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Posts na categoria "Copa 2014"

Uma Copa que teve muito a ensinar

15 de julho de 2014 35

Uma Copa do Mundo, para quem gosta e estuda o futebol, é como se você viesse aqui para Boston a fim de fazer um mestrado em Harvard. Uma Copa apresenta o que há de mais moderno, mais desenvolvido e mais sofisticado na atividade de jogar bola. Essa Copa brasileira teve muito a ensinar, sobretudo graças ao seu merecidíssimo campeão.

Vou me ater a uma jogada, a uma única jogada, que demonstra o que significou esse time da Alemanha para o futuro do futebol. Foi a grande jogada da Copa: o primeiro gol alemão na Seleção Brasileira, que desnorteou os jogadores do Brasil e abriu caminho para a goleada. É uma espécie de símbolo do que é a seleção alemã. É uma aula de planejamento e inteligência. Uma jogada de movimentos ensaiados, que devem ter sido repetidos à exaustão para que tudo desse certo na hora do jogo.

E deu.

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Foi a partir daí que o Brasil foi desmontado feito um brinquedo Lego.

Se você conseguir rever o lance no Youtube, faça-o. Vou descrevê-lo, para ilustrar o que quero dizer.
O escanteio era do lado direito do ataque alemão. Todos os jogadores da Alemanha que estavam dentro da área brasileira se posicionaram à altura do primeiro pau, exceto um, que ficou no segundo. Não lembro quem estava no segundo, mas o importante é que não era Müller, o autor do gol. Müller também havia se posicionado à altura do primeiro pau, e David Luiz o marcava atentamente, com um olho na bola e outro no atacante, como faz qualquer bom zagueiro numa cobrança de escanteio.

No momento em que o jogador alemão bateu na bola, na marca do córner, as posições de Müller e do alemão no segundo pau se inverteram. O alemão que estava no segundo pau correu em direção ao primeiro, arrastando com ele o brasileiro que o marcava.

Müller, por sua vez, correu em direção ao segundo. David Luiz, que o marcava, não vacilou: quis fazer o mesmo que fez o brasileiro marcador do alemão no segundo pau, saiu correndo atrás de Müller, mas esbarrou em um terceiro alemão, que havia se colocado à sua frente. Note: não foi falta: o alemão simplesmente estava parado, fechando o corredor por onde David Luiz entraria a fim de marcar Müller. David Luiz, assim, chocou-se com o alemão e ficou paralisado no meio da área.

Se ele insistisse em avançar para marcar Müller e derrubasse aquele alemão que o atrapalhava, seria pênalti. Simplesmente pênalti. Enquanto isso, a bola voava e aterrissava, com simetria germânica, no pé de Müller, então sozinho no segundo pau. A genialidade desta jogada é que não houve falha de David Luiz. Ele tentou fazer o certo, tentou agir como recomenda o Manual do Zagueiro Competente. Não conseguiu. Foi envolvido pela jogada ensaiada da Alemanha, como os Joões de Garrincha eram envolvidos pelo seu drible que sempre saía pelo lado direito, mas que era sempre irresistível.

Um show de movimentos precisos. Um balé. Todos fizeram a sua parte como uma orquestra numa sinfonia: o cobrador do escanteio fez a bola passar sobre as cabeças de todos os jogadores na grande área e cair no ponto exato, à altura do segundo pau, no pé de Müller; o jogador que estava no segundo pau correu para o primeiro no mesmo momento em que Müller se deslocou para a posição que ele antes ocupava; o jogador que obstruiria a passagem de David Luiz postou-se milimetricamente no único vão por onde David Luiz poderia passar; e, por fim, Müller teve sangue frio para enquadrar o corpo e empurrar a bola para a rede.

Isso não acontece por acaso. Isso é treino, preparação, planejamento, trabalho duro no dia-a-dia, nas tardes monótonas no CT vazio de imprensa, de torcida e de excitação. É repetição, repetição, repetição. Repetição cansativa, chata, que ninguém gosta de fazer. Sim, é preciso talento para realizar com sucesso uma jogada dessas. Mas é preciso, mais do que tudo, esforço e concentração. A vitória alemã não foi acidental. Foi pensada muito tempo antes, nos campos gelados do Velho Mundo.

A superação de Messi

13 de julho de 2014 6

Messi vomita antes de cada partida. Às vezes vomita no intervalo.

Pelé, às vezes dormia antes de cada partida. Ou tirava uma soneca de 10 minutos no intervalo.

Isso não demonstra que Pelé era melhor do que Messi (e era). Isso demonstra a diferença da carga de pressão que um tinha e que outro tem de suportar.

Messi cresceu sob pressão. Literalmente. Todos sabem do problema hormonal que tinha, impedindo seu desenvolvimento _ passou quatro anos tomando injeções diárias que ele mesmo aplicava, os clubes argentinos negaram-se a pagar-lhe o tratamento por ser muito caro e ele e a família acabaram se mudando para Barcelona. Lá, dos 12 aos 18 anos, Messi cresceu 29 centímetros, ficou com 1m69cm de altura e transformou-se no maior jogador do planeta.

Essas histórias de sacrifício e superação são encantadoras para quem as ouve ou lê, não para quem as enfrenta. A tensão acumulada, que Messi não demonstra em campo ou no dia-a-dia, ele a expele pela boca antes de cada prova. Porque, sim, Messi ama o futebol e sabe jogar como ninguém, mas sabe, também, que cada vez que calça um par de chuteiras está prestes a ser visto, analisado e avaliado pelo planeta inteiro. É uma prova por jogo.

Pelé viveu em outra época. Uma época em que ele ganhava menos, é certo, mas em que não precisava fazer propaganda de xampu contra caspa, não era xingado nas redes sociais e nem vigiado eternamente por câmeras de telefones celulares. Além disso, Pelé viveu sempre no seu país, cercado de sua gente, jogando no seu clube do coração. Pelé teve condições de, apenas, concentrar-se em exercer sua genialidade.

