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Túnel do Tempo: Bruxas - último capítulo

20 de novembro de 2012 6

Sentado no sofá de uma das salas do casarão, Haroldo olhou para cima e viu as três mulheres que o cercavam, todas de pé, sérias, encarando-o. Daquele ponto de vista, pareciam gigantescas e amedrontadoras, mesmo as belas. Brigid, à sua esquerda, vestida de branco, loira e linda como uma ninfa a correr pelas florestas encantadas; Amora, à direita, de preto, longilínea e elegante como uma garça; entre elas, de cinza, a velha Strix, fitando-o com certo desdém dentro de seu manto surrado. Foi ela quem falou:

— Vamos lhe dar uma chance.

— Chance? Chance de quê? — Haroldo estremecia ante aquele olhar em que chamejavam a malícia e a maldade.

— Nós temos grandes planos para o menino — continuou Strix. — Um dia o retrato dele estará naquela sala — e apontou para o outro aposento, onde Haroldo sabia estar pendurado o único quadro de homem entre tantos quadros de mulheres.

— Mas o que é isso tudo? Que planos são esses? E por que o quadro dele vai para aquela sala? — Haroldo estava confuso. Tinha muitas perguntas a fazer, e as fazia em borbotões de porquês e pontos de interrogação — Por que não me contaram do meu filho? Por que…

— Calma — Amora, a que menos falava, o interrompeu. — Você vai aprender com o tempo.

— Se quiser — completou Strix.

— Ele vai querer — sorriu Brigid.

— Querer o quê? Aprender o quê? — Haroldo sentia-se num sonho. Talvez num pesadelo. Sentia-se envolvido em uma trama. Provavelmente uma armadilha. Uma cilada. O que elas pretendiam?

— Se você quiser, pode ficar aqui — explicou Brigid, enfim.

Haroldo não entendeu, a princípio. Aquilo era uma proposta? Como assim, “ficar aqui”? Ficar aquela noite? Morar ali?

— Ficar aqui? Hoje?

— Você pode viver o resto dos seus dias aqui — esclareceu Amora, grave.

Haroldo não gostou da expressão “o resto dos seus dias”. Soava como uma condenação.

— Com condições — acrescentou Strix.

— Que condições? — estremeceu Haroldo.

— Lá em cima, — Strix apontou para o alto da escadaria — no fundo do corredor, há um quarto fechado por uma porta cinza.

A porta cinza. Sim, Haroldo tinha visto aquela porta cinza, uma porta sempre fechada.

— É lá que eu vivo — continuou Strix.

Haroldo achou curioso ela falar daquela forma. “É lá que eu vivo”. Não é assim que as pessoas se referem aos seus quartos. “É lá que eu durmo” seria mais comum. Ou simplesmente: “Aquele é o meu quarto”. Afinal, ela vivia na casa toda, não vivia?

— É lá — prosseguiu Strix — que o nosso bebê vive, e é lá que ele continuará vivendo por muito tempo.

Strix fez uma pausa. Haroldo não sabia como reagir. O que ela queria dizer com tudo aquilo? Por que toda aquela conversa de quarto onde ela vivia? Haroldo não compreendia, não compreendia, não compreendia. Sua cabeça doía. Preferiu continuar calado.

Strix falou de novo, enfim:

— Talvez você possa ser útil para nós. Eu achava que não, mas as meninas me convenceram — com as duas mãos, uma apontando para a esquerda, outra para a direita, indicou Amora e Brigid. — Talvez você possa aprender algo — foi em frente. — Talvez possa nos servir.

Servir? Haroldo não gostou daquilo. Parecia estar sendo tratado como um empregado. Um criado. Mas não comentou nada. Decidiu que iria ouvir tudo até o fim, antes de falar.

— Então — continuou Strix — agora, se você quiser fazer algo de útil nessa sua vida descolorida, pode subir essa escadaria, caminhar por aquele corredor e entrar naquele quarto.

Haroldo abriu a boca. Olhou para o alto, para onde ficava a escadaria e o corredor que levava ao quarto. Finalmente se manifestou:

— Entrar naquele quarto? Para quê?

— Lá, você vai me servir. E vai servir ao menino. Ao nosso filho. Eu lhe ensinarei o que você deve fazer. Você viverá lá, comigo e com o menino, e dará um destino útil à sua vida. Você me obedecerá, será o meu lacaio, mas terá sua recompensa.

— Lacaio! Re… Que recompensa?

— Viverá conosco — observou Brigid. — Não vai ser interessante?

Haroldo balançou a cabeça. Precisava admitir que tudo o que acontecia naquele casarão era interessante, se bem que não tinha certeza de que interessante era a palavra correta naquele caso. Será que a frase de Brigid continha alguma promessa? Isso podia ser bom… Ao mesmo tempo, não gostava daquela história de lacaio.

— O que significa isso de lacaio? — questionou.

— Você não sabe o que é um lacaio? — ironizou Strix. — Um servo? Um criado submisso? Um capacho servil?

Haroldo arregalou os olhos. Por que achavam que ele iria topar uma proposta daquelas?

— Não é tão ruim — sussurrou Brigid, sorrindo, e Haroldo sentiu o coração bater mais forte ante aquele sorriso.

— Não é mesmo — concordou a voz rouca de Amora, e Haroldo ficou arrepiado com a sensualidade emanada por uma simples frase da morena.

— Mas o que vocês querem comigo? O que exatamente?

— Isso você vai descobrir com o tempo. Agora — Strix apontou para o segundo andar da casa — você vai fazer o que mando: vai subir aquela escadaria, vai percorrer aquele corredor e vai entrar naquele quarto cinza.

— Agora?

— Agora!

Haroldo se levantou, confuso. Sentia-se impelido a obedecer. Mas também queria se revoltar, mandar todas elas às favas e sair dali pisando firme. Olhou para Brigid. Ela acenou com a cabeça, sorrindo. Olhou para Amora. Ela o fitava com seu olhar blasé, indecifrável.

— Vá — ordenou Strix.

Haroldo hesitou.

— Vá! — repetiu Strix.

E ele deu o primeiro passo. Não tinha certeza de que queria dá-lo, mas deu. Era o que esperavam dele e, de alguma forma, ele não queria decepcioná-las. De alguma forma, queria pertencer àquela estranha associação. Uma família antiga elas tinham lhe dito, tempos atrás. Era atraente a idéia de pertencer àquela velha família que pendurava retratos de seus decanos pelas paredes. Era assim que ele se sentia: como membro de algo, como pertencente a algo. Talvez não fosse bom, talvez não fosse o ideal, talvez fosse até maligno, mas, de certa maneira, era algo que ele conquistara. Ou que o conquistar, tanto fazia, o importante é que ele fazia parte de algo. Ele queria ser parte de algo. Mais do que ser dono de alguém, queria ser propriedade de alguém.

Deu mais um passo. E outro. E seguiu caminhando em direção à escadaria, e subiu degrau por degrau, até lá em cima, no segundo andar. Olhou para baixo. As três mulheres o observavam, as cabeças erguidas. Os olhos delas reluziam. Haroldo teve medo delas. Não apenas de Strix, de todas elas. Por um momento, pensou em sair correndo, em ir-se daquela casa e nunca mais voltar, mas entre as três mulheres havia o berço de seu filho, que dormia. Haroldo parou por um momento. Apoiou-se no corrimão da escadaria. Uma luz de compreensão o iluminou, entendeu o que estava em jogo ali: ele se encontrava entre a solidão, que é a única forma de liberdade, e a escravidão, que é a única forma de não ser solitário. Devia ter coragem e enfrentar o ônus da liberdade? Ou se conformaria em aceitar a vida que outros escolheram para ele? Suspirou. Olhou para a porta cinza. Para baixo novamente. As mulheres o incitavam com o olhar.

— Vá — disse mais uma vez Strix.

E Haroldo foi. Caminhou com passos lentos e pesados pelo corredor. Parou sozinho em frente à porta cinza. Pela última vez, pensou em sair correndo dali. Mas a idéia de pertencer a elas, de pertencer a alguma coisa, era mais forte do que a idéia de ter controle total sobre a própria vida. Levou a mão à maçaneta. Girou-a. A porta se abriu. Haroldo sabia que, se entrasse, sua vida estaria definitivamente atrelada àquelas três mulheres, ao menino que dormia e, sobretudo, a Strix. Sabia que tinha uma última oportunidade de fugir e voltar para a sua velha vida monótona, sim, mas independente. Deveria entrar? Sem ter certeza, entrou. Fechou a porta. E foi de encontro ao seu destino.


