Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Posts na categoria "Código David"

O ataque do esquilo assassino

15 de junho de 2014 7

codigodavid

Tem muito esquilo por aqui. Estou em Boston, Massachusetts. Gosto desse nome, Massachussetts. É um nome que substitui o bafômetro. Experimente pronunciá-lo depois de uma noitada de chopes cremosos, dourados e gelados. Se você conseguir, pode pegar o carro. Se não passar do “Massa”, chame o táxi.

Pois em Massa… chusetts tem muito esquilo. Sabia da popularidade do esquilo nos Estados Unidos, mas não esperava encontrá-los com tanta frequência. Encantei-me com o primeiro que vi. Quis tirar foto, mas ele foi mais rápido, subiu pelo tronco de uma árvore e despareceu. Esquilo é bicho rápido. Depois, comecei a ver esquilo a toda hora, não achei mais graça.

Outro dia, caminhava por uma avenida movimentada e um esquilo veio correndo na minha direção. Mas veio mesmo, veio que veio, veio firme, decidido, direto para mim. Estaquei. Qual seria a intenção daquele esquilo? Atacar? Esquilos atacam? Pensei no Tico e no Teco. Esses não atacam. São inofensivos, só querem saber das suas nozes e de encher o saco do Donald. Mas aquele esquilo, não. Era um esquilo agressivo, definitivamente. Vinha disparado, muito veloz, balançando seu rabo de escova de patente.

Pensei: vou chutá-lo, rato maldito, não deixarei que você suba pelas minhas pernas e crave estes seus dentões de Drácula no meu pescoço! Estava pronto para reagir com energia à investida do esquilo, mas, a um passo de distância, ele desviou para a esquerda e perdeu-se num jardim. Suspirei de alívio. Só o que faltava eu entrar em luta corporal com um esquilo nos Estados Unidos. Não seria uma boa. Os americanos decerto ficariam do lado do esquilo. Esquilo x brasileiro? Esquilo, esquilo.
-x-x-x-x-

JOÃOZINHO PROFUNDO

Esquilo em inglês é squirrel. Dificílimo de dizer. “Squaill”. Eu, pelo menos, não consigo. É como world ou girl. Tranco quando falo essas palavras. De resto, considero bela a língua inglesa. Normal que se mescle com outras. Até entendo nossos compatriotas puristas, defensores da última flor do Lácio, inculta e bela, mas como chamar o mouse do computador de “rato”, por exemplo? Não dá. Por isso, não culpo quem substitui tele-entrega por delivery e passarela por catwalk. Fica mais bonito. Catwalk não é demais? Um lugar por onde andam as gatas…

Quer ver? O nome daquele ator, Johnny Depp. Sempre achei que fosse Deep. Em português, seria Joãozinho Profundo. Isso me intrigava. Será que as mulheres gostavam tanto dele por causa dessa profundidade? Em português seria um nome ridículo, Joãozinho Profundo, mas em inglês… Aí tem! Teci inúmeras teorias a respeito na minha cabeça. Agora descobri que é Depp, que significa, apenas, Depp. Uma letra mudou tudo. Johnny perdeu o encanto para mim.
-x-x-x-x-

LUVAS BRANCAS

Mas ainda que o inglês seja cheio de sutilezas e fascínios, é um exagero brasileiro isso de querer que todos falem inglês por causa da Copa. Os quatro mil taxistas de Porto Alegre tinham de falar inglês? Bobagem. Precisa apenas que quatro ou cinco atendentes do rádio-táxi tenham o domínio da língua.

No Japão, tomei um daqueles táxis limpíssimos, o motorista de luvas brancas e tudo mais. Disse para onde queria ir e ele me olhou com a maior cara de sashimi de salmão. Natural, a maioria dos japoneses não fala inglês. Mas ele não se assustou. Pegou o rádio, falou com a atendente e passou o rádio para mim. Disse o endereço para a moça, devolvi o rádio para ele, a moça traduziu e fomos embora. Cheguei direitinho.

A mesma coisa os restaurantes. Os garçons não precisam falar inglês. Basta ter um menu bilíngue, o gringo escolhe o que quiser e aponta com o dedo. Para pedir a conta, faz aquele gesto clássico com a mão. Para ir ao banheiro, é só olhar o bigode desenhado na porta dos homens, o batom desenhado na porta das mulheres e entrar. Do que mais precisa um turista além de se deslocar e comer? Namorar? Bem, a língua do amor é universal.
-x-x-x-x-

SEXO COM GOLFINHOS

Provando isso que falei, que a língua do amor é universal, a BBC apresentou esta semana um documentário sobre uma mulher que, em 1960, passou 10 meses em um aquário, tentando ensinar um golfinho a falar inglês. É sério isso. A tal casa-aquário ficava nas Ilhas Virgens, que são dos Estados Unidos. O golfinho se chamava Peter e ela, Margareth. Ele não aprendeu nada de inglês, mas acabou FAZENDO SEXO COM A PROFESSORA.

Será que ainda existem cursos de inglês assim por aqui?

Moral da história: se um golfinho se deu bem, por que não um nigeriano ou um holandês desses que chegarão a Porto Alegre sem falar lhufas de português?
-x-x-x-x-

O VELHO GRAMPEADOR

Que bela invenção esse Skype. Serve de analgésico para a saudade. Evita de o cara querer beber para esquecer. Os espanhóis, quando se embrenharam nas Américas em busca de ouro, ouro, ouro, sofriam de saudade de suas famílias e amigos, e o que faziam? Enchiam a cara. No outro dia, continuavam com saudade, só que estavam com ressaca também. Descobriram então que os índios conheciam uma beberagem que diminuía os efeitos da ressaca (menos os morais, evidentemente) e clareava as ideias. Foi assim que surgiu o nosso bravo chimarrão.

Já eu, como tenho Skype, posso ver meu filho todos os dias, que ele ainda não veio para cá (virá!). Ele fala comigo da mesa em que eu trabalhava em Porto Alegre. Esses dias, para me fazer um agrado, pegou o grampeador, levou-o para frente da câmera e disse:

— Papai, tu deve estar com saudade do teu velho grampeador. Olha aí o teu velho grampeador. Olha pra ele.
Matei a saudade do meu velho grampeador num instante. Mas a do meu filho aumentou. Fui beber como um espanhol.

Passeando de dindim em Gramado

31 de maio de 2014 5

Li que mil argelinos já compraram tickets para passear no dindim de Gramado durante a Copa. Você sabe o que é o dindim, aquele trenzinho com vagões puxados por um pequeno trator. Tem muito na praia.

Criança adora andar de dindim. Por que será que os argelinos também gostam tanto, a ponto de fazerem mil reservas? Uma hora dessas, eles devem estar ansiosos pelo passeio, lá na Argélia. Devem estar comentando com os amigos:

_ Vou ao Brasil, andar de dindim.

Bacana.

—–

O bom da Copa é isso, conhecer outras culturas. Os gramadenses decerto sabem que os argelinos são africanos _ a Argélia fica no Norte da África. Os nigerianos, que também virão para cá, são igualmente africanos, só que a Nigéria fica mais embaixo, no oeste do continente.

Os nigerianos são muito respeitados na África. Pela pujança da sua economia, sim, mas sobretudo por outro fator: os homens nigerianos gozam da fama de serem bem dotados anatomicamente, se é que você me entende. Você talvez lembre que os africanos em geral já desfrutam dessa boa imagem no mundo inteiro. Certo. Só que os nigerianos são invejados pelos OUTROS africanos. Imagine, agora, o que é um nigeriano perto de, por exemplo, um japonês.

Quando participei da cobertura da Copa de 2010, os sul-africanos a toda hora vinham falar dos nigerianos. Olha lá os nigerianos, apontavam. Olha lá.

Existem máfias de nigerianos na África do Sul. Eles são muito temidos. Ficam em grupos pelas ruas de Johanesburgo, vestindo chapelões, mascando chicletes, enfeitados com braceletes e correntes de ouro. Se você passar por perto e eles te chamarem:

_ Hey, bro!

Saia correndo. Um perigo, os nigerianos.

—–

Mas não se aflija. Os nigerianos que vierem para cá durante a Copa não serão perigosos. Serão, provavelmente, nigerianos ricos. Mesmo assim, lembre-se de duas coisas:

1. Um nigeriano é sempre um nigeriano, com todos os seus atributos.

2. Aquela história que as mulheres vivem repetindo, “tamanho não é documento”, aquilo é mentira. É documento, sim. E provo.

Um dia, um repórter metido a espirituoso resolveu provocar Ava Gardner e perguntou, referindo-se a Frank Sinatra:

_ O que você quer com aquele magricela de 55 quilos?

Ava fitou-o com seu olhar blasé amendoado e respondeu:

_ Cinco quilos são só de “dick”.

Parabéns, Frank.

—–

Ruy Castro conta não ter sido à toa que Garrincha nasceu em Pau Grande. E as mulheres não fugiam dele…

Aliás, Garrincha não tinha descendência africana. Era índio fulniô, das Alagoas. Uns índios pacíficos, não como esses que deram flechadas nos policiais de Brasília ou como os que atacaram colonos com tacape no interior do Estado.

Índios brabos de verdade eram os goitacazes, que nadavam como um Phelps e lutavam como um Tyson. Eram guerreiros temíveis. Tinham um método temerário de caçar tubarões (caçar mesmo, não pescar): o goitacaz mergulhava armado apenas de um pedaço de pau. Quando via um tubarão, investia de frente contra ele. O tubarão, óbvio, tentava mordê-lo e o índio metia-lhe o galho verticalmente na bocarra. O tubarão, assim, não conseguia mais fechar a boca. O guerreiro aproveitava-se para enfiar o braço goela adentro do bicho e, com a mão nua, arrancar-lhe o coração.

Isso que é índio, não esses que andam de cocar e calção Adidas, falando ao celular!

—–

Sobre índios brasileiros, por sinal, eles são conhecidos em outro país que virá jogar em Porto Alegre: a Coreia do Sul. Na Copa de 2002, poucos brasileiros foram à distante Coreia do Sul, torcer pela Seleção. Mas havia lá um grupo que seguia o Brasil por toda parte, e os membros desse grupo tinham o hábito de se fantasiar de índios. Saíam pelas ruas vestidos com penas, com o rosto pintado, soprando apitos e batendo tambores. Os coreanos olhavam meio assustados para aquilo. Um dia, eu estava com jornalistas coreanos em um shopping e o grupo esse chegou, fazendo grande alarido. Todos pararam para ver. Um jornalista coreano arregalou os olhos e me perguntou:

_ É assim no Brasil?