Pelé viveu em um ambiente parecido com o que vivem hoje os jogadores da seleção alemã.

Na Alemanha, os jovens jogadores têm do Estado o apoio que Messi teve do Barcelona. O Estado investiu mais de 1 bilhão de euros em centenas de centros de treinamentos para crianças espalhados pelo país. Os talentos alemães são cultivados nesses centros como flores em estufas. Desabrocham, vão para os clubes e transformam o campeonato alemão em um fenômeno de público, com média superior a 40 mil pessoas por partida.

Como Pelé nos anos 50, os meninos alemães não precisam se superar. Estão cercados de proteção e de condições propícias para vicejar. O produto da política alemã estará neste domingo no Maracanã: uma seleção formada, na sua maioria, por jovens jogadores com grande capacidade técnica, compreensão do jogo e disciplina tática. A seleção alemã é uma equipe de futebol. A seleção alemã é o trabalho, o planejamento e o cérebro.

Do outro lado está o coração.

A Argentina é a típica seleção latina moderna, formada por jogadores que se tornaram europeus na maneira de jogar, enriquecida por um fenômeno que conseguiu preservar sua habilidade inata. Não há um Riquelme na seleção argentina. Não. Como a Seleção Brasileira, a Argentina mudou de perfil. Mas existe um sobrevivente. Um único, que encontrou ambiente para se desenvolver. É ele, é Messi que vai desafiar a inteligência alemã. Só ele. Ninguém mais poderia. Messi pode. Existe um sofrimento acumulado que o sustenta. Existe uma dor que o move. E Messi sentirá esse sofrimento antes de pisar no campo santo do Maracanã, sentirá os efeitos dessa dor antiga. Mas depois, com a bola nos pés, esquecerá de tudo o mais. E saberá que, sim, sim, sim: ele pode.

O pesadelo da Seleção Brasileira

12 de julho de 2014 23

Não, seu juiz. Não, não, não, não, não e não.
Não.
O senhor não precisava dar cinco minutos de tempo adicional, nesse jogo. Não precisava dar nem um minuto. Um segundo, que fosse, era completamente dispensável. Até porque, seu juiz, veja o que aconteceu 40 segundos depois do tempo normal: a Holanda marcou outro gol, seu juiz! Três a zero, seu juiz! Precisava isso?
Não, não, não.
Não.
O que aconteceu, então, nesses cinco minutos a mais que o senhor decidiu conceder à dolorosa participação do Brasil nesta Copa brasileira, o que aconteceu? A torcida ficou vaiando, seu juiz. Vaiando a Seleção Brasileira.
Por acaso, seu juiz, o senhor sabe o que vai acontecer daqui a alguns dias, em 21 de julho, o senhor sabe, seu juiz?
A Seleção Brasileira vai completar cem anos. Cem anos!
O senhor sabe como começou a história da Seleção Brasileira? Sabe? Com vitória de 2 a 0 sobre o Exeter, da Inglaterra, no campo do Fluminense. Começou com vitória, seu juiz. E o senhor sabe qual é o canto da torcida deste Exeter, que ainda hoje existe? Eles cantam assim, dirigindo-se à torcida adversária:
“Vocês já jogaram, já jogaram, já jogaram contra a Seleção Brasileira?”
Eles se orgulham de ter jogado, e perdido, para a Seleção Brasileira. Cantam isso ainda hoje, cem anos depois.
Passada essa vitória, o que aconteceu com a Seleção Brasileira, o senhor sabe, seu juiz? Aconteceu Friedenreich, Leônidas, Zizinho, Heleno de Freitas, Garrincha, Didi, Pelé, Rivellino, Tostão, Zico, Romário, Ronaldo, Ronaldinho, aconteceram cinco títulos mundiais, seu juiz!
Certo.
Pois agora, passado um século, o que acontece com a Seleção Brasileira? Toma sete gols da Alemanha e, depois, toma mais três da Holanda. Dez gols em dois jogos de Copa do Mundo. É horrível. É um pesadelo. Por isso, seu juiz, aqueles acréscimos foram desnecessários. Foram até injustos. Já estava 2 a 0, o jogo não valia nada, era um jogo constrangedor, em que estava a disputa de um terceiro lugar do qual ninguém vai se lembrar no futuro. Dois a zero, pronto, a Holanda ganhou, está tudo bem, a Holanda tem um time melhor mesmo. Mas, não. O senhor queria mais. Cinco minutos, foi o que apareceu naquela placa na lateral do gramado. Cinco minutos a mais de agonia, cinco minutos a mais de dor. E a Holanda fez mais um gol, e a derrota virou goleada, e a humilhação agravou-se ainda mais. A cena final da Copa do Mundo no Brasil será a de Júlio César com os glúteos virados para cima e a bola no fundo do gol.
A Copa do Mundo disputada no Brasil.
Por quê?
Para quê?
Não precisava, seu juiz. Não precisava.

Uma dor que não acaba

12 de julho de 2014 16

A pena que senti dos jogadores do Brasil acometeu-me antes da humilhação contra a Alemanha. Deu-se, mais precisamente, depois do jogo com o Chile.

Critiquei com dureza a Seleção naquela partida, mas, depois, refletindo sobre o que vira, compreendi a terrível tensão pela qual estavam passando os jogadores, tensão que explodiu no segundo gol da Alemanha, terça-feira passada, tirou o time fora dos seus eixos e produziu os mais trágicos seis minutos da história do futebol brasileiro em todos os tempos.