FIM

Texto publicado em 4/2/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - penúltimo capítulo

19 de novembro de 2012 1

Miro de Souza, Banco de dados

Cérbero os acompanhava de perto. Mais de perto do que seria desejável. Haroldo caminhava muito teso, lembrando-se da recomendação do velho senador Pinheiro Machado ao seu motorista, quando o carro que ambos ocupavam ingressou no meio de uma manifestação de opositores:

— Vamos embora. Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão depressa que pareça covardia.

Haroldo caminhava assim, medindo os passos, quase sem respirar, não ousando olhar para baixo, mas sabendo que o monstro estava ali, do seu lado esquerdo, respirando pesadamente, rosnando baixinho, os dentes à mostra, pronto para dilacerar a carne da sua perna a dentadas e mastigar-lhe até o osso. Do lado direito, Strix movia-se como num sonho. O longo manto cinza não permitia que Haroldo visse suas pernas ou seus pés, e ela, como Amora sempre fazia, flutuava pelo jardim. O caminho até a porta da casa parecia longo demais para Haroldo percorrê-lo entre aquelas duas criaturas perigosas. Cada passo era eterno; cada metro vencido, uma vitória.

Aos poucos, eles foram se aproximando da segurança. Ou, pelo menos, do que Haroldo julgava ser a segurança. Subiram no alpendre. Cérbero junto. A um metro da porta da casa, Cérbero latiu. Foi como se soassem as trombetas de Hades. Haroldo estremeceu, sentiu as pernas amolecerem, mas Strix ordenou:

— Quieto, Cérbero.

E o cão ficou quieto.

Strix abriu a porta com um leve toque do indicador. Entraram. Cérbero permaneceu no alpendre, olhando furioso para Haroldo, frustrado por ainda não ter tido a oportunidade de estraçalhá-lo.

— Venha — ordenou Strix, e eles atravessaram a sala de estar, deixando o cão lá fora. Haroldo sentiu-se um pouco mais relaxado. Um perigo a menos.

Não havia ninguém na primeira sala. Estavam na segunda. Amora, toda de preto; Brigid, toda de branco; e, num grande berço de madeira, com aparência de ser muito antigo, o seu filho. Foi para ele que Haroldo correu, emocionado. Debruçou-se no berço e viu a criança que dormia placidamente, acomodada entre pequenas almofadas, coberta por uma colcha fina.

— Meu filho! — exclamou baixinho. — Meu filho! — repetiu, e as lágrimas lhe marejaram os olhos.

Strix, Amora e Brigid observavam em silêncio, uma ao lado da outra, a dois metros de distância. Haroldo olhou para Brigid, ainda debruçado no berço:

— Como é o nome dele?

Ela sorriu:

— Haroldo… Haroldinho.

— Haroldinho! — disse Haroldo, as lágrimas agora despencando-lhe em catadupas rosto abaixo. — Meu filho! Eu tenho um filho! Haroldo! Haroldinho!

Secou as lágrimas com as costas da mão. Fungou. Olhou de novo para Brigid:

— Brigid, por que você escondeu o nosso filho de mim? Por quê???

Amora girou o pescoço elegante para ela e a encarou com uma sobrancelha levantada. Strix emitiu um som seco que veio da garganta. Um ruído de reprimenda, supôs Haroldo. As duas, Strix e Amora, fitaram Brigid. Que ergueu o queixo:

— Ele não é nosso filho.

Haroldo se pôs ereto. Virou-se de costas para o berço e de frente para as três mulheres.

— Não… Brigid! Vocês não vão me enganar. Sei que ele é meu filho. Sei disso! Ele até se chama Haroldo! Sei que o Haroldinho é meu filho.

— Ele é seu filho — respondeu Brigid. — Mas não meu.

Haroldo piscou.

— Não é seu?… Mas então de quem?… — virou-se para Amora.

A morena o fitava com impassíveis olhos negros.

— Amora? — balbuciou Haroldo. — É você?…

— Errado — disse Strix com sua vozinha mínima. — Ele é nosso filho.

Haroldo olhou para Strix. Deu um passo para trás, esbarrando no berço.

— Nosso? Como assim “nosso”?

— Meu e seu — respondeu Strix, sorrindo, divertindo-se com seu horror.

Haroldo arregalou os olhos e abriu a boca.

— Strix? — mal pôde pronunciar. — Strix!!! — repetiu. — Mas… — sentiu-se tonto, apoiou-se no berço. — Mas… — cambaleou até o sofá. Sentou-se. As três mulheres se aproximaram e o cercaram, elas de pé, ele sentado. — Mas… — balbuciou, e era só o que conseguia dizer.

Então, aquelas noites de luxúria voltaram à sua mente. Brigid montada sobre seu peito, Amora beijando-lhe a boca… Claro! Como ele podia estar dentro de uma delas se ambas estavam acima da sua cintura? Elas… Elas estavam apenas fazendo uma parede de carne para que Strix, sim, Strix, a velha Strix, a horrenda Strix, a malévola Strix, para que Strix se acavalasse sobre seu sexo e colhesse sua semente! Strix! A velha e monstruosa Strix era a mãe de seu filho! Fora tudo um plano, tudo calculado desde o início! Maldita! Malditas!

O mundo começou a rodar. Haroldo sentia-se enojado. Olhou para Strix. A velha o encarava com um meio sorriso maligno. Ela era tão velha… Como é que conseguiu conceber? Quantos anos ela teria? Parecia oitenta, cem, sabe-se lá.

— Você não sabe nada sobre as mulheres — censurou-o Strix, como se tivesse adivinhado o que ele pensava. — Talvez eu seja mais nova do que você pensa.

— E talvez eu seja mais velha — miou Brigid, sempre sorrindo.

De fato, ele nada sabia sobre as mulheres, mas percebeu que elas estava falando a verdade. Aquele menino era filho dele… e de Strix. Oh, Deus! E agora?, pensou. E suspirou alto:

— E agora?

— Agora você vai encontrar o seu futuro — previu Strix, e um arrepio de horror percorreu a espinha de Haroldo.

O que aconteceu agora com Haroldo??? Saiba a seguir no ÚLTIMO capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 3/2/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - 13° capítulo

18 de novembro de 2012 0

Brigid levava um bebê nos braços. Um menino de cabelos castanhos e ralos. Que idade devia ter? Dois? Três meses? Não podia ser muito mais. Haroldo ficou olhando, paralisado, de pé no corredor do shopping, enquanto a loira saía de uma loja de roupas infantis.

Dois ou três meses… Haroldo calculou mentalmente. Cristo! Aquele menino… era filho dele! Seu filho! Sim! Seu filho! Fechava direitinho com a data de suas aventuras no casarão! Haroldo começou a suar imediatamente. Um filho! Ele tinha um filho! Seu coração dava pulos na garganta. Ele levou a mão aos cabelos, passou-a pela nuca. Sentiu-se feliz, emocionado e, ao mesmo tempo, indignado. Ela estava escondendo o menino! Queriam tirar o filho dele! Gritou, estendendo o braço para frente:

- Brigid!

Ela estremeceu. Olhou para trás. Viu-o. E ele viu que ela o viu. Seus olhos se encontraram. Ela estugou o passo na direção contrária. Dobrou em um corredor transversal do shopping e sumiu de seu campo de visão. Haroldo saiu correndo, desviando dos transeuntes, gritando sempre:

- Brigid! Brigid! Brigid!

Ao virar a esquina do corredor, não a viu mais. Continuou correndo pelo shopping, assustando os clientes, gritando por Brigid. Em vão. Foi até a escada rolante, olhou para baixo. Nada. Viu uma loirinha no andar inferior, descambou escada abaixo, abordou-a. Não era Brigid. Era uma loira vulgar, uma coloninha que nem criança carregava.

Haroldo parou, ofegante, as mãos à cintura, olhando para os lados.

- Meu filho… – disse, baixinho. – Meu filho…

A idéia de ter um filho o excitava. Um filho! De um momento para outro, a vida de Haroldo, antes tão sensabor, ganhava significado. Ele era pai! Imaginou-se passeando com o menino pelo parque. Ele, o menino e… Brigid! Oh, teria orgulho de apresentá-la como a mãe de seu menino. Todos os homens iam sentir inveja dele. Nem precisavam casar, se ela não quisesse. Mas ele exigia participar da criação do filho. Era o filho dele, pô! Queria muito aquele filho… Fazia dois minutos que o vira, e já se sentia um paizão. Como fazer para reivindicá-lo? Teria de entrar no casarão de alguma forma. Como faria isso, com Cérbero no jardim e Strix na sala?

