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A morte de Lara

21 de outubro de 2010 1

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


A morte de Lara

O goleiro Lara não participou do segundo Jantar Farroupilha. Terminada a partida, feliz com a vitória mas contorcendo-se de dor, ele foi levado ao Hospital da Beneficência Portuguesa. Morreu dois meses depois, comovendo colorados e gremistas. Porto Alegre parou e chorou ao assistir seu enterro.

A morte de Lara simbolizou, de certa forma, o fim de uma era do futebol gaúcho. O fim do amadorismo. Sem Lara, o Grêmio perdeu o campeonato estadual de 1935 para o 9º Regimento de Pelotas, que, depois desta conquista, passou a se chamar Farroupilha, exatamente por causa do título. Em 1936, o Inter foi campeão da cidade, mas perdeu o Gauchão para o Sport Club Rio Grande, o clube mais velho do Brasil – e justamente por isso apelidado de “vovô”.

Aquele seria o último campeonato vencido por um time do interior em confronto direto com a dupla Grenal. Em 1937, 38 e 39 Grêmio e Internacional, em outra cisão do futebol gaúcho, não disputaram o estadual. A dupla empenhava-se na implantação do profissionalismo no Estado. Fundaram, assim, sua própria Liga, profissional, enquanto a antiga FRGD patrocionou o campeonato estadual, ainda em caráter amador, com os demais clubes.

A despeito de toda a confusão, o campeonato metropolitano prosseguiu, e o Grêmio, com a volta de Luiz Carvalho, sagrou-se tricampeão.

Mas o Inter engendrava uma reação que transformaria aqueles 30 anos de hegemonia intermitente do Grêmio em um vulto no passado longínquo. Os chamados “negrinhos do Internacional” estavam sendo reunidos aos poucos nos Eucaliptos. Eles formariam um time com futebol veloz e de beleza plástica que mereceria o codinome com o qual passou para a história: O Rolo Compressor.

O Campeonato Farroupilha

21 de outubro de 2010 5

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


O Campeonato Farroupilha

O certame de 1935 foi o mais importante desde a criação do Campeonato da Cidade, em 1910. Foi o Campeonato Farroupilha, em comemoração ao centenário da Guerra dos Farrapos. A Redenção, ou Parque Farroupilha, sofreu mudanças radicais por causa do festival do centenário. Porto Alegre passou o ano vivendo o festival, embelezando-se para as comemorações. Foram instituídos troféus para torneios de remo, basquete, tênis, atletismo, natação, pólo e futebol. Em setembro, na semana farroupilha, chegou à capital do Estado o presidente da República, Getúlio Vargas, para prestigiar as festividades.

Em 28 de julho, foi disputado o primeiro Grenal do Campeonato Farroupilha. O Inter, campeão da cidade e do Estado, era o favorito. O Grêmio estava sem Luiz Carvalho, que se transferira temporariamente para o Rio de Janeiro, onde defendia o Vasco da Gama. Mais grave era o caso de Lara. Dois meses antes, numa partida contra o Santos, ele se chocara com o atacante Mário Seixas e sofrera uma concussão no peito. Seu problema, então, veio à superfície: Lara era cardíaco. Mesmo contra as recomendações médicas, Lara continuou jogando. E no Grenal do final de julho foi, de novo, um dos destaques.

Mas o herói de fato terminou sendo o ponteiro-esquerdo Castilho, autor do célebre Gol do Avião. Ocorreu que Castilho estava com a bola em frente à área do Inter no momento em que um avião passou a fazer piruetas sobre o campo dos Eucaliptos. Acrobacias do gênero eram inéditas na Porto Alegre da década de 1930.

O que levou o goleiro Penha e os zagueiros Natal e Risada, do Colorado, a se distraírem do jogo e levantarem as cabeças para o céu, entre temerosos e surpresos. Castilho, por outro lado, não se descuidou da bola e a mandou para as redes do Inter. Graças ao Gol do Avião, o Grêmio empatou o jogo em 1 x 1. Depois do Grenal, estranhamente, Castilho sumiu, desapareceu. Diziam que os colorados, furiosos com o tal gol, haviam-no raptado e que ele estava bem escondido numa casa do bairro Belém Novo. Castilho só ressurgiu em 1936, jogando com a camisa vermelha.

Quando da decisão do Campeonato Farroupilha, em 22 de setembro, Castilho já estava devidamente evaporado. O Inter faria de tudo para ganhar aquele campeonato. Seus torcedores mostravam-se confiantes de que isso aconteceria. Principalmente devido ao inesperado fracasso do Grêmio, uma semana antes, contra o Força e Luz. O Tricolor atrapalhou-se todo, perdeu por 2 x 0 e deixou o Colorado com um ponto de vantagem.

Bastava um empate para o bi. Além do mais, o grande Lara não devia jogar. Sua doença se agravara e os médicos o proibiram de entrar em campo.
No domingo, com a certeza da vitória colorada, um dos torcedores do Inter deu-se ao trabalho de caçar 11 cachorros pelas ruas de Porto Alegre, pintá-los, todos, de vermelho e amontoá-los dentro de uma camionete. Conduziu o carro para a frente da Baixada e foi para as arquibancadas. Seu plano era de, encerrado o jogo, com a provável vitória do Inter, soltar a cachorrada no gramado, só de farra.

Não desconfiava o torcedor que naquele instante Lara comunicava aos dirigentes do Grêmio e aos seus companheiros de time que ele ia jogar de qualquer jeito. E que não tentassem demovê-lo. Pouco minutos antes, Foguinho chegava à Baixada no bonde Auxiliadora. Passara a viagem pensando em como derrotar aquele poderoso time do Internacional. Sequer reparara na paisagem ou nos reclames pregados às paredes do carro, como os famosos versos construídos sob encomenda pelo poeta Bastos Tigre:

“Veja, ilustre passageiro
o belo tipo faceiro
que o senhor tem a seu lado.
No entanto, acredite,
quase morreu de broquite:
salvou-o o Rhum Creosotado”

Haveria Rhum Creosotado capaz de salvar o Grêmio naquela tarde?

Dois terços do Fortim da Baixada estavam pintados de vermelho. O jogo nem começara e a torcida do Inter pulava nas arquibancadas. Os gremistas só se animaram quando viram a figura esguia de Lara entrando em campo.