Eu ri:

_ Não, não, por favor… Esses são apenas torcedores. O Brasil é um país moderno…

Hoje, se o coreano lê as notícias sobre o Brasil, deve estar me chamando de mentiroso.

Temos que dar um jeito de pacificar esses índios. Acabaram as contas de vidro e as miçangas?

—–

A Coreia do Sul é um país circunspecto. Nada a ver com aquele Psy, o cantor. Os coreanos se orgulham de seus filhos estudiosos e de seus banheiros públicos limpíssimos. Por Deus, banheiros públicos. Dizem os coreanos que um dos seus banheiros públicos é o mais limpo do mundo. Visitei o tal banheiro e, realmente, é um primor.

Aquele banheiro lembrou-me uma faxineira que tinha. Uma faxineira pelada. Sério. Ela fazia faxina no meu apartamento às segundas. Uma tarde, por algum motivo, tive de passar em casa mais cedo. Entrei e ouvi o barulho de água correndo no banheiro. Fui ver o que era. Era ela, limpando o box. Nua. Era uma faxineira meio gorda e muito branca. Ela estava de costas para a porta, de quatro, esfregando o chão com fúria higiênica. Aquela visão me fez estremecer de horror. Recuei devagar, bem devagar, para que ela não percebesse a minha presença. Esgueirei-me até a porta da frente, saí de mansinho e corri até o bar da frente. Pedi um bourbon para me recuperar. Depois daquela experiência, nunca mais voltei para casa sem ligar antes.

Agora, tenho de reconhecer: aquela faxineira sabia limpar um banheiro. Devia ser de descendência coreana.

Coreanos, nigerianos, argelinos. Porto Alegre terá a oportunidade de conhecer esses povos e tantos outros mais. Não é uma beleza? Só um conselho: mantenham suas mulheres longe dos nigerianos. Cuidado com os nigerianos!

Vida de solteiro

11 de maio de 2014 11

Há uma frase que é a frase certa e que, se dita da maneira certa, no momento certo, ao pé de certa orelha, essa frase, essa única frase terá o poder de fazer com que a mulher que está acoplada à orelha dentro da qual ela, a frase, foi derramada transforme-se em sua cativa.

Sua, sortudo leitor; sua cativa.

Claro: considerando que você desfruta a condição de homem solteiro, que… bem, é precisamente isso: uma condição de desfrute.

Mas, se você não for um serelepe solteiro, use a imaginação. Suponha que seja. Então pense: você é agora um solteiro e está esgrimindo na batalha da noite, quando lhe ocorre a frase certa. Você olha para aquela mulher de longas pernas como o leão olha para o gnu e vai até ela e, de inopino, porque a surpresa é o melhor ataque, pois de inopino você escorre a tal frase certa pelo canal auricular dela e pronto: gol do Brasil – em 15 minutos vocês estão na sala da sua casa, sobre o tapete de um palmo de altura, onde todas as vaidades se afundam e quase todas as pudicícias se perdem. Como você é um solteiro experiente, você sabe que tipo de bebidas alcoólicas são indispensáveis na sua geladeira para que a noite tenha bom termo. As seguintes:

1. Champanhe – para a mulher que naquela noite precisa se sentir especial.

2. Tequila – para a mulher que naquela noite precisa fazer algo especial.

E, in extremis:

3. Absinto – para as recalcitrantes.

Antes de seguir em frente ressalto que, se você tem absinto em casa, você é mais do que um solteiro experiente; você é um solteiro profissional. O absinto possui uma substância, a tujona, que aguça os sentidos, libera a criatividade e pode produzir alucinações. Ou seja: dá barato.

Os poetas do século 19 contavam que, graças à ingestão de doses criteriosas de absinto, viam a chamada Fada Verde, a fada da inspiração e, também, a fada do pecado. Rimbaud e Verlaine, dois poetas franceses da época, foram inveterados bebedores de absinto. Rimbaud era um menino prodígio. Mesmo que dissesse que “ninguém é sério aos 17 anos de idade”, todos o levavam a sério. Em especial Verlaine, que tinha já quase 30 anos quando desistiu das mulheres e se apaixonou por Rimbaud. Os dois formaram um casal trepidante. Bebiam e poetavam o dia inteiro. E brigavam. Um dia, Rimbaud tentou apunhalar Verlaine; noutro, Verlaine deu um tiro na mão de Rimbaud. Verlaine acabou preso por causa da confusão e Rimbaud, que antes dos 20 anos de idade era o maior fenômeno da poesia francesa, aos 21 desistiu da literatura, largou tudo e todos, e foi para a África, traficar armas.

A história de Verlaine e Rimbaud e de outros escritores da época levou governos europeus a proibir o absinto. Portanto, se na sua adega descansa uma garrafa que aprisiona a Fada Verde, cuidado ao abri-la.

Eu, aqui, confesso: certa feita fiz uso temerário dos poderes do absinto. Foi com uma moça que não estava acostumada a beber. Em minha defesa, relato que a adverti:

_ É perigoso. É absinto. É a Fada Verde.

Ela deu de ombros, aqueles ombros suaves e dourados. Estava disposta a aventurar-se, naquela noite.

Bem.

Você não acreditaria, se contasse o que ocorreu. Por isso, não contarei. Só digo que ela se transformou. Ali, diante dos meus olhos, surgiu outra mulher. Duas mínimas doses de absinto foram suficientes para liberar a gueparda que ronronava dentro dela.

Os perigos e as delícias da Fada Verde.

Certo.

Mas voltando a você e àquela coisinha que sua sapiência de solteiro feliz capturou na noite: vocês já beberam champanhe, ou tequila, ou (urru!) absinto. Vocês já se amaram na sala, no corredor, no banheiro, no quarto. É chegada a hora do Repouso do Guerreiro. Tudo está bem, você supõe que poderá assistir a um dos filmes do Bourne que vai passar no Supercine, só que daquela boquinha carnudinha de coraçãozinho dela brotou uma frase inesperada. Algo para o qual você não estava preparado.

Maldição!

E era aqui que queria chegar desde o início. A essa frase. Mas espere mais alguns dias. Vou falar a respeito na próxima coluna. Até lá, por favor, consiga uma garrafa de absinto.

O misterioso caso do porco que fugiu

04 de maio de 2014 3

Li a enternecedora história do porco Bartolomeu Junior na edição de estreia da novíssima Zero Hora, quinta passada. Bartolomeu Junior é um porco rosado de 250 quilos que, nesta semana, foi encontrado a trocar patas pelo asfalto duro da Avenida Ipiranga, entre carros apressados e pedestres surpresos.

Foto: Diogo Zanatta / Especial

Foto: Diogo Zanatta / Especial

Um mistério ronda esta saga suína, e logo direi qual é. Antes, preciso sublinhar que Bartolomeu Junior é um porco sensível. Um porco apaixonado. Sim, porque, segundo a notícia, muito bem escrita pelo colega Cláudio Rabin, ele fugiu do chiqueiro e se perdeu na urbe inóspita por ter saído em perseguição a uma porca que ama. E porcos amam, acredite; porcos amam.

No interior desse vasto Rio Grande há casos célebres de porcas que se apaixonam por seres humanos depois de submetidas à prática outrora bastante comum, em fundos de estância, do chamado “barranqueamento”. Não me estenderei no assunto, a fim de não ferir suscetibilidades e pundonores, apenas contarei que tais porcas seguem por toda parte os rapazes com quem tiveram relacionamento, jamais os abandonando, para constrangimento deles e divertimento dos peões circunstantes. Perceba, perplexo leitor, que uma porca gorda, às vezes, é mais leal do que certas fêmeas humanas.

Pois bem. Se uma porca é capaz de desenvolver tamanho afeto por um exemplar de outra espécie, imagine a intensidade de sentimento a que pode chegar um suíno apaixonado por uma igual. Bartolomeu Junior, portanto, tinha a alma esfacelada de paixão quando resolveu abandonar a segurança do chiqueiro e partir em busca da amada.

Isso é bonito.

-x-x-x-

Mas ainda não falarei do mistério que cerca o caso, e sim do nome do seu protagonista. Bartolomeu Junior. Gostei. Um bom nome de porco, nome forte, que remete aos três personagens mais famosos da história suína, Cícero, Heitor e Prático, os rivais do Lobo Mau, também eles animais de nomes poderosos, já que Cícero foi o grande intelectual romano, autor da frase imortal que você já usou algumas vezes,“errar é humano”; Heitor foi o príncipe troiano que, na Ilíada, matou Pátroclo, o amante de Aquiles; e Prático, bem, Prático é um prático. Quanto a Bartolomeu Junior, seu nome quadrissílabo ainda informa a respeito de seu pai, Bartolomeu, e me questiono se aquele velho porco ainda vive e o que achará da aventura do filho, se é que porco acha alguma coisa.

Minha tendência é pensar que sim. Que acha. Porque conheci uma porca, embora não biblicamente como os rapazes campestres, não me entenda mal. A porca que conheci chamava-se Chica. Era da minha avó, Dona Dina, contração de Bernardina, nome perfeito para avós. Ela, minha avó, não a porca, tinha uma voz bem fina e com ela, a voz, não a porca nem a dona da voz, a vó, pois com essa voz minha vó ia até a porta, não porca, porta, pois ia até a porta da cozinha e chamava:

_ Chiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiica!

E Chica vinha de algum canto do pátio, vinha célere sobre suas quatro curtas patas, balançando o rabinho gracioso, vinha rosada, que rosada era, como rosado é Bartolomeu Junior, e vinha guinchando de lealdade à minha avó, obediente, aquela porca Chica, até alegre em cumprir a ordem do ser humano, emocionante em sua gorda leveza, a porca Chica, o que me faz cogitar que Bartolomeu Junior poderia se afeiçoar a ela, se a conhecesse, esquecendo aquela porca fujona que o deixou sozinho no chiqueiro. Poderia. Sim, senhor.

Mas agora o que importa é que Chica vinha, sim, ela vinha, e me encantava essa lealdade dela para com minha avó. Minha avó, no entanto, era pragmática, como soem ser as mulheres, e, não se comovendo com a obediência de Chica, um dia a executou e de seu corpo fez linguiças, salsichas, torresmos, costelinhas, lombinhos, temperos para a feijoada, muito se pode fazer com um porco morto.