Haroldo ficou pensando, parado no corredor do shopping. As pessoas passavam e olhavam para ele, curiosas. Estava chamando a atenção. Caminhou até um banco de madeira sob uma palmeira. Sentou-se e pensou. Pensou, pensou. Tomou uma resolução, enfim. Saiu correndo, pagou o tíquete de estacionamento, desceu ao subsolo e encontrou seu carro. Saiu da garagem cantando pneus. Em poucos minutos, estacionava em frente ao casarão. Desceu do carro. Mal havia chegado ao portão, ele apareceu.

Cérbero.

O monstrou emergiu das sombras do jardim latindo furiosamente, jogando-se contra a cerca, arreganhando os dentes de navalha.

- Sai pra lá, desgraçado! – berrou Haroldo. Então, encheu os pulmões de ar e começou: – Brigid! Briiiiigid! BRIIIIIGID!!! Sou eu, Haroldo! Brigid! Brigid! Brigid! Sou eu, Haroldo! Quero o meu filho, Brigid! O filho é meu também, Brigid! O nosso filho, Brigid! Brigid! Briiigid! BRIGID!!!

Gritava. Gritava muito e alto e forte, espantando a vizinhança, que já acorria às janelas das casas do entorno. Um homem de calção, sem camisa e pés descalços surgiu à porta da casa da frente. Tinha um facão na mão. Haroldo olhou para ele e gritou:

- Quero o meu filho! Estou em busca do meu filho!

Virou-se para o casarão e prosseguiu:

- Brigid! Brigid! Quero o meu filho, Brigid! O nosso filho!

- Cala a boca! – ouviu. A voz vinha de algum ponto atrás dele. Era a voz infantil e assustadora de Strix. Haroldo virou-se, surpreso. Ela estava ali. Parada dentro do seu manto cinzento, os olhos malévolos brilhando, ferozes.

- De onde você veio? – estremeceu Haroldo.

- Quieto! – ela ordenou, e Haroldo e Cérbero se calaram.

- Eu disse para você não voltar.

- Eu vi meu filho! – a voz de Haroldo saiu esganiçada. – Eu vi! Não vou sair daqui enquanto não falar com Brigid e ver meu filho! Daqui não saio! Não saio! Não adianta! Vou gritar! Vou alertar toda a vizinhança! Vou chamar a polícia! Quero o meu filho!

Strix suspirou. Olhou para a casa. Para Haroldo. Para Cérbero, que os observava atrás das grades do jardim. Para Haroldo de novo.

- Venha – disse, enfim.

E caminhou em direção ao portão. Haroldo a seguiu, temeroso, olhando para Cérbero, que rosnava, ameaçador.

- Agora você vai conhecer o seu futuro – ciciou Strix, cruzando o portão. – Venha – repetiu.

E Haroldo foi.

E conheceu o seu futuro.


O que aconteceu com Haroldo no casarão???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!!!

Texto publicado em 30/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - 12° capítulo

17 de novembro de 2012 1

Banco de Dados

Haroldo decidiu que voltaria ao casarão. Pouco se importava com o cachorro. Pouco se importava! Bem… Talvez um pouco se importasse. Coisa horrenda. Nunca tinha deparado com um animal assim. O bicho era feroz, via-se. E estava louco para devorá-lo.

Quem sabe, se chegasse com jeito, se se aproximasse devagar da casa… É. Brigid poderia vê-lo da janela, ou poderia estar entrando ou saindo da casa, ou quem sabe Amora… É. Voltaria lá no dia seguinte. Isso era certo. Voltaria. E disse alto, para si mesmo, apontando o indicador para o teto:

— Voooltareeemos!

Voltou.

No dia seguinte, depois do trabalho, estacionou o carro em frente ao casarão. Havia luzes na sala — elas estavam em casa. Haroldo desceu, aproximou-se do portão. Parou. Devia entrar? E se deixasse o portão aberto para facilitar a fuga?

Hum… Da outra vez, Cérbero como que se materializara ao seu lado. O bicho era muito rápido. Melhor não arriscar. Poderia apenas ficar ali, esperando até que uma delas aparecesse. Poderia, claro… Haroldo enfiou a cara entre as grades para tentar enxergar o cachorro e aí AAAAAHHHHHHHHHHH! Cérbero saltou sabe-se de onde, exatamente, precisamente, diretamente para a sua CARA!

Haroldo emitiu um urro de pavor e se jogou para trás. Caiu de costas na calçada, sentindo com nitidez o cheiro fétido do bafo do monstro. Ficou caído por alguns segundos, ofegante, fitando com os olhos esbugalhados a fera que latia e rosnava na sua direção e saltava na cerca com tamanha força que Haroldo tinha a impressão de que a derrubaria. Não esperou para ver se conseguiria. Levantou-se e correu para o carro. Entrou, deu a partida e zuniu para longe dali, repetindo:

— O bafo! O bafo! O bafo! Pude sentir o cheiro do bafo dele! Quase que o monstro me arranca a cara fora! Quase me arranca a cara fora!

Decidiu que não se arriscaria mais. Porém, estava resolvido a retornar ao casarão. Precisava tirar aquele mistério a limpo. Mais: precisava rever Brigid. E Amora também. Ah, sua vida se tornara colorida graças a elas. Não sabia se teria graça viver sem aquelas mulheres lindas e misteriosas, a partir de agora.

Pois Haroldo voltou ao casarão. Vinte e quatro horas depois, lá estava ele. Só que não saiu do carro. Ficou esperando sentado atrás do volante, de campana, olhando para as luzes nas janelas. Esperou, esperou, ninguém apareceu. De madrugada, quando as luzes se apagaram, ele foi embora. Voltou no dia seguinte, no outro e no outro ainda. Nada.

Continuou sua vigília durante um mês inteiro. Nada. Aos poucos, foi desanimando. Convenceu-se de que elas sabiam que ele estava ali e que, por isso, evitavam sair, ou não entravam, ou talvez houvesse outra porta, que droga. É verdade que, de vez em quando, ele passava de carro pela frente do casarão. Dava uma volta na quadra, mais uma, outra, mais outra. Nunca viu nenhuma delas. Cérbero, sim. Volta e meia via Cérbero circulando pelo terreno.

Os meses foram passando e, embora Haroldo não esquecesse o que lhe sucedeu no casarão, aos poucos foi desistindo de tentar encontrar Brigid. Afinal, ela não queria encontrá-lo. Se quisesse, o procuraria. E o acharia facilmente. Não, ela não queria mais vê-lo, isso era certo. Por que, então, aquela noite? Ou, antes: aquelas noites, que foram tantas… Por quê?…

Quase um ano se passou. Haroldo não esqueceu Brigid. Nem Amora. Nem Strix. Muito menos o cão Cérbero. Mas se conformou, que fazer? Sua vida voltou ao velho ritmo, à velha monotonia, tudo sempre igual, nenhuma emoção, nem alegria, nem medo; nem tensão, nem tesão.

Quase não passava mais em frente ao casarão, não alimentava esperanças de encontrá-las, até que, numa tarde de sábado, quando passeava distraído pelo shopping, a viu. Loira, linda e dourada, vestida de branco, como sempre, Brigid saía de uma loja, e com ela… Deus! Haroldo não acreditou no que viu! Não era possível! Ou era?

O que Haroldo viu?
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 29/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - 11° capítulo

16 de novembro de 2012 1

De algum lugar do fundo do jardim, das sombras, talvez de trás de uma árvore, ou quem sabe de um arbusto ou uma pedra, ou até brotado do chão, emergindo das profundezas, sabe-se lá, surgiu um cão.

Um cão.

Um rotwailler, especulou Haroldo em seu horror, ou um dobermann. Não. Não podia ser um dobermann. Era muito maior do que um dobermann. Era maior do que qualquer cachorro que Haroldo já vira em toda a vida. Um rotwailler gigante, podia ser, Haroldo não sabia bem, só sabia que o monstro negro, sim, ele era negro e tinha uma cabeçorra negra e olhos assassinos e dentes pontiagudos e a boca também negra da qual pendia uma baba viscosa, pois Haroldo só sabia que essa fera corria rosnando na sua direção, com suas quatro pernas musculosas, suas patas que terminavam em garras afiadas, todo seu corpo fazendo um som abafado e ameaçador de força e energia agressivas prontas para explodir. Vou morrer, pensou, esta besta vai me matar a dentadas, arrancar-me pedaço por pedaço do corpo, até que eu morra.

Em um décimo de segundo, Haroldo compreendeu que, se corresse, o monstro o devoraria. E talvez fosse até pior. Todos dizem que não se deve correr dos cachorros. Compreendeu também que, se ficasse, o bicho pularia em sua garganta e a esfacelaria. E que, se tentasse lutar, não teria forças para suplantá-lo.

