História dos Grenais
Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.
O Campeonato Farroupilha
O certame de 1935 foi o mais importante desde a criação do Campeonato da Cidade, em 1910. Foi o Campeonato Farroupilha, em comemoração ao centenário da Guerra dos Farrapos. A Redenção, ou Parque Farroupilha, sofreu mudanças radicais por causa do festival do centenário. Porto Alegre passou o ano vivendo o festival, embelezando-se para as comemorações. Foram instituídos troféus para torneios de remo, basquete, tênis, atletismo, natação, pólo e futebol. Em setembro, na semana farroupilha, chegou à capital do Estado o presidente da República, Getúlio Vargas, para prestigiar as festividades.
Em 28 de julho, foi disputado o primeiro Grenal do Campeonato Farroupilha. O Inter, campeão da cidade e do Estado, era o favorito. O Grêmio estava sem Luiz Carvalho, que se transferira temporariamente para o Rio de Janeiro, onde defendia o Vasco da Gama. Mais grave era o caso de Lara. Dois meses antes, numa partida contra o Santos, ele se chocara com o atacante Mário Seixas e sofrera uma concussão no peito. Seu problema, então, veio à superfície: Lara era cardíaco. Mesmo contra as recomendações médicas, Lara continuou jogando. E no Grenal do final de julho foi, de novo, um dos destaques.
Mas o herói de fato terminou sendo o ponteiro-esquerdo Castilho, autor do célebre Gol do Avião. Ocorreu que Castilho estava com a bola em frente à área do Inter no momento em que um avião passou a fazer piruetas sobre o campo dos Eucaliptos. Acrobacias do gênero eram inéditas na Porto Alegre da década de 1930.
O que levou o goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada, do Colorado, a se distraírem do jogo e levantarem as cabeças para o céu, entre temerosos e surpresos. Castilho, por outro lado, não se descuidou da bola e a mandou para as redes do Inter. Graças ao Gol do Avião, o Grêmio empatou o jogo em 1 x 1. Depois do Grenal, estranhamente, Castilho sumiu, desapareceu. Diziam que os colorados, furiosos com o tal gol, haviam-no raptado e que ele estava bem escondido numa casa do bairro Belém Novo. Castilho só ressurgiu em 1936, jogando com a camisa vermelha.
Quando da decisão do Campeonato Farroupilha, em 22 de setembro, Castilho já estava devidamente evaporado. O Inter faria de tudo para ganhar aquele campeonato. Seus torcedores mostravam-se confiantes de que isso aconteceria. Principalmente devido ao inesperado fracasso do Grêmio, uma semana antes, contra o Força e Luz. O Tricolor atrapalhou-se todo, perdeu por 2 x 0 e deixou o Colorado com um ponto de vantagem.
Bastava um empate para o bi. Além do mais, o grande Lara não devia jogar. Sua doença se agravara e os médicos o proibiram de entrar em campo.
No domingo, com a certeza da vitória colorada, um dos torcedores do Inter deu-se ao trabalho de caçar 11 cachorros pelas ruas de Porto Alegre, pintá-los, todos, de vermelho e amontoá-los dentro de uma camionete. Conduziu o carro para a frente da Baixada e foi para as arquibancadas. Seu plano era de, encerrado o jogo, com a provável vitória do Inter, soltar a cachorrada no gramado, só de farra.
Não desconfiava o torcedor que naquele instante Lara comunicava aos dirigentes do Grêmio e aos seus companheiros de time que ele ia jogar de qualquer jeito. E que não tentassem demovê-lo. Pouco minutos antes, Foguinho chegava à Baixada no bonde Auxiliadora. Passara a viagem pensando em como derrotar aquele poderoso time do Internacional. Sequer reparara na paisagem ou nos reclames pregados às paredes do carro, como os famosos versos construídos sob encomenda pelo poeta Bastos Tigre:
"Veja, ilustre passageiro
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite,
quase morreu de broquite:
salvou-o o Rhum Creosotado"
Haveria Rhum Creosotado capaz de salvar o Grêmio naquela tarde?
Dois terços do Fortim da Baixada estavam pintados de vermelho. O jogo nem começara e a torcida do Inter pulava nas arquibancadas. Os gremistas só se animaram quando viram a figura esguia de Lara entrando em campo.
Lara não decepcionou. O Inter dominou todo o primeiro tempo, rondou a área do Grêmio, atacou com perigosa insistência. Mas a zaga gremista tinha Dario e Luiz Luz, o Fantasma da Área. Por fim, a bola que passasse por eles acomodava-se nos longos braços de Lara. O primeiro tempo terminou em 0 x 0.