Lara não decepcionou. O Inter dominou todo o primeiro tempo, rondou a área do Grêmio, atacou com perigosa insistência. Mas a zaga gremista tinha Dario e Luiz Luz, o Fantasma da Área. Por fim, a bola que passasse por eles acomodava-se nos longos braços de Lara. O primeiro tempo terminou em 0 x 0.

O problema era que 0 x 0 significava a morte para o Grêmio. A torcida colorada passou o intervalo comemorando, barulhenta. Na volta dos jogadores ao gramado, a festa vermelha aumentou. Lara, não suportando as dores no peito, saiu, entrando Chico em seu lugar.

Estimulados pelo desfalque do adversário, os jogadores do Inter atiraram-se à frente. Os ataques se sucederam cada vez com maior frequência. Dario e o Fantasma da Área cansaram de tirar bolas de cabeça, de bico de chuteira, de canela, de peito, de nariz. Colocavam o rosto na frente dos chutes colorados, tudo para impedir a derrota. Na frente, seus companheiros não encontravam nenhum atalho para o gol.

A partida terminava aos 80 minutos – dois tempos de 40. Aos 37 do segundo tempo, o placar ainda em 0 x 0, o torcedor colorado que guardara os cachorros vermelhos na camionete saiu correndo do estádio, faceiro e saltitante como uma camponesa num piquenique. Abriu a porta de trás do carro e preparou-se para levar os cães ao gramado da Baixada.

Faltando dois minutos para o final do jogo, o Grêmio teve a seu favor uma falta na intermediária do Inter, quase no grande círculo do meio de campo. O juiz Francisco Azevedo aproveitou para olhar no relógio e conferir quanto faltava para encerrar a partida. Os torcedores colorados prosseguiam com a festa nas arquibancadas.

Foguinho pegou a bola com as mãos, aproximou-se do centromédio Mascarenhas e cochichou no seu ouvido direito:

– Levanta no meio da área que o Risada vai tirar e eu vou pegar o rebote.

Foguinho confiou a bola ao companheiro e caminhou rápido para a área colorada. Mascarenhas cumpriu o combinado. Com o pé direito, alçou a bola à marca do pênalti. Lá estava Risada. O zagueiro do Inter pulou mais do que todos os adversários e testou a bola para a frente. Ela descreveu um arco e caiu na meia-lua da área. Bem onde a esperava a perna esquerda de Foguinho.

O meia do Grêmio não permitiu que a bola tocasse o chão. Encheu os pulmões de ar, rilhou os dentes, jogou o peso do corpo na perna direita e bateu. Ela saiu incandescente de seu pé esquerdo e foi incinerar as redes do goleiro Penha.

Num átimo, as duas torcidas ficaram em silêncio, incrédulas. Décimos de segundo depois, o lado azul projetou-se das arquibancadas num grito só: gol!

Os jogadores do Internacional não acreditavam. Tontos, encaminharam-se ao meio de campo para dar nova saída de jogo. O juiz apitou, a bola rolou, Foguinho deu o bote e recuperou-a mais uma vez. Saiu correndo como um touro enfurecido, espalhando defensores, com os colorados que restavam de pé desesperados no seu encalço.

Assim continuou Foguinho até a área do Internacional. Penha, vendo que ele ia gol adentro, saiu para tentar a defesa. Quando o goleiro chegou perto, Foguinho encostou a bola mansamente para o lado, onde estava seu companheiro Laci. O ponteiro só precisou empurrá-la para dentro do gol.

O juiz apitou o final do jogo. A torcida só podia gritar uma palavra:

– Foguinho! Foguinho! Foguinho!

No lado de fora do campo, um colorado não entendia nada. O mal-aventurado proprietário dos cachorros vermelhos tentara sair com eles da camionete quando Foguinho fez o primeiro gol. O foguetório gremista assustou a cachorrada, contida com dificuldades pelo torcedor.

Um minuto depois, no entanto, estourou o segundo gol. Ninguém seguraria os cachorros enlouquecidos com as bombas, certamente irritados por passar a tarde encerrados numa camionete, suando, latindo uns para os outros. A matilha avançou no dono, que foi parar no hospital. Salvou-se das mordidas, mas quase sofreu um ataque cardíaco ao saber do resultado do jogo.

Na Baixada, a festa não parava. Alguns jogadores e dirigentes continuaram comemorando noite adentro. Entre um chope e outro, o técnico Sardinha I, emocionado, sugeriu que o título do Centenário Farroupilha fosse comemorado por mais um século. Proposta aceita, desde 1935, em 22 de setembro, o Grêmio realiza o Jantar Farroupilha em homenagem àquela conquista heróica.

Darci Encarnação

21 de outubro de 2010 1

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.



Darci Encarnação

Mas depois de 1930 o Grêmio empilhou títulos. Foi tetracampeão da cidade – 1930, 31, 32 e 33 – e bicampeão do Estado – 31 e 32. A sequência do Grêmio só foi barrada quando o Inter, finalmente, teve em sua equipe um negro de destaque, o meia Tupã. Alto, magro, goleador, Tupã deu ao Colorado o título da cidade e o do Estado em 1934. No ano seguinte, ele ganhou um companheiro de respeito, o atacante Darci Encarnação.

Darci Encarnação era o pesadelo do Grêmio. Em 1933, ele formava dupla com o centroavante Cardeal no São Paulo de Rio Grande. Poucos centroavantes foram tão habilidosos quanto Cardeal. Não chutava forte. Nem precisava. Colocava a bola onde queria, sempre fora do alcance do goleiro, com uma suavidade maliciosa, com a segurança de um neurocirurgião. No final da carreira, corroído pela tuberculose, Cardeal teve um pulmão inutilizado. E mesmo assim jogou algumas partidas. Ficava parado nas proximidades da área, tendo à cabeça o boné vermelho que lhe rendeu o codinome. De repente, a bola caía em seus pés. Era só o que precisava. Cardeal já sabia como o goleiro estava posicionado e, com maciez, atirava a bola exatamente onde ele não a acharia.