Naquele momento, Haroldo sentiu algo que jamais sentira na vida: o medo absoluto. Mais do que medo: pavor. Preparou-se para morrer trucidado, todos os seus músculos se retesaram, ele rilhou os dentes, prendeu a respiração e teve tempo de começar uma oração. Então ouviu aquela frase, dita em tom baixo, quase um sussurro, mas impositiva:

— Quieto, Cérbero!

E o cachorro estacou.

A um palmo de saltar sobre Haroldo, ele estacou. Ficou rosnando baixinho, fitando-o com seus olhos vermelhos de demônio, a boca negra aberta, os dentes dilaceradores de carne expostos, a respiração pesada fazendo um ruído de morte, louco para arrancar-lhe nacos do seu frágil corpo humano.

Haroldo olhou-o, paralisado pelo pânico, as costas grudadas à parede da casa.

— Quieto, Cérbero — repetiu a voz.

Só então Haroldo viu quem o salvara.

Strix.

Envolta em seu manto cinzento, a velha maligna surgira de algum lugar ao seu lado e comandara a fera. Encarou Haroldo com seu olhar de fogo e gelo e disse, baixinho porém perfeitamente audível:

— Vá embora daqui e não volte nunca mais. Se voltar, Cérbero vai comê-lo vivo.

Haroldo não discutiu, não questionou, não reclamou, nem sequer falou. Queria sair dali. Queria ver-se livre daquela fera. Cérbero. Aquilo era nome de cachorro? Deslizou para fora do alpentre, para fora do jardim, caminhando com dificuldade sobre suas pernas moles. Entrou no carro. Ligou-o, trêmulo, e arrancou para longe daquele lugar maldito.

Ao chegar em casa, ainda tremia. O que havia acontecido? Por que Strix o ameaçou daquele jeito? Por que ele não podia voltar ao casarão? Aquilo não podia ficar assim. Ah, não podia! Ele teria que fazer algo! Ele ia fazer!

O que fez?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 28/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - 10° capítulo

15 de novembro de 2012 1

Durante o resto daquele dia, Haroldo tentou consertar os danos causados por sua ausência. Voltou para o trabalho municiado com uma cartucheira de mentiras. Disse que foi sequestrado, que estava passando mal, que ficara doente, o que, de certa forma, era verdade.

Achou que não seria fácil convencer o chefe, mas seu lastimável estado de saúde acabou por comover o homem. Haroldo emagrecera quatro quilos, estava com a pele lívida e macerada, olheiras roxas afundavam-lhe os olhos.

— Nossa! — exclamaram os colegas ao vê-lo. — O que houve??? Você parece um fantasma!

Haroldo queria morrer. Realmente, queria morrer e transformar-se num fantasma. Precisava se recuperar. O chefe foi sensível: mandou-o de volta para casa. Haroldo voltou. Alimentou-se bem naquele dia. Descansou. Dormiu. No dia seguinte, acordou em melhor estado. Só então passou a tentar entender o que havia ocorrido no casarão. Aqueles licores, aquelas vitaminas que Brigid lhe servira… Ela o dopara, óbvio.

Haroldo não conseguia discernir o que era sonho do que era realidade. E aquela Strix. Quem era aquela mulher? Mama Strix, elas o chamavam. Uma megera mãe de duas pérolas. Haroldo tinha medo dela. Daquela Strix. Era certo que ela havia entrado no quarto. Era certo que também partilhara da cama com ele. Com eles. O que ela fizera? O que acontecera de fato naquelas noites brumosas?

Haroldo decidiu que forçaria a mente até descobrir. Também havia Brigid. E Amora. Precisava falar com ela. Com elas. Depois do trabalho, iria à academia. Procuraria Brigid. Tentaria esclarecer algumas coisas. Aquelas noites haviam sido muito intensas. Doentias, até. Haroldo não tinha certeza de que gostaria de repetir a dose. Bem, claro, fora bom, ele queria aquilo de novo, mas… não tanto! Uma semana de luxúria… Uma semana inteira! Como ele havia aguentado?

Haroldo ruminou suas dúvidas durante todo o dia. Ao sair do trabalho, correu para a academia. Estava ansioso para falar com Brigid. Chegou à academia e deu uma olhada pelo ambiente. Nada de Brigid. Trocou de roupa, foi para a sala dos equipamentos e procurou por ela. Não a encontrou. Decidiu esperar que ela aparecesse. Poderia estar atrasada… Não apareceu. Depois de uma hora, resolveu perguntar por ela. Foi à administração e a resposta o deixou petrificado:

— Ela pediu demissão há uma semana.

Haroldo não sabia o que pensar. Queria falar com Brigid, mas nem sequer tinha o telefone dela! Bem, poderia passar no casarão. A idéia de ver Strix o desencorajava, mas, em compensação, havia Brigid e Amora. Duas contra uma. Resolveu ir.

Foi.

Dirigiu até a rua em que ficava o casarão. Estacionou o carro. Sorriu: havia luzes lá dentro. Elas estavam em casa! Abriu o portão do jardim. Entrou. Subiu no alpendre para tocar a campainha. E então o inferno veio em sua direção.

O que aconteceu com Haroldo???
Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 27/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - nono capítulo

14 de novembro de 2012 0

O mundo tornou-se pastoso a partir daquele momento. Quanto tempo ele dormiu? Meia hora? Um dia inteiro?

Haroldo não sabia, mas, ao despertar, Brigid o esperava com um copo na mão. Vira e mexe ela está com um copo na mão, pensou Haroldo, enquanto olhava para aquele copázio cheio de um líquido cremoso e marrom.

— Que é isso? — quis saber.
— Vitamina — miou Brigid. — Você vai precisar.

Bebeu tudo. Precisava mesmo. Sentia-se fraco. Mas, ao terminar a bebida de um sabor doce indefinível, as forças se lhe retornaram. E Brigid já se jogou sobre ele e sua cabeça rodou e uma música suave flutuou nas sombras do quarto e destas mesmas sombras surgiu Amora, morena, alta, magra, nua, as pernas fortes, os braços macios, a boca sedenta, e tudo recomeçou.

Aquilo se repetiu muitas vezes. Haroldo dormia, sonhava com as mulheres em sua cama, acordava e as mulheres estavam em sua cama, engolia aquela vitamina, era possuído por elas, tinha a impressão de ver o vulto de Strix nos cantos do quarto, observando-o, de campana, como uma ave de rapina, acordava, dormia, bebia o suco, levantava-se para ir ao banheiro, pensava em sair e era puxado de novo para a cama pelas mão macias de Brigid.

Assim foi, assim continuou sendo, até que, numa das vezes em que Haroldo despertou, o quarto, pela primeira vez, estava iluminado pelo sol e, pela primeira vez, não havia ninguém com ele.

Estava sozinho.

Todo o seu corpo doía, sua cabeça doía, ele se sentia fraco e doente. Ergueu-se com dificuldade, arrastou-se até o banheiro e quase caiu. Uma tontura poderosa o obrigou a sentar-se no piso frio. Ainda no chão, Haroldo arrastou-se de joelhos até o vaso e vomitou a bílis.

Depois de se lavar, trêmulo e suado, Haroldo se vestiu e, finalmente, abriu a porta do quarto. Não havia ninguém no corredor, ninguém no segundo piso, ninguém em todo casarão. Ao ganhar a rua, Haroldo protegeu os olhos com as mãos. A luz do sol feriu suas retinas. Entrou no carro. Voltou para casa. No apartamento, colocou a bateria do celular para recarregar. Quando o aparelho ligou, Haroldo emitiu um ó de espanto: uma semana! Ele havia ficado uma semana no casarão.

Uma semana! Ele mal acreditava. E agora? O que seria da sua vida com aquela semana perdida? E o trabalho? E os amigos? Decerto estavam preocupados com ele. E Brigid? E Amora? Quando tornaria a vê-las. Devia vê-las de novo? Haroldo sentia-se mal. Não sabia o que fazer. A vida naquele casarão era definitivamente especial, muito mais colorida e interessante do que sua própria vida. Mas também parecia uma vida perigosa. O que devia fazer? O que fez?

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 26/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - oitavo capítulo

13 de novembro de 2012 0

Elas haviam sumido. Para onde poderiam ter ido? Um segundo antes, apenas um segundinho antes, Haroldo ouvia a conversa delas e agora só Brigid estava lá, de pé, sorrindo, com um copinho de licor nas mãos.

— Para você — ofereceu.

Haroldo hesitou. Não confiava nas beberagens daquela casa. Mas como recusaria? Seria falta de educação. E um pouco de falta de coragem também. Pegou o copo.

Bebeu.

