Até terça-feira, acompanhe a série sobre os bastidores da imprensa na Copa do Mundo
A seguir, o Capítulo 5:
O Cosmão jurava que, se estivesse em meu lugar, iria ao prédio dela, bateria à porta do seu apartamento e lhe diria algo que a convencesse a fazer aquele show entre quatro paredes, só os dois, atrás das janelas fechadas. Não duvido que tivesse sucesso.
Na África, porém, o Cosmão não encontrou tempo para aventuras alcoólicas ou amorosas. Agora ele estava trabalhando para o seu próprio blog. Tinha muitas dificuldades para se deslocar em Joannesburgo e quase nenhum tempo livre para confraternizações. A maior façanha do Cosmão na África foi profissional. Foi ele quem arrancou de Dunga uma rara manifestação de contrição feita em Durban, depois da partida contra Portugal.
Cosme Rímoli estava sentado bem na frente, na primeira fileira de poltronas da sala de entrevistas do elegante estádio de Durban. O Brasil havia empatado em zero a zero com Portugal, mas o clima era favorável a Dunga, a Seleção se classificara em primeiro lugar no seu grupo. Cosme perguntou o que o mundo queria perguntar: por que Dunga havia se comportado como se comportou na sua última entrevista coletiva. Referia-se, Cosme, àquela que provavelmente foi a mais espetacular entrevista coletiva concedida por um técnico da Seleção Brasileira em todos os tempos. Ocorreu depois da vitória relativamente fácil sobre a Costa do Marfim. Eu estava sentado ao lado do Prosperi, no meio da sala de imprensa, que nem estava lotada. Não havia grande expectativa para a entrevista. Logo depois da primeira pergunta, Dunga olhou para cima, apontou para o repórter Alex Escobar, da Rede Globo, e perguntou se havia algum problema. Escobar respondeu que não e Dunga sussurrou algo. Prosperi olhou para mim:
_ Ele disse “merda”?
Pisquei:
_ Será que disse?
_ Eu ouvi “merda”.
_ Não pode ser...
Era.
Depois do primeiro xingamento, Dunga passou a aproveitar o tempo em que algum jornalista formulava uma pergunta para resmungar palavrões. Recitava-os com um sorriso cínico, olhando para cima, presumivelmente na direção de Escobar. O incidente foi muito maior do que o que apareceu na TV ou no Youtube. Os murmúrios de Dunga prosseguiram durante TODA a coletiva. Quando a entrevista terminou, ele se levantou ainda sorrindo debochadamente e ainda sussurrando palavrões. Ao descer da bancada, encontrou João Ramalho, diretor da Globo, e o espinafrou:
_ Tem que ser homem para dizer na cara!
Foi algo tão inusitado, tão esdrúxulo, tão inesperado, tão inverossímil, que eu e o Prosperi mal acreditávamos no que estávamos testemunhando.
_ Ele fez isso mesmo? _ nos perguntávamos. _ Você viu o que vi?
Era verdade. Depois da entrevista, procurei Escobar e perguntei por que Dunga fizera aquilo.
_ Eu não sei! _ jurou Escobar. _ Não sei! Não fiz nada a ele, não tenho nada com ele!
Foi sobre isso que o Cosmão perguntou na entrevista coletiva seguinte, em Durban. Dunga, então, admitiu estar errado e pediu desculpas. Mas não pediu desculpas a quem ofendeu, pediu desculpas a uma entidade impalpável, etérea e difusa, o “torcedor brasileiro”.
Não sei se o torcedor brasileiro o desculpou. O fato é que, depois daquele episódio, Dunga tentou claramente mudar seu comportamento. Acalmou-se, procurou ser mais cordial. A Seleção, porém, não foi muito mais adiante. Quando levou o gol da Holanda, nas quartas-de-final, o time se desestruturou.
Talvez tenha se abalado tanto com o gol porque foi protegida em demasia durante toda a Copa, porque não sentiu a tal pressão benéfica de que falava Luiz Felipe Scolari em 2002.
Talvez a Seleção tenha sido tímida demais, como eu fui em relação à vizinha nua. Porque, uma noite, olhei para o prédio ao lado e vi a janela do apartamento dela fechada. Na noite seguinte continuava fechada. E na outra também. A vizinha nua havia se mudado sem que eu tivesse me arriscado a ir falar com ela. Não corri riscos, a Seleção não correu riscos. Fomos, ambos, derrotados.


















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