Sentado no sofá de uma das salas do casarão, Haroldo olhou para cima e viu as três mulheres que o cercavam, todas de pé, sérias, encarando-o. Daquele ponto de vista, pareciam gigantescas e amedrontadoras, mesmo as belas. Brigid, à sua esquerda, vestida de branco, loira e linda como uma ninfa a correr pelas florestas encantadas; Amora, à direita, de preto, longilínea e elegante como uma garça; entre elas, de cinza, a velha Strix, fitando-o com certo desdém dentro de seu manto surrado. Foi ela quem falou:
— Vamos lhe dar uma chance.
— Chance? Chance de quê? — Haroldo estremecia ante aquele olhar em que chamejavam a malícia e a maldade.
— Nós temos grandes planos para o menino — continuou Strix. — Um dia o retrato dele estará naquela sala — e apontou para o outro aposento, onde Haroldo sabia estar pendurado o único quadro de homem entre tantos quadros de mulheres.
— Mas o que é isso tudo? Que planos são esses? E por que o quadro dele vai para aquela sala? — Haroldo estava confuso. Tinha muitas perguntas a fazer, e as fazia em borbotões de porquês e pontos de interrogação — Por que não me contaram do meu filho? Por que...
— Calma — Amora, a que menos falava, o interrompeu. — Você vai aprender com o tempo.
— Se quiser — completou Strix.
— Ele vai querer — sorriu Brigid.
— Querer o quê? Aprender o quê? — Haroldo sentia-se num sonho. Talvez num pesadelo. Sentia-se envolvido em uma trama. Provavelmente uma armadilha. Uma cilada. O que elas pretendiam?
— Se você quiser, pode ficar aqui — explicou Brigid, enfim.
Haroldo não entendeu, a princípio. Aquilo era uma proposta? Como assim, “ficar aqui”? Ficar aquela noite? Morar ali?
— Ficar aqui? Hoje?
— Você pode viver o resto dos seus dias aqui — esclareceu Amora, grave.
Haroldo não gostou da expressão “o resto dos seus dias”. Soava como uma condenação.
— Com condições — acrescentou Strix.
— Que condições? — estremeceu Haroldo.
— Lá em cima, — Strix apontou para o alto da escadaria — no fundo do corredor, há um quarto fechado por uma porta cinza.
A porta cinza. Sim, Haroldo tinha visto aquela porta cinza, uma porta sempre fechada.
— É lá que eu vivo — continuou Strix.
Haroldo achou curioso ela falar daquela forma. “É lá que eu vivo”. Não é assim que as pessoas se referem aos seus quartos. “É lá que eu durmo” seria mais comum. Ou simplesmente: “Aquele é o meu quarto”. Afinal, ela vivia na casa toda, não vivia?
— É lá — prosseguiu Strix — que o nosso bebê vive, e é lá que ele continuará vivendo por muito tempo.
Strix fez uma pausa. Haroldo não sabia como reagir. O que ela queria dizer com tudo aquilo? Por que toda aquela conversa de quarto onde ela vivia? Haroldo não compreendia, não compreendia, não compreendia. Sua cabeça doía. Preferiu continuar calado.
Strix falou de novo, enfim:
— Talvez você possa ser útil para nós. Eu achava que não, mas as meninas me convenceram — com as duas mãos, uma apontando para a esquerda, outra para a direita, indicou Amora e Brigid. — Talvez você possa aprender algo — foi em frente. — Talvez possa nos servir.
Servir? Haroldo não gostou daquilo. Parecia estar sendo tratado como um empregado. Um criado. Mas não comentou nada. Decidiu que iria ouvir tudo até o fim, antes de falar.
— Então — continuou Strix — agora, se você quiser fazer algo de útil nessa sua vida descolorida, pode subir essa escadaria, caminhar por aquele corredor e entrar naquele quarto.
Haroldo abriu a boca. Olhou para o alto, para onde ficava a escadaria e o corredor que levava ao quarto. Finalmente se manifestou:
— Entrar naquele quarto? Para quê?
— Lá, você vai me servir. E vai servir ao menino. Ao nosso filho. Eu lhe ensinarei o que você deve fazer. Você viverá lá, comigo e com o menino, e dará um destino útil à sua vida. Você me obedecerá, será o meu lacaio, mas terá sua recompensa.
— Lacaio! Re... Que recompensa?