Oh, como era bom… E como era inebriante. Em dois segundos, Haroldo sentia-se feliz como um menino com um Chica Bom, em dois minutos, via-se subindo as escadas em direção ao quarto da loira Brigid. Ela era o seu Chica Bom, ah, era, e, enquanto galgava os degraus, Haroldo ia cantarolando baixinho:

— Chica Bom, bom, bom, Chica Bom, bom, bom…

Brigid o acompanhava sorrindo, puxando-o pela mão. Aquela mão fria e macia. No escuro do quarto, coisas estranhas começaram a acontecer. Brigid o levou para a cama, acomodou-o sobre os travesseiros, recuou dois passos e se despiu. Deitado de costas, Haroldo viu surgir aquela nudez loira e resplandecente e pensou que a vida pode ser boa. Nua, linda, fulgurante e ondulante, ela se aproximou da dama e, com suas próprias mãozinhas brancas, tirou a roupa dele, peça por peça, lentamente, e depois subiu em cima dele e esfregou-se nele e Haroldo pensou que explodiria de prazer e então outra coisa estranha aconteceu.

Havia mais alguém ali. Ele sentiu. Mais do que a presença, Haroldo sentiu o toque de outra mulher, outras mãos ágeis e velozes. Mãos que sabiam o que fazer. Agora, Brigid já estava acavalada sobre o peito dele, alisando-o, acariciando-o, e aí as mãos delgadas e morenas dela, de Amora, envolveram-lhe o pescoço, e a cabeça dela se insinuou entre o peito dele e o peito de Brigid, e a boca de Amora procurou a sua e o sugou e mordiscou seus lábios e enfiou a língua entre seus dentes e os cabelos negros dela se misturavam aos cabelos loiros de Brigid e Haroldo ficou tonto de desejo. Havia duas mulheres lindas ali, na cama, com ele, aquilo não podia ser verdade. Em um segundo, ou um minuto, ou dez, ele não conseguia precisar, ele estava dentro de uma delas, não sabia qual. Os corpos se misturavam, as sensações eram tão deliciosas quanto misteriosas. As duas o beijavam, ambas estavam montadas nele, os rostos delas se fundiam, apareciam e desapareciam na penumbra, e ao mesmo tempo ele sentia o sexo úmido e quente que o envolvia e o levava ao êxtase. Eram duas mulheres, pareciam cem, mil. Braços, pernas, bocas, coxas, nádegas, línguas e seu sexo sendo envolvido pelo sexo molhado e quente de alguém que ele não sabia quem.

Depois de algum tempo, de muito tempo, Haroldo alcançou o clímax, um orgasmo convuso e soluçante como jamais havia experimentado. Seu corpo como que desfaleceu, seus membros ficaram lassos, ele percebeu que não resistiria ao sono e ao cansaço que o dominavam. Seus olhos pesavam, seu pensamento jazia confuso, ele viu que Amora deslizou para fora da cama, ele viu que Brigid se aninhou ao lado dele, ele já ia adormecer, e então, para seu horror, deparou com aquela presença maléfica bem ali, a dois passos de distância.

Strix.

Seus olhos de ave de rapina brilhavam no meio do quarto, sua boca malévola sorria com sarcasmo. Envolta em uma espécie de manto cinza, ela o observava ameaçadora e feroz.

Haroldo quis gritar, não conseguiu; quis sair correndo, Brigid o conteve com facilidade, segurou sua cabeça contra o travesseiro e em um átimo de segundo o mundo escureceu.

O que aconteceu com Haroldo???

Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 25/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - quarto capítulo

08 de novembro de 2012 3

Haroldo sentiu medo. Não queria encontrar ninguém ali. Já tivera sua cota de emoções por uma noite, e tudo ocorrera melhor do que o esperado. Aliás, tudo ocorrera melhor do que ele jamais poderia esperar em toda a sua existência. Nunca uma mulher o havia abordado tão diretamente quanto o abordou Brigid, e nunca, nunca, nunca, com nenhuma mulher, em tempo algum, ele havia passado momentos como os que passou com Brigid. Ainda não sabia exatamente o que havia acontecido naquele quarto, lá em cima, no segundo andar, mas fora bom, envolvente e perturbador.

Parou ao pé da escada, fitando o vulto, que, ele sabia, o observava. Era uma pessoa alta e magra, isso conseguia ver. A pessoa deu um passo em sua direção e ingressou no cone de um facho de luz que vinha da lua lá fora, penetrando pela grande janela da sala. Haroldo retesou-se. Devia recuar?

Não.

Não queria parecer um cachorrinho assustado. Permaneceu firme, encarando o vulto que tomava forma à medida que a luz o banhava. Então, viu.

Era uma mulher.

Bonita.

Linda.

Morena, os cabelos lisos escorrendo pelos ombros, olhos negros e luzidios, pescoço comprido de garça. Vestia uma saia negra, longa, que lhe cobria os pés, uma blusa também negra e, curioso, brincos negros. Era a primeira vez que Haroldo reparava nos brincos de uma mulher, mas não podia deixar de fazê-lo, porque tudo nela era negro, assim como tudo em Brigid era branco. Devia ser mais velha do que Brigid, talvez uns trinta e poucos anos. Olhava-o sorrindo.

- Haroldo? – perguntou, com uma voz de aço e mel.

Haroldo arregalou os olhos. Que voz!

- Sou… eu… Como… voc… a senhora sabe?

- Eu sei. Não precisa me chamar de senhora. Meu nome é Amora.

- Amora…

- Amora. Vou abrir a porta para você.

Amora então deslizou até a porta, e deslizar não era força de expressão. O longo vestido não permitia que Haroldo visse seus pés nem o movimento de suas pernas. Ela como que flutuava até a porta. Haroldo a acompanhou, encantado. Será que estava voando mesmo? Que mulher fascinante! Que magia ela tinha! O que era tudo aquilo que acontecia naquela casa?

Ela abriu a porta de um jeito tão leve, tão sutil, que Haroldo não conseguiu sequer ver sua mão no trinco. Ou a porta teria sido aberta ante seu pensamento?

Haroldo estava enfeitiçado. Sem dúvida nenhuma enfeitiçado.

- Quero que você volte amanhã – disse Amora, despendindo-o.

Foi comos e fosse uma ordem.

E Haroldo sabia que a obedeceria.

O que aconteceu quando a obedeceu? Saiba AINDA HOJE, no próximo capítulo de Bruxas!

Texto publicado em 20/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - terceiro capítulo

07 de novembro de 2012 2

Desejo versus prudência. É sempre a mesma disputa. No caso de Haroldo, já era muito tarde para a prudência vencer. O desejo havia avançado demais.

Ele entrou.

A casa cheirava a coisa antiga. Não velha: antiga. Haroldo não conseguia enxergar direito os móveis da sala escura. Apenas percebia que o lugar era grande, que havia sofás pelos cantos e quadros na parede.

- Por aqui – indicou Brigid, e começaram a subir uma escadaria de madeira.

O corredor do segundo andar também estava à meia-luz, só um pouco mais iluminado por um pequeno abajur encostado à parede. Era um longo corredor. Haroldo agradeceu por não precisar percorrê-lo inteiro: o quarto no qual Brigid o introduziu ficava perto da escada. Ela abriu a porta, empurrou-o para dentro e acendeu a luz. Haroldo se surpreendeu. Não parecia o quarto de uma garota de vinte e poucos anos. Os móveis eram pesados e escuros. Havia uma penteadeira que podia ser dos anos 40 e a cama… tinha dossel. Haroldo balbuciou, admirado:

- Uma cama com dossel…

- Minha família tem gostos antigos. Uma família tradicional – explicou Bridig, parada ao lado dele, na entrada do quarto.

- Onde eles estão? Viajando?

- Por aí… Isso não interessa. Quero fazer umas coisas com você.

- Coisas? Que coisas?

- Você vai descobrir. Vamos beber algo antes.

Brigid o conduziu até a penteadeira. Sobre a penteadeira havia uma bandeja. Sobre a bandeja, duas garrafas quadradas com tampas de vidro. Uma garrafa verde, outra garrafa azul. Brigid tomou um cálice. Nele derramou dois dedos do líquido leitoso da garrafa verde e, em seguida, mais dois dedos do caldo dourado da garrafa azul. Levantou o cálice e esperou os dois líquidos se misturarem.

- Bebe – disse, entregando-o a Haroldo.

- E você? – perguntou ele, pegando o cálice pela haste.

- Eu também vou beber – disse ela, servindo-se do licor achocolatado de uma terceira garrafa.

Beberam.

A bebida de Haroldo era doce e áspera. Era ótima.

- Bom… comentou, depois de sorvê-la toda, gole por gole, avidamente. – Muito bom! – acrescentou, fitando o cálice vazio.

Brigid sorriu.

- Ervas – comentou.

Tomou sua mão.

Aí o mundo começou a girar.