Isso foi triste.

-x-x-x-x-

Mas tergiverso. Queria mesmo era falar do mistério que me consome acerca do Caso Bartolomeu Junior. É que ele se evadiu do chiqueiro em busca do amor. Arrebentou o cercado de madeira que o prendia e atirou-se na direção das luzes da cidade acesas para encontrar a leitoa da sua vida. Não a encontrou. Foi imobilizado pelos seres humanos insensíveis, metido em uma camionete e levado de volta ao chiqueiro de seu captor. Certo. Agora vem o enigma: onde está a porca? Qual é o paradeiro da dona do coração de Bartolomeu Junior? Porque no chiqueiro ela não estava, ou Bartolomeu Junior não teria ido procurá-la em outro lugar. Na cidade também não, porque Bartolomeu Junior não a achou. Onde então estará essa maldita porca?

Se você vir uma bela leitoa passeando pela sua rua, saiba: há, neste imenso mundo, um porco que se preocupa com ela. Espero que possa dizer isso também de você.

A loira do poeta

27 de abril de 2014 6

codigodavid

Que me importa se você gosta ou não de quindim?

O quindim. Francamente.

Quando falo em quindim, sempre me lembro do Mário Quintana, que adorava quindim com café. Parece que comia quindim com café todas as tardes.

Certo.

E daí?

Grande coisa, o Mário Quintana gostar de quindim com café. O que isso diz dele? Nada, exceto que gostava de quindim com café. Não são todos os poetas que gostam de quindim com café, analfabetos podem gostar de quindim com café, gostar de quindim com café não tem nenhuma importância, assim como gostar de calor ou frio, peixe ou churrasco, essas coisas. Portanto, não venha me contando acerca do que você gosta ou não gosta, a não ser que seja algo realmente relevante.

-x-x-x-

Sobre Mário Quintana e suas preferências eu aqui poderia dizer algo realmente relevante. Conheci-o em pessoa, embora ele não me conhecesse. Eu trabalhava na Livraria Sulina, setor de promoção e assessoria de imprensa. Uma de nossas tarefas, lá do nosso setor, era dar livros para jornalistas e professores. Recordo do Mário Quintana chegando a minha sala, uma sala tomada de livros. Ele entrava em silêncio, com uma sacola de papel na mão. Não cumprimentava ninguém, nem a Denise, uma morena de 18 anos de idade que TODOS faziam questão de cumprimentar.

Quintana ia direto às estantes, como uma formiga marchando para o açucareiro. Examinava as lombadas e tirava os livros que o interessavam. Empilhava-os numa mesa, seis, sete, dez livros. Quando se saciava, metia-os na sacola e ia embora sem nem nos olhar. Nós mantínhamos a respiração presa, eu e meus colegas, inclusive a Denise _ respeito pelo poeta.

-x-x-x-

Achei que o Mário Quintana fosse assim mesmo, meio casmurro, até que o vi com a Bruna Lombardi numa Feira do Livro. Nossa!, ali estava outro homem. Ele olhava para a Bruna e não parava de sorrir e a seguia por toda a praça e suspirava. Mais um pouco, bateria asas e sairia voando, já que ele passarinho e eles passarão. Parecia apaixonado, aquilo não podia ser só entusiasmo pelos versos da Bruna _ sim, Bruna escrevia poesia (“Eu sou uma mulher espantada, o amor me molha toda…”).

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Foto: Rodrigo Finardi / Especial / BD

Agora, cá entre nós, tenho de admitir _ Mário Quintana escolheu com muito acerto a mulher por quem se deixar enlevar. Eu a vi de perto, aquela Bruna Lombardi. Uma loira miúda, mas, Jesus Cristo!, que coisa mais linda! Ela era um pequeno sol a iluminar os lugares por onde passava. Eu mesmo, ao olhar para Bruna, quase alcei voo como o Quintana. Senti que meu cérebro poderia derreter, se continuasse olhando para ela, mas, ainda assim, não conseguia despegar os olhos daquela pequena deusa. E ela estava de abrigo! Por Deus! De abrigo, e provavelmente era a visão mais comovente e perturbadora e emocionante da minha vida, incluindo as Cataratas do Iguaçu e o drible elástico do Rivellino. Compreendi o Quintana. Depois que ela foi embora, peguei um livro e comecei a LER a Bruna Lombardi:

“Procuro em mim um homem sem moral

que me deixe arisca e me deite de costas mandando coisas.

O oculto da paixão tem mais sabor que

pitanga roubada

e minha alma dissoluta, dissimulada

mistura ao vinho uma idéia de me jogar

em lençóis de linho

ou no mar”.

Jesus Cristo. Jesus Cristo!

Certo.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Então, conto para você que o Mário Quintana era louco por quindim com café e você balança a cabeça: OK, quindim com café. Mas, se conto que ele era louco pela Bruna Lombardi, você arregala os olhos: Uh, a Bruna Lombardi!

Aí está uma informação de valor, mesmo sendo uma preferência mundana. Se bem que Bruna não era mundana, era divina.

-x-x-x-

O mesmo aconteceu comigo uma noite de tempos atrás, ao sair pela primeira vez com certa mulher de cabelos negros e olhar molhado. Ela sentou-se no bar, cruzou as longas pernas, olhou para o garçom com autoridade e pediu:

¬ Uísque. Sem gelo.

Estremeci. Uma mulher que gosta de uísque (sem gelo!) é uma mulher de opinião.

-x-x-x-

Assim mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres não gostam de mondongo, mocotó e dobradinha. Mulheres gostam de clericot. Homens, não. Se dois homens estiverem tomando clericot num bar, eles são, no mínimo, goys. Homens bebem cerveja. Ou vinho, mas não branco. Mulheres, sim, bebem vinho branco e (argh) doce. O molho das mulheres também é branco, enquanto o dos homens é vermelho. Mulheres casadas falam de filhos, mulheres solteiras falam de homens com quem pretendem casar. Homens casados falam de futebol. Homens solteiros falam de futebol. Homens não gostam de comédia romântica, mas homens contam piada e mulheres odeiam ouvir piada e nunca contam uma. Mulheres também não jogam palitinho, não sabem a diferença entre esquerda e direita, preferem literatura a jornalismo, ficam horas tomando banho de sol, passam creme no cotovelo e acordam falando. Homens jogam palitinho, preferem jornalismo a literatura, jogam bola na praia, nunca pensam em cotovelo, com exceção dos cotovelos dos zagueiros, e apreciam o silêncio das manhãs.

Ou não.

Ou tudo isso pode ser invertido e misturado, pode uma mulher gostar de mondongo e jogar palitinho e preferir jornalismo e contar piada. Pode. E pode um homem gostar de comédia romântica e falar de filhos e preferir literatura e nem saber contar piada. Pode.

Mas beber clericot com o amigo no bar, não. Isso é coisa de goys. No mínimo.

O traidor do rio

13 de abril de 2014 6

Sou porto-alegrense do subúrbio, da Porto Alegre dura de concreto. Minha avenida de referência, quando guri, era a Assis Brasil, com sua capa de fumaça sobre os ombros dos edifícios, seu baixo comércio de miçangas de plástico, seus ônibus sempre atrasados e sempre apressados, seus trabalhadores de olheiras roxas e pele cinzenta.

Não havia amenidades silvestres na minha Porto Alegre. O rio era uma paisagem distante, uma massa d’água amarronzada que derramaram detrás do muro. Para mim e para meus amigos, não havia braço de Porto Alegre que se estendesse para além da Cidade Baixa. A Ponte de Pedra, que os escravos construíram para que Dom Pedro II conseguisse viajar da urbe pulsante para a bucólica Zona Sul, essa ponte de pedra Dom Pedro a atravessou, nós não. Nós, só em dia de jogo. Era a Borges, era a Padre Cacique, era o Beira-Rio, e fim. Porto Alegre acabava ali.

Por isso, o rio ainda me surpreende, como já me surpreenderam certas mulheres delicadas, mulheres que surgem quebradiças e que, no entanto, sabem ser suores, furores e tremores. O rio é assim. O rio Guaíba, que nem rio é.

Arrependo-me, porto-alegrense arraigado que sou, de não ter vivido mais o rio. Dias atrás, foi o que fiz. Passei um dia inteiro à beira do Guaíba, fui levado de barco rio adentro, vi ilhas intocadas pelo homem, ilhas de macacos e jaguatiricas, ilhas de mato virgem e cerrado, impossível de cruzar. Singrei por águas senão cristalinas, limpas de beber. Prossegui até a Lagoa dos Patos e me embasbaquei. Esteve sempre ali, ao meu lado, uma paisagem tão linda quanto as mais lindas de Santa Catarina. Fiquei pensando: quantos tesouros estavam junto a mim e os perdi por procurá-los em algum lugar distante?

Quando voltei para casa, sentia-me encantado e um pouco triste. Sentia-me traidor do rio. Traidor por omissão e também por desprezo. E ainda dentro do carro, ao avistar a última ponta visível de água, na Praia de Belas, prometi me redimir. Prometi que, de agora em diante, tudo será diferente. Serei mais interessado, mais atencioso, mais carinhoso com o rio da minha cidade. Que, mesmo negligenciado, sempre foi o meu rio.

Foto/Mauro Vieira

Foto/Mauro Vieira

 

Tudo flui

Heráclito dizia que um homem não pode banhar-se duas vezes no mesmo rio. Era uma frase que servia de ilustração à sentença basilar da sua filosofia, baseada no seguinte princípio:

“Tudo flui”.

Assim, o rio muda a todo instante, e o homem que nele se banha muda também. Eu, hoje, não sou o mesmo que fui ontem (cá entre nós, espero ser melhor, mas não estou muito certo disso).

Heráclito sabia das coisas, mas era um filósofo muito brabo. Detestava os seus concidadãos, lá de Éfeso. Afastou-se deles, tornou-se um ermitão. Escreveu toda a sua obra sem que houvesse por perto um único ser humano com quem partilhar o mate. Depois de concluído o livro, depositou-o em um templo, aos pés de mármore da estátua da deusa. Os habitantes de Éfeso correram para ler o que ele escrevera e beber de sua sabedoria.

Leram.

E não entenderam nada – devem ter se sentido mais ou menos como me senti ao ler Ulysses, de James Joyce.

