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Posts na categoria "Metamorfose"

A Metafomorfose - fim

04 de dezembro de 2010 1

_ Me tira esse troço.

_ Hein?

_ Esse troço.

_ O um…

_ Isso. O umbigo.

_ Mas como é que a senhora vai ficar sem umbigo?

_ Pra que que serve o umbigo?

_ Bom, o umbig…

_ Pra nada. Nada! Não tem função.

_ Mas, minha senhora, a senhora…

_ Você não é cirurgião plástico?

_ Sim, eu sou, eu…

_ Consegue tirar o meu umbigo?

_ Claro que consigo.

_ Então me tira esse troço.

Estava decidida. Não ia mais se arriscar. Arrancaria o mal pela raiz. Alisaria a barriga. Extirparia não apenas a bolota que se lhe saltara, mas o umbigo inteiro, num zaz.

E assim o fez.

Zaz.

Saiu da mesa de operações sem o umbigo.

Passadas algumas semanas, resolveu estrear o ventre novo na praia. Meteu-se em um biquíni mínimo. Pelo espelho grande do quarto, avaliou a nova aparência. As pernas compridas, que sempre foram seu trunfo, continuavam compridas, macias e firmes. Se há uma coisa que, em geral, se mantém na mulher, são as pernas, e as dela eram pernas de propaganda de creme de depilação, ah eram. Belas pernas.

A bunda ainda não cedera à força da gravidade, resultado de minutos sem fim de exercícios diários para os glúteos na academia. Verdade que aqui e ali surgiam dobras indesejáveis, mas, enfim, o que fazer? Mesmo as meninas mais tenras agora apresentavam celulite e algumas até, o horror!, estrias. Muito ketchup, só podia ser.

Os seios também resistiam com bravura, dois valentes soldados postados de vigília em frente ao forte. Ela já havia decidido que, quando desabassem, colocaria silicone sem o menor dó. Teria seios redondos e empinados, os homens a olhariam e a chamariam de vaca de divinas tetas. Mas ainda não chegara a hora. Os seios continuavam em estado satisfatório, embora tivessem uma coisinha de que ela não gostava: um olhava para um lado, outro para o outro. Isso a irritava. Mas, quando colocasse silicone, corrigiria esse defeito também.

Finalmente, ela examinou a barriga.

Lisa.

Perfeita.

Sem umbigo.

Sorriu. Amarrou uma canga à cintura.

E marchou em direção ao mar marulhante.

Não demorou a acontecer. Mal pisou na areia, reparou que os homens a observavam com gula. Mas não foram eles, foi uma mulher quem notou. Uma magricela de cabelo vermelho. Ela viu quando a mulher apontou diretamente para onde devia existir umbigo em sua barriga, num gesto que tentava ser discreto. Logo, a turma da mulher de cabelo vermelho enviava olhares para a sua barriga. Em alguns minutos, todo um naco da praia passava diante dela e esticava o olhar para seu ex-umbigo. Houve uma mudança no ambiente, ela sentiu que havia uma agitação, um murmurinho, uma excitação inusual provocada… pelo seu umbigo. Ou pela falta dele.

Suportou aquilo por alguns minutos, tentou não se abalar. Mas no momento em que as crianças se acercaram dela, no momento em que riram e a chamaram de A Mulher Sem Umbigo, então ela passou a se achar uma anomalia, um ser de outro planeta, uma pária. Levantou-se da toalha, protegeu o corpo com a canga e foi-se embora, ouvindo, ao longe, as gargalhadas do povo cruel, que repetia “sem umbigo, sem umbigo, sem umbigo…”

É assim que é. As pessoas não aceitam o diferente. Não aceitam o novo. Ela nunca mais foi à praia. Ela rejeita todos os homens. Como poderia se despir diante de um, se sabia que ele iria rir, ou, pior, falhar nas lides do amor devido à sua… deformidade?

Ela se enclausurou. Ela se tornou amarga. Ela passa os dias a sofrer. Porque, ao contrário de todas as pessoas da Humanidade em todos os tempos, bilhões e bilhões de seres humanos em milhões e milhões de anos, ela é uma mulher sem umbigo. A única e triste mulher sem umbigo.


A Metamorfose - 3

28 de novembro de 2010 1

O umbigo é um nó. Ela não parava de pensar nisso. O que muito a angustiava. Porque um nó, assim como é atado, pode ser desatado.