Imagino o que esses jogadores passaram. Eles tinham vencido uma Copa das Confederações na superação, no grito da torcida, na emoção do Hino cantado a capella pela primeira vez. No íntimo de cada um deles fermentava a esperança de que aquelas condições se repetiriam. Mas a Copa das Confederações é um torneio menor. Na Copa do Mundo, as seleções entram no máximo da sua preparação física, tática, técnica e psicológica. Numa Copa do Mundo do século 21, participam atletas capazes de voar durante 120 minutos, como um Robben.

Participam profissionais com explosão muscular, resistência, velocidade e força como jamais houve na história do esporte. Não é por acaso que o Uruguai foi amassado pela Costa Rica quando cometeu a temeridade de escalar dois veteranos entre os titulares.

Então, lá estavam os jogadores do Brasil por fim reunidos, esperando que a mágica do ano passado se repetisse. Não se repetiu, e eles perceberam isso já no primeiro jogo. E as críticas vieram e, junto com as críticas, a pressão do ambiente. Eles estavam em casa, sob as vistas de seus amigos, familiares e desafetos. O país esperava tudo deles. Mas eles não estavam preparados, eles não tinham uma ideia pálida do que representava disputar uma Copa do Mundo dentro do seu próprio país.

Foi o que percebi, naquele jogo com o Chile. Por isso, senti pena. Os jogadores estavam desamparados inclusive por sua comissão técnica. Faltou proteção tática ao time na partida contra a Alemanha. O Brasil não poderia enfrentar aquela bem azeitada máquina de jogar futebol com apenas três jogadores no meio-campo. Foi um erro fatal. Cometido o erro, veio o primeiro revés. Vindo o revés, somado à tensão acumulada, veio o descontrole; vindo o descontrole, veio o desastre.

Neste sábado, contra a Holanda, o Brasil tem, apenas, de evitar novo desastre. Um meio-campo bem fornido, com três volantes e dois meias; um deles, Oscar, um pouco mais liberado para se juntar ao homem de frente, sendo este talvez Hulk, um esquema assim parcimonioso pode dar a vitória ao Brasil. É pouco para o Brasil o terceiro lugar, sobretudo depois do fiasco de terça, mas vencer é sempre um alívio, embora essa dor, todos sabem e sempre temeram, jamais passará.

Por que a Argentina pode vencer a Alemanha

11 de julho de 2014 28

A Alemanha é melhor do que a Argentina, estando ou não a Argentina com Messi. Mas, estando ou não com Messi, a Argentina pode ganhar da Alemanha.
Estou parafraseando a mim próprio, um luxo.
A verdade é que desde a Copa de 2010 sabíamos que a Alemanha chegaria ao Brasil como o melhor time do mundo. Se entre eles não há nenhum craque, todos são ótimos jogadores, inteligentes, disciplinados e elegantes, como demonstraram depois de golear o Brasil e pedir respeito aos brasileiros nas redes sociais.
A Alemanha merece ganhar a Copa.
Mas a Alemanha não tem Messi.
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HISTÓRIA DE FICÇÃO

Um jogo de futebol é irrepetível. Cada jogo tem sua própria história. É como um conto, uma peça de literatura, com começo, meio e fim. Por isso o futebol é tão fascinante.
A história de Brasil e Alemanha no Mineirão começou com uma ocorrência inverossímil: na cobrança de escanteio da Alemanha, seis jogadores do Brasil estavam no primeiro pau e o resto da área estava deserto. A bola voou por sobre as cabeças deles e encontrou o goleador Müller sozinho, que mandou de chapa para dentro do gol. Nenhum time de várzea comete esse erro, e era a Seleção Brasileira, numa semifinal de Copa do Mundo.
Se alguém escrevesse isso, ninguém que conhece futebol acreditaria.
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OS EFEITOS DA NEFANDA

Quando o Grêmio foi disputar pela segunda vez o Mundial de Clubes, havia cinco jogadores gaúchos entre seus titulares, ou entre seus principais jogadores: Danrlei, Roger, Emerson, Arilson e Carlos Miguel.
Onze anos depois, quando o Inter foi disputar pela primeira vez o Mundial de Clubes, não havia nenhum gaúcho entre seus titulares.
Por que isso?
São os efeitos da nefanda Lei Pelé.
Fosse hoje, os cinco jogadores citados não teriam permanecido no Grêmio depois dos 18, 19 anos de idade. Teriam ido para a Europa e, lá, passariam pelo processo de transformação que europeíza os jogadores, modificando suas características, extraindo-lhes a brasilidade na forma de jogar.
Emerson, aliás, foi mais cedo para a Europa e passou por este processo. No Grêmio ele era meia, às vezes atacante. Fazia gols. Na Europa, virou um Dunga. Por sinal, Dunga, na Europa, virou um Dunga, o que foi ótimo para ele. Anderson, da Batalhas dos Aflitos, transformou-se de fenômeno em mero marcador. Robinho parou de pedalar. Alexandre Pato virou galã de propaganda de carro.
Esses os que se transformaram. Há os que simplesmente sumiram. Onde está Jonas? Será que não teria lugar para ele nesta Seleção? E Nilmar? E Lucas, que era o novo Neymar do São Paulo? E tantos, tantos outros que sofreram o impacto da nova cultura, da língua desconhecida, de técnicos que não gostavam deles, de colegas de time que os sabotaram, da obrigação de jogar de uma forma com a qual não estavam acostumados, onde estão eles? No limbo.
No Brasil, esses jovens vicejariam. Em alguns anos, amadureceriam e consolidariam seu futebol e sua personalidade. Quando eles emigram tão cedo para a Europa, acabam sendo mutilados. A flor do futebol brasileiro está sendo despetalada pelos piratas europeus. A Lei do Passe não voltará. Mas alguma forma de proteção ao futebol do Brasil deveria ser tomada, e já.
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A EXCEÇÃO

A Argentina, que, tanto quanto o Brasil, é primeiro mundo no futebol e terceiro na economia, também sofreu com a extinção do passe. Olhe para a seleção argentina: seu único craque foi formado no Barcelona, vive na Catalunha desde os 12 anos de idade. Trata-se de um herói em resiliência e capacidade de superação. Messi só se tornou quem é porque a família inteira mudou-se com ele para a Espanha e porque, no Barcelona, ele encontrou um ambiente propício para um jogador latino, adaptou-se, e cresceu física e espiritualmente.
É uma façanha.
É um vencedor.

