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Bastidores da imprensa na Copa - parte 5

16 de novembro de 2010 4

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 5:


O Cosmão jurava que, se estivesse em meu lugar, iria ao prédio dela, bateria à porta do seu apartamento e lhe diria algo que a convencesse a fazer aquele show entre quatro paredes, só os dois, atrás das janelas fechadas. Não duvido que tivesse sucesso.

Na África, porém, o Cosmão não encontrou tempo para aventuras alcoólicas ou amorosas. Agora ele estava trabalhando para o seu próprio blog. Tinha muitas dificuldades para se deslocar em Joannesburgo e quase nenhum tempo livre para confraternizações. A maior façanha do Cosmão na África foi profissional. Foi ele quem arrancou de Dunga uma rara manifestação de contrição feita em Durban, depois da partida contra Portugal.

Cosme Rímoli estava sentado bem na frente, na primeira fileira de poltronas da sala de entrevistas do elegante estádio de Durban. O Brasil havia empatado em zero a zero com Portugal, mas o clima era favorável a Dunga, a Seleção se classificara em primeiro lugar no seu grupo. Cosme perguntou o que o mundo queria perguntar: por que Dunga havia se comportado como se comportou na sua última entrevista coletiva. Referia-se, Cosme, àquela que provavelmente foi a mais espetacular entrevista coletiva concedida por um técnico da Seleção Brasileira em todos os tempos. Ocorreu depois da vitória relativamente fácil sobre a Costa do Marfim. Eu estava sentado ao lado do Prosperi, no meio da sala de imprensa, que nem estava lotada. Não havia grande expectativa para a entrevista. Logo depois da primeira pergunta, Dunga olhou para cima, apontou para o repórter Alex Escobar, da Rede Globo, e perguntou se havia algum problema. Escobar respondeu que não e Dunga sussurrou algo. Prosperi olhou para mim:

_ Ele disse “merda”?

Pisquei:

_ Será que disse?

_ Eu ouvi “merda”.

_ Não pode ser…

Era.

Depois do primeiro xingamento, Dunga passou a aproveitar o tempo em que algum jornalista formulava uma pergunta para resmungar palavrões. Recitava-os com um sorriso cínico, olhando para cima, presumivelmente na direção de Escobar. O incidente foi muito maior do que o que apareceu na TV ou no Youtube. Os murmúrios de Dunga prosseguiram durante TODA a coletiva. Quando a entrevista terminou, ele se levantou ainda sorrindo debochadamente e ainda sussurrando palavrões. Ao descer da bancada, encontrou João Ramalho, diretor da Globo, e o espinafrou:

_ Tem que ser homem para dizer na cara!

Foi algo tão inusitado, tão esdrúxulo, tão inesperado, tão inverossímil, que eu e o Prosperi mal acreditávamos no que estávamos testemunhando.

_ Ele fez isso mesmo? _ nos perguntávamos. _ Você viu o que vi?

Era verdade. Depois da entrevista, procurei Escobar e perguntei por que Dunga fizera aquilo.

_ Eu não sei! _ jurou Escobar. _ Não sei! Não fiz nada a ele, não tenho nada com ele!

Foi sobre isso que o Cosmão perguntou na entrevista coletiva seguinte, em Durban. Dunga, então, admitiu estar errado e pediu desculpas. Mas não pediu desculpas a quem ofendeu, pediu desculpas a uma entidade impalpável, etérea e difusa, o “torcedor brasileiro”.

Não sei se o torcedor brasileiro o desculpou. O fato é que, depois daquele episódio, Dunga tentou claramente mudar seu comportamento. Acalmou-se, procurou ser mais cordial. A Seleção, porém, não foi muito mais adiante. Quando levou o gol da Holanda, nas quartas-de-final, o time se desestruturou.

Talvez tenha se abalado tanto com o gol porque foi protegida em demasia durante toda a Copa, porque não sentiu a tal pressão benéfica de que falava Luiz Felipe Scolari em 2002.

Talvez a Seleção tenha sido tímida demais, como eu fui em relação à vizinha nua. Porque, uma noite, olhei para o prédio ao lado e vi a janela do apartamento dela fechada. Na noite seguinte continuava fechada. E na outra também. A vizinha nua havia se mudado sem que eu tivesse me arriscado a ir falar com ela. Não corri riscos, a Seleção não correu riscos. Fomos, ambos, derrotados.


Bastidores da imprensa na Copa - parte 4

15 de novembro de 2010 4

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 4:


Conheci o Cosme Rímoli quando ele trabalhava no Jornal da Tarde, de São Paulo. O JT enviava equipes tão numerosas quanto competentes para as coberturas da Seleção. Normalmente iam o Cosme, o Luiz Antônio Prosperi, o Luis Augusto Simon, o Sidnei Mazzoni, entre outros.

Um deles era casado e morava numa cidade próxima a São Paulo. Valendo-se de seu charme maduro e sua conversa envolvente, esse nosso amigo desenvolveu um caso com a jovem e formosa assistente do seu dentista. Tudo ia muito bem até que, a folhas tantas, a legítima esposa ligou-lhe no meio da tarde:

_ Estou me sentindo mal, preciso falar contigo!

_ Mas o que aconteceu??? _ assustou-se o nosso herói.

_ Um mal-estar. Me encontra naquela padaria em que sempre vamos tomar lanche.

Ele foi, sem saber que ia para uma cilada.

Chegando à padaria, encontrou a mulher já sentada a uma mesa.

_ O que foi, querida? _ perguntou, aflito, pespegando-lhe uma bicotinha e sentando-se de costas para a porta.

_ Nada, nada, já estou bem. Só queria te apresentar uma pessoa.

Ela fez um gesto com a cabeça, indicando um vulto parado de pé, a poucos metros de distância. Nosso amigo girou a cabeça e jogou o olhar sobre o ombro. Você já adivinhou: a assistente do dentista estava lá, mãos na cintura, olhando para ele. Que reagiu da seguinte forma: sem vacilar um único décimo de segundo, levantou-se e… saiu correndo! Fugiu, pusilânime mas sensato, rua acima, sem nem olhar para trás, por quilômetros e quilômetros, até a segurança do anonimato.

Mas quero deixar claro que não foi o Cosmão o protagonista dessa aventura. O Cosmão foi de outra, ocorrida na Copa da Alemanha. Estávamos ainda na fase preparatória, na bela Weggis, na Suíça. Chamar um lugar suíço de belo é redundante. Não existe nada que não seja bonito na Suíça. Até as latas de lixo, a gente olha para elas e suspira, aaah, o lindo lixo suíço…

Mas Weggis é especial. Mark Twain dizia que é o lugar mais lindo do mundo. Talvez seja. Casinhas coloridas parecendo casinhas de boneca espalhando-se pelo sopé dos Alpes, ao longe os picos eternamente nevados das montanhas, vacas pastando nos montes verdejantes e, embaixo, o Lago Lucerna esparramando-se como um espelho azulado. A cidade é tão plácida que os patos andam rebolando pelo Centro, tão civilizada que esses mesmos patos só atravessam a rua na faixa de segurança.

Claro, isso impressiona no primeiro dia. Você abre a janela do quarto, respira o fresco ar alpino e se delicia:

_ Ah, as vaquinhas pastando solenes nos montes… Ah, os picos eternamente nevados dos Alpes… Ah, os patos atravessando na faixa de segurança… Ah, as casas que parecem casinhas de boneca…

À noite, a cidade dorme ás 22h. Você acorda no dia seguinte, abre a janela e:

_ Ah, as vaquinhas pastando solenes nos montes, Ah, os picos eternamente nevados dos Alpes… Ah, os patos atravessando na faixa de segurança… Ah, as casas que parecem casinhas de boneca…

Mais um dia se vai, exatamente igual ao anterior, e na terceira manhã você abre a janela e:

_ Ah, as vaquinhas pastando, os picos nevados, os patos atravessando na faixa, as casinhas de boneca…

No quarto dia:

_ Vacas, patos, picos, casas…

No quinto:

_ Vaca! Pato! Pico! Casa!