Quem municiava os pés infalíveis de Cardeal no São Paulo de Rio Grande era Darci Encarnação. Emérito driblador, Darci ziguezagueava entre os zagueiros até alçar a bola ao seu companheiro, no meio da área. Assim eles derrotaram o Grêmio em 1933. Darci fez um gol de falta em Lara no primeiro tempo e, no final do jogo, com o placar em 1 x 1, ele deixou quatro gremistas sentados a drible e passou a bola para Cardeal, livre, desempatar. Com esta credencial Darci veio para o Inter em 1934. Completando a equipe, na defesa o Colorado possuía o zagueirão Risada, insuperável nas bolas altas. O time estava pronto para ser bicampeão em 1935.

Surge Foguinho

21 de outubro de 2010 2

História dos Grenais

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Surge Foguinho

Enquanto o Inter debatia-se pela vida como um afogado, o Grêmio reforçava o time com um dos maiores esportistas da história do futebol gaúcho: Oswaldo Azzarini Rolla. Os cabelos vermelhos valeram-lhe o apelido de Foguinho e a prática do pólo aquático um fôlego cavalar. Como um guerreiro viking, como um huno selvagem, ele jamais desistia da luta. Combatia o adversário em todos os quadrantes do campo. Pasmados de admiração, os torcedores, não raro, nem bem haviam cessado os aplausos a algum petardo desferido por Foguinho na área inimiga e já viam-no roubando a bola no campo de defesa do Grêmio.

De personalidade tão forte quanto o seu chute de canhota, Foguinho sustentava a compleição robusta e a disposição infindável às custas de muito treinamento. Alfaiate por profissão, nunca aceitou um conto de réis do Grêmio enquanto atuou como jogador. Mas o clube o apoiou como pôde. Em 1931, a fim de permitir que Foguinho treinasse à noite, depois do serviço na Camisaria Aliança, o Grêmio instalou na Baixada o conjunto de luminárias pioneiro em estádios do Rio Grande do Sul. O jogo de inauguração dos refletores, dia 28 de julho, é óbvio, foi um Grenal. Vencido pelo Grêmio por 2 x 0, gols deles: Luiz Carvalho e Foguinho.

Antes desta partida houve um outro amistoso: o Grenal de inauguração dos Eucaliptos, em 15 de março. O meia Javel desconheceu a crise do Inter, o supertime do Grêmio e, como um prenúncio de que o Colorado se tornaria cada vez mais perigoso em inaugurações de estádios, marcou três gols em Lara – Inter 3 x 0.

A goleada foi uma das raras alegrias do Internacional desde a perda da Chácara dos Eucaliptos. Em 1928, nem Grêmio nem Inter conquistaram o Campeonato da Cidade. O vencedor foi o Americano, graças a um zagueiro imponente que seria titular da Seleção Brasileira na Copa de 1934, na Itália, e se consagraria no Grêmio a partir de 1935 – Luiz Luz, o Fantasma da Área. No ano seguinte, foi a vez do Cruzeiro alcançar sua maior glória: campeão da cidade e do Estado.

O novo estádio colorado

21 de outubro de 2010 7

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


O novo estádio colorado

Aconteceu em 1928. Os gestores do Asilo da Providência procuraram um dos diretores do Inter, o jornalista Arquimedes Fortini, e comunicaram-lhe que iriam vender o terreno da entidade no bairro Azenha. Sobre aquele terreno estava construída a Chácara dos Eucaliptos, o estádio do Colorado. Arquimedes se assustou. Mas os dirigentes logo o tranquilizaram: a preferência de compra era do Internacional. Por 40 mil contos de réis.

Tratava-se de uma fortuna. O Inter não tinha esse dinheiro. Arquimedes e outros dirigentes, então, decidiram apelar para uma abastada família colorada, os Chaves Barcellos. Afinal, dois deles, Plínio Chaves de Figueiredo e Pedro Chaves Figueiredo, jogavam no Inter. Os Chaves Barcellos não esconderam a carteira. Dispuseram-se a emprestar a quantia ao Internacional sem prazo fixo de pagamento. Chegaram a insinuar até que aquilo poderia ser contabilizado como uma doação ao clube.

Tudo parecia resolvido. Parecia. Na hora de consolidar o negócio, Antenor Lemos se opôs. Considerava 40 mil contos um absurdo.

– Além disso – bradava, inflamado como de costume –, o Internacional tem que viver de conquistas esportivas, não de glórias materiais.

Realizada a votação, Antenor Lemos, evidentemente, venceu. Arquimedes Fortini e seu grupo ficaram tão irritados que abandonaram o clube.

Sem sede, sem campo, o Internacional foi arrefecendo até tornar-se moribundo. Foi então que surgiu a mão do salvador. O jovem engenheiro Ildo Meneghetti suprimiu horas de trabalho da Dahne, Conceição & Cia, da qual era funcionário, e liderou uma vigorosa campanha de arrecadação de fundos a fim de construir um novo estádio para o Colorado.

Com a venda de bônus no valor de 500 mil réis, Meneghetti levantou a importância suficiente para construir o Estádio dos Eucaliptos, na rua Silveiro, em 1931.

O primeiro negro no inter

21 de outubro de 2010 1

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
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O primeiro negro no inter

Grêmio campeão gaúcho pela terceira vez. Os colorados se descabelavam. Nenhum deles mais do que Antenor Lemos, com seu ódio figadal ao clube do Moinhos de Vento. Fora do gramado, como dirigente do Inter ou da Federação, Lemos importunava mais ao Grêmio do que como jogador. Se fosse preciso, brigava a socos, mesmo quando presidente do Colorado. Valia-se de todos os métodos, lícitos ou não, para beneficiar seu clube.

Certa feita, exercia a presidência da Federação e percebeu que, na pendenga de um tema qualquer, o Grêmio contava com a maioria. Convocou a reunião de votação para uma sala fechada e distribuiu imensos charutos a todos. Quando chegou o representante do Cruzeiro, um senhor asmático favorável à tese gremista, o ambiente estava enfumaçado como um saloon de pôquer. Bastou o dirigente encher uma vez os pulmões com aquele ar pestilento e a asma lhe estrangulou os brônquios. Arquejando e tossindo, o cruzeirista teve de ser levado para casa, enquanto a votação empatava. Aí, Antenor Lemos, como presidente, deu o voto de minerva em favor da tese do Internacional.

A Antenor Lemos o Inter deve a quebra do preconceito racial, em 1925, com a entrada no clube do primeiro negro, o ponteiro-direito Dirceu Alves. O ingresso de Dirceu, no entanto, serviu mais como marco do que de abolição da discriminação. O Inter continuaria a desprezar discretamente os negros até os anos 30, pelo menos. Ainda em 1927, o Internacional finalmente venceu o Grêmio.