Governista ou canalha?

11 de julho de 2014 27

Ou você é governista, ou é canalha. É assim, no Brasil do século 21. Antes, um jornalista, por exemplo, se fosse governista, chamavam-no de “chapa branca”. Hoje, se o jornalista não é governista, chamam-no de chapa branca.
Como o governo conseguiu essa façanha?

É a aposta no seccionamento da sociedade. Aparta-se alguns para ganhar outros tantos. O governo é a favor dos pobres; logo, quem é contra o governo é contra os pobres. Os governistas eram contra a ditadura; logo, quem critica os governistas é a favor da ditadura. Onde estão os negros, que não são vistos nos estádios da Copa, onde se vaia a presidente? Estão nos mocambos do Brasil, abençoando a mão maternal do governo. Elite branca versus negros pobres, esse é o jogo promovido pelo governo.

Eu, aqui, prefiro ser chamado de canalha a ser governista. Quero poder criticar o governo, qualquer governo, em qualquer tempo. Quero poder reclamar, como jornalista em segundo lugar, como cidadão em primeiro. E elogiar também, se for o caso.

Até porque todos os governos do Brasil tiveram defeitos e qualidades, como sói acontecer com os governos todos. O busílis é que, no Brasil, os governos só deram e só dão atenção a supostas necessidades materiais da população. Isso é fácil. Ou menos difícil.

O Brasil é um país com vocação para o crescimento material. Sempre cresceu materialmente, mesmo nos piores momentos. O pior talvez tenha sido o governo de Sarney, na época da hiperinflação. E mesmo assim o Brasil foi para frente, graças à variedade de seu parque industrial, à pujança da sua agropecuária, à capacidade de trabalho de um povo multiétnico.

Moralmente, porém, o Brasil só submerge. A decadência moral do Brasil é palpável e se aprofunda a cada ano. E, quando o governo aposta na divisão da sociedade, essa desintegração só faz aumentar.

A força do Brasil está na sua variedade, na coabitação das suas diferenças. Existe racismo, discriminação, preconceito? Claro que sim. Onde não há? Mas existe também natural miscigenação e convivência pacífica. Todos somos brasileiros.

O governo vai faturar com a realização desta bela Copa do Mundo? Decerto que sim, e é justo que fature. Vai perder com o vexame da Seleção? Espero que não, não é culpa do governo. Lula foi um visionário ao candidatar o país para sediar a Copa. Lula agiu como estadista, porque foi um estadista. Fernando Henrique também. Dilma, não.

Dilma não é uma carismática. É uma técnica, é de executar, não de ideias, não de liderar. Se o governo acertou ao propor a Copa, errou na condução dos negócios da Copa. Houve gastança desnecessária em estádios desnecessários, houve atrasos imperdoáveis, obras inacabadas e improvisos que podem até ter ocasionado acidentes como o desabamento do viaduto em Minas.

A Copa é um sucesso. A maioria das ações do governo na Copa, não. O governo merece seu quinhão de aplausos, e outro tanto de apupos. E podem me chamar de canalha.

Vexame dos 7 a 1 no Mineirão começou com a Lei Pelé

09 de julho de 2014 56

Como se fosse um filme, como se fosse um romance, os 1 a 7 de Belo Horizonte são o desfecho de uma trama que começou em outro encontro desses dois protagonistas, 12 anos atrás. Naquele ano de 2002, Brasil e Alemanha decidiram a Copa do Oriente Longínquo e, como se sabe, o Brasil venceu. Mas, silenciosamente, as mudanças nos dois lados já haviam começado a acontecer no ano anterior.

A Alemanha dera início ao processo de reformulação do seu futebol, com escolinhas espalhadas por todo o país e leis que tentaram assegurar a saúde financeira dos clubes. Em pouco tempo, o futebol alemão começou a revelar talentos como os que domingo jogarão a final no Maracanã, e o campeonato nacional transformou-se num fenômeno, com média de público nos estádios superior a 40 mil pessoas por partida, a maior do mundo.

Veja a análise do fiasco e o futuro da Seleção na visão dos colunistas de ZH 

No Brasil, o Estado agiu na direção oposta: os clubes foram fustigados pela Lei Pelé, uma legislação liberalizante, que pretendia “alforriar” os jogadores. Na verdade, os grandes (e poucos) jogadores, que sempre ganharam bem, continuaram ganhando bem, e os pequenos (e muitos), que sempre ganharam mal, passaram a não ganhar nada: os clubes do interior fazem com eles contratos de três ou quatro meses, para os campeonatos regionais, e depois os dispensam.

Quem ganhou com a Lei Pelé foram os empresários e os clubes europeus, que, desde 2001, não precisam mais passar pelo incômodo de negociar com outros clubes: simplesmente mandam representantes ao Brasil, que colhem os jogadores na fonte, isto é: nas salas de suas casas, fazendo contratos diretamente com os pais ou com atravessadores espertalhões.

Isso transformou (para pior) o futebol brasileiro. Não é por acaso que muitos dos jogadores da atual Seleção nunca jogaram em grandes clubes brasileiros ou, se jogaram, foi até os 18, 19 anos de idade. Em geral, acontece com os talentos do Brasil o que aconteceu com Alexandre Pato, que voltou da Europa cheio de músculos e sem nenhum futebol.

