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Posts na categoria "Histórias da Arábia"

Histórias da Arábia - VI

10 de dezembro de 2010 1


Quando Hira se rendeu ao Islã, em 633, Khalid, “a Espada de Alá“, estipulou que uma certa dama chamada Kermat devia ser dada a um soldado árabe. Segundo esse soldado o próprio Profeta Maomé havia-lhe prometido Kermat anos antes.

A família da moça chorou ao saber da notícia, mas Kermat os tranquilizou. Garantiu-lhes que não seria escravizada. Pelo seguinte motivo:

“O tolo me viu quando era jovem e esqueceu-se que a juventude não dura para sempre“.

Kermat tinha razão. Vendo-a, o soldado arrepiou-se todo e concordou em libertá-la em troca de um pouco de ouro. Kermat. Eis uma mulher ocm autocrítica.



Histórias da Arábia - V

10 de dezembro de 2010 4


Tenho cá minha edição do Alcorão Sagrado, muito bonita, em capa de couro, verde e dourada, com comentários abalizados explicando do que se trata cada verso, traduzida pelo professor Samir El Hayek.


É o mais importante livro já publicado escrito por um único homem. A Bíblia, lembre-se, é obra de diversos autores.


Mas Maomé não o escreveu, fisicamente falando. Em árabe, “qur’ân” significa “leitura” ou “discurso”, e é isso que é o Alcorão. São os discursos que Maomé proferiu durante 23 anos e que foram anotados por seus companheiros em pergaminhos, tiras de couro, folhas de palmeira ou esternos humanos. Foram guardados sem ordem cronológica ou qualquer tipo de sistema. Os 114 capítulos, ou “suratas”, estão arranjados em ordem decrescente de tamanho. Não se trata, portanto, de uma história ou uma coleção de histórias.


A religião muçulmana ensina que o Alcorão na verdade é uma obra divina e não humana. Foi ditado a Maomé principalmente pelo arcanjo Gabriel. A primeira aparição do arcanjo ao Profeta aconteceu numa noite de 610, quando ele descansava numa caverna de Hira, próxima a Meca. É uma história sensacional. O Profeta contou que estava dormindo “com uma colcha de brocado de seda, em que havia algumas escritas”, quando o anjo surgiu e ordenou:


“Leia!”.


Maomé, que até então era provavelmente analfabeto, como 95% da população da Península Arábica da época, replicou:


“Não leio”.


Em reação, o anjo apertou-o com a colcha tão fortemente que ele pensou que fosse morrer. A seguir soltou-o e disse de novo:


“Leia!”


“Então li em voz alta e e ele se foi finalmente.”


Note a primeira ordem do arcanjo ao Profeta: “Leia!”


É o que sempre digo: nada mais importante do que a Educação.

















Histórias da Arábia - parte IV

09 de dezembro de 2010 2

Um dia dos velhos dias do século 8, o jovem Yezid, irmão do califa Solimão, comprou uma escrava chamada Habiba por quatro mil peças de ouro. Uma fortuna, mas ela valia cada moeda. Yezid a possuiu e a amou com sincera devoção.

Solimão, no entanto, não aprovou o relacionamento e mandou que o irmão devolvesse a escrava ao vendedor. Yezid obedeceu, contrafeito. Tempos depois, Solimão morreu e Yezid foi elevado ao poder máximo do Islã. Estava, então, casado com uma mulher que agradara ao irmão. Essa mulher, preocupada com a felicidade do marido, perguntou-lhe:

“Meu amor, existe algo que você mais deseje neste mundo?”

Yezid suspirou:

“Sim: Habiba”.

Foi a vez da esposa suspirar. Conformada, ela procurou a escrava, encontrou-a e a enviou de presente para o marido. Em seguida, retirou-se para as sombras do harém.

Yezid viveu feliz com Habiba durante alguns anos. Um dia, em meio a um banquete, brincou com a mulher atirando-lhe um bago de uva na boca. Ela engasgou e morreu em seus braços. Uma semana depois, Yezid morreu de tristeza.