A partir de então, passaram a chamá-lo de  “O Obscuro”. É como chamo James Joyce.

Heráclito não era fácil, mas essa frase, embora possa ter outras interpretações, é clara e verdadeira:

“Tudo flui”.

Por isso, o rio Guaíba de hoje não será jamais o da minha infância. Por isso, aquele rio Guaíba eu o perdi.

Os frutos da água doce

Havia quatro rios no Jardim do Éden: os irmãos Tigre e Eufrates, o Ganges e o Nilo. Com o que você pode ver como era grande o Paraíso, uma vez que o Ganges fica na Índia, o Tigre e o Eufrates no Iraque, e o Nilo no Egito, os quatro formando uma suave meia lua entre o Oriente Próximo e o Oriente Distante, mas sempre no Oriente.

Lá era o Paraíso, e não o litoral catarinense.

Heródoto dizia que o Egito é uma dádiva do Nilo. Poderia dizer também que a civilização é uma dádiva dos rios da Terra. O Ganges é o rio sagrado dos hindus, que se banham nele em busca das bênçãos de seu milheiro de deuses. Tempos atrás o Ganges estava poluído, tal a quantidade de cadáveres que os indianos jogavam em suas águas, para que lhes servissem de mortalha. E foi na outrora faixa fértil entre o Tigre e o Eufrates, a chamada Mesopotâmia (“Entre Rios”), que nasceu a agricultura, a irrigação, a roda, a família – a Civilização.

Os homens levantam suas cidades onde há água de beber: Londres é a cidade do Tâmisa; Paris, do Sena; o Danúbio azul corta Viena; o Reno é o mais belo rio da Alemanha; as águas do Tibre já ficaram tingidas de vermelho do sangue dos legionários que os bárbaros passaram a fio de espada; o misterioso Amazonas não é um rio, é quase mar; e o Guaíba descobriram que é um lago, não um rio. Não gosto disso. Um lago é plácido, um rio corre, e o Guaíba corre, corre sempre, para algum lugar. Para algum lugar.

Deu pra ti, anos 70

30 de março de 2014 8

codigodavid

Eu vi a prisão do Marcos Klassmann. Ele era barbudo e cabeludo como um urso, e seus captores carregavam-no por braços e pernas, e ele se debatia com fúria de fera.

Cena forte.

Agora me ocorre: será que foi assim mesmo? Será que foi exatamente como lembro? Faz tanto tempo, eu era um guri e a memória nos engana. A memória é um prédio erguido depois do fato ocorrido, e sua matéria-prima são sentimentos e ressentimentos, crenças e ilusões. Já vi mulheres que amei me transformando em um edifício torto na memória delas. Não sou tão ruim assim, queria gritar, e parar a construção. Não adiantava, os tijolos de desprezo já estavam sendo cimentados.

E eu, eu fiz de algumas mulheres rainhas, semideusas do amor e, mais tarde, quando o tempo me afastou delas e delas só restou a imagem, as reencontrei e percebi, com desalento, que aquele monumento ao ser humano só existia dentro de mim, que ali, na minha frente, havia só uma mulher… igual a todas as outras. Triste. Um homem precisa acreditar que a vida pode ser especial.

Então, não sei se foi bem da forma como contei que se deu a detenção do Marcos Klassmann pelos esbirros da repressão. O que tenho certeza foi do que pensamos sobre os alegados motivos para que o arrastassem de seu apartamento no IAPI: sua agressiva campanha a vereador de Porto Alegre. Imagine que o slogan do Marcos Klassmann era o seguinte:

“Vote contra o governo”.

Quer dizer: Marcos Klassmann estava sugerindo que as pessoas deviam ser contra o governo. Uma afronta. Todos sabiam, nos anos 70, que ninguém podia ser contra o governo, que ser contra o governo era ser contra o Estado, contra o país. Vote contra o governo, no raciocínio de quem estava no governo, equivalia a dizer: vote contra o Brasil. Traição, traição. Ame-o ou deixe-o.

******************

Vote contra o governo. Tão revolucionário na época, tão pueril hoje. A vida se sofisticou, desde então.

Em 79, uma pichação se espalhou por muros e paredes de Porto Alegre:

“Deu pra ti, anos 70″.

No ano seguinte, o Giba Assis Brasil lançou um filme com esse título, mas tenho quase certeza de que as pichações não eram marketing, não antecipavam o filme. Aquilo era de fato a expressão de quem tinha sofrido nos anos 70, como o Marcos Klassmann.

Nós, não. Nós não tínhamos sofrido. Éramos guris, e só o que queríamos era correr atrás da bola durante o dia e das meninas durante a noite. Quando o Marcos Klassmann foi arrancado de casa e levado para algum calabouço sombrio do regime, nenhum de nós ficou escandalizado. Assustados, sim; penalizados, certamente; escandalizados, não. Aquilo era normal. Para nós, funcionava assim mesmo. Nós só conhecíamos a ditadura.

******************

Para nós, não havia nada de estranho, por exemplo, na figura do “pistolão”. O pistolão era um protetor, um homem que gozava de algum poder ou de alguma influência e que, graças a isso, resolvia os eventuais problemas que você poderia enfrentar no trato com o Estado, que, afinal, era quase absoluto. O Estado mandava em tudo e em tudo se infiltrava. O Estado, durante a ditadura militar, era muitíssimo parecido com um Estado comunista, o regime que os militares queriam desesperadamente evitar. O pistolão era o agente oficioso do Estado. Oficioso, sim; jamais clandestino. As pessoas se orgulhavam de contar com a bênção de um pistolão forte. Eram apontadas com inveja na rua:

— O pistolão daquele lá é um general.

Essa era a vida. Ninguém nunca tinha nos dito que poderia ser de outra maneira. Mas os anos 70 passaram e com eles passou o nosso tempo de guris, e começamos a ver que o mundo não precisava ser como estava posto, que havia um tipo de vida diferente em lugares diferentes. Mesmo que as coisas tivessem sido sempre daquela forma, não queria dizer que deveriam continuar a ser daquela forma.

Faz 50 anos que aquele regime foi implantado e 25 que deixou de existir. Hoje, uma geração inteira, como aquela nossa, não sabe o que é viver sob uma ditadura. Não sabe que, numa ditadura, um homem pode ser tirado à força de sua casa e atirado numa prisão só porque disse ser contra o governo. E os que sabem que isso aconteceu, mas que ainda assim se dizem saudosos daquele regime, esses são vítimas dos tais truques da memória. O velho regime, para eles, é como a minha antiga rainha, a semideusa que um dia amei: só existe na memória. Porque, na realidade, uma ditadura é… igual a todas as outras.

******************

UM MÊS DE TANTAS FLORES

Elvis morreu nos anos 70.

Elvis, the pelvis.

Mas Elvis não era mais dos anos 70, nos anos 70 ele estava gordo, suado e usando aquelas roupas estranhas, brilhantes, com golas imensas. Os anos 70 começaram com Beatles, seguiram sendo Rolling Stones, que os Stones são intermináveis, estremeceram com os punks dos Sex Pistols, mas foram mesmo, mesmo, da Discoteque. Pelo menos para quem era guri na Zona Norte profunda de Porto Alegre.

John Travolta! As minas queriam que você dançasse como o John Travolta. Mas eu, que não sou de danças, o que poderia fazer diante daqueles concorrentes com cintura de borracha?

Poesia. Não minha, dos outros.

Foi aí que aprendi uns poeminhas para impressionar na noite. Chegava um momento em que o som baixava e eu atacava:

“Quando nasci, num mês de tantas flores,

Todas murcharam, tristes, langorosas,

Tristes fanaram redolentes rosas,

Morreram todas, todas sem olores.

Mais tarde da existência nos verdores

Da infância nunca tive as venturosas

Alegrias que passam bonançosas,

Oh, minha infância nunca teve flores!”

Augusto dos Anjos. Se você é duro para dançar, apele para o Augusto dos Anjos.

Código David: agora não existe mais homem

23 de março de 2014 4

codigodavid

Nas vascas da morte, Van Gogh clamava pelo amigo Paul Gauguin e, quando o fazia, referia-se a ele como “querido mestre”. Os dois moraram juntos em Arles. Passavam o dia pintando e discutindo, não raro brigando. Numa das brigas, Van Gogh sacou uma navalha e atacou Gauguin, que se esquivou a tempo. Van Gogh percebeu que se excedera e pediu desculpas em meio a lágrimas e soluços.

david2303_01

Gauguin desculpou-o, mas, por cautela, mudou-se de cidade. Mais tarde, Van Gogh usaria aquela navalha em si mesmo. Gauguin era um idealista. Até os 35 anos, foi um pintor de fim de semana. Tinha uma bela mulher dinamarquesa e cinco filhos saudáveis, um bem remunerado emprego na bolsa de valores e respeito da sociedade. Mas sua paixão, realmente, era pintar. Então, largou tudo: mulher, filhos, emprego, prestígio, tudo, tudo para se tornar pintor em tempo integral. O que conseguiu com isso? Sofrimento, fome, doença e imortalidade. Valeu a pena? Bem, Gauguin não tinha a alma pequena.

Para desenvolver sua arte, Gauguin saiu mundo afora. Queria “viver como um selvagem”. Conseguiu. Pintou pelas esquinas mais sórdidas da Europa e pelos meandros da América Central. Acabou encantando-se pela paisagem feérica do Taiti. Tornou-se amigo dos maoris e amasiou-se com uma nativa. Pintava furiosamente, mas as misérias da existência faziam-no infeliz. Estava endividado, fraco e doente.

Um dia, tentou envenenar-se com arsênico, mas tomou uma dose excessiva e sobreviveu, não sem antes penar com dores excruciantes. Por fim, desentendeu-se com um militar branco, foi processado, condenado e preso. Morreu na cadeia, balbuciando:

— Agora não existe mais homem.

****

Pintores. Já cevei projetos de escrever um livro sobre pintores. São seres humanos intensos. O título do livro seria essa frase derradeira de Gauguin, “agora não existe mais homem”. Pode ser interpretada de várias formas, o que é muito estimulante. Talvez começasse por Gauguin, recuasse um nada até os mestres impressionistas, muito mais até os renascentistas, avançasse de novo em direção aos cubistas e, entre idas e vindas, certamente passaria, e com orgulho, pelo meu amigo Ivan Pinheiro Machado. O Ivan é um hiperrealista. Observe a reprodução de um de seus quadros sobre Nova York, e se enleve. A partir de 7 de abril, você poderá vê-los a um metro de distância — o Ivan vai expor no Espaço Cultural Citi, em pleno bulício da Avenida Paulista. Essas coisas não são para qualquer um. O profundo conhecimento da arte não é para qualquer um. Se fosse, me aventuraria no projeto do livro sobre pintores. “Agora não existe mais homem”. Que frase poderosa. Que belo título.