A Lei Pelé destroçou os clubes brasileiros, mas os 12 grandes do Brasil são fortes demais. Eles têm cem anos de história e cem milhões de torcedores, resistiram a todos os assaques e achaques, e sobreviveram com uma pujança que nenhuma outra empresa privada teria. Eles fazem o que podem. Hoje, o Brasileirão é um certame de enjeitados, disputado por jogadores veteranos que estão raspando o fundo do tacho financeiro de suas carreiras, medianos que a Europa desdenha e sul-americanos atraídos pelos salários mais altos pagos no Brasil. É pouco? É o suficiente para empolgar torcidas que estão há mais de 10 anos sem ver craques de verdade nos seus estádios.

A Seleção Brasileira é o produto mais refinado dessa situação. Quem mais Felipão poderia convocar? Neymar, o único craque do Brasil, é obra de um esforço amazônico do Santos, que o segurou no país por mais tempo do que o comum, para um jogador do seu quilate. Os outros, Ronaldinho, Ronaldo, Rivaldo, Roberto Carlos, Cafu, Romário, esses estão no passado, no tempo da Lei do Passe.

Por ironia, de todos os citados acima só continua jogando aquele que foi o símbolo da mudança catastrófica feita no Brasil: Ronaldinho. Em 2001, ele foi o primeiro a se aproveitar da Lei Pelé e, na prática, fugiu do Grêmio, o clube que dizia amar desde que nasceu.

Os clubes brasileiros, na verdade, dependem disso: de amores. De torcedores fiéis e generosos, que os mantêm, apesar dos prejuízos. E os clubes são o núcleo do futebol. Os clubes são a razão de ser do futebol. A Lei Pelé golpeou duramente os clubes. A Lei Pelé não libertou os jogadores; liberou o tráfico e a pirataria empreendida por empresários e potências europeias. Com a Lei Pelé começou a história dos 1 a 7 do Mineirão. Enquanto isso, do outro lado do oceano, os alemães fizeram o caminho oposto dos brasileiros: valorizaram seus clubes, a ponto de dois deles disputarem a finalíssima da Liga dos Campeões da Europa.

Os alemães até podem não ganhar a Copa no domingo, mas hoje a Alemanha é o país do futebol. E tudo começou lá atrás, no Oriente Longínquo, naquele encontro dos dois protagonistas que tanto têm em comum, mas que agora são tão diferentes, quase incompatíveis. Como num filme. Como num romance.

Os problemas de Felipão

05 de julho de 2014 15

O que aconteceria, se a Colômbia tivesse empatado o jogo naquela pressão final, sexta-feira à tarde, no calor do Ceará?
O Brasil iria para a prorrogação só com Fred no ataque. Meia hora só com Fred no ataque.
Acompanhado, Fred não tem conseguido jogar; imagine sozinho.
Felipão, no entanto, colocou zagueiro, colocou volante, Felipão parecia desesperado.
Parece desesperado.
Ocorre que Felipão não conta boas alternativas no grupo de jogadores. Sentados às suas costas, no banco de reservas, estão o pequenino Bernard e o espigado Jô. É pouco. Quase nada.
Na terça-feira, Felipão vai enfrentar um time que tem sua força exatamente onde o Brasil tem demonstrado sua fraqueza: no meio-de-campo. Contra a Colômbia, Felipão sanou parcialmente seus problemas recuando Oscar e formando um tripé de marcação com ele, Fernandinho e Paulinho. Mas no segundo tempo os colombianos tocaram a bola entre a linha de volantes e a linha de atacantes do Brasil, criaram uma zona de ocupação dividindo o território brasileiro, dominaram a partida e quase chegaram ao empate. O golaço de falta de David Luiz, cobrado da intermediária, literalmente salvou a pátria.
E agora, contra o toque de bola da Alemanha, o que fará Felipão?
Dias atrás, numa reunião com um grupo que ele mesmo denominou de “jornalistas amigos”, Felipão desabafou, falou de carências do plantel, de insegurança de alguns jogadores, de arrependimentos. Chegou a lamentar não ter convocado alguém cujo nome não citou. Estranho. Não é atitude típica de Felipão, um treinador que faz da união de suas equipes o seu maior trunfo.
Talvez Felipão esteja sentindo, também ele, o peso da responsabilidade de vencer uma Copa do Mundo em território nacional. Talvez esteja se precavendo contra um eventual fracasso.
Talvez esteja com medo.
Não há nada de mal nisso. O medo não é o oposto da coragem. O medo pode ser um aliado na luta. Desde que seja um sinal de alerta, desde que provoque reflexão e reação, e nunca, nunca a paralisia.

Árbitro foi o responsável indireto pela lesão de Neymar

05 de julho de 2014 11

Carlos Velasco Carballo, o árbitro espanhol, é responsável indireto pela lesão sofrida por Neymar no jogo contra a Colômbia. As faltas duras, muitas duríssimas, algumas desleais ocorriam desde o primeiro tempo, sem que ele sacasse do bolso o cartão amarelo. Quando Neymar foi atingido, os dois times já haviam cometido 50 faltas. A cada reclamação dos jogadores ele batia no peito, como se dissesse: “É comigo. É minha responsabilidade”.
É verdade. A responsabilidade é dele.

David é um gigante

04 de julho de 2014 13

David mostrou a força de um Golias quando, no primeiro tempo, arrancou bufando pela direita, as bochechas inflando com o esforço de cada passada, dando ombraço e manotaço para afastar colombiano, não desistindo nunca.

David mostrou a ternura de um menino quando, no fim do jogo, esqueceu-se um instante da comemoração e foi consolar outro menino, James Rodriguez, o adversário derrotado que chorava pungentemente. David o abraçou, apontou para a torcida e pediu que o aplaudissem. Também ele, David, mereceu o aplauso naquele momento.

