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Posts na categoria "Histórias Muito Curtas"

Histórias Muito Curtas - A Amante (final)

26 de junho de 2011 5

Eu já tinha o que queria. Já tinha meu aumento, já tinha minha promoção. Mas não sou uma mulher insincera. Sou honesta. Quando digo que quero um homem, eu realmente o quero, não é mentira, não é uma isca. Queria Moisés, o meu casado da hora. Além disso, ele fizera tudo o que prometera, estava perdendo a razão por mim. Então, cumpri o prometido: na casa dele, que ele partilhava todos os dias com sua família, na cama dele, onde ele dormia todas as noites ao lado da mãe de seus filhos, no sacrossanto território do seu lar entreguei-me a ele. E, como sempre, entreguei-me por completo, sem restrições e sem vergonha.

Você já sabe, você garota que me lê e para quem escrevo, você já sabe que tipo de mulher eu sou. Não sou uma mulherzinha. Detenho a posse das minhas prerrogativas sexuais. Como a maioria dos homens, o sexo é o centro da minha vida. Por isso, sei o que fazer com um homem.

Sabia o que ia fazer com Moisés.

Fiz.

Repoltreei-me com ele em todas as peças de sua casa, até nos quartos dos filhos.

Tenho certeza de que ele nunca teve uma noite igual.

Para arrematar, experimentei algumas lingeries da mulher dele, vesti a calcinha que mais me agradou e foi com ela que voltei para casa, ao amanhecer, deixando-o aos pedaços, mas satisfeito.

Não sei como Moisés escondeu as marcas do que fizemos naquela noite. Deve ter sido difícil. Nas semanas seguintes, tocamos em frente o nosso caso. Ele me dava presentes, ele me cobria de atenções. Chegamos a viajar juntos, nos hospedamos em hotéis caríssimos, ele gastou muito do seu dinheiro comigo. Sei quando um homem está apaixonado. Sei quando ele está à mercê de uma mulher. Moisés estava à minha mercê. Podia fazer com ele o que bem entendesse.

Até que estava me divertindo, não estava ruim, não, claro que não, mas um dia tudo mudou.

Ah, vou contar o que aconteceu…

Foi quando aquele solteiro bonitão chegou à empresa numa segunda-feira e anunciou que havia noivado no fim de semana. Disse que ia casar em seis meses. A partir daquele momento, passei a encará-lo de uma forma diferente. De um rapagão sem sal, ele se transformou em objeto cobiçado. Ele me atraía. De imediato, desinteressei-me por Moisés. Em poucos dias, fiz a troca. Moisés está acabado, choramingando pelos cantos, parece até mais velho. E o bonitão? Ele está aqui, na palma da minha mão. Ainda não me entreguei a ele. Tenho um plano: a coisa vai acontecer no dia do seu casamento, duas horas antes dele subir no altar e dizer sim para sua noivinha. Vai ser excitante. Vai ser maravilhoso. Amo muito tudo isso.

Amo homens casados.

Você conhece algum homem casado?

Histórias Muito Curtas - A Amante (3)

22 de junho de 2011 3

Nos dias seguintes, experimentei as delícias de assistir à suprema aflição de um homem. Foi muito divertido. Recomendo, minha querida.

Afastei-me dele, não aceitei mais seus convites para jantar e, cada vez que se aproximava de mim com propostas, eu repetia:

“Faço tudo o que você quiser e você poderá fazer o que quiser comigo. Serei toda sua. Mas só na sua casa. Na sua cama”.

Ele suspirava, ele torcida as mãos, ele estava prestes a prorromper em choro ali mesmo, na minha frente, na frente de todos os colegas.

Naqueles dias, usei minhas minissaias mais curtas, minhas calças mais justas, minhas blusas mais decotadas.

O efeito era uma devastação completa no moral dele.

Um dia, ele quase me agarrou na porta do banheiro. Desvencilhei-me dele, xingando-o:

“Ficou louco? Está achando que sou uma vagabunda? REspeito! Exijo respeito!”