No sexto:

_ Maldidas vacas, quero matar um pato atropelado, que se derretam essas miseráveis neves eternas, que peguem fogo as casinhas de boneca!

Chega um momento em que mesmo a beleza aborrece, se nada acontece (rimou!).

Nada acontecia em Weggis. Essa história de “A farra de Weggis”, que Dunga tanto usou para justificar o fechamento da Seleção na África, essa história é, no mínimo, um exagero. A imprensa não tinha acesso ao hotel da Seleção, exceto durante as entrevistas previamente marcadas ou as janelas com os jogadores. O que houve foi a torcida assistindo aos treinos e festejando os jogadores. O que houve foi Ronaldo Nazário apresentar-se pesando 104 quilos. Isso foi a “Farra de Weggis”.

A cidade era tão calma que, num sábado, fomos para Lucerna, conferir se havia algum movimento na noite suíça. O Cosme ia dirigindo o carro que o jornal havia alugado. Bebemos um pouco, confesso. Mas o Cosme é um motorista cuidadoso. Na volta, tomou todas as precauções para evitar acidentes. Mesmo assim, erramos a entrada de Weggis, ingressamos numa rua na contramão. Eram umas quatro horas da madrugada, não havia ninguém as ruas, nada, nada, só o silêncio do lago, mas bastou que entrássemos na contramão para que a luz de um holofote nos iluminasse como o sol e uma sirene soasse:

“UÓÓÓÓÓÓ!”

Um carro de polícia apareceu de algum lugar. Mas onde é que estava aqueles caras? Os policiais mandaram que o Cosme saísse da direção e, examinando o seu estado, apresentaram-lhe um bafômetro. Mandaram que soprasse. Putz! Ser pego dirigindo embriagado na Suíça… No mínimo ia nos render a expulsão do país, senão cadeia. Era o fim da Copa para nós. Talvez o fim dos nossos empregos. O fim de tudo!

O Cosme fazia que soprava, mas não soprava. A policial suíça ordenava:

_ Sopra direito!

Ele simulando. Ela:

_ Sopra!

Então o Cosme começou com aquela conversa que está acostumado a aplicar nas meninas da pauliceia: ele era um jornalista brasileiro, estava ali a trabalho, gostara tanto da Suíça… tudo na Suíça era belo, os lugares belos, as casas belas, as mulheres belas…

A policial o encarou:

_ Está bem. Desta vez passa. Só desta vez!

No dia seguinte, ao abrirmos as janelas de nossos quartos, Weggis parecia tão linda quanto no primeiro dia que chegamos lá. Ah, os montes, os patos, as vacas…

Pois o Cosmão, como um admirador do sexo oposto, gostou de ouvir a história da minha vizinha nua. Aquele primeiro strip foi, bem, o primeiro. Na noite posterior, no mesmo horário, lá estava ela, dançando diante do espelho. E eu da minha janela, assistindo e sorrindo. Na noite seguinte, a mesma coisa. E na outra. E na outra. Acostumei-me com o aquilo. Tornou-se um evento previsível como abrir a janela todas as manhãs para as belezas de Weggis. Empurrei um sofá para perto da janela e já deixava preparados drinques e acepipes para a hora da apresentação. De vez em quando convidava um amigo para ir até minha casa. Na hora do show, avisava:

_ Olha ali pela janela. A minha vizinha vai tirar a roupa.

O amigo ficava assistindo, embasbacado, enquanto eu via o Jornal Nacional.


Bastidores da imprensa na Copa – parte 3

14 de novembro de 2010 1

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 3:


Um dos colegas jornalistas que ouvia divertido essa minha história em 2006 era o Mauro Leão. Você precisa conhecer o Mauro Leão. Ele é magro e alto, uns dois metros de altura. Assina uma coluna em O Dia, participa de um programa de rádio, é torcedor do Botafogo e um carioca impiedoso com os paulistas. Na Copa de 2002, o laptop do Mauro Leão pifou no primeiro dia de cobertura e pifado ficou até o fim. O Mauro tinha de transmitir o material de internet shops que encontrava pelo caminho. Parado de pé na pista atlética do estádio de treinos do Barcelona, 9h da manhã em que se iniciavam os treinos do Brasil, ele suspirou:

_ Agora só faltam 58 dias…

A sede do Brasil durante a Copa foi Ulsan, na Coreia do Sul. Uma cidade industrial, dura e cinzenta como todas as cidades industriais. Um lugar para se trabalhar, não para se divertir.

_ Isso aqui é São Paulo! _ gritava o Mauro Leão. _ Isso aqui é pior do que enterro de pobre em dia de chuva!

Mas em Ulsan pelo menos havia o bordel das prostitutas virgens. Uma boate chamada Seven, penumbrosa, com mesinhas redondas encostadas nos cantos e uma pequena pista de dança no centro. As mulheres mais lindas de Ulsan militavam lá. E não eram coreanas, eram jovens russas e ucranianas de pele branca e sorriso luminoso. Usavam minissaias curtas como um drible de Robinho e decotes profundos como a filosofia de Spinoza. Aceitavam todos os convites dos frequentadores para sentar em suas mesas. Sentavam-se, pediam drinques, conversavam em mau inglês, dançavam ao som de Elton John, volta e meia trocavam carícias e beijos. E nada mais. Sexo, nem pensar. Uma estrangeira que pratica sexo a soldo é expulsa sem dó da Coreia. Ou seja: a boate parecia um bordel, elas se vestiam e agiam como prostitutas, mas o sexo era proibido. Por isso o Seven tornou-se conhecido entre os brasileiros como “O Bordel das Prostitutas Virgens”.

Acreditaríamos que a pureza das meninas do leste europeu prosseguiria intocada se não fosse por uma cena com a qual nos deparamos certa manhã: ao entrarmos no hotel da Seleção, esbarramos com elas, as russas, SAINDO do saguão.

_ O que é isso??? _ perguntamos.

Elas nos informaram que haviam sido convidadas para conhecer os jogadores da Seleção. Conheceram.

E conheceram.

E conheceram.

Uma delas, uma loira de Kiev, disse que foi conhecida seis vezes durante a noite.

A Copa de muitos jornalistas brasileiros perdeu o brilho naquela manhã.

E Joannesburgo nem isso, nem um bordel de prostitutas virgens havia para distrair o enfarado Mauro Leão, que passava os dias a lamentar:

_ Isso aqui é pior do que São Paulo, pior que Ulsan…

Mauro Leão ficou hospedado em um hotel onde só moravam nigerianos. Jogo duro. Os nigerianos angariaram péssima fama na África do Sul. São eles os chefes das principais quadrilhas de tráfico de drogas. Podem ser vistos pelo centro da cidade usando grandes chapéus, brincos, correntes e colares, calçando sapatos de couro de crocodilo, fumando com displicência. Os nigerianos falam um inglês de revés. “Brother” eles falam de língua mole:

_ Bura…

Se porventura você estiver em Joannesburgo e um nigeriano o chamar assim:

_ Eh bura, come here!

Saia correndo. As intenções do nigeriano são as piores possíveis.

Os nigerianos, aliás, são conhecidos pelos demais africanos como homens superdotados no quesito órgão reprodutor masculino. Imagine, se os africanos se assustam com os nigerianos…

_ Eh bura…

Corra!

Pois os nigerianos do hotel do Mauro Leão passavam o dia fora dos quartos, fumando e conversando indolentemente nos corredores, as costas apoiadas nas paredes finas. O Mauro saía para trabalhar e eles ficavam olhando para ele, especulando. Momentos de tensão passou o Mauro Leão nessa Copa da África. Mas ele os enfrentava com o bom humor dos cariocas. As restrições de Dunga ao trabalho da imprensa o irritavam mais. No jogo da estréia, contra a Coreia do Norte, Dunga vestia um sobretudo com botões do tamanho de um pires de cafezinho. O Mauro dizia que era o casaco do porteiro do seu hotel.