Mas só com jogadores brancos. O ídolo do time era o ala Ribeiro, proprietário de um potente chute de perna direita. No ataque, o capitão Barros se encarregava de marcar os gols. Com dois deles no goleiro Lara, em 12 de junho de 1927, mais um de Nenê, o Inter venceu o Grenal por 3 x 1 e levou o Campeonato da Cidade. Eufórico por ter superado o rival, o Colorado passou por cima dos demais adversários e venceu o primeiro Campeonato Gaúcho de sua história.

Os colorados festejaram muito o título, mas ele seria apenas o interregno entre uma fase ruim e outra péssima. A dor voltou aos corações vermelhos por mais seis anos. De 1928 a 1934 foram disputados 16 Grenais. O Inter venceu três. O Grêmio venceu onze. Pior: por muito pouco o Internacional não fechou as portas. Isso, cruel ironia, devido a um erro de raciocínio do seu maior dirigente, Antenor Lemos.

De bengala em punho

21 de outubro de 2010 0

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
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De bengala em punho

Pode-se afirmar, pois, que o primeiro Grenal a ser conhecido como tal foi o de 27 de junho de 1926. Um Grenal com recorde de público: sete mil pessoas deixaram de ver o filmaço “Peccador Divino”, com o Rudolph Valentino e Helen D’Algy, exibido pelo Cine Central, e tomaram os bondes linhas G, T e A para a Chácara dos Eucaliptos. Todos esperavam presenciar um espetáculo. Um dos torcedores, mais letrado e empolgado, chegou a compor uma quadrinha brincando com os nomes do meia do Grêmio, Esperança, e o centromédio do Inter, Lampinha:

“Lampinha projecta a luz
Esperança luz projecta
Por isso conduzirão a flux
de forma muito correcta.”

Os jogadores até que iam conduzindo a flux de forma relativamente correcta. O problema foi a interferência intempestiva de um torcedor do Inter, descrita assim pelo redator do Correio do Povo:

“O match corria na melhor ordem, embora sem lances empolgantes ou technica impecavel, quando um ardoroso torcedor do pavilhão alvi-rubro, numa má compreensão das normas de educação sportiva e do papel de torcedor, invadiu o campo de bengala em punho, aggredindo o juiz do match, vibrando-lhe repetidas pancadas”.

Após condenar a covarde agressão, o róseo acrescentou:

“Não encontramos qualquer attenuante ou evasiva que justifique tal attitude”.

As repetidas bengaladas vibradas no desditoso árbitro, Manoelito Ruiz, do Americano, foram fortes mesmo. Ele teve que ser subsituído por um cidadão conhecido como Senhor Zapp. Que também não conteve os ânimos dos torcedores. Um grupo de soldados da Brigada, fardados e armados, aprontou a maior confusão no estádio. Brigaram com outros torcedores, a luta estendeu-se ao campo e o jogo foi encerrado a dez minutos do final do tempo regulamentar. No placar, 4 x 1 para o Grêmio, gols de Luiz Carvalho, Esperança e dois de Coró, descontando Barros para o Inter.

A decisão do campeonato foi disputada a 14 de novembro. O Grêmio venceu o Grenal por 4 x 3 e tornou-se bicampeão. Os melhores do jogo? Luiz Carvalho e Lara. Luiz Carvalho marcou dois gols e Lara transformou-se num muro atrás da defesa gremista. Finalizada a partida, o ponteiro-esquerdo Barros, do Inter, abestalhado com aquela atuação monstruosa do goleiro, atravessou a área e cumprimentou-o.

– Parabéns – disse, apertando a enorme mão do goleiro. – Estou muito impressionado.

Como campeão da cidade, o Grêmio habilitou-se a disputar o Campeonato Gaúcho. Chegou à final a 5 de dezembro contra o Guarani de Bagé, na Chácara das Camélias. Até então não existia a figura do técnico profissional. Quem treinava e escalava o time era o capitão.

No Grêmio, curiosamente, o capitão terminou sendo reconhecido mais como técnico do que como jogador. Chamava-se Telêmaco Frasão de Lima e atuava na importante posição de centromédio. No antigo esquema 2-3-5, o centromédio tinha a incumbência de distribuir o jogo, de ser o irradiador de jogadas do time. Machucado, Telêmaco não pôde participar da final contra o Guarani. Luiz Carvalho ofereceu-se para substituí-lo, passando Pitoco para o ataque. Foi um desastre.

Em poucos minutos, o Guarani marcou dois gols. Ainda no primeiro tempo, Luiz Carvalho voltou ao ataque, Pitoco foi deslocado para a ala e Adão passou para centromédio. Desta vez deu certo: o Grêmio conseguiu empatar em 3 x 3 no primeiro tempo e virou o jogo no segundo: 4 x 3.

O inventor do Grenal

21 de outubro de 2010 4

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


O inventor do Grenal

Com Luiz Carvalho no auge da carreira, o Internacional tinha muito a temer naquele Grenal de 27 de junho de 1926. Já estava decidido: o centromédio Lampinha ficaria encarregado de anular o centroavante do Grêmio, de persegui-lo por todo o campo da Chácara dos Eucaliptos.

Um empate vinha bem. O Inter somava sete pontos, o Grêmio seis. Na Chácara dos Eucaliptos havia treino quase todos os dias e o retrospecto recente parecia indicar que a situação talvez estivesse mudando. Os dois últimos Grenais, em 1925, terminaram empatados. Num deles, a 11 de outubro, o Inter foi nitidamente melhor. Passou o jogo inteiro atacando e chutando a gol. Lara pegou todas. O meia Geny, do Inter, cansou a perna de tanto bater a gol e os olhos de tanto ver Lara defender. Os torcedores colorados se desesperavam.

– Como é, Geny? Como é? E o gol, Geny? – berravam, impotentes, das arquibancadas. Geny virou-se, aflito, estendeu os dois braços para Lara e gemeu:

– Ele não deixa!

No final, empate em 2 x 2, com um gol de Luiz Carvalho.

