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Posts na categoria "Lembreto"

A nudez indecisa de Jô

30 de outubro de 2010 1

Ó! Mais um capítulo de “Jô na estrada”!


Durante toda a vida, Jô pensara sobre esse assunto. Prostituição. Não que fosse algo que a obcecasse ou que minimamente a preocupasse, nada disso. Tratava-se apenas de uma fantasia recorrente.

Aquilo que Maia falara acerca do desejo animal dos homens, saber que podia ser capaz de despertar instintos tão básicos que um homem a possuiria sem sequer conhecê-la ou saber o seu nome, andar por um lugar seminua e ser avaliada pelos machos como uma escrava à venda, para ser tomada e usada de todas as formas, tudo era muito sensual, tudo era muito carnal, fazia com que se sentisse fêmea, mais até do que mulher. Quando alimentava essas fantasias secretas, repetia baixinho para si mesma:

— Queria ser uma cadela…Uma cadela…

Mas não passavam de fantasias. Jô nunca sequer cogitara de colocá-las em prática. E agora vinha Maia com ideias…

Depois, quando ficou mais madura, quando estava preparada para se soltar e voar, o fogo entre eles havia se extinguido, o sexo tornara-se protocolar. Jô se conformava. Concentrava-se nos filhos, na vida familiar, nas saídas com os amigos, nos exercícios na academia, no seu trabalho, nas suas leituras…

Será que Fábio transava com outras?
Será que frequentava prostitutas? Pagava para possuir mulheres como Maia? Jô tentava não pensar nisso, mas, quando a questão surgia em seu cérebro, convencia-se de que sim. Ele devia ir a boates escusas. Preferia não saber sobre sua vida sexual. Desde que ele tomasse cuidados, evidentemente.

E ela?…Bem, agora ela estava livre, pelo menos por enquanto, durante a sua aventura na estrada. Podia fazer o que quisesse, como quisesse, quando quisesse. Estava sozinha e livre. Mas aquilo que lhe propunha Maia…Talvez fosse demais. Porque certas fantasias se perdem, se são realizadas. Certas fantasias só são excitantes enquanto são fantasias. Se deixam de ser fantasias podem profanar quem as realiza. Jô não queria cruzar certos limites. Não.

Não.

Ou será que deveria? Será que não era seguro? Maia garantia que sim. Ela permaneceria incógnita, num lugar desconhecido, de máscara, o que era ainda mais excitante. Será que deveria?
Jô pensava, pensava… Olhou para a amiga deitada ao lado dela, na rede. Respirou fundo.

— Maia… — disse afinal, e a outra se empertigou com alguma dificuldade. — Eu não vou ficar dez dias aqui.

— Por que não? — protestou Maia.

— Calma — tocou no ombro da loira. — Tenho que seguir minha viagem. Vou fiar mais um tempo, depois vou adiante. Mas tem uma coisa: vou passar por São Paulo.

Maia sorriu:

— Vai me visitar?

— Vou.

— Promete?

— Prometo.

— Ai, que maravilha! Aí você vai lá comigo. No meu…trabalho, digo.

— Não sei. Neste caso, não prometo nada. Vou pensar, está bem?

— Mas você vai ficar lá em casa comigo pelo menos alguns dias.

— Isso eu vou.

— Ah, então já está bom.

Maia ergueu o torso e beijou-a no rosto.
Depois, aninhou-se contra seu corpo. Jô permitiu que ela se aconchegasse e, com o pé, impulsionou a rede de leve. Ficaram assim, quietas, em silêncio, embalando-se docemente, ouvindo o bramido do oceano, até que adormeceram.

Jô despertou com as primeiras luzes da manhã. Maia dormira com a cabeça recostada em seu peito, como ela, Jô, às vezes fazia com o marido Fábio. Afastou a cabeça loira da amiga com gentileza, cuidando para não acordá-la. Levantou-se da rede. Espreguiçou-se. Caminhou até a parte da frente da casa.


O mar imenso abria-se diante dela. Jô inalou o ar marinho com vontade. Levantou o queixo para o céu. Olhou para o sol que nascia no horizonte. Pôs os pés descalços na areia. Caminhou alguns metros em direção ao mar que quebrava na areia. A manhã estava quente fresca o mesmo tempo.