As galinhas e o capitalismo

david2303_02A vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude. É claro que o fato de ela ser corcunda não é importante, decerto estou fazendo alguma coisa muito errada, isso de já na primeira frase, antes mesmo de citar o nome da pessoa, contar que ela é corcunda, e nem duvido que uma associação de defesa dos corcundas vá reclamar de mim, ou talvez queira me processar, mas, antes que alguém se enfureça, deixe-me explicar: eu era pequeno, quando dona Gertrude era vizinha da minha avó, e por essa razão o fato de ela ser corcunda me marcou muito, crianças são impressionáveis, não que aquela corcunda me atemorizasse ou enojasse, longe disso, a corcunda me fascinava, gostava que minha avó tivesse uma vizinha corcunda, sim, aquilo era interessantíssimo para mim, portanto, enfatizo com mais um golpe de dois pontos: respeito muito Dona Gertrude, sua descendência e todos os corcundas da cidade, mas, quando penso na antiga vizinha da minha avó, sempre me vem à cabeça: ela era corcunda e foi tão-somente por esse motivo que escrevi e torno a escrever, sem nenhuma maldade: a vizinha da minha avó era corcunda. Dona Gertrude.

Elas moravam em casas contíguas, os quintais apartados por uma cerca de madeira, e ambas criavam galinhas, o que é relevante para o que vou contar a seguir. Havia certo contencioso entre a minha avó e a Dona Gertrude. Por que, nem sequer suspeito. Essas coisas de vizinhos. Sei que era algo não dito, algo escamoteado. Publicamente, minha avó e Dona Gertrude pareciam cultivar relações amistosas, mas, em privado, elas se acicatavam. Uma rivalidade surda e quase sempre inofensiva, até que minha avó descobriu uma forma solerte e especialmente dolorosa de atacar Dona Gertrude: quando uma das galinhas dela, da Dona Gertrude, passava a cerca para o lado de cá, minha avó a capturava e, em um segundo, sem piedade, torcia-lhe o pescoço.

De um único golpe, executava a galinha desgarrada, que falecia sem um có. Ato contínuo, minha avó levava o corpo para a pia da cozinha e escaldava-o com água fervente, para lhe retirar as penas. Ainda hoje lembro do cheiro enjoativo de pena queimada. Aquela galinha sequestrada infalivelmente seria servida no domingo, com arroz. Uma delícia, mas tantas vezes repetida que me tornei infenso a pratos com galinha e demais aves pelo resto da vida.

Você pode dizer que minha avó era uma ladra de galinhas vulgar. Nada disso. Minha avó estava empenhada numa guerra de guerrilhas. Uma guerrilheira, era isso que ela era. Na verdade, ela fazia uma expropriação da galinha do inimigo para lhe abalar o moral. E dava certo. Lembro de quando minha avó e Dona Gertrude levavam as cadeiras para a calçada e ficavam sentadas em frente das respectivas casas. Dona Gertrude, de repente, lamentava:

— Minhas galinhas andam sumindo…

Minha avó retrucava:

— Tem que cuidar bem das suas galinhas…

E meu avô, que não sabia de nada, coçava a cabeça:

— Que conversa é essa?

— Nada, nada — despistava a minha avó. E passava-lhe o mate. Uma guerrilheira. Uma sagaz, ladina, invencível guerrilheira. Vendo hoje os black blocs acreditando que quebrar vitrine de banco pode derrotar o capitalismo, percebo o quanto eles teriam a aprender coma minha avó.

Código David: o melhor de todos os nomes de mulher

16 de março de 2014 5

Gosto de nomes de mulheres com vogais explosivas. Débora. Bárbara. Mulheres proparoxítonas. São nomes bons para personagens.

“Naquela noite, Débora espetou um olhar oblíquo e acastanhado no fundo dos meus olhos assustados, e ronronou:

— Hoje é o seu dia de sorte, garoto.

Ainda escrevo uma história assim.

*********************

A Rainha do IAPI chamava-se Débora. Era um pouco mais velha do que nós, era linda, era soberana como toda rainha deve ser e nunca, jamais, em tempo algum nos deu a menor bola murcha, no que estava absolutamente certa — Débora, para qualquer um de nós, seria como o INSS: inadministrável.

Imagino que Débora, hoje, deva estar vivendo em Montecarlo, casada com algum empresário alemão riquíssimo. Ou com algum Prêmio Nobel de qualquer coisa. Não, não, Débora não aceitaria menos do que um Prêmio Nobel. Se hoje Débora for uma funcionária, se assinar livro-ponto, se for casada com um socialista, se receber salário, se não estiver pelo menos a palmo e meio dos píncaros da glória, por favor, não me contem. Não azedem o meu doce passado.

*********************

Isso de nomes. Os romanos em geral tinham três: o prenome, o nome e o cognome. Marco Túlio Cícero. Durante a República havia só 18 prenomes, por isso eles usavam o cognome para se diferenciar. Podiam acoplar quantos cognomes quisessem, uns sobre os outros, inclusive repetindo-os.

Descobri, num livro, um cônsul romano do II século a.C. que se denominava Quinto Pompeu Senecio Róscio Murena Coelho Sexto Júlio Frontino Sílio Deciano Caio Júlio Êuricles Herculano Lúcio Vibúlio Pio Augustano Alpino Bélico Solers Júlio Aper Ducênio Próculo Rutiliano Rufino Sílio Valens Valério Níger Cláudio Fusco Saxa Amintiano Sósio Prisco, mas todo mundo o chamava de Zé.

*********************

O nome original de Roma era Sete Montes. Em cerimônias religiosas herméticas, mas muito herméticas, os sacerdotes se referiam à cidade pelo seu palíndromo: Amor.

Uma vez um tribuno revelou esse segredo e foi crucificado. Os homens do WikiLeaks se dariam mal, se fossem romanos.

*********************

Nomes de mulheres são mais bonitos do que os de homens. Admiro o Olívio Dutra, que teve a coragem de colocar no filho o nome do libertador dos escravos da Roma republicana: Espártaco. Nome forte e raro.

Aliás, o general que finalmente derrotou Espártaco, Crasso, teve seu nome eternizado não por essa vitória, mas por uma derrota. Ele errou ao atacar os terríveis partos, teve suas legiões dizimadas, foi morto e, desde então, um erro grave é chamado de “erro crasso”. Benfeito.

Gosto do libertador Espártaco e gosto também de outro libertador, Emiliano Zapata. Quase pus no meu filho o nome de Emiliano. Se tiver outro, quem sabe?

Mas preferia dar nome a uma menina. Tão lindos os nomes de meninas, tão sonoros.

Bruna é morena; Yasmin é uma flor; Vanessa, uma borboleta; e Melissa, abelhinha. Bianca, simplesmente, é branca, Sofia é o nome da sabedoria, Beatriz faz feliz, enquanto Márcia faz a guerra e Laura, por fim, é a vitoriosa.

Catarina. Sempre quis chamar minha filha de Catarina, hoje não tenho mais tanta certeza. Catarina é casta. Catarinas foram grandes rainhas. Catarina de Médici era florentina e ensinou a sofisticação a Paris. Catarina, a Grande, era alemã, reinou sobre todas as Rússias e, de casta, nada tinha — precisava repoltrear-se, espadanar-se e refocilar-se no pecado carnal pelo menos seis vezes ao dia, ou seu corpo imperial não se saciava.

Virgínia, obviamente, é virgem, mas me parece cínico, nos dias de hoje. Valéria é cheia de saúde, mas era o nome de Valéria Messalina, que, além de saúde, tinha muita disposição, a ponto de se tornar sinônimo de luxúria.

Cleópatra é a glória do pai, mas estaria depositando muita responsabilidade nos ombrinhos da menina. Meu amigo Zé Pedro Goulart deu à filha o nome da cidade luz, Paris. Bonito. Bonito. E, agora, pensando no Zé Pedro e em sua bela filhinha, concluo que o nome da maior cidade da civilização talvez seja o mais perfeito nome de mulher: Roma, a cidade eterna, pode bem ser uma mulher, qualquer mulher, que, em segredo, chama-se Amor.

No dia da mulher, o homem superior

09 de março de 2014 6

Assisti a uma entrevista do autor da música “Lepo Lepo” afirmando que a intenção da sua obra é “dizer não ao capitalismo”. Não havia reparado na natureza contestatória da canção. Fui pesquisar e, de fato, na letra o protagonista conta não ter carro nem casa, reclama que seu salário está atrasado e avisa que vai falar a respeito da sua precária situação financeira com a amada. Por fim, deduz: se ela ficar com ele, é porque gosta do seu “lepo lepo”.

É o sonho de todo homem. Que as mulheres não fiquem com ele por causa de dinheiro ou status, mas apenas e tão-somente devido à excelência de seu lepo lepo. O lepo lepo dele é tão bom que elas não conseguem abandoná-lo, mesmo que esteja falido, mesmo que seja um pangaré.
Mas, infelizmente, não é assim que funciona. As mulheres, seguindo a lei da preservação da espécie, procuram o mais forte. O Homem Superior de Nietzsche. Aquele que vai lhes proporcionar a descendência com maiores condições de sobreviver. E quem é o mais forte no Século 21? Que tipo de homem despertará nela os formigamentos do instinto de reprodução? Depende do que a mulher sente. Não do que pensa, não do que crê; do que ela sente. Talvez ela não saiba por que, mas ela SENTE que as qualidades apresentadas pelo candidato em questão, no caso, você, são as melhores para sua prole futura. Então, gol do Brasil. Você será o escolhido.
Portanto, de nada adianta ter um invejável lepo lepo, se você é mesmo um pangaré. Você terá de ser superior, para aquela mulher. “Homens superiores, dominai as virtudes enganosas!”, gritava o Zaratustra de Nietzsche. “Dominai as considerações com os grãos de areia, o bulício das formigas, a ruim complacência, a ‘felicidade dos outros’! A ter de vos renderdes, preferi desesperar!”
E é verdade! A vida é capitalista. O instinto das mulheres, que é o que move a roda do mundo, é capitalista. Não acredite nessa balela feminista de igualdade. Isonomia, sim; igualdade, jamais. Não somos iguais. Não acredite no sonho dourado do Lepo Lepo. Você pode ser lepolepado, você pode ser uma vítima do prazer; ela, não. Seja superior, portanto. Nietzsche e as mulheres anseiam pelo Homem Superior.