E se ela, ao combater as funflas, tivesse desatado o nó do próprio umbigo? Aquela bolota poderia ter esse significado: o nó desatado que agora saltava para fora do ventre, prestes a se abrir para a liberdade. Ou seja: em breve, o buraco por onde ela, ainda feto, sorvia o alimento da mãe, aquele buraco se abriria novamente e tudo o que havia em seu interior vazaria.

Oh, Deus! Ela imaginou suas entranhas sendo vomitadas pela abertura do umbigo e começou a passar mal.

Que morte horrível.

Mas havia algo ainda pior do que morrer daquela forma decerto dolorosa: ela não teria a solidariedade de ninguém. As pessoas ririam dela. Alguns males são horrendos, mas não contam com a solidariedade das pessoas. A diarreia, por exemplo. Ninguém leva a diarreia alheia a sério. Triste para o diarréico. Assim seria morrer de umbigo desamarrado.

“Desamarrou o próprio umbigo e morreu esvaindo-se: ridí-cu-lo!”

É o que as pessoas diriam, ela sabia. “Ri-dí-cu-lo”. Sobretudo algumas de suas amigas invejosas. Aquelas malditas, se descobrissem que seu umbigo agora é de bolota, ela estava perdida. Viraria motivo de chacota na cidade. Os homens apontaria para ela e cochichariam na mesa dos bares:

“Aquela ali tem umbigo do bolota…”

Tinha que tomar uma atitude.

Tinha!

Tomou.

Qual?

Saiba no próximo intrigante capítulo de… A Metafomorfose!!!

A Metamorfose - 2

25 de novembro de 2010 4

As flunfas!

A culpa era das flunfas. Ou seriam funflas? Seja como for, esse é o nome que o Veríssimo dá à sujeirinha do umbigo. Ela se irritava com as funflas que se acumulavam no nó de seu umbigo. Um dia, decidiu removê-las sem piedade. Procedeu à limpeza armada com cotonete e álcool. Fuçou, fuçou. Retirou muita funfla preta, muita funfla petrificada. Mas não toda. Não, senhor. Algumas haviam se grudado às dobras do umbigo como cracas no casco do navio. Tratavam-se de funflas antigas, que, esquecidas naquela região pouco acessada do corpo, se homiziaram, se radicaram e se cristalizaram.

Só que ela não ia se deixar derrotar. Ah, não! Investiu contra as funflas com denodo. Raspa, raspa, raspa!

Saiu da operação com o umbigo limpo e reluzente, porém dolorido.

A dorzinha não cessou durante o dia inteiro. O que a fez pensar: teria se ferido? Teria, talvez, desatado o nó do umbigo?

Sim, porque o umbigo é um nó. Você sabe: você, ao nascer, o médico cortou-lhe o cordão umbilical que o unia à sua mãe e lhe provia de alimento. Depois, com perícia médica, amarrou o cordão em um nó e o enfiou para dentro do ventre. O que virou umbigo. Depende, pois, da arte do médico a forma como será o seu umbigo. Delgado, discreto, agressivo ou saltado.

O dela era discreto.

Agora está saltado.

De bolota.

Será que ela, ao limpar as funflas, desatou o nó do umbigo???

É possível isso???

Responda, por favor.

A Metamorfose

24 de novembro de 2010 4

Uma manhã, ela estava tomando banho quando descobriu que havia uma bolota em seu umbigo.

Quer dizer: a bolota saltara de dentro do seu umbigo, era O PRÓPRIO umbigo, que, por alguma razão, saltara para fora.

Ficou horrorizada.

O verão estava chegando. Verão, você sabe: tempo de barrigas expostas, de mini-blusas, de biquínis. Tempo de mostrar o umbigo!

Como poderia sobreviver ao verão com uma bolota no meio do seu umbigo?

Já vira umbigos de bolotas. Mas em homens, jamais numa mulher. Suas amigas, e até suas inimigas, tinham umbigos formosos, pequenos, para dentro. Umbigos que enfeitavam com piercings, que douravam ao sol do Rio ou de Punta, que volta e meia eram lambidos por línguas sôfregas de homens musculosos. Como um homem ia se sentir atraído por um umbigo de bolota???

Era uma tragédia.

Era o fim.

Ela morreria solteira.

O que deveria fazer?

Responda antes do segundo capítulo de… A Metafomorfose!!!