Então, fez algo que há muito tempo queria fazer, algo com que sonhava desde a adolescência. Tirou toda a roupa e entrou nua no oceano Atlântico. Pulou uma onda, outra e atirou-se n’água, enfim. Nadou gostosamente. Sentia-se feliz, feliz… Era livre como um bicho. Com um ser humano deve ser.

Nadava e boiava, sentia os raios do sol e a água acariciando seu corpo nu, e assim permaneceu durante algum tempo. Quanto, não se sabe. Meia hora, talvez? Uma? Quando decidiu sair do mar, a surpresa. Havia um homem parado na praia, de pé, próximo às suas roupas. O homem a observava, era evidente. Quanto tempo devia estar ali? Jô ficou parada, de pé na areia, a nudez coberta pelo mar, indecisa.


Proibido para menores

29 de outubro de 2010 19

Sempre sonhei em escrever um livro que fosse “não recomendado” para quem tem menos de 18 anos.

É o caso de “Jô na Estrada”, que tem essa advertência.

Veja algumas das ilustrações do Fraga e compreenda o porquê.


Bate-Bola (24/10)

26 de outubro de 2010 4

Quer dar mais uma conferida nos bastidores do Gre-Nal de domingo?

É só clicar na imagem abaixo para ver o Bate-Bola:

Gremistas, não há motivos para desânimo

25 de outubro de 2010 19

Depois do 2 a 2 do Gre-Nal, o sentimento no vestiário gremista era de derrota. Mas não há motivos para tanto.

Clique aí abaixo e veja por que não esmorecer. Aliás, em breve o Bate-Bola na íntegra!

Bate-Bola (17/10)

18 de outubro de 2010 1

Pessoal, abaixo a íntegra do Bate-Bola de domingo, na TVCOM.

É só clicar na imagem:

Até onde pode chegar a superstição

28 de setembro de 2010 4

O Guilherme Almeida, de Porto Alegre, pediu que eu publicasse os contos do livro “O Mundo é uma Bola“, uma reunião de cronistas que a Editora Ática fez tempos atrás.

Esse seu criado assina o livro junto com Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Luis Fernando Veríssimo, Millôr Fernandes, Paulo mendes Campos, Rachel de Queiroz, Rubem braga, Stanislaw Ponte Preta, Moacyr Scliar, José Roberto Torero e Lourenço Diaféria. Estou em boa companhia ou não estou???

Os meus contos são:

Cueca lilás. Carpins Pretos
A rua de tendinha
Era tudo bagaceirada

Abaixo, o primeiro. Em breve, os demais:
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Cueca Lilás. Carpins Pretos

Débora era o nome dela. Débora. Pronunciávamos num suspiro: “Déboraah…”, com reticências no fim. Você sabe como são as mulheres com nomes proparoxítonas. Você sabe. Nomes proparoxítonos, vogais explosivas, só podia dar no que deu: uma mulher serpente, com curvas e aclives de pista de rali. E ruiva, ainda por cima. Déboraah… Pensei nela por causa do Antônio Lopes.

Você vai achar estranho eu pensando na Débora por causa do Antônio Lopes. Bem, é que, na verdade, não foi exatamente na Débora que pensei em primeiro lugar. Não. Foi no Odone Carpim. Pois lá estava o Antônio Lopes, no Japão, com sua camisa da sorte, suas calças da sorte, seu sapato da sorte. Então lembrei do Odone Carpim. Justamente devido a isso de roupa da sorte.

Está certo, é comum no futebol essa história de roupa da sorte. O Foguinho tinha uma. Um colete. Torcedores e jogadores acreditavam que, quando o Foguinho usava seu colete, o Grêmio não perdia. Acontece que o colete era de lã, quente, e Foguinho tinha de usá-lo mesmo no verão. Uma vez, o Grêmio ia jogar no Interior, o ônibus da delegação já deixara a cidade, quando Foguinho, remexendo na mala, comentou, distraído:

– Esqueci meu colete…

Num repente, todo o bulício dos jogadores, as risadas, os gritos, os jogos de cachetinha, tudo cessou. As respirações ficaram em suspenso. O silêncio se tornou tão pesado que ameaçou estourar os pneus do ônibus. Os olhares se voltaram para o técnico. Esqueceu? Meia-volta. Todos à casa de Foguinho, atrás do colete.