-x-x-x-x-

ELA NÃO GOSTA MAIS DELE

A propósito das mulheres, recebo o email de um amante desafortunado, um triste homem que escreveu uma linha, nada mais, uma única linha, e tão desesperada:

“Será que ela realmente não gosta mais de mim?”

Fiquei compadecido com a dúvida do leitor. Creio que se trata de uma pergunta retórica. Como poderei saber se ela realmente não gosta mais dele, se não o conheço, nem a ela? Suponho que fez a pergunta numa gana de desabafo, ou talvez esperando um consolo vago, querendo que eu dissesse: “Calma, ela gosta ainda”. Mas, desculpe leitor, não posso fazer isso. Reparo, pela maneira como você formulou a pergunta, que ela já disse ou demonstrou que não gosta mais de você. Não fosse assim, você não engastaria na frase aquele perturbador advérbio de modo: “realmente”.
Então, ela agora deve estar com outro, ou não deve mais pensar em você, tanto que não liga, não manda email, nem mensagem pelo celular, não é mesmo? E, se for assim, de nada adianta você lhe mandar as flores mais deslumbrantes nem lhe dizer as mais deslumbrantes palavras. Ela não se deslumbrará. Não adiantaria sequer se você fosse um Neruda e declarasse para ela um poema apaixonado:

“Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo”.

Não, nada disso adiantaria, nada disso adianta, porque ela não gosta mais de você. Ao seu verbo bem lapidado ela prefere a frase manca daquela formiga buliçosa que comete erros de português no Facebook. Por quê? Vá saber. Mistérios do instinto de preservação da espécie. Não, rapaz. Para ela, você não é mais o Homem Superior.

-x-x-x-x-

SAFO, DE LESBOS

Safo, a grande poetisa da ilha de Lesbos, não era uma mulher bela. Os gregos diziam que era pequena demais, morena demais (os gregos gostavam de loiras). Mas, quando escrevia, Safo seduzia. E, como estamos falando de mulheres, dor e amor, não há como não citá-la, ela que foi a maior escritora da antiga e boa Grécia.
Sólon, o famoso legislador, ao ouvir um verso escrito por Safo, disse que precisava desesperadamente que alguém o ensinasse a recitá-lo. Perguntaram por que tanta ansiedade, e Sólon respondeu:
_ Quero aprender, e depois posso morrer.
Platão a chamava de “a décima musa”, Plutarco dizia que suas palavras “vinham misturadas com chamas” e, depois de sua morte, os habitantes de Mitilene cunharam uma moeda com sua efígie. Alceu, o poeta mais popular daquele animado sexto século antes de Cristo, apaixonou-se por ela. Enviou-lhe uma carta fremente:
“Oh, pura Safo, de violetas coroada e de suave sorriso, queria dizer-te algo, mas a vergonha me impede”.
Safo respondeu à altura:
“Se teus desejos fossem decentes e nobres e tua língua incapaz de proferir baixezas, não permitirias que a vergonha te nublasse os olhos, dirias claramente o que desejas”.
De qualquer forma, deu certo. Safo e Alceu encetaram um romance. Mais tarde, ela se casou com um homem rico, que providencialmente não tardou a morrer, deixando-lhe alentada herança. Rica, Safo abriu uma escola de poesia para moças em Lesbos e, ao apaixonar-se por uma das alunas, tornou a ilha célebre por toda a posteridade. Um trecho de um poema de Safo talvez fizesse o milagre que meu leitor abandonado espera:

“Basta que por um instante eu te veja
para que, como por magia, minha voz emudeça.
Sim, basta isso para que minha língua se paralise,
e eu sinta sob a carne impalpável fogo
a incendiar-me as entranhas.
Meus olhos ficam cegos e um fragor de ondas
soa-me aos ouvidos.
O suor desce-me em rios pelo corpo, um tremor
se apodera de todos os meus membros e, mais lívida
que a outonal folhagem, estorcendo-me nas dores da agonia,
desfaleço, perdida no êxtase do amor”.

Mande isso para ela, triste leitor, e ela voltará.

Queria escrever sobre o tomate

01 de março de 2014 5

O tomate. Hoje queria escrever sobre o tomate. Veio das Américas, como a adorada batata. Você sabe a história da batata, já contei e recontei como a batata atravessou impávida o oceano e atingiu a glória na Europa graças ao amor da índia Potato (batata!) por um gaiato marujo do navio de Francis Drake, o pirata conquistador que conquistou terras, metais preciosos e o coração de Elizabeth I, a Rainha Virgem, que só era virgem porque não se casou e porque, dizem certos historiadores, sofria de hímen complacente, terrível mal. Alguns médicos se ofereceram para romper a bisturi o hímen real, mas, num tempo sem anestesia, a soberana, inteligente e cautelosa, preferiu ficar com a fama de virgem eterna, o que rendeu inclusive a denominação de um estado norte-americano, a Virgínia.

Mas queria escrever sobre o tomate e me prendo a himens e batatas, o que, aliás, é natural devido à admiração planetária quase unânime por elas, e aí me refiro às batatas, não aos himens, que himens já renderam polêmica, mas hoje não mais, pelo menos não no Ocidente civilizado, enquanto a batata, ah, essa sim é apreciada por todos em suas várias formas de preparo, sobretudo as fritas, quem não gosta de batata frita e Beatles?

Verdade, a Mariana Kalil não gosta de Beatles, mas não ingressarei neste terreno pantanoso das preferências musicais, continuarei, firme e reto como o caminho da virtude, a falar do tomate, mesmo que a batata tenha desviado minha atenção com seus ardis. Por sinal, há uma crença bastante sólida de que tudo o que se faz com batata pode ser feito com aipim. Você sabe: aipim, mandioca e macaxeira, os três são, na prática, a mesma coisa, como pandorga, pipa e papagaio. Aipim e pandorga, no entanto, seriam “mais gaúchos”. Seriam? Acho que não. Pandorga vem do espanhol e significa “mulher barriguda”, imagino que barriguda de grávida, não de chope. Tem lógica: a pandorga (pipa, papagaio) lá no céu, infla como uma mulher barriguda. Já o aipim vem do tupi, e quer dizer “que brota do fundo”. Também tem lógica, uma vez que o aipim, como a batata, é um tubérculo. Será que é por isso, porque ambos são arrancados à carne da terra, que o que se pode fazer com uma pode-se fazer com outro? Talvez, mas, honestamente, tenho de admitir a vantagem da batata nos quesitos suavidade e sabor. Donde a unanimidade: todos amam batata frita, inclusive a Mariana Kalil, e nem todos são adeptos do aipim frito.

Suponho que a defesa encanzinada do aipim seja uma manifestação de ufanismo, já que o aipim, parece, é autóctone, nasceu no Brasil, mais precisamente na Amazônia, e daí migrou América acima. Certo. Trata-se de um nacionalismo. Mas vá pedir aipim em um bistrô francês. Ninguém saberá do que se trata. Já a batata… Não, não, é preciso reconhecer: a batata nos venceu. Aos vencedores, as batatas.

Mas queria falar do tomate, o Pomo d’Oro, como bem definiram os italianos. Pomo. Uma fruta, decerto. Na Coreia do Sul é assim que o comem: como a fruta que representa todas as frutas, a maçã. Quando estive na Coreia na Copa de 2002, o pessoal da Rádio Gaúcha convenceu a dona de um pequeno restaurante de Ulsan a preparar uma salada como no Brasil, com alface, cebola e tomate cortado em finas rodelas. Ela fez, mas achava tão estranho que chamava a vizinhança para ver os brasileiros comendo.

Mas eles estão certos, tomate é uma fruta, Eu, quando guri, chegava esfaimado do jogo de futebol e metia a cabeça na geladeira à procura do tomate perfeito. Não podia ser verde demais, nem maduro demais. Tinha de ser inquestionavelmente vermelho, porém macio e rijo como uma mulher de 22 anos de idade. Ah, a mulher de 22 anos de idade está no auge. Se você tem uma mulher de 22 anos de idade precisa saber que ela, como o tomate, é uma fruta de ouro e tem de ser apreciada com sabedoria. Os italianos souberam fazer isso, e agora não me refiro às mulheres de 22 anos de idade, já que meu assunto é o tomate, e é dele que queria falar.

Sim, os italianos tornaram nobre o tomate, algo que de maneira alguma me surpreende: os italianos moldaram o mundo. Primeiro, durante um milheiro de anos, com a força, graças ao poder físico das suas legiões. Depois com a fé, graças ao poder espiritual do catolicismo. E, ao raiar do Renascimento, com a beleza, graças ao poder sensual das artes. Homens com essa sensibilidade, com essa inventividade, com esse gênio, só homens assim seriam capazes da grande criação:

O Molho de Tomate.

E então cheguei aonde queria chegar desde o começo: ao molho de tomate. Porque um molho de tomate preparado com critério, tendo por base um refogado de cebola e alho, sendo nessa alquimia acrescido o sabor de pequenos cubos de carne vermelha adrede picados, bem temperado com um uma pitada de pimenta do reino e um quase nada de sal, esse molho, quando deitado sobre um prato fumegante de macarrão, depois de polvilhado por queijo parmesão uruguaio ralado na hora, esse molho, se você é o autor desse molho, como fui, modestamente, outro dia, ah, esse molho seduz mulheres de 22 anos de idade, encanta homens, enfeitiça crianças, faz o sucesso de uma noite com amigos do peito, pode consagrá-lo socialmente. Eu sei, porque o cometi, o molho de tomate inefável. Por isso, tinha falar do tomate. E o fiz. Loas ao tomate. Ele pode nos fazer grandes.

