação, quando alguém gritou:

    – Olha as gurias da facul!

    E elas passaram na caçamba de uma camionete dirigida por uns caras sem camisa, todas de biquíni, rindo e gritando, com os bracinhos erguidos:

    – EEEEEEEEEEE!!!

    Quando sumiram numa esquina, outro amigo comentou:

    – Lá se foram as gurias da facul...

    Na segunda-feira, perguntei para a minha colega que tal tinha sido Tramandaí. Ela sorveu o ar da Famecos, fitou o quadro negro, sorriu um sorriso misterioso e miou:

    – Ai, foi tããããão booom...

    Mas que Crispittking@$$@!”!@¨%&*wolfrembaer!!!

    O verão pode ser, mesmo, um tempo de aflições.

  • O velho e o mar

    Você lerá todo O velho e o mar em um único dia ocioso na Orla. Mas não se esquecerá da história pelo resto dos seus dias. Cada linha de O velho e o mar foi recortada com critério de cirurgião por Hemingway. Mas o estilo conciso e elegante está a serviço da narrativa, não há, ali, nenhum daqueles exasperantes experimentalismos literários. Esse livro pequeno em tamanho e grande em significado pode ser lido várias vezes, que sempre trará algo novo depois do ponto final. Sorva-o agora que você está se repimpando no litoral, lance a vista para o mar imenso e imagine o protagonista do romance, o velho pescador Santiago, lá ao longe, depois do horizonte, sozinho com seus pensamentos, onde nem o seu olhar pode lhe fazer companhia.