Uma das vítimas preferidas do Mauro em todas as coberturas é o paulista Cosme Rímoli, o “Cosmão”. O Cosme estava junto quando eu contava sobre o striptease da vizinha morena. Ela continuava dançando e tirando a roupa devagar. Levou as mãos às costas e num movimento ágil desfez-se do sutiã. Atirou-o longe, como se dissesse que não precisava dele. Dois seios tenros porém sólidos, blop, saltaram para a liberdade. Agarrei-me à base da janela. A essa altura, havia-me posto de joelhos para observar melhor o show. Ela levou dois ganchos feitos por seus indicadores e polegares até as alças da calcinha. Era uma calcinha pequena. Realmente pequena. Aí foi descendo-a, descendo-a, descendo-a, até que a fez escorregar tornozelo abaixo, primeiro um pé, depois outro e, PRESTO!, também a calcinha se foi para o limbo das calcinhas. Minha vizinha seguiu dançando nua e deliciosa e eu segui acompanhando-a lá de cima, com lágrimas nos olhos. Terminada a apresentação, ou a música, sei lá, ela foi até a janela, fechou-a e não a abriu mais até o dia seguinte.

No dia seguinte…

Lembro de ter feito essa pausa: “No dia seguinte…” Com essas reticências. Para criar expectativa, entende? O Cosmão, homem dedicado ao sexo oposto, talvez fosse o mais angustiado com o desfecho.



Bastidores da imprensa na Copa – parte 2

14 de novembro de 2010 0

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o Capítulo 2:


A Seleção era aberta, portanto. Por isso, o Rangel vezes sem conta amargou o plantão da madrugada no saguão do hotel. Por isso, já na fase preparatória ele se sentia exausto. Chegamos a Kuala Lumpur, na Malásia, e, numa tarde de sábado, resolvemos rodar pela cidade. Havia massagistas profissionais fazendo o seu trabalho em cadeirinhas na rua. O Rangel olhou para um e pensou: “Acho que uma massagem iria me desestressar”. Sentou-se na cadeirinha e o malaio o informou que aquela era uma massagem exclusiva para os pés. Tudo bem, o Rangel tirou os sapatos. O malaio começou a apertar-lhe as solas dos pés. E o Rangel a gemer:

_ Uuuuuuh… Ahhhhhhh…

O cara apertava mais. E o Rangel gemia mais:

_ Uuuuuuuuuuuuuuuuhhh… Aaaaaaaaaaaaahhh…

O Rangel jogava a cabeça para trás, os olhos fechados, e se segurava com força nos braços da cadeira. O massagista aumentou a pressão. Os olhos do Rangel quase saltaram das órbitas. Ele se retesou e ganiu:

_ Uiuiuiuiuiuiuiuuuuuuuu…. Auauauauauauauauuuuuu…

Os transeuntes pararam para ver. Olhavam divertidos para o ocidental sendo massageado. O massagista investia mais fortemente nos pés do Rangel e agora ele urrava de dor:

_ AAAAAAAAAAAHHH! AAAAAAAAAAHHH!

Em alguns minutos, o Rangel tornou-se a principal atração do lugar. Ele berrava e os malaios gargalhavam. O massagista ria também, via-se que estava gostando da coisa.

_ Ai, meu Deus! _ gritava o Rangel. _ Aiaiaiaiai! AI, MEU DEUS!

Terminada a sessão de bom humor e gargalhadas, os malaios se foram, sempre rindo, o Rangel pagou 300 Ringgits ao homem e voltou para o hotel levitando. Dormiu as seis melhores horas da sua vida e acordou-se pronto para uma dúzia de plantões.

Bem. Na Copa de 2010, o Rangel não precisava fazer plantões, mas gostaria de encontrar um massagista malaio nas ruas de Joannesburgo. Porque, na África, ele também sofreu. Joannesburgo é uma cidade alta, encarapita-se a 1.800 metros acima do nível do mar. Logo, é fria. Na época da Copa, píncaros do inverno sul-africano, mais fria ainda. Para arrematar, o clima é seco como o de Brasília. Eram normais os dias em que a umidade relativa do ar oscilava entre 18 e 20%. Muitos jornalistas estrangeiros sofreram com problemas respiratórios, os narizes sangravam, o ar passava rascando nas gargantas. Some-se a isso a política adotada na Seleção em relação à imprensa. Dunga não se espelhou na Seleção vitoriosa de 2002, mas na derrotada de 2006. Concluiu que o fracasso na Alemanha fora ocasionado pela exposição excessiva a que haviam sido submetidos os jogadores e, assim, decidiu literalmente confiná-los. Os jogadores não tinham direito a folgas, ficaram afastados dos torcedores e foram proibidos de conceder entrevistas exclusivas. Os treinos eram fechados. A imprensa permanecia do lado de fora.

Foi durante algumas dessas longas jornadas ao ar livre que o Rangel contraiu uma feroz gripe africana.

No meio da Copa também fui vitimado por essa gripe. Derrubou-me miseravelmente. Um dos sintomas é uma tontura que continuou me enjoando de forma intermitente até 30 dias depois de ter ficado bom da gripe.

O Rangel passou tão mal que teve de ser internado em um hospital de Joannesburgo. Os hospitais públicos de lá são piores do que os brasileiros. Africanos infectados pelo vírus da AIDS agonizam pelos corredores, esquálidos, rostos encovados, tipo Cazuza em estado terminal nos anos 80. Já os hospitais privados são ótimos. O Rangel foi para um desses. Atenderam-no num zás, a enfermeira meteu o cano de uma espécie de pistola no ouvido dele, apertou o gatilho e, clic, tirou-lhe a temperatura. Depois, aplicou-lhe uma injeção informando que aquilo lhe repararia as forças. O Rangel nunca descobriu que tipo de tônico havia no embolo da injeção, mas no dia seguinte sentia-se tão bem que podia disputar posição com Lúcio na zaga da Seleção. Mesmo assim, até o fim da Copa ele foi visto sob uma touca de lã, envolto em uma grossa manta e debaixo de camadas de camisetas, camisas, blusões, casacos, tudo o que pudesse protegê-lo do surpreendente frio africano.

Não conseguimos, nesta Copa, partilhar jantares ou almoços, como nas anteriores. Porque a entrada no hotel da Seleção era proibida, sim, mas também pelas características de Joannesburgo, uma cidade do porte do Rio de Janeiro, com cinco milhões de habitantes, mas muito espalhada. De uma ponta a outra, Joannesburgo se estende por 100 quilômetros, e o centro da cidade, propriamente dito, não é recomendável para passeios. Você pode rodar de carro por uma hora inteira pelo centro de Joannesburgo sem ver um único homem branco. Alguém talvez argumente que isso é natural, uma vez que se está na África, o “continente negro”. O problema é que um branco, no centro de Joannesburgo, não é apenas uma figura exótica: é um alvo.

Joannesburgo é uma cidade perigosa. São registrados 55 mil estupros por ano, na África do Sul, grande parte deles em Joannesburgo. Não raro, um grupo de seis ou sete negros sequestra uma mulher no fim de semana. Durante dois ou três dias, ela é usada por todos, várias vezes. Encerrada a diversão, eles a matam. Ou a liberam infectada pelo vírus HIV, o que é quase a mesma coisa, tratando-se de África.

Antes da Copa, um empresário brasileiro foi atraído à África do Sul por promessas de negócios. Foi sequestrado e torturado, antes da polícia encontrá-lo traumatizado e com os pés queimados por ferro de passar roupa. Sequestros relâmpagos, roubos, assassinatos, tudo o que há no Brasil em termos de crime e contravenção há na África do Sul, em especial em Joannesburgo. A cidade vive um Apartheid às avessas. Agora, são os brancos que não podem sair às ruas. Eles se homiziam em casas cercadas por muros de cinco metros de altura, encimados por cercas eletrificadas. Os brancos não se arriscam em lugares abertos nem nos bairros mais sofisticados. São vistos apenas nos shoppings, em especial no complexo do Nelson Mandela Square, um conjunto de hotéis de luxo, bares, restaurantes e lojas situado numa das regiões elegantes da cidade.