E me fui, ofendidíssima na aparência, divertidíssima comigo mesma. Ele passou dias implorando perdão, enviando flores e presentes. Eu recusava tudo.

O homem estava na fronteira de um ataque de nervos.

Para espezinhá-lo um pouco mais, passei a dar bola para um colega, um bonitão que vivia me assediando, mas que não me interessava: era solteiro, solteiros não me interessam.

Finalmente, Moisés agiu. Não sei como fez, mas fez: livrou-se da esposa e dos filhos, mandou-os para algum lugar. Numa segunda-feira, acercou-se de mim, ansioso e arfante, e anunciou:

“Sábado à noite!”

Fiz-me de desentendida:

“Hein?”

“Sábado à noite teremos minha casa só para nós!”

“Sábado?”, resolvi sacanear mais um pouco. “Ai, que azar…”

Ele arregalou os olhos e engoliu em seco:

“Que foi???”

“Sábado acho que não posso…”

“Mas por quê???”, agora os olhos dele quase saltaram das órbitas.

“Minha mãe vem me visitar…”

“Por favor! Por favor!”, ele não sabia o que dizer.

“Ai, Moisés… Por que você não me avisou antes? Não vai dar…”

Os olhos dele se encheram d’água:

“M-mas…  P-por favor…”, ele nem conseguia falar, ele não conseguia nem pensar. Fiquei imaginando o trabalho que deu se livrar da mulher e das crianças, e agora eu dizia que era tudo em vão.

Fiquei com peninha. Dei-lhe alguma esperança:

“Vou ver o que consigo fazer. Nos próximos dias, te digo algo.”

Ele sofreu durante toda a semana. Só fui dizer que sim na sexta à tardinha. Ele quase desmaiou de felicidade. No sábado…

Mas só vou contar o que aconteceu no sábado daqui a pouco. Espere aí, minha amiga, que essa já nem é mais uma História Muito Curta.


Histórias Muito Curtas - A Amante (2)

21 de junho de 2011 0

Esse homem casado que capturei (sim, gosto de dizer que capturo, traço, faturo os meus casados, porque é isso que eles são para mim: são minhas presas, minhas comidinhas deliciosas), pois esse casado capturado era um casado especial.

Era o meu chefe.

Eu tinha vários interesses nele: em primeiro lugar, lógico, o fato de ser um homem casado, o que me excita. Mas isso não é o suficiente para me excitar. O casado precisa ser charmoso, educado e inteligente para chamar minha atenção. Esse homem era tudo isso e possuía um tempero a mais: detinha poder.

De imediato, senti vontade de traçá-lo e, de quebra, ganhar algo com isso. Uma promoçãozinha, um bom aumento, simples assim. Você vai dizer que isso me transforma em uma vagabunda que se entrega por dinheiro. Hipocrisia sua, minha cara. Toda mulher se entrega por interesse, inclusive por pressentir que aquele homem pode ser um bom pai para seus filhos. Nesse sentido, os homens são mais honestos. Eles olham para um par de pernas lisas, para uma dupla de nádegas redondas, para dois peitos empinados e não querem nem saber o nome da mulher, querem despi-la na hora e se refocilar com ela.

Então, eles são mais honestos e nós somos mais sofisticadas. Eu, são vários os meus interesses, não apenas sexuais. Com Moisés, esse o nome do meu chefe, com Moisés esperava obter algum prazer e algum dinheirinho a mais na minha conta no fim do mês. Assim, enviei-lhe sinais. Toda mulher sabe como fazer isso. Não é difícil. Basta um olhar mais demorado, um sorriso, uma única palavrinha, e o homem está de língua de fora, arfando aos seus pés.

Bom.

Torturei meu chefe durante um mês. Emitia um sinal, ele vinha, eu recuava. Aí emitia de novo, ele corria, eu sumia. Um dia, ele reuniu coragem para me convidar para sair. Não respondi que sim, nem que não. A resposta correta nesse momento, garota, é:

“Tenho medo…”

Ele então cresceu, todos os homens crescem nessa etapa. Tornou-se mais agressivo, insistiu. E eu:

“Não sei… Vou pensar…”

Mantive-o nesse estado de suspensão por mais uns vinte dias. Até que finalmente topei jantar com ele. Fomos. Na volta para casa, permiti que me beijasse a boca, e só. Pronto. Ele já era meu.