Times vencedores cultivam superstições. O Inter de 75. Os jogadores entravam e saíam do ônibus sempre na mesma ordem, sentavam nos mesmos lugares. E havia o perfume. O massagista Moura borrifava as camisetas com um perfume odor alfazema que dizia ser mágico. O time entrava em campo todo cheiroso, intrigando os adversários.

Um amigo meu, o Jorge Barnabé, acreditava ardentemente que o Grêmio só vencia se ele fosse ao jogo com uma certa cueca lilás. Empenhado na conquista do campeonato, ele não perdia uma partida. O pessoal se encontrava com ele na arquibancada e nem dava boa-tarde:

- Tá com a cueca? Tá com a cueca?

E ele, sorridente, puxava uma ponta de pano lilás do lado das calças e mostrava:

– Oh! – todos suspiravam de alívio.

O brabo é que a cueca essa era daquelas “cuecas machão”, lembra? Um tecido furadinho, quadriculado, baratíssimo, vinham várias delas dentro de um cilindro plástico vendido a parcos centavos. Chegava uma hora que as tais cuecas começavam a pinicar a pele do usuário. Aí, o Jorge ficava inquieto na arquibancada, sentado de lado, levantando, incomodando a torcida ao redor.

Aquelas cuecas se gastavam rapidamente. Certa feita, a mãe do Jorge, vendo o estado lamentável da cueca lilás dele, atirou-a no lixo. No dia do jogo o Jorge procurou a cueca e não a encontrou. Revirou as gavetas, o cesto de roupa suja. Nada. Pressentindo a tragédia, correu para a cozinha:

– Mãe! – berrava. – Cadê a minha cueca lilás?

Agora você sabe por que o Grêmio perdeu tantos campeonatos na década de 70.

Mas a história que interessa é a do Odone Carpim. Como você é esperto, já adivinhou que a roupa da sorte do Odone Carpim era, exatamente, um par de carpins. Pretos. Comuns. Meia canela. Em outras rodas consagradas como “peúga”.

Olha, o Odone não venceria nenhum concurso de mister elegância com seus carpins, mas parecia ter sorte mesmo. No futebol, a bola batia na canela dele e entrava. Sorteio, ganhava todos. Vivia achando dinheiro na rua. A todas essas, repetia: é o carpim, é o carpim.

Odone usava os carpins quase todos os dias. Resultado: os carpins começaram a gastar. Ficaram puídos, desbotados. Até que chegou um tempo em que ele foi deixando de usá-los. Não sem se lamentar pungentemente:

– Sou um comum sem o carpim. Um comum.

O curioso é que a sua sorte realmente mudava. As coisas não davam mais tão certo para ele. Talvez porque sua confiança diminuísse sem os carpins. Foi então que surgiu Débora. A Débora proparoxítona. Todos nos apaixonamos pela Débora. Todos a assediávamos. Ela nem bola.

Uma tarde, a Débora estava perto do campinho do IAPI com três amigas. Nós cochichávamos a alguns passos. Sobre ela, claro. “Como é exibida, nem olha pra gente”. Então, o Odone bradou:

– Vou dar um jeito nisso.

E saiu correndo. Foi em casa. Voltou de bermudas.

E carpins. Os velhos carpins da sorte. Veio gingando, sorrindo, em nossa direção. Subitamente, desviou para o lado das meninas. Óbvio: ia apresentar os carpins para a Débora. Tensão. Daria certo? Débora se apaixonaria pelo Odone por causa dos malditos carpins? Odone chegou perto dela. Bem perto. A roda das meninas também silenciou. Aí, ele se abaixou, ajeitou os carpins demoradamente, chamando a atenção para eles. Todos, inclusive a Débora, olhamos para os carpins. Ele olhou para trás, para nós. Sorria maliciosamente. Sorrindo ainda, olhou para cima. Para Débora. Ergueu-se. Ficou diante dela, sorrindo. Então deu-se o inacreditável. Débora sorriu para ele. Era a primeira vez que sorria para alguém da turma. Dissemos: “Oooh”. O Odone olhou para trás, vitorioso. E Débora, incrível!, falou com ele. Disse assim:

- Tu que és o Odone Carpim?

Ele, orgulhoso:

– Eu mesmo.