Aconteceu no verão

22 de fevereiro de 2014 5

Sua mesa era pequena, mesa para dois, colada à parede do bar. Ela bebia um copo de cerveja e, às vezes, num gesto casual, espetava com um palito azeitonas pretas ou cubos de queijo amontoados num pires.
Era terça-feira. Noite de tango no Odeon.
O bandoneonista, o velho Rafael, pequeno e encurvado debaixo de seus cabelos totalmente brancos, parecia remoçado, parecia um adolescente, agora que se deleitava ao tocar seu instrumento e ao ouvir os aplausos dos poucos clientes do bar. E Dionara, a pianista, Dionara se transformava em uma diva do Prata quando os dedos corriam sobre as teclas brancas e pretas.
Ela, a moça da mesa ao lado, ouvia a música sozinha e calada, e bebia sem pressa a sua cerveja. Tinha um rosto bonito, os cabelos presos num coque amarrado na nuca e vestia-se como se estivesse em casa: uma camiseta larga sobre as calças jeans. Depois de alguns minutos, colheu o copo da mesa, levantou-se e caminhou até a porta. Parou na calçada. Encostou-se à parede do bar. Apoiou o copo numa espécie de guarda da porta e acendeu um cigarro. Ficou olhando os músicos, ouvindo o tango, fumando. O vento lhe desalinhava os cabelos, e ela vez ou outra enchia os pulmões com o ar da noite. Em meio a um tango mais triste, entre tantos tangos tristes, ela entreabriu os lábios e seu rosto enrubesceu de leve. Então, vi. Seus olhos ficaram rasos d’água. Não chegou a chorar. Quase. Mas não chegou a chorar. Terminado o tango, ela voltou à mesa colada à parede, pediu a conta, pagou e saiu em silêncio, carregando, devagar, o peso da sua nostalgia.

NA PISCINA
Meu filho Bernardo, de seis anos, foi convidado para refrescar-se do calor sul brasileiro na piscina da casa de uma amiguinha da mesma idade. Lá estavam ele, a amiga e outra menininha encostados na borda da piscina, quando uma delas desafiou:
_ Vamos ver quem chega mais rápido à outra borda?
O B desdenhou:
_ Não, não… Estou muito velho pra essas coisas…

NO MUNDO DO FACEBOOK

Nos calores dos albores de fevereiro, entrei no Facebook. Meu fake cedeu-me generosamente a senha da minha própria página e passei alguns dias fresteando por esse novo e estranho mundo.
Juro que nunca cevei preconceitos contra o Facebook, meu problema é falta de tempo. E, olha, reconheço e festejo sua utilidade. As pessoas têm necessidade de se expressar, e nem todo mundo escreve em jornal e fala na rádio e na TV. Trata-se de uma ferramenta tão poderosa que muitos dos meus colegas jornalistas confundem redes sociais com imprensa. São coisas diferentes. As redes sociais inevitavelmente têm de ser horizontais e a imprensa inevitavelmente tem de ser vertical e… mas isso é conversa técnica. Não interessa.
O que interessa é o mundo palpitante do Facebook. Que nem sempre é palpitante. Ora é, como diria o Eça, uma maçada, não muito diferente do real, vivido no dia a dia, no olho no olho. Mas em um aspecto é um mundo especial: é nele que as pessoas dizem como gostariam de ser e como querem que os outros as vejam. Cada post, cada foto tem um recado subjacente, uma informação sobre aquele ser humano. Valeria um estudo antropológico e psicológico mais profundo. Que eu não teria competência para fazer.
Resta-me o desfrute. Que não é pouca coisa. Neste lufa-lufa, como diria o José de Alencar, descobri ninguém menos do que ela…
…A Rainha do Facebook. Chama-se Isadora Neumann, trabalha na Zero Hora e, nunca pensei que diria isso de uma pessoa, posta como poucos postam. Isa lança pela vida digital diamantes diários. Zuckerberg deveria pagá-la por isso. Aprenda:

“No bar.
_ Bruna, por que na tua comanda está escrito “Carol”?
Bruna:
_ Porque tô entediada.”

“Acabei de usar ponto e vírgula. Pronto. Virei uma pessoa séria”.

“Ontem eu descobri que “saudade” não existe só em português, e agora eu não acredito em mais nada que me dizem”.

“Problemas da era digital.
Bruna Scirea está P da cara porque não consegue enviar e-mails para FêCris que está sentada na sua frente”.

“Por um mundo com brigadeiro de cerveja”.

“E eu sempre achei que couve era alface”.

“Não vou revelar onde estou, mas respeito muito um estabelecimento onde a senha do wi-fi é DEPUTAMADRE”.

“Só agora me dei conta: não existe onço, só onça”.

Viu? O mundo digital pode ser mais colorido.

Das entranhas da terra

16 de fevereiro de 2014 5

O Marcelo Rech contou que, certa vez, durante a recuperação de uma cirurgia, leu o alentado livro do Antony Beevor sobre a Batalha de Stalingrado. Fez isso como medida terapêutica, para aliviar-se da dor, e funcionou. Marcelo sentiu-se reconfortado porque, afinal, ninguém poderia sofrer mais do que os que verteram sangue, suor e lágrimas na Batalha de Stalingrado.

Trata-se de um episódio célebre e dramático da II Guerra Mundial. Já havia lido alguma coisa e visto filmes a respeito. Um deles, ótimo, em que Jude Law e Ed Harris interpretam dois franco-atiradores inimigos perseguindo-se pelas ruínas da cidade. Ocorreu mesmo esse duelo. Havia muitos franco-atiradores famosíssimos naquela guerra e esses dois, em especial, carregavam, junto com seus rifles, a fama de infalíveis. O russo, no caso Law, venceu. Seu fuzil com mira telescópica está exposto num museu da Rússia.

Stalingrado agora se chama Volgogrado, porque ela se deita às margens do grande Rio Volga. É a cidade em que nasceu Yelena Isinbayeva. Já contei que estive a palmo e meio de distância dos olhos lilases de Yelena Isinbayeva? Que respirei seu hálito de maçã verde? Uma experiência antropológica.

Volgogrado também é a cidade em que as terríveis mulheres-bomba denominadas “viúvas negras” andaram se explodindo, matando várias pessoas, semanas atrás. Eu mesmo já fui explodido por uma mulher-bomba, mas isso é outra história, nada tem a ver com Volgogrado ou, o que mais interessa, Stalingrado.

Porque li o livro de Antony Beevor, talvez também para refrigerar-me a alma. É mesmo assustador. Os bombardeios da Lutfwaffe destruíram a cidade, só restaram escórias. Os defensores, porém, conseguiram resistir, mas Stálin só alcançou essa façanha enviando levas de homens para o sacrifício, como ondas humanas. E então, depois de meses, numa contraofensiva histórica, os russos cercaram completamente o Sexto Exército Alemão. Milhares de soldados alemães viram-se em situação crítica e fatal, atacados por piolhos, ratazanas e por todo tipo de doenças, morrendo de fome, de frio e de exaustão, alguns enlouquecendo a ponto de tentar o suicídio.

Para aumentar ainda mais a pressão, os russos adotaram uma estratégia curiosa: à noite, colocavam no gramofone uma melodia que julgavam sinistra, o bravo tango argentino, que se evolava de alto-falantes próximos às trincheiras alemãs. Deu certo. Os alemães foram se deprimindo e alguns choravam de saudade da mulher e dos filhos que não veriam jamais.

No Natal, os soldados alemães tentaram se reanimar cantando eles mesmos uma música. Ironicamente “Noite feliz, noite de… paz”.

Mas o que mais me comoveu, mais do que as mortes, as mutilações, as glórias e os dramas, foi a história de um médico e sacerdote alemão que pediu para que os soldados cavassem um espaço maior em sua casamata, e lá instalou um piano. E assim, durante grande parte dos dias de sangrento combate ou mesmo nas noites de feroz bombardeio, enquanto os homens urravam de desespero, clamavam por suas mães, como garotos desamparados, ou ficavam mutilados para sempre, enquanto cenas de dor infinita se passavam na superfície gelada, enquanto isso, o som doce e melancólico do piano brotava de dentro da terra. Como deve ter sido bela e estranha aquela música que vinha do nada e envolvia homens que matavam e morriam. Como é consolador saber que, mesmo vivendo no inferno, o homem ainda consegue exercer a sua Humanidade.

*******

O poema de Drummond

A Batalha de Stalingrado ocorreu entre 1942 e 1943. Stálin, a quem a cidade homenageava com seu nome, ainda era o herói do comunismo internacional. E, bem, ele estava lutando contra o nazismo, podia-se dizer que, pelo menos daquela vez, Stálin lutou pela liberdade. Ou, melhor, do lado dos que lutavam pela liberdade.

Os comunistas de todo o mundo exultavam com a resistência dramática e feroz de Stalingrado, que acompanhavam sequiosos pelos jornais. Entre eles o poeta Carlos Drummond de Andrade, que teceu um poema em homenagem à
grande batalha. Ei-lo, devidamente editado:

 “Stalingrado…

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!

O mundo não acabou, pois que entre as ruínas

outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,

e o hálito selvagem da liberdade

dilata os seus peitos, Stalingrado,

seus peitos que estalam e caem,

enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.

Os telegramas de Moscou repetem Homero.

Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo

que nós, na escuridão, ignorávamos.

Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,

na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,

no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,

na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.

Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.

Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.

Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.

Saber que vigias, Stalingrado,

sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes

dá um enorme alento à alma desesperada

e ao coração que duvida.

(…)

As cidades podem vencer, Stalingrado!

Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.

Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.

Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,

a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem”.

*******

Cachorros-bomba

Há homens-bomba, mulheres-bomba e os russos intentaram os cachorros-bomba. Eles pegavam cães de várias raças e só os alimentavam colocando comida debaixo de grandes veículos. Então, quando os alemães vinham com seus panzers, os russos amarravam explosivos em volta do corpo desses cachorros e, em suas costas, espetavam uma vareta que acionava a bomba. No momento em que os tanques apareciam, eles soltavam os bichos. Que iam correndo para debaixo dos panzers, achando que lá encontrariam comida. Assim que se metiam entre as esteiras, a vareta batia no chão do tanque e, pronto, lá se ia panzer, cachorro, alemão, tudo. Muito engenhoso. Mas, claro, naquele tempo não havia protetores de animais.

Você sabe o que sua mulher fez?