David mostrou a perícia de um guerreiro veterano quando, no meio de um segundo tempo especialmente pedregoso, chutou uma falta da intermediária como se fosse um dos históricos batedores de falta do Brasil, um Rivellino, um Éder, um Jair Rosa Pinto, um Nelinho, foi um desses poderosos chutadores que David incorporou para tocar na bola de chapa, mas com força, fazendo com que ela voasse até o ângulo do bom goleiro colombiano e entrasse sem apelação.

David mostrou a competência e a serenidade dos homens que conhecem seu ofício, jamais errando nas tarefas áridas do zagueiro, antecipando-se com perfeição, desarmando o adversário rente à grama ou no jogo aéreo, atento sempre, disposto sempre, sempre vibrante.

David ganhou esse jogo para o Brasil.

David levou a Seleção à semifinal.

“Saul matou mil, mas David matou dez mil”, cantavam as mulheres de Israel pelas ruas, exaltando o jovem que havia derrubado o gigante da Filisteia e que se transformara no maior capitão do exército hebreu. O David brasileiro não matou um só, mas 200 milhões de brasileiros estão cantando pelas ruas graças a ele. David, o herói do Brasil.

Com o Brasil sobre os ombros

04 de julho de 2014 17

Um dia antes da minha primeira prova no vestibular para jornalismo, passei na sapataria do meu avô. Finquei os cotovelos no balcão e ficamos conversando por algumas horas. Falamos sobre tudo, sobre futebol, política, tudo, mas ele nunca desenvolvia a conversa quando eu falava das provas. Parecia desinteressado. Achei estranho… Na hora de ir embora, já estava me virando para sair, quando ele me chamou:

— David…

Parei:

— Que é, vô?

E ele disse devagar, os olhos amarelos faiscando:

— Não tem tanta importância, se tu não passar nesse vestibular. Vai haver muitos outros. A vida continua.

Sorri:

— Tá bem, vô. Tchau.

— Tchau.

Saí dali leve. Porque entendi o que ele pretendia: pretendia exatamente aquilo: tirar-me o peso dos ombros, diminuir a minha responsabilidade, dar-me leveza para enfrentar com naturalidade as dificuldades que me esperavam. Lembrei disso ao pensar nesses meninos do Brasil que hoje passarão por uma dura prova.

Tempos atrás, o técnico ainda era Luxemburgo, entrevistei essa psicóloga Regina Brandão que hoje tenta fazer com os jogadores do Brasil antes da decisão o que meu avô fez comigo antes do vestibular. Lembro que ela, falando sobre os jogadores, fez um gesto abrangente com os braços e disse:

— Todos os que estão aqui são vencedores. Ou não estariam aqui.

De fato, o jogador de futebol, no Brasil, em geral vem de família pobre, passa por duríssimo regime de concentrações e privações justamente durante a idade em que menos se quer concentrações e privações, sofre pressão constante de torcedores, imprensa, treinadores, dirigentes e colegas, e muitas vezes emigra para um país desconhecido, do qual ele não conhece a cultura nem a língua.

Há que ter têmpera de aço para resistir a isso tudo e, ainda assim, vencer.

Eles são, pois, vencedores.

Mas agora os jogadores do Brasil estão suportando uma pressão a mais, e uma pressão terrível: estão disputando uma Copa dentro do seu país, um país conturbado, cheio de divisões, em que a realização da própria Copa foi, e é, objeto de furiosa polêmica.

Imagino como estejam sofrendo esses rapazes, sabendo que suas famílias, seus amigos, seus conhecidos, que seu país inteiro está olhando para eles e esperando que vençam sem apelação. Simplesmente isso: vitória sem apelação.

A Seleção Brasileira tem muitos defeitos, não vem se apresentado bem, eu mesmo critiquei-a acerbamente, mas, hoje, quero me compadecer desses jovens que estão carregando o peso do Brasil nos ombros. Gostaria que eles pudessem ouvir algo semelhante ao que ouvi do meu avô, tantos anos atrás. Gostaria que alguém lhes dissesse:

— Não tem tanta importância, se vocês não vencerem hoje. Vai haver muitos outros jogos.

Gostaria que eles acreditassem nisso. Que ficassem mais leves. Que entrassem em campo simplesmente para jogar bola, porque o futebol é, de fato, só isso: só um jogo de bola. A vida continua.

Longe demais das capitais

03 de julho de 2014 39

No cartel de Porto Alegre rebrilham 10 campeonatos nacionais, quatro Libertadores da América e dois títulos mundiais. É uma cidade na última esquina do Brasil, longe demais das capitais, como diriam os Engenheiros, mas do futebol brasileiro é megalópole, junto com Rio, São Paulo e Minas. Só que Porto Alegre sai da Copa nas oitavas, como os mexicanos, os americanos e os suíços.

Não podia.

Agora que você sabe como a Copa é um evento palpitante, um evento que torna viva uma cidade e a promove e a exalta, agora você lamenta que Porto Alegre fique esquecida no seu meridiano, enquanto outras cidades do Brasil vibram às vistas do mundo inteiro.

De fato, é lamentável.

Mas isso só aconteceu por causa do instinto destrutivo e iconoclasta do gaúcho. Por causa da nossa casmurrice. E também por causa das tolices da rivalidade Gre-Nal. Se gremistas e colorados tivessem se unido para fazer uma bela Copa no Estado, Porto Alegre bem poderia passar à semifinal. Onde merece estar.

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UM BILHÃO MAIS RICOS

Li o balanço que a Secretaria do Turismo fez sobre a Copa em Porto Alegre. Trezentos e cinquenta mil turistas passaram pela cidade em 20 dias, sendo 160 mil estrangeiros _ 90 mil argentinos (que fizeram o que minha avó chamaria de muita laúza), 16 mil alemães (que, como meu avô, beberam muito chope), 12 mil norte-americanos, 10 mil australianos (que se deram muito bem), 4,1 mil argelinos (que andaram de dindim em Gramado), 4 mil franceses, 4 mil holandeses (que também se deram muito bem), mil sul-coreanos, mil hondurenhos, mil equatorianos e outros 17 mil de outras nacionalidades, todos faceiríssimos, dançando com a banda da Brigada. Essa gente deixou mais de um bilhão de reais na Leal e Valerosa, além de algumas saudades doídas nas meninas e ressentimentos igualmente doídos nos meninos.