Ela, ainda sorrindo, mas desta vez olhando para as outras meninas:

– Vocês têm razão: é um nojo.

Ao que deu as costas para Odone e foi embora.

Moral da história: superstição só funciona no futebol.

Bate-Bola (26/09)

27 de setembro de 2010 1

No domingo, a rodada foi movimentada, a Dupla ganhou bem.

Não faltou, pois, assunto no Bate-Bola, da TVCOM.

Confira aí a integra do programa:

O lado bom do chavismo

24 de setembro de 2010 1

Eis o terceiro artigo de Yelitza Linares, a jornalista venezuelana que tem nos contado a situação de seu país. Agora ela fala sobre um projeto bem-sucedido de Chavez, o chamado “Barrio Adentro”.


O filho de Jorge somará nove anos quinta-feira, mas soprará as velas sem o pai, que há quatro meses trabalha na Venezuela enquanto a família vive em Cuba.

Posso escutar o relato de sua existência partida em dois porque a conversa vaza sobre os cubículos do ultrassom da Sala de Rehabilitación Integral de Guaracarumbo, onde trabalha.

– Tenho outro filho de 17 anos – conta a uma paciente. – Crescem longe, mas estão bem, beeem – repete, arrastando as vogais na cadência do sotaque antilhano. – Aqui tenho outra família, a dos amigos – conclui.

Jorge é um dos oito cubanos que atendem neste serviço. Só uma servidora é venezuelana, o que costuma ocorrer.  Seus compatriotas seguem predominando os centros de atenção primária e intermediária da Misión Barrio Adentro, que o governo de Hugo Chávez instalou em 2003 nos bairros pobres e de classe média baixa. São 7,8 mil, segundo cifras do Ministério da Saúde.

Em que pese as críticas, reforçadas pelo próprio presidente, sobre a baixa eficiência da Misión, este é um dos programas que explica o majoritário respaldo popular de Chávez. Especialmente, este do Barrio Adentro II funciona aparentemente bem. Só no Estado de Vargas, há sete serviços de reabilitação. No de Guaracarumbo, oferecem assistência gratuita de hidroterapia, ultrassom, ginástica, massagem, camas magnéticas e até terapia em fonoaudiologia.

No local ao lado, opera um CDI, como se chamam os centros que também pertencem a esta rede, e que contam com modernos e caros equipamentos de diagnóstico.

Os pacientes, em média cem por dia, vêm da localidade de Urimare, região de classe média baixa do estado costeiro de Vargas, que, como a maioria das populações beneficiadas, carecia deste tipo de atenção.

Mulheres e homens, quase todos adultos da terceira idade, vão chegando ao centro em cadeiras de rodas, com muletas, apoiados em bengalas ou nas doloridas pernas; entregam o prontuário médico, cumprimentam e são correspondidos com carinho.

– Olá, meu amor. Tanto tempo. Chico, por que estavas sumido? – pergunta Maribel, coordenadora do centro, há quatro anos na Venezuela. Ernesto Medina recebe seu beijo na bochecha.

Apesar das dores pessoais, sorriem e brincam entre eles. Alguém traz doce para os “doutores”, como os chamam, ainda que a maioria não seja.

Jorge diz a seu paciente que é fisioterapeuta. Mas os colegas venezuelanos desconfiam disso.

– Em Cuba, não existe a carreira de Fisioterapia. Eles não estão preparados para aplicar estes tratamentos – afirma Jaime Noguera, professor universitário e ex-presidente da Federação Venezuelana de Fisioterapia.

Como prova, sugere uma visita aos sites da Confederação Mundial de Fisioterapia Física, na qual Cuba não está filiada, e não conta sequer com estudos nesta especialidade.

Assegura Nogueira que os cubanos das salas de reabilitação são professores de Educação Física ou licenciados em ciências desportivas. No serviço de Guaracarumbo, os pacientes não se preocupam com isto.

- Este médico me salvou de me amputarem outro dedo do pé – explica Ernesto, militar reformado da Marinha de Guerra que padece de diabetes e trata uma gangrena na perna esquerda.

Ali ninguém fala de política, salvo uma mulher que, enquanto espera para ser atendida, conversa por celular em voz alta sobre a “Ube” (Unidad de Batalla Electoral) que comanda para promover o voto a favor do chavismo.