Agora, no primeiro Grenal de 1926, o empate era bem-vindo. A cidade se mobilizava para o jogo. Na sexta-feira à noite, antevéspera da partida, o repórter Ivo dos Santos Martins, o mesmo da entrevista com Lara, ruminava um problema. Sentado à mesa do Café Colombo com os gremistas Armando Siaglia e Luiz Daudt, Martins lamentava-se da sorte por um motivo um tanto prosaico. Redator de esportes do Correio, ele se cansava de escrever, sempre, “Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense” e “Sport Club Internacional” cada vez que os dois se enfrentavam.

– É muito comprido – reclamava. – Estava pensando um jeito de encurtar isso, de criar uma expressão que definisse o jogo.

Inicialmente, Martins propôs Inter-Gre, mas, como bom gremista, não queria colocar o Internacional na frente. Decidiu-se, então, por Grenal. Escreveu a palavra várias vezes na mesa de mármore do café e pediu aos amigos que ajudassem a divulgá-la. Não publicou a nova expressão no Correio por temer que um secretário de redação colorado a proibisse. Mas ele e os amigos saíram pelas ruas a chamar o clássico de Grenal. Aos poucos, a população foi usando o termo. Até que um dia, em 1933, quando Martins já abandonara o jornalismo, viu a palavra Grenal impressa na página de esporte do Correio do Povo. Pronto, tornara-se oficial.

A chance de Luiz Carvalho

21 de outubro de 2010 0

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


A chance de Luiz Carvalho

Uma carreira como aquela não poderia terminar em derrota. O destino se encarregaria de reescrever o final. Em janeiro de 1940, o Independiente, bicampeão de Buenos Aires, fez uma excursão pelo Brasil. Tratava-se de um timaço. Seus jogadores ficaram conhecidos como maestros. Começaram a excursão por Rio e São Paulo e venceram todo mundo por lá. Invictos, desceram ao Rio Grande do Sul para enfrentar o Grêmio. No início do jogo, fizeram 1 x 0 e prosseguiram em vantagem no marcador durante todo o primeiro tempo. Não havia dúvida: o Grêmio ia perder dentro do seu Fortim. A não ser que…

No intervalo, torcedores e dirigentes correram para as arquibancadas de madeira de onde Luiz Carvalho assistia à partida. Imploraram para que ele descesse ao vestiário, calçasse chuteiras e entrasse em campo. O Grêmio precisava dele! Luiz Carvalho vacilou um pouco, mas foram tantos os pedidos, tão sinceros, tão sentidos, que ele os acabou. Vestiu de novo a camisa tricolor e, no segundo tempo, entrou em campo, para surpresa e júbilo da torcida. Resultado: 2 x 1 para o Grêmio. Luiz Carvalho foi o melhor em campo e, claro, marcou um dos gols. No dia seguinte, o Correio do Povo mancheteou: “Só se viu um maestro em campo e era Luiz Carvalho”. A partir de então, ele passou a ser conhecido como El Maestro.

No embalo, El Maestro decidiu continuar jogando só para terminar com uma vitória sobre o Inter. Foi o que fez: atuou no Grenal de 13 de fevereiro de 1940, ajudou o Grêmio a vencer por 4 x 2 e a conquistar o Campeonato da Cidade de 1939. E encerrou a carreira. Mas Luiz Carvalho não abandonou o futebol nem o seu clube do coração. Em 1974 e 1975 ele chegaria à Presidência do Grêmio. Passou a vida dentro do clube e em nenhum momento, mesmo após instalado o profissionalismo, aceitou dinheiro para jogar futebol.

A liga da canela preta

21 de outubro de 2010 1

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


A liga da canela preta

Os times do interior continuariam a ser páreo duro para os da Capital até que o Inter se apercebesse da fonte de força destas equipes: nelas, qualquer um jogava, fosse branco, preto, amarelo, pobre, rico ou remediado. O Guarani de Bagé foi o primeiro clube de futebol do Brasil a ter jogadores negros. Antes mesmo do Vasco da Gama, considerado oficialmente como o primeiro a desafiar o preconceito de cor, em 1923.

Nos times do interior atuavam jogadores de todas as raças e classes sociais. Atuavam, inclusive, jogadores do Uruguai, país com um futebol bem mais desenvolvido, que seria campeão olímpico em 1928 e o primeiro campeão mundial, em 1930. A força dos uruguaios fora sentida amargamente pelo Internacional em 1916. Julian Bertola, centromédio da seleção uruguaia, “enamorou-se” pelo Grêmio após enfrentar a equipe porto-alegrense. Mudou-se para o Rio Grande, ingressou no clube e ainda trouxe outros três craques com ele: Eduardo Behegaray, também da Seleção, Eduardo Garibotti, autor do gol do Grenal que não acabou, em 1918, e Nicanor Rodrigues. Os quatro faziam do Grêmio um time de quilate muito mais alto. O Internacional protestou contra a inclusão dos quatro na equipe do Grêmio e por isso o Tricolor rompeu com a Liga em 1917.

Pois nos times do interior atuavam muitos uruguaios, negros e pobres, enquanto que nos da capital só moços das boas famílias de Porto Alegre. Até mesmo a chegada de Lara ao Grêmio provocou certa desconfiança por ser o goleiro de origem humilde. Os negros jogavam em sua própria associação, a chamada Liga da Canela Preta.

Nos anos 1930, o Internacional passou a buscar os jogadores que se destacavam na Liga da Canela Preta e assim montou o seu supertime, o Rolo Compressor.

Em 1926, porém, o Colorado mal rompera com o preconceito. Não passava de uma equipe de branquelos enfrentando dificuldades sobre-humanas nos Grenais. Na frente, o Inter parava em Lara. Atrás, tinha que parar Luiz Carvalho. Habilidoso, veloz, artilheiro de nascença, Luiz Carvalho chutava a bola como ela viesse, quadrada ou redondinha, rasteira ou aérea. Nos Grenais o Inter designava um jogador especialmente para marcá-lo, estratégia absolutamente nova nos anos 1920.

A tática de jogo ainda era a inventada em 1880 pelo clube inglês Nottinghan Forest – dois zagueiros, três médios e cinco atacantes. Só depois de 1930 que o inglês Herbert Chapman criaria o WM, pai dos modernos esquemas de jogo. Estabelecer um sistema de marcação só para anular um jogador parecia, portanto, inconcebível.

Não para os colorados. A cada Grenal, Luiz Carvalho lembrava-lhes a humilhação que sofrera no início da carreira. O jovem Luiz fora fazer um teste na Chácara dos Eucaliptos, sede alugada pelo Internacional em 1912, e acabou reprovado.