Haroldo ingressou num plano de sonho, numa espécie de quarta dimensão, num estado de prazer absoluto. Era como se estivesse embriagado, como se o mundo estivesse distorcido e enevoado.

Haroldo mal compreendeu o que lhe aconteceu a seguir.

Estava nu, Brigid também estava nua, e a nudez dela era resplandecente. Nunca vira nenhum ser humano nem sequer assemelhado a ela. Ela não tinha mais 1m61cm de altura, era uma mulher imensa, de dois metros, de longos braços, de pernas sem fim, e ele não sabia mais se a possuíra ou se fora possuído por ela. Experimentou orgasmos múltiplos, em ondas, gorgolejantes, profundos, loucos.

Dormiu.

Foi despertado por Brigid às cinco da madrugada.

- Agora você tem de ir. Tem um carro esperando ali fora.

Haroldo obedeceu. Tudo dera certo demais, até então. Vestiu-se apressadamente. Deu um beijo de despedida na loura, que, nua, o observava da cama, sentada, de pernas cruzadas.

Saiu do quarto. Caminhou vacilante pelo corredor mal iluminado. Agarrou-se ao corrimão para descer as escadas. Ao chegar ao primeiro piso, estremeceu. Havia alguém parado ao lado da escada, o vulto escondido pelas sombras.

Quem era???


AAAAH, saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 19/1/2009

Túnel do Tempo: Bruxas - segundo capítulo

06 de novembro de 2012 1

Brigid estava vestida de branco. Toda de branco. Sempre se vestia de branco. Agora, apresentava-se dentro de um vestido leve, que mal lhe cobria as coxas lisas, amarrado à cintura por um cordão dourado. Calçava sandálias brancas de salto alto e tiras trançadas nas canelas macias, quase até os joelhos.

Haroldo engoliu em seco quando a viu. Tão linda que chegava a doer. Sentiu vergonha de suas roupas. Vestia um jeans surrado, tênis de corrida e uma camiseta laranja que já fazia aniversário. O terceiro aniversário. Ela pareceu não reparar.

— Vamos no meu carro? — propôs.

Ele topou. Não queria instalar aquela mulher no seu Golzinho 1000. Quando chegou ao carro dela, no estacionamento, levou um choque. Não sabia nem qual era a marca daquele carro. Um conversível importado, preto, parecia o foguete do Space Ghost.

— Nossa… — deixou escapar.

Brigid sorriu.

Haroldo acomodou-se no banco de couro preto. Ela arrancou. Dirigia velozmente pelas ruas da cidade, quase temerariamente. Levou-o a um restaurante que ele não conhecia.

— Aqui tem carne de caça — anunciou.

— Adoro carne de caça.

Era a primeira mulher que ele conhecia que gostava de carne de caça.

O porteiro saudou-a com uma mesura. Sabia quem ela era. Haroldo sentiu ainda mais vergonha quando entrou no lugar. Um lugar fino, definitivamente. Todos os homens ali estavam de gravata. Ele, nem gola para pendurar gravata ele tinha.

Um garçom que haroldo jurava ser inglês os conduziu para uma mesa perto da parede. Sentaram-se e, antes que fizessem os pedidos, outro garçom, que Haroldo jurava ser francês, surgiu com duas taças borbulhantes de champanha.

Não havia dúvida, eles a conheciam. Haroldo experimentou a champanha. Delícia. Geladinha. A partir daquele instante, ela começou a fazer perguntas.

— Você é do Interior?

— Sou — respondeu ele, indagando-se como é que ela sabia. — Passo Fundo.

— Casado?

Haroldo estremeceu com a rudeza da pergunta dela. Normalmente as mulheres tergiversam um pouco mais antes de perguntar isso.

— Já fui. Sou separado.

— Hum. Filhos?

— Não.

Haroldo sentia-se numa entrevista de emprego. Ela estalou os dedos e o garçom veio de algum lugar com a garrafa de champanha. Completou os copos.

— Tem parentes vivos? — prosseguiu ela.

— Uns primos, lá em Passo Fundo. Mas não tenho mais contato com eles.

— Hum. Parece bastante solitário. Você é um solitário?

Haroldo estava confuso. Por que uma mulher daquelas, linda daquele jeito, fazia-lhe tantas perguntas?

— Bom… Acho que sou um pouco solitário.

— Sozinho no mundo, ahn?

Haroldo não estava gostando do rumo da conversa. Ela tinha muita autoridade, muita certeza do que fazia. Ele se sentia estudado, avaliado. Mas decidiu ir em frente. Ela era desejável demais para ele não ir em frente.

— É. Sou sozinho no mundo. Sim, eu sou. Sozinho. No mundo.

Dizer aquilo fez-lhe sentir um pouco de nostalgia. A forma como se definiu: sozinho no mundo. Meio triste.

— Vou dar um jeito nisso – sentenciou Brigid. E, em seguida, levantou-se e disse: – Vamos?

Haroldo franziu a testa.

— Para onde?

— Para minha casa?

— Sua cas… mas nós não íamos jantar?

— Não estou mais a fim de jantar. Não quero perder tempo. Você quer?

Ela já estava de pé. Haroldo levantou-se também.

— Não — balbuciou. — Não quero.

— Então vamos.

Ela começou a se encaminhar para a saída.

— E a champanha? – quis saber Haroldo.

— Tenho conta aqui.

Saíram. Embarcaram no carro outra vez. Em poucos minutos, e sem trocar mais palavras, chegaram à casa dela, num bairro afastado da cidade, numa rua escura. Uma casa grande, de dois pisos, de madeira, com aspecto envelhecido.

Haroldo estremeceu. Algo lhe dizia para não entrar. Devia entrar?

— Vamos? — propôs ela, saindo do carro.

Haroldo mais uma vez, a segunda naquela noite, engoliu em seco. Por alguma razão, teve medo. Não queria entrar naquela casa. Entraria?


Saiba logo, no próximo capítulo de… Bruxas!

Texto publicado em 15/1/2009

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - Último capítulo

02 de novembro de 2012 1

Arte sobre foto de Ronaldo Bernardi, BD - 5/2/2004
Puro reflexo: atirei o maço de dinheiro ao chão. Avancei até a minha mesa, assustado. Por mil tropas de elite, como é que esses caras descobriram que eu havia roubado a empresa??? Estava perdido. Perdido!


Enquanto caminhava para frente, Clóvis dava alguns passos para trás, igualmente espantado com a entrada dos policiais. Não por acaso: eles irromperam no escritório com grande estardalhaço, falando alto, caminhando com passadas largas, gritando, dentro de seus coletes:
— Polícia Federal! Polícia Federal!

Eu e Clóvis ficamos ombro a ombro, ambos de olhos esbugalhados, tensos. Um dos policiais veio já com as algemas numa das mão. Enxerguei-me saindo do escritório chutado, algemado, tapado de vergonha.

Renata Inês me veria sendo conduzido ao presídio, decerto sairia correndo aos prantos direto para Pinhal, traumatizada. Mas, também, culpa de Renata Inês. Devolver o dinheiro, francamente, que idéia!

O agente se aproximou de mim. Preparei-me para estender os pulsos — decidi não resistir à prisão. Mas ele se voltou para Clóvis. Rosnou:
— O senhor está preso por corrupção ativa!
E o algemou.

Abri a boca, pasmado. Os outros agentes se espalharam pelo lugar, uns recolhiam as CPUs dos computadores, outros vasculhavam as mesas e as gavetas, um deles foi direto ao cofre e começou a colocar o dinheiro em um saco. O dinheiro… O meu dinheiro!

Todos falavam ao mesmo tempo, tudo acontecia velozmente, e eu ali, parado, de pé, tentando pensar. Aos poucos, compreendi o que estava acontecendo: a Polícia Federal devia estar investigando Clóvis havia algum tempo.

Normal, a Polícia Federal tem investigado muita gente há muito tempo. Com a apreensão dos computadores, as transações ilícitas seriam comprovadas, Clóvis pegaria algum tempo de cadeia. Não muito, decerto, mas ficaria desmoralizado.

E o dinheiro… o dinheiro… o meu dinheiro seria recolhido pela Justiça! Óbvio: tratava-se de dinheiro não declarado, um dinheiro que tinha de ser lavado, um dinheiro pelo qual Clóvis não teria explicação!

Quer dizer: se eu tivesse ficado com o dinheiro… se eu tivesse ficado… se tivesse… ninguém daria pela falta dele!!! Lógico! Clóvis não daria queixa por roubo, porque o dinheiro, em última análise, é roubado. Se ele ficasse quieto a respeito do dinheiro, só tinha a ganhar! Além disso, a Polícia não sabia da existência daquela importância na empresa! Não havia como saber!