Parece uma história infeliz. Não é. O amor não realizado é que é o grande amor.

Histórias da Arábia - Parte III

08 de dezembro de 2010 0

Um dos vencedores do concurso de poesia dos tempos pré-islâmicos foi uma ode de Imru-Iqais. Segundo o grande Will Durant, trata-se de um verso “descaradamente sensual”:


Amel Emric/AP

“Formosa era também aquela outra, a de véu, tão distante, tão reservada e tão cautelosa! E no entanto me recebeu de braços abertos.


Passei entre as cordas da sua tenda, embora sanguinários parentes seus estivessem na escuridão para me matar.


Cheguei à meia-noite, quando as Plêiades se apresentavam como elos de aljofar, prendendo o zodíaco no firmamento.


Entrando furtivamente, ali fiquei. Ela havia despido toda a roupa, menos uma, o vestido da noite.
Ternamente me censurou: ‘Que estratagema é esse? Fala, sob teu juramento, ó louco. Grave é a tua loucura’.


Saímos juntos. Ela, astuta, arrastava a cauda do vestido para ocultar nossas pegadas duplas.
Fugimos além das luzes do acampamento. Ali, na escuridão protetora, deitamo-nos na areia, longe de olhos importunos.


Junto de suas tranças cortejei-a, atraí seu rosto para perto de mim, alcancei sua cintura. Tão frágeis os anéis do tornozelo.


Claras faces _ não vermelhas _ fisionomia nobre, seios lisos como se fossem vasos de vidro, nus com os colares.


(…)


Seu colo esbelto, branco como o de uma gazela, liso até os lábios entreabertos _ pérolas são seus ornamentos.


Sobre os ombros caem bastos anéis de cabelo, escuros como frutos pendentes dos ramos da tamareira…


Cintura delgada _ uma corda de poço não é tão tênue. Suaves são suas pernas, como caule de cana arrancado numa fonte.


A manhã toda ela dorme, monte de indolência. Ao meio-dia dificilmente está de pé com a roupa do dia.”

Histórias da Arábia: muito antes da bola

08 de dezembro de 2010 1


Antes do futebol, mas bem antes mesmo, tipo há 1.500 anos, os árabes gostavam era de campeonato de poesia. Os poetas declamavam seus versos para grande público, que os ovacionava ou apupava. Os vencedores recebiam o nome de “Cantos Dourados” e se transformavam em motivo de orgulho para o clã de onde vinham. Uma dessas poesias imortais contava como as mulheres árabes incentivavam seus homens a partir para a guerra:

“Coragem! Coragem, defensores de mulheres! Matai com o fio de vossas espadas! Somos as filhas da estrela matutina, macios são os tapetes que calcamos debaixo de nossos pés, nossos pescoços estão adornados de pérolas, nossas madeixas são perfumadas com almíscar. Apertaremos nos nossos seios os bravos que enfrentam o inimigo, mas os covardes que fogem nós os desprezaremos. Não serão para eles nossos abraços!”

Histórias da Arábia

08 de dezembro de 2010 0

A propósito do Mundial Interclubes, disputado nos Emirados Árabes, vou contar a partir de hoje algumas histórias e curiosidades da Península Arábica, do Islã e do Islamismo. Aí vai:


A Rainha de Sabá

Houve, na Península Ibérica, um reino muito conhecido de cristãos e judeus: o Reino de Sabá. Localizava-se mais ou menos onde fica hoje o Iêmen e a Etiópia, ocupando, portanto, uma esquina da península e um naco do Chifre da África. Foi por volta de 950 antes de Cristo que a rainha de Sabá empreendeu o que, naqueles tempos em que a BR-101 não havia sido duplicada, era uma viagem épica: foi à Palestina para conhecer Salomão, rei de Israel, filho de David (bonito nome).

Houve quem dissesse que Salomão e a rainha tiveram um caso que inclusive rendeu descendência e alguns versos plangentes no Cântico dos Cânticos, mas isso não é certo. O certo é que a rainha era formosa, rica e arrojada. Uma mulher perigosa, pois.