– Vai embora que tu maltrata a bola, guri – teriam lhe dito os dirigentes do Inter.

Um gremista, no entanto, observava o treino e o enxergou com outros olhos. O centroavante Lagarto correu à Baixada e recomendou:

– Busquem o rapaz que ele é bom.

Mais do que bom, Luiz Carvalho era ótimo. A ponto de, em 1923, ganhar a posição do próprio Lagarto.
Luiz Carvalho só pendurou as chuteiras aos 35 anos de idade, em 1938, após perder um Grenal amistoso por 6 x 0, o Inter já querendo armar o Rolo Compressor.

Chimangos e maragatos

21 de outubro de 2010 0

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


Chimangos e maragatos

Com Lara, Luiz Carvalho, Lagarto, Py e Assumpção, o Grêmio foi pentacampeão da cidade, de 1919 a 1923. Perdeu o título em 1924 para o Americano e reconquistou em 25 e 26. Anos medonhos para o Internacional. De setembro de 1919 ao final de 1926 foram disputados 11 Grenais – o Grêmio venceu oito, o Inter apenas um.

O Colorado penava há nove anos. Pior: o Grêmio chegara às finais de todos os campeonatos gaúchos e agora jactava-se de glórias estaduais. O Tricolor foi bicampeão do Estado em 1921 e 22 e campeão em 1926. De agosto de 1920 a setembro de 1923 ocorreu outro hiato. Grêmio e Internacional romperam de novo e passaram três anos sem se enfrentar. Para aumentar a confusão, em 1923 e 1924 não houve campeonato estadual. Houve uma revolução.
Os maragatos liderados por Joaquim Francisco de Assis Brasil, candidato a presidente do estado pela Aliança Libertadora, contestaram a vitória do candidato da situação, Antônio Augusto Borges de Medeiros. Afirmavam que Borges de Medeiros se elegera pela quarta vez consecutiva mediante fraudes. Montaram em seus cavalos, carregaram seus fuzis e partiram para a luta.

Não foi uma revolução cruenta como a de 1893, quando os combatentes não faziam prisioneiros – degolavam-nos. Em 1893, foram mortas mais de dez mil pessoas, em 1923, cerca de mil. Mas os lenços brancos e vermelhos estavam em luta novamente e ninguém se arriscaria a sair por estradas conflagradas por causa de um jogo de futebol. Por isso, nem depois de assinado o Pacto de Pedras Altas, pondo fim à revolução a 15 de dezembro de 1923, o campeonato foi restabelecido. Os dirigentes da Federação temiam que chimangos e maragatos ainda estivessem a dar os últimos tiros pelas coxilhas e preferiram suspender também o certame de 1924.

No retorno, em 1925, o campeão foi o Bagé. O primeiro campeão gaúcho havia sido o Brasil de Pelotas, em 1919, e depois dele Guarani de Bagé, clube dirigido por Oswaldo Aranha, futuro ministro da fazenda e presidente da Assembleia Geral da ONU – Organização das Nações Unidas.

O primeiro supertime

20 de outubro de 2010 1

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


O primeiro supertime

Depois dos 2 x 0 da vingança de Kluwe, o Inter ingressou no purgatório, do qual só sairia em 1927. Pudera: o Tricolor montou uma seleção. Logo no segundo Grenal de 1919 entraram no time três titãs: o back Jorge Tavares Py (filho do presidente Aurélio Py), o half-direito Assumpção e o center-forward Lagarto. Assumpção jamais perdeu um Grenal. Lagarto era um artilheiro predestinado. Jogou na Seleção Brasileira num tempo em que só cariocas e paulistas eram convocados. Lagarto fez um dos gols na vitória de 3 x 2 do Grêmio no Grenal que deu ao clube o título de campeão da cidade de 1919.

Py, Lagarto e Assumpção eram muito bons. Só que os melhores ainda estavam por vir. Os anos 20 cederam três lendas ao Grêmio: o centroavante Luiz Carvalho, conhecido como O Rei da Virada, o meia esquerda Osvaldo Rolla, o Foguinho, que entrou no time mais tarde, a partir de 1928, sendo, depois, juiz, comentarista e um revolucionário técnico de futebol. E, principalmente, o goleiro Eurico Lara.

No final dos anos 1920, o jornalista Ivo dos Santos Martins, do Correio do Povo, fez uma extensa entrevista com Lara. O goleiro narrou a singular história de sua contratação pelo Grêmio e de como começou a jogar no gol. A matéria nunca foi publicada. Ivo abandonou o jornalismo, tornou-se promotor, mas jamais esqueceu a conversa com o legendário goleiro do Grêmio.

Lara contou a Ivo que, aos 22 anos de idade, em 1920, atuava na ponta-esquerda de um time da sua terra, Uruguaiana. Um dia, o goleiro titular se machucou. Não havia reserva disponível. Como ele tinha quase dois metros de altura, seus companheiros pediram que fizesse um sacrifício e fosse para o gol. Prestativo, Lara aceitou. A equipe adversária era muito forte e amassou o seu time. Mas não venceu. Lara não deixou. Passou o jogo inteiro rebatendo “shoots” e cocadas aparentemente indefensáveis. Na assistência, boquiaberto e de olhos arregalados, estava Máximo Laviaguerre, centroavante do Grêmio. Profundamente impressionado, Máximo voltou correndo a Porto Alegre e declarou aos dirigentes gremistas:

– Em Uruguaiana há um goleiro que, quando joga, o seu time não perde!

Os dirigentes chamaram Luiz Assumpção e o incumbiram de contratar aquele fenômeno. Assumpção foi a Uruguaiana certo de que iria fazer um jovem atleta muito feliz. Enganou-se. Lara não queria sair da sua cidade. Assumpção fez mil propostas e não adiantou. Lara continuava irredutível. Os dirigentes do Grêmio resolveram apelar para o prestígio político do clube. Como Lara estava servindo ao Exército, os dirigentes deram um jeito de arranjar a sua transferência para Porto Alegre. Desesperado, o goleiro chegou a simular uma doença e baixar à enfermaria para anular a transferência. Não teve jeito.