E Luisa Elena, sentada mais adiante, confessa aos sussurros que votará no próximo domingo em candidatos a deputado pela oposição, mas que nem por isto deixa de reconhecer e aproveitar os benefícios do serviço.

– Chávez disse que isto é de todos, não?

É por esta razão que até a Mesa de la Unidad , que reúne os partidos contrários ao presidente, promete a continuidade dos programas sociais, com melhoras substanciais. Onze anos depois, o governo não logrou articular uma rede de saúde. Mas não cumpriu a promessa de substituir os cubanos por médicos venezuelanos. Em 2004, chegou a haver na Venezuela 14 mil profissionais deste país antilhano. Hoje, segundo o mais recente informe de gestão do governo, restam 8,5 mil, ainda que sigam ocupando a maioria dos cargos nestes serviços de reabilitação.

Especialistas afirmam que, neste tipo de serviço médico, a excessiva rotação de pessoal (feita para evitar que os cubanos se fixem nas comunidades) atenta contra a continuidade dos tratamentos.

Mas o grave é que no país estão se graduando 240 fisioterapeutas a cada ano, em quatro escolas, e a maioria está sem emprego.

– Você vai dizer – se pergunta Felipe, um dos pacientes na sala de Guaracarumbo – que este trabalho não pode ser feito por um venezuelano?

O que acontece na maldita primavera

23 de setembro de 2010 6

O pessoal do site pediu um texto sobre a Primavera. Aí vai um recauchutado e um que, se não é bem sobre a Primavera, é sobre o pólen e sobre as abelhas, que, afinal, são a Primavera.

O que acontece na primavera

O problema com a primavera é essa história das anteras. Das flores, bem entendido. As anteras das flores começam a liberar o pólen, e o pólen voa, transportado pela brisa desses dias amenos, e fica por aí, flutuando na atmosfera, e as mulheres respiram esse ar contagiado por bilhões de partículas mínimas de pólen, e o que acontece com elas?

Ficam com vontade de dançar.

Dançar, cara! Francamente. E não é que eu odeie dança. Uma vez fui para Porto Seguro e vi aqueles baianos dançando. Nossa. Tocava um axé, eles puxavam as turistinhas pela mão e saíam ondulando com elas, trançando pernas, quebrando quadris.

As mulheres todas se embeveciam com os baianos, entregavam-se a eles, passavam a noite com eles, suspiravam por eles. Só por causa da dança!

Foi por isso que o Professor Juninho fez curso de tango em Buenos Aires. Foi lá e aprendeu a dançar tango mais ou menos. Agora, pega uma mulher, dá uma rodopiada com ela e ela:

– Oh, ele dança tango…

Pronto: um a zero para o Professor Juninho. Então, até admiro quem dança. Inclusive danço, vez em quando, só que daquele jeito, né. Meio duro, e talicoisa.

Meus amigos dizem que danço sempre igual: samba, frevo, rock, bolero, valsa, chachachá, tuíste, tudo com o mínimo de movimentos, só os bracinhos balançando, cotovelo direito para frente, cotovelo esquerdo para trás, cotovelo direito para frente, cotovelo esquerdo para trás. Não posso ser acusado de dançar conforme a música.

Mas não é verdade. Juro. Toca um Bi Dis aí e vai ver que eu desempenho. Só que, admito, sem a naturalidade dos baianinhos. Não tenho desenvoltura, manja? Eles lá serpenteiam com facilidade, como se fosse muito simples, como se fosse caminhar para frente. É dom. É de nascença. Eu nasci para outras coisas, como ser campeão de jogo da velha.

Por isso, não me meto a travoltear pelas pistas da metrópole. Não é comigo. Donde, minha revolta com o pólen, que se infiltra nas narinas das mulheres e lhes altera a densidade da alma e lhes faz sentir uma vontade irreprimível de dançar. Maldito pólen. Maldita primavera.

Respondendo sobre Fátima

22 de setembro de 2010 1

Mais uma questão dos leitorinhos:

Rafael diz:
David, fala a verdade: você é tão egocêntrico a ponto de inventar uma “mentirinha” para se autopromover ou a Fátima Bernardes, em meio a toda a atribulação da Copa, a todo o trabalho do JN, realmente teve tempo de acessar a internet para navegar em “blogs locais” e ler o que você escreve?