— Viverá conosco — observou Brigid. — Não vai ser interessante?
Haroldo balançou a cabeça. Precisava admitir que tudo o que acontecia naquele casarão era interessante, se bem que não tinha certeza de que interessante era a palavra correta naquele caso. Será que a frase de Brigid continha alguma promessa? Isso podia ser bom... Ao mesmo tempo, não gostava daquela história de lacaio.
— O que significa isso de lacaio? — questionou.
— Você não sabe o que é um lacaio? — ironizou Strix. — Um servo? Um criado submisso? Um capacho servil?
Haroldo arregalou os olhos. Por que achavam que ele iria topar uma proposta daquelas?
— Não é tão ruim — sussurrou Brigid, sorrindo, e Haroldo sentiu o coração bater mais forte ante aquele sorriso.
— Não é mesmo — concordou a voz rouca de Amora, e Haroldo ficou arrepiado com a sensualidade emanada por uma simples frase da morena.
— Mas o que vocês querem comigo? O que exatamente?
— Isso você vai descobrir com o tempo. Agora — Strix apontou para o segundo andar da casa — você vai fazer o que mando: vai subir aquela escadaria, vai percorrer aquele corredor e vai entrar naquele quarto cinza.
— Agora?
— Agora!
Haroldo se levantou, confuso. Sentia-se impelido a obedecer. Mas também queria se revoltar, mandar todas elas às favas e sair dali pisando firme. Olhou para Brigid. Ela acenou com a cabeça, sorrindo. Olhou para Amora. Ela o fitava com seu olhar blasé, indecifrável.
— Vá — ordenou Strix.
Haroldo hesitou.
— Vá! — repetiu Strix.
E ele deu o primeiro passo. Não tinha certeza de que queria dá-lo, mas deu. Era o que esperavam dele e, de alguma forma, ele não queria decepcioná-las. De alguma forma, queria pertencer àquela estranha associação. Uma família antiga elas tinham lhe dito, tempos atrás. Era atraente a idéia de pertencer àquela velha família que pendurava retratos de seus decanos pelas paredes. Era assim que ele se sentia: como membro de algo, como pertencente a algo. Talvez não fosse bom, talvez não fosse o ideal, talvez fosse até maligno, mas, de certa maneira, era algo que ele conquistara. Ou que o conquistar, tanto fazia, o importante é que ele fazia parte de algo. Ele queria ser parte de algo. Mais do que ser dono de alguém, queria ser propriedade de alguém.
Deu mais um passo. E outro. E seguiu caminhando em direção à escadaria, e subiu degrau por degrau, até lá em cima, no segundo andar. Olhou para baixo. As três mulheres o observavam, as cabeças erguidas. Os olhos delas reluziam. Haroldo teve medo delas. Não apenas de Strix, de todas elas. Por um momento, pensou em sair correndo, em ir-se daquela casa e nunca mais voltar, mas entre as três mulheres havia o berço de seu filho, que dormia. Haroldo parou por um momento. Apoiou-se no corrimão da escadaria. Uma luz de compreensão o iluminou, entendeu o que estava em jogo ali: ele se encontrava entre a solidão, que é a única forma de liberdade, e a escravidão, que é a única forma de não ser solitário. Devia ter coragem e enfrentar o ônus da liberdade? Ou se conformaria em aceitar a vida que outros escolheram para ele? Suspirou. Olhou para a porta cinza. Para baixo novamente. As mulheres o incitavam com o olhar.
— Vá — disse mais uma vez Strix.
E Haroldo foi. Caminhou com passos lentos e pesados pelo corredor. Parou sozinho em frente à porta cinza. Pela última vez, pensou em sair correndo dali. Mas a idéia de pertencer a elas, de pertencer a alguma coisa, era mais forte do que a idéia de ter controle total sobre a própria vida. Levou a mão à maçaneta. Girou-a. A porta se abriu. Haroldo sabia que, se entrasse, sua vida estaria definitivamente atrelada àquelas três mulheres, ao menino que dormia e, sobretudo, a Strix. Sabia que tinha uma última oportunidade de fugir e voltar para a sua velha vida monótona, sim, mas independente. Deveria entrar? Sem ter certeza, entrou. Fechou a porta. E foi de encontro ao seu destino.
FIM
Texto publicado em 4/2/2009








Comentários