Ao chegar a Porto Alegre, Lara foi recebido por uma multidão, na Estação Ferroviária. Aí mesmo é que se assustou. Percebeu a responsabilidade que lhe era jogada nas mãos. Mãos, por sinal, que permaneciam fechadas quando ele jogava. Inexperiente, diamante bruto, Lara rebatia a bola a socos. Vendo outros goleiros jogar, na Capital, é que aprendeu:

– Ah, a gente tem que agarrar a bola!

Ninguém agarraria a bola como ele. No início do século, o futebol era muito mais violento. Os atacantes chutavam a bola mesmo quando ela estava em poder do goleiro, tentando colocá-la nas redes com adversário e tudo. Pois Lara, após encaixá-la, não largava mais, mesmo sendo chutado e empurrado. Era magérrimo, mãos enormes, braços longos. Em 1923, os torcedores paulistas riram ao ver entrar no gramado do Parque Antártica aquele goleiro esquisito de caminhar lerdo e desconjuntado. Então era com aquele mongolão que a Seleção Gaúcha queria parar o arrasador ataque da Seleção de São Paulo? Um ataque com Formiga, Neco, Tatu, Rodrigues e, sobretudo, com Friedenreich, El Tigre?

Depois de iniciado o jogo, os risos cessaram. Logo no primeiro minuto, o juiz marcou um pênalti para os paulistas. Fried ajeitou a bola. El Tigre jamais perdera um pênalti. Correu e bateu com a força costumeira, no canto esquerdo. Lara voou, os braços esticados, e, como uma pantera, enroscou-se na bola. Estupor no campo e nas arquibancadas.
Minutos depois, Fried invadiu a área sozinho, levantou o pé e, quando ia desferir a bomba, viu a bola sumir como se fosse feitiço. Olhou adiante e lá estava ela, entre as grandes mãos do bruxo Lara. O meia Neco, sorrindo, estendeu a mão direita a Fried:

– Meus pêsames.

No segundo tempo, porém, foi a vez de Neco entrar livre na área. Mais uma vez, Lara roubou a bola e os aplausos da torcida. Fried deu o troco. Cumprimentou Neco, sardônico:

– Meus pêsames.

Lara defendeu nada menos do que 20 chutes, mas os paulistas eram muito superiores e venceram por 4 x 2. No final do jogo, contudo, foi o goleiro do Grêmio quem saiu carregado nos ombros e ovacionado pela torcida.

Além de ser um goleiro inigualável, Lara impressionava pelo seu caráter. Era tão correto e honesto que quando duas equipes iam disputar um jogo muito importante, para o qual se previam dificuldades de arbitragem, ele era convidado para ser juiz. Os adversários e os companheiros o respeitavam. Se tomasse um gol feito de forma ilegal, provocava a interrupção da partida, conversava com o atacante e o obrigava a confessar a falta ao juiz.

Jogou 16 anos no Grêmio, foi 11 vezes campeão da cidade, cinco vezes campeão estadual e quatro vezes vice. Morreu jogando no Grêmio, aos 37 anos de idade. Tornou-se um mito. Dizia-se pelo Estado que Lara morrera ao defender um pênalti batido pelo próprio irmão – o chute, violentíssimo, teria lhe arrebentado o coração gremista.

Na década de 1920, ninguém, no País, falava de “Lara, o goleiro do Grêmio”. Falava-se, sim, de “Grêmio, o clube de Lara”. O goleiro foi imortalizado por Lupicínio Rodrigues na letra do próprio Hino do Grêmio. Uma estrofe canta:

“Lara, o craque imortal
Soube o teu nome elevar
Hoje nós com o mesmo ideal
Saberemos te honrar”

No museu do Grêmio, no Estádio Olímpico, estão expostos um relógio que o clube ofereceu ao goleiro, a bola da sua última partida e a máscara mortuária do seu atleta-símbolo.

A chance de Kluwe

20 de outubro de 2010 0

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


A chance de Kluwe

Naquele ano de 1919, o Grêmio começaria a construir uma equipe memorável, um time que não perderia nem empataria Grenais durante cinco anos. Antes que esta saga começasse, porém, havia uma injustiça do destino a ser corrigida. Carlos Kluwe, há quatro anos afastado dos gramados e atual diretor de futebol do Colorado, ainda não conseguira vencer um Grenal como jogador.

Em 20 de julho, ele teria sua chance. O centroavante titular, Bedionda, estava lesionado. Kluwe nem centroavante era. Jogava na linha média. Associados e torcedores, contudo, fizeram abaixo-assinados pedindo que ele entrasse no time. Tanto insistiram que Kluwe aceitou. Afinal, tinha apenas 27 anos e não se sentia fora de forma. Pois Kluwe jogou, marcou um gol e o Inter venceu por 2 x 0. Foi a consagração de um emblema do Internacional do passado.

A grande confusão de 1918

20 de outubro de 2010 0

O Inter manteve a superioridade no ano seguinte. Os dois voltaram a disputar o Campeonato da Cidade e o Colorado foi campeão. Os Grenais? Bem, no primeiro, em 30 de julho, o Internacional venceu por 6 x 1. O ponteiro Vares jogou como se estivesse possuído e marcou seis gols. Scalco descontou para o Grêmio. No segundo, em 29 de outubro, o Inter venceu por 3 x 2. Em 1917, o Grêmio rompeu mais uma vez com a Liga, passou o ano fazendo amistosos e o Inter foi campeão.

O ano de 1918 chegou trazendo amplas mudanças para o futebol gaúcho. Em maio, foi fundada a Federação Rio Grandense de Desportos, que reuniu Grêmio, Inter e os demais clubes para organizar um campeonato estadual. O campeonato não chegou a ser disputado por uma razão que hoje soaria no mínimo curiosa: por causa de uma gripe.
Não uma gripe qualquer. Era a aterradora gripe espanhola. Na Europa, dizia-se, a espanhola causara mais mortes do que a Guerra. No Brasil, uma das vítimas fora o próprio presidente da República, Rodrigues Alves, morto a 16 de janeiro de 1919, antes de tomar posse.

Naquele ano atípico, o campeão da cidade não foi o Grêmio nem o Inter. Foi o Cruzeiro. Aconteceram dois Grenais. A 19 de maio, o Inter venceu por 5 x 3. Era a quarta vitória consecutiva dos colorados. O Grêmio não ganhava desde 1913. Era demais para os orgulhosos tricolores. Algo devia ser feito com urgência. Algo que os colorados, claro, tentariam evitar. Com a rivalidade acirrada, cortante como o vento minuano, os dois entraram no gramado da Baixada em 4 de agosto para disputar uma guerra que horrorizaria o Kaiser Guilherme II, na conflagrada Alemanha, se ele a houvesse assistido.