Resposta:
Pergunta ingênua, Rafael. Mas é uma ingenuidade desculpável para quem não conhece a realidade da comunicação.

Uma “mentirinha” dessas não seria uma mentirinha, seria caso de demissão sumária. E seria estúpida, por ser facilmente desmascarada – bastaria que alguém mostrasse o texto a Fátima, e alguém mostraria, alguém sempre mostra.

Por fim, a pergunta também é ingênua por achar que a Fátima Bernardes ou qualquer colega da Globo estão em um pedestal tão elevado que não leem nada além do que eles próprios produzem.

A Fátima Bernardes, em especial, é muito simpática e acessível. Conheço-a desde a Copa de 2002 e sempre a vi ser atenciosa e gentil com qualquer um que dela se aproximasse. Quem algum dia teve contato com ela sabe que aquela história da discussão com Dunga só poderia ser ficção mal-intencionada. Como foi.

Respondendo aos leitorinhos

21 de setembro de 2010 30

Como primeira resposta para a entrevista com os leitorinhos, escolhi quatro perguntas que são basicamente a mesma pergunta. Um clássico. A seguir, os questionamentos:

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Matheus:

Não poderia perder esta oportunidade, David…, você se acha um ser superior? E o Betão, David, tem chance de vir a ser um ser superior??? E a classica, você é colorado, David?

-
Fábio C. Rodrigues:

David, te incomoda o fato dos colorados ficarem pegando no teu pé por entenderem que és gremista? Também sou colorado, imagino que sejas gremista, porém respeito tuas opiniões, assim como as do Cacalo, Sant’Ana e todos os outros gremistas. Grande Abraço!

-
Thiago Carvalho:

David, por que você não assume que é gremista? Olha que até o teu amigo Paulo Sant’Ana está cobrando.

-
Fabrício Marques:

Bom Dia, David!! Queria saber se o motivo que leva você a não declarar o seu time de coração (mesmo que tudo mundo já saiba, na minha opinião já é um fato folclórico) é para não comprometer e causar mal estar ao meio de comunicação do qual você é editor executivo?

-

Resposta:

As pessoas presumem que qualquer um que tenha nascido no Rio Grande do Sul seja gremista ou colorado.

É uma presunção correta, sobretudo quando se refere a alguém ligado ao futebol.

Logo, todos os editores, repórteres, comentaristas e colunistas são uma coisa ou outra. Gremistas ou colorados.

Se todos são uma coisa ou outra, qual é a razão da aflição dos leitores-ouvintes-telespectadores-internautas para saber o time pelo qual os jornalistas torcem ou para o qual um dia torceram? Um é colorado; poderia ser gremista. Outro é gremista; poderia ser colorado. E daí? Que diferença faz?

A angústia de um leitor para obter uma informação que em absoluto não lhe diz respeito só pode ser para julgar o que o jornalista diz ou escreve a partir dessa informação.

Ora, não vou alimentar essa doença. Quero que as pessoas analisem o que digo ou escrevo pelo que digo ou escrevo, não pelo que elas acham que sou.

Você tem CERTEZA de que sou gremista? Então por que quer que eu DIGA que sou? Se disser que sou colorado vai mudar a sua opinião?

Claro que não.

Então, esse é um problema seu, não meu.

Não tenho que dizer que sou isso ou aquilo. Não tenho de fazer profissão de fé alguma. Tenho é de ser honesto: o que digo é o que penso, é a minha opinião, estou sendo sincero, não tenho segundas intenções.

Já a função de editor é completamente diferente da de colunista e comentarista. É uma função técnica. Um jornal como Zero Hora tem dezenas de formas de controlar desvios de cor clubística ou política ou de outros que tais. Passamos o dia discutindo isso, passamos o dia ouvindo críticas e ponderações de um lado e outro. Passamos o dia em debate éticos. Não existem decisões isoladas nem solitárias. É um processo amplo e exaustivo. Há muito mais em jogo, numa empresa de comunicação, do que a paixão mundana. É pueril alguém achar que uma empresa como a RBS se comprometeria com um clube de futebol por mera preferência clubística.