Os brasileiros, da mesma forma, eram aconselhados a não se aventurar pela cidade. Para piorar a situação, o transporte público praticamente não existe em Joannesburgo. Táxis e ônibus são raros. A população é precariamente atendida por um serviço de vans semelhante aos clandestinos de Rio e São Paulo.

Os brasileiros tinham de se deslocar em carros alugados, em geral dirigidos por motoristas nativos, que conheciam a cidade. Quer dizer: nossos encontros eram escassos. Como podia alguém contar histórias como a da vizinha nua? Que, aliás, não estava nua da primeira vez que a vi. Calçava sapatos de salto alto, vestia um vestidinho leve, curto, angustiante. Era morena, de pernas longas e corpo sinuoso. E, o melhor, dançava em frente a um grande espelho. Dançava com as penas abertas, fincadas bem firmes no parquê. Flexionava os joelhos e se acariciava. Erguia o vestido com as mãos delgadas e ondulava feito uma serpente de carne tenra e rija e, tenho certeza, macia como a primavera. Olhei para aquilo e pensei que o meu dia de sorte havia chegado. Lancei rapidamente o olhar para o alto e fiz uma pequena prece de agradecimento ao Senhor. Então, como em resposta à oração, a morena levou as mãos à barra do vestido e, num movimento de enguia, puxou-o corpo acima. Ficou só de calcinha e sutiã! Dei um salto a fim de apagar a luz do quarto para de que ela não me visse. No movimento, derrubei a taça de vinho. O tinto derramou-se na minha mesa de trabalho, mas nem pensei em limpar. Um valor mais alto se alevantava, como dizia Camões.


Bastidores da imprensa na Copa - parte 1

13 de novembro de 2010 6

Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo

A seguir, o capítulo 1:


Eu tinha uma vizinha que dançava nua.

Lembro de contar essa história para a turma na Copa de 2006. Turma, que digo, são os jornalistas que cobrem a Seleção Brasileira. São sempre mais ou menos os mesmos, então ficamos amigos. Viramos turma. Na Copa de 2010 é que a coisa foi um pouco diferente. Houve poucas oportunidades para ouvir ou narrar histórias como aquela que havia contado na Copa anterior, a de que, certa noite, escrevia em meu apartamento, tranquilo, de chinelos, a taça de vinho ao lado do desktop e, de repente, lancei um olhar despretensioso pela janela e deslizei esse olhar pela parede do prédio ao lado e ele foi descendo e descendo e aí, Mandrake!, paralisou-se na janela de um apartamento um andar abaixo do meu.

Ela estava lá.

A vizinha nua.

Nesse ponto da história, meus amigos dos outros jornais já sorriam, boca entreaberta de expectativa. Entre eles o Sérgio Rangel, grande repórter da Folha de S. Paulo no Rio. Quando o qualifico como “grande” não exagero. Um senhor repórter, o Rangel. Vou citar um de seus furos nacionais: terminada a Copa de 2006, o Rangel foi à Espanha, atrás do Ronaldinho, e descobriu que, um dia após a desclassificação do Brasil, ele festejava com amigos em uma boate com muita bebida, muita mulher e pouca roupa. O mundo comentou e repercutiu essa matéria.

Na Copa de 2002, não raro o Rangel varou madrugadas de plantão no hotel da Seleção. A concorrência com o Estadão era feroz, os dois jornais mantinham repórteres dia e noite no saguão do hotel da Seleção, porque volta e meia um jogador descia para tomar um cafezinho no bar, ou espairecer, ou conversar com algum amigo. A Seleção era franqueada à torcida e aos jornalistas. Eu mesmo tomei chimarrão com o técnico Luiz Felipe e fiz exclusivas com vários jogadores, entre eles uma das estrelas, Ronaldinho.

Luiz Felipe dizia que os jogadores precisavam sentir a pressão externa, precisavam saber o que a torcida esperava deles. Assim, o terreno de trabalho era fértil para os jornalistas. Quando eu pedia os números dos telefones celulares dos jogadores, eles não recusavam. Quando ligava, eles atendiam.

Na véspera do jogo de estreia, na Coreia do Sul, o volante Emerson se lesionou brincando de goleiro durante o rachão. O treino acabou e a delegação retornou ao hotel, todos tensos, em expectativa. A lesão parecia séria.

Emerson recolheu-se ao seu quarto. Enquanto isso, o médico José Luís Runco subiu até uma sala no primeiro andar, para onde a imprensa foi chamada. Runco anunciou que, de fato, a contusão era grave e que Emerson estava cortado da Copa. Desci correndo ao saguão, peguei o telefone da recepção e liguei para o quarto do até então capitão da Seleção. Ele atendeu. Identifiquei-me e já fui falando:

_ Como você recebeu a notícia do seu corte?

Emerson permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois balbuciou:

_ Eu fui cortado?

Estremeci. Acabara de dar a Emerson a notícia do seu corte da Copa do Mundo da Ásia.



As maçãs do rosto da morena

14 de julho de 2010 18

Você está lendo um livro. Nada desses caras que estão sempre analisando os próprios sentimentos, como o Philip Roth ou aquele sul-africano chatola, o Coetzee. Não. Pegue um autor que seja homem de verdade, que não fique se remoendo de autocomiseração. O James Ellroy, seco como o ar de Joburg. O Velho Buk. O jogador de sinuca João Antônio. Um desses. Em meio à trama, o que é que você encontra?

Uma frase bem torneada.

Note: ele não é um estiloso, não é um experimentalista, nem fica se masturbando mentalmente com seus fracassos sentimentais. Mas ele torneia uma frase. Sim, senhor.

Bom. Mas se você não quiser se ocupar de frases de trivela, pense nas maçãs do rosto da Renata Vasconcellos, aquela apresentadora que vez em quando reluz ao lado do William no JN. É um prazer sutil apreciar as maçãs do rosto da Renata Vasconcellos. No próximo Jornal Nacional, abra um tinto, refestele-se na poltrona e sorva cada momento, mesmo que ela esteja chamando uma matéria sobre o Piscinão de Ramos.

Você entende o que digo? É preciso alguma reflexão para ver como são belas as maçãs do rosto da Renata Vasconcellos, ou as delicadas curvas dos braços de certas mulheres, ou a maneira como um autor encaixa um verbo numa frase.


Mais: às vezes, a beleza tem 300 metros de altura e nem assim consegue-se enxergá-la, se não há reflexão. A prova está trançada em aço eterno: a Torre Eiffel. Quando o engenheiro Gustave Eiffel a ergueu para comemorar o centenário da Revolução Francesa, em 1889, os franceses mais ilustres a repeliram. Escritores como Guy de Maupassant, Émile Zola e Alexandre Dumas Filho a chamavam de monstruosa, escreveram teses luminosas para pô-la abaixo. Não conseguiram. Derrotado, Guy de Maupassant almoçava todos os dias em um restaurante da torre. Perguntaram-lhe por que fazia isso, se a odiava tanto. Maupassant suspirou:

– É porque este é o único lugar de Paris de onde não posso vê-la.

Gustave Eiffel não se abalava. Repetia:

– A torre revelará sua própria beleza.

Revelou. As pessoas aprenderam a olhá-la e ver nela muito da beleza de Paris.

Assim é o futebol da Espanha. Não é um futebol agudo, de linha de fundo, de bolor de grande área, de investida vertiginosa. Nada disso. É um futebol de intermediária. Um futebol sutil. A beleza do futebol espanhol não é o lançamento de 60 metros de um Roberto Rivellino; é o passe macio de Xavi, quatro ou cinco metros de bola precisa arrastando-se na grama feito uma naja nas areias do Saara.

Xavi.

Eis o nome da Espanha. Mais do que o goleiro romântico Casillas, mais do que o toureiro David Villa, mais do que o chutador Iniesta, Xavi é o homem. E nem é um grande homem. Mede metro e setenta, um Romário, não mais do que isso.

Xavi.