Continuamos com os jantares, apenas os jantares e alguns beijos. Dentro do carro, em frente à minha casa, ia deixando que ele fosse mais ousado a cada dia, mas interrompia quando estava ficando louquinho. Ele não aguentava mais, já estava implorando para me possuir, já estava se dizendo apaixonado.

Chegou aonde queria que estivesse.

Então, dei a lancetada final, o golpe definitivo e certeiro. Foi maravilhoso ver sua reação. Foi como se contemplasse minha obra-prima. Aprenda comigo, garota. Eu lhe disse:

“Moisés, só vou me entregar quando você me der a prova definitiva”.

“Que prova?”, ele balbuciou, o meu cachorrinho.

“Preciso ter certeza de que o que você me diz é verdadeiro. Se você realmente sente por mim o que diz sentir. Você sabe, Moisés, já sofri com um homem casado. Não quero sofrer de novo. Então, preciso dessa prova”.

“Que prova? Que prova???”

E então, touché!

“Só vou me entregar a você se for na sua casa. Na sua cama”.

Garota, foi sensacional.

Mas o que aconteceu conto já, já.

Histórias Muito Curtas - A amante (1)

19 de junho de 2011 0

Eu gosto de homens casados. E olha que o primeiro casado que experimentei foi bem ruim. Quer dizer: o desfecho foi bem ruim, porque ele não era ruim.

Era ótimo.

Tanto que me apaixonei. Aí deu-se aquele roteiro batido: quis que ele se separasse, ele prometeu se separar, não cumpriu, nós é que nos separamos e eu sofri. Mas, com ele, aprendi o gosto que tem um homem casado.

O homem casado está na sua mão. Uma mulher bonita e inteligente pode fazer o que quiser com ele, e eu sou uma mulher bonita e inteligente. E, não: não sou modesta. Sou realista. Sei que os homens me desejam, vejo isso nos olhos deles, na forma como me olham. E adoro esta sensação.

Não sou como essas moralistinhas que ficam ofendidas quando um homem as aborda ou quando um homem as encara. Ao contrário: o desejo dos homens me alimenta. E sei muito bem como controlá-los. Sei me livrar deles, quando quero. E sei como manipular o desejo deles.

Pois digo: nada é mais delicioso do que lidar com um homem casado.

Um homem casado está preso, enquanto você está solta. Um homem casado tem limitações, enquanto você tem toda a liberdade. Um homem casado tem medo, enquanto você tem o poder.

Mais: o homem casado é uma fera enjaulada. Ele não pode mais fazer tudo o que os homens, todos os homens, querem fazer. Ele não pode mais sair por aí e viver suas aventuras. Ele é um predador clandestino. Nessa condição, em vez de predador, ele se torna presa.

Minha presa.

Imagine que o homem casado passa a maior parte dos seus dias em volta da família. As oportunidades dele são raras, ele acha que nunca mais experimentará as emoções da vida de solteiro. Eu ofereço essas oportunidades e emoções. Para ele, me ter vale ouro. É a sua volta à ativa, é a sua redenção. Ele não acredita quando começo a lhe dar sinais. Ele fica ansioso, nervoso, aflito, desesperado, enlouquecido para me ter. Eu sou um troféu para ele, sou sua vida de volta. Ele quer gritar ao mundo: “Ainda sou um homem! Ainda posso atrair uma mulher dessas! Não estou castrado pelo casamento e pela monogamia!”

Eu sei disso.

Eu me aproveito disso.

Eu posso fazer com o homem casado o que eu quiser.

Por isso, adoro, repito, a-do-ro jogar com um homem casado.

Vou contar agora o que fiz com um deles. Você, minha amiga, vai se divertir.

Já conto minha história. Aguarde um momento.


Histórias Muito Curtas - A Gorda

17 de junho de 2011 48

O lance é que aquela gorda estava de minissaia, esse é que é o lance.