Oh, meu Deus, oh, meu Deus, oh, meu Deus! Eu ficaria com todo o dinheiro, não seria acusado de nada, estaria livre para viver até em Porto Alegre, se quisesse. Poderia continuar trabalhando na empresa, inclusive!!! Não ia querer, obviamente, mas até isso poderia fazer. Sim, porque nem contador oficial da empresa eu era! Apenas fazia o trabalho informal para o Clóvis. Então… eu ficaria livre e rico! Livre e rico! Tive vontade de gritar:
— WOLFREMBAER!!!

Mas não gritei. Comecei a passar mal. Senti-me tonto. Minha cabeça rodava. Rodava mais que os casais. Apoiei-me na mesa. Respirei fundo. Um agente falava com Clóvis. Interrogava-o, creio. Alguém falava comigo, mas eu não conseguia ouvir direito. Puxei a cadeira. Sentei-me. O que havia feito comigo mesmo? Ah…

Bom, pelo menos fiz por amor. Sim, tudo o que fiz, fiz por amor. Roubei por amor. Ou, antes, por desamor. Por ter sido traído por Luísa. Ao menos acho que fui traído. Bem, se não fui ainda, serei. No caso, seria. Será que seria? Será que fui? Maldita, Luísa! E agora devolvi o dinheiro por amor a Renata Inês. Pelo meu futuro com Renata Inês.

Renata Inês. Pensar nela me fez bem. A tontura passou. Renata Inês me esperava lá fora, paradinha na calçada, torcendo as mãozinhas, rezando por mim. Querida! Amo Renata Inês. Sempre amei.

Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês. Uma mulher que vale milhões. Literalmente.

Foi nesse momento que Renata Inês apareceu na sala. Ficou parada à porta, piscando. Olhou para mim e começou a dizer:
— Vim ver o que estava acon…

Então olhou para o meu chefe algemado. Ele olhou para ela. Ela arreagalou os olhos. Ele levantou uma sobrancelha. Ela gritou, apertando com as mãos o peito arfante:
— Clóvis Rodolfo!!!

E ele, baixinho, um mero sussurro:
— Renata Inês…

Ela, com lágrimas nos olhos:
— Não acredito que é você, Clóvis Rodolfo!!!

Ele apenas suspirou.
— Clóvis Rodolfo! — repetiu ela, desesperada. — Há quanto tempo, Clóvis Rodolfo! Que saudade, Clóvis Rodolfo! O que estão fazendo com você, Clóvis Rodolfo???

Levantei da mesa. Balbuciei:
— Re-Renata Inês…

Ela virou os olhos marejados para mim.
— Você não me disse que seu chefe era o Clóvis Rodolfo!!! — berrou, acusatória.
— Eu… Clóvis Rodolfo?… — eu não sabia o que dizer. Mas não precisei dizer nada, porque ela nem ia ouvir. Já estava concentrada no meu chefe, urrando:
— Clóvis Rodolfo! Clóvis Rodolfo! Clóvis Rodooooolfooooo!!!

Os agentes da Polícia Federal prepararam-se para levar Clóvis embora. Nem sabia que esse cara se chamava Clóvis Rodolfo. Agarraram-no pelos braços. Clóvis se aprumou, as mãos algemadas diante da barriga.
— Nããããããããã… — gritou Renata Inês, atirando-se aos pés dele. E de novo: — Nãããããããããããããã…

Os agentes não se compadeceram. Arrastaram-no para fora. Antes de sair pela porta, Clóvis virou-se para trás e sentenciou:
— Eu voltarei, Renata Inês!

E se foi.

Renata Inês ficou rojada no chão do escritório, soluçando, tartamudeando sem parar:
— Clóvis Rodolfo, Clóvis Rodolfo, Clóvis Rodolfo…

Suspirei pela última vez naquele dia. Saí dali para não mais voltar. E aprendi minha lição. Espero que vocês tenham aprendido também. Prestem atenção:

A gente nunca deve falar sobre dinheiro roubado para a Renata Inês.

FIM

Texto publicado em 22/10/2007

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 10° capítulo

01 de novembro de 2012 1

Estaquei em frente à porta da empresa, a mala de dinheiro pesando na mão direita. Respirei fundo. Fechei os olhos e, com os olhos fechados, pensei em todo o dinheiro do qual estava prestes a me desfazer.


Maços de dinheiro amarrados com atilho, dinheiro suficiente para viver bem toda uma vida, para viajar pelo mundo, para comprar os carros mais escandalosamente luxuosos, para seduzir as mulheres de pernas mais longas e cabelos mais louros e seios mais inflados com silicone, mulheres de bocas carnudas e olhos piscantes e cílios de dois dedos de comprimento e pele amaciada por cremes franceses, mulheres com piercing de ouro nos umbigos sem funflas, mulheres que só andam de salto alto, mulheres com hálito de chocolate branco e calcanhares lisos. Suspirei. Abri os olhos. Olhei para trás, por cima do ombro. Renata Inês continuava do outro lado da rua, parada na calçada, expectante. Renata Inês é que era o meu futuro, a partir de agora.

Nós dois em Pinhal, vivendo dias de alguma privação, mas muito amor… Renata Inês lançou-me um olhar incisivo, como se dissesse para eu ir de uma vez rumo ao meu destino.

Em seguida, encolheu os ombros, perguntando o que, afinal, eu estava fazendo. Sorri debilmente. Pensei em nós dois juntos, eu trabalhando de contador da prefeitura, ela plantando chicória na nossa horta…

Mais um suspiro. Tirei a chave do bolso. Abri a porta. Entrei. Caminhei devagar pelo corredor, passando pelas salas vazias. Ainda faltavam alguns minutos para que os primeiros funcionários chegassem.

Minha sala, onde ficava o cofre, situava-se no fundo. Era a última. Nunca levei tanto tempo para caminhar até lá. Abri a porta da sala. Olhei para o cofre. Pensei em Luísa. Estaria preocupada com meu sumiço? Ou aproveitou para se regalar com o maldito Clóvis? Teria ido à polícia, procurado pelo meu corpo no IML, ligado para os hospitais? Ou festejou a minha ausência?

Luísa… Como era linda. Havia poucas loiras como ela no mundo. Na verdade, nunca confiei totalmente nela. Linda demais, jovem demais, viva demais para agüentar tanto tempo de matrimônio fiel com um cara como eu, um comum, um contador, um homem com nome composto. Mas tinha de me trair com meu próprio chefe? Tinha??? Aquele Clóvis…

Bom, era preciso reconhecer: ali estava um conquistador. Um tipo bonitão, cheio de charme. As mulheres enlouqueciam com ele. Suspirei novamente. Nunca havia suspirado tanto na vida. Caminhei até o cofre. Fiz a mala pousar ao lado. Abri o cofre. Abri a mala. E comecei a colocar o dinheiro de volta ao lugar de onde o tirara, dias atrás. Tão poucos dias, e parecia ter se passado um ano inteiro.

Minha vida mudou naquele pequeno naco de tempo. Fechei o cofre. Sentei-me à minha mesa. Cravei os cotovelos no tampo, segurei a cabeça entre as mãos. Lembrei que Renata Inês estava lá fora, me esperando. Que esperasse. Por favor, o sacrifício que eu fazia por ela! Todo aquele dinheiro…

Olhei para o cofre. Oh, queria passear os olhos por aquela massa de dinheiro mais uma vez. Renata Inês, desculpe, mas você terá de esperar mais um pouquinho por Pinhal. Abri o cofre novamente. Retirei um maço de dinheiro. Outro. E mais outro. Comecei a empilhar o dinheiro em cima do cofre.

Empilhei tudo, maço sobre maço. Sorri. Que bela visão. As pessoas matavam por aquilo. Recuei para ver melhor a cena. Então, ouvi vozes no corredor. Duas ou três pessoas conversavam – os funcionários chegando. Não tinha percebido que havia se passado tanto tempo. Tinha de pôr o dinheiro no cofre outra vez.

O que iriam pensar, se vissem todo aquele dinheiro ali? Era perigoso, muito perigoso. Dei mais uma olhada no monte de reais. Nesse momento, identifiquei a voz de Clóvis. Mas que droga! Não queria que ele me visse ali. Não queria que ninguém me visse. Queria ir embora sem dar explicações… Se bem que, puxa, eu precisaria do dinheiro da rescisão de contrato para a minha nova vida em Pinhal…

Uma coisa era certa: Clóvis não devia ver aquele dinheiro exposto. De jeito nenhum. Caminhei até o cofre. Peguei um maço de dinheiro. E a porta da sala se abriu. Clóvis entrou e deixou-a aberta. Olhou perplexo para mim, depois para o cofre, em seguida para o dinheiro e finalmente para o maço em minha mão. Ia dizer alguma coisa, quando foi interrompido por uma vozearia que vinha do corredor. Gritos, portas batendo. Clóvis olhou para trás e arregalou os olhos.