Um bilhão de reais.

Para onde foi esse dinheiro? Para o comércio, para os hotéis, para os táxis e… para os impostos. Ou seja: para a saúde, para a educação, bibibi.

Quem ganha com a Copa?, perguntavam alguns míopes, tempos atrás.

Resposta: todos.

Até os míopes.
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A TERRA DE MARLBORO

Gostei da forma como o jornalista de uma TV americana chamou o Rio Grande do Sul durante a partida da Argentina:
“Gaúcho’s country”.

Segundo ele, o Rio Grande do Sul é uma terra de caubóis.

O Texas do Brasil.

O goleiro americano na seleção da Copa

02 de julho de 2014 16

O goleiro da seleção americana vai para a minha seleção da Copa. Não é porque estou nos Estados Unidos… Ou talvez seja… Sim, sim, o fato de eu estar nos Estados Unidos fez com que conhecesse um pouco mais da história desse goleiro, Tim Howard.

Ele tem Síndrome de Tourette, um mal genético que faz a pessoa apresentar tiques, contrações involuntárias e falar palavras desconexas nos momentos mais inesperados. É incurável. Não mata, mas o afetado pena socialmente. Howard sofre dessa Síndrome. Mas não é por isso que ele vai para a minha seleção. É porque ele é o pilar do time do Grande Irmão do Norte, foi o principal responsável pelos EUA disputarem duas copas e, ontem, parecia Yashin, Lara, Sepp Maier, Manga, uma dessas lendas da camisa 1. Tim Howard. Uma das grandes histórias dessa grande Copa.
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Aquela falta marcada aos 125 minutos de jogo dentro da meia-lua da Argentina é o lance-símbolo desta Copa brasileira, uma Copa que tem se decidido no que a turma do IAPI chamaria de “na unha”.

Uma falta dentro da meia-lua… Imagine um Zico chutando. Um Ronaldinho. Era uma falta a ser cobrada com doçura. Jeito, não força. A bola devia ser colocada como que com a mão um palmo acima da cabeça do terceiro homem da barreira. Não devia ser endereçada ao ângulo formado entre trave e travessão, não, devia morrer na junção entre rede e grama e ali ficar.

Mas quem bateu foi um jogador da Suíça, não Messi. Messi estava do outro lado, de azul e branco. Messi já havia feito sua mágica. Com uma ou duas mágicas por jogo, ele vem empurrando a Argentina para a final.

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Uns e outros se irritam quando digo que não torço pelo mais fraco, torço pelo mais competente. Para eles é arrogância querer que o melhor ganhe. Tudo bem, mas quando proponho a essas pessoas uma final da Copa entre Costa Rica e Colômbia, todos torcem o nariz. Ah, não, elas querem o grande jogo, elas querem Brasil e Argentina, Holanda e Alemanha. O mais fraco que se contente com as quartas. Grande caridade, essa. Dê ali a migalha das quartas para o mais fraco, coitadinho. Ele vai se contentar com isso. Olhe como ele está sorrindo, agradecido. Fica alegre com qualquer coisa. Mas não me venha querer estragar a final! Por favor, cada um no seu lugar!
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A minha seleção da Copa (até agora, pelo menos) seria muito agressiva, que essa tem sido uma Copa de times agressivos. Colocaria três zagueiros, os dois vigorosos brasileiros e, entre eles, o clássico capitão do México, Rafa Marques. No meio-campo, aquele alemão com nome que parece um latido vigiaria a grande área. Os outros fariam o adversário dançar. É claro que você não concorda, mas a minha seria campeã. Aí vai:

Tim Howard; Thiago Silva, Rafa Marques e David Luiz; Schweinsteiger, Sneijder, Di Maria e Messi; Müller, Neymar e Robben.
Pode vir com esse seu timinho.
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O narrador da TV americana ficou espantado com o comportamento do árbitro brasileiro Sandro Meira Ricci na partida entre Alemanha e Argélia. A todo momento o narrador perguntava:

- Mas por que esse árbitro conversa tanto? Por que não marca a falta e deixa o jogo correr? Por quê?

A conversa em demasia é vício da arbitragem brasileira.

O técnico brabo

01 de julho de 2014 16

O técnico da Argélia tem um nome impronunciável, Vahid Halihodzic, e, pelo que li, é um homem brabo. Andou xingando gente nesse Mundial. Mas provou conhecer o jogo: armou um sistema inteligente para deter um time poderoso, e quase obteve sucesso. Vahid montou uma linha de cinco jogadores no meio-campo e deixou só um, o número 13, rapidíssimo, entre os dois enormes e lentos zagueiros alemães.

A Alemanha tinha dificuldades de exercer seu toque de bola, e os contragolpes da Argélia eram tão agudos que o goleiro alemão jogou de líbero. Se o goleiro alemão fosse mais lento, a Argélia teria marcado mais gols.

O técnico nojento

O técnico da Alemanha, Joachim Löw, é conhecido por gostar de comer tatu de nariz durante os jogos. Nojento. Mas teve competência para fazer do time alemão uma espécie de Flamengo com trema. Ou de Barcelona, o time no qual ele confessadamente se baseou. Só que nesta segunda, Joachim Löw errou. Não percebeu que um de seus jogadores mais importantes, Özil, estava fora do jogo e hesitou em dar mais profundidade ao time. Quase foi eliminado da Copa por uma equipe inferior, mas enérgica e disciplinada. A energia e a disciplina são as marcas deste Mundial do Brasil.