Uma gorda de minissaia.

E, vou dizer, ela era realmente gorda. Uma gorda porca, uma baleia, uma hipopótama, uma bota, uma elefanta, uma vaca, uma monstra de gorda desse tamanhão, uma gorda que entalaria num barril, uma gorda que não podia usar botas, porque nenhum cano de bota entraria na batatona da perna dela, mas que gorda bem gordona, aquela gorda.

Só que ela estava de minissaia.

E tem outra: eu havia bebido um pouco. Talvez tivesse bebido muito. É, na verdade eu estava muito bêbado, eu mal conseguia me manter em pé e aí vi aquela gorda. Ou, melhor, vi as pernas da gorda. Eram boas pernas, juro que eram. Lisas e compridas e taludas. Ela estava mostrando aquelas pernas de gorda dela, aí me aproximei da gorda e pensei: vou pegar essa gorda hoje, vou mesmo, pouco me importa, eu quero é uma gorda bem gordona essa noite na minha cama, é isso que eu quero, eu quero me lambuzar nessa banha toda e quero fazer essa gorda uivar, sim, senhor.

Então cheguei na gorda. Sentei ao lado dela e balbuciei:

“E aiam, gatchinha…”

E a gordona revirou os olhos e olhou para cima e resmungou:

“Cai fora, seu magricela!”

E foi-se embora, rebolando aquele rabo gordo, me deixando ali sentado, todo mundo rindo de mim no bar, todo mundo apontando para o magro bebum que tinha sido rechaçado pela gorda de minissaia.

Cara, a gente não pode mesmo dar confiança para uma gorda.

Histórias Muito Curtas - A Velha

14 de junho de 2011 22

Ela era uma velha, mas bem gostosa.

Quer dizer, não exatamente velha. Não uma anciã, se é que me entende. Mas não era guriazinha, nem era o que se pode chamar de mulher madura. Já passava dos 50, acho. Mas tinha umas pernas compridas e torneadas e uma bunda redonda e dura. E uma cinturinha, cara! E uns peititos pequenos, mas empinados. A velha estava sem sutiã, acredita? E vestia uma daquelas calças coladas de academia. Devia estar saindo da academia, ou indo para a academia, não sei, não perguntei. Só sei que era bem, mas bem gostosa.

Muito gostosa.

Admirei-a. A vida é mesmo cheia de surpresas.

Via-se que era velha por causa do pescoço enrugado. A pele já não apresentava o viço que uma mulher apresenta aos 20, aos 30, até aos 40 anos. Fiquei imaginando aquela velha com um quarto de século a menos. Nossa, que maquineta deveria ser! Ela se portava como uma gostosa, andava pelo súper com jeito de gostosa. É, eu estava no súper quando a vi. Empurrando carrinho.

Não consegui evitar: comecei a seguir aquela velha. Quanto mais a observava nas gôndolas de leite em pó, nas de produtos de limpeza, nas de ervilha em lata, quanto mais olhava para aquela velha, mais atração sentia por ela. Uma velha daquelas devia ser muito boa de cama, meu Deus! Devia saber o que fazer com um homem, sim senhor.

Quantos homens ela saciou? Quantos homens a teriam desejado?

E o melhor: uma mulher daquelas, com aquela experiência, já sabia tudo o que uma mulher deve saber. Não esperava mais ser surpreendida. Assim, eu poderia fazer uma abordagem direta. Aproximar-me dela e ronronar-lhe ao pé do ouvido:

“Quero sair daqui agora e passar a tarde na cama com você”.

Ela decerto apreciaria tamanha ousadia. Era uma mulher capaz disso. Desenharia no rosto um meio sorriso e ordenaria, que ela devia ser de ordenar:

“Siga o meu carrinho”.

Sairíamos do súper direto para o melhor motel da cidade. Só pararíamos de nos amar quando a noite chegasse. Então, cada um entraria no seu carro e voltaria para sua casa, para o seu casamento, para a sua vida comezinha, sem nem saber o nome um do outro, mas compartilhando um segredo, uma tarde especial. Uma tarde única para pessoas únicas.