Seu futebol amadureceu. Aos 30 anos de idade, adquiriu a sabedoria dos pensadores, dos homens que conhecem o jogo, que dizem aos outros o que fazer.

Foi assim, com a beleza suave das maçãs do rosto de uma morena, ou da curva de braço de uma loira, ou de uma frase bem assestada, mas também com a imponência de uma torre de aço, foi assim que a Espanha se tornou uma campeã exemplar, dona de um futebol plástico e precioso. Mas que demanda certa reflexão para ser bem apreciado. E a reflexão histórica haverá de mostrar: são raros os campeões tão virtuosos quanto a Espanha.

A seleção da Copa

13 de julho de 2010 42

Como todos os jornalistas que estavam na África, escalei minha seleção da Copa. A seguinte:


Goleiro – Casillas. Ao contrário do que se suspeitou na estreia da Fúria, não se distraiu com a presença da graciosa namorada fazendo graciosas matérias de TV a cinco metros das traves. Garantiu a vitória da Espanha na final.

Lateral-direito – Sergio Ramos. Além de saber marcar e apoiar, usa seu metro e oitenta e três de altura para cabecear na área inimiga.

Zagueiro-central – Per Mertesacker.
Com um zagueiro desses, a Alemanha sempre será candidata a qualquer título. É um gigante, faltam-lhe dois centímetros para se alçar a dois metros de altura. Mas, ainda assim, é ágil. E jovem: na próxima Copa terá 30 anos de idade. Cuidado com a Alemanha.

Quarto-zagueiro – Lugano.
Se estivesse na semifinal contra a Holanda talvez a história da Copa fosse outra. Sua liderança ajudou a levar o Uruguai adiante.

Lateral-esquerdo – Fábio Coentrão.
Embora não seja lateral de origem, adaptou-se bem na posição. Era a saída de jogo de Portugal.

Volante – Schweinsteiger. Outro líder alemão que, em 2014, terá apenas 30 anos. Sabe marcar, sabe jogar e, mais importante, compreende o jogo. Cuidado com a Alemanha!!!


Armador – Xavi. Seria o primeiro cara que eu contrataria para o meu time. Em torno dele, e por causa dele, uma equipe se organiza. É o melhor do mundo.

Armador – Iniesta. Ele e Xavi são como arroz & feijão, queijo & goiabada, Romeu & Julieta. Completam-se. E tornam um time quase invencível.

Meia – Thomas Müller. É um meia raro, que joga, que não deixa o volante inimigo jogar e que ainda faz gol. E tem só 20 anos de idade. CUIDADO COM A ALEMANHA!!!!!

Atacante – Robben.
É um ponteiro irresistível, da tradição dos velhos pontas. Joga como o velho Joãozinho do Cruzeiro, só que no lado oposto: deriva da direita para o meio, em uma investida vertiginosa na diagonal. Prepara o chute. Chuta. Sempre com perigo.

Atacante – Forlán. É um atacante meio meia, mas ainda assim atacante, goleador, chutador, um perigo nas imediações da área.


Repare que o meu time não tem centroavante. Trata-se de uma peça rara em todo o planeta. Um bom time adicionado de um grande centroavante é, sempre, um time de chegada. Não foi por acaso que o Brasil do passado foi campeão com Ronaldo e Romário lá na frente. Luís Fabiano, obviamente, não engraxa as botinas esquerdas de Romário e Ronaldo. Mas o Brasil todo era muito fraquinho. Pena.

O campeão que o futebol precisava

12 de julho de 2010 40


O mundo pode se orgulhar do seu campeão. A Espanha que conquistou a Copa da África, ontem à noite, em Joanesburgo, é mais do que um grande time: é um time que faz um desagravo à arte do jogo, é um time que regenera o prazer de se jogar futebol.

A Espanha que bateu a brava Holanda por 1 a 0, nos últimos minutos da prorrogação da final no Soccer City, é uma seleção que grita um basta ao futebol tacanho de quem acha que a vitória a tudo justifica. E, justiça se faça, não foi só a Espanha que deu ao planeta essa demonstração de grandeza. A Holanda também. A Holanda se comportou com a dignidade de uma seleção que pela terceira vez decidia uma Copa do Mundo. É um cintilante vice-campeão.

A Holanda esteve na iminência de levar a taça em vários dos 120 minutos de belo futebol apresentados no Soccer City, sobretudo graças às investidas do seu melhor jogador, o calvo atacante Arjen Robben. Se não houvesse pelo menos três espanhois sempre a cercá-lo, como lanceiros cercando o miúra durante a tourada, Robben irromperia área adentro e faria o gol fatal. Volta e meia, mesmo acossado, ele entrou. Só não marcou porque, debaixo do travessão, estava Casillas, que ontem mostrou que é muito mais do que o namorado de Sara Carbonero: mostrou porque usa no braço a tarja de capitão do campeão do mundo.


A Espanha também tinha o seu Robben: David Villa. Ambos, Robben e Villa, são ponteiros. Robben é um canhoto que joga na ponta-direita; Villa é um destro que joga na ponta-esquerda. Os dois arrancam irrefreáveis em diagonal para tentar o chute. Ontem, Robben fez seu papel. Villa não. Villa foi bem marcado, tanto que vez em quando trocava de lado, ia para o meio, buscava o jogo, quase sempre em vão.

Mas a Espanha não depende apenas de um jogador. A Espanha tem muito mais.

A Espanha tem Xavi.

Talvez, algum dia, Xavi tenha errado um passe, mas é improvável. A bola de Xavi invariavelmente é escorreita, macia, rente à grama, impecável. Para quem viu futebol nos anos 70 e torcia pela Dupla Gre-Nal ou pelo Flamengo, uma comparação: Xavi é uma mistura de Paulo César Carpeggiani e Tadeu Ricci. Como eles, organiza o time, toma a bola, sem que ninguém consiga reavê-la, e a leva para o companheiro melhor colocado. Diz a ele o que fazer. Mostra como se faz.

Ninguém hoje, no mundo, joga como Xavi.

Graças a Xavi e a seu companheiro de meio-campo, Iniesta, a Espanha joga um futebol irresistível, um “toco-y-me-voy” que faria suspirar Maradona, um “taqui-não-tá-mais-aqui” digno do Flamengo de Zico.

Foi assim que a Espanha dominou o jogo e passou a criar situações de gol. Logo aos 4 minutos Sérgio Ramos só não marcou de cabeça porque o goleiro holandês espalmou a Jo’bulani dourada para escanteio. Aos 10 de novo Sérgio Ramos entrou a drible pela direita, chutou cruzado e a zaga tirou com dificuldade, a bola saiu em parafuso pela linha de fundo. Um minuto depois, Xavi cruzou e Villa bateu na rede pelo lado de fora, fazendo estremecer os 84 mil torcedores no Soccer City.

A Holanda, como ocorreu contra o Brasil, suportou a pressão com frieza.
Manteve o seu jogo com De Jong e Sneijder trocando passes no meio campo e com Robben dando estocadas na frente. Confiou na fórmula que, por seis vezes consecutivas, havia funcionado nesta Copa do Mundo. É que, nestas seis vezes, não havia a Espanha do outro lado do campo.

Aos 32 minutos os dois finalistas deram outra lição ao mundo. Um jogador da Espanha havia colocado a bola pela lateral para que um colega fosse atendido pelos médicos. Ao devolver a bola no “fair play”, o zagueiro Heitinga chutou alto demais, a bola quicou na grama e quase encobriu Casillas, que teve de espalmar a escanteio. Casillas olhou feio para o holandês, que ergueu o braço pedindo desculpas. Na cobrança de escanteio, os holandeses, cordiais, devolveram a bola ao goleiro espanhol.

E era uma final de Copa do Mundo.

A toada não mudou no segundo tempo.

A Espanha envolvia a Holanda com o jogo de toque de Xavi e Iniesta.

A Holanda respondia com Robben.

A Espanha se defendia com Casillas.