08 de fevereiro de 2014 2
Entre as minhas ignorâncias várias estava a de não saber da existência dos beliebers. Descobri isso indo para os Estados Unidos, mas esse… movimento?… é movimento? Seja. Esse movimento existe no Brasil também. Existe em grande parte do mundo, vasto e estranho mundo.
Beliebers. Uma contração em inglês de “eu acredito em Justin Bieber”. Como quem acredita em Jesus, por exemplo. Isso significa que Justin Bieber tem seguidores. Ou apóstolos. Algo assim.
Nunca pensei que tal fenômeno fosse possível. Justin Bieber sendo um guru, um farol de sabedoria, um pastor a guiar seu rebanho que o segue balindo, fiel, amoroso, agradecido.
Entendo a devoção das pessoas por músicos. A música toca direto nos sentimentos, e é difícil quem não se deixe enlevar por uma melodia que desperte nostalgia, tristeza, excitação ou euforia. Mesmo os mais inteligentes se comovem com a música e passam a amar os músicos sem que eles precisem falar, só cantar ou tocar. Nietzsche era uma espécie de devoto de Wagner. Conheceu-o, tornou-se meio que um discípulo dele, mas, depois da convivência mais próxima e da decepção, acabaram rompendo, e Nietz passou o resto da vida falando e escrevendo mal do seu antigo ídolo.
Peninha, o Eduardo Bueno, ama Bob Dylan. Mas AMA, de suspirar com o olhar perdido no vento. O Peninha é um homem de paixões, vide seu afeto explosivo pelo Grêmio.
E há mulheres maduras que se rasgam pelo Rei, ou pelo Chico, ou por Beatles e Rolling Stones.
Certo.
Mas Justin Bieber?
Como a mulher leviana, Justin Bieber não parece merecedor de amores imortais. No entanto, há quem o ame, que faça sacrifícios por ele e que, oh, tempora!, oh, mores!, mate-se por ele. Sério: pessoas se suicidaram por causa de dissabores vividos por Bieber, como sua recente prisão por excesso de velocidade.
Agora reflita sobre essa informação, perplexo leitor: alguns jovens se suicidaram, ou tentaram o suicídio, motivados por vicissitudes enfrentadas por Justin Bieber. Nos Estados Unidos existe até um serviço assistencial que tenta convencer as pessoas a não se matarem por causa de Justin Bieber. O que deve ser tarefa muitíssimo pedregosa. Afinal, quem tenta se matar por causa do Justin Bieber deve ser alguém de convicção sólida. Não consigo nem imaginar o que eu argumentaria para convencer essa pessoa a não se matar por causa do Justin Bieber. É provável até que acontecesse o contrário: ela me provaria que estava certa e eu cederia:
_ Tá bem. Morra por causa do Justin Bieber.
É lógico que você chegou à mesma conclusão que eu: o mundo se divide em pessoas que tentam o suicídio por causa de Justin Bieber e pessoas que não tentam o suicídio por causa de Justin Bieber. Isso é óbvio.
Digamos que você esteja no segundo grupo. E que daqui há 10 ou 20 anos você conheça um belieber sobrevivente. Ou seja: alguém que tentou se matar por Justin Bieber e não conseguiu, ou foi convencido a não fazê-lo. Esse belieber suicida vivo pode se tornar seu vizinho, ou seu chefe, ou seu sogro, ou sua namorada. Pode influenciar sua vida, pode modificá-la, pode ser decisivo para você, e talvez você nunca descubra que aquela pessoa é um belieber suicida vivo. Você já pensou nisso? Já pensou no tanto que não sabe sobre a pessoa que está ao seu lado? Já pensou que existem informações fulcrais sobre, digamos, o seu cônjuge, que ele jamais deixaria que vazassem, sobretudo para você?
Olhe para a mulher que está agora ao seu lado, ronronando. Você sabe tudo o que é importante sobre ela? Tem certeza? Como ela se comportaria num momento de crise? Pense bem.
É por isso que tanta gente se surpreende ao fim de um relacionamento. Antes é tudo tão belo, tão… lógico. Mas, de repente, aquela mulher que era toda paixão se transforma numa estranha, em alguém que você não reconhece, às vezes fria e indiferente, às vezes perigosamente hostil. Aí vem um amigo e finalmente revela:
_ Não queria te dizer antes, mas ela é uma ex-belieber.
Eis! Eis! Por que ninguém contou isso antes? É assim, quem mais tem interesse é sempre o último a saber.
-x-x-x-x-
A CÍTARA
A música acalma os loucos e as feras. Mesmo. Meu xará de 30 séculos atrás, o rei David, antes de ser rei, quando menino, 17 anos de idade, ele servia ao primeiro rei de Israel, Saul. Este Saul, no começo ele era um monarca justo, mas aos poucos foi ficando neurótico, como sói acontecer com monarcas. Era tomado por acessos de fúria que só se aplacavam quando ouvia a suave melodia da cítara. Bem. David era exímio tocador de cítara, e foi convocado para acalmar o rei. E conseguia, até que se meteu a matar filisteus. Então, as mulheres, nas ruas da cidade, cantavam: “Saul matou mil, mas David matou dez mil!” Assim como a música da cítara acalmava o rei, a musiquinha das ruas o irritava. Por duas vezes, Saul atirou uma lança contra David, quando David tocava para ele. David esquivou-se das lanças, acabou fugindo, rebelando-se e tornando-se ele próprio rei.
Esse foi o caso louco.
-x-x-x-x-
O VIOLINO
Agora as feras.
Na cidade em que morava Schopenhauer quando menino havia um armazém que, à noite, era guardado por cães ferocíssimos. Um dia, um violinista bêbado fez uma aposta em um bar e, para pagá-la, pulou o muro do armazém e o invadiu, trocando pernas. Em um segundo, viu-se cercado pelos monstros, que rosnavam com os dentes afiados à mostra, prontos para dilacerá-lo até que virasse guisado. O que fez o violinista bêbado? Teve presença de espírito para sacar de seu instrumento e tocar. Tocou, tocou, tocou, até que os cachorros se aninharam a seus pés, mansinhos como hamsters.
Sabia tocar pra cachorro, aquele rapaz.

Diversão, sim

01 de fevereiro de 2014 2

As pessoas buscam diversão para esquecer da vida. Está na origem da palavra _ divertir é desviar. Você desvia sua atenção e seus pensamentos da realidade pedregosa e se concentra num jogo, numa brincadeira, num conto, em algo que se parece com a vida, mas não é.

Daí, manobra diversionista, arte na qual as mulheres são peritas. Elas dão a impressão de querer uma coisa, quando na verdade querem outra. E nós homens, sempre tão diretos, sempre tão inocentes, nós, frente a todo aquele arsenal de ardis, nós somos iludidos, nós sofremos. Pobres de nós.
Para esquecer todas essas vicissitudes, só mesmo com muita diversão. Diversão, sim, é solução pra mim.

******

A 87ª DP

Well, como diria o Paulo Francis. Provavelmente em nenhuma outra cidade do mundo você poderá esquecer-se dos pântanos da existência como em Nova York. Cada metro da Big Apple foi feito para as delícias da vida mundana. Você caminha e se diverte. Nova York é uma cidade leve. Ou, pelo menos, tornou-se uma cidade leve, bem diferente daquela de antes dos anos 80, antes da tolerância zero de Rudolph Giuliani, a cidade soturna dos Embalos de Sábado à Noite de John Travolta e de todos os Desejo de Matar de Charles Bronson.

Aquela antiga NYC era a cidade retratada por Ed McBain nos romances da 87ª Delegacia, onde rebrilhava o detetive Steve Carella. Sou um leitor de Ed McBain, li todos os seus livros publicados no Brasil, inclusive os assinados com seu outro nome, Evan Hunter. O Carlos Gerbase, que também é fã do McBain, conta que uma vez foi procurar livros dele nos sebos de Porto Alegre e, onde chegava, lhe diziam:

_ O David já levou todos.

Lamento, Gerbas. Seja mais rápido da próxima vez.
McBain nunca disse que a cidade da 87ª DP era NYC. Ele só diz “nesta cidade”. Mas depreende-se. Nova York é um personagem dos romances, junto com Carella, só que é uma Nova York sombria, encardida, perigosa, selvagem. A Nova York de hoje, só não diria que se trata de uma cidade suave porque nenhuma metrópole deste tamanho é suave. Como todas as megalópoles, Nova York tem seus perigos, suas mazelas e seus engodos. Mas é uma cidade alegre, sem dúvida. Uma cidade que se diverte.

******

Álcool e virgens

Diversão.

Esquecimento.

Não é por outra razão que todas as civilizações humanas consumiram drogas e álcool. Para se divertir. Para esquecer.

Nos países muçulmanos, ninguém bebe. O álcool é proibido, e seus consumidores duramente punidos. Mas o que oferece o sétimo céu do Islã? Setenta e duas huris, mulheres virgens e carinhosas, e vinho à vontade, sem o desconforto da ressaca.

Alguns homens-bomba se explodem para poder beber. Para poder esquecer.

******

Bar no gelo

O bar é um lugar de esquecimento. Nos Estados Unidos, o lugar para beber e esquecer é o bar. Na rua, ninguém pode beber. Então, há todos os tipos de bares por aqui, para todos os tipos de preferências.
Algumas incompreensíveis.

Por exemplo, o Ice Bar, muito frequentado. É um bar em que o sujeito fica cercado de gelo. A temperatura interna é de cinco graus abaixo de zero, você precisa vestir um macacão térmico para ir lá esquecer-se da vida. Não consigo entender como alguém pode gostar disso. Além do mais, a temperatura em Nova York, por esses dias, era de 10 abaixo de zero.

Por que alguém sai da rua e vai para um bar desses? Para se aquecer?

Em compensação, em Boston fui a um bar interessantíssimo. Liberty. Fica num hotel. Mas não é um bar comum de hotel, não: toda a parte central do hotel é o bar. Imagine o Museu Guggenheim ou o Iberê Camargo, ou um shopping circular. O centro desses prédios é como um jardim de inverno, não é? Pois o Liberty é assim. Os quartos do hotel se situam do centro para trás, em direção à rua. No centro, há o bar. Um bar gigantesco, de cinco andares, o som rolando, as pessoas bebendo nos sofás, nas mesinhas ou de pé mesmo.

Fazia um frio de 13 abaixo de zero, quando fui a esse bar. Mas, acredite, as meninas chegavam fardadas de minissaia e blusinhas sumárias. Deixavam os casacões na chapelaria e enfrentavam o frio com denodo de partisans russos enfrentando o exército alemão na Operação Barbarossa. Por quê? Porque tornar-se inesquecíveis. E aí, com uma mulher dessas, para que esquecer-se da vida? A vida bem pode ser preenchida por uma mulher inesquecível.