Uma loucura dessas só seria possível com uma mulher que já não tivesse ilusões na vida. Com uma velha.

Ah, a vida é mesmo cheia de surpresas.

Parecia maluquice da minha parte, mas por que não? Por que não ser arrojado pelo menos uma vez na existência? O que eu tinha a perder? E, olha, a velha já havia notado que a observava. Nossos olhares meio que se cruzaram no balcão do salame italiano e quando peguei o queijo ralado.

Eu tinha que fazer aquilo. Tinha! No máximo, ouviria um não como resposta. E pronto. Nunca mais a veria, não correria riscos.

Só que duvido que ela me desse um não. Afinal, uma velha daquelas devia estar ansiosa por homem, sobretudo por um homem mais jovem. Além do mais, eu aqui, modestamente, não sou de se jogar fora. Tenho meus atributos, claro que tenho.

Decidi tentar.

Aumentei a velocidade do carrinho, fui me aproximando, me aproximando. Cada vez mais, cada vez mais. Ela dobrou a esquina de uma gôndola e sumiu no outro corredor. Um casal de gordos com dois carrinhos e um filho gordo sentado em cada carrinho atrapalhou minha evolução. Não conseguia passar, pedi licença. Os gordos enfim se afastaram, todos eles, e fui.

E fui e fui e fui.

Ela estava parada lá na outra ponta do corredor, examinando uma mercadoria qualquer. Não havia ninguém por perto. O ambiente tornara-se perfeito para a abordagem.

Fui.

Mas fui que fui, fui mesmo, com coragem. Com coragem!

Meu coração palpitava na garganta, estava nervoso, mas resolvido. Eu ia abordá-la. Ia realmente, meeen!!!

Estacionei meu carrinho ao lado do dela. Armei um sorrisão. Cheguei perto. Bem perto. Ela estava perfumada. Ah, velha, minha velha… Abri a boca para lhe fazer a proposta. Ela se virou. Encarou-me. Sorriu. Belo sorriso. Um sorriso de promessas. Enchi os pulmões de ar.

E então vi o produto que ela tinha nas mãos: um pacote de fraldas geriátricas.

Fraldas geriátricas!

Imaginei coisas horríveis. Coisas degradantes.

O sorriso dela continuava lá, impávido. Ela miou:

“Sim?”

Eu:

“Sabe onde tem saponáceo?”

Ela me deu a informação, um pouco desnorteada. Fui embora sem olhar para trás. A vida é mesmo cheia de surpresas.


Histórias muito curtas - A Bunda do Alceu

13 de maio de 2011 3

Uma manhã, o Alceu descia no elevador quando viu, pelo espelho da parede, que o vizinho do sétimo estava olhando para a sua bunda. Não havia dúvida, ele estava olhando mesmo. Era um olhar guloso, de quem queria aquela bunda. A bunda dele!

O vizinho não tinha como saber que Alceu o flagrara, o espelho ficava pendurado em cima da porta, num ângulo em que permitia a observação de quem se posicionava no lugar do Alceu e em nenhum outro ponto do elevador. Durante a lenta viagem até o térreo, portanto, Alceu pôde constatar como o outro admirava a sua bunda, uma admiração intensa, concentrada, quase apaixonada.

Alceu sentiu-se constrangido. Corou. Pensou em virar-se de frente para o outro e encará-lo, mas aí ele perceberia que tinha sido visto, e Alceu não queria que isso acontecesse. Afinal, já havia outras pessoas no elevador, inclusive a loira do quinto. Se ele se voltasse para encarar o vizinho do sétimo seria muito… homossexual… Não, Alceu não podia protestar. Mas sentia-se invadido por aquele olhar, sentia-se, sabe-se lá, violado.

O outro não parava de olhar. Olhava com vontade. Alceu pensou na própria bunda. Seria uma bunda feminina? Empinada? Até então, Alceu achava sua bunda normal. Uma bunda como todas as outras. Só que aquele olhar não era um olhar que se dedica a uma bunda normal. Teria Alceu engordado e sua bunda crescido? Estaria ele com um bundão? O que poderia significar isso? Será que outros homens cobiçavam sua bunda? E as mulheres?