Mas na prorrogação a superioridade espanhola explodiu. Del Bosque havia colocado Fabregas no time. Era mais um a se juntar a Xavi e a Iniesta na arte de tocar a bola. E mais Navas na ponta. Era mais um a invadir a área holandesa a drible. A Espanha perdeu gols. A um minuto, a cinco, a oito, a 10, a 13. Aos 3 do segundo tempo da prorrogação, Heitinga foi expulso por falta em Iniesta, que recebia um passe perfeito de Xavi e ia marcar. Aos 11 Iniesta fez o gol do título. Casillas chorava na grande área. A rainha Sofia, como um súdito qualquer, vibrava com os punhos fechados na arquibancada. O mundo da bola estava redimido, salvo da feiúra, do materialismo tosco, do pragmatismo grosseiro, da vitória a qualquer custo.

Venceu o futebol.

Uma lição da África do Sul

11 de julho de 2010 6


Os sul-africanos fizeram o melhor que puderam para bem sediar a Copa do Mundo em 2010. Nem sempre foi o suficiente.

Muitos problemas eles não conseguiram solucionar
, sobretudo os que não tinham solução. Três exemplos:

1. Os estádios. Alguns, como o de Durban e o Soccer City, são diamantes da arquitetura contemporânea. O Brasil nunca teve igual e duvido que algum dia tenha parecido. Mas outros, como o de Rustenburg e o próprio Ellis Park, são velhos, obsoletos, pouco confortáveis. Como TODOS os estádios brasileiros.

2. O trânsito.
Uma cidade grande como Joanesburgo é dada a engarrafamentos. Como São Paulo e Rio de Janeiro. A Copa não resolveu o problema lá. Não resolverá aqui.

3. Acomodação.
Certas cidades, como Port Elizabeth, não tinham capacidade para tanto jornalista e tanto turista. No jogo do Brasil, houve jornalistas que tiveram de se hospedar a 200 quilômetros de distância, pela falta absoluta de hotéis. Em algumas cidades brasileiras não será diferente.

Quer dizer: por mais que se trabalhe, o Brasil não se transformará em uma Alemanha em quatro anos. A África do Sul não conseguiu. O que o país conseguiu foi encantar o estrangeiro com o seu povo. Os africanos são naturalmente simpáticos, prestativos, sorridentes e, o mais importante, nada belicosos. Todos estavam desinteressadamente interessados em ajudar. Digo desinteressadamente porque não havia segunda intenção por trás de gentilezas. Eles agiam assim porque SÃO assim.

Essa foi a cara da Copa de 2010. Esse foi o grande marketing da África do Sul. Esse foi o ganho para o país. Porque o país se mostrou sempre amistoso, sempre sorridente, sempre de bem com a vida.

Conseguirá o Brasil fazer igual?
Conseguirá o brasileiro esquecer sua amargura diária e sorrir para um estrangeiro que lhe pede ajuda?

Isso é o mais difícil para o Brasil em 2014. Porque em quatro anos um país pode construir dois ou três estádios novos, pode reformar aeroportos, pode erguer hotéis do chão, pode rasgar estradas no campo. Só que, em quatro anos, um país não muda a educação de seu povo. Que tipo de brasileiro sediará a Copa de 2014? Que imagem o Brasil imprimirá no Exterior? Eis o mais difícil de responder. E de fazer.

A maldição holandesa

08 de julho de 2010 13

Já sabia que seria impossível vencer os holandeses na Cidade do Cabo. Já sabia que, naquele lugar, eles são invencíveis. Pois no Cabo da Boa Esperança os holandeses contam com algo mais poderoso do que futebol escorreito e apoio da torcida.

Contam com a ajuda do Além.

Existe um fantasma holandês que há 300 anos ronda o Cabo da Boa Esperança. É o espírito de Hendrik Van der Decken, chamado de “O Holandês Voador”.


Esse Van der Decken era conhecido por ser um péssimo caráter e um excelente capitão de navio. Em 1680, viajava para traficar com as Índias Orientais e, ao chegar às imediações do local onde terça passada se deu a triste eliminação uruguaia, foi colhido por uma tempestade tropical. Como era um marinheiro orgulhoso de suas habilidades, considerava um insulto não conseguir dobrar o Cabo. Assim, apesar dos pedidos desesperados de seus marujos para que suspendesse a empreitada, ele forçou o navio contra as poderosas rajadas de vento que vinham do sudeste. A tormenta rasgou-lhe as velas e destruiu-lhe o leme, mas Van der Decken, feito um Robben, não desistia. O navio jogava de um lado para outro no mar, sem avançar, mas fazendo crescer a ira do capitão.

Reza a lenda que Lúcifer em pessoa, com seus cascos e chifres, apareceu em sonhos para Van der Decken e, aproveitando-se da fragilidade de sua fúria, sugeriu que ele desafiasse o Todo-Poderoso, que o impedia de dobrar o Cabo. O capitão acordou e considerou a ideia do Coisa-Ruim muito boa. Subiu, furibundo, ao convés e afrontou o Senhor com palavras que foram descritas desta forma por seus marinheiros:
-

Frenético proferiu a terrível imprecação,
E gritou mais alto do que a tempestade:
‘Desafio que o poder de Deus altere
A rota do meu destino e a minha carreira.
Nem o demônio dos infernos me fará temer
Ainda que tenha de navegar
Até o Dia do Juízo Final!’

-
Deus, aparentemente, não gostou de ser desafiado. Enviou um anjo ao Cabo da Boa Esperança e esse funcionário celeste anunciou com voz tonitruante que Van der Decken erraria por aqueles mares “até que a trombeta de Deus atroe os céus”.

Desde então, a trombeta de Deus, ao que se sabe, não tem atroado. Desta forma, restou ao infeliz capitão fazer aparições pelo mar do Cabo com seu navio. Já foi visto por dezenas de banhistas e até pelo rei da Inglaterra, Jorge V. Cientistas colheram os relatos e especularam que as visões são apenas miragens, mas os pormenores contados pelas testemunhas são muito semelhantes entre si, o que intriga os estudiosos.

Richard Wagner escreveu uma ópera contando a história de Van der Decken e a intitulou, justamente, “O Holandês Voador”. Foi o que celebrizou Van der Decken. Mas mesmo antes dele as águas do Cabo já tinham fama de amaldiçoadas. Camões escreveu sobre elas em Os Lusíadas, num tempo em que o lugar era conhecido, com certa razão, como Cabo das Tormentas:

-
“Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
A quem chamais vós outros Tormentório,
Que nunca a Ptolomeu, Pompónio, Estrabo,
Plínio, e quantos passaram, fui notório.
Aqui toda a africana costa acabo
Neste meu nunca visto Promontório,
Que para o Pólo Antarctico se estende,
A quem vossa ousadia tanto ofende.”

-
Cabo maldito, portanto. Cabo em que só os descendentes do Holandês Voador poderiam se dar bem. Que eles, como Van der Decken, vaguem errantes sem conquistar uma única taça até o fim de todas as Copas!

Os homens de cem mil anos de idade

07 de julho de 2010 8

Nos meus últimos dias de África, enfim vi um bosquímano. Foi aqui em Port Elizabeth. Avistei-o perto de um supermercado onde o pessoal fazia compras, suspeitei que fosse quem eu pensava que era. Perguntei a um sul-africano:

- É um bosquímano?

Era. Fiquei observando-o. Os bosquímanos vivem como vivíamos há 100 mil anos. E como, talvez, ainda devêssemos viver.

Entre os bosquímanos não existem guerras. Porque eles não têm pelo que lutar – os bosquímanos não possuem terras, são nômades. Na condição de nômades, precisam se deslocar de um lado para outro com um mínimo de posses. São conhecidos pelos outros povos africanos como “o povo que nada tem” e, como nada têm, de nada necessitam.

Os bosquímanos não são dizimados por epidemias, porque vivem em grupos muito pequenos, de 20 a 50 indivíduos, no máximo.

Os bosquímanos hoje estão quase extintos. São uns 50 mil movimentando-se pelo Deserto do Kalahari, 10% destes na África do Sul.