Você é meio grego

Os gregos inventaram o teatro e, inventando o teatro, inventaram a literatura. Os gregos inventaram a filosofia. Os gregos inventaram a democracia. Os gregos inventaram a História. Temos uma dívida de gratidão para com os gregos, não é? Temos, claro que sim. Mas vocês não levaram isso em consideração, vocês torceram para a Costa Rica.

Alguém dirá: mas e no esporte, o que nos deram os gregos? No esporte? Oh, sacripanta, os gregos nos deram as Olimpíadas, o atletismo, a maratona… Está certo, também nos deram a luta greco-romana, que é muito esquisita, mas, fora isso, compreenda o tamanho dos gregos e o quanto você também é grego culturalmente falando. E vocês torceram para a Costa Rica…Viram no que deu? Milhões de olhos e quereres concentrados levantaram a mão do goleiro da Costa Rica e ele defendeu aquele pênalti.

A Grécia está fora da Copa. A Grécia, para quem vocês devem tanto. A Grécia, por causa de vocês. Cuidado, os deuses do Olimpo não devem estar nada satisfeitos.

Nacionalistas em fúria

Você prestou atenção nos alemães cantando o hino? Devia ter prestado. Há uma guerra de hinos nesta Copa. Os brasileiros cantam o hino a capela, os chilenos querem fazer o mesmo e os brasileiros não deixam. Os jogadores do Brasil não cantam o hino; berram-no, em especial o zagueiro David Luiz, imbuído de um fervor patriótico meio assustador. Teve uma menina de 12 anos que, perfilada em frente aos jogadores, gritou tão desvairadamente o hino que impressionou o capitão Thiago Silva, a ponto de ele postar numa rede social que aquilo, sim, era prova de amor à pátria. Os franceses também fazem todos se arrepiar com a Marselhesa, assim como os ingleses com o God Save The Queen. Os americanos entoam seu hino fazendo continência, como se fossem soldados.

Vi, pela TV, gente chorando na execução do hino de seu país. Mas os alemães, não. Os alemães cantam discretamente seu hino nacional e vão para o jogo sem palpitações ufanistas. Você, que conhece um pouco de História, me diga: você sentiria medo, se os alemães cantassem o hino como David Luiz? De certo que sim. Só que os alemães têm farta consciência dos efeitos do nacionalismo. Então, eles são moderados. O curioso é que poucos países da Copa, na verdade poucos países do mundo respeitam seu cidadão como a Alemanha. Os alemães são bem cuidados pela Alemanha, e cuidam bem da Alemanha. Sem ardores, sem paixões alucinadas, sem achar que se ganha no grito.

Como os americanos veem a Copa e o futebol

26 de junho de 2014 8

Assisti ao jogo dos Estados Unidos com Portugal em um bar com umas 40 (sério, 40!) telas de TV penduradas no teto, nas paredes, em toda parte. O lugar chama-se Lansdowne Pub, fica no Fenway Park, em Boston. Estava lotado de americanos vestidos de azul, vermelho e branco, muitos debaixo das cartolas do Tio Sam, portando enormes bandeiras e faixas onde se lia: “Believe”. Eles acreditavam.

Eles acreditam. Mas têm consciência de que sua seleção ainda se repoltreia no Terceiro Mundo do futebol. Porque os americanos, surpreendentemente, conhecem o nobre esporte bretão e, mais supreendentemente ainda, o praticam nas praças e nos parques. E estou me referindo aos americanos da gema, à elite branca, não aos chicanos que jogavam bola no México ou em Porto Rico.

Esses jovens americanos tomaram gosto pelo futebol. Os jovens, bem entendido. Os velhos americanos ainda preferem os quatro esportes nacionais, assistidos cada qual em sua temporada: o futebol americano, o basquete, o beisebol e o hóquei no gelo.

Antes da Copa começar, o USA Today publicou uma matéria contando exatamente isso, que esse gosto dos jovens pelo futebol fez com que as TVs americanas investissem na transmissão dos jogos. É verdade, você pode ver todas as partidas da Copa em várias emissoras, tantos as que têm programação em espanhol quanto as que têm em inglês. Nos jornais, as notícias da Copa ganham farto espaço, inclusive na capa.

O mesmo USA Today revelou inclusive que o aplicativo de encontros Tinder tem sido muito usado pelos americanos interessados em encontrar companhia feminina no Brasil. Os americanos, aliás, são os torcedores estrangeiros com mais ingressos, nesta Copa brasileira.

Eles querem ver os jogos, eles se interessam pelo que alguns já nem chamam mais de soccer e sim de “fútbol”.

Hoje, para esse jogo com a Alemanha, no Recife, as atenções dos americanos estão ainda mais atiladas, não só porque eles podem conseguir a classificação para as Oitavas, mas por um pequeno conflito pessoal que o confronto oferece. Os americanos adoram uma boa história, adoram um conto de superação ou de drama interno, e é o que vai ocorrer nesse jogo, porque o técnico dos Estados Unidos, Jurgen Klinsmann, é alemão, com luzidio currículo pela seleção alemã. Os jornalistas americanos têm se perguntado (e perguntado a Klinsmann) como ele vai reagir diante do conflito. Klinsmann responde como qualquer profissional responderia:

— Vou fazer o meu trabalho, assim como Jogi (Joachim Low, técnico da Alemanha) fará o dele.
Quando um repórter alemão fez perguntas em alemão durante a coletiva, Klinsmann rebateu:

— Em inglês, por favor.

Os americanos observaram e anotaram. Estão interessadíssimos nessa história. Estão interessadíssimos no futebol. Mais interessados seriam se tivessem clubes fortes para os quais torcer. Mas essa construção, em futebol, é lenta. O patrimônio que um Grêmio e um Inter levaram para amealhar não se faz de uma Copa para outra, leva bem cem anos de trabalho, suor e gols.