Alceu estava perturbado. O elevador enfim chegou ao térreo, as pessoas começaram a se movimentar para sair. O vizinho do sétimo continuava olhando para sua bunda. Não parava de olhar. E, quando Alceu se moveu, o homem… suspirou. Ele suspirou de desejo pela bunda dele! Aquilo, a princípio, enfureceu Alceu. Por pouco ele não girou nos calcanhares, desferiu-lhe um tapa na cara e gritou:

_ Tarado!

Por pouco. Mas, depois, Alceu se conformou. Pensou: então minha bunda é bonita? Nunca havia pensado que uma parte do seu corpo podia ser desejada por outras pessoas. Uma bunda bonita, quem diria? Foi a vez de Alceu suspirar. Com o suspiro entre os dentes, saiu do elevador. E se foi pelo saguão do edifício. Rebolando.

Histórias muito curtas - 3

11 de maio de 2011 1

Eles trabalhavam na mesma emissora. Ela, começando como locutora. Ele, contato comercial. Ele já havia passado dos 40, estava separado pela segunda vez e a observava com gula todas as manhãs, quando ela chegava apressada, sempre em cima do horário. Ela era esguia e sinuosa, bebia muito café para espantar o sono das primeiras horas do dia, mal completara 20 anos e experimentava a monotonia do segundo ano do primeiro namoro.

Ele a olhava e ela o ignorava. Ele suspirava e ela nem via. Ele queria dizer-lhe algo, queria puxar conversa, queria ser interessante. Mas como??? Dizer o quê??? Ela decerto o acharia um velho ridículo. “Velho tarado”, seria assim que o definiria para as amigas, à noite, bebericando clericot em algum bar penumbroso, e todas ririam dele.

Mas ele precisava dizer algo para ela. Precisava! Não que tivesse esperança, não tinha. Ao menos para se fazer notar. Quem sabe por email? Sim, sim, era uma boa ideia. A palavra escrita era mais segura. Não havia o risco de notar o desprezo em seu olhar, ou de receber uma resposta fria na cara. Isso. A palavra escrita. Agora só havia um problema: escrever o quê?

Ele pensou durante dias. Chegou a sonhar com aquilo.

Quem sabe: “Tu és linda”? Só isso, simples assim.

Não… Todos os homens deviam dizer para ela que ela é linda, ela já estava cansada de receber esse elogio vazio.

Então: “Nunca vi mulher como tu”? Não… Seria agressivo demais, oferecido demais…

O que escrever-lhe? O quê, Cristo???

Tinha de ser um elogio, é claro. Até porque ele sentia uma necessidade premente de fazer-lhe elogios. Mas não podia ser pessoal demais. Afinal, eles mal conversavam. Nem podia ser algo sem lógica, tipo “belo dia, não?” Nada disso. Tinha que ser algo que tivesse a ver com ela, mas que não comportasse riscos de parecer uma cantada vulgar, uma abordagem pessoal.

Ele pensou, pensou, sentou-se em frente ao teclado, abriu o email, digitou o endereço dela e, por fim, sem raciocinar, quase que por instinto, tascou:

“Teu desempenho profissional é excelente”.

E enviou.

No exato instante em que a mensagem sumiu e voou pelas vias invisíveis da internet, ele se arrependeu. “Teu desempenho profissional é excelente”. Ridículo. Ridículo! Ele era uma besta. Que vergonha. Jesusmariajosé, que vergonha! E agora? Como a encararia? Já estava imaginando-a no bar, com as amigas, mostrando-lhes o seu email printado, a folha de papel passando de mão em mão, todas rindo às gargalhadas. RIDÍCULO!!! Suando, nervoso, saiu da sala para ir ao bebedouro. Tinha de tomar um copo d’água. Caminhava de cabeça baixa, quando ela surgiu no corredor. Linda, linda, com uma minissaia de jeans. Ele estacou, ficou vermelho, tinha vontade de sair correndo, mas decidiu tomar coragem e esperar pelo olhar de escárnio dela. Seja o que Deus quiser. Assim o sofrimento acaba de uma vez.