Estiquei o pescoço para distinguir o que acontecia. E vi a cena horrenda. Era a polícia que vinha em minha direção. GLUP!!!

O que vai acontecer??? Como terminará a história de Rudi Orlando??? Saiba amanhã, no último capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 21/10/2007

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 9° capítulo

31 de outubro de 2012 4

Devolver o dinheiro??? Que idéia escalafobética era aquela de devolver o dinheiro???


— Não posso! — exclamei. — Não posso, Renata Inês! Como é que vou devolver o dinheiro, Renata Inês??? Por favor, Renata Inês!!!
— É a única saída, Rudi Orlando — ela estava realmente muito séria. Séria como uma vegetariana.
— Mas, pensa, Renata Inês. Pensa! Podemos ir para a Europa com esse dinheiro. Para as Ilhas Maldivas! Podemos passar a vida toda viajando e curtindo, comendo camarãozinho frito, bebendo quipe culer, limpando o suor da testa com lenços umedecidos. É muito dinheiro, Renata Inês!

Ela sorriu, enfim.
— Gostei disso — amaciou a voz, e sua frase seguinte saiu como se fosse um afago em meus tímpanos cansados: — Gostei de saber que você tem planos comigo. Mas agora pense: seríamos perseguidos por onde fôssemos. A empresa colocaria até a Interpol atrás de nós. Que vida levaríamos? De fugitivos? De desgarrados? De Bins Ladens? Não… — ela balançou a cabeça. — Não… Não quero levar essa vida. Quero tranqüilidade, Rudi Orlando. Eu quero uma casa no campo, onde eu possa ficar do tamanho da paz. É por isso que você tem que devolver o dinheiro, Rudi Orlando.

— De que jeito??? — comecei a ficar nervoso. Muito mais nervoso do que estava até então. — Se devolver o dinheiro, vou ser preso! Você não pensou nisso??? Eu no Presídio Central, com aqueles presidiários todos loucos por pegar uma carne nova. O que eles iam fazer comigo, Renata Inês?!? Eu ia virar mulherzinha deles, Renata Inês! E eu não quero ser mulherzinha…

— Claro que pensei nisso. Você não vai ser preso, Rudi Orlando.
— Como não??? – estava extremamente nervoso.
— Escuta meu plano: ficamos mais um dia aqui. Depois, voltamos a Porto Alegre. Na terça, bem cedinho, antes da empresa abrir, você vai lá, entra, coloca o dinheiro de volta no cofre e vai embora. Você tem a chave, ora! Não precisa mais trabalhar lá, não precisa nem dar explicação. Precisa apenas devolver o dinheiro. Eu vou junto com você. Depois que você fizer isso, vamos os dois para Pinhal. Direto para Pinhal! Tenho uma casa lá. Podemos viver com simplicidade em Pinhal. Você abre um pequeno escritório de contabilidade, eu vou fazer sanduíche de lombinho para vender na praia durante o verão. Faz o maior sucesso, o meu sanduíche de lombinho.

— Pinhal?… — A descrição que Renata Inês fizera do nosso futuro me seduzira um pouco. — Tenho uma casa em Pinhal…
— Pois é! Podemos vendê-la e usar o dinheiro para comprar um terreno que tem ao lado da minha. Podemos plantar uma horta, e tudo mais. Plantaremos brócolis, chicória… Não seria lindo?
— É… Nunca comi chicória…
— Mas aí você tem que devolver o dinheiro, Rudi Orlando!
— Aiaiai…
— É o certo a fazer, Rudi Orlando. O certo! Olha: essa nossa noite, esse nosso reencontro, toda essa coincidência me despertou muitos sentimentos. Acho que, ao reencontrar você, me reencontrei, Rudi Orlando. Por que não tentar? Vamos tentar! Vamos?

Respirei fundo. Sorri:
— Vamos!

Ela bateu palminhas de felicidade.
— Que maravilha! — festejou. — Iabadabadu!!!

E eu:
— Iabadabadu!!!

E nós dois:
— Iabadabadu!!!!!!

E pulou em cima de mim. Nua. Nua, nua, nua, a mulher mais nua de Punta del´Este.

Foram horas de amor como jamais havia experimentado. Ela fez até a famosa %22trançada à ioguslava%22, que loucura uma trançada à ioguslava. Uma sintonia toda especial tinha se estabelecido entre mim e Renata Inês.

Ah, Renata Inês.
Renata Inês, Renata Inês, Renata Inês…

Na terça-feira, bem cedo, nos encontrávamos em frente à empresa onde eu trabalhava. Na minha mão direita, a mala cheia de dinheiro. Na esquerda, a mão macia de Renata Inês.
— Vou ficar aqui na esquina, esperando por você — prometeu ela. E acrescentou, suavemente: — Vai lá. Vai…

Enchi os pulmões de ar. Apertei mais uma vez a mãozinha de Renata Inês. Larguei-a, em seguida. E atravessei a rua. Sentia o peso da mala repleta de dinheiro e pensava: %22Que vou fazer? Meu Deus, o que é que vou fazer?%22

O que ele vai fazer? Ahn??? Saiba no próximo e derradeiro capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 19/10/2007

Túnel do Tempo: TENTAÇÃO - 8° capítulo

30 de outubro de 2012 1

Contei tudo. Mas tudo.


Só que, ao contrário do que esperava, não me senti aliviado. Senti-me apreensivo. Renata Inês fincou-me um olhar grave, enquanto eu narrava a história, e não me livrei da gravidade daquele olhar nem ao concluir a narrativa. Terminei, e ela ficou em silêncio. Pensando. Deu-me um aperto no peito. Um aperto cada vez mais forte, cada vez mais forte, que chegava a doer.

Renata Inês não me olhava, agora. Olhava para o vazio. Para algum ponto vago na parede branca. Estava nua e linda, e eu estava nu e indefeso. Era como me sentia: indefeso. Havia removido minhas defesas, tinha entregado minha alma a Renata Inês, e agora dependia dela. Da sua compreensão. Da sua boa vontade.

Renata Inês poderia sair dali naquele momento e me entregar à polícia, poderia chantagear-me, poderia abandonar-me e nunca mais falar comigo. Essas possibilidades me apavoravam. Precisava descobrir o que se passava pela cabeça dela. Precisava saber o que ela pensava de mim. Disse, com medo:
— Renata Inês…

E ela, balançando a cabeça, como em desaprovação, ainda sem me encarar:
— Rudi Orlando…

Eu, agora como se implorasse:
— Renata Inês!

Ela, ainda mais decidida na sua desaprovação:
— Rudi Orlando!


Eu havia estragado tudo. Oh, Deus, por que fui abrir a boca? Por quê? Idiota! Sempre falava demais! Esse era um dos meus maiores defeitos. Podia ter dito que o dinheiro era de uma herança, que não queria mais voltar ao Brasil por causa da minha mulher, que queria viajar com Renata Inês pela Europa, sei lá, poderia ter inventado qualquer história, menos contar a verdade. Fora burro. Como fora burro!

— Renata Inês — repeti, desesperado. — Por favor, diga alguma coisa.
— Vou dizer — ela ainda estava balançando a cabeça negativamente, ainda estava olhando para o nada.
— Diga, então.
— Vou dizer.
— Por favor.

Ela olhou para mim. Havia determinação em seu olhar. Seus olhos tingiram-se de verde-escuro, de uma tonalidade que jamais vira em Renata Inês. Despertou-me certo medo, mas também excitação. Confesso: a mutação de Renata Inês, sua expressão firme, a luz feroz em seus olhos, tudo isso deixou-me emocionado.

Ela suspirou, enfim, e enfim falou:
— Você vai ter que fazer uma coisa.
— O quê? O quê???
— Promete que vai fazer o que eu pedir?
— P-prometo.
— Jura?
— Juro!
— Pela minha morte?
— Pela minha.
— Não. Pela minha.
— Isso não.
— Jura!
— … — suspirei. — Tá bom. Eu juro.
— Pela minha morte.
— Juro pela sua morte.
— Que vai fazer o que eu pedir.
— Vou fazer o que você pedir.
— Diga!

Vacilei. Mas obedeci:
— Juro pela sua morte que vou fazer o que você pedir.
— Então…
— Então?…
— Então quero que você devolva esse dinheiro.


PUTZ!!! E agora? Rudi Orlando vai cumprir o prometido?
Saiba amanhã, em mais um capítulo de… TENTAÇÃO!!!

Texto publicado em 18/10/2012