Os homens branco os chamam de “bushmen”, um termo pejorativo. Bush, em inglês, significa “arbusto”, “moita”. Ou seja: aquele presidente americano não era outro que não o Famoso Moita.

Os bosquímanos são tímidos, amistosos e pequenos, metro e meio de altura. Tempos atrás foi feito um filme sobre um bosquímano, “Os Deuses Devem Estar Loucos”, mas os sul-africanos reclamam que se trata de uma comédia pouco fiel aos hábitos desse povo.

Eles falam com estalidos na língua, como os xhôsas e outros bantos. São adaptados pela evolução para sobreviver no deserto: suas pernas mais compridas do que o corpo e seus pés grandes e largos são feitos para longas caminhadas; suas nádegas volumosas e redondas acumulam gordura para os dias difíceis; sua pele cor terrosa, meio caramelada, os protege do sol; os olhos amendoados, como os dos orientais, os defendem da luminosidade excessiva.

As loiras ocidentais apreciam os africanos pelos seus pênis avantajados. Os pênis dos bosquímanos decepcionariam uma sueca fogosa – são pequenos como o dos japoneses. Porém, estão sempre meio eretos. “Pênis rictus” é como se chama tal fenômeno, ao contrário do depressivo “Pênis pêndulo” dos ocidentais branquicelas.

Os bosquímanos não trabalham. Caçam e coletam, e olhe lá, porque só se ocupam dessas atividades os que estão entre os 20 e os 60 anos de idade. Os demais se divertem. Mesmo assim, a caça e a coleta lhes consome entre 12 e 19 horas por semana, não mais.

Em 1966, uma grande fome se abateu sobre a África, e tribos de agricultores ficaram próximas do extermínio, porque a ajuda humanitária da ONU não conseguia alcançá-las. Os bosquímanos, sempre vistos com tanto desprezo por africanos e europeus, correram em seu auxílio. Ensinaram às mulheres dos colonos quais eram os mais de 20 insetos nutritivos da região e os 180 tipos de raízes comestíveis do deserto, ensinaram onde encontrar plantas selvagens e frutos sumarentos, ensinaram-lhes como comer cáctus e reservar água em ovos de avestruz ocos, ensinaram-lhes como beber da seiva do baobá.

Salvaram-lhes a vida.

E depois voltaram para o deserto, felizes, despreocupados, como sempre foram, desde o começo dos tempos.

Façanhas na Cidade do Cabo

06 de julho de 2010 6

Enquanto a maioria de nós retornou aos rigores de Joanesburgo a fim de atravessar o oceano de volta ao Brasil, o Potter seguiu para a bela Cidade do Cabo. Nos representará na partida do Uruguai, hoje, e, quiçá, voltará de lá com a classificação histórica.

A Cidade do Cabo é o Rio de Janeiro da África do Sul. É lá que a vida pulsa, se é que me entendem. Pressinto que o Potter será feliz por lá.


No colégio ensinam que Bartolomeu Dias foi o primeiro a dobrar o Cabo da Boa Esperança com suas caravelas. Não foi. Foram os fenícios, 20 séculos antes dele.

Trata-se de uma história tão boa que parece inverossímil, mas é verdadeira, e quem o provou, acredite, foi o próprio Sol.

Por volta de 600 a.C., o faraó Necho II queria descobrir uma forma de circunavegar a África, saindo do Mar Vermelho em direção ao sul e chegando ao delta do Nilo, no norte do Egito. Hoje você sabe que isso é não é tão fácil, porque você olha para o mapa e vê que, abaixo do Saara, existe toda uma África com leões, gnus, elefantes e Tshabalalas. Mas naquela época os egípcios não tinham mapas, não sabiam de nada disso, então o faraó contratou um grupo de fenícios para a empreitada. Escolheu os fenícios porque eles eram ótimos marinheiros, ao contrário dos egípcios, que só navegam pelo Nilo, que é grande, mas é rio.

Bem. Os fenícios saíram e se foram. E se foram e se foram e se foram, e aquela viagem não terminava mais. Olhavam à direita e só viam terra – a imensa costa africana. Continuaram descendo por meses, até que cruzaram o Trópico de Capricórnio e viram algo que os assombrou: o sol estava ao Norte, não mais ao Sul.

Agora há que se fazer um comentário sobre isso de trópicos, para o que vou abrir um naco especial de texto. Ó:

Você sabe que existem dois trópicos: o de Câncer, acima, ao Norte, e o de Capricórnio, abaixo, ao Sul. O de Capricórnio passa pelo Brasil, sobre o Estado de São Paulo.

A África tem mais sorte e é cruzada por ambos.

Outra coisa que você sabe é que durante o dia o sol se desloca de leste para oeste. Ou, antes: como já disse Galileu Galilei, é a Terra quem se move. Mas parece que é o sol.

Enfim.

Durante o ano, o sol se desloca de Norte a Sul, mas vai apenas de um trópico a outro. Então, quem vive nas imediações do Mediterrâneo, caso dos fenícios, egípcios, gregos e outros povos antigos, além dos alemães de Klose e Podolski e das loiras suecas de hoje, esses sempre enxergam o sol ao Sul. Foi por isso que os fenícios se espantaram quando viram o sol ao Norte, no dia em que cruzaram o Trópico de Capricórnio, e é por isso que sabemos, no século 21, que eles contaram a verdade a respeito de terem cruzado o Cabo da Boa Esperança no século 6 a.C. – porque naquele tempo os trópicos de Câncer e Capricórnio não existiam, ninguém sabia desse comportamento do sol.

O importante é que os fenícios dobraram o Cabo da Boa Esperança, subiram pela costa oeste da África e, depois de três anos de viagem, entraram pelas Colunas de Hércules, hoje chamadas de Gibraltar, de volta para casa. Deram toda a volta no continente africano, um feito inigualável. Ou quase inigualável, porque, se o Uruguai se classificar hoje, os uruguaios serão os fenícios do século 21.

Quem fracassa e quem vence?

05 de julho de 2010 83

Alguns leitores se enfureceram com o post sobre o fracasso da Seleção. Tenho explicado que essa opinião, a de que a Seleção é um fracasso, não é a minha opinião; é a de Dunga.

Vou contar uma historinha para esclarecer os mais confusos:

Há não muito tempo atrás, Dunga participou de uma entrevista no Painel RBS.

Eu era um dos entrevistadores.

A folhas tantas, alguém comentou sobre a Seleção de 94. Dunga exaltou o trabalho feito naquele ano, tudo bem. Então, fiz uma intervenção: disse que, às vezes, todo o trabalho é bem feito, mas não obtém vitória por um detalhe. São 32 seleções, só uma é campeã. Isso não quer dizer que as outras 31 sejam derrotadas, certo?

Errado.

Dunga se enfureceu. Começou a enumerar as vitórias do que chamou de sua geração, comparou-as com a geração de 82, uma geração que, segundo ele, não ganhou nada.

Surpreendi-me com a reação de Dunga, tentei explicar que não estava questionando a geração dele, mas apenas refletindo que nem sempre um time que perde é derrotado. Por exemplo, a Seleção de 82…

Para quê! Aí sim que Dunga ficou irritado. Repetia a sua argumentação e ironizava:

– Será que tu entendes? Vou explicar de novo: será que tu entendes? – e enumerava as façanhas da sua geração.

Eu entendia, só não concordava. Mas me recolhi ao meu papel de entrevistador e não segui debatendo. Só restei intrigado: por que tanta ferocidade na defesa de uma seleção que não ataquei e no ataque de uma seleção que nem precisaria ser defendida? Eu não estava comparando a Seleção de 94 com a de 82, mas Dunga achou que sim, e saiu do sério.

Compreendi que era a ideologia de Dunga: ou você vence, ou é derrotado sem apelação. Ele mesmo passou esta Copa repetindo isso: “Eu gosto é de ganhar, o bonito é ganhar…”

Bem, a Seleção dele perdeu. O que me deixa num impasse: segundo Dunga, sua Seleção é derrotada, e ele também? Ou, agora, segundo Dunga, a de 82 não é derrotada?