O problema era que 0 x 0 significava a morte para o Grêmio. A torcida colorada passou o intervalo comemorando, barulhenta. Na volta dos jogadores ao gramado, a festa vermelha aumentou. Lara, não suportando as dores no peito, saiu, entrando Chico em seu lugar.
Estimulados pelo desfalque do adversário, os jogadores do Inter atiraram-se à frente. Os ataques se sucederam cada vez com maior frequência. Dario e o Fantasma da Área cansaram de tirar bolas de cabeça, de bico de chuteira, de canela, de peito, de nariz. Colocavam o rosto na frente dos chutes colorados, tudo para impedir a derrota. Na frente, seus companheiros não encontravam nenhum atalho para o gol.
A partida terminava aos 80 minutos – dois tempos de 40. Aos 37 do segundo tempo, o placar ainda em 0 x 0, o torcedor colorado que guardara os cachorros vermelhos na camionete saiu correndo do estádio, faceiro e saltitante como uma camponesa num piquenique. Abriu a porta de trás do carro e preparou-se para levar os cães ao gramado da Baixada.
Faltando dois minutos para o final do jogo, o Grêmio teve a seu favor uma falta na intermediária do Inter, quase no grande círculo do meio de campo. O juiz Francisco Azevedo aproveitou para olhar no relógio e conferir quanto faltava para encerrar a partida. Os torcedores colorados prosseguiam com a festa nas arquibancadas.
Foguinho pegou a bola com as mãos, aproximou-se do centromédio Mascarenhas e cochichou no seu ouvido direito:
– Levanta no meio da área que o Risada vai tirar e eu vou pegar o rebote.
Foguinho confiou a bola ao companheiro e caminhou rápido para a área colorada. Mascarenhas cumpriu o combinado. Com o pé direito, alçou a bola à marca do pênalti. Lá estava Risada. O zagueiro do Inter pulou mais do que todos os adversários e testou a bola para a frente. Ela descreveu um arco e caiu na meia-lua da área. Bem onde a esperava a perna esquerda de Foguinho.
O meia do Grêmio não permitiu que a bola tocasse o chão. Encheu os pulmões de ar, rilhou os dentes, jogou o peso do corpo na perna direita e bateu. Ela saiu incandescente de seu pé esquerdo e foi incinerar as redes do goleiro Penha.
Num átimo, as duas torcidas ficaram em silêncio, incrédulas. Décimos de segundo depois, o lado azul projetou-se das arquibancadas num grito só: gol!
Os jogadores do Internacional não acreditavam. Tontos, encaminharam-se ao meio de campo para dar nova saída de jogo. O juiz apitou, a bola rolou, Foguinho deu o bote e recuperou-a mais uma vez. Saiu correndo como um touro enfurecido, espalhando defensores, com os colorados que restavam de pé desesperados no seu encalço.
Assim continuou Foguinho até a área do Internacional. Penha, vendo que ele ia gol adentro, saiu para tentar a defesa. Quando o goleiro chegou perto, Foguinho encostou a bola mansamente para o lado, onde estava seu companheiro Laci. O ponteiro só precisou empurrá-la para dentro do gol.
O juiz apitou o final do jogo. A torcida só podia gritar uma palavra:
– Foguinho! Foguinho! Foguinho!
No lado de fora do campo, um colorado não entendia nada. O mal-aventurado proprietário dos cachorros vermelhos tentara sair com eles da camionete quando Foguinho fez o primeiro gol. O foguetório gremista assustou a cachorrada, contida com dificuldades pelo torcedor.
Um minuto depois, no entanto, estourou o segundo gol. Ninguém seguraria os cachorros enlouquecidos com as bombas, certamente irritados por passar a tarde encerrados numa camionete, suando, latindo uns para os outros. A matilha avançou no dono, que foi parar no hospital. Salvou-se das mordidas, mas quase sofreu um ataque cardíaco ao saber do resultado do jogo.
Na Baixada, a festa não parava. Alguns jogadores e dirigentes continuaram comemorando noite adentro. Entre um chope e outro, o técnico Sardinha I, emocionado, sugeriu que o título do Centenário Farroupilha fosse comemorado por mais um século. Proposta aceita, desde 1935, em 22 de setembro, o Grêmio realiza o Jantar Farroupilha em homenagem àquela conquista heróica.
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