Ela se aproximou sorrindo (seria ironia?). Parou diante dele ainda sorrindo. E miou:

“Obrigada pelo elogio. Nunca ninguém tinha falado do meu trabalho”.

E se foi, ondulando, leve, leve…

Ele continuou paralisado, absorvendo o acontecimento. Agora, não mais desesperado. Agora, feliz. O sol voltou a brilhar em sua vida. O mundo era belo.

“Eu ainda estou latindo”, murmurou. “Ainda estou latindo…”

E se foi para o bebedor, dizendo para si mesmo: “Auuuu… auuuuu…”

Histórias muito curtas - 2

06 de maio de 2011 12

Sabe o que ela me disse? Sabe o que ela me disse???  “Os homens só querem sair comigo pra me levar pra cama…”

Ela me disse isso, cara. Acredita? Uma gostosa. Loira. Aquele cabelão. Magra. Pernas compridas. Fiquei olhando pra ela. Me deu uma irritação, mas uma irritação! Não devia dizer, eu sei. Mas disse: “Boneca…”. Bem assim que falei: “Boneca…” As mulheres não gostam de ser chamadas de boneca, mas eu chamei: “Boneca, e por que outra razão um homem ia querer sair contigo? Olha pra ti: tu é uma gostosa. Na verdade, tu é uma baita duma gostosa”.

Sei que as mulheres não gostam de ser chamadas de gostosas, mas aquilo foi saindo da minha boca, entende? Eu tinha de falar. Aí falei: “Tu é uma baita duma gostosa. Então, um homem só vai querer sair contigo pra te comer”.

Sei que as mulheres acham vulgar e chulo quando a gente diz “te comer”, mas eu disse. Estava irritado. Continuei: “Qualquer homem, qualquer um, só vai querer sair contigo pra te comer. Sabe por quê? Porque pra conversar nós temos os nossos amigos! Se eu for sair pra conversar, vou sair com meus faixas. Aí nós vamos falar de mulher, de futebol, da minha mulher, da mulher deles, vamos falar de coisas que você nunca vão compreender, entende? Não vamos ficar falando sobre sentimentos, sobre as dúvidas da existência, sobre tudo que está tão parado na minha vida, sobre traumas, sobre a amiga que se separou. Nós vamos contar piada, entende? Vamos beber e rir e dizer: ‘Que bunda tem a estagiária nova!’ É isso que nós vamos fazer! Então vou repetir: pra conversar, eu saio com meus amigos. Com mulher eu saio pra dar em cima dela. Entendeu???”

Ela não entendeu. Ficou uma fera. Algo tão óbvio, e ela não conseguiu entender. Viu só como a gente não pode ter diálogo com uma mulher?

Histórias muito curtas

03 de maio de 2011 3

Ela era uma serpente, e hoje usa coturno. Ela tem uns cabelos negros compridos e umas pernas longas muito tenras e uns seios que estão sempre palpitando. Aqueles seios ficam subindo e descendo no decote o tempo todo, acho que ela tem asma. É perturbador.

Um dia ela entrou na firma com uma capa de couro preta como seus cabelos. A capa estava abotoada até o vê do vale dos seios dela. Parecia que ela estava só com a capa e nada mais por baixo. Aquilo me desnorteou. Eu pensava que ela podia estar nua sob a capa e imaginava cometer loucuras com ela atrás do balcão da expedição. Nunca mais esqueci aquele dia da capa. Às vezes sonho com ela com aquela capa.

É assim que ela é.

Ou era.

Um dia ela pediu demissão porque ia se mudar para Santa Catarina. Arranjou um emprego por lá. Algum concurso público, acho. Encontrei-a uns quatro anos depois. Tinha voltado à cidade e fez concurso para a Brigada. Passou. Agora ela é capitão. É assim que eles chamam: capitão, não capitã. Ela usa coturno. Para mim é muito difícil isso. Não consigo me imaginar atrás do balcão da expedição com um capitão de coturno.

Por que as coisas têm que ser assim?

Como o mundo é…