Quem está certo? O Dunga de agora, que ressalta o que fez de correto? Ou o de meses atrás, que não admitia acerto na Seleção de 82?

Gostaria que Dunga e dunguistas resolvessem essa questão para mim.
Porque, pelos meus critérios, a Seleção de 82 foi vitoriosa, e essa, de 2010, embora tenha sido apenas mediana, não se pode dizer que foi um vexame. Mas essa é a minha opinião. E a dos dunguistas, qual será? Estarão eles redimindo a Seleção de 82?

Espero que sim.

O poder do elefante

05 de julho de 2010 12

Depois de assistir à triste Seleção de 2010 apanhar da Holanda em Port Elizabeth, o que nos restava?

Ver os animais.

Fomos fazer um safári.

Fomos ao Addo Elephant Park, um parque nacional instituído nos anos 20 do século passado.

Essa região de Port Elizabeth, chamada “Cabo Leste”, era um dos maiores habitats de elefantes do mundo, até a chegada do homem branco. Como os elefantes pisavam com suas grandes patas nas plantações das fazendas e reduziam tudo a pasta vegetal, os homens brancos passaram a caçá-los. No fim dos anos 20, ainda restavam alguns espécimes. Não muitos, mas um elefante incomoda muita gente, com o que os fazendeiros contrataram o célebre major Pretorius para eliminá-los em definitivo. Foi esse major Pretorius quem deu o nome à capital do país, Pretória, o que, aliás, vem gerando algum debate: os sul-africanos negros pretendem mudar o nome da cidade.

O major Pretorius era um exímio caçador. Saiu atrás dos elefantes como se fosse o ataque da Alemanha. Em menos de um ano, matou 120. Sobraram 15, que fugiram assustados para a mata. Quando o mundo desenvolveu alguma consciência ecológica, o Addo foi criado e esses 15 sobreviventes foram a base do que existe hoje.

Agora o Addo tem mais de 600 quilômetros quadrados, tem chalés para quem quiser dormir no local, restaurante e uma loja onde comprei um leãozinho para o meu Pocolino. Um leãozinho de pano, bem entendido.

Nosso caminhão era dirigido por um guia chamado Sikey. Mal entramos no parque, ele parou. Não podia seguir adiante porque logo ali, na estrada, havia um cocô de elefante do tamanho de um bolo de aniversário. Todos olhamos pela janela e admiramos o Grande Cocô. Uma obra, de fato, mas porque não podíamos passar sobre ele?

Arrá! Por causa do besouro-do-esterco, um bicho que só existe no Addo, que não voa, que desenvolveu o estranho hábito de passar seus dias dentro dos cocôs e que, como os elefantes e os leões, deve ser preservado.

Assim é a vida selvagem.

Contornamos com muito cuidado o cocozão, tendo o cuidado de fazer o mínimo de estardalhaço possível para não assustar o besouro, e seguimos em frente.

Fazia cinco minutos que estávamos dentro do parque, e o Pedro Ernesto, de braços cruzados, reclamou:

– Cadê os bichos? Cadê o elefante?

Logo apareceu o primeiro bicho, o kudu, um tipo de veado. Claro que a turma ficou fazendo as gracinhas de praxe sobre veadinhos e tal.

– Quero ver elefante – disse o Pedro Ernesto. – Onde é que está o elefante?

Mais adiante e apareceram avestruzes. Sikey explicou que um ovo de avestruz leva duas horas para ser cozido e que equivale a 24 ovos de galinha.

– Você pode comer – garantiu Sikey. – Mas ao longo do tempo, mata.

Melhor não comer ovo de avestruz.

– Tá – falou o Pedro. – Mas o elefante?

Foi quando surgiu o elefante.

Não um, nem um casal: vários. Uns 50 elefantes comendo grama, placidamente. O caminhão parou a poucos metros deles. Então, o maior de todos, um macho com presas compridas como pernas humanas, olhou para nós e veio em nossa direção. Caminhava devagar, com graça, balançando o corpo enorme. Caminhava olhando fixo para nós. Aí, quando chegou bem perto, parou. E fez algo surpreendente.

De alguma parte de seu corpo redondo, fez surgir um membro quase das mesmas dimensões de suas patas, jogou-o para baixo e, através dele, expulsou um jato de urina que poderia apagar um pequeno incêndio. Depois do que, não o recolheu. Continuou caminhando lentamente com aquele troço pendurado, uma quinta perna, uma segunda tromba. Caminhava como que se exibindo, mostrando quem era. Nós, no caminhão, observávamos a cena em silêncio. Falei para o Pedro:

– Queria o elefante? Aí está o elefante.

O Pedro suspirou:

– Que poder tem o elefante!

Os cinco espíritos negros

04 de julho de 2010 2


Nelson Mandela era um nobre da tribo xhosa. Nasceu, cresceu e foi circuncidado a ferro frio, num único corte, zupt!, a 30 quilômetros do estádio que hoje leva o seu nome, onde o Brasil foi tristemente eliminado pela Holanda da Copa da África.

Essa tribo fala com estalidos, como muitos povos negros da África. Seu nome se diz “clic tôsa”.

Tente.

Não é fácil.

Os xhosas são, antes de tudo, criadores de gado. Mais do que isso: a vida deles gira em torno de suas reses. Um xhosa conhece cada boi do seu rebanho pelo nome, sabe diferenciar um do outro e, mais, é capaz de comandá-lo com assobios. Os europeus chegavam aqui e, ansiosos por um suculento churrasco, compravam um boi dos xhosas. Levavam-no com eles, esfregando as mãos. À noite, o boi sumia. Como é que um boi some??? É que o xhosa que o havia vendido o chamara com um silvo, e o boi voltara para casa, obediente. Muito irritante para os europeus.

No século 19, essa tribo estava em decadência devido à ação dos homens brancos, que lhes tomavam as terras e, principalmente, as reses. Um dia, uma menina de 14 anos de idade, sobrinha do feiticeiro da tribo, foi buscar água em uma fonte e voltou de lá como que em transe. Contou aos amigos, parentes e vizinhos embasbacados que cinco negros altos, fortes, espadaúdos e de passadas largas haviam aparecido para ela e se identificado como espíritos de seus antepassados. As almas dos negões disseram à menina que tinham decidido expulsar os brancos das terras da África do Sul. Para isso, estavam naquele momento formando um exército invencível.

Os xhosas vibraram com a novidade. Até que enfim teriam suas terras de volta! Mas… Havia um mas. A menina continuou falando. Interpôs uma condição para a entrada dos espíritos na briga: os xhosas precisavam provar sua fé. Como? Tinham de matar todo o seu gado e destruir todas as suas plantações. Desagradável, mas não se preocupassem: os espíritos enviariam gado novo, gordo e saudável, e cereal abundante que encheria os novos silos que eles deviam levantar.

O tio feiticeiro encarregou-se de interpretar essas predições e convencer os chefes xhosas a executá-las. Marcou inclusive o dia da redenção de seu povo: 18 de fevereiro de 1857, cerca de um ano depois da profecia. Nesse dia, o sol nasceria vermelho de sangue e se imobilizaria no céu. Depois rodopiaria no próprio eixo e voltaria ao Leste para deitar-se. Então, tufões varreriam os brancos para o Índico, onde todos morreriam afogados, junto com os descrentes.

Os xhosas obedeceram. Durante um ano, enfrentaram a fome e todo tipo de padecimentos. No dia assinalado pela menina e seu tio, puseram-se a olhar para o céu. O sol nasceu amarelo como sempre e descreveu seu curso imemorial.

Nada aconteceu.

Os xhosas se desesperaram, correram a roer as raízes do solo e os ossos de seus bois abatidos. Vinte mil xhosas morreram naquele período. Outros 30 mil só sobreviveram arranjando emprego junto aos brancos opressores. Os xhosas, o povo de Mandela, padeceram do mesmo mal que os brasileiros que apostaram na vitória da Seleção. Ambos acreditaram em falsos feiticeiros.