Mas o importante nem é isso. O importante é o que as pessoas fazem com sua paixão. Alimento certo desprezo por quem insulta ou desmerece os outros por causa de futebol. Há quem passe a maior parte do seu dia pensando no Grêmio ou no Inter, gastando o seu dinheiro ou seu tempo nisso. Nunca fiz nada parecido. Nunca viajei atrás de time. Nunca me associei a clube algum. Mas aceito as excentricidades e obsessões do próximo. Só não posso compreender quem desrespeita as outras pessoas por conta de um clube ou de um jogo. Aí não passa de pobreza de espírito. Há muitos gremistas e colorados pobres de espírito. Mas, tenho certeza, há muitos mais que não são.

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Mais do que um título

20 de setembro de 2010 81

Títulos o Grêmio os têm à mancheia. No memorial do Olímpico, carinhosamente montado pela Dona Ema, existem centenas de taças rebrilhantes de glórias.

Mas títulos todos os grandes clubes têm. Taças, faixas e vitórias são conquistadas todos os anos. Todos os anos algum time será campeão gaúcho, campeão da Copa do Brasil, campeão brasileiro, sul-americano, da Libertadores, da Recopa, do Mundial, cada vez há mais títulos em disputa e, obviamente, mais campeões.

Raros são os dias, no entanto, em que um clube começa a construir um estádio novo.

O Grêmio inaugura hoje as obras da sua Arena.

É um momento único.

É de se comemorar.

Foi o que disse na abertura do Bate Bola do último domingo. Confira:

Quando a mulher tem de ser feia

14 de setembro de 2010 26

Imagine você pedir para uma mulher enfear.

- Embagulhe, querida.

Foi o que fez aquele psicólogo chileno, dias atrás. Pediu para as mulheres dos mineiros que estão confinados 700 metros abaixo da superfície para que fiquem feias quando forem falar com eles por vídeo.

Sábio conselho.

Porque, se um homem não pode ter a mulher que quer, pelo menos que ela embagulhe, que engorde 12 quilos, que escronche!

Nada pior do que você se separar da sua mulher e reencontrá-la depois de algum tempo linda, cheirosa, magra e de minissaia.

Aconteceu com um amigo meu.

Ele havia se separado e estávamos todos, eu, ele e mais uns três ou quatro amigos, sentados à mesa do bar, os copos de chopes cremosos suando, os bolinhos de bacalhau fumegando. Ele, o separado, ele ria e contava casos, ele olhava para as pernas de louça das moças que passavam e suspirava:

- Ah, a vida…

Até que um outro amigo chegou, egresso do bar ao lado. Nem puxou a cadeira e contou:

- Cara, a tua mulher está ali no outro bar. Ela está sentada com dois homens e está sem óculos.

Meu amigo se ouriçou:

- Sem óculos???

- Sem óculos.

- Vou lá!

Tentamos contê-lo. Não vai, deixa a mulher em paz, ex é ex… Em vão. Ele se levantou e foi. Demorou uns cinco minutos, mas pareciam ter passado 10 anos. Voltou alquebrado, cansado, encurvado. Sentou-se em silêncio e só depois de algum tempo é que contou:

- Ela está magra, de minissaia… e sem óculos.

Repetiu:

- Sem óculos…

E passou o resto da noite alheio às nossas conversas, só balbuciando:

- Sem óculos…

Aquilo significava algo para ele. A falta dos óculos. Talvez uma derrota: na gestão dele, com óculos; depois dele, sem óculos. O fato é que ela havia esperado a separação para tirar os óculos. Uma traição, sem dúvida.

Por isso está certo o psicólogo. Uma mulher bonita e intocável é cruel. Um mulher bonita e intocável só faz o homem sofrer.

Bate-Bola (12/09)

13 de setembro de 2010 5

Pessoal, segue a íntegra do Bate-Bola, deste domingo. Além dos comentários da rodada, Ilan, do Inter, e Vilson, do Grêmio, marcaram presença no programa.

Ó:

Velha Zona Norte

10 de setembro de 2010 5

Vejam só essa foto da Assis Brasil há muito, muito, muuuuito tempo, idos de 1959.

(Foto: acervo Henrique Boldrini)

Ao fundo, no horizonte, vê-se a Igreja Cristo Redentor. A primeira transversal é a Rua Itapeva. O canteirão do centro transformou-se em corredor de ônibus. E os carros, onde estariam rodando os carros? No futuro conflagrado.

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