O jogo começou violento, como sempre. O Grêmio um pouco melhor. O zagueiro uruguaio Garibotti marcou o primeiro gol para os tricolores. E o último. Estava 1 x 0 quando a bola saiu pela lateral. Os jogadores passaram a discutir quem teria direito à reposição. Não havia fosso separando a torcida do gramado, nem cães policiais a repelir invasões. De repente, estourou uma briga entre jogadores do Inter e torcedores do Grêmio.

Foi o início de um tumulto que resultou em cerca de 100 feridos e um preso. Torcedores, jogadores e dirigentes se agrediram a socos, pontapés e bengaladas.

Até que o senhor Manoel Costa, empregado da Empresa Telefônica Rio-Grandense, sacou de uma faca e com ela riscou o ar, ameaçador, prometendo ferir quem se aproximasse. O meia Ribas, do Internacional, tentou contê-lo. Seria o último Grenal de Ribas. Manoel Costa enfiou 15 centímetros da lâmina na região ilíaca do jogador. Assustado, o jovem Octávio Telles de Freitas pulou para desarmar o funcionário da Telefônica e também foi ferido na perna esquerda.

Soldados da Brigada acorreram e não conseguiram deter o valentão. Ele só entregou a faca ao presidente da Federação, o gremista Aurélio Py. O chefe de Polícia Ariosto Pinto, finalmente, colocou Manoel numa viatura para levá-lo preso. Os torcedores não deixaram o carro sair. Queriam linchar Manoel Costa. Após muitas negociações, os policiais conseguiram levar o detido. Mas, na saída do estádio, populares apedrejaram a viatura, ferindo Ariosto na cabeça e Manoel na perna esquerda. Enquanto isso, Ribas dava entrada na Casa de Saúde. Em seguida, foi cloroformizado e operado pelos médicos Moisés de Menezes e Bernardo Velho.

O Grenal não terminou. Restou o 1 x 0 para o Grêmio e muito rancor de parte a parte.

Na Europa, terminava a Guerra. Iniciava-se a era das melindrosas, do charleston e do foxtrote. Iniciava-se a era do Campeonato Gaúcho. Seria impossível realizar um campeonato extenso, ponteado de viagens, como ocorreria décadas depois. Havia muitas dificuldades de transporte. Alguns anos antes, os Automóveis Humber foram testados nas estradas gaúchas e aprovados com excelentes resultados: a distância entre Porto Alegre e Santo Antônio da Patrulha foi percorrida em quatro horas, de Porto Alegre a Itapuã em duas horas, de Pedras Brancas a Pelotas em 16 horas.

A fim de evitar os intermináveis e desgastantes deslocamentos, a Federação montou um campeonato dividido por regiões. O campeão de Porto Alegre, portanto, disputaria com os de outras regiões.

O tira-teima

20 de outubro de 2010 5

História dos Grenais

Na semana do Gre-Nal, vou publicar todo o primeiro capítulo do livro “A História dos Grenais”, que vai da fundação dos dois clubes aos anos 40.
Esse capítulo é de minha autoria. Vou publicar um texto a cada hora.


O tira-teima

O futebol também estava mudando, tomando conta do gosto da maioria da população e, aos poucos, se profissionalizando. Grêmio e Internacional não eram mais só de seus associados. Havia torcedores a se dar satisfações. Por isso, eles não podiam mais adiar o duelo, apesar de prosseguirem teimando com o rompimento. Ainda em meio à Guerra, em 31 de outubro de 1915, foi realizado o amistoso de tira-teima.

Eram times diferentes. O Grêmio não tinha mais Booth, Cox ou Schuback, embora Mohrdieck continuasse firme na defesa. No Inter, Kluwe, tristemente, pendurara as chuteiras sem cumprir a promessa de derrotar o rival. Outros craques despontavam no Colorado: o centroavante Bedionda e o ponteiro-esquerdo Vares. O Inter estava mais confiante, sobretudo depois dos títulos conquistados na ausência do arquiinimigo.

O jogo foi disputado na Baixada. Adultos pagaram dois mil réis, crianças, mil. Durante toda a semana ficou exposta, na Joalheria Diehl, uma plaqueta que seria dada ao vencedor. À entrada dos jogadores em campo, as mulheres – gremistas com vestidos azuis, coloradas com vestidos vermelhos – acenaram graciosamente com lenços brancos. Os atletas foram cobertos de confetes e serpentinas.

O juiz, tenente Aristides Prado, deu a saída de bola. Aí terminou a cortesia.

Jogo violentíssimo. O Inter atacando sempre, Mohrdieck limpando a área do Grêmio. Faltando dois minutos para terminar o primeiro tempo, o ponteiro-direito colorado, Túlio, cobrou escanteio e colocou a bola na área do Grêmio. Os zagueiros tentaram tirar com cocadas, mas não foram bem-sucedidos. A bola sobrou para Müller, que marcou 1 x 0 para o Inter.

No intervalo, os colorados foram cobertos de flores e confetes atirados pelas mulheres, enquanto os homens carregavam Müller em triunfo. Ainda havia, porém, todo o segundo tempo e o Grêmio teria o vento e a tradição ao seu favor. Talvez ninguém tenha avisado Bedionda de nada disso. Aos quatro minutos, ele desrespeitou o velho inimigo e, com uma violenta cocada, ampliou para 2 x 0.

O Grêmio se perturbou. Os colorados continuaram dominando. Aos 30, Túlio avançou pela direita, chutou, a bola bateu na trave e entrou. Antenor Lemos gritava, Kluwe sorria e fechava os punhos fortemente. Aos 38, o Grêmio pregou-lhes um susto. Sisson decontou. Logo em seguida, no entanto, aos 42, Bedionda marcou o último: 4 x 1 para o Internacional.

– Está quebrado o lacre! Está quebrado o lacre! Demorou seis anos! – Berrava Antenor Lemos, emocionado.

Carlos Kluwe abraçava os jogadores, alguns cobertos de flores pela torcida, outros carregados nos ombros. Kluwe só lamentava não ter sido um deles naquela partida histórica.